Brilho da vida



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CAPÍTULO NOVE

Seis semanas depois, Sophie estava sentada no claro e colorido berçário. Antônio sempre tinha sido um realizador e, após ler um livro sobre desenvolvimen­to infantil, aprendera todas as instruções, e demons­trava com toda seriedade a Lydia como engatinhar. Sophie achou tanta graça que estava prestes a dar uma gargalhada, mas conseguiu manter a seriedade.

— Você está perdendo seu tempo — avisou-lhe gentilmente. — Alguns bebês podem engatinhar nes­sa idade, mas não acho que Lydia seja um deles. Ela é muito preguiçosa para tamanho esforço.

— Talvez só precise de encorajamento — Antônio informou-a teimoso, enquanto a sobrinha ria ao vê-lo de quatro no chão e estendia os braços para ser levan­tada.

— Não, Lydia não faz o tipo ativo. Basta ver o modo como se comporta. Belinda era assim. Eu não conseguia tirá-la da cama de manhã.

— Mas a filha dela pode puxar a mim...

— Acho que já saberíamos se isso estivesse escrito nas cartas — interpôs Sophie. — Vamos encontrá-la ditando ordens aos empregados através das barras do berço, estabelecendo seus objetivos de desenvolvi­mento e ameaçando fugir de casa se não a deixarmos sentar para examinar o mercado de ações.

— Eu não dito ordens...

— Bem, você o faz com educação, mas é uma pes­soa incrivelmente mandona — disse Sophie, vendo-o capitular diante dos pedidos de Lydia e suspendê-la no ar. — Só me prometa uma coisa... que não ficará desapontado com Lydia se ela fracassar.

Antônio a olhou com reprovação.

— Claro que não. Como pais só podemos esperar e rezar para que ela goze de boa saúde e seja feliz en­quanto cresce. Ela vai ter a vida que escolher.

Sophie ficou impressionada com o bom senso e se culpou por se preocupar, achando que ele depositava expectativas demais em relação a Lydia. Afinal, nas semanas recentes, ela começara a notar que Antônio demonstrava todos os sinais de se tornar um pai fan­tástico. Para começar, Lydia simplesmente o adora­va. O rostinho brilhava de confiança, amor e prazer no instante em que Antônio aparecia. No início, tal­vez Antônio ficasse com Lydia porque sabia que isso era o que devia fazer. Mas as reações entusiásticas da sobrinha tinham aos poucos ganhado o interesse e a afeição do tio.

Quanto a Sophie, deleitava-se numa felicidade que nunca ousou pensar ter. Seis semanas atrás, Antônio levara Lydia e ela para uma ilha do Caribe por quase um mês. Tinham se divertido muito. Ele a ensinou a velejar, nadar e mergulhar, e ela o ensinou a fazer castelos de areia pouco rebuscados que Lydia podia destruir. Mesmo com um bebê a tiracolo, os empre­gados que os serviam tinham garantido que as férias fossem uma lua-de-mel no sentido literal da palavra.

Durante longos e infindáveis dias, tinham aprovei­tado a privacidade do terraço do quarto. Dias em que mal saíram da cama e entregaram-se de corpo e alma à atração magnética que os mantinha juntos, mesmo saciados. Ele era um amante incrível e, nesse depar­tamento, pareciam ser o casal perfeito. Ele não con­seguia manter as mãos longe dela, mas o mesmo acontecia com ela. Toda vez que o via queria conectar-se a ele de alguma forma, só para se convencer que ele ainda era seu.

Desde que voltaram do Caribe passavam quase todo o tempo no castillo. Ali, o ritmo mais vagaroso e o vas­to campo permitiam viver numa reclusão tranqüila que não poderiam usufruir em nenhum outro lugar. Sophie agora conhecia os empregados, conseguira organizar alguns jantares pouco formais e, gradativamente, co­meçava a se relacionar com os arrendatários também. Tinha um vocabulário razoável de palavras e expres­sões espanholas, e começara a ensinar novos pontos para um grupo do vilarejo. Sua habilidade com a agu­lha tinha cruzado as barreiras da língua e nacionalida­de e havia sido o melhor artifício para ser aceita como esposa de Antônio.

Antônio envolveu-a com os braços quando ela se levantou depois de colocar Lydia no berço.

— Almoço... — rosnou baixinho.

O contato e o cheiro familiar atingiram Sophie como um afrodisíaco instantâneo, e ela esfregou-se no musculoso corpo.

— Continue fazendo isso, e vai continuar faminta até a hora do jantar — prometeu Antônio.

Os joelhos bambearam com a ameaça sensual. Recostou-se na impressionante estrutura masculina, consciente do incontrolável despertar do próprio corpo. Ele falou num certo tom de voz olhando-a com aqueles olhos espetaculares de um certo jeito, e ela simplesmente desmanchou-se.

— Prefiro você ao almoço... — admitiu, as maçãs do rosto coradas de vergonha pela sua própria fran­queza.

Com uma risada, Antônio a girou para que o enca­rasse.

— Você foi feita para mim, enamorada.

— Ou você para mim.

No corredor, do lado de fora do berçário, ele a pu­xou para seus braços e capturou-lhe a boca com ânsia devastadora deixando-a tonta.

— Você virou minha vida de pernas para o ar, mas estou gostando.

O celular começou a tocar antes de chegarem ao quarto. Trocaram olhares irritados e com um suspiro ele atendeu. Ela sabia pela sombra nas feições more­nas que algo importante tinha acontecido e que ele te­ria que partir.

Um arrendatário, um homem idoso que conhecia Antônio desde criança, estava doente há muito tempo e lhe pedia que fosse visitá-lo.

— Preciso ir — disse Antônio grave.

— Eu sei. — Sophie mascarou a decepção e sorriu para mostrar que compreendia, pois tinha aprendido a apreciar-lhe a seriedade e o forte sentido de respon­sabilidade.

Abriu a porta do quarto e arregalou os olhos ao ver os magníficos arranjos de flores brancas que enfeita­vam os cantos do quarto.

— Minha nossa...

— Era para ser uma surpresa. Eu devia ter mantido você longe do quarto até eu voltar.

— Ainda falta uma semana para o meu aniversá­rio...

— Eu sei... — Antônio a viu remover o envelope do maior arranjo floral. — Mas faz dois meses que estamos juntos e estamos comemorando, querida.

A garganta ficou apertada e os olhos úmidos de lá­grimas quando examinou o cartão. Era um gesto tão romântico, e ela ficou realmente emocionada. O que tinha acontecido com o casamento por conveniência? Ele dissera para esquecer como o casamento deveria ser, e ela não precisou de encorajamento para esque­cer aquele contrato de negócios original, pois estava loucamente apaixonada por ele. Ele tinha sugerido que curtissem estarem casados e desde então todo dia, toda noite tinha sido de pura alegria. Nunca nin­guém se empenhara tanto para deixá-la feliz. Não era de admirar que ela o adorasse. Com uma mão trêmula ela deslizou o dedo por uma delicada flor branca.

— Você não gosta delas?

Piscando os olhos através das lágrimas, ela envol­veu-lhe o pescoço, apertou-o e sussurrou:

— Eu as adoro e aprecio a gentileza.

Antônio dirigiu até a fazenda isolada para visitar o ancião que tinha sido um dia o ferrador de cavalos. Estava se despedindo da família do homem doente quando o telefone voltou a tocar. Era seu amigo, Na­varro Teruel, médico da família.

— Você pode vir encontrar-me no hospital?— Na­varro soava estranhamente formal. — Sei que normalmente vou ao castelo, mas, nesse caso, acho meu consultório mais adequado.

Subindo na caminhonete empoeirada que usava na propriedade, Antônio concordou:

— Posso ir agora mesmo. Alguma coisa errada?

— Prefiro não discutir o assunto por telefone. Antônio sentiu-se ligeiramente nauseado. Seria a avó? Há umas duas semanas, Antônio tinha autoriza­do Navarro a fazer uma bateria de testes, inclusive o teste de DNA em Lydia. Dios mio! Teria o médico detectado uma doença? Mas por que demorara tanto para avisar-lhe do resultado adverso?

Sophie nem sabia sobre metade desses testes. So­phie pegara uma virose, e Antônio é quem levara Ly­dia para tomar vacina. Navarro tinha sido bem detalhista. Compreendia a preocupação de Antônio sobre o risco de sopro cardíaco e o desejo de não preocupar a esposa desnecessariamente. Na maioria dos casos, essa doença tinha cura. Então, por que Navarro soava tão constrangido?

E se houvesse algo sério com Lydia? Leucemia? Podia ser hereditário? Pensou no bebê mais alegre do mundo, sofrendo e lutando pela vida. As mãos aper­taram o volante. Imaginou o que essa terrível batalha faria com Sophie... e com ele. Sabia que precisaria ser forte pelos dois. No momento não se sentia forte.

Navarro, um homem alto, magro, de óculos, abriu a porta do consultório. Já era tarde, e a recepção esta­va vazia.

— Entre, Antônio.

Com o rosto pálido, Antônio recusou o convite para sentar-se.

— Dê-me as más notícias.

— O resultado do DNA da filha de sua falecida cu­nhada chegou essa tarde.

— Você me chamou aqui para discutir essa histó­ria de DNA? — interrompeu-o surpreso.

— Você me pediu que fizesse o teste quando trou­xe Lydia. Como sabe, fiz o teste da saliva em você e nela, e os enviei para o laboratório. Imagino que, como eu, não pensou mais no assunto.

— Não mesmo... Creio que deva ter me chamado aqui para dizer que há algo errado com Lydia.

— Lydia é uma criança perfeitamente saudável. — Mas Navarro ainda estava preocupado ao estender uma folha de papel dobrada para seu antigo colega de colégio. — Mas é melhor olhar isso. Eu mesmo fiz o teste, então ninguém teve acesso a essa informação.

Antônio abriu o documento e leu as linhas datilo­grafadas várias vezes com total concentração.

— Isso não pode ser verdade... deve ter havido um engano!

— Lamento, mas o teste prova, sem qualquer som­bra de dúvida, que Lydia não é filha de seu irmão — pronunciou Navarro com um suspiro consternado. — A criança não tem parentesco com sua família. Não carrega nenhum de seus genes.

Antônio estava tão chocado que caiu na cadeira em frente ao outro homem. Começou a falar, mas mudou de idéia. Era muito reservado. Navarro podia ser seu amigo desde a infância, mas isso era um as­sunto familiar que dizia respeito à honra.

— Estou certo de que essa notícia vai ser igual­mente dolorosa para sua esposa, por isso preferi não

ir ao castelo. Tente não julgar a mãe de Lydia tão du­ramente, meu amigo...

Antônio não mais escutava. Uma raiva sombria vi­nha como uma onda, arrastando os laços de confiança que formara recentemente. A criança que considera­va sua sobrinha, o bebê que tinha aprendido a olhar como sua própria filha, era uma impostora, uma far­sa. Não tinha um pingo do sangue da família Rocha nas veias. Belinda e Sophie deviam saber a verdade. Recusava-se a pensar diferentemente.

— Preciso ir para casa. Navarro parecia preocupado.

— Espere um pouco antes de tomar uma decisão, Antônio. As pessoas cometem erros, e com freqüên­cia os inocentes pagam o preço.

Mas Antônio estava muito enraivecido para abra­çar essa visão filosófica. Fora vítima de um golpe! O que mais podia ser? Tinha se casado com uma estra­nha com a convicção de que a menininha era filha do irmão. Mas devia ter insistido em fazer os testes de DNA para provar a identidade da criança antes. Em retrospecto, não podia acreditar ter sido tão ingênuo. Tinha ignorado o conselho do advogado de ter pre­caução e fazer o teste, mas teve pressa de se casar e resolver a situação. Também ficou envergonhado com o papel que o irmão desonesto representara no empobrecimento da mulher. Questionar a paternida­de do filho de Belinda, diante desse passado, teria sido adicionar insulto à injúria.

Mas não era estranho que só no momento em que ele decidira afastar Lydia de Sophie algo acontecesse para mudar sua intenção? O quanto tinha sido influenciado pela história chorosa contada na hora cer­ta sobre a incapacidade de Sophie ter filhos? Será que Sophie tivera leucemia quando criança? Como sabia que ela não era fértil? A história não viera de Sophie, e o tato o impedira de verificar com ela. Se a sra. Moore tivesse mentido para ajudar Sophie a enrique­cer graças a Lydia, Sophie podia isentar-se de qual­quer responsabilidade.

De volta ao castillo, Antônio entrou no imponente salão e serviu-se de um brandy. As mãos tremiam. Esvaziou a taça e subiu para o berçário. Não sabia o porquê dos passos terem-no levado automaticamente para lá. A luz estava acesa, e a enfermeira que estava dobrando as roupas, afastou-se para deixá-lo em paz. Lydia tinha dormido, o rostinho sereno emoldura­do pelos cachos. Parecia-se muito com Sophie, no­tou. Lydia tinha a mesma constituição delicada, o formato do rosto e a pele, mas o cabelo era mais escu­ro e os olhos eram de outra cor. Antônio examinou a criança que não tinha nada a ver com a história. Nun­ca antes se interessara por crianças, mas aprendera a amar Lydia. Ainda assim, ela era filha de um estra­nho mesmo que não lhe parecesse estranha. Sophie também não era uma estranha? Afinal, a mulher que ele julgava conhecer jamais o decepcionaria dessa maneira.

Sophie observou-se criticamente no espelho da sala de vestir, e chegou à conclusão que estava inde­cente. Se o alarme de incêndio soasse, e ela fosse for­çada a pular de uma janela, teria que fingir que o motivo de estar somente com a roupa de baixo era por que acabara de sair do banho. Vestia uma lingerie de renda e seda azul adornada com pequeninas rosas e pérolas, a última palavra em erotismo e audácia. Es­tava ridícula? As mulheres fotografadas em conjun­tos similares sempre tinham pernas que iam até o teto e rostos lindos estampados com uma expressão supe­rior de total enfado. Ela praticou o olhar de enfado enquanto tentava eliminar seu pior medo: e se Antô­nio risse?

A comida que tinha pedido chegou num carrinho, bem como um balde de gelo e champanhe. Começou a acender velas perfumadas. Ele lhe tinha dado flores e um cartão romântico, e ela lhe daria... uma reprise da noite de núpcias com jantar no chão e sexo. Que analogia... Bem, não podia dizer que o amava, podia? Ele certamente não a agradeceria por nenhuma con­fissão dessa natureza. Vamos aproveitar, ele dissera. Não havia nada de profundo ou emocional na suges­tão.

Nervosa, segurou o pingente de diamante em for­mato de flor na garganta. Ele o tinha dado de presente quando estavam no exterior. Também tinha compra­do para ela um relógio sofisticado e os brincos de bri­lhante, e ela não tinha dúvida de que receberia algo ainda mais caro e precioso para marcar seu aniversá­rio. Comprara também vários outros presentinhos para ela e Lydia. Era muito generoso. Ela deveria ter comprado algo para ele? Não, quando um cara podia comprar tudo, uma mulher tinha que encontrar outra forma de presenteá-lo. Mas ela parecia uma mulherzinha... vulgar?

Quando a porta abriu, chamou:

— Antônio? Feche os olhos antes de entrar!

Ele não os fechou: olhou e ardeu de raiva e, acima de tudo, de desejo. Ali estava ela esperando-o quase desnuda, o pecado em miniatura: desinibida e sexy. Era uma combinação que mexia com sua libido.

Deparando-se com o olhar frio de Antônio, Sophie ficou vermelha até a raiz dos cabelos e sentou-se abraçando os joelhos. Sentiu-se uma perfeita idiota, pois o desinteresse dele era palpável.

— Eu estava me vestindo... e decidi tirar um co­chilo — mentiu levantando-se da cama com tanta pressa que quase caiu.

— Você sabia que Lydia não era filha de meu ir­mão? — perguntou Antônio num tom de voz casual.

Diante da pergunta inesperada, Sophie ficou petri­ficada, e os olhos verdes se arregalaram.

— Repita...

— Se está tentando me convencer que não suspei­tava, perde seu tempo — contrapôs com escárnio. — Não posso acreditar que não soubesse. Como podia não saber? Sua irmã morava com você quando estava grávida, e vocês eram amicíssimas...

— Deixe-me entender... assim do nada você vem sugerir que Lydia pode não ser filha de Pablo? O que é isso? Alguma brincadeira sem graça?

— Antes fosse. Acho que vai ter que fazer mais do que desfilar de calcinhas sexy para tirá-la dessa em­brulhada!

— Numa embrulhada, eu? — perguntou, tentando não demonstrar o quanto a referência à sua aparência a deixava sem graça. — Só explique porque está me enchendo com essas tolices. Tem idéia de como está me insultando?

— E existe uma maneira gentil de discutir o assun­to? Belinda dormiu com outro homem que não meu irmão, e esse homem é pai de Lydia.

— Não ouse tentar enlamear a reputação de minha pobre irmã com mentiras asquerosas! — gritou.

— Pode ser asquerosa, mas não é uma mentira. O teste de DNA — e eu tenho o resultado — garante que não há nenhum relacionamento de sangue entre nós...

— Como você fez teste de DNA? Isso não é possí­vel!

— O teste foi feito há umas duas semanas, quando levei Lydia para uma consulta com Navarro Teruel...

— Você fez isso escondido...

— Não é isso...

— Foi exatamente isso!

— Eu sabia que o teste seria necessário antes de ir à Inglaterra para vê-la. Meu advogado avisou que o fato de Lydia ter nascido depois que Pablo e Belinda estavam separados, e depois da morte dele, poderia despertar dúvidas sobre a paternidade da criança. Qué demônios! A ironia é que eu não tive dúvidas, mas esse teste tinha que ser feito para proteger a criança no futuro...

Sua cabeça girava com as idas e vindas da explica­ção.

— Não posso aceitar o que diz. Por que alguém iria pensar coisas tão sujas sobre uma criança inocen­te?

— Quando há dinheiro envolvido, mesmo meus parentes não estão isentos de conjecturas maliciosas.

Sophie ficou ainda mais confusa.

— Dinheiro? Que dinheiro?

— Minha avó é uma mulher rica. No minuto em que soube da existência de Lydia, decidiu alterar o testamento e deixar uma herança substancial para a bisneta — esclareceu friamente. — Por esse motivo, eu mesmo achei que seria sensato provar, por todos os meios possíveis, que Lydia era a herdeira legítima de meu irmão.

— Eu não tinha idéia sobre a herança ou sobre os planos de sua avó. Mas isso não o isenta da culpa de tirar vantagem da minha doença para fazer testes em Lydia sem meu conhecimento!

— Na época, meu objetivo principal era que ela fi­zesse um exame médico geral. Não quis preocupá-la, mas ela me parecia muito pequena e frágil...

— Achou que eu a tivesse negligenciado, não é?

— Não, minha preocupação estava relacionada ao fato de que alguns bebês em minha família nasceram com sopros cardíacos.

— Certo. Mas que papo é esse de Lydia não ser fi­lha de Pablo?

— Ela não é filha dele. O teste provou isso.

— Ainda não acredito em você... Ou você enten­deu mal ou está mentindo! — acusou-o desesperada. — Belinda não teve ninguém até Lydia nascer. Al­guém cometeu um terrível engano.

Antônio olhou-a com desprezo.

— Você está me fazendo perder tempo com esses protestos vazios. Minha opinião é que você e a sra. Moore estavam cientes de que Lydia não tinha paren­tesco comigo. Também acho que você quis tirar van­tagem da decepção...

— Que decepção? — exclamou Sophie com tanta ênfase que a voz falhou.

— Esperava que eu lhe pagasse uma bela quantia para cuidar da criança na Inglaterra. Sou um homem rico. Valia a pena tentar fazer Lydia se passar por fi­lha de meu irmão...

— Essa é a insinuação mais revoltante que já ouvi, e parece se esquecer que minha irmã nomeou você como um dos tutores da filha no testamento. Ela tam­bém estava decepcionada? Está dizendo que minha irmã sabia que ia morrer? E que diabos tem Norah a ver com tudo isso?

— Ela era o ás na sua manga. As coisas não esta­vam muito boas para você no dia em que falei com você na praia, estavam? Minha intenção era trazer Lydia para a Espanha, e você não ia lucrar com isso. Então o que fez?

Sophie deu de ombros.

— Não sei... você tem uma imaginação impressio­nante. — Lutava com todas suas forças contra a dor de constatar que seu relacionamento podia desinte­grar-se tão rápido numa torrente de estúpidas acusa­ções e suspeitas. — Me diga você o que supostamen­te fiz em seguida.

— Você mandou a sra. Moore ao meu hotel na ma­nhã seguinte...

Sophie fitou-o surpresa.

— Que diabos você está dizendo?

— E a mulher fez um trabalho excelente para ganhar minha simpatia.

— Se Norah foi vê-lo, eu não sabia...

— É claro que você sabia. Sua boa amiga Norah me disse que eu não podia separar você de Lydia por­que, tendo sofrido de leucemia infantil, você era esté­ril. Engoli a história triste e, como qualquer homem faria, fiquei relutante em fazer perguntas sobre essa tragédia pessoal.

Ao ouvi-lo, Sophie sentiu-se traída e como se ti­vesse levado um soco. Quando se referiu aos proble­mas de fertilidade, ficou branca como a neve. O terrí­vel silêncio reinou enquanto lutou para recuperar-se do golpe mortal e, ainda assim, manter a cabeça er­guida.

— Não fazia idéia que Norah tivesse ido vê-lo es­condido para intervir a meu favor. Ela não tinha o di­reito de lhe falar sobre meus assuntos pessoais. La­mento. Preferia tomar veneno a pedir sua simpatia!

Antônio não conseguia afastar o olhar penetrante do rosto. Ela parecia traumatizada. Soube no ato que a visita de Norah ao hotel não fazia parte de nenhum golpe, e que o que lhe contara confidencialmente era verdade. Foi tomado de arrependimento pela maneira com que lidara com o assunto delicado. Fez um mo­vimento instintivo em sua direção.

— Sophie... se isso é verdade, eu vou...

— Você vai o quê? É, é verdade sobre a leucemia e a infertilidade, mas nada disso tem a ver com a teo­ria conspiratória que imaginou sobre Lydia — voci­ferou afastando-se e cobrindo o corpo com uma man­ta. — Não acredito no que está dizendo, mas não dou a mínima. Lydia ainda é Lydia, ainda é minha sobri­nha, e não precisa de um tio esnobe ou do dinheiro da

bisavó... Ela nunca precisou de vocês porque tinha a mim. E aconteça o que acontecer, ainda tem a mim!

Tendo terminado essa declaração de independên­cia, desapareceu no banheiro, batendo, trancando a porta e ignorando as batidas. Tentou argumentar com ela, mas ela o mandou calar-se e deixá-la em paz. Ele ameaçou pegar a chave mestra se não saísse. Sophie respondeu que ia gritar e fazer tamanho estardalhaço que todos os empregados ainda comentariam o que aconteceu em cem anos.

CAPÍTULO DEZ

Sophie sentou-se no frio ladrilho. Abraçou as pernas, o olhar perdido no vazio.

Tudo chegara ao fim. As loucas esperanças ro­mânticas, viver o hoje sem precisar preocupar-se com o amanhã, o casamento. Tudo. Antônio preferia acreditar que ela era uma mentirosa, uma trapaceira, uma interesseira. O relacionamento deles parecia tão fantasioso e inconsistente quanto uma bolha de sa­bão. Parecia estar acordando para um pesadelo. No espaço de minutos, Antônio pegou seu amor, seu or­gulho, e até mesmo sua fé nele, e destruíra tudo, como se não valessem nada. Obviamente, o que vive­ram não valia nada para Antônio.

Sophie engoliu o soluço preso na garganta. Como podia ser tão egoísta? E Lydia? Se Lydia não fosse uma Rocha, perderia tanto... A nova família, a casa e o futuro promissor. Não podia esperar que Antônio continuasse a representar uma figura paterna. A úni­ca coisa que sabia sobre testes de DNA é que eram considerados prova definitiva. Ainda assim, achava quase impossível acreditar que a irmã — que julgava conhecer tão bem — tivesse sido infiel a Pablo.

Ao mesmo tempo, relutava em lembrar-se do co­mentário perspicaz de Norah sobre Belinda. Ela tam­bém insinuara que Belinda só contava à irmã caçula o que esta quisesse ouvir. O coração de Sophie desfaleceu ao passo que os comentários reveladores iam e vinham em sua cabeça. Obviamente, Norah sabia mais do que ela estava preparada a admitir. Teria que investigar se ela podia esclarecer a situação.

No momento, a raiva de Antônio era uma prova convincente: Lydia era filha de outro homem. Não lançaria acusações devastadoras sem fortes evidên­cias. Ele também estava triste. Tinha se apegado a Lydia. O erro fora esquecer que Antônio só tinha se casado com ela para dar à suposta sobrinha uma mãe e um lar estável.

Sophie aproximou os joelhos dos seios. Norah ti­nha confiado a Antônio seu maior segredo: tinha con­tado que ela não podia ter filhos. Queria correr para ele e contar-lhe que havia uma mínima chance de conceber. Mas para quê?

Ela até compreendia porque Norah tinha intervin­do e contado a Antônio. Tentara ajudar Sophie a manter o bebê que amava. Tinha deliberadamente contado uma história triste na desesperada tentativa de envergonhá-lo e embaraçá-lo para que deixasse Sophie e Lydia em paz. É claro, não ocorrera a Norah que a reação de Antônio seria uma proposta de casa­mento. Não era de admirar que a mulher tivesse fica­do tão aborrecida com o casamento deles. Porque Norah sabia que Antônio assim teria agido por pie­dade.

As lágrimas inundaram-lhe os olhos, mas nenhum som escapou, pois estava determinada a não deixar Antônio ouvir seu pranto. Mas o que tinha acabado de ser forçada a aceitar era a mais dolorosa verdade que jamais tivera que engolir. Ou seja, gostasse ou não, Norah soubera exatamente como manipular Antonio. Antônio prestava muitos serviços beneficen­tes. Era cheio de princípios decentes. E devia ter fica­do morrendo de pena de Sophie quando percebeu que Lydia era o mais próximo de uma filha que teria. En­tão, decidira que não poderia privá-la de Lydia, e essa foi a única razão para lhe propor casamento... o voto de piedade. Sentia dor, humilhação, rejeição e as lá­grimas continuaram a escorrer por um longo tempo. Duas horas depois, emergiu do banheiro. Ficou muito surpresa ao se deparar com Antônio ainda à es­pera.

— O que você quer? — perguntou, evitando enca­rá-lo.

— Quando recebi a notícia sobre Lydia perdi a ca­beça... desculpe, querida. Foi o choque, o que não justifica a maneira como despejei minha raiva em você.

— E, bem, você não vai fazer isso de novo — res­pondeu Sophie do quarto de vestir onde colocava uma muda de roupa íntima numa maleta.

— Não vou — concordou Antônio. — Vamos en­frentar juntos esse desafio...

— Não, obrigada. Isso não é um desafio... Isso é o final de algo que nunca deveria ter começado.

Antônio apareceu na porta.

— O que está fazendo?

— A mala.

— Fazendo a mala... para ir aonde?

— Voltar para casa.

— Esta é sua casa.

— Não, esta é a sua casa. Quero falar com Norah e descobrir se ela sabe mais sobre Belinda do que eu.Presumo que o teste de DNA que você mencionou está correto, e gostaria de saber quem é o pai de Ly­dia.

— Vou com você.

— Não. Isso não lhe diz mais respeito.

— Por favor, deixe que eu expresse meu...

— Realmente, não estou interessada em ouvir nada que queira expressar. Você se casou comigo porque achou que Lydia era filha de seu irmão. Ela não é filha dele, então...

— Há mais entre nós dois do que isso — argumen­tou. — Você está furiosa comigo e tem toda razão...

— Então saia da frente e me dê espaço para fazer a mala...

— Seria tolice viajar a essa hora da noite. Levanta­remos cedo e voaremos para Londres amanhã...

— Não vou voar para lugar nenhum com você. Já falei... Lydia e eu não temos mais nada a ver com você...

— Você é minha mulher, e não vou permitir que nosso casamento acabe por causa disso.

Sophie soltou uma risada.

— Casamento? Que casamento? Nunca tivemos um casamento! Nos divertimos juntos, fizemos mui­to sexo e só!

Antônio tentou tocá-la. Ela deu um safanão com violência suficiente para persuadi-lo a afastar-se.

— Mantenha-se afastado de mim!

— Se eu pudesse apagar o que disse, eu o faria. Mas o fato é que por nunca me ter dito que era estéril, suspeitei que Norah tivesse inventado essa história!

Sophie empalideceu. Nunca tinha pensado no as­sunto sob este ângulo. Embora estivesse relutante em admitir, podia entender como seu silêncio sobre esse assunto poderia ter levantado a suspeita da mentira.

— Não contei porque não tínhamos um casamento de verdade — disse, tentando defender-se.

— O que você considera um casamento de verda­de?

— Um casamento em que o cara não diz coisas como "Por enquanto, vamos aproveitar", como se ti­vesse um caso.

Antônio ficou ruborizado.

— Você tem razão. Mas eu ainda argumentaria que nosso casamento foi tão real quanto qualquer ou­tro. Todos os elementos estavam presentes...

— É, estavam... pretérito imperfeito. Foi bom en­quanto durou. Vamos nos separar enquanto nos fala­mos — retorquiu com um delicado sorriso.

Antônio respirou fundo.

— Vou para a Inglaterra com você.

— Não me importa o que faça desde que nos deixe em paz.

— Lydia não vai nos acompanhar.

— Como?

— Lydia vai ficar no castillo até retornarmos.



— Mas eu não planejo retornar! Quero levá-la co­migo...

— Não. Lydia não vai a lugar nenhum sem meu consentimento. Você não está no seu juízo perfeito para tomar decisões importantes sobre o futuro da menina.

— E o que lhe importa? Lydia não é nada sua...

Enfrentou-lhe o olhar acusador.

— Isso não é verdade. Me importo tanto com Lydia nesse momento quanto ao acordar esta manhã.

— Nesse caso... você pode nos visitar a cada seis meses.

— Lydia não vai viajar conosco amanhã para a In­glaterra. Precisamos conversar, você precisa me dei­xar falar.

Ela deu-lhe as costas.

— Você já falou o bastante por hoje.

— Sophie... — Ele tocou-lhe o ombro.

Ela afastou-lhe a mão. Depois a porta fechou-se, e ela teve vontade de gritar até exorcizar a agonia. Não queria que ele ficasse, mas não podia suportar que ele a deixasse. Mas o que dizer para um cara que tinha feito um enorme sacrifício por nada? Abrira mão da liberdade porque se achava no dever de cuidar de Ly­dia. Não resistir à tentação na lua-de-mel o levara a um relacionamento indesejado. Então, fizera o me­lhor que podia a curto prazo.

Ele era do tipo sempre disposto a fazer a coisa cer­ta — por mais doloroso que fosse. Ela o amava mui­to, mas não queria sua piedade. Sentia vergonha do comportamento da irmã. O testamento de Belinda os tinha levado a um casamento desastroso e, infeliz­mente, Lydia seria a maior vítima. Sophie não podia aceitar que Antônio ainda se preocupasse com Lydia agora que sabia que ela não era sua sobrinha.

Na tarde seguinte, o jato pousou em Londres. De­pois de uma noite em claro, Sophie dormiu pratica­mente todo o vôo. Antônio a velava. Cobriu-a com uma manta. Ajeitou o travesseiro. Sem se dirigir a ele, dava fortes sinais de seu péssimo humor. Tirara a aliança, e até mesmo o relógio que ele lhe havia dado. Vestia uma camiseta e um jeans gasto que ele se lem­brava de ter visto na primeira visita. Ficou incomoda­do por ela ter voltado a vestir essas peças apesar das roupas novas.

— Você pode ficar no carro — disse Sophie pouco à vontade do lado de fora do pequeno bangalô de Norah. — Se eu descobir alguma coisa, prometo com­partilhar com você.

Ela tinha ligado para Norah para avisar da visita, e também havia falado sobre o resultado do teste.

— Você sabia que Lydia não era de Pablo? Norah acenou relutante.

— Por que não me disse?

— Belinda me implorou que não o fizesse, e de­pois que ela faleceu não vi motivos para aborrecer você...

— Não posso acreditar que minha irmã tenha fala­do com você e não comigo!

— Ela era sua irmã mais velha, e queria que você cuidasse dela. Também não planejou me contar.

— Fico grata que ela tenha falado com você por­que assim pelo menos posso descobrir a verdade.

— Bem, um dia eu apareci à noite e encontrei Be­linda bebendo. Passei-lhe um sermão por estar bêba­da enquanto carregava no ventre uma criança, e ela simplesmente riu. Você sabe como ela podia ser tola. Perguntou se eu ficaria chocada se me contasse que a criança não era do marido. Estava doida para contar a alguém.

— O que ela falou sobre o pai de Lydia?

— Que tinha saído com um bando de homens dife­rentes que pegava em bares, e não tinha a menor idéia de qual deles era o responsável. — Sophie a estudava consternada. — Ela saiu dos trilhos por uns tempos. Acontece. O casamento estava falindo. Pablo vivia fora, tinha outras mulheres, e ela decidiu se divertir também.

— Que confusão... que confusão terrível. Mas se sabia desde o início que Lydia não era de Pablo por que nomeou Antônio como tutor?

— Aposto que só preparou o testamento depois que Pablo morreu. Acho que estava envergonhada e queria esquecer o que fizera. Queria fingir que o bebê era do marido. Certamente se arrependeu de ter me contado a verdade e começou a me hostilizar.

— Também sei que você foi procurar Antônio. Ele me contou.

— Outra bomba... Esperava que Antônio deixasse você ficar aqui com a Lydia e a ajudasse financeira­mente. Em vez disso, ele a pediu em casamento.

— Agora compreendo porque era contra nosso ca­samento.

— Não quis interferir. Como podia saber o que se­ria melhor? Antônio queria o bem de Lydia, e eu não queria estragar a vida da pequena. Já ia perguntar como vai o casamento, mas posso ver que Antônio é pão-duro. Você ainda usa o mesmo jeans. Bem, pelo menos ele não anda fazendo dívidas como aquele ir­mão dele!

Sophie ficou rubra e apressou-se a dissuadi-la. Norah contou, satisfeita, que o filho tinha começado a sair com a filha de uma vizinha, e que o relacionamento parecia sério. Sophie voltou lentamente para a limusine.

— Você não precisa me dizer nada que não queira — disse Antônio lentamente num tom tentando parecer muito sensível.

— Belinda saiu com um monte de sujeitos diferen­tes, portanto nunca descobriremos quem é o pai de Lydia — respondeu Sophie, determinada a não rele­var o quanto estava ofendida com o comportamento da falecida irmã.

— Agora sou o pai dela — murmurou Antônio cal­mamente.

— Acredite, se Lydia fosse grande o suficiente para saber que você é passível de se compadecer de criancinhas e faxineiras, diria a você que não se preo­cupasse!

— E se eu disser a você que não fiquei com pena da faxineira... que na verdade eu queria a faxineira para mim? — perguntou afetuoso.

Sophie piscou, registrou a afirmação na mente, examinou-a sob todos os ângulos e lançou-lhe um olhar furioso de condenação.

— Eu saberia que está se sentindo culpado pelo que disse ontem, e não acreditaria em você.

O vôo de volta para a Espanha parecia não ter fim para ela. Uma refeição foi servida a bordo, mas per­dera o apetite. Quando a limusine os conduzia através do campo, finalmente sucumbiu ao encanto de olhar Antônio. Afinal, haveria pouca ou nenhuma chance no futuro de fazê-lo. O casamento tinha falido. Que razão tinham para permanecerem casados? Ia fazer as malas e voltar para a Inglaterra com um aceno alegre.

O aceno alegre e a impressão de indiferença eram es­senciais. Pelo menos, se saísse com a cabeça erguida, o orgulho ficaria intacto. Antônio, por outro lado, pa­recia muito frio. Mas ele tinha um tato e um senso de ocasião impressionantes, refletiu. Não seria educado abrir-se em sorrisos diante da possibilidade de divor­ciar-se.

Quanto tempo demoraria para esquecê-lo? A im­pressão que tinha é que o mundo inteiro estava cober­to por uma nuvem negra que impedia a luz de apare­cer. Sua experiência anterior demonstrava que não era fácil esquecer Antônio. O olhar demorou-se no perfil masculino, nos cabelos azuis de tão negros, no nariz clássico, na cor de ébano dos cílios e na curva sensual da boca. O calor invadiu-lhe a pélvis e pen­sou em seduzi-lo para irem apenas mais uma vez para a cama. Ficou tão envergonhada com o pensamento que se puniu desviando o olhar para a janela.

Quando as torres do castillo apareceram no hori­zonte, Sophie ficou assustada. A casa dos ancestrais de Antônio, localizada na floresta densa, parecia glo­riosa. A antiga fortaleza tinha, sem ter se dado conta, se tornado seu lar.

Mordeu os lábios, mantendo os olhos bem abertos, tentando segurar as lágrimas que ameaçavam saltar. Lembrou-se dos cafés-da-manhã na varanda quando Antônio cortara frutas para ela, fazendo-a sentir-se como uma princesa. Lembrou-se de como ele a dei­xara fora de si ao tentar ensiná-la a dirigir. Lembrou-se de como ficara nervosa, antes do primeiro jantar que oferecera, e de como ele debochara de seus temores e reforçado sua confiança ao convencê-la de ser muito mais inteligente do que ela jamais imaginara.

Num silêncio que fazia eco, e sem precisar trocar uma palavra, ambos foram direto para o berçário. Lydia dormia, sem ter ciência das revelações que ti­nham tumultuado o mundo dos adultos selecionados para cuidar dela.

— Você vai visitá-la? — Sophie ouviu-se pergun­tar enquanto voltava para o quarto.

— Lydia não vai a lugar nenhum — retorquiu An­tônio, diminuindo o passo.

— Você não tem o direito de me dizer isso...

— Não estamos discutindo direitos. Independente do que aconteça entre nós, pretendo continuar a de­sempenhar um papel ativo na vida dela.

— Me pergunto se vai mesmo. — Um cinismo os­tensivo ficou patente na declaração.

— Você vai ver que cumpro minhas promessas, mi amada. Quando digo que vou fazer uma Coisa, eu faço...

— Ah, pare de ser tão empolado e superior! — res­mungou, a infelicidade encontrando uma brecha para escapar.

Antônio soltou um palavrão e encarou-a desafia­dor.

— Não fale comigo nesse tom.

— Por quê? O que vai fazer? — rebateu, como um gato pronto a arranhar.

Antônio aprisionou-a na parede.

— O que você prefere?

O coração começou a bater como um tambor, res­pirava com dificuldade. Olhou-o com as pupilas dilatadas, cada célula da pele ansiando por ele, cada ter­minação nervosa vibrando de luxúria. Ela o desejou desesperadamente.

— Não... — Antônio disse debochado. — Nada de sexo... sem conversa!

Ficou de boca aberta. O rubor cobriu-lhe a com­pleição pálida. Desvencilhou-se.

— Eu não queria...

— Não ouse mentir para mim!

Sophie ficou arrasada ao ouvi-lo levantar a voz. Empalideceu. Ele tinha percebido que ela o desejava só pelo seu olhar. O que mais sabia? Que o amava?

— Antônio...

— Se não quiser falar, pode ao menos ouvir. — Curvou-se e pegou-a nos braços.

— Quando você está no meio de uma discussão, você não levanta a pessoa no colo — disse Sophie en­tre dentes.

Antônio olhou-a interrogativamente.

— Por que não?

— Por que é uma falta de respeito...

Antônio abriu a porta do quarto com o ombro e, parando apenas para fechá-la, caminhou até a cama e a colocou sentada na beirada.

— Você quer conversar?

— OK... Vou contar tudo pra você — disse Sophie.

— Por que não pensei nisso? Devia levá-la comigo para o escritório...

— Olha, não quero ouvir gracinhas. — De repente, Sophie começava a achar impossível manter sua pose de despreocupação. — Mas eu sei que só nos casamos porque você acreditava que Lydia fosse sua so­brinha.

— Não. Não sei — respondeu furioso.

— Não é hora para brincadeiras. Você achou que devia fazer as vezes de pai, e ficou com pena de mim porque Norah mencionou que eu não podia ter filhos...

Antônio fitou-a mais sereno e agachou-se para que os olhos estivessem na mesma altura.

— Isso não é importante, mi amada...

— É claro que é importante... como pode dizer que não é? — Sophie engasgou, as lágrimas afetando-lhe as cordas vocais. Cada palavra um desafio, as mãos inquietas.

— É triste — murmurou Antônio, segurando-lhe os dedos. — Mas você sobreviveu à leucemia, e esse foi o preço a pagar. Agradeço por você estar viva e saudável hoje.

— Por quê? — sussurrou Sophie sem saber aonde o diálogo os levava.

— Posso ficar sem filhos, mas não posso viver sem você.

Por um milésimo de segundo, Sophie ficou imóvel como uma estátua, pois não podia acreditar no que ele dizia. Soltou um suspiro.

— Você não pode estar falando sério... Está com pena de mim...

— Não tenho pena de você. Fiquei triste ao saber que era estéril, mas isso não é o fim do mundo, e exis­tem várias alternativas, como a adoção. Imagino que isso seja fonte de pesar para você, mas já aceitei.

— Mas como pode? — gaguejou Sophie, sem en­tender direito o que ele lhe dizia.

— As pessoas aceitam novidades bem piores. Se nossos papéis estivessem trocados e eu fosse estéril... Você me deixaria?

— Não! — exclamou Sophie imediatamente. Ru­borizada, acrescentou: — Mas é diferente.

— Diferente como?

— Eu não tenho um título.

— Títulos como o meu não servem para muita coi­sa no mundo de hoje.

— Há uma pequena chance de eu vir a engravidar. Os médicos não sabem exatamente o grau de danos causado pelo tratamento... mas não queria deixá-lo esperançoso.

— Não ficaria. Sugiro não pensar nessa longínqua possibilidade. Temos só uma vida, e devemos vivê-la da melhor maneira possível. Encontrei a seu lado uma felicidade que não conhecia, e me recuso a abrir mão dela — confessou Antônio, com sinceridade.

O silêncio durou um longo momento enquanto ela tentava compreender essa afirmação, pois tinha medo de acreditar que a felicidade estivesse a seu al­cance.

— Você recusa-se... quer dizer... você está dizen­do que quer continuar casado comigo mesmo que eu não possa ter filhos ?

Si, enamorada — confirmou.

— Eu faço você assim tão feliz?

— Faz...

— Então não acha o divórcio uma boa idéia?

— Nem pensar. — Levantou-se, levando-a com ele. — Não poderia deixar você partir... nunca. É in­crível. Nunca achei que pudesse me sentir assim. Es­tou completamente apaixonado por você.

O rosto inteiro se iluminou.

— Sério?

— Muito sério. Lydia surgiu como uma desculpa, e a agarrei. Minha habilidade para tomar decisões ra­cionais veio à tona no minuto em que voltei a vê-la. Até me diverti brigando com você. Não é uma loucu­ra? Tudo fugiu aos planos...

— O dia de nosso casamento foi horrível...

— Eu queria que você vestisse um vestido branco longo. Quando apareceu com aquela roupa florida, achei que estava debochando da ocasião.

— Não, quem dera eu soubesse disso. Achei que você ficaria furioso se eu vestisse uma roupa tradi­cional! — lamentou-se.

— Não é sua culpa. Não sabia o que queria até ser tarde demais. — O arrependimento demonstrado no olhar de Antônio tocou-lhe o coração. — Não fiz nada do que devia ter feito para tornar o dia especial para você.

— Mas você foi brilhante na noite de núpcias — apressou-se em dizer. — Aquilo foi especial.

— Nem sabia direito o que sentia por você. Quan­do você veio com a desculpa de ter me pego como co­baia, eu fiquei... não entendi que era uma brincadeira. Me senti zangado, ofendido... magoado — admitiu.

Sophie abraçou-o num pedido de desculpas.

— Eu estava muito ocupada pensando em como fazer para perceber seus sentimentos. Quando não me sinto segura, a tendência é tornar-me agressiva.

— Eu fiquei longe de você e me senti infeliz. Não reconheci o que estava errado comigo até voltar e vê-la novamente — admitiu Antônio, segurando-lhe o queixo para admirar-lhe o rosto. — Percebi que tinha que me empenhar muito para mudar o curso de nosso relacionamento e fazê-la feliz.

— Você conseguiu... — A garganta ficou apertada ao dizer as palavras, pois emoções fortes a percor­riam. — Eu também tenho sentimentos por você mas tenho feito tudo para esconder o fato.

— Tipo ameaçar pegar Lydia e me deixar? — per­guntou enquanto acariciava-lhe o rosto. — Nunca re­pita isso. Eu fiz mal no que diz respeito aos testes de DNA, mas durante as últimas vinte e quatro horas você quase arrancou meu coração. Estava com tanto medo de perdê-la, e tudo por causa de algo que não tem a mínima importância.

— Você ficou chocado ao descobrir que Lydia não era sua sobrinha... não o culpo por pensar mal de mim também. Mas não durou muito — disse condescen­dente. — Mas como pode dizer que o parentesco de Lydia não importa?

— Ser filha de Pablo sempre seria uma vergonha para ela. As pessoas têm boa memória e meu irmão tem fama ruim. Pelo menos Lydia não vai sofrer com esse estigma.

Sophie sentiu-se agradecida por ele discutir aberta e honestamente o passado de Lydia.

— Você vai ter que contar a Dona Ernesta. Ela vai ficar muito decepcionada?

— Minha avó ficará desapontada, mas vai com­preender. Acho que devíamos adotar Lydia.

— Acha mesmo? Eu adoraria.

— Não acho que Belinda planejou mentir sobre Lydia. Depois da morte de meu irmão, tentei várias vezes persuadi-la a me deixar fazer uma visita, e ela sempre recusou. Devia estar grávida e naquela altura, evidentemente, não estava pensando em fazer o bebê passar como filho de Pablo.

— Isso deve ter ocorrido depois, provavelmente porque queria esquecer que tinha ido longe demais.

— Lydia é linda. Vamos nos alegrar por ser nossa — sugeriu Antônio.

Ela abriu um sorriso mais brilhante que o sol.

— E assim que vamos sempre nos sentir com rela­ção a ela.

— E agora você gostaria de me contar sobre os sentimentos que estava determinada a esconder de mim?

Sophie ficou encabulada ao perceber que ainda não lhe tinha dito que o amava.

— Eu o amo... muito, muito, muito.

Os olhos de Antônio brilharam de satisfação, e ele a tirou do chão e beijou-a com o fogo de seu tempera­mento apaixonado. Um beijo levou a outro, e as coi­sas esquentaram rapidamente. Muito tempo depois, quando os dois estavam deitados abraçados, Antônio tentou fazer com que ela prometesse que iria nova­mente "vestir a lingerie sexy e jantar no chão", o que para ele tinha sido muito sedutor. Ela disse que ia pensar a respeito com cuidado, enquanto secretamen­te pensava em surpreendê-lo no aniversário dele.

Um ano depois, quando a adoção de Lydia foi le­galizada, Sophie e Antônio deram uma superfesta no castillo para celebrar.

Sophie sentiu-se indisposta e, durante o mês se­guinte, sofreu de alguns sintomas irritantes. Quando consultou o Dr. Teruel, descobriu estar grávida de três meses. A alegria dela e de Antônio foi indescrití­vel. Dividiam cada fase da gravidez com intenso in­teresse e gratidão.

A filha, Carisa, nasceu sem complicações. Lydia ficou tão excitada com a chegada de uma irmãzinha que trouxe todos os brinquedos para Carisa, e ficou desapontada ao saber que ainda precisaria esperar um tempo até que o bebê pudesse brincar com ela. Dona Ernesta confortou Lydia com a sugestão de que ela seria capaz de ensinar todos os jogos favoritos e con­tar-lhe histórias.

A essa altura o espanhol de Sophie era fluente, e ela começou a fazer um curso de conservação de teci­dos. Lydia tinha quase cinco anos quando Sophie concebeu pela segunda vez. Sophie deu à luz, um mês antes do tempo, a dois menininhos que rapidamente ganharam peso e se recuperaram de sua prematura chegada ao mundo. Eles chamaram os gêmeos de Francisco e Jacobo. O batizado foi celebrado na casa dos Rocha, em Madri. Uma série de fotos e uma rápi­da entrevista apareceram depois nunca revista, e o di­nheiro foi doado a uma entidade de caridade. Antônio tinha que aceitar que a mulher era uma espécie de ce­lebridade, e os fãs gostavam de vê-la nas revistas.

— Tenho uma surpresa, enamorada — confiden­ciou Antônio na noite do batismo quando todas as crianças estavam finalmente dormindo, e até mesmo a visita mais demorada já havia ido para casa. Fez com que fechasse os olhos enquanto deslizava-lhe um anel no dedo, mas ele ficou preso, e ela teve que empurrá-lo e espiou.

— Meu Deus do céu! — engasgou-se, impressio­nada pelo brilho do imenso diamante. — Por que isso?

— É nosso anel de casamento... com alguns anos de atraso — brincou Antônio com carinho. — Você ainda diria sim se eu a pedisse em casamento?

Sophie abriu um enorme sorriso de felicidade.

— Sim, ainda sou louca por você.

Antônio a envolveu nos braços e encontrou seus afetuosos olhos verdes.

— Nunca vou deixar de amá-la — prometeu e ela acreditou, toda a insegurança antiga fora há muito es­quecida diante de todo seu amor e atenção.

O preço DO amor — Michelle Reid

Xander Pascalis podia comprar qualquer coisa, inclusive uma esposa! No entanto, quando sua "recém-adquirida" esposa Helen se recusa a compartilhar a sua cama, Xander a leva para a sua ilha grega, para forçá-la a cumprir seus votos matrimoniais. Ele quer fazer jus ao dinheiro e a ela.


Agora e sempre: — Lynne Graham

Faz oito anos desde o casamento por conveniência de Prudence e Nikolas Angelis. A relação deles nunca foi consumada, sem­pre viveram separados. Mas agora, Prudence deseja ter um bebê e quer o divórcio. No entanto, Nik está decidido: ele é o marido dela e será o pai dessa criança.


Brilho DA vida — Lynne Granam

Antônio Rocha considerava Sophie Cunningham uma desnaturada. Ela estava criando á sobrinha num trailer! Mas ele admi­rava o amor com que Sophie cuidava da menina. Até que Antônio se descobriu atraído por Sophie e sabia como pôr em prática essa pai­xão: um casamento arranjado de acordo com os seus propósitos...


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