Brilho da vida



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CAPÍTULO SETE

— Você disse que eu lhe fiz um favor. Explique o que quis dizer — ordenou com frieza letal.

Tentando ganhar tempo, Sophie deu um suspiro arrastado.

— Não pode adivinhar?

Os olhos escuros encararam-na inflexíveis.

— Responda minha pergunta, por favor.

— OK. — Sophie deu de ombros, tentando dar uma nota casual enquanto buscava freneticamente uma ex­plicação adequada. Estava aterrorizada. E se Antônio adivinhasse o porquê de ter sido tão fácil levá-la para a cama? — Preparei uma armadilha para você.

Sem parecer impressionado, Antônio elevou a so­brancelha aristocrática.

No me diga... não diga!

A calma aparente só a deixou ainda mais desespe­rada.

— Tenho quase vinte e três anos, e achei que já era hora de deixar de ser virgem, então peguei você para realizar a proeza.

A declaração insolente conseguiu o efeito dese­jado.

— Você fez... o quê? — indagou incrédulo.

A atmosfera não podia estar mais tensa, e Sophie tremia de nervoso. Forçada a defender sua história, empalideceu.

— Você estava por perto — murmurou apressada. — Então achei que você tornaria a experiência razoa­velmente agradável... e você tornou. Podemos mudar de assunto agora?

Antônio podia ter desconsiderado essa absurda de­claração se não tivesse se lembrado de vê-la chegar enrolada numa toalha para encontrá-lo, e depois ten­tado seduzi-lo. Olhos cínicos cravaram-se nela como .raios.

— Você me selecionou como uma espécie de már­tir para fazer sexo com você?

— Escuta, quanto menos discutirmos o assunto melhor — resmungou Sophie ruborizada, desejando ter inventado uma história menos polêmica.

Num acesso de raiva, Antônio pulou da cama e co­meçou a vestir-se às pressas.

O silêncio claustrofóbico intimidou e assustou Sophie.

— Antônio...?

— Quieta! — O tom irritado a paralisou. — Tinha começado a pensar em você como minha esposa. Qué risa... que piada! Não voltarei a cometer esse erro. Posso ter julgado você mal na noite posterior ao casa­mento de sua irmã, mas você pensa como uma vadia e se comporta como tal. Só volto a compartilhar a cama com você no dia em que fizer frio no inferno!

Toda a cor desapareceu do rosto de Sophie.

— Não fique assim. Não fique assim zangado co­migo...

— O que mais podia esperar? Aprovação? Seus padrões não são os meus. A partir de agora, vamos manter o acordo que fizemos.

Suas mãos tremiam. Ela o tinha realmente ofendi­do. Virou-se para que ele não lhe visse o rosto trans­tornado. Melhor assim. Não deviam ter ido para a cama. Devia ter tido mais autocontrole. Há quase três anos ouvira Pablo contar com inveja, no casamento, o sucesso fenomenal do irmão com as mulheres. Na­turalmente, o ato sexual seria um evento menor para um cara como Antônio. As mulheres estavam sempre à sua disposição e quem valorizava o que existia em abundância no mercado? Mas o que não podia supor­tar era que Antônio ficasse assim zangado e a acusas­se de pensar como uma vadia.

Trancou-se no banheiro e estudou seu rosto com os olhos marejados de lágrimas de dor e arrependi­mento. Se o sonho tivesse durado um pouco mais, se não tivesse inventado essa história estúpida, vergo­nhosa, de ter dormido com ele simplesmente para se ver livre da virgindade. Por que ele tinha acreditado? Não sabia como ela o julgava irresistível? Mas quan­do e como ela tinha esquecido que ele só se casara com ela para que ela tomasse conta de Lydia? Ela ti­nha prometido deixá-lo livre para viver como bem entendesse. Essa lembrança subitamente tornou-se fonte de profunda infelicidade.

Depois de uma noite mal dormida, Sophie acordou logo depois das 7h. Lydia devia estar acordada. Ficou totalmente desconcertada ao encontrar Antônio no berçário. Estava com Lydia no colo, e falava com ela suavemente em espanhol.

Sophie aproximou-se determinada a aproveitar a oportunidade para acabar com a tensão entre eles.

— Não esperava encontrá-lo aqui.

Os olhos escuros como a noite eram indecifráveis.

— Pensei que devia me despedir de Lydia...

— Se despedir... você está indo para algum lugar? — interrompeu-o magoada. — Obrigada por não me acordar.

Arrependeu-se imediatamente. Parecia tão infan­til...

— Não vi razão para perturbá-la tão cedo. Preten­dia ligar mais tarde. Tenho negócios para cuidar. Es­perava tirar uns dias de folga, mas não vai ser possí­vel.

Sophie ficou muito pálida e tensa.

— Quando vai voltar?

— Não tenho certeza — admitiu calmo. — Vou para o Japão e depois para Nova York. Depois, preci­so resolver uns assuntos em Madri.

— Antônio... — Mágoa, desapontamento e frus­tração eram visíveis. — Não acha que devíamos con­versar?

— Acho que tudo já foi dito a noite passada.

O orgulho e uma intensa insegurança silenciaram o pedido de desculpas. Tinha enfrentando a rejeição e a desilusão com muita freqüência na vida para deliberadamente provocá-las. Por que achou que ele se interessaria pelo que tinha a dizer? Afinal, não era um elemento importante no mundo exclusivo de An­tônio. Por que arriscar-se a expor-se a mais descaso? Se ele ainda estava zangado com ela, talvez fosse me­lhor deixar que a poeira baixasse durante essas duas semanas.

Buenos dias, Sophie. — Dona Ernesta entrou no aposento onde Sophie costurava enquanto Lydia brincava no tapete. — Você deve ser a esposa mais trabalhadeira dessa família.

— Não é trabalho... é diversão. — Ao dar um pon­to, levantou o olhar. — Não estou acostumada a ficar á toa.

— Posso ver o bordado?

A senhora emitiu um som de admiração pelos pon­tos intrincados formando um quadro de folhas e pás­saros.

— Esse é um trabalho de excelente qualidade. Você é extremamente talentosa. Quem lhe ensinou? Sua mãe?

— Nunca conheci minha mãe. Foi uma vizinha que eu costumava visitar quando era criança. — Os olhos de Sophie ficaram nublados de tristeza ao lem­brar-se da mulher idosa que tinha lhe proporcionado a chance de escapar do caos barulhento da casa do pai. Visitar, mesmo que rapidamente, um lar tranqüi­lo e organizado havia sido uma bênção. — Ela me en­sinou a costurar quando eu tinha quatro anos e ainda estava aprendendo dez anos depois quando ela mor­reu.

— Você deve ter sido uma aluna exemplar. Não considera fazer um curso de conservação de tecidos? — Dona Ernesta colocou Lydia no colo, sorrindo para a bisneta com indisfarçável prazer. — Há vários trabalhos antigos que se beneficiariam de sua aten­ção.

Mesmo que eu fizesse um curso, acho que An­tônio não ia querer que eu tocasse nas relíquias da fa­mília.

— Mas você faz parte da família agora — disse surpresa.

Uma empregada trouxe uma bandeja.

— Pedi chá inglês — confidenciou Dona Ernesta. — E bolinhos.

A pedido, Sophie serviu o chá em xícaras de fina porcelana. Durante a última semana, um crescente número de conhecidos de Antônio e vizinhos tinham feito visitas formais para encontrar Sophie e Dona Ernesta foi muito prestativa. Na verdade, a senhora estava claramente interessada em conhecer a mulher do neto. Sophie sentia-se culpada, pois estando infe­liz ficava difícil ser mais receptiva às tentativas de aproximação.

— Você teve notícias de Antônio? Sentindo-se muito vulnerável, Sophie enrubesceu.

— Não... já tem alguns dias.

— Ele deve estar ocupadíssimo — tentou consolá-la.

Mas com quem Antônio estava ocupado? Pensou antes de suprimir esse pensamento que não levava a nada. Qual o sentido de se atormentar? Não podia controlar as atitudes de Antônio. O doentio sentimen­to de infelicidade, que lutava por anular, ameaçava voltar a atuar. Não representava conforto saber que suas palavras tinham destruído a frágil relação que começava a se desenvolver entre eles. Fazia oito dias que ele deixara o castillo. Embora tivesse ligado várias vezes, as conversas foram breves, e qualquer en­saio de abordar temas mais íntimos esnobados.

— Sophie... posso falar francamente com você? Sophie ficou tensa.

— É claro.

— Você parece infeliz. Não tenho intenção de bisbilhotar — assegurou-lhe a senhora —, mas há algo errado?

Sophie tentou agir como seria do agrado de Antô­nio.

— E claro que não.

— Natural que sinta falta de Antônio, e é triste te­rem sido forçados a se separar logo depois do casa­mento.

Lágrimas emergiram dos olhos de Sophie. Não lhe ocorrera que sentiria tanta falta dele. Mas admitir — mesmo para si mesma — que tinha se apaixonado perdidamente há quase três anos, e nunca o esquece­ra, destruir-lhe-ia as defesas naturais.

— E muito monótono para você ficar aqui quando ele está longe. Por que não fica em nossa casa em Madri por uns dias? Você pode fazer compras e con­viver com os outros jovens da família. Acredito que já encontrou alguns deles no casamento de sua irmã.

Sophie ficou desconcertada, mas atraída com a su­gestão. Não fazer nada a deprimia. Mas se fosse para Madri, sem Antônio tê-la convidado, podia dar a im­pressão de que ela o estava perseguindo. Ele podia fi­car irritado. Os termos do contrato de casamento não lhe deixavam muito espaço para manobras inde­pendentes, lembrou-se infeliz.

Gostasse ou não, tinha concordado que Antônio podia fazer o que quisesse. Tudo que pedira em troca era o direito de cuidar de Lydia. Na verdade, em ter­mos materiais, estava muito bem. Tinha Lydia e vivia no luxo. Para completar, apesar de seus piores me­dos, mesmo a avó de Antônio era gentil. Então, real­mente, como tinha a audácia de reclamar?

Por outro lado, a noite de núpcias não tinha rompi­do o acordo original? Tudo parecia mais íntimo. Ao fazer amor com ela, Antônio tinha virado o relaciona­mento platônico ao avesso. Tudo mudara, e os dois eram responsáveis por isso. Obviamente, seu senti­mento em relação a ele mudara e o precipício entre eles a assustava. De um momento para outro, Antô­nio tinha se tornado educado e inatingível. O mal-en­tendido tinha que ser esclarecido, refletiu preocu­pada.

Decidiu que o ideal seria chegar em Madri en­quanto Antônio estivesse no exterior. Dessa maneira, sua presença poderia parecer uma coincidência, e ele não precisaria saber que estava sendo caçado. Se ele perguntasse o que ela estava fazendo lá, poderia dizer a verdade: que nem ela nem Lydia tinham o que ves­tir. Antes do casamento, ficou com medo de gastar o dinheiro em coisas supérfluas. Entretanto, sabia que Antônio estava acostumado a mulheres bem-cuidadas. Então, também ia se cuidar: das unhas, do cabe­lo, cosméticos, a depilação, o que fosse — o pacote completo. Faria qualquer coisa para voltar a aproxi­mar-se dele. E se fracassasse, não seria por não ter tentado. Afinal, o que tinha a perder?

Caminhando a passos largos pelo aeroporto de Baraias, Antônio checou o relógio com rara impaciên­cia. Estaria em sua casa em Madri em uma hora. Há quase três semanas deixara o castillo, e estava ansio­so por ver Sophie.

Não apenas vê-la, reconheceu, e um sorriso ligei­ramente triste curvou-lhe a boca. Não podia entender como conseguiu tornar a relação deles tão complica­da. Tudo que tinha feito não combinava com sua per­sonalidade. Mas também não se lembrava de ficar tão zangado com uma mulher antes. Aquela nova expe­riência era profundamente perturbadora para um ho­mem orgulhoso de sua autodisciplina. Não era temperamental, mal-humorado ou rancoroso. Em resu­mo, não era temperamental. Como explicar o com­portamento explosivo no dia do casamento?

Com sua habitual lógica restaurada, reconheceu o ridículo da declaração de Sophie. Em seu estado mental normal teria rido. Tinha sido o jeito de Sophie colocá-lo em seu lugar. O que acontecera com seu senso de humor naquela noite e nos dias subseqüen­tes quando ficara tão agitado, que mesmo falar com ela ao telefone era um desafio? Aonde tinha ido parar seu temperamento controlado e a habilidade de lidar com as situações? Dios mio, como pude acreditar na­quela declaração absurda por mais de trinta segun­dos?

Saber que Sophie estava em Madri aumentara-lhe a pressa de chegar em casa. Fazia seis dias desde que se falaram. Trabalhara várias horas por dia, e a diferença de horário o forçara a ligar em horários estranhos. Quando ligava, Sophie estava sempre fora. Concluiu que a avó levava Sophie e Lydia para en­contrar todos os amigos e parentes distantes.

O motorista estava tão concentrado na revista de celebridades que nem percebeu a chegada do patrão até o último instante, notou Antônio exasperado. Murmurando desculpas embaraçadas, o homem ido­so apressou-se em abrir a porta do passageiro e dei­xou cair a revista. Na capa, uma foto de Sophie no vestido floral de casamento.

Uma reportagem de várias páginas mostrando fo­tos de sua mulher o deixou incrédulo. O vestido que odiara era citado como sendo o auge do estilo para noivas. Ali estava Sophie sentada dignamente no sa­lão de sua casa em Madri. Ela tinha permitido câmeras em uma de suas casas! Respirou fundo. Sophie de braços dados com sua prima, Reina, num show bene­ficente... Sophie chegando na estréia de um musical vestindo um vestido de noite vermelho que parecia uma segunda pele... Sophie mostrando a perna numa minissaia listrada rosa ao subir numa Ferrari. De quem era a Ferrari? De quem era a maldita Ferrari?

Ligou para casa. Sophie não estava. Perguntou onde estava, e uma boate da moda foi mencionada como uma possibilidade. Mandou o motorista para lá e ligou para a avó para perguntar por que não tinha sido informado que a esposa estava sozinha na cida­de.

— E Sophie precisa de permissão?

— Não. Entretanto, pensei que estivesse com a se­nhora.

— Só nos dois primeiros dias. Madri me cansa, e Sophie faz amigos com tanta facilidade... Ela é origi­nal e tem muito estilo.

Antônio desligou o telefone com um forte senti­mento de insatisfação. Começou a ler o texto do arti­go na esperança de descobrir a quem pertencia a Fer­rari, bem como uma explicação para sua esposa estar nela.

— Sua Excelência... quando terminar, pode me de­volver a revista? — o motorista pediu cerimonioso. — Minha mulher coleciona fotos da marquesa. O se­nhor deve estar orgulhoso dela. Tanta beleza e vida!

Sophie riu quando o amigo de Reina, Josias, insis­tiu para voltarem à pista de dança, e resistiu à tenta­ção de checar o relógio.

A hora não importava. A essa altura, Antônio de­via ter chegado. Estava orgulhosa de ter respeitado as regras por ele estabelecidas. Não fizera nada que o colocasse em apuros. Embora estivesse louca para vê-lo, tinha sido forte. Não sucumbira ao desejo de correr para o aeroporto e dar-lhe as boas-vindas, nem ficara esperando pelo retorno de seu amo e patrão.

Do alto das escadas que conduziam à pista de dan­ça, Antônio percorreu com os olhos a multidão. Quando viu Sophie, estreitou os olhos. O vestido des­nudava-lhe as costas, os braços e as pernas torneadas. O tecido fino se ajustava às curvas delicadas e brilha­va sob as luzes quando girava. Ela ria enquanto dan­çava, e o jovem moreno que lhe retribuía o sorriso era... Josias Marcaida, filho de um dos maiores rivais profissionais de Antônio. Um tubarão rodeando Sophie não teria inquietado tanto Antônio. A passos lar­gos caminhou em direção ao casal.

Sophie estava divertindo-se e ao vê-lo ficou petri­ficada. A altura e soberba complexão física atraía to­das as atenções. Para ela, tudo à volta deixou de exis­tir ao fitar os olhos em brasa. O estômago girava como se estivesse numa roda-gigante. Mal conseguia respirar, e a pulsação acelerou. A expectativa deixou-a tensa e sentiu o calor inundar-lhe a pélvis.

Antônio segurou-lhe a mão.

— Diga tchau para Josias, querida — disse quando a música barulhenta diminuiu.

Cada nervo de seu corpo pulava como um soldado numa parada. Ele tinha vindo buscá-la. Se ele tivesse escalado o Everest por sua causa não ficaria mais emocionada.

— Preciso ir... — balbuciou para seu parceiro de dança.

CAPITULO OITO

Antônio empurrava Sophie em direção à saída. Já es­tavam perto quando lhe ocorreu que precisava despe­dir-se de Reina. Embora as duas não se conhecessem há muito, se davam tão bem que já a considerava uma amiga íntima.

— Preciso dizer a Reina que estou indo embora...

— Você pode ligar para minha prima da limusine... ela vai compreender.

— Não, isso não é correto. Volto em dois minutos — implorou Sophie, libertando-se para correr até a mesa onde Reina estava.

— Desculpe, mas tenho que ir...

— Vi Antônio chegar — disse irônica a elegante morena.

Graças a Reina — uma conceituada estilista de moda — conheceu tanta gente e se engajou numa mo­vimentada vida social. Apressou-se para encontrar Antônio, mas a despedida da amiga tinha estragado seu humor. Embora ainda encantada por estar nova­mente com Antônio, a reação inesperada de Reina a fizera se questionar se devia ter recebido Antônio com mais frieza.

Dentro da limusine, Antônio pegou-lhe as duas mãos. Não pensava em resistir. Na verdade, um deli­cioso estremecimento deslizou em seu corpo.

— Beije-me... — sussurrou.

Antônio não dava demonstrações públicas. Ele olhou seu rosto inebriado. Os incríveis olhos verdes uniram-se aos dele. Os lábios cor-de-pêssego eram um convite.

— Antônio... — Sophie envolveu-lhe o pescoço.

Antônio imaginou-a seminua no assento de cou­ro. A ereção foi imediata e tão forte que toda con­tenção desapareceu. Envolvendo-lhe o rosto, cap­turou-lhe a boca com intensidade faminta e a língua penetrou-a.

Sophie ficou em fogo como se ele tivesse apertado um botão. O corpo queimava por inteiro, e ela corres­pondeu com entusiasmo.

Arfando, Antônio reprimiu o impulso de viver a fantasia.

— Vamos esfriar até chegar em casa... Tardiamente consciente de que o motorista podia

vê-los, Sophie ficou ruborizada de embaraço. Tinha agarrado Antônio. Por que agira assim? Queria su­mir. Nunca aprendia? Por que continuamente fazia papel de boba perto dele? Antônio respirou fundo e decidiu que se conversassem conseguiria manter as mãos longe dela até chegarem em casa.

— Você está deslumbrante nesse vestido.

Qualquer desejo de pretender indiferença desapa­receu, e sua boca macia abriu-se num largo sorriso

— Obrigada...

— Mas... — Antônio entrelaçou os dedos nos seus e fez uma pausa, a expressão reflexiva... — Tenho que admitir que esse vestido é muito revelador para ser usado por minha esposa.

— Ah... — Sophie ficou decepcionada diante da inesperada crítica. — Mas não é muito curto nem transparente...

— Chama muito a atenção, mi rica — informou sério. — Muitos homens a olhavam.

Sophie piscou e abaixou os cílios antes que ele pu­desse ler-lhe a expressão. Quase explodiu de rir. Ele estava tão sério. Se homens a olharam, a roupa não era apropriada.

— Talvez eles apenas me achassem bonita — ou­sou sugerir.

— Seja o que for... Não gosto quando outros a olham daquele jeito — afirmou categórico.

O sol parecia invadir Sophie e ela tentava conter o calor delicioso dos raios pois, a não ser que estivesse muito enganada, Antônio estava com ciúmes!

— Para ser sincero — continuou Antônio, ainda segurando-lhe a mão —, não é uma boa idéia sair com o pessoal solteiro para uma boate.

As sobrancelhas finas uniram-se, assombrada com essa afirmação.

— Por que não?

— Josias Marcaida é um mulherengo...

— Ah, eu sei — interrompeu Sophie. — Reina me avisou, mas também disse que Josias não era páreo para você!

Antônio contraiu-se diante da resposta desagradá­vel.

— Eu não acho que você deva falar sobre mim com outros membros da família.

Sophie tirou a mão da dele.

— Certo... então você não gosta do vestido, não gosta que eu fale com seus parentes, não gosta que eu vá à boate...

— Acho que o que estou tentando dizer — respon­deu, macio como seda — pode ser resumido numa frase.

— Então diga a frase mágica e poupe-me tempo — avisou seca, a raiva lambendo-a em chamas alaranjadas. Quando virou a cabeça para o lado, percebeu que a limusine já estava parando em frente à imponente casa da família Rocha, em Madri.

— Você não é mais solteira... é minha mulher.

Sophie respirou tão fundo que achou que os pul­mões explodiriam. Saltou do carro, entrou em casa com um sorriso estampado nos lábios e foi direto para a escadaria.

— Sophie! — chamou com autoridade.

Sophie girou lançando-lhe um olhar que o deixou desconcertado. Murmurou em baixo e bom tom:

— Mais uma palavra e eu mato você...

— Não disse nada desproposital — rebateu.

— Seu... hipócrita — sussurrou.

— A Espanha a está civilizando querida — res­pondeu em retaliação. Achava ter sido extremamente tolerante e compreensivo. Afinal de contas, tinha en­contrado a mulher num vestido provocante dançando com um notório playboy. — Há um mês teria dito isso aos berros sem se importar se alguém ouvisse.

Foi um comentário infeliz. Os olhos brilhantes varreram-no tempestuosos.

— Você pode não ser muito alta... mas é magnífica — comentou Antônio, o olhar demonstrando apreciação. Subiu as escadas com a graça sutil de um preda­dor próximo à presa. — Senti sua falta.

— Pouco me importa! — respondeu, embora se importasse — e muito! A voz zangada ecoou como um trovão: — Em momentos como esse, eu odeio você!

Sophie dirigiu-se a passos rápidos e furiosos para o santuário de seu quarto. Queria socar algo. Queria socá-lo. Como ousava lembrá-la que era sua mulher naquele tom superior de censura? Como ousava refe­rir-se a ela com esse rótulo?

Antônio entrou no quarto um minuto depois.

—Você não me odeia — disse com uma segurança irritante.

— Tínhamos um acordo estabelecido por você. Você me disse que queria continuar gozando de sua liberdade!

Antônio sacudiu os ombros.

— Não estou negando isso.

— E depois, do nada, você aparece e começa a me dizer que tenho que me comportar como uma esposa de verdade!

— Mas você é uma esposa de verdade!

— Talvez, falando em termos técnicos... mas esse ângulo não importa — disse, inflamada. — Precisa­mos conversar sobre você praticar o que prega.

Antônio estava fascinado com a forma como argu­mentava. Não usava elogios nem estratagemas femi­ninos para defender-se. Não tinha medo de dizer o que pensava. Nenhuma mulher tinha sido tão direta com ele.

— Isso é um fato?

— É sim — confirmou com veemência, o rosto vermelho de raiva. — Você disse que queria sua li­berdade, mas isso significa... isso tem que significar que você não tem o direito de interferir na minha... certo?

— Errado. En realidad... você está muito engana­da. Não consegui olhar você dançar com outro homem sem sentir que algo estava errado.

Sophie arregalou os olhos.

— Não acredito no que estou ouvindo.

— Você é minha mulher. Usa uma aliança no dedo. Mora na minha casa. Não pode ser minha mulher e ser independente...

— Ah, posso!

— É uma contradição...

— Como ser marido e livre atirador? — interrom­peu-o com doçura.

— Uma boa comparação. Mas toda vez que grita comigo, me sinto casado, querida — confidenciou com um brilho de ironia no olhar.

Sophie examinou-o. Ele não precisava pensar que ela seria manipulada pelo simples fato de que ele era um cara extraordinariamente bonito com um sorriso assassino.

— Obviamente, muitas mulheres aceitariam esse tipo de absurdo, mas não eu. Não há a menor chance de aceitar essa atitude de uma regra para mim e outra para você...

— Mas não é isso que estou advogando...

— Mas é exatamente isso que está advogando... — Ela pronunciou erradamente a palavra, e ele a cor­rigiu. Um sentimento de humilhação aumentou-lhe raiva e trouxe-lhe lágrimas aos olhos. — É isso que me irrita... você é impossível. Você é espanhol, e está corrigindo o meu inglês!

— Foi sem querer... — reconheceu Antônio.

— Não, não foi. Você pensa em tudo, sempre sabe exatamente o que faz...

— Eu não sabia exatamente o que fazia quando me casei com você. Fui insano. Sou culpado por ter julga­do mal a situação. Nem mesmo antevi as complicações que surgiriam da consumação de nosso casamento. Mas desde aquela noite, minha ânsia de liberdade de­sapareceu.

Um silêncio profundo se instalou.

— No que me diz respeito pode esquecer o que aconteceu na noite de núpcias. Você queria liberda­de, e ainda pode tê-la! Não me deve nada, e se ficar longe de mim, podemos manter o acordo. Tudo que precisamos é sermos sensatos e não esquecermos que trata-se de um negócio.

Os olhos escuros brilharam como a luz do sol dian­te dessa proposta franca.

— Essa é uma oferta muito generosa. Mas há um problema...

— Nada é perfeito, Antônio! — O coração parecia estar-se espatifando. O preço da oferta generosa tinha sido alto. Na verdade, ela podia acorrentá-lo na cama dela para sempre.

— Eu sei, mas não posso esquecer nossa noite de núpcias nem me manter afastado de você. Suspeito que ser "sensato" está além das minhas forças.

Totalmente despreparada para essa confissão, Sophie olhou-o confusa.

— Desculpe?

— Você é incrivelmente sedutora. Sinto muita atração por você. Tentei lutar contra isso durante mi­nha ausência, querida — Antônio ouviu-se admitir, pois reconhecer ter perdido a batalha ainda ardia como pimenta nos olhos. — Essa atração não é ajui­zada, e também não é o acordo que combinamos. Mas, no momento, não quero estar com nenhuma ou­tra mulher; só com você.

— Mas... mas não é assim que deve ser.

— É assim que tem que ser. Devemos esquecer como deve ser. Não posso ficar parado vendo você gozar da mesma liberdade que eu pretendia para mim. Por enquanto, vamos aproveitar.

Sophie não era tola. Havia um largo sorriso tentando tomar conta de seus lábios, pois ele oferecia-lhe mais do que esperava, mas havia um detalhe... Por enquanto... vamos aproveitar. Falava do presente, sem fazer referência ao futuro. Não sugeria um casa­mento de fato, reconheceu, sentida. O que propunha era que tratassem o casamento como um caso. Em re­sumo, tudo que lhe oferecia era fidelidade a curto prazo e sexo.

— Gostaria que tivesse ido ao aeroporto me en­contrar.— admitiu Antônio para que ela soubesse como agir da próxima vez. — Quando não a vi lá, de­cidi não voltar para casa sem você. Talvez só então me permiti admitir o quanto queria encontrá-la.

Como se atraída por um ímã invisível, Sophie se: aproximava em passos lentos. Às condições de fide­lidade e sexo, estava adicionando encontros no aeroporto e pensando que esse último pedido era meigo e inesperado.

— Nós mal nos falamos depois que você viajou...

— Você evitou meus telefonemas...

Ela ficou ruborizada, pois era verdade.

— É... mas você estava tão distante no telefone...

Estava em guerra comigo mesmo, querida. Não estou mais, e nunca mais estarei — prometeu.

Sophie se sentiu aliviada. Reconhecia que podia afundar e morrer feliz naqueles olhos maravilhosos.

Nada durava para sempre, lembrou-se. A vida não oferecia certezas. Mas amava Antônio e estava disposta a pegar o que lhe era oferecido, em vez de almejar o que não estava a seu alcance. Ele nunca iria pedir-lhe que continuasse casada com ele para sempre. Não estava apaixonado; sentia atração por ela. Nunca poderiam ter um futuro a dois, refletiu com uma pontada de dor. Ele não sabia — e ela não via motivos para contar —, mas tinha plena consciência de ser pouco provável poder ter um filho. E ele tinha o título, o castelo ancestral e séculos de história familiar. Podia não ter pressa, mas um dia Antônio ansiaria por passar o título e a herança para um filho. Compreensivelmente, ia querer uma esposa que pudesse lhe dar filhos.

Antônio puxou-a contra si com as mãos de um macho para quem a sensualidade era uma arte.

— Você parece infeliz — murmurou.

— Não... não estou — insistiu, esticando-se para soltar-lhe a gravata e desabotoar o colarinho.

Ele pegou-lhe os dedos e virou-lhe a palma da mão, na qual pressionou a boca por um momento. Ao olhar seu rosto, viu que os olhos traziam o mesmo olhar de tristeza.

— Por que está triste?

— É um segredo... nada que possa lhe interessar...

— Tente — frisou Antônio, pois no instante era que mencionou aquela palavra fatal, no instante em que admitiu estar escondendo algo dele, ficou morto de curiosidade.

— Não, algumas coisas são privadas — sussurrou sentida, deslizando a ponta do dedo pelo queixo dele. Uma sombra de barba por fazer deixava a pele bron­zeada áspera o que tornava sua boca sensual ainda mais atraente, refletiu atordoada.

Antônio abaixou a cabeça e deixou a ponta da lín­gua lamber-lhe o rosado do lábio inferior. Ela gemeu ao contato, e as pernas bambearam.

— Se o segredo se refere a um problema, há uma boa chance de eu poder resolvê-lo para você.

Sophie franziu os olhos para conter a torrente de lágrimas que a oferta desencadeara. Ela adorava-lhe o orgulho e a convicção de que tinha solução para tudo, exceto para a morte.

— Não esse.

— Confie em mim... — Ao dizer isso, pensou se o segredo relacionava-se à impossibilidade de ter fi­lhos. Não queria pensar a respeito. Nunca antes expe­rimentara essa relutância em considerar um assunto. Não queria nem pensar no porquê desse assunto em particular ser tão delicado — mesmo para ele.

— Não... — A voz soava abafada porque apertava o rosto contra o peito dele lutando para conter as for­tes emoções.

Não havia necessidade dele saber que ela era esté­ril. Como reagiria? Não podia superar a idéia de ins­pirar-lhe piedade. Pior ainda, ele poderia começar a vê-la como uma mulher incompleta e não muito atraente. Tinha aprendido que as pessoas tendiam a associar fertilidade com todo tipo de atributos femi­ninos.

— Um dia você vai confiar em mim, gatita — ju­rou Antônio com fervor e, apertando-a nos braços, le­vantou-a do chão. Ele a apertou contra o peito musculoso e selou a boca na sua num beijo apaixonado. O oxigênio ficou rarefeito, mas adorou aquela demons­tração entusiástica de força e proteção masculina.

Com imenso cuidado, ele a deitou na cama, e de pé tirou o paletó e a gravata.

— Não houve mesmo ninguém desde...? — So­phie perguntou encabulada.

Ele arrancou a camisa sem cerimônia e sorriu.

— Pela primeira vez em minha vida adulta gostei do celibato.

Sophie chutou os sapatos e recostou-se nos traves­seiros como uma mulher fatal: as costas arqueadas, o peito erguido, os joelhos ligeiramente levantados para exibir as pernas sob o melhor ângulo.

— Você tem praticado essa pose sedutora — sussurrou Antônio brincando.

Sophie levantou um ombro num movimento lânguido para deixar a alça do vestido cair, permitindo a visão de um pedaço do seio.

— E o esforço valeu a pena — confessou Antônio num outro tom impressionado, até ser assaltado por uma suspeita. — Você não fez isso para nenhum ou­tro cara... fez?

Sophie olhou-o chocada.

— Claro que não... Eu também tenho me compor­tado!

Antônio voltou a respirar.

— Eu devia ter tomado um avião e resolvido isso há mais de uma semana.

— Talvez você não estivesse preparado.

Antônio ainda não estava seguro de estar prepara­do para a enorme complexidade em que sua tranqüila existência tinha se transformado. Inspecionou So­phie com possessividade. Não podia compreender como a julgara apenas bonitinha. As maçãs do rosto eram especiais, os olhos claros eram lindos e a pele tinha uma suavidade perfeita.

— Por que está me encarando? — sussurrou So­phie ansiosa.

— Gosto de olhá-la, querida — murmurou, deitando-se na beira da cama. Levantou-a e colocou-a em cima das coxas musculosas.

Um arrepio a percorreu quando ele começou a abrir-lhe o corpete do vestido. Afastou o tecido fino do caminho e descobriu que ela não usava sutiã. Seu rosto ficou vermelho, e ela parou de respirar, cons­ciente da intumescência dos seios nus e da proeminência dos bicos rosados.

— Você é perfeita — declarou curvando-a sobre o braço e deixando a boca faminta percorrer a carne macia com uma habilidade que a fez gemer. — Todo o tempo em que estive fora pensei em fazer amor com você... Mal conseguia dormir.

— Eu sonho com você.

Antônio a suspendeu entre as pernas afastadas, e deixou o vestido escorregar-lhe até os pés. Enfiou um dedo nas calcinhas rosa - bebê e despachou-as na mes­ma direção. Os olhos faiscantes encontraram os seus. Ele acariciou-lhe as coxas afastadas e explorou a en­trada quente, úmida, coberta por caracóis castanhos coroando sua feminilidade. A excitação crispou cada músculo de seu corpo; as pernas tremeram.

— Você está pronta para mim, enamorada — dis­se com orgulho masculino.

Ele a suspendeu e a abaixou novamente. Seu cora­ção batia acelerado; estava agitada, incapaz de ficar parada. Seu corpo estava supersensível e queimando de excitação. Ele estava magnificamente excitado, e mergulhou o membro quente e duro na estreita e sua­ve cavidade entre suas pernas. Ela moveu-se num tormento de prazer selvagem. Depois nada mais existia exceto a dominação apaixonada e a escalada para o êxtase. Ele a deixou totalmente descontrolada e desinibida num mundo de abandono voluptuoso. Ela agarrou-se a ele quando as doces convulsões, de pa­rar o coração, a possuíram e fizeram com que aban­donasse o próprio corpo numa intoxicante explosão de sensações.

— Nem pense em dormir, querida — avisou-a, aprisionando-a debaixo dele para capturar os lábios avermelhados num beijo selvagem.

Sophie deu um sorriso confuso. Seu corpo ainda estava tomado por estremecimentos de puro prazer. Incrível como o mecanismo do sexo era visto por ela no passado como a mais ridícula disposição. Ainda assim, quando Antônio mostrou-se apaixonado, achou a intimidade a maior alegria do mundo, um passaporte para o paraíso. Ela abraçou-o, respirou o excitante perfume do corpo bronzeado úmido, e ma­ravilhou-se com o sentimento que ele tinha inventado e criado somente para seu benefício.

— Você é fantástica — disse lentamente, apertando-a mais. — E o melhor de tudo é que você é minha.

— Por um tempo — disse sem raciocinar, como se precisasse lembrar-se da realidade.

O corpo forte retesou-se dos pés à cabeça.

— Podia ser por bastante tempo.

Triste, Sophie não acreditou. Não se julgava capaz de prender-lhe a atenção por tanto tempo. No fim, a ânsia de liberdade viria à tona. Então, ficaria agrade­cido por não ter um casamento normal, preso a espo­sa e filhos. Seus pensamentos mudaram de curso nes­se ponto. Veio-lhe à mente a consciência de que em nenhuma ocasião, em que compartilhou a cama com Antônio, usara qualquer proteção. Estava atônita por ele ter sido tão descuidado. Meu Deus, será que ele achava que ela tomava pílula?

Levantou a cabeça, mas não o suficiente para en­contrar-lhe os olhos.

— Você não tomou nenhuma precaução... você sabe, no caso de gravidez.

Subitamente, Antônio se julgou um tolo, pois essa distração poderia trair o fato de conhecer-lhe a condi­ção. Não queria aborrecê-la admitindo a verdade.

— Minha culpa... pensei que você tivesse se encar­regado disso.

— Não. — Voltando a relaxar, encaixou a cabeça no ombro dele.

— Prometo que serei mais cuidadoso de agora em diante —jurou Antônio e apertou-a contra si. Acari­ciou-lhe os cachos até que a tensão houvesse abando­nado seu pequeno corpo, e pressionou a boca na pe­quenina e vivida borboleta tatuada em seu ombro.

Mas Sophie não podia deixar de pensar no quão descuidado ele havia sido. Depois pensou em todos os bebês, filhos de homens que pareciam não querer nada com eles, e chegou à conclusão que tal negli­gência era um traço masculino. Havia a mínima pos­sibilidade de poder conceber? Pela primeira vez na vida, permitiu-se brincar com a remota possibilidade. Quando tinha 12 anos, o pai tinha-lhe dito que o mé­dico achava pouco provável que ela tivesse filhos.

— Não há nenhuma chance? — perguntou-lhe en­tão.

— Sim, ele disse que sempre há uma chance, mas pequena. Por que está preocupada com isso? Crian­ças estragam a vida da gente. Vai ser melhor viver sem elas.

Então, talvez houvesse uma chance em dez milhões que um milagre acontecesse, e ela conceberia. Por que estava pensando nessas coisas sem sentido? An­tônio, pensou magoada, ficaria absolutamente aterro­rizado se ela engravidasse. Ele devia ter a imagem do tipo de mulher que escolheria para se tornar a mãe de seu filho. Ela apostava que a dama teria sangue azul, seria linda e elegante como ele. Mas essa mulher ain­da assim seria sua segunda mulher. Bem, pelo menos ela teria sido a primeira, e ninguém podia tirar-lhe isso. Embora tivesse que se lembrar que só era esposa por causa de Lydia e quando estava na cama com An­tônio, porque ele tinha uma libido hiperativa. Não era essa a explicação mais plausível?

— Providenciei umas duas semanas de férias — confessou Antônio, simulando um tom casual. — Preciso passar mais tempo com você e com Lydia.

Sophie acariciou os pêlos do peito viril e deu um suspiro de satisfação.

— Com certeza.

Ele virou-se, arrastando-a para baixo dele para olhá-la.

— Você acha que pode me entreter por esse perío­do de tempo?

— Não tenho certeza. — Sophie examinou os olhos brincalhões através dos cílios. — Afinal, você vai ter que provar que é bom.

— O que quer dizer...

— Josias pode ser um rival poderoso.

Antônio ficou balançado diante do atrevimento do desafio e da comparação sugerida.

— Tudo que ele pode fazer eu... — Antônio deu de ombros. — Você duvida, gatita.

Seu coração encheu de amor, pois a autoconfiança dele a deixava segura.

— Não tenho dúvidas a respeito...

— Isso soa sinistro. — Finalmente, colocou para fora uma pergunta que vinha calando, esperando o momento apropriado. — Vi a entrevista que deu para a revista.

— Não foi incrível? O fotógrafo não me fez pare­cer realmente especial? Você ficaria surpreso com

valor da doação que a revista fez. O entrevistador dis­se coisas incríveis sobre mim também...

— Geralmente, nesse tipo de publicação, os jorna­listas fazem elogios. Se forem desagradáveis, as pes­soas não lhes permitirão acesso às vidas e casas.

— Nunca tinha pensado nisso. Mas esperava que você visse a entrevista e se orgulhasse de mim. O que você achou? — questionou ansiosa.

— Que os Rocha só deveriam ser mencionados na imprensa por ocasião de aniversários, casamentos e mortes. — Essa era a atitude de Antônio a tal publici­dade. — Fiquei me perguntando a quem pertencia a Ferrari nas fotos.

— A Josias...

Antônio estava aprendendo que a mera menção desse nome o irritava.

— Ele me deu uma carona do apartamento de Rei­na até o restaurante. É claro, se você me levar para jantar fora pelo menos uma vez por semana, prometer me ensinar a dirigir e me dizer constantemente que sou maravilhosa e divertida, posso provavelmente dispensar Josias — disse Sophie, os olhos verdes divertindo-se diante da incredulidade expressa nos olhos dele.

— Sim, para comer fora. Não para as aulas de di­reção: eu seria um professor insuportável. Quanto à rotina de sedução sobre Josias, não vou copiá-lo — informou, ajeitando-a debaixo dele e com uma tama­nha intimidade sexual que a fez estremecer na expec­tativa do prazer que estava por vir. — Tenho meus próprios métodos, mi rica.

Mas foi o sorriso que silenciou-a. Aquele sorriso carismático que era só seu, e a convicção que lhe pas­sava de que nada era mais importante do que ela na­quele momento. Era seu sonho, e, esquecendo os me­dos, decidiu viver seu sonho.




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