Cairbar Schutel Vida e Atos dos Apóstolos 1933 Eugène Bodin Um rio perto d'Abbeville



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AÇÃO DE PAULO ANTE FELIX E DRUSILA

Passados alguns dias, vindo Felix com Drusila, sua mulher, que era judia, mandou chamar a Paulo, e ouviu-o acerca da fé em Jesus Cristo. Discorrendo Paulo sobre a justiça, a temperança e o juízo vindouro, Felix ficou atemorizado e disse: Por ora vai-te e, quando eu tiver ocasião e oportunidade, mandar-te-ei chamar; esperando também ao mesmo tempo que Paulo lhe desse dinheiro; pelo que, mandando-o chamar com mais freqüência, conversava com ele. Passados, porém, dois anos, teve Felix por sucessor Pórcio Festo; e querendo alcançar o favor dos judeus, Felix deixou a Paulo na prisão. – Cap. XXIV, v. v. 24 – 27.


Pelo que se lê no relato de Lucas, Paulo permaneceu preso em Cesárea dois anos. Embora gozasse de regalias que Felix lhe havia concedido, o Apóstolo era, de fato, um prisioneiro do governo daquela cidade. Nem para um lado nem para outro. Ele tinha que seguir para Roma, mas não podia fazê-lo por ter sido constrangido em sua liberdade.

Havia talvez, necessidade de ficar dois anos em Cesárea? Com certeza, do contrário, os Espíritos que o seguiam e Jesus que agia nele, não permitiriam que tal acontecesse.

Nós já vimos como Pedro foi liberto da prisão pelos Espíritos do Senhor, e como o próprio Paulo, por vezes, fora liberto das mãos dos seus inimigos. Se tal permanência do Apóstolo se deu em Cesárea, era que havia necessidade espiritual para a conversão de muitos, pois o próprio Felix já havia recebido a palavra com sua mulher Drusila. Foi pena que este governador, que era potentíssimo, se tivesse deixado levar por interesses subalternos. Ele estava, com certeza, pronto a soltar a Paulo, mas o faria só por certa quantia, como se depreende da narrativa.

Nota-se que o Apóstolo não quis submeter o representante da justiça ao vilipêndio do suborno, pois, tão criminoso é o que suborna os seus semelhantes, como os que são passivos ao suborno, e Paulo não desejava participar da obra infrutuosa das trevas. Deixou-se ficar prisioneiro e, tanto quanto lhe era possível, exercia seu ministério dentro dos estreitos limites das concessões que lhe faziam, a todos pregava aquela doutrina fundada por Jesus Cristo e contra a qual não podiam prevalecer a falsidade e a impostura.

Nós não sabemos a influência que teve Drusila no ânimo de Felix, em face da prisão do Apóstolo, mas cremos “, que ela concorreu para que fossem amenizados os sofrimentos de Paulo, e teria talvez, dado a sua opinião complacente ao prisioneiro.

As mulheres, quando não são fanáticas e supersticiosas e chegam a libertar-se das garras sacerdotais, se esforçam para se colocarem ao lado da reta justiça, além do que recebem dos Espíritos bons, intuição que as encaminham para a verdade e o bem.

Nós vemos, segundo refere Mateus, cap. XXVI, 19, que por ocasião do julgamento de Jesus, a esposa de Pilatos enviou especialmente um portador a este, recomendando-lhe a não se envolver na questão desse Justo, pois havia tido sonhos naquela noite em que ela tinha padecido muito por causa do Senhor.

A ação espiritual da mulher, sob o influxo da Revelação, é muito comum nas páginas da história. Infelizmente, essa ação tem sido nulificada pelo sacerdócio ganancioso e venal, que se obstina a permanecer numa materialidade degradante.

Felix, como se nota da narração de Lucas, embora de posse já da Verdade, fez-se campo de espinhos, sufocando a palavra com os cuidados do mundo, pois queria alcançar favor dos judeus, até que Pórcio Festa veio substituí-la, tomou as resoluções que se vão ler no capítulo que segue.

PAULO PERANTE FESTO APELA PARA CESAR

Tendo entrado Festo na província, depois de três dias subiu de Cesárea a Jerusalém, e os principais sacerdotes e os mais eminentes judeus deram-lhe informações contra Paulo, e em detrimento dele pediram a Festo como um favor que o mandas-se vir a Jerusalém, armando-lhe uma cilada para o matarem no caminho. Festo, porém, respondeu que Paulo se achava detido em Cesárea; portanto, disse ele, os que entre vós têm prestígio, desçam comigo, e se há naquele homem algum crime, acusem-no.

Tendo-se demorado entre eles cerca de oito ou dez dias, desceu a Cesárea; e no dia seguinte sentando-se no tribunal mandou trazer a Paulo. Comparecendo este, rodearam-no os judeus que tinham descido de Jerusalém, trazendo contra ele muitas graves acusações, que não podiam provar; então Paulo, defendendo-se, disse: Não tenho pecado em coisa alguma, nem contra a Lei dos judeus, nem contra o templo, nem contra Cesaro Festo, querendo alcançar favor dos judeus, perguntou a Paulo: Queres subir a Jerusalém e ser aí julgado destas coisas perante mim? Mas Paulo respondeu: Estou perante o tribunal de César onde devo ser julgado. Não tenho feito mal algum aos judeus, como tu bem sabes. Se, pois, sou malfeitor, e tenho praticado alguma coisa que mereça a morte não recuso morrer; mas se não são verdadeiras as coisas de que me acusam, ninguém pode entregar-me a eles; apelo para César. Então Festo, tendo conferenciado com o Conselho, respondeu: Para César .apelaste, a César irás. – Cap. XXV, v. v. 1 – 12.
“Ódio velho não cansa”, diz o rifão. O que não se pode arranjar, como se quer, de um modo, tenta-se fazer por outro.

A retirada de Felix deveria ter alegrado os judeus pois embora este não satisfizesse inteiramente os seus desejos, havia, entretanto, conservado a Paulo na prisão sem nada poderem eles conseguir, e com o substituto se tentaria ação mais categórica. Foi o que aconteceu.

Festo, homem venal, havia se prontificado a satisfazer a vontade dos sacerdotes e dos anciãos dos judeus, velhos perversos, com aparência de honradez e seriedade, mas a quem o Cristo já havia denominado como sepulcros caiados, que pareciam belos aos olhos dos homens, mas que estavam cheios de rapina e de podridão.

Festo, pois, como se depara do texto, não era mais nobre de consciência que Felix; “queria alcançar o favor dos judeus” e não vacilou em pôr em prática as sugestões recebidas.

Mas Paulo, além de ser um homem sábio que discernia os corações, contava com a assistência de Jesus, e como havia recebido do Senhor ordens para dar testemunho de sua Palavra em Roma, manteve-se na sua decisão anterior: “Estou perante o tribunal de César, onde devo ser julgado” .

Cidadão romano, tinha ele o direito de apelar para César, e tomada a resolução ninguém poderia revogar a decisão resolvida em juízo. Mas Paulo permaneceu ainda por um pouco em Cesárea, como vamos ver.




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