Caio fernando abreu



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OS DRAGÕES NÃO CONHECEM O PARAÍSO
CAIO FERNANDO ABREU

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CAIO FERNANDO ABREU
OS DRAGÕES NÃO CONHECEM O PARAÍSO
1ª. reimpressão


Dados de Catalogação na Publicação (CIP)

Internacional

(Câmara Brasileira do Livro. SP. Brasil)
______________________________________________________

Abreu, Caio Fernando

Os dragões não conhecem o paraíso / Caio Fernando

Abreu – São Paulo – Cia. Das Letras

ISBN 85-85095-75-X

1 Contos Brasileiros – I Título


8-0275 180-869.935

______________________________________________________


índices para catálogo sistemático:
1. Contos : Século 20 : Literatura brasileira 869.935

2. Século 20 : Contos : Literatura Brasileira 869.935

Copyrigh © Caio Fernando Abreu
Capa:

Guto Lacaz


Revisão:

Marizilda Lourenço

Otacílio Nunes Filho

Clara Baldratti


1988
Editora Schwarcz Ltda.

Rua Barra Funda, 286

01158-São Paulo-SP

Se o leitor quiser, este pode ser um livro de contos. Um livro com 13 histórias independentes girando sempre em torno de um mesmo tema: amor. Amor e sexo, amor e morte, amor e abandono, amor e alegria, amor e memória amor e medo, amor e loucura. Mas se o leitor também quiser, este pode ser uma espécie de romance-móbile. Um romance desmontável onde essas 13 peças talvez possam completar-se, esclarecer-se, ampliar-se ou remeter-se de muitas maneiras umas às outras, para formarem uma espécie de todo. Aparentemente fragmentado mas, de algum modo suponho completo.

À memória de:
Ana Cristina César, Carlinhos Hartlieb, Lygia Averbuck, Julio Barroso, Fernando Zimpeck, Luiz Roberto Galizia, Carlos Carvalho, Ana Maria Scaraboto Assaf, Josué Guimarães, Alex Vailauri, Rachel Rosemberg, Ronaldo Vicentini, Alexandre Bressan, Darcy Penteado, Luiz Antônio Martinez Corrêa, Cacaso, Guilherme Leite Costa.

À

Vida,



anyway.

“A vida é muito bonita,

basta um beijo

e a delicada engrenagem movimenta-se,

uma necessidade cósmica nos protege.”

(Adélia Prado: O Pelicano)

ÍNDICE

I. Linda, Uma História Horrível 13



II. O Destino Desfolhou 23

III. À Beira do Mar Aberto 35

IV. Sem Ana, Blues 41

V. Saudades de Audrey Hepburn 49

VI. O Rapaz Mais Triste do Mundo 57

VII. Os Sapatinhos Vermelhos 69

VIII. Uma Praiazinha de Areia Bem Clara, Ali, na Beira da Sanga 81

IX. Dama da Noite 91

X. Mel & Girassóis 99

XI. A Outra Voz 115

XII. Pequeno Monstro 125

XIII. Os Dragões Não Conhecem o Paraíso 147



I
LINDA, UMA HISTÓRIA HORRÍVEL
Para

Sergio Keuchguerian


“Você nunca ouviu falar em maldição

nunca viu um milagre

nunca chorou sozinha num banheiro sujo

nem nunca quis ver a face de Deus.”


(Cazuza: Só as Mães São Felizes)

SÓ depois de apertar muitas vezes a campainha foi que escutou o rumor de passos descendo a escada. E reviu o tapete gasto, antigamente púrpura, depois apenas vermelho, mais tarde rosa cada vez mais claro - agora, que cor? - e ouviu o latido desafinado de um cão, uma tosse noturna, ruídos secos, - então sentiu a luz acesa do interior da casa filtrada pelo vidro cair sobre sua cara de barba por fazer, três dias. Meteu as mãos nos bolsos, procurou um cigarro ou um chaveiro para rodar entre os dedos, antes que se abrisse a janelinha no alto da porta.

Enquadrado pelo retângulo, o rosto dela apertava os olhos para vê-lo melhor. Mediram-se um pouco assim - de fora, de dentro da casa - até ela afastar o rosto, sem nenhuma surpresa. Estava mais velha, viu ao entrar. E mais amarga, percebeu depois.

- Tu não avisou que vinha - ela resmungou no seu velho jeito azedo, que antigamente ele não compreendia. Mas agora, tantos anos depois, aprendera a traduzir como “que saudade”, “seja benvindo”, “que-bom-ver-você” ou qualquer coisa assim. Mais carinhosa, embora inábil.

Abraçou-a, desajeitado. Não era um hábito, contatos, afagos. Afundou tonto, rápido, naquele cheiro conhecido - cigarro, cebola, cachorro, sabonete, creme de beleza e carne velha, sozinha há anos. Segurando-o pelas duas orelhas, como de costume, ela o beijou na testa. Depois foi puxando-o pela mão, para dentro.

- A senhora não tem telefone - explicou. - Resolvi fazer uma surpresa.

Acendendo luzes, certa ânsia, ela o puxava cada vez mais para dentro. Mal podia rever a escada, a estante, a cristaleira, os porta-retratos empoeirados. A cadela se enrolou nas pernas dele, ganindo baixinho.

- Sai, Linda - ela gritou, ameaçando um pontapé. A cadela pulou de lado, ela riu. - Só ameaço, ela respeita. Coitada, quase cega. Uma inútil, sarnenta. Só sabe dormir, comer e cagar, esperando a morte.

- Que idade ela tem? - ele perguntou. Que esse era o melhor jeito de chegar ao fundo: pelos caminhos transversos, pelas perguntas banais. Por trás do jeito azedo, das flores roxas do robe.

- Sei lá, uns quinze. - A voz tão rouca. – Diz que idade de cachorro a gente multiplica por sete.

Ele forçou um pouco a cabeça, esse era o jeito:

- Uns noventa e cinco, então.

Ela colocou a mala dele em cima de uma cadeira da sala. Depois apertou novamente os olhos. E espiou em volta, como se acabasse de acordar:

- O quê?

- A Linda. Se fosse gente, estaria com noventa e cinco anos.

- Mais velha que eu, imagina. Velha que dá medo. - Fechou o robe sobre o peito, apertou a gola com as mãos. Cheias de manchas escuras, ele viu, como sardas (ce-ra-to-se, repetiu mentalmente), pintura alguma nas unhas rentes dos dedos amarelos de cigarros. - Quer um café?

- Se não der trabalho - ele sabia que esse continuava sendo o jeito exato, enquanto ela adentrava soberana pela cozinha, seu reino. Mãos nos bolsos, olhou em volta, encostado.

As costas dela, tão curvas. Parecia mais lenta, embora guardasse o mesmo jeito antigo de abrir e fechar sem parar as portas dos armários, dispor xícaras, colheres, guardanapos, fazendo muito ruído e forçando-o a sentar - enquanto ele via manchadas de gordura, as paredes da cozinha. A pequena janela basculante, vidro quebrado. No furo do vidro, ela colocara uma folha de jornal. País mergulha no caos, na doença e na miséria - ele leu. E sentou na cadeira de plástico rasgado.

- Tá fresquinho - ela serviu o café. - Agora só consigo dormir depois de tomar café.

- A senhora não devia. Café tira o sono.

Ela sacudiu os ombros:

- Dane-se. Comigo sempre foi tudo ao contrário.

A xícara amarela tinha uma nódoa escura no fundo, bordas lascadas. Ele mexeu o café, sem vontade. De repente, então, enquanto nem ele nem ela diziam nada, quis fugir. Como se volta a fita num vídeo-cassete, de costas, apanhar a mala, atravessar a sala, o corredor de entrada, ultrapassar o caminho de pedras do jardim, sair novamente para a ruazinha de casas quase todas brancas. Até algum táxi, o aeroporto, para outra cidade, longe do Passo da Guanxuma, até a outra vida de onde vinha. Anônima, sem laços nem passado. Para sempre, para nunca mais. Até a morte de qualquer um dos dois, teve medo. E desejou. Alívio, vergonha.

- Vá dormir - pediu. - É muito tarde. Eu não devia ter vindo assim, sem avisar. Mas a senhora não tem telefone.

Ela riu: na porta.

Ela sentou à frente dele, o robe abriu-se. Por entre as flores roxas, ele viu as inúmeras linhas da pele, papel de seda amassado. Ela apertou os olhos, espiando a cara dele enquanto tomava um gole de café.

- Que que foi? - perguntou, lenta. E esse era o tom que indicava a abertura para um novo jeito. Mas ele tossiu, baixou os olhos para a estamparia de losangos da toalha. Vermelho, verde. Plástico frio, velhos morangos.

- Nada, mãe. Não foi nada. Deu saudade, só isso. De repente, me deu tanta saudade. Da senhora, de tudo.

Ela tirou um maço de cigarros do bolso do robe:

- Me dá o fogo.

Estendeu o isqueiro. Ela tocou na mão dele, toque áspero das mãos manchadas de ceratose nas mãos muito brancas dele. Carícia torta:

- Bonito, o isqueiro.

- Ë francês.

- Que é isso que tem dentro?

- Sei lá, fluido. Essa coisa que os isqueiros têm. Só que este é transparente, nos outros a gente não vê.

Ela ergueu o isqueiro contra a luz. Reflexos de ouro, o líquido verde brilhou. A cadela entrou por baixo da mesa, ganindo baixinho. Ela pareceu não notar, encantada com o por trás do verde, líquido dourado.

- Parece o mar - sorriu. Bateu o cigarro na borda da xícara, estendeu o isqueiro de volta para ele. - Então quer dizer que o senhor veio me visitar? Muito bem.

Ele fechou o isqueiro na palma da mão quente, da mão manchada dela.

- Vim, mãe. Deu saudade.

Riso rouco:

- Saudade? Sabe que a Elzinha não aparece aqui faz mais de mês? Eu podia morrer aqui dentro. Sozinha. Deus me livre. Ela nem ia ficar sabendo, só se fosse pelo jornal. Se desse no jornal. Quem se importa com um caco velho?

Ele acendeu um cigarro. Tossiu forte na primeira tragada:

- Também moro só, mãe. Se morresse, ninguém ia ficar sabendo. E não ia dar no jornal.

Ela tragou fundo. Soltou a fumaça, círculos. Mas não acompanhou com os olhos. Na ponta da unha, tirava uma lasca da borda da xícara.

- É sina - disse. - Tua avó morreu só. Teu avô morreu só. Teu pai morreu só, lembra? Naquele fim de semana que eu fui pra praia. Ele tinha horror do mar. Uma coisa tão grande que mete medo na gente, ele dizia. - Jogou longe a bolinha com a pintura da xícara. - E nem um neto, morreu sem um neto nem nada. O que mais ele queria.

- Já faz tempo, mãe. Esquece - ele endireitou as costas, doíam. Não, decidiu: naquele poço, não. O cheiro, uma semana, vizinhos telefonando. Passou as pontas dos dedos pelos losangos desbotados da toalha. - Não sei como a senhora consegue continuar morando aqui sozinha. Esta casa é grande demais pra uma pessoa só. Por que não vai morar com a Elzinha?

Ela fingiu cuspir de lado, meio cínica. Aquele cinismo de telenovela não combinava com o robe desbotado de flores roxas, cabelos quase inteiramente brancos, mãos de manchas marrons segurando o cigarro quase no fim.
- E agüentar o Pedro, com aquela mania de grandeza? Pelo amor de Deus, só se eu fosse sei lá. Iam ter que me esconder no dia das visitas, Deus me livre. A velha, a louca, a bruxa. A megera socada no quartinho de empregada, feito uma negra. - Bateu o cigarro. - E como se não bastasse, tu acha que iam me deixar levar a Linda junto?

Embaixo da mesa, ao ouvir o próprio nome a cadela ganiu mais forte.

- Também não é assim, não é, mãe? A Elzinha tem a faculdade. E o Pedro no fundo é boa gente. Só que...

Ela remexeu nos bolsos do robe. Tirou uns óculos de hastes remendadas com esparadrapo, lente rachada.

- Deixa eu te ver melhor - pediu.

Ajeitou os óculos. Ele baixou os olhos. No silêncio, ficou ouvindo o tic-tac do relógio da sala. Uma barata miúda riscou o branco dos azulejos atrás dela.

- Tu está mais magro - ela observou. Parecia preocupada. - Muito mais magro.

- É o cabelo - ele disse. Passou a mão pela cabeça, quase raspada. - E a barba, três dias.

- Perdeu cabelo, meu filho.

- É a idade. Quase quarenta anos.

- E essa tosse de cachorro?

- Cigarro, mãe. Poluição.

Levantou os olhos, pela primeira vez olhou direto nos olhos dela. Ela também olhava direto nos olhos dele. Verde desmaiado por trás das lentes dos óculos, subitamente muito atentos. Ele pensou: é agora, nesta contramão Quase falou. Mas ela piscou primeiro. Desviou os olhos para baixo da mesa, segurou com cuidado a cadela sarnenta e a trouxe até o colo.

- Mas vai tudo bem?

- Tudo, mãe.

- Trabalho?

Ele fez que sim. Ela acariciou as orelhas sem pelo da cadela. Depois olhou outra vez direto para ele:

- Saúde? Diz que tem umas doenças novas aí, vi na tevê. Umas pestes.

- Graças a Deus - ele cortou. Acendeu outro cigarro, as mãos tremiam um pouco. - E a dona Alzira, firme?

A ponta apagada do cigarro entre os dedos amarelos, ela estava recostada na cadeira. Olhos apertados, como se visse por trás dele. No tempo, não no espaço. A cadela apoiara a cabeça na mesa, os olhos branquicentos fechados. Ela suspirou, sacudiu os ombros:

- Coitada. Mais esclerosada do que eu.

- A senhora não está esclerosada.

Apagou o cigarro. Tossiu.

- Tu que pensa. Tem vezes que me pego falando sozinha pelos cantos. Outro dia, sabe quem eu chamava o dia inteiro? - Esperou um pouco, ele não disse nada. - A Cândida, lembra dela? O negrinha boa, aquela. Até parecia branca. Fiquei chamando, chamando o dia inteiro. Cândida, ô Cândida. Onde é que tu te meteu, criatura? Aí me dei conta.

- A Cândida morreu, mãe.

Ela tornou a passar a mão pela cabeça da cadela. Mais devagar, agora. Fechou os olhos, como se as duas dormissem.

- Pois é, esfaqueada. Que nem um porco, lembra? - Abriu os olhos. - Quer comer alguma coisa, meu filho?

- Comi no avião.

Ela fingiu cuspir de lado, outra vez.

- Cruz credo. Comida congelada, Deus me livre. Parece plástico. Lembra daquela vez que eu fui? - Ele sacudiu a cabeça, ela não notou. Olhava para cima, para a fumaça do cigarro perdida contra o teto manchado de umidade, de mofo, de tempo, de solidão. - Fui toda chique, parecia uma granfa. De avião e tudo, uma madame. Frasqueira, raiban. Contando, ninguém acredita. - Molhou um pedaço de pão no café frio, colocou-o na boca quase sem dentes da cadela. Ela engoliu de um golpe. - Sabe que eu gostei mais do avião do que da cidade? Coisa de louco, aquela barulheira. Nem parece coisa de gente, como é que tu agüenta?

- Agente acostuma, mãe. Acaba gostando.

- E o Beto? - ela perguntou de repente. E foi baixando os olhos até encaixarem, outra vez, direto nos olhos dele.

Se eu me debruçasse? - ele pensou. Se, então, assim. Mas olhou para os azulejos na parede atrás dela. A barata tinha desaparecido.

- Tá lá, mãe. Vivendo a vida dele.

Ela voltou a olhar o teto:

- Tão atencioso, o Beto. Me levou pra jantar, abriu a porta do carro pra mim. Parecia coisa de cinema. Puxou a cadeira do restaurante pra mim sentar. Nunca ninguém tinha feito isso. - Apertou os olhos. - Como era mesmo o nome do restaurante? Um nome de gringo.

- Casserole, mãe. La Casserole. - Quase sorriu, ele tinha uns olhos de menino, lembrou. - Foi boa aquela noite, não foi?

- Foi - ela concordou. - Tão boa, parecia filme. - Estendeu a mão por sobre a mesa, quase tocou na mão dele. Ele abriu os dedos, certa ânsia. Saudade, saudade. Então ela recuou, afundou os dedos na cabeça pelada da cadela.

- O Beto gostou da senhora. Gostou tanto - ele fechou os dedos. Assim fechados, passou-os pelos pêlos do próprio braço. Umas memórias, distância. - Ele disse que a senhora era muito chique.

- Chique, eu? Uma velha grossa, esclerosada. - Ela riu, vaidosa, mão manchada no cabelo branco. Suspirou. - Tão bonito. Um moço tão fino, aquilo é que é moço fino. Eu falei pra Elzinha, bem na cara do Pedro. Pra ele tomar como indireta mesmo, eu disse bem alto, bem assim. Quem não tem berço, a gente vê logo na cara. Não adianta ostentar, tá escrito. Que nem o Beto, aquela calça rasgadinha. Quem ia dizer que era um moço assim tão fino, de tênis? - Voltou a olhar dentro dos olhos dele. - Isso é que é amigo, meu filho. Até meio parecido contigo, eu fiquei pensando. Parecem irmãos. Mesma altura, mesmo jeito, mesmo...

- A gente não se vê faz algum tempo, mãe.

Ela debruçou um pouco, apertando a cabeça da cadela contra a mesa. Linda abriu os olhos esbranquiçados. Embora cega, também parecia olhar para ele. Ficaram se olhando assim. Um tempo quase insuportável, entre a fumaça dos cigarros, cinzeiros cheios, xícaras vazias - os três, ele, a mãe e Linda.

- E por quê?

- Mãe - ele começou. A voz tremia. - Mãe, é tão difícil - repetiu. E não disse mais nada.

Foi então que ela levantou. De repente, jogando a cadela ao chão como um pano sujo. Começou a recolher xícaras, colheres, cinzeiros, jogando tudo dentro da pia. Depois de amontoar a louça, derramar o detergente e abrir as torneiras, andando de um lado para outro enquanto ele ficava ali sentado, olhando para ela, tão curva, um pouco mais velha, cabelos quase inteiramente brancos, voz ainda mais rouca, dedos cada vez mais amarelados pelo fumo, guardou os óculos no bolso do robe, fechou a gola, olhou para ele e - como quem quer mudar de assunto, e esse também era um sinal para um outro jeito que, desta vez sim, seria o certo - disse:

- Teu quarto continua igual, lá em cima. Vou dormir que amanhã cedo tem feira. Tem lençol limpo no armário do banheiro.

Então fez uma coisa que não faria, antigamente. Segurou-o pelas duas orelhas para beijá-lo não na testa, mas nas duas faces. Quase demorada. Aquele cheiro - cigarro, cebola, cachorro, sabonete, cansaço, velhice. Mais qualquer coisa úmida que parecia piedade, fadiga de ver. Ou amor. Uma espécie de amor.

- Amanhã a gente fala melhor, mãe. Tem tempo, dorme bem.

Debruçado na mesa, acendeu mais um cigarro enquanto ouvia os passos dela subindo pesados pela escada até o andar superior. Quando ouviu a porta do quarto bater, levantou e saiu da cozinha.

Deu alguns passos tontos pela sala. A mesa enorme, madeira escura. Oito lugares, todos vazios. Parou em frente ao retrato do avô - rosto levemente inclinado, olhos verdes aguados que eram os mesmos da mãe e também os dele, heranças. No meio do campo, pensou, morreu só com um revólver e sua sina. Levou a mão até o bolso interno do casaco, tirou a pequena garrafa estrangeira e bebeu. Quando a afastou, gotas de uísque rolaram pelos cantos da boca, pescoço, camisa, até o chão. A cadela lambeu o tapete gasto, olhos quase cegos, língua tateando para encontrar o líquido.

Ele abriu os olhos. Como depois de uma vertigem, percebeu-se a olhar fixamente para o grande espelho da sala. No fundo do espelho na parede da sala de uma casa antiga, numa cidade provinciana, localizou a sombra de um homem magro demais, cabelos quase raspados, olhos assustados feito os de uma criança. Colocou a garrafa sobre a mesa, tirou o casaco.

Suava muito. Jogou o casaco na guarda de uma cadeira. E começou a desabotoar a camisa manchada de suor e uísque. Um por um, foi abrindo os botões. Acendeu a luz do abajur, para que a sala ficasse mais clara quando, sem camisa, começou a acariciar as manchas púrpura, da cor antiga do tapete na escada - agora, que cor? - espalhadas embaixo dos pêlos do peito. Na ponta dos dedos, tocou o pescoço.

Do lado direito, inclinando a cabeça, como se apalpasse uma semente no escuro. Depois foi dobrando os joelhos até o chão. Deus, pensou, antes de estender a outra mão para tocar no pêlo da cadela quase cega, cheio de manchas rosadas. Iguais às do tapete gasto da escada, iguais às da pele do seu peito, embaixo dos pêlos. Crespos, escuros, macios.

- Linda - sussurrou. - Linda, você é tão linda, Linda.



II
O DESTINO DESFOLHOU
Em memória de

Tânia Beatriz Pacheco Pinto.

E para

Fanny Abramovich,



que me fez lembrar.
“Aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor:

onde um homem projeta seu perfil e pergunta atônito:

em que direção se vai?”

(Adélia Prado: O Coração Disparado)

VÊNUS.
HÁ seis anos, ele estava apaixonado por ela. Perdidamente. O problema - um dos problemas, porque havia outros, bem mais graves -, o problema inicial, pelo menos, é que era cedo demais. Quando se tem vinte ou trinta anos, seis anos de paixão pode ser muito (ou pouco, vai saber) tempo. Mas acontece que ele só tinha doze anos. Ela, um a mais. Estavam ambos naquela faixa intermediária em que ficou cedo demais para algumas coisas, e demasiado tarde para a maioria das outras.

Ela chamava-se Beatriz. Ele chamava-se - não vem ao caso. Mas não era Dante, ainda não. Anos mais tarde, tentaria lembrar-se de Como Tudo Começou. E não conseguia. Não conseguiria, claramente. Voltavam sempre cenas confusas na memória. Misturavam-se, sem cronologia, sem que ele conseguisse determinar o que teria vindo antes ou depois daquele momento em que, tão perdidamente, apaixonou-se por Beatriz.

Voltavam principalmente duas cenas. A primeira, num aniversário, não saberia dizer de quem. Dessas festas de verão, janelas da casa todas abertas, deixando entrar uma luz bem clara que depois empalideceria aos poucos, tingindo o céu de vermelho, porque entardecia. Ele lembrava de um copo de guaraná, da saia de veludo da mãe - sempre ficava enroscado na mãe, nas festas, espiando de longe os outros, os da idade dele. Lembrava do copo de guaraná, da saia de veludo (seria verde-musgo?) e do balão de gás que segurava. Então a mãe perguntou, de repente, qual a menina da festa que ele achava mais bonita. Sem precisar pensar, respondeu:

- Beatriz.

A mãe riu, jogou para trás os cabelos - uns cabelos dourados, que nem o guaraná e a luz de verão - e disse assim:

- Credo, aquela estrelete?

Anos mais tarde, não encontraria no dicionário o significado da palavra estrelete. Mas naquele momento, ali com o balão numa das mãos, o guaraná na outra, cotovelos fincados no veludo (seria azul-marinho?) da saia da mãe, pensou primeiro em estrela. Talvez por causa do movimento dos cabelos da mãe, quando tudo brilhou, ele pensou em estrela. Uma pequena estrela. Uma estrela magrinha, meio nervosa. Beatriz tinha um pescoço longo de bailarina que a fazia mais alta que as outras meninas, e um jeito lindo de brilhar quando movia as costas muito retas, olhando adulta em volta.

Estrelete estrelete estrelete estrelete - repetiu e repetiu até que a palavra perdesse o sentido e, reduzida a faíscas, saísse voando junto com o balão que ele soltou, escondido atrás do taquareiro. Bem na hora em que o sol sumia e uma primeira estrela apareceu. Estrela D’Alva, Vésper, Vênus, diziam. Diziam muitas coisas que ele ainda não entendia.


CENAS
A outra cena acontecia num dos festivais de fim de ano do Grupo Escolar, no Cine Cruzeiro do Sul.

Ele estava na platéia, porque não sabia cantar nem dançar nem declamar, nem nada que os outros pudessem sentar e aplaudir - como ele sentava e aplaudia agora. Então Beatriz entrava no palco com um vestido branco repolhudo, sentava numa cadeira e a professora-apresentadora colocava um acordeom nos braços dela. Embora alta demais para a idade, Beatriz quase desaparecia no palco do cinema, atrás daquele enorme acordeom. Dava só para ver o rosto pálido, sério, a franja lisa acima do instrumento, as pernas compridas abaixo, tão finas que os carpins de renda desabavam sobre os sapatos de verniz preto e presilha. As duas mãos de unhas roídas, nas teclas.

Então, acontecia. Na memória, anos depois, tinha a impressão de que havia um silêncio pouco antes dela começar. Um silêncio precedendo o brilho. Talvez não, só fantasias.

De repente, logo após esse silêncio incerto, os dedos de unhas roídas de Beatriz começavam a mover-se sobre as teclas. Do acordeom e da voz dela, uma voz fina de vidro, agulha, espinho, brotava aos poucos uma valsinha chamada O Destino Desfolhou. O-nosso-amor-traduzia-felicidade-e-afeição, ele lembraria, suprema-glória-que-um-dia-tive-ao-alcance-da-mão. O coração bateu mais forte. Como quando soltara o balão, de tardezinha, atrás do taquaral. E alguma coisa brilhou no ar entre vermelho e roxo do entardecer, no meio das paredes descascadas do Cine Cruzeiro do Sul. Era tudo: cenas.

Depois dessa, havia outras.

Cenas mais comuns, com ele sentado quase sempre atrás ou ao lado dela, na primeira, segunda, terceira, quarta e quinta séries primárias. Colava de Beatriz, em Aritmética. Ela colava dele, em Linguagem. Tiravam notas boas. Mas em Comportamento, todo mês ganhavam o mínimo, porque não paravam de conversar. Todas as manhãs, menos sábado e domingo.

Sábado não tinha Beatriz. Mas domingo, vez enquando, na missa das dez, novamente ela aparecia, ao lado da mãe. Dona Lucy não usava saias de veludo nem tinha cabelos dourados: era viúva, vestia preto, cabelos presos num coque, rosário na mão. Ao lado dela, o brilho de Beatriz desaparecia, ofuscado por uma dor que ela ou ele só seriam capazes de compreender mais tarde, se houvesse tempo. E não havia.
A SEPARAÇÃO
De repente - ou não de repente, mas tão aos pouquinhos, e tão igual todo dia que era como se fosse assim, num piscar de olhos, num virar de página - passou-se muito tempo. E quando começaram o ginásio houve: A Separação. Ele foi para o colégio Estadual, ela para o colégio das Freiras. Depois das férias grandes, pelas manhãs, num fim de verão, não havia mais Beatriz.

Aos domingos, sim, tinha Beatriz na matinê das quatro. Sem dona Lucy. Havia agora Betinha, Aureluce, Tanara e outras amigas barulhentas em volta, uma fila inteira delas no Cine Cruzeiro do Sul. Com blusinhas de banlon e risadinhas, pipocas e barulho de papel de bala amassado justo na hora em que Johnny Weissmuller ia cair nas mãos dos pigmeus canibais. Areias movediças, caçadores de cabeça, dardos fatais. Odiava todas as gurias: gasguitas gasguitas. Menos ela. Quando retardava ou apressava o passo para cruzá-la na saída, ruborizava um pouco, dizia ó-h! cumprimentando - e apressava o passo de novo, para afastar-se logo e levá-la por dentro, perdoando tudo.

Ela crescia. Crescia não como as outras, para os lados, para a frente e para trás. Beatriz crescia principalmente para cima. Pescoço cada vez mais longo, rabo-de-cavalo preto liso escorrido batendo nas costas, abaixo dos ombros. Ele, não. Ele não crescia para lado nenhum. Só para dentro, parecia. Tinha horror de uma coisa densa, meio suja, entupindo ele por dentro.

Descoordenava os movimentos, descontrolava a voz. Umas espinhas, uns pêlos apareciam em lugares imprevistos. Sentia-se pesado, lerdo, desconfortável como se não coubesse dentro do próprio corpo, suspenso entre ter perdido um jeito antigo de comandá-lo e ainda não ter encontrado o jeito novo. Que devia haver um.

Nessa época, começaram os boatos. A filha da Lucy, diziam, mas mudavam logo de assunto quando ele se aproximava. Que horror, ainda conseguia ouvir, que tragédia. Primeiro o marido, agora a filha. Coitadinha, nem quinze anos. Aprendeu a maneira de ouvir sem ser visto. Na sombra, atrás da porta.

Até surpreender, um dia, a palavra nova: leucemia. No dicionário, encontrou. Mas não conseguiu entender direito. Glóbulos, era bonito, redondo. Parecia pétala, sânscrito, dádiva: gló-bu-los. Brancos, excesso. Mata? perguntou no colégio. Disseram que sim. Em pouco tempo.


A URGÊNCIA
Então baixou a pressa.

Não tinha mais um dia a perder, pois embora fosse muito cedo, começou a suspeitar que era também desesperadamente tarde demais. Procurou Betinha, bilhete pronto, escrito com Parker em folha de arquivo. Quero falar contigo amanhã sem falta, na praça, depois da aula.

- Tu sabes? - perguntou Betinha, olho no olho.

Ele disse que sim.

De tardezinha, veio a resposta: Beatriz concordava. Amanhã na praça, sem falta.

- Mas tu sabes mesmo? - Betinha perguntou novamente.

Outra vez, disse que sim. Perguntou se era verdade. Betinha sacudiu a cabeça, que era. Antes de ir embora, ainda falou:

- Olha bem para o pescoço dela. Tem uns caroços aqui, assim, inchados. Aquilo é a doença.

Ele olhou bem, quase meio-dia da manhã seguinte, sentados num banco do centro da praça. Enquanto pedia, trêmulo de amor:

- Beatriz, quero namorar contigo.

Ela apertou contra o peito um livro de História do Brasil:

- Tu é muito criança - disse.

Quase não conseguia olhar para ela. Olhava o chão de pastilhas coloridas no centro da praça. Formavam círculos, quadrados, estrelas grandes e pequenas. Menores ainda, estreletes.

- Mas se eu sou criança - foi dizendo devagar, convincente -, se eu sou criança tu também é, porque só tens doze anos.

- Treze - ela corrigiu. E ergueu o rosto para o sol no meio do céu. Os gânglios inchados quase desapareciam assim. Gân-gli-os, repetiu mentalmente, essa palavra que quase não conhecia.

Espantado, percebeu que Beatriz usava batom. Batom clarinho, mal se notava. Parecia tão divertida e distante que aquela coisa densa, meio suja, dentro dele começou a se contorcer feito quisesse sair para fora. Cobra armando o bote, vômito armado na garganta. Ainda tentava controlá-la, quando insistiu:

- Eu gosto de ti, Beatriz. Eu gosto muito de ti. Eu gosto tanto de ti.

- Pois eu não - ela abaixou os olhos, procurando os dele. Quando encontrou, falou quase sorrindo, como quem dá uma coisa doce, não como quem enfia uma faca afiada: - Gosto só como amigo.

- Como amigo, não me interessa - gemeu.

Devia ser março, porque o sol era tão quente que fazia gotas de suor escorrerem entre as espinhas da cara dele até o lábio superior, onde aquele pêlos escuros começavam a se adensar. Sua cara de macho em preparação devia estar nojenta como a de um bicho. Mais tarde, bem mais tarde, se lhe perguntassem, mas ninguém saberia, poderia explicar que não tinha tido culpa. Foi aquela coisa suja de dentro que subiu descontrolada garganta acima, para atravessar a língua e os dentes até arredondar-se de repente na pergunta cruel que jogou no ar morno de meio-dia (e Sol na X, era o destino):

- Beatriz, tu sabe que vai morrer?

Ela levantou. Nem pálida, nem lágrimas nos olhos. Remota, fatídica. Ele levantou também. Só então percebeu que, além do batom, ela usava sapatos de saltinho que a faziam quase dois palmos mais alta que ele. Por trás dela, podia ver a torre da igreja. Talvez uma ou duas palmeiras. A caixa d’água ao longe, muito alta. O sino começou a bater. Beatriz virou as costas e saiu caminhando, pescoço erguido, o livro de História apertado contra os seios tão empinados que, num último golpe, percebeu: além do batom e dos saltinhos, Beatriz também usava sutiã.

Beatriz era uma mulher. E ia morrer
A PARTIDA
Volta, quis dizer, parado no meio da praça.

Mas agora, tantos anos depois, não saberia se teve mesmo vontade de chamar ali, ao meio-dia de uma tarde de Peixes, ou se repetiria depois baixinho, à noite, sozinho na cama, no mesmo quarto com o irmão mais velho, nessa noite ou em todas as outras depois dessa, à medida que o verão fosse indo embora e as noites todas se tornassem mais e mais frias, junho julho, agosto adentro, enrolado em cobertores, vida afora repetindo volta, Beatriz, volta que eu cuido de ti e dou um jeito qualquer de tu ficares boa e então nós podemos ir embora para a África ou Oceania ou Eurásia ou qualquer outro lugar onde tu possas ficar completamente boa do meu lado e para sempre, volta que eu te cuido e não te deixo morrer nunca.

Não disse nada. Pisando lenta, olhando o sol, Beatriz foi embora para sempre dos doze anos de vida dele.
AH, DINDI...
O tempo passou, depois disso, mais um pouco. Um, dois anos em que, além de para dentro, ele começou a crescer igual aos outros: em todas as direções. Aqueles pêlos finos engrossaram sobre o lábio superior, outros surgiram, escureceram curvas, reentrâncias. As espinhas desapareceram, a voz definiu-se. Aquela coisa densa de dentro transformou-se numa espécie de leite espesso que descobriu o jeito de puxar para fora, com movimentos da mão e estremecimentos do corpo. Na cama ao lado, Toninho repetia:

- Vai criar cabelo na palma da mão. Vai ficar tuberculoso desse jeito. Se quiser, um dia me fala, te levo na zona. Ou vai sozinho, chega na Morocha e diz que é meu irmão, ela já sabe.

Foram esses os anos em que Beatriz foi embora. Para a capital, para se tratar, diziam.

Isso depois de uma fase em que ela trocou aquele batom rosa clarinho por outro vermelho, muito forte, aqueles saltos baixos por outros altíssimos, e decotes fundos, costas de fora, saias curtas, pernas cruzadas no clube, risadas estridentes na rua, cigarros e rosas de ruge nas faces cada vez mais brancas. De mão em mão, Beatriz passou. Pelas mãos de Cacá, que na aula de Educação Física abaixava o calção para mostrar o pau, o maior do colégio, quem quisesse ver. Ou pegar, alguns pegavam. Pelas mãos de Mauro, que tinha cabelo no peito e encestava bola no basquete como ninguém. E Luizão e Pancho e Caramujo e Bira e tantos outros que nem lembrava direito o nome, a cara, divulgando pelas esquinas, pela sinuca, pela praça ou matinê: ela faz de tudo, só chegar e meter a mão, dá pra qualquer um - uma percanha.

Com ele, quase nada aconteceu, além de uma tentativa desastrada de namorar Betinha, depois que Beatriz se foi.

Mas só perguntava por ela, até que um dia Betinha encheu, foi namorar Luizão, que tinha uma lambreta. Quase nada além daquele corpo crescendo em direções imprevistas, de um B gótico desenhado em segredo e carinho nas folhas finais dos cadernos, principalmente os de Geografia, quando tentava decorar as capitais - Suíça, capital Berna; Polônia, capital Varsóvia; Honduras, capital Te-gu-ci-gal-pa - e a cada nome estranho repetia e repetia, morto de saudade: para lá, então, para lá, Beatriz, quem sabe - vamos?

Aprendeu a dirigir o Simca Chambord branco forrado de vermelho do pai. Mas Passo da Guanxuma acabava logo: só restavam quatro estradas de terra vermelha poeirenta batida, perdidas até o horizonte. Precisou professor particular de Matemática. Ficou para segunda época em Latim, não conseguia passar da primeira declinação, terra, terrae, terram. Escreveu sonetos de pé quebrado, sem parar ouviu Silvinha Telles num compacto cantando ah-Dindi-se-soubesses-o-bemque-eu-te-quero-o-mundo-seria-Dindi-lindo-Dindi...

Até aquele dia.


MARTE
Era sempre verão quando alguma coisa acontecia. Talvez porque no verão as pessoas tiravam cadeiras para fora de casa e, pelas calçadas, olhando estrelas, falavam de tudo que não costumavam falar durante o dia. Ele tinha aprendido o jeito de se confundir com as sombras, sem que o notassem. Tinha-se tornado uma sombra à espreita do que nunca era dito claramente, à beira do momento em que não haveria mais nenhum segredo a descobrir e a vida, então, se tornasse crua e visível, por tê-la tocado ele mesmo, não por ouvir dizer.

Frase após frase, ficou ouvindo:

- E a filha da Lucy, tu já soube?

- Quem, a Beatriz?

- E a Lucy tinha outra filha, criatura?

- Perguntei por perguntar. Que aconteceu?

- Pois diz que morreu, em Porto Alegre.

- Mas não me conta, criatura. Quando?

- Ontem, tresantontem. Não sei direito. Vão enterrar lá mesmo.

- Que barbaridade Tão novinha.

- Pois é. Mas uma perdida. Não tinha nem dezesseis anos.

- Um guria bonitinha. Meio espevitada, mas jeitosinha.

- Diz que morreu grávida.

- Pelo amor de Deus, não me conta.

- Que sabia que ia morrer. Aí deu um desgosto, emputeceu de repente.

- Mas quem era o pai?

- Deus é que sabe. Só aqui no Paço, retoçou com todos. O Cacá da Zulma, o Luizão da Lia, o Eira do Otaviano. Fora os de lá, que ninguém sabe.

- Que coisa de louco.

- Diz que a cabeça rachou toda antes de morrer.

- Como, rachou?

- Pois rachou, ué. Que nem porongo no sol. A tal da doença.

- Mas a pobre da Lucy. Primeiro o marido, depois a filha.

- Cada vivente com a sua sina.

- A pobre da Beatriz.

- Que Deus a tenha.

- Escuta, teu filho não tinha um rabicho por ela?

- Tinha? (Tanto tempo hoje, a garrafa de vinho quase vazia e a voz travada de Marjanne Faithfull cantando As Tears Goes By, tantas dores novas, e tão inesperadas, tivesse visto de lá, naquele tempo, com aqueles olhos que nunca mais teria.) Tinha tido mesmo - tão grosseiro, como se diz? - um rabicho por Beatriz? Não sabia responder direito.

Deve ter olhado para cima e visto a estrela vermelha (seria Marte?) que naquele verão costumava brilhar justamente sobre a casa da Morocha. Teve um impulso, coice no peito, suor na testa. Mas esperou que o assunto mudasse, virando página após página de O Cruzeiro, jogado no sofá-cama da sala. David Nasser, disco voador, Márcia e Maristela, candangos, Odete Lara, coisas assim. Só depois de ter remanchado horas pela casa - outra vez então aquela coisa grossa, aquela coisa porca, aquela coisa furiosa dando voltas dentro dele - resolveu emergir devagarinho das sombras para a luz do poste sobre as pessoas sentadas na calçada.

E visto assim, à luz do poste, dos cigarros, vaga-lumes e estrelas, camisa aberta ao peito, as duas mãos enfiadas fundo nos bolsos, parecia tão seguro e decidido que ninguém teria coragem de negar absolutamente nada quando pediu:

- Pai, me empresta o auto?


POEIRA
Deu a partida e enveredou pelos barrancos em direção à casa da Morocha. Alto do chão.

- El hermano de Tonico? - ela perguntou, oferecendo a cuja de mate novo, dente de ouro na frente. - Entonces, eres tu? Bién que él me tenha hablado, muy guapo.

Os anéis cintilaram quando ela abriu a porta para que ele penetrasse no interior enfumaçado. Já estavam lá, ou chegariam depois, não lembrava, o Caramujo, o Pancho, o Bira e talvez um ou outro daqueles bagaceiras todos que tinham tocado em Beatriz. Não falou com ninguém. Sentou sozinho numa mesa, pediu um maço de Hudson com ponta, uma cerveja. Antes que pedisse a segunda, uma loira meio velha, olhos verdes e falha num dente, pediu licença para sentar com ele. Usava saia justa de veludo de cor viva, de que nunca mais conseguiu lembrar a cor exata, embora tivesse certeza de que não era verde-musgo nem azul-marinho.

Na manhã seguinte, quando Toninho aos berros finalmente conseguiu acordá-lo, lembrava apenas de ter pedido para ouvir O Destino Desfolhou, depois de uma vomitada espetacular bem no meio da sala. Mais que tudo, das pernas escancaradas de uma loira meio velha numa cama de lençóis com cheiro estranho. O resto, névoa opaca, gosto de palha na boca.



Hoje - tantos anos depois, neurônios arrebentados de álcool, drogas, insônia, rejeições, e a memória trapaceia, mesmo com a atenção voltada inteira para o centro seco daquilo que era denso e foi-se dispersando aos poucos, como se perdem o tempo e as emoções, poeira varrida, por mais esforços que faça, plena madrugada, sede familiar, telefone - mudo - não consegue lembrar de quase mais nada além disto tudo que tentou ser dito sobre Beatriz ou ele mesmo ou aquilo que agora chama, com carinho e amargura, de: Aquele Tempo. Tempo, faz tanto tempo, repetem - esquece. Continuam a dizer coisas que ele não entende.

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