Caio fernando abreu estranhos estrangeiros



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ESTRANHOS ESTRANGEIROS

CAIO FERNANDO ABREU




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CAIO FERNANDO ABREU


ESTRANHOS ESTRANGEIROS

e

PELA NOITE


1ª reimpressão

COMPANHIA DAS LETRAS


Copyright © 1977, 1980, 1983, 1992, 1996

by Caio Fernando Abreu
Capa:

João Baptista da Costa Aguiar


Preparação:

Márcia Copola


Revisão:

Eliana Antonioli

Carlos Alberto Inada

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP )

(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

Abreu, Caio Fernando, 1948 1996.


Estranhos estrangeiros e Pela noite Caio Fernando Abreu - São Paulo Companhia das Letras, 1996
ISBN 85 7164-554-X

1 Contos brasileiros I. Título.


96-1856 CDD869935
Índices para catalogo sistemático:
1. Contos Século 20 Literatura brasileira 869.935
2. Século 20 Contos Literatura brasileira 869.935

2002


Todos os direitos desta edição reservados à
EDITORA SCHWARCZ LTDA.
Rua Bandeira Paulista, 702, j. 32
04532-002 - São Paulo - SP
Telefone: (11) 3167-0801
Fax: (11) 3167-0814
www.companhiadasletras.com.br

ÍNDICE

Nota do editor, 7
Estranhos Estrangeiros, 9
Ao simulacro da imagerie, 11
Bem longe de Marienbad, 17
London, London, 43
Pela Noite, 53
Índice remissivo, 155

Pagina do lado”

A epígrafe de Miguel Torga dá o tom do livro que Caio Fernando Abreu havia planejado escrever que sua morte prematura, em fevereiro de 96, quando atingira sua plena maturidade de escritor, não permitiu que completasse. Foram escritos dois contos. O tema é a ambigüidade do exílio, em que a distância da terra natal – fonte do desgarramento típico do emigrado – é também a afirmação da identidade de seres humanos de uma determinado tipo, aqueles que se vêem como exilados voluntários do cotidiano da colméia – os “estranhos” do título. Para essa pessoas, entre as quais Caio Fernando decididamente se alinhava, o desgarramento é criador de um espaço de liberdade indispensável para a própria sobrevivência: são estrangeiros porque são diferentes, porque são “outros” desde o início.

Não é uma liberdade alegre, a que se obtém com a distância, lembra o primeiro conto, “Ao simulacro da imagerie”. Fica “aquele mla-estar aqui dentro”, e pode parecer que tudo ficou lá fora, intangível. Resta o ideal da fraternidade entre os seres da mesma família – aqueles que optaram por um tipo peculiar de integridade, indiferentes aos cacoetes da unanimidade social e às injunções da “Árdua Tarefa de Subir na Vida”. Esses, quando se encontram, podem abraçar-se, dançar e freqüentar as estrelas.

O longo e surpreendente conto “Bem longe de Marienbab” mostra como a idéia desse encontro possível determina uma trajetória muito especial no mundo, uma trajetória que exige atenção constante e desvenda uma realidade vista como fantasmagórica e sem sentido para transformá-la em afeto e auto-conhecimento.
“2 Pagina do lado”

“London, London” , um conto curto de 97, evocativo do período em que o autor viveu em Londres, integra-se naturalmente ao conjunto: desde o início Caio Fernando decidiria incluí-lo.

A novela “Pela noite”, publicada pela primeira vez em 83, completa este belo livro.

Caio Fernando Abreu nasceu em 12 de setembro de 1948, em Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul. Escreveu Inventário do irremediável (1970), O limite branco (1971), O ovo apunhalado (1975), Pedras de Calcutá (1977), Morangos mofados (1982), Triângulo das águas (1983), As frangas (1988), Os dragões não conhecem o paraíso (1988), A maldição do vale negro (1988), Onde andará Dulce Veiga? (1990), Ovelhas negras (1995) e Pequenas epifanias (1996). Desses, Morangos mofados, pedras de Calcutá, Os dragões não conhecem o paraíso, Onde andará Dulce Veiga? foram publicados pela Companhia das Letras. Por seu trabalho literário, recebeu os prêmios de Fernando Chinaglia (1970), Status (1980), Jabuti (1984 e 1990) e APCA (1990). Teve vários livros traduzidos para diversas línguas. Faleceu 25 de fevereiro de 1996.


NOTA DO EDITOR

Este livro reúne dois projetos a que se dedicava Caio Fernando Abreu antes de falecer.

Na primeira parte está o que foi encontrado do livro que ele pretendia terminar em março ou abril - e que intitulara Estranhos estrangeiros -, reunindo a novela Bem longe de Marienbad, inédita no Brasil porém já publicada na França, e contos, na maior parte inéditos, sobre a condição de estrangeiro. Dos contos, localizamos apenas um, “Ao simulacro da imagerie”, publicado na revista E, do SESC-SP, e uma anotação indicando o desejo de Caio de também incluir no livro “London, London”, publicado em Pedras de Calcutá (Alfa-Omega, 1977), e que incorporamos à presente edição. Da amiga e tradutora francesa de Caio, Claire Cayron, a quem ele comunicara seu projeto, recebemos a informação de que a epígrafe do livro deveria ser o texto de Miguel Torga, que também incluímos. Seu amigo Gil França Veloso nos informou a respeito da frase de Adriana Calcanhoto que encerra o texto.

Na segunda parte do livro republicamos a novela Pela noite, originalmente publicada em O triângulo das águas (Nova Fronteira, 1983; Siciliano, 1991), atendendo à vontade manifestada por Caio Fernando em um de seus últimos cartões-postais, escrito da praia do Rosa, em

7

Santa Catarina, onde se refugiara em janeiro para finalizar Estranhos estrangeiros. Deste, nada mais foi encontrado. É provável que os outros contos que o integrariam não tenham tido tempo de migrar da imaginação de Caio onde estavam prontos ou quase, para a memória do computador.



Com a publicação destes textos fica também o registro de nossa saudade.

O editor1


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ESTRANHOS ESTRANGEIROS

Pareço uma dessas árvores que se transplantam, que têm má saúde no país novo, mas que
morrem se voltam à terra natal.

Miguel Torga, Diário I, 5 de março de 1934




AO SIMULACRO DA IMAGERIE
Lo que importa es la no-ilusión. La mañana nace.

Frida Kahlo, Diários


O céu tão azul lá fora, e aquele mal-estar aqui dentro.

Fora: quase novembro, a ventania de primavera levando para longe os últimos maus espíritos do inverno, cheiro de flores em jardins remotos, perfume das primeiras mangas maduras, morangos perdidos entre o monóxido de carbono dos automóveis entupindo as avenidas. Dentro: a fila que não andava, ar-condicionado estragado, senhoras gordas atropelando os outros pelos corredores estreitos sem pedir desculpas, seus carrinhos abarrotados, mortíferos feito tanques, criancinhas cibernéticas berrando pelos bonecos intergalácticos, caixas lentas, mal-educadas, mal-encaradas. E o suor e a náusea e a aflição de todos os supermercados do mundo nas manhãs de sábado.

Ela olhou as próprias compras; bolachas-d’água-e-sal, água com gás, arroz integral e, num surto de extravagância, um pote de geléia de pêssegos argentinos. “Duraznos”, repetiu encantada. Gostava de sonoridades. E não tinha mãos livres para se abanar. E a mulher de pele repuxada amontoara no balcão seus víveres, dois carrinhos

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transbordantes de colesterol e sugar blues. Ela suspirou. E olhou para cima, de onde a espiava uma câmara de TV, como se fosse uma ladra em potencial, e olhou também as prateleiras dos lados do corredor polonês onde estava encurralada e viu montanhas de pacotes plásticos com jujubas verdes, rosa e amarelas, biscoitos com sabor de bacon, cebola, presunto, queijo. E latas, pilhas de latas.



Suspirou outra vez, suspirava muito, e voltou a olhar para fora, para além das cabeças. Continuava o céu azul tão claro e raro naquela cidade odiosa. Mas aqui dentro ela só conseguia tirar um pé da sandália havaiana - era sábado, “danem-se”, ela era assim mesmo - para apoiar os dedos de unhas muito curtas, sem pintura, sobre o outro pé. Feito uma garça, ela, pousada no meio do charco açucarado. A saia larga indiana estampada de muitas cores até os tornozelos, a blusa solta de seda branca sem mangas, o dinheiro contado escondido no bolso sobre o seio esquerdo. O pé inchado, balançou-o no ar para ativar a circulação. E se alguém olhasse para ela assim, sem ver o pé inchado escondido pela saia larga, diria ser perneta, pobre moça, toda desgrenhada, essas roupas meio hippie amassadas e ainda por cima perneta. Perneta, equilibrista, não se apoiava em nada nem ninguém, sem muletas ou bengala. “Danem-se”, repetiu olhando enfrentativa em volta. Mas “danem-se” não era suficiente para aquela gentalha. Então rosnou: “Fodam-se!” em voz baixa, mas com ódio suficiente, exclamação, maiúscula e tudo. Ficou mais serena depois, embora exausta, desaforada e sem toxinas, a moça-garça.
Foi então que o viu na fila ao lado, já passando pela caixa. Não estava mais gordo, não no rosto pelo menos, nem mais calvo. Mas havia no corpo magro uma estranha barriga que parecia artificial. E rodas de suor nas axilas, manchando o tecido sintético da camisa branca social de manga comprida. Sem jeito, sem vê-la, ele tentava enfiar

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as compras nas sacolas de plástico, e enviesando a cabeça ela investigou curiosa: vodca, uísque, Campári, pilhas de salgadinhos plásticos, maionese, margarina, pacotes de jornal com cruas lingüiças sangrentas, outro carrinho cheio até as bordas de latas de cerveja, queijo, patê - seria uma festa? -, mais latas, muitas latas, seleta de legumes, massa de tomate, atum. As sacolas furavam, latas despencavam pelo chão, ele curvava-se para apanhá-las tentando assinar o cheque, e ninguém o ajudava. Ele era um homem que conhecera havia muito tempo, quando ainda não era esse urbanóide naquele supermercado mas apenas um quase jovem recém-chegado de anos de exílio político no Chile, Argélia, depois a pós-graduação em Paris, em algum assunto que ela não lembrava direito. Só sabia que ele o tempo todo falava num certo simulacro de uma tal imagerie, as pernas cruzadas no sofá forrado de algodãozinho estampado de lilás e malva da sala do apartamento dela, as pernas apertadas com força protegendo as bolas, como se ela estivesse sempre a ponto de violentá-lo no segundo seguinte, falando e falando sem parar em Lacan e Althusser e Derrida e Baudrillard, principalmente Jean Baudrillard, enquanto ela se ocupava em servir mais vinho branco seco gelado com pistache, contemplar as rosas amarelas no centro da mesa e comover-se a admirá-lo, assim jovem, assim estrangeiro no próprio país, assim aterrorizado com qualquer possibilidade do toque de outro humano em sua branca pele triste sem amor vinda do exílio.



“Você sabe viver”, dizia ele. Ela sorria modesta, mais sarcástica do que lisonjeada. Mal sabia ele do quanto, entre as traduções do alemão, ela mourejava feito negra passando panos com álcool nas paredes, aspiradores nos tapetes, recolhendo cortinas para a lavanderia, trocando lençóis todo santo dia, lavando louça com as próprias mãos avermelhadas que olhava melancólica quando ele dizia

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essas coisas, ensaboando no tanque roupa quase sempre branca, quase sempre seda, que não tinha nem teria jamais máquina, picando cenouras, rabanetes e beterrabas para saladas cruas, remexendo em panelas de barro com colher de pau, odiava microondas, para sempre e sempre exausta de tudo aquilo. Seu único consolo era a fita com Astrud Gilberto e Chet Baker sempre cantando búdicos ao fundo.



Limpa, ordenada, trabalhadeira, aquela mulher, todo dia. E morta de cansaço e amor sem esperanças por aquele homem que não a via nem veria jamais como realmente era, nem a tocaria nunca. Admirava-a para não precisar tocá-la. Conferia-lhe uma superioridade que ela não possuía para não ter que beijá-la. Dissimulado, songamonga, recolhia nomes, telefones, endereços de pessoas e lugares provavelmente úteis algum dia para a Árdua Tarefa de Subir na Vida, vampirizava cada um dos amigos dela, sobretudo os que detinham alguma espécie de poder, editores, políticos, jornalistas, donos de galerias de arte, cineastas, fiadores, produtores. Sedutor, insidioso, irresistível.

- “Vamos jantar uma hora dessas”, insinuava ambíguo para todo mundo. Durante três anos. Nunca lhe dera um orgasmo. Nunca deitara nu ao lado dela na cama, nua também. No máximo sussurrava doçuras tipo: “Fica agora assim por favor parada contra essa janela de vidro que a luz do entardecer está batendo nos seus cabelos e eu quero guardar para sempre na memória esta imagem de você assim tão linda”.

Não, ela não era tola. Mas como quem não desiste de anjos, fadas, cegonhas com bebês, ilhas gregas e happy ends cinderelescos, ela queria acreditar. Até a noite súbita em que não conseguiu mais. E jogou copos de uísque na cara dele, ligou bêbada de madrugada durante dias, deixou recados terríveis na secretária eletrônica ameaçando suicídio, assassinato, processo, chamando-o de ladrão,

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“Quero porque quero minhas fitas de Astrud e Chet de volta, sua bicha broxa”, bem bruta e irracional repetindo o que seu analista, também exausto de tudo aquilo, dissera não especificamente sobre ele, mas sobre todos os homens do mundo: homossexual enrustido que não deu o cu até os trinta e cinco anos vira mau-caráter, minha filha. Ele tinha trinta e sete quando se conheceram. Agora quantos mesmo? Uns quarenta e três ou quarenta e quatro, era de Libra, daquele tipo que não sabe a hora de nascimento. E aquela barriga nojenta, aquele Ar de Quem Venceu na Vida, aquela camisa sintética, as rodas de suor, as calças Zoomp com pregas, as bolsas de plástico barato do super, três ou quatro em cada mão, saindo torto e quase gordo do supermercado.



Atrás dela, na fila, alguém empurrou-a com o carrinho. A caixa esperava com ar entediado e sotaque paraíba: “É cheque, cartão ou dinheiro, quéééérida?”. “Dinheiro”, ela disse. E jogou sobre o balcão a nota retorcida, como se fosse uma serpente viva. Depois pegou as poucas compras e caiu fora. Ausgang!

Lá fora o vento bateu em sua saia longa, fazendo-a voar. “Estou sem calcinha”, ela lembrou. E pensou em Carmem Miranda. Mas deixou que voasse e voasse. Respirou fundo. Morangos, mangas maduras, monóxido de carbono, pólen, jasmins nas varandas dos subúrbios. O vento jogou seus cabelos ruivos sobre a cara. Sacudiu a cabeça para afastá-los e saiu andando lenta em busca de uma rua sem carros, de uma rua com árvores, uma rua em silêncio onde pudesse caminhar devagar e sozinha até em casa. Sem pensar em nada, sem nenhuma amargura, nenhuma vaga saudade, rejeição, rancor ou melancolia. Nada por dentro e por fora além daquele quase-novembro, daquele sábado, daquele vento, daquele céu azul - daquela não-dor, afinal.


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BEM LONGE DE MARIENBAD

Para Claire Cayron
e Alain Keruzoré

Il y a toujours quelque chose d’absent qui me


tourmente.
Camilie Claudel, carta a Rodin, 1886

1

São oito horas da noite, não há ninguém na estação. Não, não é exato. Para ser preciso o TGV chega pontualmente às 8h07 - e não há nada mais pontual que um TGV, exceto talvez aquele ônibus sueco de Kungshambra, faz tanto tempo, continuará assim? -, portanto não são bem oito horas da noite, mas um pouco mais, embora não muito. Se é que importa a hora em que tudo isto começa.



Suponhamos que eu tivesse levado três, no máximo cinco minutos para apanhar a mochila, essa bagagem típica e mínima de quem não se importa de andar de lá para cá o tempo todo sem paradeiro, saltar do trem e subir as escadas da plataforma até o corredor de saída, naquele passo meio desconfiado dos recém-chegados a algum lugar onde nunca estiveram antes. Suponhamos também que tenha olhado em volta à procura de K ou de qualquer

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outra pessoa inteiramente desconhecida e parada na estação deserta, segurando um cartaz com meu nome escrito, e talvez então tivesse me detido um momento a pensar vago que sempre foi um dos meus sonhos esse: desembarcar numa estação deserta e desconhecida para encontrar alguém igualmente desconhecido segurando meu nome num cartaz erguido bem alto, sobre todas as outras cabeças dos que partem ou chegam, pois essa é a estação que imagino, cheia de gente que sobe e desce escadas, carregada de malas, vindo ou indo para lugares, para outras gentes, e sobre as suas anônimas cabeças em trânsito meu nome seria o único escrito em grandes letras visíveis, talvez vermelhas, erguidas bem alto, as letras do meu nome. Mas suponhamos ainda que tivesse me distraído alguns segundos nas esquinas desse pensamento (vadio, reconheço, auto-referente, narcisista), de qualquer forma não mais que segundos que não chegaram sequer a minuto, porque não há ninguém lá, nem cartaz, nem gente viajante nem nada e paciência, querido, ainda não será desta vez que, conformado, começo a subir as escadas ou vou saindo das escadas para o corredor que leva até a rua, e nisso tudo, que não levaria mais que cinco, talvez sete ou nove minutos, embora possa parecer muito mais dito assim dessa maneira aqui, para ser preciso, para começar, ou quase, digamos finalmente que:

Não deve passar de oito horas e quinze minutos de uma noite de novembro quando, sozinho, na estação com minha mochila, olho em volta e não há ninguém a minha espera

Lá embaixo, ainda na plataforma onde param os trens que chegam de Paris, um homem manco e velho, um tanto cansado e metido num sobretudo xadrez preto e branco, dirige-se lento às escadas para subir até onde estou. Não usa bengala ou muletas, o que me faz imaginar, talvez 2


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desejar, que tenha apenas um pé machucado ou algo assim, e portanto mancar seja uma coisa passageira, não um destino irremediável. Ele desaparece por instantes nessa espécie de túnel das escadas que ligam a plataforma de chegada do trem ao corredor onde estou, só com minha mochila e meu olhar. Olho disfarçado mas muito atentamente para seus pés quando ele emerge do túnel e vem vindo pelo corredor em minha direção. Trôpego, acostumado aos trancos, traz as mãos nos bolsos, o homem manco, e nenhuma bagagem. Então sorri ao passar por mim, esse homem velho, e leva dois dedos ao boné como se fosse retirá-lo num cumprimento, como se fazia antigamente, embora eu não seja uma senhora ou senhorita nem pareça, sejamos francos, digno desse tipo de respeito. Mas é só um gesto, um resto de gesto, quem sabe a nobreza que sobra a um velho manco. Não retira o boné, o homem cansado de faces vermelhas e olhos azuis, vejo melhor tão perto, e se vai em direção à cidade, arrastando a perna manca que bate no cimento da passarela, e me deixa só, e desta vez sim, é exato dizer desta maneira para continuar:

São pouco mais de oito horas da noite. Estou completamente só entre os guichês fechados desta estação numa cidade do Norte.

Espero o velho manco cansado ultrapassar com dificuldade a lama, os ferros, as telas cor de laranja das obras em frente à estação, depois desaparecer na primeira esquina. Então espero mais. Cuido os táxis que passam, como se K pudesse estar dentro de um deles e poderia sim, poderá quem sabe abrir a porta rápido para que eu entre, sem descer, apenas recuando um pouco para dentro, para me dar espaço a seu lado, nesse ninho morno do banco de trás, e diga o endereço ao motorista caprichando na pronúncia francesa para que eu o admire, embora isso


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não me importe agora, quero apenas encontrá-lo, e meio ao acaso, pouco depois, quando o carro recomeçasse a andar, tomar entre as suas uma das minhas mãos avermelhadas pelo frio e pelo peso da mochila, e afinal comece a falar sem parar naquela língua que ambos conhecemos bem e não ouvimos faz tempo, contando coisas engraçadas, estranhas ou até mesmo um tanto estúpidas, não importa. Não importará nada do que diga ou faça, desde que venha e tudo aconteça desta ou de outra maneira inteiramente diversa da que invento, parado na frente da estação desta cidade do Norte onde, dizem, existe também o mar.



Nenhum carro pára. K não vem e o tempo passa. Olho a cidade enlameada, varrida por ventos vindos quem sabe desse mar que por enquanto nem vejo. No meio do olhar, uma palavra me vem à mente: sinistrée. Não sei de onde vem, nem lembro, mas fico a mastigá-la em voz alta muitas vezes, feito um mantra demasiado longo, parado na frente da estação deserta: sinistrée, sinistrée, c’est une ville sinistrée.

São muito mais de oito horas da noite, talvez nove, meu relógio foi roubado numa aldeia africana ou numa metrópole da América do Sul. Não lembro, não sei. K não veio, não veio ninguém e ninguém mais poderia vir além dele. Fico tentado a dar a volta agora, em direção a Amsterdã, Katmandu ou Santiago de Compostela, mas sei que K está aqui, nesta cidade do Norte, e eu preciso encontrá-lo. Há um hotel na minha frente. Jogo a mochila nas costas e penso: sempre haverá um hotel ao alcance do olho e das pernas de alguém perdido, aqui ou em qualquer outro lugar do planeta, e isso sempre deve ser também uma espécie de solução, mesmo provisória. Como os próprios hotéis estão aí afinal para isso mesmo: o provisório.

Puxo o zíper da jaqueta de couro até o pescoço, enfio as mãos nos bolsos, os pés na lama, e atravesso a rua.

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2



Não quero ficar justamente em frente a elas, mas todas as outras mesas no restaurante do hotel estão ocupadas. A menos que eu sentasse de costas para elas, portanto de frente para a cozinha, o que seria esquisito, suponho, no mínimo inconveniente. Nem tanto talvez, mas como ainda desconheço o limite de tolerância para com as esquisitices alheias neste lugar onde nunca estive antes, por delicadeza acabo sentando exatamente onde não suportaria ficar. Em frente ao aquário em que elas estão.

Esguias, sinuosas.

Claro que posso, em princípio, desviar meu olhar através da parte superior do vidro do aquário, e depois desse primeiro vidro, pelo segundo vidro da outra parede do aquário, e depois desses dois vidros entre os quais ainda não há água, ultrapassar um terceiro - o da janela voltada para a rua, a lama, os ferros em frente à estação. Posso também olhar para a direita, onde três escandinavos de gravatas coloridas falam uma língua cheia de consoantes, mas como continuo a desconhecer o limite de tolerância e etc. compreendo que não devo olhá-los tempo demais. E por delicadeza, outra vez, mudo meus olhos. Mas por mais que possa sempre olhar para a esquerda, em direção à portaria com a loura cinqüentona que me providenciou o quarto mais barato, para o teto ou a toalha da mesa, e até mesmo para a esquina lá fora, em que parece estar parado um homem velho, metido num sobretudo xadrez preto e branco, há um momento em que, como se nada mais houvesse no mundo para ser olhado, e por absoluta delicadeza, sou obrigado a encará-las de frente.

Negras, lisas.

Há duas enguias no aquário em minha frente. Há outros peixes menores também, nadando indiferentes em torno delas. Estão imóveis, duas serpentes viscosas preparando um bote sem pressa. Devem medir pelo menos

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quatro palmos, quase toda a extensão do aquário. Remotas, aceitam a exigüidade, amoldando o quieto horror de seus corpos pelas esquinas de vidro, apoiadas sobre as pedras do fundo, entre peixes menores tão distraídos que chegam a roçar nelas suas caudas, suas barbatanas. Mas não dão choque? - quero perguntar feito criança - e não devoram os outros peixes? - morro de curiosidade mórbida - e é verdade que são capazes de rastejar na lama feito cobras anfíbias? - mas não pergunto nada. Não demonstro sequer que sua presença me estremece. Entre paredes de vidro: expostas, obscenas. Sorrio para o garçom. Peço mais vinho, tão negro quanto a pele das enguias. E por monstruosa delicadeza, bebo sem espanto algum.

(...e bom, poderei comentar daqui a algum tempo, muito natural, dando outro gole no uísque ou acendendo mais um cigarro: “Então de repente uma noite lá estava eu naquela cidade desconhecida, bebendo vinho tinto cara a cara com aquelas duas enguias num aquário pequeno demais para elas”...)

Esse pensamento quase me salva, Digo quase porque, embora me jogue para a frente, para o tempo em que já não estarei aqui e agora olhando ad infinitum as enguias sem mais nada no mundo, não é exatamente esse, mas um outro que chega junto, talvez dentro dele, o realmente salvador. Se é que salva - pensamento, memória, fantasia - qualquer coisa que venha de dentro, não de fora. De dentro, isso que vem, ainda vago no começo, limita-se àquela palavra trágica que repito olhando fixo para as enguias, porque de alguma forma ajusta-se com perfeição aos seus lisos corpos negros esguios sinuosos: sinistrée.

A primeira vez que encontrei alguém que conhecia Saint-Nazaire e perguntei sobre a cidade, foi com essa palavra que me respondeu. “Sinistrée”, disse. “C’est une vilie sinistrée.” Chamava-se Alain, Jean-Paul, talvez François,

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em todo caso um desses nomes masculinos tipicamente franceses. Mas não estávamos na França. Era Ribeirão Preto, Presidente Prudente, talvez Piracicaba, em todo caso uma dessas cidades ricas do interior de São Paulo por onde eu andava, já naquele tempo, à procura de K. Enquanto Alain ou Jean-Paul, mais provavelmente François, e Deus sabe o que faria lá, num português difícil tentava contar uma longa história antiga de guerra, bunkers, bombardeios, nazistas, sem ouvi-lo direito eu mastigava a palavra - si-nís-tré-e -, rolando entre os dentes sua sonoridade dramática que me fazia pensar em sombras, gemidos. Escombros, ruínas. Fria chuva ácida e vento radioativo soprando sobre o sangue nas calçadas.



Quase peço mais vinho, então, enquanto os escandinavos levantam da mesa ao lado e o salão vai ficando pouco a pouco completamente vazio. Seria mais fácil permanecer aqui, me embebedando nesta pausa difícil, a mastigar palavras trevosas e a contemplar enguias até que alguém me mande embora, as portas se fechem e todos vão dormir. Mas não - penso de repente, um segundo antes de, por pura delicadeza, pedir outro vinho, porque são os atos e não as palavras que podem salvar -, quanto a mim: não.

Não há de ser por delicadeza que perderei minha vida - vou repetindo no mesmo ritmo em que afasto o vinho, levanto da mesa e decido, ainda esta noite e de qualquer maneira, sair à procura de K.


3

É fácil descobrir o endereço - dix-sept, rue du Port -, que me soa romântico com seus erres rascantes ditos pela loura cinqüentona da portaria. Mais difícil, e ela insiste, seria explicar por que me vou sem sequer passar uma

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noite aqui. Não pelo quarto, madame, pela comida ou qualquer outro desses detalhes dos hotéis, s‘il vous plaït, mas pelo horror imóvel das enguias em sua jaula de vidro associado ao outro horror também imóvel daquela palavra. Pelo risco da imobilidade eterna, madame, pelo perigo de eu mesmo permanecer para sempre aqui, igualmente imóvel, congelado em inúteis delicadezas enquanto tudo ou nada ou apenas qualquer coisa, mesmo insignificante, se agita e move e se perde em outro lugar, com certeza madame não compreenderia tanta ânsia tropical, bien súr.

Finjo que meu francês é pior do que na realidade é. Pago a conta, ela me estende um pequeno mapa da cidade. Aponta o caminho com a unha vermelha: “No building”, diz. E repete, batendo com a ponta da unha na ponta do papel até que eu compreenda a palavra inglesa com estranho acento francês: “No building”.

Avenue de la République, sempre em frente, e me perco um pouco quando a rua se divide em duas para contornar um prédio redondo onde as vitrines exibem sapatos, toca-fitas, vestidos e cristais, como todas as vitrines do mundo. Só depois de uma volta completa, cuidando sempre as placas, consigo chegar ao Hôtel de VilIe. Não passa muito da meia-noite, imagino, mas as ruas estão desertas como se a cidade tivesse sido evacuada.

Sirenes, não sei se lembro ou penso ou vejo, clarões no ar, depois a explosão e cacos, estilhaços na carne macia das crianças. A mochila pesa, o vento corta a cara: Sarajevo, gemo, como se estivesse lá e fosse eu. Às vezes me detenho e olho para trás, como se ouvisse passos mancos batendo e batendo contra o cimento das calçadas. Nunca há ninguém quando olho. Deve ser o eco de meus próprios passos, fantasmas desta ou de outra guerra emboscados nas esquinas, alguma lata soprada pelo vento.

Em frente ao Hôtel de Ville hesito um pouco mais, indeciso entre virar à esquerda ou à direita. Desdobro no ar

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o mapa que o vento tenta arrancar-me das mãos, e para que não o faça sou obrigado a voltar-me de costas para ele - para o vento, para o lugar de onde sopra, talvez o mar que não vejo - e nesse movimento rápido, no segundo em que protejo a folha de papel com minhas costas arqueadas, ao mesmo tempo em que abaixo o rosto para procurar a direção correta, por acaso meus olhos esbarram no edifício dos correios, pouco abaixo, na mesma rua. E tenho certeza de que alguém acabou de esconder-se entre as sombras das escadas. Loucura, ilusão, delírio.

A chuva é tão fina que nem chega a molhar, apenas gela. Tenho que ir em frente ao encontro de K, nesta ou em qualquer outra cidade do Norte ou do Sul, da Europa ou da América. Histórias como esta costumam acabar bem e, mesmo que não se viva feliz para sempre - afinal, não se pode ter tudo -, deve haver pelo menos algum lugar quente e seco para abrigar o final da noite.
À esquerda, decido - sempre à gauche -, em direção ao cais, pela rue Géneral De Gaulle, depois da igreja de tijolos expostos, cercada pelas folhas amarelas caídas desses plátanos que me fazem lembrar outras folhas, outros outonos, outras cidades. Tudo e cada coisa em qualquer lugar lembrará sempre e de alguma maneira outra coisa num lugar diverso, portanto é inútil me deter e sigo em frente. Cuido sempre as placas, prossigo até a altura em que a rua muda de nome para boulevard René Coty, falta pouco agora, posso sentir nos meus passos. No ritmo da caminhada, na minha respiração.

Quando vejo os barcos atracados à esquerda e, mais à frente, onde a rua termina, a ponte iluminada verde, cinza e branca que começa a levantar-se à medida que me aproximo - como num sinal, como se me desse boas-vindas


-, começo a andar mais depressa sem olhar para trás,

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apesar dos passos mancos que continuam batendo às minhas costas. Estou certo de que é lá, onde esta rua se detém para que a ponte se eleve e os barcos entrem no cais, na curva exata onde o vento sopra mais forte.

Um navio começa a entrar no porto. Não presto atenção. Em vez de olhar para ele, antes de atravessar os arcos do edifício em direção à porta, prefiro olhar para cima em busca das janelas iluminadas atrás das quais K possa estar sentado, escrevendo ao lado de um cálice de calvados ou remy-martin, assistindo a qualquer programa exótico na televisão sobre as serpentes domésticas do Daomé ou as rumbas catalãs entrecortadas por ay! ay! ay! pungentes, e ouvindo então o movimento embaixo, abra uma fresta para espiar o navio que chega, e de repente me veja parado aqui embaixo, à sua procura, e sorria um sorriso que não verei, porque está muito alto e a luz que chega por trás não ilumina seu rosto, apenas seus contornos, mas de qualquer forma acene para mim, largamente, braço erguido contra o céu, para que eu suba sem demora ao encontro dele.

As janelas não abrem. Um vulto passa mancando atrás de mim.


Aperto várias vezes o botão com o número de seu apartamento. Espero, e enquanto espero tento me distrair acompanhando a chegada do navio. Mas ele não me interessa. Nada me interessa além do botão desse painel eletrônico que aperto e aperto outra e outra vez, até a ponta do meu dedo começar a doer. Ninguém responde. Lá dentro, lá em cima, lá longe. Experimento a porta de entrada, não chego a compreender por que ainda continua aberta a estas horas, o que seria impensável e arriscado nas cidades de onde venho. Empurro a porta, entro, chamo o elevador e até que chegue calculo o andar onde certamente K deve estar, nem escrevendo nem assistindo à televisão, mas apenas talvez dormindo esquecido de tudo,

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inclusive de mim, da minha chegada, e abrirá a porta um tanto mal-humorado, sem saber ao certo se faço parte de um sonho que não estava sonhando ou de uma realidade que ele mesmo inventou, tão distraído que depois esqueceu ou teve preguiça de esperar que acontecesse.



Deposito a mochila no chão do corredor, investigo os números das três portas deste andar. Em frente a uma delas há um estranho arranjo: uma mesa de madeira dessas das escolas de antigamente com pedras redondas polidas, a maioria cinzentas, em arranjos sinuosos sobre o tampo e pelo chão, como um código celta esotérico, talvez lógico para quem o armou, mas perfeitamente incompreensível para mim, que não entendo nada. Dirijo-me à outra porta, ao lado daquela, toco a campainha. Outra vez, várias vezes. E outra vez ninguém atende, e outra vez experimento a porta, e outra vez continuo a não compreender como possa estar aberta, à disposição de qualquer um e não apenas de mim.

Meu coração bate louco, tenho as palmas das mãos molhadas quando abro devagar a porta desse apartamento onde K com certeza estará. Puxo a mochila para dentro, sem ruído, antes que o vizinho celta possa entreabrir uma fresta para perguntar qualquer coisa difícil de responder. Fecho a porta atrás de mim, as luzes estão todas apagadas. Mas flutuando inconfundível na penumbra varada somente pelas luzes do porto além das janelas fechadas


- como se eu fosse um animal, e ele outro - posso sentir perfeitamente nesse espaço o cheiro do corpo vivo de K.
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De fora chega apenas o ruído do vento estremecendo as vidraças. Nem um grito no porto. Tiro as botas, prevenindo ruídos, tiro a jaqueta, coloco-as no chão ao lado

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da mochila e permaneço parado no pequeno corredor de entrada até que meus olhos se acostumem ao escuro. Não sei quanto tempo se passa assim, enquanto minhas pupilas se dilatam aos poucos para começar a perceber formas como as de um armário aberto e vazio à minha esquerda, e um pouco mais adiante a televisão desligada, com um botão vermelho que brilha sozinho na penumbra. Depois, começo a avançar pela sala.

As cortinas estão abertas sobre as vidraças altas, que tomam quase toda a extensão da parede que dá para fora. Através delas posso ver as calçadas e tetos molhados pela chuva nesse bairro do outro lado da rua, que me disseram chamar-se Petit Maroc. Um pequeno Marrocos, duvido, pois visto de cima não há nada nele que lembre arcos mouriscos, vielas tortuosas, punhais afiados, meninos descalços meio mendigos, meio prostitutos, e o vento que sopra por lá certamente não é o siroco nem vem do deserto. A massa escura de algo que só depois de algum tempo percebo que deve ser água, talvez o mar, abraça as casas desse pequeno Marrocos abandonado no outro lado da ponte.

Há alguém parado na esquina. Parece um homem velho, metido num sobretudo xadrez preto e branco. Olha para cima, para onde estou, mas não tenho tempo de me deter nele. Preciso encontrar K. Avanço mais, avanço sempre.

Em frente à televisão há um sofá e uma mesa baixa, retangular, alguns livros sobre o tampo de vidro. Tenho vontade de curvar-me, ver suas capas - Pessoa talvez, sempre Pessoa, alguma biografia maldita falando de fracassos, como ele gostava, e qualquer coisa inesperada feito um novo romancista búlgaro ou poeta letão de nome impronunciável -, mas tenho medo de esbarrar em algo e despertar K, que certamente dorme lá dentro. Eu continuo a avançar. Antes de chegar ao lado oposto da sala,

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onde há outra mesa redonda com apenas um grande vaso branco sem flores, passo pela porta aberta da cozinha.

E é então que, na área coberta que dá para o interior do prédio, esse que chamam building, acontece de súbito um ruído de asas.

Um grande pássaro branco, talvez uma gaivota, pousa na janela da cozinha e olha para dentro, para o interior escuro do apartamento onde estou parado e respiro lento, quieto, abafado, tentando não despertar nada vivo aqui dentro. Desvio-me da pequena mesa de madeira no centro da cozinha, nada sobre os balcões, a geladeira, vou vendo em câmara lenta, como se estivesse dentro de uma cápsula espacial e qualquer movimento mais brusco pudesse romper a força da gravidade e lançar-me suavemente para cima, pelos ares. Curvo-me em frente à janela e fico olhando, do outro lado da vidraça, para os olhos do grande pássaro quase totalmente branco, vejo melhor agora e assim de perto certas penas cinza-claras no seu dorso. Seus olhos cor de laranja vivo, fulvos, com pequenas pupilas negras encravadas no centro, olham sem medo algum para minhas pupilas dilatadas.

Curvo-me mais, ajoelho-me no chão, apóio o braço direito no metal gelado da pia, aproximo o rosto, comprimo a testa contra a vidraça. O pássaro vira o pescoço, me examina de perfil, o bico afiado. Mas antes que eu espalme a mão sobre o vidro e sequer comece a pensar que poderia talvez abrir a janela para deixá-lo entrar ou para que eu mesmo pudesse sair, quem sabe, acontece outra vez aquele ruído de asas e de repente o pássaro se foi.

Sou um homem de joelhos no chão de uma cozinha vazia, num apartamento com todas as luzes apagadas nesta cidade do Norte onde nunca estive antes. Tudo isso, que é nada, subitamente parece tão absurdo e patético e insano e monótono e falso e sobretudo tristíssimo, que levanto de um salto, dou a volta, saio da cozinha e vou entrando

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decidido pelo corredor que parte da sala para o interior do apartamento. As portas estão todas abertas. A privada, o banheiro, o escritório onde aparentemente não há nada além de uma mesa em frente à janela que dá para o porto e outra estante de livros. Ah, as inúteis delicadezas, digo em voz alta, sem me importar de fazer barulho, de despertar qualquer outra pessoa que possa não ser K e porventura durma atrás de uma dessas duas portas no final do corredor.

Estendo a mão e abro a porta à minha esquerda. É um quarto. Com as luzes de fora atravessando a janela, consigo ver uma mesa vazia e duas camas de solteiro dispostas em forma de L. Forço os olhos tentando divisar algum volume, alguma forma sobre qualquer uma delas. Estão perfeitas, intocadas. Frias, esticadas, desertas. Não há ninguém dormindo nelas.

Não quero pensar em nada, nem mesmo em voltar atrás, ao corredor de entrada, apanhar minhas botas, minha mochila, minha jaqueta, sem nunca mais olhar para trás, e partir enfim para Amsterdã, Katmandu, Santiago de Compostela. Ações, repito, ações são o que salva. Quero apenas estender minha mão no escuro, abrir a porta e entrar no quarto, mas não consigo deixar de ver a mim mesmo, ainda em silêncio, ainda agitado, sentando à beira da cama onde K deve dormir, e sem acender a luz de cabeceira, sentindo dentro do sono minha presença e meu cheiro, abriria os olhos antes que eu pudesse distender os dedos do braço que acabei de alongar em direção a seu rosto adormecido - então segura meus dedos abertos no ar, um segundo antes do gesto. Estou agitado e desfeito e confuso e não quero pensar absolutamente nada antes de abrir essa porta.

Para compor meu rosto, então, subo as mãos pelo espaço. Quero ajeitar os cabelos antes de vê-lo. E antes ainda, antes, porém, que elas alcancem a testa, sem saber por quê, uma canção antiga, dessas de roda, de jogo, uma

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cantiga de infância que ninguém lembra mais, muito menos eu, por isso me espanta tanto lembrá-la, me sobe estridente na memória. Detenho as mãos. Sem levá-las à testa, os dedos cobrindo por completo o rosto, pouco antes de abrir a porta canto no escuro em voz mais baixa que o vento lá fora:

Senhora dona Cândida,

coberta de ouro e prata,

descubra o seu rosto,

quero ver a sua graça.

Eu paro de cantar.

Eu abro a porta.

Eu estou sorrindo quando abro a porta do último quarto.

A cama de casal está feita. Mais além, as luzes amarelas do pequeno Marrocos varam o escuro. K não está no quarto, nem ninguém mais. Mergulho a cabeça nos lençóis à procura de seu cheiro, que também não está lá. Entranhado nos panos, guardado nas dobras. Lençóis limpos, cheiram apenas a limpeza. Água, sabão, detergente. Estou tão cansado, minha cabeça estala com passos mancos, estações desertas, enguias sinuosas, ruas vazias, chuva miúda, vento gelado, códigos celtas, gaivotas brancas, canções antigas. Sem pensar em nada mais, fecho os olhos para esquecer. Dorme, menino, repito no escuro, o sono também salva. Ou adia.

Pouco antes de dormir, percebo que ainda estou sorrindo. E que não sinto alegria. Afrouxo um por um os músculos do rosto, do corpo, da mente. Depois afundo.


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Há um céu resplandecente lá fora.

Logo que abro os olhos, essa é a primeira coisa que vejo além da janela: o céu resplandecente lá fora.

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Mesmo antes de saber ao certo se estarei no sótão de alguma squatter-house em Brixton, naquele porão do cortiço turco em Kreuzberg ou num hotel barato perto da Puerta del Sol - sei do sol. Quando olho para dentro, as paredes brancas do quarto, o metal cor de vinho da armação da cama, uma reprodução azul de Salvador Dali na cabeceira, e quando olho para fora, a ponte que leva ao pequeno Marrocos, a outra ponte maior ao longe, que lembra a cauda de um dinossauro, e sobretudo a luz do estuário - tudo isso confirma: continuo em Saint-Nazaire.

Continuo nesta cidade estranha, e a ausência de K também continua dentro do apartamento, confirmo, e vou confirmando mais enquanto saio da cama e volto, um por um, sobre meus próprios passos da noite passada. Tudo permanece como quando cheguei: vazio. Apenas o grande pássaro quase todo branco não está mais atrás da janela da cozinha - só as manchas escuras de fezes endurecidas no chão de cimento, algumas penas brancas entre elas, testemunham a sua visita. Não há vestígio algum da passagem de K ou de qualquer outra pessoa por aqui. Abro todos os armários do apartamento, abro os armários dos quartos, toalhas, lençóis, cabides, abro os armários da cozinha, louças, panelas, talheres, copos e um vidro com restos de café solúvel, único indício de que alguém mais, além do pássaro e de mim, andou também por aqui.

Sinais, procuro. Rastros, manchas, pistas. Não encontro nada.

Misturo devagar os grãos envelhecidos do café à água fervente da torneira. Tem gosto de terra, de lã, de cinza e de não sei que mais, áspero e grosso. Bebo assim mesmo. Abro a porta de vidro, saio na sacada que dá para o porto. O vento despenteia meus cabelos, acendo um cigarro e fico a olhar o sol oblíquo, entre a chaminé de tijolos e o molhe de cimento com alguns barcos atracados. Há verdes e brancos do outro lado do estuário, talvez dessa cidade que me disseram chamar-se Saint-Brévin-les-Pins. 3

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O céu é tão azul e sem nuvens que poderia ser abril, mas o vento gelado na minha cara e os galhos nus das árvores à beira d’água afirmam: é quase dezembro nesta cidade do Norte. Uma cidade tão luminosa agora pela manhã que não parece a mesma da noite anterior. Talvez pela luz, essa luz limpa e leve dos estuários onde os Oxuns encontram as lemanjás, talvez pelo vento, pelo gosto mofado do café na minha boca, pela vaga vertigem que um primeiro cigarro sempre deixa na cabeça - por tudo isso, quem sabe, ou porque não há outro jeito, se tudo foi tentado, de repente fico perfeitamente sereno.

Jogo o cigarro no espaço. Como de costume, repito e repito: bem, paciência, querido, ainda não será desta vez que. E com a mesma nitidez de todas essas coisas que vejo e faço neste momento, enquanto contemplo o sol sobre o estuário, parado na sacada como numa fotografia, na seqüência imediata deste momento que se move, decido ir embora de Saint-Nazaire.

Antes de entrar, percebo: o homem de sobretudo xadrez continua parado na esquina do Petit Maroc. Ao me ver, dá um passo à frente, e nesse movimento uma de suas pernas vacila um pouco, como se mancasse. Ele ergue o braço, parece que vai retirar o boné num cumprimento. Mas não espero que conclua o gesto. Preciso pegar minhas coisas e partir. Viajar, esquecer, talvez amar.

Estou quase feliz enquanto procuro as botas, a jaqueta e a mochila no corredor de entrada. Na estação certamente há trens para toda parte e a qualquer hora. Calço minhas botas com estrelas de metal cromado pensando vagamente que preciso de um banho e poderia quem sabe, mas não tenho vontade sequer de espiar os livros na mesa da sala nem de ficar mais um segundo neste lugar onde não há marcas da passagem de K. Exceto aquele vago cheiro, na noite passada, que logo se dissipou.

Tenho a mão estendida para abrir a porta, chamar o elevador. Descer, partir, viver.

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Então, feito um soco no peito, lembro do escritório. E vou voltando atrás, rastros, eu atravesso a sala, pistas, eu vejo o tampo negro da mesa sob a janela, manchas, eu entro no escritório, sinais, eu me aproximo da mesa, indícios, eu vejo, a pasta roxa sobre a mesa, vestígios: eu sei que todas essas coisas estão dentro dela. O mapa, dentro da pasta roxa. Eu a prendo forte entre as mãos, como se pudesse escapar.
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“Journal d’une ville sinistrée”, está escrito na capa, como se fosse um título. Letras negras, finas, quase anônimas de tão minuciosas, desenhadas cuidadosamente feito ideogramas chineses, como se alguém tivesse levado horas nesse trabalho que parece feito a bico de pena. Mesmo assim, nessa escritura frágil, tombada para a direita como se pudesse cair da página, sou capaz de reconhecer a letra de K. Logo abaixo desse título, feito uma epígrafe colada na parte inferior da capa e provavelmente recortada de algum livro, há este trecho:



Aún no sé si este es el sitio donde yo pueda vivir. Talvez para un desterrado - como la palabra lo indica - no haya sitio en la tierra. Solo quisiera pedirle a este cielo resplandeciente y a este mar, que por unos días aún podré contemplar, que acojan mi terror.

No final dessas palavras, com a letra muito miúda de K, está escrito o que suponho seja o nome de seu autor - Reinaldo Arenas -, que não conheço. Não paro para pensar, nem me detenho no sentido do que acabei de ler. Mesmo que a palavra resplandeciente me surpreenda, apesar de o céu começar a fechar-se lá fora. Ainda não é suficiente,

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eu preciso de mais. Abro a pasta com tanto estabanamento que algumas folhas de papel caem ao chão. Há também cartões-postais, folhas secas, recortes. Começo a apanhá-los, não parece haver lógica entre essas folhas soltas. Num suplemento de jornal há fotos, entrevistas, cronologia e bibliografia de Jorge Luis Borges. Algo dito por ele, em francês, foi sublinhado com tinta vermelha:

[...] arc-en-cie c’est três beau, n ‘est-ce pas? C’est une architecture on construit un arc dans le cíel, c’est três beau; tandis que dans les autres langues, c ‘est plat; voyez arco-íris en espagnol, arcobaleno en italien; rainbow en anglais; cela n ‘a rien de particulier, tandis que arc-en-ciel, c ‘est de toute beauté. Qui a trouvé ça?

Procuro mais. Lá fora o céu acabou de fechar-se. Não há nenhum arco-íris e uma bruma lenta começa a atravessar as águas, vinda dos lados de Saint-Brévin. Há vários postais sem nada escrito atrás: um dólmen, uma dessas ruínas druídicas no centro de uma praça banhada pelo sol; o portal sul da catedral de Chartres, do século XIII; Chet Baker tocando sua clarineta no festival de jazz de Newport, em 1955; um violinista sentado numa janela, o violino e o arco nas mãos, olhando para fora, numa pintura chamada Der Geiger en Fenster, de Otto Scholderer, em 1861; uma cidade medieval cercada de muralhas, chamada Guérande; uma gárgula na fachada da igreja de Notre Dame; uma foto de Corinne Marchand em Cleo das 5 às 7 recortada de algum jornal, escrito embaixo “Je suis une maison vide sans toi... sans toi...”. Quando começo a me desesperar, algo que parece uma oração impressa em papel azul barato cai do meio dos papéis:

Notre-Dame des Flots,

les flots montants de la tendresse.

Notre-Dame des jlots tranquilles,

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‘abondance coulant à flots

et le coeur remis à flot.

Le flot débordant de la foie,

le soleil entrant à flots

et la paix à grands flots...

A bruma cobre por completo o cais. Cais das brumas, repito, sem lembrar quando nem onde li ou ouvi essa expressão: cais das brumas. Se há ondas na água além do farol em frente, a bruma ficou tão impenetrável que já não posso vê-las. Sento na cadeira e, disciplinadamente, coloco a pasta à minha esquerda enquanto vou empilhando à minha direita as coisas que já vi. E continuo a ver, coisas aparentemente sem nenhum nexo, nenhuma ligação:
um mapa da cidade de Praga com os nomes Daniela e Johana ao lado da palavra laska,* que não sei o que significa, escritos sobre ele com a mesma letra de K, em tinta fina e negra; o catálogo de um programa de leituras e palestras de escritores da Estônia, Lituânia e Letônia, com fotos de cada um dos escritores, mas apenas uma das fotos, a de uma mulher de olhos penetrantes e cabelos lisos, chamada Vizma Belsevica, cercada por uma moldura tão cuidadosamente desenhada quanto aquelas letras do título; um grosso catálogo de um festival de cinema em Nantes, sem nada assinalado; recortes de entrevistas com uma cantora do Cabo Verde, mulata e gorda, chamada Cesaria Evora, sem nada assinalado; e de repente, outra vez copiado na letra de K, algo que parece um fragmento da Ode marítima de Fernando Pessoa:

Ó meus peludos e rudes heróis da aventura e do [crime!

Minhas marítimas feras, maridos da minha [imaginação!

Amantes casuais da obliqüidade das minhas [sensações!

(*) “Amor”, em tcheco

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Queria ser Aquela que vos esperasse nos portos,

a vós, odiados amados do seu sangue de pirata nos [sonhos!

No pequeno Marrocos, o restaurante acendeu seu neon azul. É a única coisa visível através da bruma que cobre o cais. Procuro algum navio atracado no porto, mas a bruma é tão branca e espessa que não consigo ver nada. E continuo a procurar, e procuro pelo menos a letra de K numa frase, numa palavra perdida no meio dos papéis que incluem recortes sobre o julgamento dos estupradores e assassinos da pequena Céline: caras escaveiradas das crianças negras da Somália; uma entrevista de Leonard Cohen, sem nada assinalado; bombardeios em Sarajevo; um mapa com as estatísticas da AIDS na África marcadas em tarjas negras; uma foto de Jeremy Irons e Juliette Binoche fazendo amor vestidos e em pé, apoiados no que parece a porta de uma igreja, em algum filme que não vi; a capa rasgada de um livro de bolso chamado Les nuits fauves, de Cyril Collard, que também não li, nem vi, nem sei e de repente uma página inteira quase completamente coberta pela letra de K cai no meu colo. Na parte superior, há uma foto de Brad Davis vestido de marinheiro, recortada e colada, e logo abaixo um texto sem crédito de ninguém e que, embora lembre Genet ou Fassbinder, parece ter sido escrito pelo próprio K:



A aposta está perdida. Querelle curva-se sobre a mesa. Desabotoa o cinto, as calças, mas não chega a abaixá-las. Apenas abre as pernas e debruça-se mais sobre a mesa. O negro vem por trás. Primeiro, com a mão direta, abaixa as calças do marinheiro até os pés. Com a esquerda, desabotoa as próprias calças. O negro lambe o dedo indicador e começa a introduzi-lo entre as nádegas de Querelle. Seu dedo desaparece na carne branca. Não há nenhuma resistência. O negro retira o dedo e, com um único movimento firme, introduz seu

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membro dentro de Querelle. Querelle não se move. Com as duas mãos, o negro escancara as nádegas do outro para entrar mais, e melhor. Quando entrou completamente, sobe as mãos pelo peito de Querelle até alcançar os mamilos duros perdidos entre os pêlos. É quando o negro tem a primeira suspeita. Move-se mais, entrando dentro de Querelle. Morde sua nuca, enfia a língua em seus ouvidos. Querelle continua imóvel. O negro desce as mãos dos mamilos do outro pelos pêlos da barriga, até seu sexo. Quando a palma de sua mão segura o sexo rijo de Querelle, ele tem certeza absoluta. O marinheiro não perdeu a aposta. Ao contrário, é o único vencedor. E tarde demais para o negro recuar dessa derrota enviesada. Ao longe uma voz rouca de mulher cantarola sempre: “Each man kills the things he loves”. O negro entra mais fundo, ao mesmo tempo em que sente a umidade do prazer de Querelle começando a molhar a palma de sua mão. Lá-rá-rá-lá-rá-rá-rá: o negro geme e goza dentro de Querelle. Querelle não geme nem se move. Apenas goza também, ao mesmo tempo, abundantemente, na palma branca da mão do negro. A aposta está ganha.

Brest: digo esse nome cortante feito faca. E recomponho na memória o mapa desse pequeno pedaço da França, qualquer coisa entre o que chamam Pays de la Loire e a Bretagne. A esquerda, pouco mais acima, pouco mais ao norte, naquela ponta do mapa que lembra uma cabeça de cão projetada sobre o Atlântico, fica a cidade de Brest. Procuro com os olhos além da ponte que lembra a cauda de um dinossauro - porque tudo, repito, sempre lembrará outra coisa. A bruma começou a dissipar-se, mas não o suficiente para que se possa ver a ponte maior, e muito menos o que existe além dela. Reviso as coisas que já examine várias vezes. Nada mais há entre elas que ainda não tenha visto.

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Sacudo a pasta roxa no ar, parece vazia. Mas de repente uma pequena folha arrancada de um bloco de anotações cai de dentro dela. Apanho-a enquanto ainda flutua no ar. Nessa folha, com a letra frágil e tombada, clara e precisa de K, está escrito:



Este é o trigésimo dia. O ciclo está completo e não encontrei o Leopardo dos Mares. Já não sei ao certo se alguém me contou, se leram nas cartas, nas runas, mas estava certo de que ele estaria aqui e só por isso vim. Procurei-o no porto, nos cafés, na praia, pelas esquinas e barcos. Olhei tudo e todos muito atentamente. Sei que o identificaria por aquela tatuagem no braço esquerdo - um leopardo dourado saltando sobre sete ondas verdes espumantes. E mesmo que fizesse frio e eu não pudesse ver seus braços, reconheceria de longe seus olhos de jade. E, se usasse óculos escuros, eu assobiaria aquela canção até que me escutasse. Sem ele, não vejo sentido em continuar nesta cidade. Que todos me perdoem, mas escrever agora é recolher vestígios do impossível. Para encontrá-lo, e isso é tudo o que me importa, eu parto.

Embaixo, a data de ontem. Arrumo cuidadoso a folha de papel sobre as outras, à minha direita, bato-as juntas sobre a mesa para tentar certa ordem, certa harmonia. Depois pego a pasta, coloco tudo dentro e deixo exatamente como encontrei. Tudo isso é um tanto inútil porque, de toda maneira, ninguém saberá que estive aqui. Então, quando já quase parti, de dentro das dobras da contracapa cai um pequeno envelope fechado. Há um desenho sobre ele. Mas é tarde demais. A bruma dissipou-se, o céu começa a ficar outra vez lentamente azul, e eu preciso partir.

Fecho a pasta, deixo-a no centro do grande tampo negro da mesa em frente à janela. Da porta, olho-a pela última vez: é como se ninguém tivesse jamais tocado nela.

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Atravesso a sala, o corredor de entrada, pego minhas coisas, olho os desenhos celtas do vizinho também pela última vez. Apontam para o Norte. Alcanço a rua, tudo é pela última vez agora e aqui, e só depois de dobrar a esquina é que, no bolso da jaqueta, aperto contra o coração o pequeno envelope que trouxe comigo.

Há um arco-íris desenhado atrás da ponte. Arc-en-ciel, arcobaleno, rainbow: preciso mesmo partir.

Não sei que horas são. A estação está completamente deserta. Mas não, não é exato. Sem saber se vejo realmente, porque o trem é veloz demais e uns restos de bruma ainda persistem no ar, tenho quase certeza de ver parado na estação vazia um homem um tanto velho, metido num sobretudo xadrez preto e branco, um boné, faces vermelhas e olhos azuis. Ele acena, ele tira o boné e acena como num cumprimento, não sei se para mim ou para qualquer outro dentro ou fora do trem. Mas isso não importa: estou certo de que, se pudesse voltar atrás e vê-lo melhor enquanto anda, poderia também ouvir o som de seus passos mancos batendo contra o cimento.

Estico as pernas, apóio os pés no banco da frente. Gosto de olhar minhas botas com estrelas cromadas de metal. Passo a mão pelas faces, a barba de três dias raspa a palma. Faz calor aqui dentro, neste vagão onde viajo quase sozinho, acompanhado apenas por três escandinavos com gravatas coloridas, falando uma língua cheia de consoantes. Tiro a jaqueta, depois a blusa de lã, fico apenas de camiseta. Não me importam mais aqueles limites de tolerância e etc. que desconheço nas terras estranhas.

Depois que o trem dobra a primeira curva e me sinto completamente à vontade, abro o envelope que trouxe comigo. Dentro, numa folha de papel arrancada de um

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bloco, igual àquela outra, K copiou algumas linhas que parecem versos de uma canção francesa que conheço muito bem. Tão bem e há tanto tempo que, enquanto leio, todo o resto me volta à memória, e cantarolo com facilidade:

Je me souvíens de vous

Et de vos yeux de jade,

Là-bas, à Marienbad,

Là-bas, à Marienbad.

Mais, où donc êtes-vous?

Avec vos yeux de jade,

Si loin de Marienbad,

Si loin de Marienbad.*

Quero procurar entre as cassetes que guardo na mochila aquela que traz essa canção, que anda sempre comigo. Mas me detenho. Logo abaixo, na mesma folha de papel, K escreveu assim: “Aos caminhos, eu entrego o nosso encontro”.

Aos caminhos, repito, erguendo o envelope no ar. Como num brinde. Coloco a cassete no walkman, ajusto os fones nos ouvidos, vou cantando junto e sorrio. Arregaço as mangas da camiseta até os ombros. No meu braço esquerdo, acaricio a tatuagem de um leopardo dourado saltando sobre sete ondas verdes. Na face do pequeno envelope que aperto entre as mãos, como num sobrescrito para um único destinatário possível em seu endereço improvável, acaricio ao mesmo tempo o desenho de um leopardo igual, saltando sobre sete idênticas ondas verdes. Às minhas, às dele, às ondas espumantes dos sete mares. Como champanhe.

Afasto o rosto do vidro da janela do trem que corre pelo meio dos campos até conseguir ver minha imagem refletida. Embora as formas sejam vagas, trêmulas, mais

(*) “Marienbad”, de Barbara e f. Wertheimer

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diluídas ainda pela luz do crepúsculo que tomba, posso ver meus dois olhos flutuando no espaço. E apesar das sombras sinuosas que se dobram dentro deles, feito enguias num aquário pequeno demais, confirmo que são muito verdes. Como se fossem de jade.

Lá fora, o vôo de um grande pássaro quase totalmente branco, talvez uma gaivota, corta minha imagem refletida na vidraça.

Desvio o rosto, não devo me deter tempo demais em meus próprios olhos. Aumento o som da canção, olho para fora enquanto o trem dispara sobre os trilhos. Preciso ficar sempre atento. Ainda não anoiteceu, e alguns dizem que há castelos pelo caminho.

Saint-Nazaire, dezembro de 92

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