Brilho da vida



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Encontro29.07.2016
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CAPÍTULO SEIS

Quando Antônio entrou, Sophie estava no sétimo sono. Encolhida como um novelo, parecia muito jo­vem, incrivelmente bonita e assustadoramente vulne­rável.

Ela era sua esposa. Foi um momento perturbador. Ela agora era Sophie Cunningham da Rocha, a mar­quesa de Salazar. Reconhecia ter motivos para quei­xas. Não estava acostumado a reconhecer seus erros. Mas tinha censurado seu comportamento como espo­sa sem admitir os direitos que tinha de ser tratada como esposa.

Um ligeiro movimento no berço chamou-lhe a atenção. Encontrou os olhos grandes e esperançosos de Lydia. O bebê abriu-lhe um sorriso de boas-vin­das. Sem palavras, Lydia demonstrava querer sair e esperar que ele lhe oferecesse os meios de escapar. Ela deixou escapar um grito de decepção quando ele virou-se para a porta.

— Se eu tirar você daí, não vou saber o que fazer com você — esclareceu para se defender.

Os olhos chorosos mantinham-se presos a ele.

— É claro que posso aprender, mas aos poucos — murmurou baixinho, esperando fazê-la voltar a dor­mir. Deu outro passo afastando-se do berço.

Os olhos castanhos umedeceram e a boca tremeu. Diante da ameaça de lágrimas, Antônio ficou ten­so. Olhou para Sophie, que dormia profundamente.

Respirando fundo e fazendo uso da legendária habili­dade em lidar com o inesperado, aproximou-se para tirá-la do berço. Ela sorriu abertamente para ele.

— Você sabe como conseguir o que quer. Mas o sucesso nem sempre é seguido da recompensa espe­rada. Vamos ver o noticiário juntos.

Sophie só acordou quando o ombro foi sacudido gentilmente. Abrindo os olhos, lentamente concen­trou-se no rosto bonito de Antônio, e a boca ficou seca. Por mais que tentasse, não podia deixar de sen­tir-se atraída.

— Você quer se levantar? — perguntou baixinho. — Vamos aterrissar em quinze minutos. Dormiu bem?

— Desmaiei; nem me lembro de ter encostado a cabeça — confidenciou, olhando para o relógio. — Estou surpresa por Lydia ter me deixado dormir tanto tempo!

— Eu a entretive.

Antes que pudesse fazer qualquer comentário a respeito da surpreendente informação, ele tinha saí­do. Dez minutos depois, encontrou-o na cabine prin­cipal. Lydia cochilava placidamente.

— Como conseguiu lidar com ela?

— Consuela, uma das comissárias, é mãe. Me prestou alguma assistência quando Lydia precisou beber algo — admitiu. — Mas Lydia se comportou bem, e foi fácil distraí-la.

— Obrigada por me deixar dormir. — Sophie estu­dou as mãos cruzadas e limpou a garganta. — Devo-lhe um pedido de desculpas pela forma como perdi o controle.

— Você não me deve nada. As reclamações ti­nham fundamento. Lamento ter dificultado seu dia. Devo confessar que estava alimentando um certo res­sentimento por ter que lidar com a situação.

Sophie tocou-lhe a mão num gesto instintivo de compreensão.

— Não precisa se desculpar por ser humano. Deve ter sido difícil para alguém como você lidar com um irmão como Pablo. Depois, ter que assumir a respon­sabilidade de Lydia na barganha, bem, obviamente, deixou você de saco cheio.

Esse súbito rasgo de generosidade foi o suficiente para Antônio abandonar a reserva sobre os próprios sentimentos. A expressão de arrependimento, a ho­nesta admissão do erro e a explicação que julgava de­vida, custou-lhe muito. Sua compaixão inesperada corroeu seu forte orgulho como ácido.

— Você compreendeu mal minhas intenções — respondeu frio. — Nunca, desde que soube da exis­tência de minha sobrinha, quis que outra pessoa cui­dasse dela. Não há pessoa mais adequada do que eu para assumir essa tarefa e nunca tentaria evitar a res­ponsabilidade. Não espero que compreenda isso, mas a lealdade à minha família fala tão alto quanto minha honra.

Sophie ficou ruborizada e depois pálida. Por mais que tentasse, sempre parecia fazer ou dizer a coisa er­rada a Antônio. Ele a devia achar muito vulgar e sim­plória para compreender a sensibilidade

— Que coisa odiosa de se dizer — disse com sar­casmo, pois mais uma vez ele a magoara. — Fui tão leal a Belinda quanto você à sua preciosa família!

Uma hora mais tarde estava sentada na luxuosa limusine atravessando o campo da Andaluzia. Até en­tão, tinha ignorado solenemente Antônio, cortando-lhe as tentativas de conversa.

Quando ele tentou contar um pouco a história da Espanha, foi sarcástica.

— Poupe-se do trabalho. Compre um livro para mim!

Quando a estrada alcançou plantações de oliveira, informou que já estavam na propriedade da família. Depois do que pareceu um tempo sem fim, as olivei­ras deram lugar a pomares de laranjas e a um vilarejo pitoresco branco estendendo-se pelas colinas. Os ha­bitantes espiavam das casas e paravam na rua estreita e sinuosa para olhar a limusine e cumprimentá-los.

— Ainda estamos na propriedade da família? — Uma curiosidade desenfreada forçou-a a abandonar o silêncio enquanto a limusine atravessava uma estrada encoberta por sempre-vivas.

Si. Meu tataravô plantou esses carvalhos — contou Antônio orgulhoso.

— É como o conto de fadas do Gato de Botas — disse sem querer, e quando Antônio olhou-a com ar de incompreensão, acrescentou: — O Gato de Botas queria impressionar o rei dando-lhe a idéia de que seu dono era imensamente importante e rico. Então, fin­giu que toda a terra por onde passavam pertencia a esse personagem a quem deu o nome de Marquês de Carabás.

— O marquês de Carabás — repetiu Antônio dei­xando transparecer uma leve satisfação.

— É claro que esse marquês faz parte dos contos de fadas, e era imaginário enquanto você é real. Mas tudo isso me parece irreal...

Havia um motivo para ficar silenciosa. A limusine virou numa curva, e através das árvores ela avistou uma construção antiga de pedras. Adornada com tan­tas torres como um palácio de conto de fadas, cercada de vegetação exuberante. Era indescritivelmente bo­nito, e ficou imediatamente encantada.

— O que você acha?

Sophie disfarçou e deu de ombros com casualidade controlada, sem demonstrar a verdadeira impressão.

— É muito grande... Não vamos esbarrar com você a cada cinco minutos, certo?

— É pouco provável. Talvez, devesse ter mencio­nado antes que uma enfermeira foi contratada para ajudá-la a cuidar de Lydia — adiantou Antônio cau­teloso.

— Desde que eu goste da enfermeira, não tem pro­blema. — Sophie estava agradecida por contar com um par extra de mãos. Muitas vezes fora forçada a contar com a bondade de Norah. Uma enfermeira se­ria um verdadeiro luxo.

A limusine parou num pátio imenso ornamentado com palmeiras em vasos enormes. A luz suave da tar­de iluminava as abóbodas de pedras e colunas que formavam uma arcada de três lados. Pingos de água caíam de uma fonte localizada perto das maciças por­tas de madeira abertas que deixavam ver um piso en­cerado como um espelho.

Lydia pendurada no quadril, Sophie atravessou a soleira e congelou diante da visão de fileiras de pes­soas ocupando a gigantesca entrada do hall.

Com firmeza, Antônio colocou-lhe a mão no coto­velo e conduziu-a para cumprimentar uma senhora pequenina e elegante que parecia ter sido talhada em granito.

— Minha avó, Dona Ernesta... Sophie.



Dona Ernesta acenou a cabeça como uma realeza, e disse que era um enorme prazer dar as boas-vindas ao neto, à mulher e à bisneta. Sophie não ficou desa­pontada. Sabia que era tão bem-vinda em seu novo papel de esposa de Antônio como a bruxa má. A aten­ção foi rapidamente desviada para Lydia, saudada com afeto sincero, o que quase alterou a aparência de granito da bisavó. Uma jovem e sorridente enfermei­ra foi apresentada, e Lydia recebeu uma recepção en­tusiasmada.

— Venha e conheça o resto dos empregados — apressou-a, ignorando-lhe o medo ao registrar o imenso número de pessoas que se encaixava nessa categoria.

Todos que trabalhavam no castillo esperavam para cumprimentá-la. Antônio fez as apresentações com a segurança que parecia acompanhá-lo em todos os gestos, e ela apreciou-lhe a ajuda.

Depois, ele deu-lhe a mão e subiram a escadaria de pedra.

— Você deve estar morta de fome — murmurou.

— Estou... Devia ter comido quando tive a chance — suspirou Sophie, a atenção voltada para as paredes de pedra e os arcos góticos ao redor. Era um castelo de verdade, um castelo 100% medieval; estava fasci­nada.

— Na esperança de que me perdoe, mandei prepa­rar uma refeição a ser servida em sua suíte. Quero que seja feliz no castillo.

— Sua avó não vai concordar com você.

— É uma pena que não a tenha conhecido no casa­mento de sua irmã, querida. Jamais será indelicada, e se acostumará rapidamente com nosso casamento.

Sophie não estava tão confiante.

— Por falar nisso, devo avisá-la que não contei a ninguém sobre nosso acordo nupcial. Segredos com­partilhados começam a se espalhar, e o que era parti­cular...

— Você quer dizer que Dona Ernesta acredita que nós estamos... realmente casados? Você precisa con­tar-lhe a verdade!

— Só ia complicar a situação. Conheço bem mi­nha família. Para todos os efeitos, é mais prudente fingirmos ter um casamento normal, pelo menos por enquanto.

Sophie discordava, mas se tocou. Era óbvio que Dona Ernesta estava fula de raiva e decepção ao ver o neto entregar o título, a fortuna e o gigantesco cas­telo a uma morta de fome inglesa. Não a culpava. An­tônio equivalia a um príncipe, e um príncipe merecia uma princesa.

No andar de cima, Antônio conduziu-a a uma enorme, e lindamente mobiliada, sala de estar que le­vava a um imenso quarto que, por sua vez, tinha um banheiro fabuloso e uma sala de vestir anexa.

— Tudo isso só para mim?

— O jantar será servido aqui em quarenta minutos.

— Aqui...? — Ficou aliviada. Tivera medo de ter que comer numa sala de jantar sofisticada, além de não ter nada apropriado para vestir.

Si. — Organizei uma refeição informal com seus pratos preferidos...

— Mas você não sabe do que gosto...

— Telefonei para a sra. Moore, querida. Você pra­ticamente não comeu hoje. Culpa minha. Quero que relaxe e se sinta confortável no castillo.

Sophie riu.

— Nunca vou relaxar num lugar como esse!

— Claro que vai — declarou Antônio, levantando-lhe o queixo para persuadi-la a olhar para cima. — Você é minha esposa; essa é sua casa e deve conside­rá-la como tal. Seu conforto é de primordial impor­tância para mim e seus empregados.

Por um infindável momento, só tinha consciência do poder do olhar dele. A preocupação em relação a ela encheu-a de felicidade. O suave aroma da loção de barbear que usava invadiu-lhe as narinas. Queria beber o perfume, já tão familiar para ela, como uma droga. Queria apoiar-se nele, reter aquele contato fí­sico fugaz dos dedos dele em seu pescoço. Rebelou-se contra a própria fraqueza e, literalmente, forçou-se a distanciar-se com um delicado sorriso estampado no rosto ruborizado.

— Certo, então se devo me sentir em casa, vou to­mar um banho antes da comida chegar — disse, ten­tando se compor. — Primeiro me diga onde está Lydia, porque quero checar se ela está OK sem mim

Por um breve segundo, Antônio ficou bastante ten­so enquanto continha o desejo que o consumia. Bas­tou aproximar-se e ouvir a referência ao banho, e a imaginação tinha ido às alturas. O olhar velou-se en­quanto lutou contra o desejo de simplesmente agarrá-la como um homem de Neanderthal. A luxúria nunca o tinha assaltado com tamanha força. Quase se esque­cia de quem era. A sensação o fazia aniquilar todo pensamento racional.

Era sexo, puro sexo, nada a ser elaborado. Ela era incrivelmente sexy, e o simples fato de parecer des­conhecer a força da própria atração aumentava-lhe os atrativos. Não se lembrava da última vez em que es­teve com uma mulher que passasse por um espelho sem se olhar. Imagine uma tão devotada aos interes­ses de um bebê que as próprias necessidades ficas­sem em segundo plano...

Sophie espiou Lydia, dormindo num largo berço. A sobrinha estava sendo cuidada por bem uma meia dúzia de mulheres. Despreocupada, Sophie mergu­lhou numa banheira perfumada. Recostou a cabeça e examinou, impressionada, os outros acessórios lu­xuosos. Estar casada com Antônio tinha suas com­pensações. Outras mulheres, e não ela, o teriam..., mas tinha Lydia, uma banheira maravilhosa, e pelo menos a promessa de comida. O lado negativo era que essa era sua noite de núpcias, e estaria sozinha. Mas qual a novidade? perguntou-se, esforçando-se por não mergulhar na autopiedade. Infelizmente, es­tava ciente de que Antônio jamais teria deixado uma princesa sozinha...

Refrescada, saiu do banheiro enrolada numa toa­lha branca, os cabelos desalinhados caindo-lhe pelos ombros. O nariz farejou um suave aroma no ar e o se­guiu.

Antônio estava de pé na porta da varanda.

— Ah! — Sophie parou desconcertada a poucos passos da mesa arrumada com copos reluzentes, ta­lheres e o carrinho de comida ao lado. — Você trouxe a comida?

Antônio percebeu que a encarava. Com o cabelo louro em desalinho, a pele rosada e apenas uma toa­lha deixando entrever as curvas entre os seios e o joe­lho, estava incrivelmente atraente.

— Não... estou aqui para jantarmos juntos. Sophie olhou-o surpresa.

— Se vamos fingir que esse é um relacionamento normal, não podemos passar nossa noite de núpcias em quartos separados.

— Ah, certo... — balbuciou Sophie, considerando que ele estaria a seu lado por não ter escolha. Isso sig­nificava que a presença dele não era motivo para ficar excitada. — Então melhor me vestir.

Antônio resistiu à compulsão de adolescente de di­zer-lhe que a achava linda daquele jeito e respondeu com uma casualidade estudada.

— Basta um roupão.

— Não tenho um, e está muito quente para meu jeans. Não tenho muitas roupas...

— Fique como está — sugeriu.

A tensão dançou no ar. Ele também tinha mudado a roupa, e estava com uma calça preta que acentuava-lhe as pernas longas e fortes, e uma camisa aberta azul muito elegante. Ele conseguira ficar sofisticado e maravilhoso.

— Você não parece tão empolado como de hábito! — exclamou Sophie antes de conter tamanha fran­queza. ]

Um ligeiro rubor marcava as maçãs do rosto, o que dava ao rosto fino uma força intensa. Empolado? Seu intelecto tentou analisar cada um dos possíveis signi­ficados e nenhum deles era um elogio. Era uma pala­vra que ele associava a seus parentes mais chatos, aqueles irritantemente atados a convenções e hábitos. Era assim que ela o via? Empolado? Ela era sete anos mais moça do que ele. Isso era tanta diferença?

— Vamos comer — murmurou, determinado a não reagir ao que ele sabia ter sido um comentário impen­sado.

Sophie sabia tê-lo ofendido.

— É só o jeito de você falar e os ternos... Não estou habituada a homens de negócios, e suponho que todos vistam ternos...

— De que jeito eu falo? — Antônio descobriu não poder calar a pergunta enquanto puxava a cadeira para ela se sentar.

— Não pretendia fazer nenhuma crítica — disse ansiosa, sentando na beirada da cadeira antiga de espaldar alto. — Você tem maneiras fantásticas, e não pode evitar ser formal... Quero dizer, você é um mar­quês...

— E empolado. — Antônio respirou e sacudiu os ombros, num gesto característico de indiferença me­diterrânea, mas a palavra que ela usara tinha lhe cor­roído a alma com ácido. — Vamos comer.

Sophie apressou-se em examinar o conteúdo do carrinho e soltou uma exclamação de prazer diante das costelas, pizza e batatas fritas. Uma enorme va­riedade de outras opções também estava disponível.

— Queria que você tivesse comida com a qual es­tivesse acostumada.

— Como montanhas de comida saudável também, mas Norah não sabe disso. Para ser honesta, Norah e Matt comem coisas como essas quase sempre. Eu só como isso de vez em quando. — Ao falar, Sophie es­palhava almofadas no carpete. Depois abriu as portas da varanda deixando entrar o ar refrescante da noite.

Num piscar de olhos, a elegante sala ficou desarru­mada e mais cheia de vida. Ficou evidente para Antô­nio que sentar-se numa mesa quando o piso de madei­ra estava disponível seria um bocado empolado. En­quanto Sophie esvaziava o carrinho e ajoelhava-se entre as almofadas para arrumar os pratos como se fosse um piquenique, ele abriu o champanhe e en­cheu as taças. Ela comeu sem talheres, lambendo as pontas dos dedos como um gato. Arrancou um peda­ço de pizza, abaixou a cabeça e deu pequenas mordi­das. Nunca, até esse momento, tinha ocorrido a Antô­nio que ver uma mulher comer podia ser uma expe­riência sensual. Estava absolutamente fascinado.

— Sobre o que quer conversar? — perguntou ani­mada, atirando-se nas almofadas empilhadas para terminar o champanhe.

— Minhas empoladas boas maneiras me impedem de perguntar como você e sua irmã têm pais diferen­tes — admitiu.

Sophie ficou tensa, mas tentou afastar o descon­forto.

— Ah, não é nada incrível. O pai de Belinda era casado com nossa mãe, Isabel. Ele era um executivo e não ficava muito em casa. Isabel conheceu meu pai quando ele pintava a casa deles...

— Ele era artista?

— Ele pintava paredes, não quadros. Bem, ele a engravidou e ela abandonou o marido...

— E?


— Meu pai não valia grande coisa, e Isabel logo se deu conta do erro. Quando eu tinha um mês, voltou para o marido e me deixou para trás com papai.

— Deve ter sido difícil para seu pai...

— Papai faria qualquer coisa por dinheiro, e Isabel mandou-lhe dinheiro até eu completar 16 anos. Nun­ca me visitou. Deixei de existir. — Sophie levantou o queixo, um brilho desafiador nos expressivos olhos.

— Ela provavelmente ficou envergonhada com o que fez — murmurou Antônio gentilmente, vendo a dor que ela tentava esconder. Entrelaçou os dedos aos seus num gesto de consolo tão instintivo quanto pou­co usual para ele. — Você se virou bem sem ela, que­rida.

— Você acha mesmo? — Antônio estava tão perto que Sophie mal conseguia respirar.

— Você dobra, mas não quebra — Antônio respi­rou um pouco mais pesadamente, debruçando-se so­bre ela para acariciar seu lábio inferior num toque macio como seda.

Uma leve brisa agitava-lhe os cachos. Ela estava parada, o coração batendo feito louco por baixo da toalha. Os seios ficaram apertados e confinados, e uma energia irrequieta fluía através dela. Estava to­talmente focada nele. Se ele não a beijasse morreria de decepção.

Entrelaçou o dedo em seus cabelos num movimen­to sutil. Os olhos provocantes colidiram com os seus, e um nó de tensão apertou.

— Adoro seu cabelo... tem vida própria.

— Antônio... — sussurrou, esticando-se nos tra­vesseiros, deixando a cabeça inclinar-se. Ela sentiu-se desavergonhada, mas estava sendo tomada por um delírio mais forte que ela.

A respiração roçou-lhe a bochecha. Ele demorou-se, e deixou a boca brincar com a sua. O desejo per­correu-o numa explosão assustadora. Sem saber o que fazia, ela o puxou para si. Ele resistiu e riu fitando-a com os olhos escuros cheios de satisfação.

— Eu não respondo bem a essa aproximação de domadora — brincou.

Ela sentiu-se tola e vulnerável. Sentou-se.

— Não sou um brinquedo!

Surpreso pela demonstração de rejeição, Antônio desabafou:

Por Dios, estava provocando...

— Não, não estava... estava me gozando! — So­phie acusou-o. — Bem, antes que você se empolgue com a idéia de que estou muito entusiasmada...

Antônio pegou-a e apertou-a nos braços.

— Você não poderia jamais ficar entusiasmada de­mais. Você me excita tanto que não posso pensar quando estou assim perto — admitiu.

Prestes a se desvencilhar novamente, Sophie pa­rou e fixou os enormes olhos ansiosos no rosto forte.

— Sério?

Ele envolveu-lhe o rosto, e as mãos pareciam trê­mulas.

— Estou ardendo por você, querida.

Ela sentiu que estava sendo sincero e tremeu.

— Então pare de fazer joguinhos...

— Não estou brincando. — Antônio deu-lhe um beijo demorado e intenso que a fez agarrar-lhe os bra­ços para se apoiar, e deixou-lhe a cabeça girando. — Acredite em mim...

— Você não pode planejar tudo...

— Mas eu planejo — murmurou frustrado, bus­cando novamente sentir-lhe o gosto. — Isso não de­via estar acontecendo...

Seus pequenos dedos mergulharam no espesso ca­belo negro para empurrar-lhe a cabeça.

— Então... pare!

— Não posso... quis você desde que a vi pela pri­meira vez há quase três anos. Agora a quero ainda mais.

Diante dessa confissão, os olhos perturbados bri­lharam como estrelas. Queria gritar de alegria ao vento. O que ele sentia não era amor, mas ela nunca esperara pelo amor de Antônio. O desejo era sufi­ciente para satisfazer seu desejo profundo, desespe­rado por algum tipo de reação dele. Naturalmente não duraria. Mas um desejo da mesma intensidade que o seu estava presente, e ela não era orgulhosa o sufi­ciente para deixar escapar o momento.

Ele apertou os lábios contra os seus novamente. A doce e aguda invasão da língua na profundeza de sua boca fez com que gemesse alto. Ele a levantou com facilidade nos braços e a levou para o quarto. A força a deixou sem ar. Deitando-a na cama, tirou a toalha. Despreparada para esse imediato desnudar, cruzou os braços cobrindo-se num movimento instintivo.

Antônio surpreso examinou-lhe os olhos assusta­dos e as maçãs do rosto vermelhas.

— Não pode ter vergonha de mim...

— Não estou com vergonha — negou. Tirando vantagem desse momentâneo parêntese, puxou as co­bertas e cobriu-se parecendo um caranguejo escondi­do embaixo de uma pedra para proteger-se. — Nem um pouco — adicionou com ênfase, e sentou-se para desabotoar a camisa dele num esforço para distraí-lo.

— Então deixe-me olhá-la. — Antônio segurou o lençol que ela enrolara debaixo dos braços, e o arran­cou antes que ela pudesse adivinhar-lhe a intenção. A torturante visão dos seios perfeitos provocou um ge­mido de apreciação. Ele a pegou com um braço, cur­vou-lhe as costas e explorou os montículos firmes com habilidade. O menor toque deixava-lhe a carne macia em fogo. Os dentes rangeram, os quadris mo­viam-se no lençol. Quando ele brincou com os mamilos rosados eriçados e sensíveis, ficou impossibilita­da de suprimir o gemido na garganta.

— Você é ainda mais linda do que eu imaginei, querida. — Antônio respirava com dificuldade, os olhos famintos excitados ao extremo, diante das cur­vas arredondadas que se revelavam. — E cem vezes mais receptiva.

Levantando-se, terminou de desabotoar a camisa e a tirou. Ao fazê-lo, os músculos desenvolvidos so­bressaíram no torso forte e acentuaram o peitoral e a rigidez do abdômen. Pêlos de ébano sombreavam-lhe o peito. Ela parecia sufocar. A batida do coração au­mentara e parecia um tambor. Ele era um macho es­petacular. Parecia hipnotizada até que ele tirou a cal­ça, ela ficou encabulada e abaixou o olhar.

— Venha aqui.

Ela se ajoelhou, olhando-o por baixo dos cílios, ru­borizada diante da nudez dele. Ele a pegou como se fosse uma boneca. As mãos agarraram-lhe a curva dos quadris, levantaram-na e a puseram em cima dele. O corpo dele era quente, sedoso, uma eletrificante mistura de diferentes texturas contra sua pele macia. Ela estava consciente do calor e da força da ereção e de sua própria necessidade de ser tocada. Sentiu-se escravizada pela promessa de prazer que ele vinha lhe proporcionando.

— Me toque.

— Até você me implorar que pare. — Ele deitou-a de costas na cama e veio para cima dela, forte e pagão em sua intensidade sexual. Ele abaixou a orgulhosa cabeça para os botões rosados proeminentes de seus seios e deixou a língua lamber os bicos. Ela arqueou a espinha e gritou quando ele intensificou a sensação arranhando-a com os dentes e a boca experiente. O calor queimou-lhe a pélvis.

— Não pare — sussurrou, movendo os quadris num movimento constante, selvagem, consciente do palpitar em sua parte mais íntima.

Os olhos derretidos de desejo, Antônio abriu-lhe as coxas. Com habilidade afastou os pêlos que co­briam sua feminilidade e tocou-a onde nunca fora to­cada antes. Essa intimidade partiu seu tênue controle em pedaços. Ele encontrou a parte mais sensível de seu corpo, e uma sensação ao mesmo tempo doce e alucinante tomou conta dela bloqueando todos os ou­tros sentidos. Quando a espiral de prazer aumentou a ponto de quase doer, ela contorceu-se.

— Antônio... — O nome dele era como uma ora­ção em seus lábios. Não mais podia conter a luxúria percorrendo-a em ondas potentes. Os quadris mo­viam-se num ritmo sinuoso; gemidos escapavam-lhe da garganta.

Enamorada... você me intoxica — confessou quando veio para cima. — Pretendo lhe dar mais pra­zer do que qualquer um possa ter lhe dado.

Quando ele mergulhou em sua profundeza úmida, a excitação tomou conta de cada uma de suas células com a ferocidade de uma floresta em chamas. A dor aguda causada pela invasão tomou-a de surpresa. Os olhos arregalaram-se em choque, e ela emitu um grito involuntário contra o ombro dele.

— Eu machuquei você?

— Não...


Ele fixou a claridade luminosa de seus lindos olhos.

— Eu sei que machuquei você. Fui muito bruto?

Ela ficou ruborizada, mas era muito orgulhosa para admitir que ele era seu primeiro amante.

— Claro que não...

— Você me excita tanto que perco o controle — Antônio confessou, penetrando aos poucos seu cor­po, agora mais receptivo. — Esqueci como você é pe­quena, frágil.

Cada um dos movimentos sutis mergulhavam-na num prazer quente e incontrolável. O tempo parou. A paixão a dominou numa sensação de alta voltagem. Ele enfiou as mãos por baixo de seus quadris e a le­vantou, penetrando-a com intensidade. O coração disparou, e ela tentou respirar. A necessidade e a excitação tinham se unido, e a ânsia de ser satisfeita era um tormento. Sua fome foi saciada. Perdida no cho­que voluptuoso de ondas de prazer convulsivo, gritou de prazer e assombro.

Ao final, Antônio a enlaçou, beijou-lhe o topo da cabeça e estudou o teto ornamentado com olhos bri­lhantes. Mantinha os dois braços à sua volta num abraço possessivo. Nunca tinha tido um sexo tão fan­tástico. E ela era sua oficialmente. Queria gritar de alegria. Na verdade, sentia-se tremendamente satis­feito com a vida em geral. Tinha dispensado uma amante que se tornara aborrecida e resmungona, e descobrira que a esposa tinha uma vocação magnífica para a paixão. E se não estava enganado, a noiva ti­nha lhe dado um presente muito especial que nunca sonhara receber na noite de núpcias: era virgem. Achou totalmente incrível que o destino fizera com que ela conservasse miraculosamente o corpo perfei­to para ele. Ele lhe devia um pedido de desculpas por ter pensado o pior naquela noite em que a vira voltan­do da praia. A essa altura lembrou-se do acordo, e fi­cou pasmo de ter esquecido...

Sophie estava feliz. Na verdade, não se lembrava de ter sido tão feliz exceto, é claro, em sonhos. So­nhos maravilhosos nos quais vagava de mãos dadas por lugares ensolarados com Antônio. Ele desempe­nhara um papel preponderante nos melhores sonhos por tanto tempo... E agora ela aprendera que ele era melhor do que em todas as fantasias secretas sobre como ele seria na cama. O futuro dele em seus sonhos estava garantido pelo resto da vida. Aconchegou-se a ele.

Pela primeira vez em quase três anos, aceitou o fato de que amava Antônio. Embora estivesse desti­nado a nunca saber disso, ele tinha roubado seu cora­ção no primeiro encontro. Ainda tinha que decidir o que julgava mais atraente nele. A inteligência, a apa­rência, os modos fantásticos ou o sorriso fabuloso? Fosse o que fosse, embora soubesse na época que amá-lo era uma estupidez, nenhum rival tinha conse­guido suplantá-lo. Por isso, perdia o controle quando ele estava por perto, reconheceu. Ele podia magoá-la com tanta facilidade... E com ele perdia o bom senso. Isso explicava o porquê de ter dado a virgindade a um homem que anunciara na sua cara que pretendia con­tinuar sendo um mulherengo ao mesmo tempo que pretendia ser um marido? Então, o que pretendia ser agora? Os pensamentos felizes foram bombardeados com a velocidade da luz.

Antônio decidiu que estava pensando demais. Por que complicar as coisas? Por que buscar problemas que não existiam? Afastou Sophie do peito, encai­xou-a em seu braço forte e beijou-a de tirar-lhe o ar.

— Você devia ter avisado que era virgem, querida — disse com ternura. — Eu teria tido mais cuidado para que não sentisse tanta dor.

Emergindo de um beijo que a deixou com a cabeça girando e os dedos dos pés crispados, Sophie ficou perplexa com o comentário, pois significava que ele percebera o que ela tinha certeza que ele não iria per­ceber.

— O que faz você supor que eu era virgem? — Forçou uma risada, pois estava convencida de que não havia como ele ter certeza. — Quero dizer, isso é comum na minha idade?

— Muito incomum — concordou com jeitinho, prendendo-a nos travesseiros e a arrumando numa posição mais íntima. — Mas, por favor, não fique com a impressão de que estou me queixando de sua falta de desempenho no quarto...

— Não? — Aquela referência ao "desempenho", normalmente aplicado a um cavalo e sua performan­ce, foi o máximo da humilhação. A qualquer momen­to, ele iria chicoteá-la no traseiro e oferecer-lhe aveia.

Na verdade, Antônio parecia encantado por ela ter provado ser inexperiente em termos sexuais. Mas Sophie estava irritada pela rapidez com que tinha chegado a essa conclusão. Se não tomasse cuidado, em breve ele estaria questionando o significado de ter dado a preciosa virgindade para ele. Ia adivinhar que ela era muito mais louca por ele do que as aparências poderiam sugerir. E se isso acontecesse, sabia que iria morrer de vergonha e jamais voltaria a encará-lo.

— De jeito nenhum, enamorada — Antônio afir­mou com indiferença, passando uma mão confiante e apreciativa pela sua coxa. — Suspeito que vamos nos divertir bastante aprimorando sua educação.

Usando todo o autocontrole de que dispunha, So­phie afastou-se.

— Você está tão enganado... Eu posso ter bancado a inocente para me divertir, mas não havia a menor chance de eu ser virgem, e não posso acreditar que você acreditou nisso.

— Por que está tentando negar o óbvio? Por que deveria ficar encabulada com o fato de não ter anda­do por aí? Por que está tentando me persuadir do con­trário? — Olhos brilhantes cheios de incompreensão pousaram nela. — Acho que você ser virgem na noite de nosso casamento é motivo de orgulho.

Fechou os punhos. O segredo deixara de ser um se­gredo. Sua desajeitada tentativa de jogar areia nos olhos dele tinha fracassado. A consciência de que ele tinha sido seu primeiro amante fez com que ela se sentisse terrivelmente exposta e vulnerável. Tomada pela crescente suspeita de ter agido feito tola, pulou da cama.

Agarrando a toalha do chão, enrolou-se como se fosse sua única proteção numa tempestade ameaça­dora.

— Olha, vamos parar com isso!

— Volte para a cama — murmurou Antônio sua­ve, como se estivesse lidando com uma criatura sel­vagem.

— Não. Já fizemos o que tinha que ser feito — Sophie retrucou com os olhos verdes brilhantes como pedras preciosas, desafiantes. —- Você foi ótimo e me fez um favor, mas vamos parar por aqui!

— Um favor? — Antônio ficou imobilizado, e qualquer vontade de apaziguamento foi abandonada.





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