Cairbar Schutel Vida e Atos dos Apóstolos 1933 Eugène Bodin Um rio perto d'Abbeville



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O SENHOR APARECE A PAULO

Na noite seguinte o Senhor, pondo-se ao lado dele disse: Tem bom ânimo, pois assim como deste testemunho de Mim em Jerusalém, assim importa também que os dês em Roma. – Cap. XXIII, v. 11.


Jesus Cristo estava em íntima relação com Paulo. Poderoso médium de todos os efeitos, o Apóstolo dos Gentios recebia diretamente as ordens de Jesus a quem via e ouvia.

Nos momentos difíceis o Mestre não abandonava o discípulo querido a quem tinha constituído “vaso de honra” para levar aos gentios as flores perfumadas do Cristianismo, árvore bendita que Ele havia plantado para sarar as nações e alimentar os povos que se abrigassem à sua sombra.

“Tende bom ânimo, disse Ele ao Apóstolo; já deste de Mim bom testemunho, assim importa que também o dês em Roma”.

Esta frase não representa só uma mensagem auditiva vulgar, mas um aviso, uma previsão da partida de Paulo para Roma, ordem que, longe de sair do Sinédrio, vinha das alturas, dos conselhos divinos.

O grande embaixador do Céu, que já havia escalado o seu terceiro plano, e ouvira no Paraíso palavras indizíveis, de glória à Verdade, tinha que partir para levar também aos tribunais romanos a palavra de ordem recebida de Jesus.

E ele como nenhum outro soube levar até o fim a empresa que lhe havia sido concedida, nunca retendo a Palavra de Deus, nem a prendendo entre os seus lábios, assim como, em todos os seus discursos, glorificando o nome de Jesus Cristo.

No correr dos estudos que estamos fazendo, vemos bem saliente o esforço divino para que os homens se salvem e as ovelhas que desgarraram do aprisco voltem, para bem guardadas e pastoreadas, encontrarem a liberdade de que ficaram privadas sob o domínio dos mercenários e vendilhões.

A CILADA DOS JUDEUS – DENÚNCIA DO SOBRINHO DE PAULO

No Capítulo XXIII, v. v. 12 a 35, diz que no dia seguinte, ao amanhecer, os judeus coligaram-se e juraram que não comeriam, nem beberiam, enquanto não matassem a Paulo. Eram eles, ao todo, mais de quarenta.

Foram, então, ter com os principais sacerdotes e os anciãos e disseram: “Juramos não provar coisa alguma enquanto não matarmos a Paulo. Notificai, com o Sinédrio, ao tribuno que vô-lo apresente, como se necessitásseis investigar alguma coisa com mais precisão, e nós, antes que ele chegue, estamos prontos para o matar.

Mas o filho da irmã de Paulo, sabendo da cilada, entrou na cidadela e avisou a Paulo. Paulo, chamando um dos centuriões, disse: Leva este moço ao tribuno, porque tem algo a comunicar-lhe. Ele levou-o ao tribuno e narrou o que o moço lhe dissera. O tribuno, chamou-o em particular e lhe perguntou o que desejava comunicar-lhe. Ele respondeu: Os judeus combinaram rogar-te que amanhã apresentes a Paulo ao Sinédrio, como se o houvesses de inquirir com mais precisão; não te deixes levar pelo que eles dizem, porque mais de quarenta homens lhe armam ciladas e juraram não comer nem beber enquanto não o matarem e agora estão esperando a tua promessa”.

O tribuno despediu o moço e lhe recomendou que a ninguém contasse coisa alguma. E chamando dois centuriões ordenou: Tende pronto, desde a hora terceira da noite, duzentos soldados de infantaria, setenta de cavalaria e duzentos lanceiros, para irem à Cesárea; ordenou-lhes que aprontassem animais para Paulo e que o levassem salvo ao governador Felix, a quem escreveu esta carta:

“Cláudio Lysias ao potentíssimo governador Felix, saúde.

Este homem foi preso pelos judeus e estava prestes a ser morto por eles, quando eu, sobrevindo com a tropa, o livrei, ao saber que era romano. Querendo saber a causa por que o acusavam, levei-o ao Sinédrio; e achei que, era acusado de questões da lei deles, mas que não havia, acusação alguma que merecesse prisão ou morte. Sendo eu informado de que haveria uma cilada contra este homem, envio-to sem demora, intimando também os acusadores que digam perante ti o que há contra ele”.

“Os soldados, pois, conforme lhes fora ordenado, tomaram a Paulo e o conduziram de noite a Antipatris; e no dia seguinte voltaram para a cidadela, deixando os soldados de cavalaria para o acompanhar, os quais chegando a Cesárea, entregaram a carta ao governador, e apresentaram-lhe também Paulo. Ele depois de a ler e perguntar de que província ele era, e sabendo que era da Cilícia, disse: Ouvir-te-ei, quando chegarem os teus acusadores; e mandou que fosse retido no Pretório de Herodes”.

A missão de Paulo, como dissemos, não se limitava entre os gentios, ele não era somente ministro da incircuncisão, mas também da circuncisão, mas circuncisão do coração, para que adviesse em todos uma boa consciência para com Deus, o nosso Criador e uma verdadeira obediência aos Preceitos do Mestre e Senhor Jesus.

Ele era o representante geral do Cristo Nazareno e seu vaso escolhido, predileto, para levar a Palavra a todos, inclusive às forças armadas, aos centuriões, aos tribunos, aos sacerdotes e sumos pontífices, aos escribas, aos fariseus, como aos saduceus; aos tetrarcas, aos governadores, aos reis, aos imperadores, e até a César. E a sua missão só poderia ser cumprida, como foi, sem deixar a desejar coisa alguma, se ele passasse pelos quartéis e pelas prisões, pelos pretórios e pelos Sinédrios, pelas sinagogas, pelos templos, pelos palácios.

Daí vemos a razão da prisão de Paulo. Ele não sofreu as injunções arbitrárias daqueles déspotas que se apoderando da justiça, sufocaram-na sob a mais degradante perseguição, a mais torpe injustiça que praticavam contra os discípulos do Senhor; ele passou por entre as sombras de homens que o perseguiram, para pregar a vinda do Reino de Deus, a nova Doutrina da Redenção, o Evangelho da salvação que o Cristo trouxera para libertar o homem do pecado e da morte e lhe garantir a Vida Eterna com o valoroso testemunho da Ressurreição dos Mortos.

Paulo estava consciente da sua missão, estava compenetrado da sua tarefa. Ele não saía a esmo pelas praças a pregar, sendo preso de sopetão pela turba, mas os desígnios de Jesus, de que era prevenido pelo seu Mestre, o encaminhavam para todos os postos civis e militares, com plena garantia de vida e auxílio espiritual, para que a Palavra do Senhor se fizesse ouvir em toda a parte.

E esses maus e ingratos que só poderiam ouvir a Palavra fazendo sofrer os Apóstolos, recebiam assim antecipadamente a doutrina que deveriam abraçar, embora em longínquos tempos futuros, pela lei sábia da pluralidade das existências corpóreas, porque também eles eram filhos de Deus.

Foi isso que Paulo deixou entrever na sua Epístola aos Romanos, cap. XI, 28-36:

“Quanto ao Evangelho, eles são inimigos por vossa causa; mas quanto à eleição, são amados por causa de seus pais; porque dos dons e da sua vocação Deus não se arrepende. Porque assim como vós em outro tempo fostes desobedientes a Deus, mas agora haveis alcançado misericórdia pela desobediência deles; assim também estes agora foram desobedientes, para que, pela vossa misericórdia, eles agora também alcancem misericórdia. Porque Deus encerrou a todos na desobediência, para usar com todos de misericórdia. Ó profundidade das riquezas, da sabedoria e da ciência de Deus! quão inescrutáveis são os seus juízos e quão impenetráveis os seus caminhos. Porque quem conheceu a mente do Senhor? ou quem se fez o seu conselheiro? ou quem lhe deu primeiro, para que lhe seja retribuído? Porque d'Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas; a Ele seja dada glória para sempre”.

Este trecho vem precedido de uma alegoria do enxerto do zambujeiro feito na oliveira, símbolo da reencarnação, para o qual pedimos a atenção dos leitores, para maior esclarecimento.

Conclui-se deste capítulo que, embora fosse grande o plano dos judeus para matar a Paulo, eles não conseguiram o seu intento, mas serviram-se de intermediários inconscientes para que o Apóstolo cumprisse a sua missão entre os dirigentes do povo.

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