CAÇadas de pedrinho de monteiro lobato jaqueline Negrini Rocha Faculdade de Ciências e Letras de Assis Unesp



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CAÇADAS DE PEDRINHO DE MONTEIRO LOBATO

Jaqueline Negrini Rocha - Faculdade de Ciências e Letras de Assis - Unesp


João Luís Cardoso Tápias Ceccantini (orientador)

Este trabalho apresenta os primeiros resultados de um projeto de pesquisa de Iniciação Científica do PIBIC-UNESP, voltado ao levantamento sistemático da fortuna crítica de Caçadas de Pedrinho de Monteiro Lobato. Aqui serão abordadas as referências em livro feitas à obra, cobrindo uma bibliografia sobre literatura infanto-juvenil brasileira produzida de 1955 a 2000. Na continuidade do projeto, essa bibliografia será ampliada e serão pesquisados trabalhos sobre a obra publicados em jornais, revistas e periódicos.



Caçadas de Pedrinho, lançado em 1933, completa, neste ano, seu septuagésimo aniversário. A narrativa, dividida em dois grandes blocos, a caçada de uma onça do Capoeirão dos Taquarussus e a caçada do rinoceronte que foge de um circo e aparece no Sítio do Picapau Amarelo, continua atual. Isto, sobretudo se for levada em conta a permanência até hoje, no país, da burocracia estatal, problema abordado na segunda parte do livro, que faz referência à fundação do Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte, criado com a finalidade de não encontrar o paquiderme, já que o “chefe geral de serviço” e seus “doze auxiliares” perderiam o emprego se conseguissem caçá-lo. O escritor, mesclando humor, ludismo e crítica de cunho político, conduz seus leitores a uma mordaz reflexão sobre a realidade brasileira.

Monteiro Lobato começa a escrever para crianças em 1920, quando publica A menina do Narizinho Arrebitado. Em 1921 surge Narizinho Arrebitado, uma versão expandida da história anterior, e, no decorrer da década de 20, diversos livros são escritos, entre eles, em 1924, A Caçada da Onça. Críticos como Carmen Lúcia Azevedo, Márcia Camargos e Vladimir Sacchetta, em Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia, e Nelly Novaes Coelho em Dicionário Crítico de Literatura Infantil e Juvenil Brasileira apontam essa obra como a primeira versão de Caçadas de Pedrinho. Conforme registra Leonardo Arroyo em Literatura infantil brasileira: ensaio de preliminares para a sua história e fonte, A Caçada da Onça teve uma tiragem de 4.000 exemplares pela editora Monteiro Lobato, número alto, como as demais publicações de Lobato, para os padrões da época, e segundo um anúncio publicado em dezembro de 1924 na Revista do Brasil e reproduzido em Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia, esta obra foi vendida por 3$000. Nessa época, o escritor lança obras consideradas de alto teor lúdico que serão futuramente alteradas, revistas e integradas em outras, como Fábulas de Narizinho (1921), O Marquês de Rabicó (1922), O Noivado de Narizinho (1928), O gato Félix (1928), O Circo de Escavalinhos (1929). O Saci (1921) e Hans Standen (1927) também são desse período.

A década de 30 é muito fértil para o escritor que publica 16 livros de literatura infantil, muitos dos quais são ampliações das histórias publicadas em 20 ao lado de outros livros inteiramente novos. Peter Pan (1930), Reinações de Narizinho (1931), Viagem ao Céu (1932), Caçadas de Pedrinho (1933), História do mundo para crianças (1933), Emília no país da gramática (1934), Aritmética da Emília (1935), Geografia de Dona Benta (1935), História das invenções (1935), Memórias da Emília (1936), D. Quixote das crianças (1936), Serões de Dona Benta (1937), Histórias de Tia Nastácia (1937), O poço do visconde (1937), O picapau Amarelo (1939) e O minotauro (1939). Esse é o período que engloba diferentes gêneros literários: adaptações, traduções e originais, para utilizar a classificação de Nelly Novaes Coelho.

Reforma da Natureza, A chave do Tamanho e Os doze trabalhos de Hércules são as três obras infantis dos anos 40, respectivamente, 1941, 1942 e 1944. Encerra-se, com esses títulos, a produção lobatiana para crianças.

Torna-se perceptível e relevante a quantidade de livros paradidáticos da década de 30. Os críticos apontaram como uma tendência de Monteiro Lobato nessa época:


“É a partir de 1933 que se organiza o projeto pedagógico. Nesse ano, Lobato publica História do mundo para crianças, no qual assume um posicionamento iconoclasta em relação aos valores estabelecidos, quando estes se referem aos fatos históricos apresentados à infância na escola”. (Lajolo; Zilberman, 1984, p.77)
Segundo Lajolo em Do mundo da leitura para a leitura do mundo, no ensaio “Um Dom Quixote no caminho da literatura”, nos anos 30 Lobato dependeu da literatura para sobreviver. A aprovação das obras pelas professoras era, então, importante.
“Destacam-se aqui as obras cuja temática – por interessar à escola, ou por desfrutar do prestígio dos clássicos – garante circulação ampla e recompensa financeira para um quase insolvente Lobato que, em novembro de 1933, anuncia a AnísioTeixeira Emília no país da Gramática”.(Lajolo, 1994, p. 95)
Diversos críticos de Monteiro Lobato lembram a década de 30 como a fase da vida do escritor em que ele estava convencido de que havia petróleo no Brasil e empenhou-se nessa luta fundando companhias para a extração do minério e realizando palestras e debates na imprensa para esclarecimento e apóio de todos os cidadãos. As crianças não escaparam dessa doutrinação, preocupado em torná-las informadas publica, em 1937, O poço do visconde.

A crítica quando focaliza essa época na vida de Monteiro Lobato segue, normalmente, o caminho de tratar de forma bastante enfática sua produção paradidática e de não dar a devida atenção às obras ficcionais. Vale destacar que os anos 30 são de grande importância para a vida do escritor. Envolvido com questões sociais, ele contribuiu de maneira incomensurável para a formação de um pensamento político não apenas das crianças, mas também dos adultos que liam os seus artigos ou o ouviam. Dessa forma, esses dois elementos, petróleo e obras paradidáticas, sobressaem dos demais aspectos que envolvem a vida de Lobato.

Marisa Lajolo em Monteiro Lobato: a modernidade do contra (1985) anuncia a intenção, registrada pelo escritor em cartas aos amigos, de escrever alguns livros infantis, entre eles, a história da América Latina narrada pelo Vulcão Aconcágua, e faz a seguinte ressalva:
“parece sugerir que o recorte didático não foi abandonado nunca, muito embora entre os anos 30 e esse projeto irrealizado ele tenha escrito obras primas como O picapau Amarelo e Memórias da Emília, isentas de didatismo e estruturadas sobre a mais vigorosa fantasia”. (Lajolo, 1985, p. 52)
Da mesma autora, a obra Monteiro Lobato: um brasileiro sob medida (2000) é um texto reformulado a partir de Monteiro Lobato: a modernidade do contra. Na nova versão da obra de 1985 não se encontra mais a frase transcrita acima, e há um parágrafo confirmando a tendência de Lobato em criar a partir de 1930 livros didáticos.
“Na mesma busca de sintonia com seu tempo, não deixa de incorporar às histórias que inventa um lastro sólido de informações, muitas vezes coincidentes com o currículo escolar. Assim, em vários de seus livros encontramos uma escola alternativa, onde Dona Benta desempenha o papel de professora.

Particularmente nas obras produzidas nos anos 30, o sítio se transforma numa grande escola, onde os leitores aprendem desde gramática e aritmética até geologia e o bé-a-bá de uma política nacionalista de petróleo”. (Lajolo, 2000, p. 61)




O êxito literário de Caçadas de Pedrinho



Caçadas de Pedrinho em edição de língua espanhola – Las Cacerías de Perucho – aparece em forma de ilustração que reproduz a capa da obra em Um brasileiro sob medida, ilustrando a frase do crítico brasileiro Brito Broca, ao chamar a atenção do sucesso dos livros de Lobato na Argentina, aspecto enfatizado por Lajolo. Trata-se da única menção a este título lobatiano.

O êxito literário de Monteiro Lobato é tamanho que todas as suas obras infantis são traduzidas para o espanhol. O argentino Haydee Jofre Barroso publica em 1959, em seu país, a obra Monteiro Lobato, uma biografia do escritor, mas não se esquece de enumerar os livros infantis lobatianos e a importância de Lobato no panorama nacional.


“De su producción hay aproxidamente um millión de ejemplares en circulación en el país, y ha sido traducido al francés, al español, inglés, árabe, alemán, japonés, idisch e italiano.” (Barroso, 1959, p.63)

“Él fue mucho mas que un simple escritor de cuentos para niños: fué el dueño de un mundo maravilloso construido por él mismo, donde en un único ambiente y siempre con los mismos personajes realiza prodigiosos personajes que llenan volúmenes enteros.” (Barroso, 1959, p.63-64)


Na obra de Barroso, Caçadas de Pedrinho aparece traduzida como Cacerías de Pedrito, título diferente do registrado em Monteiro Lobato: um brasileiro sob medida, de Marisa Lajolo, em que o título está como Las Cacerías de Perucho.

A lista completa das obras infantis de Lobato, incluindo Caçadas de Pedrinho, aparece também nas obras de Nazira Salem, História da Literatura Infantil (1959) e Edgar Cavalheiro, Monteiro Lobato: vida e obra (1955). Este registra:


“Obras como Viagem ao Céu, As caçadas de Pedrinho, O saci, Memórias da Emília, A chave do Tamanho, História da Tia Nastácia, O Picapau Amarelo, A Reinação da Narizinho, criações originais formam ao lado das adaptações inteligentíssimas e outras, todo um ciclo maravilhoso, sem par na literatura universal.” (Cavalheiro, 1955, p.576)
Vera Teixeira de Aguiar, na obra que comemora o centenário de nascimento do escritor, Atualidade de Monteiro Lobato (1983), organizada por Regina Zilberman, escreve o artigo “Monteiro Lobato na escola”. A autora reproduz os resultados de um inquérito realizado no ano de 1980 entre professores de primeiro grau nos estados do Rio Grande do Sul e Minas Gerais, indicando que Caçadas de Pedrinho é uma das obras mais indicadas para as crianças mineiras. Maria do Rosário M. Magnani, na obra Leitura, literatura e escola: Subsídios para uma reflexão sobre a formação do gosto (1989), aponta os livros mais freqüentemente recomendados por professores aos alunos do Ensino Fundamental da rede pública da região de Campinas, Caçadas de Pedrinho aparece na quadragésima quinta posição, utilizado, sobretudo, com crianças de quinta série. Literatura Infantil: Gostosuras e Bobices (1991), de Fanny Abramovich, indica como leitura para crianças, entre outras indicações de obras de Lobato, Caçadas de Pedrinho. A obra O Estranho mundo que se mostra às crianças, também de Abramovich, traz depoimentos de diversas personalidades sobre as obras de Monteiro Lobato que mais as agradavam. Tatiana Belinky, responsável pela primeira adaptação do Sítio do Picapau Amarelo para a televisão, dentre as obras favoritas, cita Caçadas de Pedrinho. Maria Isabel Cattani e Vera Teixeira de Aguiar, na obra organizada por Regina Zilberman, Leitura em crise na escola, no artigo “Leitura no 1º Grau: A proposta dos currículos”, ao tratarem de textos avulsos utilizados em sala de aula, indicam Caçadas de Pedrinho, como uma das obras infantis que é alvo de adaptação, e que ao ser retirada de seu contexto original e adaptada, perde sua verdadeira significação. A obra, para passar pelo crivo da escola, tem a sua estrutura modificada para identificar-se com a ideologia que o uso escolar quer difundir.

Pôde-se notar que Caçadas de Pedrinho é uma obra bem recebida pelo público em geral, um livro bastante trabalhado nas salas de aula pelos professores na década de 80. Talvez seja necessária a realização de outros trabalhos como esse de averiguação para saber quais são os textos de Lobato que ainda permanecem vivos no universo escolar. É possível que, atualmente, com a exibição do Sítio do Picapau Amarelo pela Rede Globo, o escritor tenha sido redescoberto.



A crítica literária

Poucos são os críticos que abordam Caçadas de Pedrinho e quando o fazem, levantam apenas alguns de seus aspectos. Não há, portanto, o aprofundamento de questões relativas à obra, tem-se apenas um breve comentário destes elementos destacados em um texto ficcional com enorme riqueza a ser explorada. Muitos estudiosos focalizam, sobretudo, a segunda parte da narrativa, a caçada do rinoceronte, em Caçadas de Pedrinho.

André Luiz Vieira de Campos em A República do Picapau Amarelo afirma ser Caçadas de Pedrinho a obra de Lobato em que é mais notável o pensamento do escritor sobre os burocratas nacionais.

“Em sua literatura infantil, Lobato faz inúmeras críticas aos burocratas do Estado. A história infantil que melhor satirizou este tema está na 2ª parte do livro Caçadas de Pedrinho (1933). Este livro narra a história de um rinoceronte fugido de um circo, no Rio de Janeiro. O governo, preocupado com os transtornos causados pelo estranho animal, resolveu criar o “Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte, com um importante chefe geral de serviço, que ganhava três contos por mês e mais doze auxiliares com um conto e seiscentos cada um, afora um grande número de datilógrafas e encostados. Essa gente perderia o emprego se o animal fosse encontrado...” de modo que tudo faziam para que isso não ocorresse.” (Campos, 1986, p.66)


Literatura Infantil Brasileira: história & histórias, de Marisa Lajolo e Regina Zilberman, classifica a literatura de Monteiro Lobato como pertencente ao segundo período da literatura infantil nacional. Identificando que umas das características na literatura infantil nessa época é o predomínio do campo e suas formas de expansão, conclui que: “a ampliação para ambientes mais primitivos, dominados pela vida selvagem e animal: a selva ou a floresta, da qual nem Lobato fugiu, como se constata em Caçadas de Pedrinho.” (Lajolo; Zilberman, 1984, p. 81)

A integração da personagem Quindim à turma do Sítio é tratada por Sonia Salomão Khéde em Personagens da Literatura Infanto-Juvenil (1990). A autora afirma que em Reinações de Narizinho, de 1921, Monteiro Lobato apresenta já delineadas as personagens: Dona Benta, Tia Nastácia, Narizinho, Pedrinho, Emília, Visconde, Rabicó, Faz-de-Conta e o Burro Falante; lembra que o rinoceronte Quindim só aparece em Caçadas de Pedrinho. André Luiz Vieira Campos, também se refere a Caçadas de Pedrinho, em sua obra citada anteriormente, aludindo a Quindim como representante da força física, o poder de que menos se vale Lobato.


“O poder da força parece ter nesta República a função de apenas assustar, sem maiores conseqüências . Aliás, o Quindim inaugurou sua incorporação à família de D.Benta cumprindo uma missão deste tipo: através de um plano de Emília ele investe contra os burocratas do Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte, responsável pela tarefa de caçá-lo.” (Campos, 1986, p.144)
Contrários à literatura de Monteiro Lobato estão o Padre Sales Brasil que no capítulo de sua obra A literatura infantil de Monteiro Lobato ou Comunismo para crianças (1959), intitulado de Negação do direito à propriedade, transcreve o trecho final da obra Caçadas de Pedrinho e afirma ser Quindim um rinoceronte roubado pelos habitantes do Sítio e “um brinquedo muito engraçadinho”. O padre cita um trecho da obra lobatiana descontextualizado da narrativa para ilustrar o racismo que afirma existir em Lobato ao tratar dos negros, desconsiderando o seu carinho com eles ao criar duas personagens dessa raça: Tia Nastácia e Tio Barnabé. Virgínia Cortes de Lacerda, da Liga Universitária Católica Brasileira, é também contra a literatura infantil de Lobato conforme registra Zinda Maria Carvalho de Vasconcellos na obra O universo ideológico da obra infantil de Monteiro Lobato, ela ataca Caçadas de Pedrinho ao dizer que sua abordagem é centrada na realidade brasileira. “Diz que, em Caçadas de Pedrinho, Lobato descamba para a crítica à política e aos processos burocráticos.” (Vasconcellos, 1982, p.34)

Monteiro Lobato, escritor e pedagogo de Reynaldo Valinhos Alvarez trata de questões do universo ficcional infantil de Lobato, na obra observa que as personagens se alteram como líderes:
“Em Caçadas de Pedrinho, o menino não é apenas a personagem central. Lidera a história. Mas lidera numa divisão com o Saci, em diversos episódios dramáticos. O mesmo se pode dizer em relação ao Tio Barnabé. E a própria onça, vítima da caçada, não deixa de ser líder em determinados momentos.” (Alvarez, 1982, p.56)
Zinda Maria Carvalho de Vasconcellos na obra O universo ideológico da obra infantil de Monteiro Lobato afirma ser a literatura infantil de Lobato uma literatura engajada, principalmente os livros publicados depois de 1934, já que até 1933 os textos trazem elementos mais lúdicos e menos didáticos. A autora trabalha três grupos da produção infantil lobatiana: os propriamente ficcionais (11 obras); adaptações de obras contadas às crianças do Sítio (6 obras); e os livros paradidáticos (6 obras). Ressalta que todos os livros são de representação ficcional e mesmo nos de primeiro grupo existe conteúdo didático. Classifica Caçadas de Pedrinho como pertencente aos livros ficcionais do escritor.

Ela observa que história e sociedade são concepções de Lobato encontradas em todos os gêneros infantis desenvolvidos pelo escritor, mas são o objetivo da segunda parte de Caçadas de Pedrinho, História do Mundo para crianças, História das Invenções, Geografia de Dona Benta, Hans Standen, O poço do visconde, A chave do Tamanho, e da primeira parte de A Reforma da Natureza. Faz descrições de alguns livros que compõem cada grupo da produção do escritor, Caçadas de Pedrinho recebeu um espaço exclusivo em que aparece o resumo da obra. A autora ao falar da realidade brasileira ilustra com Caçadas de Pedrinho e O poço do Visconde.


“Não apenas a história se encarrega de mostrar a ineficiência da burocracia. Há vários e repetidos comentários irônicos sobre isso, ou na boca do narrador-geral ou postos na de um personagem. São salientados o fato de se fazerem obras desnecessárias, luxuosas e demoradas, e a relação subserviente da imprensa para como os órgãos oficiais.” (Vasconcellos, 1982, p.85-86)
O texto sedutor na literatura infantil, de Edmir Perrotti, analisa a obra de João Carlos Marinho, O caneco de prata. O autor faz um histórico partindo da produção de Monteiro Lobato para chegar na atual geração de escritores. De acordo com este autor, na década de 20 Lobato provocou uma ampla modificação na estrutura da narrativa das obras para crianças e jovens, porém somente o seu trabalho não foi suficiente para romper com o pragmatismo dos textos destinados aquele público. Apenas nos anos 70, a afirmação dos projetos lobatianos viabilizou-se com as novas condições sociais e foi nesse novo contexto que surgiram escritores como: Lygia Bojunga Nunes, Ana Maria Machado e João Carlos Marinho. Perrotti se vale da classificação das obras lobatianas feita por Marinho, Caçadas de Pedrinho aparece como “livro onde há história livre ou bem acasalada com propósitos didáticos”.

A transposição da leitora real Cléu para o mundo ficcional transformada na personagem de mesmo nome na obra Caçadas de Pedrinho é um elemento examinado por Regina Zilberman no artigo “Literatura infantil: livro, leitura, leitor” em A produção cultural para crianças.


“Ainda característico é o fato de leitoras das aventuras de Emília, Pedrinho e Narizinho, visitarem o Sítio e passarem aí por acontecimentos emocionantes. É o que sucede em Caçadas de Pedrinho, no qual se introduz a menina Cléu, e em O Picapau Amarelo, quando um grupo de garotas paulistas aparece nas terras de Dona Benta.

A situação de leitura apresenta facetas distintas, que se reduzem a duas posições básicas:

_Os figurantes do Sítio são ouvintes ou leitores reais, para quem a matéria narrada é ficção.

_O elenco do Pica-Pau Amarelo é ficção, conhecido por intermédio do livro publicado: porém, pode se tornar real, quando visitado por crianças oriundas do mundo histórico, as quais, uma vez incorporadas à narrativa, transmutam-se em ficção.

A leitura torna-se, no contexto da obra de Monteiro Lobato, radicalmente transitiva: ela permite as idas e vindas entre o âmbito do real e da fantasia, situando-se no lugar exato em que as criaturas passam de um setor a outro. Em Peter Pan e Don Quixote, os heróis apresentados por Dona Benta são resultados da imaginação de um escritor criativo; por sua vez, para Cléu e os meninos que visitam o sítio, são os netos de Dona Benta que detêm estas qualidades. Contudo, para que isto aconteça, é conveniente que eles se metamorfoseiem em personagens. Como, no elo final deste encadeamento, avulta o leitor real, esta criança também começa a penetrar no mundo imaginário e a compartilhar das aventuras.” (Zilberman, 1990, p.109)
Monteiro Lobato comenta em carta a Rangel de 3 de dezembro de 1931 sobre a menina:

“E ontem falei na Rádio com a filhinha do Octales, a Cleo, uma menina que é um encanto de desembaraço. Dialogamos inventadamente sobre o que nos veio na cabeça e todos gostaram.” (Lobato, 1956, p.325)

O escritor em carta a Alarico Silveira pede uma fotografia do “Sr. Alariquinho” para ser retratado em sua futura obra infantil na qual convidaria também “meninos e meninas de carne e osso da geração atual” para a festa que Narizinho organizaria. Registra que esse processo de transposição: “Fica interessante e vai ser uma alegria para eles”. [crianças retratadas]. (Cavalheiro, 1955, p.276)
João Carlos Marinho e Monteiro Lobato
A personagem Cléu merece atenção também de João Carlos Marinho. Esse componente inovador na ficção infantil é registrado no artigo “Conversando de Lobato” em Vozes do tempo de Lobato (1982). Outro dado que observa atentamente é a dinamicidade da aventura.
“Monteiro Lobato encontra também perfeição no desenvolvimento da ação aventuresca. As primeiras páginas das Caçadas de Pedrinho são exemplo de ação bem levada, rápida, com alternativas, com punch, onde num abrir e fechar de olhos começa a história, trama-se a caçada à onça, faz-se a caçada com a quase insucesso e variações e caça-se a onça, em quatro páginas, num modelo de densidade de texto de economia de palavras. É o melhor texto de Lobato, iguala-se aqui aos grandes mestres da ação aventuresca, como Edgard Rice Burroughs quem, ultimamente, vem sendo reabilitado por vários críticos que o tiram do segundo plano de mero entretenedor para colocar o autor de Tarzan entre as maiores figuras literárias deste século e como um dos melhores escritores de ação que a literatura conheceu.” (Marinho, 1982, p.184)
Segundo Marinho:

“O melhor [livro de Lobato] é Caçadas de Pedrinho. (Marinho, 1982, p.189)

João Carlos Marinho é também um escritor de narrativas infanto-juvenis, sua produção é apontada pelos críticos como uma das melhores da contemporaneidade. Fã declarado de Monteiro Lobato, a quem se refere como o seu grande mestre, ele divide as obras lobatianas em três grupos: “livros onde há história livre ou uma história bem acasalada com propósitos pedagógicos”, “livros em que predomina a intenção didática e não há literatura” e “histórias de “fora do sítio” ”. Caçadas de Pedrinho é inserido como um título do primeiro grupo. O autor aconselha que pais e professores orientem as crianças a começarem a leitura de Lobato pela primeira categoria.
“Têm obrigatoriedade que começar dando os da categoria A, os literários, iniciando pelas quatro pérolas da literatura infantil que são Caçadas de Pedrinho, Saci, Viagem ao Céu e Reinações de Narizinho, pulando depois para a categoria C e finalmente, saindo da saga, entregando-lhes as traduções, principiando pelo Robinson Crusoé.” (Marinho, 1982, p.193)
O seu entusiasmo e paixão pela obra em questão é tal que em entrevista publicada no O Estado de São Paulo no caderno 2, no dia 30 de setembro de 2000 ao ser perguntado sobre as obras que leu mais vezes responde ter sido: Caçadas de Pedrinho e Grandes Sertões: Veredas. A obra infantil de Monteiro Lobato é colocada lado a lado, por um escritor consagrado da atualidade, de um texto de Guimarães Rosa para o público adulto. Tal declaração atesta o valor literário da obra Caçadas de Pedrinho e nos leva a refletir sobre os motivos por que este livro teria sido pouco lembrado pela crítica literária especializada.

Ludismo e política



Caçadas de Pedrinho é um ótimo exemplo de como Lobato conseguiu uma boa dosagem na mistura de elementos tão díspares quanto ludismo e política. A primeira parte da obra caracteriza-se pelo dinamismo da ação, alta imaginação e alternativas engenhosas para solucionar os impasses vividos pelas personagens. A segunda parte mescla a fantasia a severas críticas à burocracia brasileira que, a partir de uma situação extraordinária - a fuga de um rinoceronte do circo e sua aparição no Sítio -, constrói um grande aparato para a apreensão da “fera”. Esse é o argumento que leva o narrador a edificar uma história cheia de lances irônicos e cenas beirando ao absurdo.

O modo como o Estado conduz os seus negócios e a sua ineficácia são questões marcantes discutidas por Lobato na década de 30 e que continuam, infelizmente, até os dias de hoje, a inquietar a todos. Monteiro Lobato trata desses assuntos de forma inteligente, levando o seu leitor a pensar criticamente sobre o que lê e apostando que esse leitor é um importante agente de transformação do Brasil.

Como atestam muitos críticos, as obras de maior caráter literário de Monteiro Lobato são as publicações ficcionais. E Caçadas de Pedrinho é um desses títulos. Ainda assim, muitos estudiosos se esquecem dessa obra ao discorrer sobre os anos 30, preferindo ressaltar as diversas obras paradidáticas do escritor, buscando evidenciar o didatismo como uma tendência marcante do escritor nessa época. Torna-se fundamental a retomada de estudos que privilegiem as obras lobatianas em que imperem a inconfundível imaginação de Lobato.

São setenta anos de um passado que se faz presente em Caçadas de Pedrinho. A obra considerada por João Carlos Marinho como a obra-prima de Lobato não envelheceu, ao contrário, tem muito a fazer pensar sobre o Brasil de sua época e o atual. Trata-se, pois, de um texto que muito acrescenta a todos os seus leitores, seja pela fantasia, seja pela abordagem que faz da realidade; seja pelo ludismo, seja por sua “crítica política” .




Referências bibliográficas

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