C a p í tuloxv I “a semente Que SemeaIs, Outro Colhe ”



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C A P Í T U L O X V I

A Semente Que SemeaIs, Outro Colhe...”



OUVI dizer num ônibus da Quinta Avenida: “Meu Deus!

Mais piquetes! Já estou cansada desses grevistas andando de um

lado para outro em frente de lojas e fábricas, com seus cartazes

de protesto. Por que o governe não mete todos eles na cadeia?”

A senhora indignada que fez essa observação não conhecia

bem a história. Pensava ter uma solução fácil para um problema

simples. Mas estava totalmente errada. Sua solução fora tentada

repetidas vezes, sem que se resolvesse nada. Na Inglaterra há

mais de cem anos um magistrado comunicou ao Ministério do

interior seus planos para esmagar uma greve: “As medidas que

proposto são simplesmente prender esses homens e mandá-los

ao trabalho forçado.” 205

Exatamente o que sugeria a senhora — e, no entanto, essa

proposta foi feita em 1830. Com que resultados? Deixemos que

a senhora responda.

O magistrado do século XIX e a senhora do século XX parecem

não compreender que os trabalhadores não fazem piquetes

porque gostem de andar de um lado para outro carregando

cartazes, e não fazem greve porque não desejem trabalhar. As

causas são mais profundas. Para descobri-las, devemos voltar à

história inglesa, porque ali ocorreu primeiro a Revolução industrial.

205 J. L. e B. Hammond, The. Twon Labourer, 1760-1832. Longmans,

Green and Co., Londres, 1933.

190 HISTÓRIA DA RIQUEZA DO HOMEM

É fato bem conhecido que as estatísticas podem provar qualquer

coisa. Nunca nos proporcionaram um quadro mais falso

do que o relativo ao período de infância da Revolução Industrial

na Inglaterra. Toda tabela de números mostrava progressos

tremendos. A produção de algodão, ferro, carvão, de qualquer

mercadoria, multiplicou-se por dez. O volume e o total de

vendas, os lucros dos proprietários — tudo isso subiu aos

céus. Lendo tais números ficamos surpreendidos. A Inglaterra,

ao que tudo indica, devia ter sido então o paraíso que os

autores de canções mencionam sempre. Foi, realmente —

para uns poucos.

Para muitos, podia ser qualquer coisa, menos um paraíso.

Em termos de felicidade e bem-estar dos trabalhadores, aquelas

estatísticas róseas diziam mentiras horríveis. Um autor mostrou

isso num livro publicado em 1836: “Mais de um milhão de seres

humanos estão realmente morrendo de fome, e esse número

aumenta constantemente... ...É uma nova era na história que um

comércio ativo e próspero seja índice não de melhoramento da

situação das classes trabalhadoras, mas sim de sua pobreza e degradação:

é a era a que chegou a Grã-Bretanha.” 206

Se um marciano tivesse caído naquela ocupada ilha da Inglaterra

teria considerado loucos todos os habitantes da Terra.

Pois teria visto de um lado a grande massa do povo trabalhando

duramente, voltando à noite para os miseráveis e doentios buracos

onde moravam, que não serviam nem para porcos; de outro

lado, algumas pessoas que nunca sujaram as mãos com o trabalho,

mas não obstante faziam as leis que governavam as massas,

e viviam como reis, cada qual num palácio individual.

Havia, na realidade, duas Inglaterras. Disraeli acentuou isso

em sua Sybil: “Duas nações; entre as quais não há intercâmbio

nem simpatia; que ignoram os hábitos, idéias e sentimentos uma

da outra, como se habitassem zonas diferentes, são alimentadas

com comida diferente, têm maneiras diferentes, e não são governadas

pelas mesmas leis.”

“O Senhor fala de...”, disse Egremont, hesitante.

“DOS RICOS E POBRES.” 207

206 P. Gaskell, op. cit., Londres, 1838. Prefácio.

207 B. Disraeli, Sybil or the Two Nations (1845). Macmillan & Co.,

Ltd., Londres, 1895, p. 74.

A SEMENTE QUE SEMEAIS, OUTRO COLHE...” 191

Essa divisão não era nova. Mas com a chegada das máquinas

e do sistema fabril, a linha divisória se tornou mais acentuada

ainda. Os ricos ficaram mais ricos e os pobres, desligados

dos meios de produção, mais pobres. Particularmente ruim era a

situação dos artesãos, que ganhavam antes o bastante para uma

vida decente e que agora, devido à competição das mercadorias

feitas pela máquina, viram-se na miséria. Temos uma idéia de

como era desesperada a sua situação pelo testemunho de um deles,

Thomas Heath, tecelão manual:

“Pergunta: Tem filhos?

“Resposta: Não. Tinha dois, mas estão mortos, graças a Deus!

“Pergunta: Expressa satisfação pela morte de seus filhos?

“Resposta: Sim. Agradeço a Deus por isso. Estou livre do

peso de sustentá-los, e eles, pobres criaturas, estão livres dos

problemas desta vida mortal.” 208208

O leitor há de concordar que, para falar desse modo, o homem

devia realmente estar deprimido e na miséria.

O que acontecia aos homens que, reduzidos ao estado de

fome absoluta, já não podiam lutar contra a máquina, e finalmente

iam buscar emprego na fábrica? Quais eram as condições

de trabalho nessas primeiras fábricas?

As máquinas, que podiam ter tornado mais leve o trabalho,

na realidade o fizeram pior. Eram tão eficientes que tinham de

fazer sua mágica durante o maior tempo possível. Para seus donos,

representavam tamanho capital que não podiam parar — tinham

de trabalhar, trabalhar sempre. Além disso, o proprietário

inteligente sabia que arrancar tudo da máquina, o mais depressa

possível, era essencial porque, com as novas invenções, elas podiam

tornar-se logo obsoletas. Por isso os dias de trabalho eram

longos, de 16 horas. Quando conquistaram o direito de trabalhar

em dois turnos de 12 horas, os trabalhadores consideraram tal

modificação como uma bênção.

Mas os dias longos, apenas, não teriam sido tão maus. Os

trabalhadores estavam acostumados a isso. Em suas casas, no

sistema doméstico, trabalhavam durante muito tempo. A dificuldade

maior foi adaptar-se à disciplina da fábrica. Começar numa

hora determinada, para, noutra, começar novamente, manter o

208 Reports from Asistant Hand-Loom Weaver’s Commissioners, op.

cit., Parte II, p. 232, 1840.

192 HISTÓRIA DA RIQUEZA DO HOMEM

ritmo dos movimentos da máquina — sempre sob as ordens e a

supervisão rigorosa de um capataz — isso era novo. E difícil.

Os fiandeiros de uma fábrica próxima de Manchester trabalhavam

14 horas por dia numa temperatura de 26 a 29°C, sem terem

permissão de mandar buscar água para beber. Estavam “sujeitos

às seguintes penalidades ou multas:

Por deixar a janela aberta ......... 1 s. 0 d.

Por estar sujo ............................ 1 0

Por se lavar no trabalho............. 1 0

Por consertar o tambor com gás

aceso ......................................... 2 0

Por deixar o gás aceso além do

tempo ........................................ 2 0

Por assobiar .............................. 1 0” 209

Parece fantástico, mas era verdade, e não constitui caso isolado.

A maioria dos males hoje só existentes em companhias

exploradoras ou em comunidades atrasadas, como por exemplo

receber em bônus ou ter de comprar no armazém da companhia,

ou ainda morar numa casa da companhia, era familiar aos trabalhadores

no período inicial do industrialismo.

Os capitalistas achavam que podiam fazer como bem entendessem

com as coisas que lhes pertenciam. Não distinguiam entre

suas “mãos” e as máquinas. Não era bem assim — como as

máquinas representavam um investimento, e os homens não,

preocupavam-se mais com o bem-estar das primeiras.

Pagavam os menores salários possíveis. Buscavam o máximo

de força de trabalho pelo mínimo necessário para pagá-las.

Como mulheres e crianças podiam cuidar das máquinas e receber

menos que os homens, deram lhes trabalho, enquanto o homem

ficava em casa, freqüentemente sem ocupação. A princípio,

os donos de fábricas compravam o trabalho das crianças pobres,

nos orfanatos; mais tarde, como os salários do pai operário e

da mãe operária não eram suficientes para manter a família, também

as crianças que tinham casa foram obrigadas a trabalhar nas

fábricas e minas. Os horrores do industrialismo se revelam melhor

pelos registros do trabalho infantil naquela época.

209 J. L. e Barbara Hammond, op. cit., pp. 19-20.

A SEMENTE QUE SEMEAIS, OUTRO COLHE...” 193

Perante uma comissão do Parlamento em 1816, o Sr. John

Moss, antigo capataz de aprendizes numa fábrica de tecidos de

algodão, prestou o seguinte depoimento sobre as crianças obrigadas

ao trabalho fabril:

“Eram aprendizes órfãos? — Todos aprendizes órfãos.

“E com que idade eram admitidos? — Os que. vinham de

Londres tinham entre 7 e 11 anos. Os que vinham de Liverpool,

tinham 8 a 15 anos.

“Até que idade eram aprendizes? — Até 21 anos.

“Qual o horário de trabalho? — De 5 da manhã até 8 da

noite.


“Quinze horas diárias era um horário normal? — Sim.

“Quando as fábricas paravam para reparos ou falta de algodão,

tinham as crianças, posteriormente, de trabalhar mais para

recuperar o tempo parado? — Sim.

“As crianças ficavam de pé ou sentadas para trabalhar? —

De pé.


“Durante todo o tempo? — Sim.

“Havia cadeiras na fábrica? — Não. Encontrei com freqüência

crianças pelo chão, muito depois da hora em que deveriam

estar dormindo.

“Havia acidentes nas máquinas com as crianças? — Muito

freqüentemente.” 210

Em 1883 a Comissão fez novamente um relatório sobre o

emprego de crianças nas fábricas. Nesse relatório, há um depoimento

de Thomas Clarke, de 11 anos, ganhando 4 xelins por semana

(com a ajuda do irmão) como emendador de fios. Eis parte

de sua história: “Sempre nos batiam se adormecíamos... ...O

capataz costumava pegar uma corda da grossura de meu polegar,

dobrá-la, e dar-lhe nós... ...Eu costumava ir para a fábrica

um pouco antes das 6, por vezes às 5, e trabalhar até 9 da noite.

Trabalhei toda a noite, certa vez... ...Nós mesmos escolhíamos

isso. Queríamos ter algum dinheiro para gastar. Havíamos

trabalhando desde as 6 da manhã do dia anterior. Continuamos

210 Report of the Minutes of Evidence Taken Before the Selected

Committee on the State of the CMtdren Employed in the Manu

factories, 1816, p 178-180.

194 HISTÓRIA DA RIQUEZA DO HOMEM

trabalhando até as 9 da noite seguinte... ...Estou agora na seção

de cordas... ...Posso ganhar cerca de 4 xelins......Meu irmão faz

o turno comigo. Ele tem 7 anos. Nada lhe dou, mas, se não fosse

meu irmão, teria de dar-lhe 1 xelim por semana Levo-o comigo,

às 6, e fica comigo até às 8.” 211

O trabalhador infantil não era novidade. O leitor deve lembrar-

se da descrição do sistema doméstico, feita por Defoe à página

123 deste livro. Mas antes o trabalho das crianças era complemento

do trabalho dos pais; agora, passara a ser a base do

novo sistema. Antes, as crianças trabalhavam em casa, sob a direção

dos pais, com horários e condições por estes determinados;

agora, trabalhavam em fábricas, sob a direção de um supervisor

cujo emprego dependia da produção que pudesse arrancar de

seus pequenos corpos, com horários e condições estabelecidos

pelo dono da fábrica, ansioso de lucros. Até mesmo um senhor

de escravos das Índias Ocidentais poderia surpreender-se com o

longo dia de trabalho das crianças. Um deles, falando a três industriais

de Bradford, disse: “Sempre me considerei infeliz pelo

fato de ser dono de escravos, mas nunca, nas Índias Ocidentais,

pensamos ser possível haver ser humano tão cruel que exigisse

de uma criança de 9 anos trabalhar 12 horas e meia por dia, e

isso, como os senhores reconhecem, como hábito normal.” 212

Esse dono de escravo poderia ter feito outra comparação.

Por pior que fossem as moradias dos escravos, tanto nas Índias

Ocidentais como Meridionais, poderia alegar que sob muitos aspectos

não eram piores do que as residências dos trabalhadores

nas novas cidades fabris. Com o advento da máquina a vapor, já

não era necessário às fábricas se localizarem junto às quedas

d’água como antes. A indústria mudou-se para as áreas de minas

de carvão, e quase que da noite para o dia lugares sem importância

se tornaram cidades, e antigas vilas passaram a cidades.

Em 1770 a população rural da Inglaterra era de 4O% do total;

em 1841, a proporção caíra para 26%. Os números relativos

ao crescimento das cidades revelam a história:

1801 1841

211 First Report of the Central Board of His Majesty’s Commissioners

on Employment of Children in Factories, 1833, pp. 31, 32.

212 J. L. e B. Hammond, op. cit., P. 160.

A SEMENTE QUE SEMEAIS, OUTRO COLHE...” 195



Manchester 35.000 353.000

Leeds 53.000 152.000

Birmingham 23.000 181.000

Sheffield 46.000 111.000 213

Os nomes devem ser conhecidos dos leitores. Lugares famosos,

produzindo artigos famosos. Artigos feitos por trabalhadores

que viviam em moradias escuras, insalubres, superlotadas.

Nassau Senior, economista de renome, passou por Manchester

em 1837, e assim descreveu o que viu: “Essas cidades,

pois pela extensão e número de habitantes são cidades, foram

construídas sem qualquer consideração pelo que não fosse a

vantagem imediata do construtor especulador... ...Num lugar encontramos

toda uma rua seguindo o curso de um canal, porque

dessa forma era possível conseguir porões mais profundos, sem

o custo de escavações, porões destinados não ao armazenamento

de mercadorias ou de lixo, mas à residência de seres humanos.

Nenhuma das casas dessa rua esteve isenta do cólera. Em

geral, as ruas desses subúrbios não têm pavimentação, e pelo

meio corre uma vala, ou há um monturo; os fundos das casas

quase se encontram, não há ventilação nem esgotos, e famílias

inteiras moram num canto de porão ou numa água-furtada.” 214

Atente o leitor para a frase grifada da citação acima. O efeito

dessas condições de habitação na saúde dos pobres que ali viviam

é evidente. As doenças e a morte assolavam os que tinham

a infelicidade de viver em ruas tão insalubres como essas.

Quem nascia no outro lado da cidade era realmente de sorte,

porque a média de vida era determinada pelo lugar onde se morava

— segundo o relatório do Dr. P. H. Holland, que realizou

uma investigação num subúrbio de Manchester, em 1844.

“Quando verificamos ser a taxa de mortalidade quatro vezes

maior em algumas ruas do que em outras, e duas vezes maior

em grupos de ruas do que em outros, e, ainda, que era invariavelmente

maior nas ruas em más condições e quase invariavelmente

menor nas ruas em boas condições, não podemos deixar

213 Th. Rothstein, From Chartism to Labourism, Martin Larence, Ltd.,

1929, p. 9.



214 Citado por Engels, A Condição da Classe Trabalhadora na Inglaterra

em 1844.


196 HISTÓRIA DA RIQUEZA DO HOMEM

de concluir que multidões de nossos irmãos, centenas de vizinhos

próximos, são anualmente destruídos por falta das precauções

mais simples.” 215

Como se sentia a outra nação, a dos ricos, com essa mortandade

de seus “vizinhos próximos”? Que atitude tinham as pessoas

ricas em relação às condições predominantes nas fábricas,

aos dias de 16 horas, ao trabalho infantil? A maioria nem pensava

nisso, absolutamente. Quando pensavam, consolavam-se

com o raciocínio de que tinha de ser assim. Não dizia a Bíblia:

“os pobres, sempre os tendes convosco?” 216 Não lhes importava

que a Bíblia tivesse outras coisas a dizer sobre as relações entre

os homens — liam apenas o que queriam ver, e ouviam apenas

o que queriam ouvir.

Algumas das coisas que hoje achamos horríveis pareciam

aos ricos de então perfeitamente justas. Era mau para as crianças

não irem à escola, trabalharem 14 horas por dia? Despropósito!,

exclamava o Sr. G. A. Lee, dono de uma tecelagem de algodão

na qual o horário das crianças era das 6 da manhã às 8 da

noite. “Nada mais favorável para a moral do que o hábito, desde

cedo, da subordinação, da indústria e regularidade.” 217

O Sr. Lee se preocupava com a moral dos pobres. Também

o presidente da Royal Society, Sr. Giddy, que foi contra a proposta

de se criarem escolas primárias para as crianças das classes

trabalhadoras. Foi este o argumento do Sr. Giddy: “Dar educação

às classes trabalhadoras pobres... ...seria na realidade prejudicial

à sua moral e felicidade; aprenderiam a desprezar sua

sorte na vida ao invés de fazer deles bons servos na agricultura

e outros empregos laboriosos, a que sua posição na sociedade os

destina... ...Permitir-lhes-ia ler folhetos sediciosos... ...e os tornaria

insolentes para com seus superiores.” 218

Mas se formos dar crédito a outra testemunha do período,

longe de desprezar sua sorte na vida, os pobres só tinham motivos

para serem gratos a ela. Felizes realmente eram os que faziam

parte daquela dádiva da humanidade, o sistema fabril. Pelo

menos assim pensava Andrew Ure, que em 1835 escreveu: “Em

215 Ibid.

216 São João, XII, 8.

217 Hammond, op,. cit., p. 163.

218 Ibid., p. 57.

A SEMENTE QUE SEMEAIS, OUTRO COLHE...” 197

minha recente viagem vi dezenas de milhares de velhos, jovens

e adultos, de ambos os sexos, ganhando alimento abundante,

roupas e acomodações domésticas, sem suar por um único poro,

protegidos do sol do verão e da geada do inverno em apartamentos

mais arejados e saudáveis que os da metrópole nos

quais se reúne nossa aristocracia de bom tom... ...Edifícios magníficos,

superando em número, valor, utilidade e engenhosidade

de construção os gabados monumentos do despotismo asiático,

egípcio e romano... ...Tal é o sistema fabril.” 219

Talvez seja conveniente observar que o Dr. Ure estava passeando

pelas fábricas — e não trabalhando nelas.

Muito antes que o Dr. Ure começasse a entoar loas ao sistema

fabril, um homem da Igreja dava consolo e ajuda aos pobres

miseráveis. Não era um sacerdote qualquer — mas sim o

próprio Arquidiácono Paley. Para os membros descontentes da

classe trabalhadora que se consideravam em má situação, ao

passo que os ricos viviam bem, esse ilustre clérigo teve palavras

de otimismo. “Algumas das necessidades que a pobreza

impõe não constituem durezas, mas prazeres. A frugalidade em

si é um prazer. É um exercício de atenção e controle que produz

contentamento. Este se perde em meio à abundância. Não

há prazer em sacar de recursos imensos. Uma vantagem ainda

maior que possuem as pessoas em situação inferior é a facilidade

com que sustentam seus filhos. Tudo de que o filho de um

pobre necessita está encerrado em duas palavras, ‘indústria e

inocência’.” 220

E se algum dos estúpidos pobres fosse cabeçudo demais

para acreditar que a pobreza fosse realmente um prazer, o arquidiácono

tinha outro argumento no bolso. Os pobres invejavam

aos ricos sua ociosidade. Que erro! Os ricos é que realmente estavam

invejosos — porque a ociosidade só constitui um prazer

depois do trabalho árduo. Eis sua argumentação: “Outra coisa

que o pobre inveja no rico é sua ociosidade. Trata-se de um engano

total. A ociosidade é a cessação do trabalho. Não pode, portanto,

ser gozada, ou mesmo provada, exceto pelos que conhecem

219 A. Ure, The Philosophy of Manufactures (1835). Londres, 1861, p. 17.



220 W. Paley, Reasons for Contentment: Addressed to the Labouring

Part of the British Public, Londres, 1793, pp. 11-12.

198 HISTÓRIA DA RIQUEZA DO HOMEM

a fadiga. O rico vê, e não sem inveja, o prazer e a recuperação

que o repouso proporciona ao pobre.” 221

O Arquidiácono Paley escreveu essas palavras confortadoras

em 1793. Foi nessa época que os pobres da França estavam tentando

derrubar os privilegiados. A Revolução Francesa foi um

acontecimento sangrento. Os ricos, na Inglaterra não gostaram.

Odiavam o pensamento de que a horrível idéia francesa de “abaixo

suas cabeças” pudesse atravessar o Canal e ocorrer também

aos pobres ingleses. Por isso, esse amigo dos pobres, o arquidiácono

advertiu aos ingleses que pudessem ser muito “esquentados”:

“A modificação, e a única modificação, a ser desejada, é o

melhoramento gradual e progressivo, fruto natural da indústria

bem aplicada... ...Isso pode ser esperado de um estado de ordem e

tranqüilidade pública; é absolutamente impossível em qualquer

outra situação... ...Ambicionar a situação ou a fortuna dos ricos, e

a tal ponto de desejar tomá-las pela força, ou através do tumulto e

confusão públicos, não só é mau, como insensato.” 222

Os pobres inglesa aceitaram o conselho do padre. Não “tomaram

a fortuna dos ricos”. Mas com o passar do tempo, começaram

a desejar aquele “melhoramento gradual e progressivo”, por

ele prometido como “o fruto natural da indústria bem aplicada”.

Tal melhoramento não ocorreu. Por isso lutaram para obtê-lo.

Lutaram, por exemplo por um dia de trabalho mais curto. E

a eles se uniram alguns dos ricos bastante humanos para concordar

que unia jornada de 14 ou 16 horas era demasiado longa.

Levaram a luta para o Parlamento. Fizeram discursos a favor da

limitação do dia de trabalho a 10 horas. Convenceram alguns de

seus colegas a aprovar com eles uma lei nesse sentido. Descontentaram

muita gente, inclusive o Dr. Ure. Este sentiu-se ofendido

— por uma razão interessante: “Constituirá realmente uma

surpresa para todos os espíritos desapaixonados que 93 membros

da Câmara dos Comuns pudessem ser capazes de determinar

que nenhuma classe de artesãos adultos trabalhe mais de 10

horas por dia — uma interferência na liberdade dos súditos, que

nenhuma outra legislatura na Cristandade teria tolerado por um

momento. Os industriais dc Gloucester caracterizaram, com justiça,

essa proposta como digna da pior idade média.” 223

221 Ibid., p. 16

222 Ibid., pp. 20, 22

223 Ure, op. cit., p. 297

A SEMENTE QUE SEMEAIS, OUTRO COLHE...” 199

O Dr. Ure, como o Arquidiácono Paley, era amigo do trabalhador.

Por isso, ele e os industriais de Gloucester se indignaram

com essa proposta de interferir na liberdade que tinha o

operário de trabalhar tanto quanto desejasse seu patrão. O que

seria das históricas liberdades dos ingleses, se o Parlamento

lhes tomasse o direito de estourar de trabalhar

Esse argumento de que a limitação das horas de trabalho interferia

na liberdade natural do homem era muito importante.

Foi usado repetidas vezes na América e na Inglaterra. Os industriais

que o levantaram (e é bastante curioso que os trabalhadores

não se importassem em ter seu direito natural, sob esse aspecto,

desrespeitado) inspiraram-se no grande economista

Adam Smith, o apóstolo do laissez-faire. É certo que Smith, o

violento opositor das políticas restritivas do mercantilismo, se

opôs decididamente a tal interferência. Os industriais podiam

citar a Wealth of Nations: “A propriedade que todo homem tem

de seu próprio trabalho, constituindo a base original de todas as

outras propriedades, é a mais sagrada e inviolável. O patrimônio

do pobre está na força e destreza de suas mãos; e impedi-lo de

empregar essa força e destreza da forma que lhe parece justa

sem prejudicar seu vizinho, é uma violação evidente do mais sagrado

direito... ...O julgamento de sua capacidade de ser empregado

deve ficar a cargo dos empregadores, cujo interesse está a

isso ligado.” 224

Adam Smith escrevera isso em oposição aos regulamentos e

restrições mercantilistas. Poderíamos dizer que os industriais

estavam omitindo alguma coisa, ao usar essa citação, escrita em

1776, para combater outro tipo de regulamentação. Mas suponhamos

que agiam com imparcialidade citando Smith. Não era

imparcial, porém, esquecer o que Smith disse, quando isso não

era de seu interesse. O hábito de citar o que justificasse seus

atos, esquecendo o que fosse contrário a eles, era útil à classe

dominante — e desastroso para a classe trabalhadora. Tal processo

foi empregado durante mais de cem anos.

Que poderiam fazer os trabalhadores para melhorar sua

sorte? Que teria feito o leitor? Suponhamos que tivesse ganho

a vida razoavelmente fazendo meias a mão. Suponhamos que

presenciasse a construção de uma fábrica, com máquinas, que

dentro em pouco produzissem tantas meias, a preços tão bara-

224 Adam Smith, op. cit., vol. I, p. 123.

200 HISTÓRIA DA RIQUEZA DO HOMEM

tos que o leitor tivesse cada vez maior dificuldade em ganhar

mais ou menos sua vida, até ficar à beira da fome. Naturalmente

pensaria nos dias anteriores à máquina, e o que fora então

apenas um padrão de vida decente lhe pareceria luxuoso,

em sua imaginação. Olharia à sua volta, e estremeceria com a

pobreza que estava atravessando. Perguntaria a si mesmo a

causa, como já teria feito mil vezes, chegando à mesma conclusão

— a máquina. Foi a máquina que roubou o trabalho dos

homens e reduziu o preço das mercadorias. A máquina — eis

o inimigo.

Quando homens desesperados chegavam a essa conclusão, o

passo seguinte era inevitável.

Destruir as máquinas.

Máquinas de tecer renda, de tecer meias, máquinas de fiar

— todas as máquinas que pareciam a certos trabalhadores em

certos lugares terem provocado a miséria e fome — foram destruídas,

esmagadas ou queimadas. Os destruidores de máquinas,

chamados luditas, ao lutarem contra a maquinaria sentiam que

lutavam por um padrão de vida. Todo seu reprimido ódio à máquina

libertou-se, ao se lançarem aos seus motins cantando canções

como esta:

De pé ficaremos todos

E com firmeza juramos

Quebrar tesouras e válvulas

E pôr fogo às fábricas daninhas. 225

É fácil imaginar o resultado dessa violência. Foram destruídas

propriedades, máquinas foram desmontadas pela multidão

irada. Os homens que eram donos das máquinas agiram com rapidez.

Recorreram à lei. E a lei não tardou em responder ao seu

apelo. Em 1812 o Parlamento aprovou uma lei tornando passível

de pena de morte a destruição das máquinas. Mas antes da

aprovação da lei, durante os debates, um membro da Câmara

dos Lordes fez seu discurso inaugural opondo-se à medida.

Lembrou aos legisladores que a causa da destruição das máquinas

fora a destruição dos homens: “Mas embora devamos admitir

que esse mal existe em proporções alarmantes, não podemos

negar que surgiu de circunstâncias provocadas pela miséria sem

225 F. Peel. The Risings of the Luddites, Chartists and Plugdrawers,

Heckmondwike, 1888, p. 284.

A SEMENTE QUE SEMEAIS, OUTRO COLHE...” 201

paralelo. A perseverança desses miseráveis em suas atitudes

mostra que apenas a carência absoluta poderia ter levado um

grupo de pessoas, antes honestas e industriosas, a cometer excessos

tão prejudiciais a si, a suas famílias e à comunidade...

...Na ingenuidade de seus corações acreditaram que a manutenção

e o bem-estar dos pobres industriosos eram questões mais

importantes do que o enriquecimento de algumas pessoas por

quaisquer melhoramentos nos instrumentos do comércio, que

lançavam os trabalhadores no desemprego e tornavam desnecessário

o seu uso...

“Chamais a esses homens de horda, desesperada, perigosa e

ignorante Estaremos conscientes de nossas obrigações para com

essa horda? É a horda que trabalha nossos campos, serve em

nossas casas — que constitui vossa marinha e vosso exército,

que vos permitiu desafiar a todo o mundo e pode também desafiar-

vos, quando a negligência e a calamidade a tiverem levado

ao desespero.” 226

O nome do homem que fez esse discurso, a 27 de fevereiro

de 1812, é conhecido dos leitores. Foi Lord Byron.

Destruir máquinas não era um plano bom. Mesmo que tivesse

êxito, não teria resolvido os problemas dos trabalhadores. Investiam

contra um objetivo errado. A máquina não era a causa

de seus males — mas sim o dono dela que, embora sem a mesma

ostensividade do latifundiário que fechava sua terra, mas com

igual eficiência, os estava afastando dos meios de produção.

Os trabalhadores verificaram logo que a destruição das máquinas

não era a solução. Tentaram outros métodos. Eis, por exemplo,

a petição de um grupo humilde, que se assinavas “Tecelões

Pobres”. Foi endereçada a seus empregadores em Oldham, Inglaterra,

em 18l8 “Nós, os tecelões desta cidade e vizinhanças, respeitosamente

pedimos vossa atenção para a difícil situação que

há muito estamos vivendo, devido à extrema depressão de nossos

salários, e vos pedimos que convoqueis uma reunião entre vós

para ver se não pode haver uma solução para aliviar nosso sofrimento

com um aumento dos salários, que bem sabeis não são suficientes

nem para comprar as coisas necessárias à vida. Somos de

opinião que se agísseis como um todo, isso seria possível sem afetar

vossos lucros, que estamos longe de querer prejudicar.” 227

226 Ibid, pp. 71-72, 75.



227 J. L. e B. Hammond, The Skilled Labourer, 1760-1932. Longmann,

Green and Co., Londres, 1919, p. 110.

202 HISTÓRIA DA RIQUEZA DO HOMEM

Houve outras petições. Centenas delas. Petições enviadas

não aos patrões — isso foi logo abandonado como inútil — mas

ao Parlamento. Muitas foram postas de lados mas outras receberam

certa atenção. Já havia algumas leis que poderiam ajudar a

aliviar a miséria da classe trabalhadora. Outras leis foram aprovadas,

em conseqüência dessas petições, e também das investigações

realizadas pelas comissões de legisladores que comprovaram,

fora de dúvida, serem verídicas as afirmações dos trabalhadores

sobre as miseráveis condições em que viviam.

Mas as leis nos livros são uma coisa. E as leis em ação, outra.

Os trabalhadores descobriram isso. Descobriram também

que a mesma lei podia ser aplicada em relação a eles de forma

inteiramente diferente da que era aplicada à classe dos empregadores.

Isso ocorria por vezes quando os trabalhadores levavam

suas reclamações aos tribunais, onde o magistrado que ouvia

sua causa era o próprio patrão, contra quem reclamavam! Nessas

circunstâncias, eram precárias as possibilidades de um julgamento

imparcial.

Mas a ligação nem sempre era tão íntima. Bastava, na maioria

dos casos, que o magistrado pertencesse à mesma classe dos

patrões. Ou, quando isso não acontecia, que pensasse da mesma

forma sobre as mesmas coisas. Os trabalhadores estavam em

baixo, os patrões em cima. Os magistrados partiam do princípio

de que os trabalhadores deviam ser gratos pelas poucas migalhas

que lhes eram atiradas, e deviam agradecer aos patrões por

essas migalhas. Nessas condições, a situação dos trabalhadores

não era nada favorável nos tribunais. Em The Town Labourer,

dois eminentes historiadores resumem o que estava acontecendo:

“O Parlamento não concedia grande coisa aos trabalhadores,

mas essas concessões, tal como eram feita; perdiam todo o valor

pela recusa dos magistrados em pôr em prática a legislação prejudicial

aos senhores... ...Os magistrados, em sua maioria, pareciam

considerar que, se os patrões não queriam obedecer à lei,

nada podiam fazer para obrigá-los a cumpri-la... ...Como não

podiam convencer os patrões a obedecer à lei, mandavam para a

cadeia os homens que tentavam obrigá-los a isso.” 228

O arguto observador que foi Adam Smith acreditava não ser

tal fato característico de um momento particular, mas uma ge-

228 J. L. e B. Hammond, op. cit., pp. 66-67.

A SEMENTE QUE SEMEAIS, OUTRO COLHE...” 203

neralização válida para todos os países capitalistas, em todas as

épocas. Os patrões, ao buscarem em seu herói a sanção de tais

atos, tinham o cuidado de não se deter neste trecho da Wealth of



Nations: “O governo civil, na medida em que é instituído para a

segurança da propriedade, é na realidade instituído para a defesa

do rico contra o pobre, ou dos que têm propriedades contra os

que não têm nada.” 229

Os trabalhadores aprenderam pela experiência essa verdade

amarga. Que podiam fazer? Um remédio aparentemente óbvio

surgiu. Se conquistassem o direito de voto, poderiam pressionar

os legisladores a fazer um governo de e para muitos, ao invés de

um governo de e para poucos. Perceberam que tinham de conquistar

o direito de opinar na escolha dos legisladores. Onde a

lei fosse feita pelos trabalhadores seria feita para eles. A lei criava

obstáculos — era uma lei feita pelos patrões — e se os trabalhadores

pudessem ajudar a fazê-la, teriam uma oportunidade.

Se o governo podia proteger os fazendeiros com leis sobre a importação

de trigo, e os industriais com impostos, poderia também

proteger os salários e horários dos trabalhadores. Portanto,

lutaram pelo direito de voto.

Estamos tão acostumados hoje, nos Estados Unidos e Inglaterra,

à democracia política, que nos inclinamos a acreditar que

ela sempre tenha existido. Evidente que não é assim. O direito

de voto para todos os cidadãos, tanto nos Estados Unidos como

na Europa, não foi concedido espontaneamente — veio em conseqüência

de uma luta. Na Inglaterra, a classe trabalhadora alinhou-

se atrás do movimento cartista, que reivindicava:

1. Sufrágio universal para os homens.

2. Pagamento aos membros eleitos da Câmara dos Comuns

(o que tornaria possível aos pobres se candidatarem ao posto).

3. Parlamentos anuais.

4. Nenhuma restrição de propriedade para os candidatos.

5. Sufrágio secreto, para evitar intimidações.

6. Igualdade dos distritos eleitorais.

O movimento cartista desapareceu lentamente, mas uma

após outra essas reivindicações foram conquistadas (exceto a

229 Adam Smith, op. cit., vol. II, p. 207

204 HISTÓRIA DA RIQUEZA DO HOMEM

dos parlamentos anuais). Os cartistas haviam defendido a democracia

política porque a consideravam uma arma na luta por melhores

condições de vida. Stephens, padre metodista, disse a

seus ouvintes: “O cartismo, meus amigos, não é um movimento

político que tenha por principal objetivo a conquista do voto

para todos. O cartismo é uma questão de sobrevivência: a Carta

significa uma boa casa, boa alimentação e bebida, prosperidade,

e menores dias de trabalho.” 230

O padre Stephens era um otimista. A classe trabalhadora ganhou

sua luta pela democracia política, mas as boas coisas que

ele previa como resultado dessa vitória não ocorreram. Ou pelo

menos ocorreram apenas em parte, e não só através do voto.

Talvez que o fator mais importante na conquista de melhores

condições para os trabalhadores, salários mais altos e dias menores

tenha sido sua própria organização, lutando na defesa de

seus próprios interesses — o sindicato.

O sindicato não era novidade. Foi uma das mais antigas formas

de organização dos trabalhadores, evoluindo naturalmente

das antigas associações de jornaleiros. Quando, porém, a importância

do capital na indústria tornou-se tão grande, as associações

de trabalhadores modificaram seu caráter, passando do tipo

de corporação para o do sindicato de hoje, ou seja, um corpo de

trabalhadores de um determinado ramo organizado com o objetivo

de conseguir melhores condições, de defender seus interesses,

de depender apenas de si mesmos.

Os sindicatos não surgiram da noite para o dia. Levou muito

tempo para que o sentimento de unidade do interesse de classe

surgisse, e, enquanto isso não ocorreu, uma verdadeira organização

em escala nacional foi impossível. Com a Revolução Industrial

o sindicalismo deu passos tremendos. Isso tinha de ocorrer,

porque a Revolução Industrial trouxe consigo a concentração dos

trabalhadores nas cidades, a melhoria dos transportes e comunicações,

essencial a uma organização nacional, e as condições que

fizeram tão necessário o movimento trabalhista. A organização

da classe trabalhadora cresceu com o capitalismo, que produziu a

classe, o sentimento de classe e o meio físico de cooperação e comunicação.

O sindicalismo é mais forte nos países mais industrializados,

onde o sistema fabril levou ao desenvolvimento de

grandes cidades. Isso foi assinalado por Friedrich Engels em

230 Citado por Engels, op. cit.

A SEMENTE QUE SEMEAIS, OUTRO COLHE...” 205

1844: “Se a centralização da população estimula e desenvolve a

classe dos proprietário; força também o desenvolvimento dos trabalhadores,

ainda mais rapidamente. Os trabalhadores começam

a se sentir como uma Classe, como um todo; começam a perceber

que, embora fracos como indivíduos, formam um poder

quando unidos. Sua separação da burguesia, a formação de idéias

peculiares aos trabalhadores e correspondentes à sua situação na

vida, são estimuladas, desperta a consciência da opressão, e eles

atingem a importância social e política. As grandes cidades são o

berço dos movimentos trabalhistas; nelas, os trabalhadores começam

a refletir sobre sua condição, e a lutar contra ela; nelas a

oposição entre proletariado e burguesia se manifestou inicial

mente; delas saíram o sindicalismo, o cartismo e o socialismo.” 2

31

A Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra, espalhou-se



por outros países. Em alguns, ainda está ocorrendo. E embora

nem sempre siga o modelo inglês, virando de condições ou na

atitude dos ricos, ou na reforma da legislação aprovada pelos

órgãos do governo, não obstante num ponto todos os países repetiram

a história da Inglaterra. Houve, em toda parte, uma

guerra aos sindicatos.

É uma velha guerra. As associações de trabalhadores com

objetivo de melhorar suas condições foram declaradas ilegais já

no século XIV, e em todos os séculos seguintes houve leis contra

tais agremiações. Em 1776 Adam Smith escreveu a propósito:

“Os salários habituais dos trabalhadores dependem em toda

parte do contrato usualmente feito entre essas duas partes, cujos

interesses não são, de forma alguma, os mesmos. Os trabalhadores

desejam conseguir o máximo possível, os patrões dar apenas

o mínimo. Os primeiros estão dispostos a se agrupar para.

elevar os salários do trabalho, os segundos também, mas com o

objetivo de reduzir esses salários.

“Não é difícil, porém, prever qual das duas partes deve, em

todas as ocasiões normais, ter vantagem na disputa Os patrões,

sendo em menor número, podem reunir-se com muito mais facilidade;

e a lei, além disso, autoriza, ou pelo menos não proíbe

suas associações, ao passo que proíbe a dos trabalhadores.

Não temos leis do Parlamento contra uniões para reduzir o

231 Engels, op. cit.



232 Adam Smith, op. cit., vol. I, pp. 68-69

206 HISTÓRIA DA RIQUEZA DO HOMEM

preço do trabalho; temos, porém, muitas contra as uniões para

elevá-los.” 233

O que Smith escreveu em 1776 se aplicava (e ainda se aplica)

a todos os países capitalistas do mundo. Mesmo quando a

lei proibia associações tanto de patrões como de empregado;

seu cumprimento era imposto principalmente aos últimos. Na

Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos, a lei foi dura

para com os sindicatos.

Durante um quarto de século, na Inglaterra, a lei considerava

ilegal que os trabalhadores se reunissem em associações para a

proteção de seus interesses. Quando isso ocorria, agia rapidamente

contra eles. “Nove chapeleiros de Stockport foram sentenciados

a dois anos de prisão em 1816, acusados de conspiração. O

juiz (Sir William Garrow), na sentença, observou: ‘Neste feliz

país onde a lei coloca o menor súdito em igualdade com a maior

personagem do Reino, todos são igualmente protegidos, e não

pode haver necessidade de se associar. A gratidão nos devia ensinar

a considerar um homem como o Sr. Jackson, que emprega de

100 a 130 pessoas, como um benfeitor da comunidade’.” 233

Para os chapeleiros que ousaram ingressar num sindicato —

dois anos de prisão. Para o Sr. Jackson, que tinha a bondade de

lhes dar emprego — louvor. Leiamos novamente a primeira frase

do juiz. Estaria realmente dizendo aquilo a sério?

Na França, como na Inglaterra, os movimentos para elevação

de salários eram considerados ilegais. Os juizes lamentavam

os trabalhadores que continuavam a desrespeitar a lei. Segundo

Levasseur, advertiam os operários contra as associações;

estes haviam percebido que divididos eram fracos, mas unidos

eram fortes, e por isso insistiam em suas atividades sindicais:

“Os juízes impunham sanções, sem aplicar sempre todo o rigor

da lei. ‘O tribunal’, diziam, ‘foi indulgente. Mas que isso lhes

sirva de lição, e lembre-se de que, se o trabalho traz conforto e

consideração, as associações apenas os levarão à prisão e à pobreza.’

Os trabalhadores... ...não aprenderam a lição. A única

coisa que conservaram na lembrança foi que a greve de 1822

lhes elevara os salários para 35 cêntimos por hora, e que a greve

de 1833 os elevara para 40 cêntimos; e em 1845 fizeram greve

para obter um salário de 50 cêntimos.” 234

233 Hammond, The Town Labourer, p. 209, nota

234 E. Levasseur, op. cit., vol II, p. 241

A SEMENTE QUE SEMEAIS, OUTRO COLHE...” 207

Também na Alemanha os trabalhadores aprenderam que os

sindicatos lhes davam a força de que tanto precisavam para melhorar

sua sorte. Em 1864 os impressores de Berlim fizeram

uma petição à Câmara dos Deputados prussiana: “Convencidos

de que a melhoria da condição social das classes trabalhadoras

exige primeiramente a abolição das restrições impostas aos trabalhadores

pelo atual código de leis, os infra-assinados jornaleiros

e impressores pedem: ‘Considerando... ...que a lei econômica

da oferta e da procura nem sempre assegura ao trabalhador o

mínimo necessário à simples subsistência; que o trabalhador individual

não está realmente em condições de elevar seus salários,

e que portanto o direito de união... ...é uma exigência tanto

da justiça como da razão... ...O regulamento do código industrial

de 1845, que proíbe a livre associação dos trabalhadores,

deve ser abolido’.” 235

A mesma história, por toda parte. Trabalhadores pedindo e

lutando pelo direito de se organizarem num esforço para tornar

menores as possibilidades contrárias a eles. Bastam dois itens

de um relatório feito no ano de 1935 pela Federação Metodista

do Serviço Social para mostrar como foi feroz nos Estados Unidos,

a luta pela sindicalização: “Weirton, W. Va... ...Uma campanha

de terror foi iniciada contra os membros ativos do sindicato...

...Todos os dias algum dos membros do sindicato é espancado

por grupos de homens mascarados. O primeiro a receber

tal tratamento foi abandonado a 20 quilômetros da cidade,

onde seus atacantes o deixaram como morto... ... Até agora,

mais cinco foram seriamente espancados, o último deles o presidente

da Federação das Associações.

“Todas as provas mostram claramente que a luta entre os

privilegiados e os não-privilegiados neste pais está degenerando

rapidamente e geralmente em violência... ...Pelo menos 73 trabalhadores,

meeiros e negros foram mortos em lutai econômicas

e linchamentos durante o ano; nenhum empregador teve

esse destino.” 236

Mas apesar de todos os esforços, legais ou ilegais, para esmagá-

los, os sindicatos resistiram. Não foi fácil. Os membros

dos sindicatos foram presos, os bens sindicais confiscados, os

235 H Müller, Geschichte dar deutschen Gewerkschaften bis zum

Jahre, 1878, Verlag Vorwarts, Berlim, 1918.



236 Federação Metodista de Serviço Social, The Social Questions Bulletin,

janeiro de 1936

208 HISTÓRIA DA RIQUEZA DO HOMEM

sindicatos tiveram que passar à luta subterrânea — tornaram-se

“associações beneficentes”, ou “clubes sociais”. As armas dos

sindicatos, como as greves e os piquetes, foram proibidas — e,

mesmo assim, os sindicatos sobreviveram. São o meio mais poderoso

que têm os trabalhadores para obter o que desejam —

um melhor padrão de vida.

Há mais de um século um grande poeta se dirigiu “Aos Homens

da Inglaterra”. Seu poema pode servir como um sumário

deste capítulo sobre as condições que se seguiram à Revolução

Industrial e reação dos trabalhadores a tais condições:

Homens da Inglaterra, por que arar

para os senhores que vos mantêm na miséria?

Por que tecer com esforço e cuidado

as ricas roupas que vossos tiranos vestem?

Por que alimentar, vestir e poupar

do berço até o túmulo,

esses parasitas ingratos que

exploram vosso suor — ah, que bebem vosso sangue

Por que abelhas da Inglaterra, forjar

muitas armas, cadeias e açoites

para que esses vagabundos possam desperdiçar

o produto forçado de vosso trabalho?

Tendes acaso ócio, conforto, calma,

abrigo, alimento, o bálsamo gentil do amor?

Ou o que é que comprais a tal preço

com vosso sofrimento e com vosso temor?

A semente que semeais, outro colhe

A riqueza que descobris, fica com outro,

As roupas que teceis, outro veste.

As armas que forjais, outro usa.

Semeai — mas que o tirano não colha.

Produzi riqueza — mas que o impostor não a guarde.

Tecei roupas — mas que o ocioso não as vista.

Forjai armas — que usareis em vossa defesa. 237

237 Shelley Complete Poetical Works, compilados por G. E.



Woodberry, Houghton Mifflin Company, 1901, pp. 364-365.
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