Cairbar Schutel Vida e Atos dos Apóstolos 1933 Eugène Bodin Um rio perto d'Abbeville



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ESTEVÃO NO SINÉDRIO

E Estêvão, cheio de graça e poder, fazia grandes prodígios e milagres entre o povo. Levantaram-se, porém, alguns dos que eram da sinagoga, chamada dos libertos, dos cirineus, dos alexandrinos e dos da Cilícia e Ásia, e disputavam com Estêvão; e não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito pelo qual ele falava Então subornaram homens que diziam: Temo-lo ouvido proferir palavras de blasfêmias contra Moisés e contra Deus; e também .sublevaram o povo, aos anciãos os e aos escribas, e investindo contra ele, arrebataram-no e levaram-no ao Sinédrio, e apresentaram falsas testemunhas que diziam: Este homem não cessa de proferir palavras contra o lugar santo e contra a Lei; porque o temos ouvido dizer que esse Jesus, o Nazareno, há de destruir este lugar e há de mudar os costumes que Moisés nos deixou. E todos os que estavam sentados no, Sinédrio, fitando os olhos nele, viram o seu rosto como o rosto de um anjo. — v. v. – 8–15.


As manifestações de Espíritos ilustram todos os livros sagrados. Tanto no Velho, como no Novo Testamento, elas constituem o fundamento sobre o qual se assenta o monumento da Fé que um dia há de abrigar a Humanidade inteira.

Estêvão foi um grande médium. Além de prodígios que fazia publicamente, gozava do dom da sabedoria, de que Paulo fala em sua Epístola aos Coríntios, e ainda era médium de transfiguração, segundo se nota no trecho. O próprio Lucas, dirigindo-se a Teófilo, diz positivamente que ele falava com o auxílio do Espírito, ou para melhor dizer — que o Espírito falava por ele. Era, enfim, um grande médium falante, faculdade esta catalogada no “Livro dos Médiuns” — de Allan Kardec.

Mas, essas manifestações e esses dons não agradavam ao sacerdotalismo hebreu, como não agradam hoje ao sacerdotalismo Romano e Protestante, de modo que fez-se mister por um termo a todos aqueles fenômenos, chamados hoje psíquicos ou espíritas.

E como Estêvão era um homem impoluto, contra quem queixa nenhuma podia haver, arranjaram testemunhos falsos, homens sem pudor, sem caráter e sem brio, que se venderam para acusar o grande Profeta do Senhor.

Nunca faltaram, como não faltam, Judas no mundo para atraiçoarem o próximo e venderem até a sua própria alma aos plutocratas de todos os tempos. Assim como o mundo está sempre cheio de Herodes, de Pilatos, de Caifazes, a concorrer para o crucificamento do primeiro justo que encontrem.

Vemos, porém, em Atos, que apesar de toda a acusação lançada contra Estêvão, os seus próprios acusadores e inimigos fitando os olhos nele, viram o seu rosto como o rosto de um anjo.



A DEFESA DE ESTÊVÃO E SUA MORTE

A defesa de Estêvão é uma peça oratória de grande valor histórico.

O profeta, homem de instrução, conhecia a fundo o Antigo Testamento, e, assistido pelo Espírito, para justificar a sua atitude, dissertou largamente sobre a história do povo hebreu, lembrando as manifestações recebidas por esse povo, a lei Mosaica, e muitas outras passagens dignas de menção.

O sacerdotalismo judaico fundava a sua religião nos livros do Antigo Testamento, mas interpretavam-no à letra, fazendo o que fazem hoje os sacerdotes católicos e protestantes, torcendo o sentido das Escrituras, suprimindo passagens, saltando por sobre versículos, etc.

Estêvão já sabia de tudo isso, isto é, do sistema sacerdotal, mas quis cumprir o seu dever relembrando àqueles homens que concentravam em suas mãos o poder e a justiça, a história bíblica, na qual também Estêvão baseava a sua doutrina.

E logo que o sumo sacerdote o inquiriu sobre a acusação de que era vítima, ele começou a falar:



Irmãos e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, estando este na Mesopotâmia, antes de habitar em Charran, e disse-lhe: sai da tua terra e dentre tua parentela, e vem para a terra que eu te mostrar. Então saiu da terra dos caldeus e habitou em Charran. E dali, depois de falecer o pai, passou por ordem de Deus para esta terra, onde vós agora habitais, e nela não lhe deu herança nem sequer o espaço de um pé; e prometeu dar-lhe em posse e depois dele à sua posteridade, não tendo ele ainda filho. E Deus disse que a sua posteridade seria peregrina em terra estrangeira, e que a escravizariam e matariam por quatrocentos anos; e eu, disse Deus, julgarei a nação da qual forem escravos, e depois disso sairão e me servirão neste lugar. E deu-lhe a aliança da circuncisão; e assim Abraão gerou Isaac e o circuncidou ao oitavo dia; e Isaac gerou Jacob, e Jacob aos doze patriarcas. E os patriarcas tendo inveja de José, venderam-no para o Egito, mas Deus era com ele e livrou-o de todas as suas tribulações e deu-lhe graça e sabedoria perante Faraó, rei do Egito, que o constituiu governador do Egito e de toda a sua casa. Sobreviveu, porém, uma fome em todo o Egito e em Canaan, e grande tribulação, e nossos pais não achavam que comer. Mas quando Jacob soube que havia trigo no Egito, enviou ali nossos pais pela primeira vez; e na segunda, José descobriu-se a seus irmãos, e sua linhagem tornou-se manifesta a Faraó.

E tendo José enviado mensageiros, mandou vir seu pai Jacob, e toda sua parentela, isto é, setenta e cinco pessoas. Jacob desceu ao Egito, e ali morreu ele e nossos pais; e foram trasladados para Sichem e postos num túmulo que Abraão comprou por certo preço em prata aos filhos de Emor em Sichem. A proporção que se aproximava o tempo da promessa que Deus fez à Abraão, crescia o povo e multiplicava-se no Egito, até que levantou-se ali outro rei, que não conhecia a José. Este rei usou de astúcia contra a nossa raça e afligiu nossos pais, ao ponto de fazê-los enjeitar seus filhos, para que não vivessem. Por esse tempo nasceu Moisés, e era formosíssimo; e por três meses criou-se na casa de seus pais; e quando ele foi exposto, a filha do Faraó o recolheu e criou como seu próprio filho. E Moisés foi instruído em toda a sabedoria do Egito e era poderoso em palavras e em obras. Mas quando ele completou quarenta anos, veio-lhe ao coração visitar seus irmãos, os filhos de Israel. E vendo um homem tratado injustamente, defendeu-o e vingou ao oprimido, matando o egípcio. Ora, ele julgava que seus irmãos entendiam que por mãos dele Deus os libertava; mas eles não o entenderam. E no dia seguinte apareceu a dois, quando brigavam e procurou reconciliá-los dizendo: Homens, vós sois irmãos; para que maltratais um ao outro? Mas o que fazia injúria ao seu próximo, repelia-o, dizendo: Quem te instituiu chefe e juiz entre nós? Queres tu matar-me, como ontem mataste o egípcio? Moisés ouvindo isto fugiu e tornou-se peregrino na terra de Madian, onde gerou dois filhos. Passados mais quarenta anos, apareceu-lhe no deserto do Monte Sinai um anjo do Senhor numa sarça ardente. Quando Moisés viu isto, maravilhou-se da visão; e ao chegar-se para contemplá-la, ouviu-se esta voz do Senhor: Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob. E Moisés ficou trêmulo, e não ousava contemplá-la. Disse-lhes o Senhor: Tira as sandálias de teus pés; porque o lugar em que estás, é uma terra santa. Vi, com efeito, o sofrimento do meu povo no Egito, ouvi o seu gemido, e desci para o livrar; vem agora, e eu te enviarei ao Egito. A este Moisés, a quem não conheceram dizendo: Quem te constituiu chefe e Juiz? a este enviou Deus como chefe e libertador por mão do anjo que lhe apareceu na sarça. Foi este que os conduziu para fora, fazendo prodígios e milagres na terra do Egito, no Mar Vermelho e no deserto, por quarenta anos. Este é Moisés que disse aos filhos de Israel: Deus vos suscitará dentre os vossos irmãos um profeta semelhante a mim. Este é aquele que esteve na igreja no deserto com o anjo que lhe falara no Monte Sinai; e com os nossos pais; o qual recebeu oráculos de vida para vô-los dar, e a quem nossos pais não quiseram obedecer, antes o repeliram e nos seus corações voltaram ao Egito, dizendo a Aarão; Faze-nos deuses que vão adiante de nós; porque quanto a este Moisés que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que foi feito dele. Naqueles dias fizeram um bezerro e ofereceram sacrifício ao ídolo, e alegravam-se nas obras das suas mãos. Mas Deus voltou deles a sua face e os entregou ao culto das hostes do céu, como está escrito no livro dos profetas:

Oferecestes-me, porventura, vítimas e sacrifícios por quarenta anos no deserto, ó casa de Israel, e não levantastes a tenda de Moloch e a estrela do deus Rempham, figuras que fizestes para as adorar? Assim remover-vos-ei para além da Babilônia.

Nossos pais tiveram no deserto o tabernáculo do testemunho, como ordenou o que falou a Moisés, dizendo que o fizesse conforme o modelo que tinha visto; o qual também nossos pais, sob a direção de Josué, tendo-o por suas vez recebido, o introduziram na terra, ao conquistá-la das nações, que Deus expulsou da presença deles até os dias de David; o qual achou graça diante de Deus, e pedia-os achar um tabernáculo para a Casa de Jacob. Salomão, porém, edificou-lhe uma casa. Mas o Altíssimo não habita em casas feitas por mãos; como disse o profeta:

O Céu é o meu trono,

E a Terra o escabelo de meus pés;

Que casa me edificareis, diz o Senhor,

Ou qual é o lugar do meu repouso?

Não fez, porventura, a minha mão todas estas coisas

Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram vossos pais também vós o fazeis. A qual dos profetas não perseguiram vossos pais? eles mataram aos que dantes anunciaram a vinda do Justo, do qual vós agora vos tornastes traidores e homicidas, vós que recebestes a Lei por ministério dos anjos, e não a guardastes”.

Este discurso, brilhante peça oratória do grande profeta do Cristianismo nascente, como se vai ver, não agradou ao sacerdotalismo e seus sequazes. Estamos certos que não agradará também ainda hoje ao sacerdotalismo de batina e de casaca que continua, com suas doutrinas fratricidas a dividir a humanidade, concorrendo até com o ouro de suas Igrejas para a carnificina nos campos de batalha, como está acontecendo no momento presente com a calamidade que devasta o Estado de S. Paulo.

Ouvindo, portanto, o discurso de Estêvão, o Sinédrio, e mais a caterva de subservientes e fanáticos submissa ao sacerdotalismo Judaico, enfureceram-se nos seus corações, diz o texto dos Atos, e rangiam os dentes contra ele. Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no Céu e viu a glória de Deus, e Jesus em pé à destra de Deus, e disse: Eis que vejo os céus abertos e o Filho do homem em pé à destra de Deus.

Poderoso médium, pode-se dizer de todos os efeitos, sem mesmo lhe faltar a vidência das mais altas concepções do Espírito, ele não temia a morte, pois sabia que no Além túmulo se desdobrava uma Vida livre das injunções oprimentes da Terra, e livre dos carrascos e turiferários do Poder que viviam incensando o mal, perseguidos os justos, caluniando a virtude e negando a Deus!

Aquela gente, que se constituíra a guarda da Lei e os juizes da Justiça, embora tivesse diante dos olhos o quadro do Decálogo com os seus preceitos, para se orientar na tarefa que assumira, violando o reino dos céus, não tardaria a desobedecer o 5o mandamento que ensinava nas suas igrejas: NÃO MATARÁS.

E assim vemos em Atos que, tirando Estêvão fora da cidade, o apedrejaram.

Mas o profeta, que acreditava porque compreendia, observava e via — novos céus e novas terras onde existia a Justiça — erguendo sua voz, ajoelhado em sinal de humildade suplicante, clamou ao Senhor: “Senhor, não lhes. imputes este pecado; e rendeu o seu Espírito”.

Diz Lucas que Saulo consentiu neste atentado.

Pode-se concluir, mutatis mutandis, que o sacerdotalismo do tempo de Estêvão é o mesmo dos tempos antigos, como é o mesmo da lutuosa época da inquisição. É o mesmo sacerdotalismo de hoje que absolve os assassinos e ladravazes e condena os justos; que benze espadas e batiza canhões; que dá comunhão com hóstias, representando Jesus Cristo, aos que vão para as trincheiras matar a seus irmãos; que empunha o sabre e o fuzil para levar a morte às populações e que de outro lado, pleiteia o vil metal por meio de ladainhas pelas ruas e missas por alma dos que foram vitimados pelos fuzis e metralhas benzidos com o hissope.

É a mesma gente que traz ao peito cruzes simbólicas ornadas de pedrarias para significar a Jesus; que tem sempre nos lábios o nome do Senhor, mas que não têm o Senhor no coração, e como os de antanho, fecham os ouvidos para não ouvirem as palavras do Evangelho.



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