Cairbar Schutel Vida e Atos dos Apóstolos 1933 Eugène Bodin Um rio perto d'Abbeville



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PAULO NO PRETÓRIO DE HERODES – ACUSAÇÃO DE ANANIAS E TERTULO

Cinco dias depois desceu o sumo sacerdote Ananias com alguns anciões e com um orador chamado Tertulo, os quais acusaram Paulo perante o governador. Sendo ele chamado, começou Tertulo a acusá-lo, dizendo:

Visto que por ti gozamos de muita paz, e pela tua providência têm-se feito reformas nesta nação, em tudo e em todo o lugar reconhecemos com toda a gratidão, potentíssimo Felix. Mas para não te enfadar por mais tempo, rogo-te que na tua bondade nos ouça por um momento. Porque temos achado que este homem é um homem pestífero e que em todo o mundo promove sedições entre os judeus, e é chefe da seita dos nazarenos; o qual também tentou profanar o templo, e nós o prendemos, e tu mesmo examinando, poderás tomar conhecimento de tudo aquilo de que nós o acusamos. Os judeus também concordaram na acusação, afirmando que estas coisas eram assim. – Cap. XXIV, v. v. 1 – 9.
As acusações sacerdotais proferidas contra os apóstolos são bem semelhantes às atuais dos sacerdotes romanos e protestantes proferidas hoje contra os espíritas.

É o terrível espírito de seita revoltando-se contra as idéias novas, são as trevas revoltando-se contra a Luz, é o erro, a falsidade, o dolo fugindo da Verdade que se esforça para impor-se às consciências.

Esses escravocratas que inutilizam a razão e sufocam as nobres aspirações do coração, pretendem, como faziam antigamente, eternizar a escravidão da razão, dote sagrado que o Criador nos concedeu para que progridamos e concorramos com as nossas forças para o progresso do nosso semelhante.

Mas o sacerdotalismo, preso ao dogma e ao mistério, assim não entende. Pretenciosos, fazendo-se sábios tornaram-se loucos pretendendo enclausurar numa jaula de ferro o espírito, para que creia firmemente nos seus dogmas arcaicos, no seu ritual, nos seus formalismos, enfim, na superioridade ilimitada da sua razão, completamente desviada da lógica e do bom senso.

O crime de Paulo, é o nosso crime: fazer o homem pensar e, como o paralítico da piscina, se erguer e caminhar para Deus, pondo de lado a classe sacerdotal que nos oprime.

Aos romanos, cap. XII, 1-2, ele diz: “Rogo-vos, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que proveis qual é a boa agradável e perfeita vontade de Deus”.

Aos Coríntios II Cap. III, v. 17 diz: “O Senhor é Espírito e onde está o espírito do Senhor, aí há liberdade”.

Aos Tessalonicenses 1o Cap. v. v. 21, diz: “Examinai todas as coisas e abraçai só o que for bom”.

Na 1a a Timóteo, Cap. IV, v. v. 1-8, ele aponta as doutrinas errôneas que prejudicam as almas e esclarece o verdadeiro sentido da Religião.

“Porém, o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios, mediante a hipocrisia de homens mentirosos, que têm a consciência cauterizada, que proíbem o casamento e ordenam a abstinência de alimentos, que Deus criou para serem usados com gratidão pelos que crêem e conhecem bem a verdade. Pois toda a criatura de Deus é boa, e nada deve ser rejeitado, se é recebido com ação de graças; porque é santificado pela palavra de Deus e pela oração. Expondo essas coisas aos irmãos, serás um bom ministro de Jesus Cristo, alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido; mas rejeita as fábulas profanas e de velhas. Exercita-te na piedade. Pois o exercício corporal para pouco é proveitoso, mas a piedade para tudo é útil, porque tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser”.

Não é preciso nos estendermos em maiores considerações para que se compreenda o motivo que movia os sacerdotes e judeus submissos ao clero hebreu a perseguirem a Paulo.

A própria acusação é uma defesa dos princípios cristãos que o Apóstolo pregava e deixa ver o quanto pode o farisaísmo de mãos dadas com os governos despóticos.




A DEFESA DE PAULO – A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS

Tendo o governador feito sinal a Paulo que falasse, disse:

Sabendo que há muitos anos és juiz nesta nação, com bom ânimo faço a minha defesa, visto poderes verificar que não há mais de doze dias subi a Jerusalém para adorar; e que não me acharam no templo! disputando com alguém ou fazendo ajuntamento de povo, quer nas sinagogas, quer na cidade, nem te podem provar as coisas de que agora me acusam. Porém, confesso-te isto que, segundo o Caminho a que eles chamam seita, sirvo ao Deus de nossos pais, crendo todas as coisas que são conformes à Lei e estão escritas nos Profetas, tendo esperança em Deus como também eles esperam, de que “há de haver uma ressurreição tanto de justos como de injustos”. Por isso também me esforço para ter sempre uma consciência limpa para com Deus e para com os homens. Depois de alguns anos vim trazer esmolas à minha nação, e fazer oferendas, e neste exercício acharam-me purificado no templo, não com turba nem com tumulto; mas alguns judeus vindos da Ásia — e estes deviam comparecer diante de ti e acusar-me, se tivessem alguma coisa contra mim. Ou estes aqui digam que iniqüidade acharam, quando estive perante o Sinédrio, a não ser acerca desta única frase que proferi em alta voz, estando no meio deles: “Por causa da ressurreição dos mortos é que eu estou sendo julgado por vós”.

Mas Felix que sabia muito bem dessas coisas acerca do Caminho, adiou a causa, dizendo: Quando descer o tribuno Lísias, decidirei a vossa questão; e ordenou ao centurião que Paulo fosse detido e tratado com brandura, sem impedir que os seus o servissem. – Cap. XXIV, v. v. 10 – 23.


A Ressurreição dos Mortos tem servido de escândalo para os sacerdotes de todas as épocas. Essas palavras do doutor dos gentios justificam plenamente a nossa afirmação.

Condenar um indivíduo por crença na demonstração da Vida Eterna, é a cousa mais estulta que pode haver.

Se a religião é o laço que nos une a Deus, esse laço forçosamente se perpetua na Vida Eterna por inúmeros degraus ascendentes de perfeição espiritual, manifestados pela ressurreição, sem o que não teríamos conhecimento deles.

A prevalecer a morte, se extingue toda a perfeição, toda a felicidade. A não vigorar a ressurreição dos mortos, os laços que nos unem a Deus ficam destruídos, e a fé; se torna vã, o amor fraterno não pode prevalecer.

Porque Cristo ressuscitou? Para demonstrar a Imortalidade. A Maria Madalena Ele diz: “Vai a meus irmãos e dize-lhes que subo ao meu Pai e vosso Pai”. A Tomé disse: “Chega aqui o teu dedo e olha as minhas mãos; chega também a tua mão e põe-na no meu lado; não sejas incrédulo, mas crente”.

No Evangelho de Lucas, Cap. XXIV, v. v. 38-39: “Porque vos turbais? e porque se levantam dúvidas nos vossos corações? Olhai para as minhas mãos e meus pés, pois sou eu mesmo”.

O que quer dizer tudo isso? não é a demonstração da Imortalidade pela ressurreição?

Paulo fazia Rocha-Viva da sua Doutrina, a Ressurreição dos Mortos, de que Jesus Cristo tem as primícias, isto é, ao primazia, o direito de se manifestar e de falar primeiro.

Tendo Jesus declarado que vinha fazer cumprir a Lei e os Profetas, parece claro e lógico que deve prevalecer a Imortalidade e a ressurreição dos mortos, sem o que a Lei é inútil e os Profetas não têm de ser.

É por isso que vemos na Vida dos Apóstolos uma série contínua de manifestações genuinamente espíritas.

Muito especialmente sublinhamos no capítulo que transcrevemos dos Atos, os trechos pelos quais se compreende o motivo dos judeus, e mormente dos sacerdotes, condenarem a Paulo.

De fato, não tendo ele crime algum, conforme declarou o tribuno, como se justifica a acusação dos judeus, a ponto de exigirem o decreto de morte para o Apóstolo?

Não se pode compreender o sentimento religioso sem imortalidade. E não se pode compreender, repetimos, imortalidade sem ressurreição dos mortos, ou seja, reaparição dos mortos.

No encontro de Jesus com os saduceus (Lucas, Cap. XX, v. v. 27-40) o Mestre diz: “Mas que os mortos ressuscitam, Moisés o indicou na passagem a respeito da sarça, onde se diz que o Senhor é o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob. Ora, Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; pois todos vivem para Ele”.

Enfim, Felix, que havia compreendido tudo, adiou a causa, até a chegada do tribuno Lísias, mas ordenou ao centurião que Paulo ficasse detido, porém fosse bem tratado, e lhe fossem facultadas certas regalias.


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