Cairbar Schutel Vida e Atos dos Apóstolos 1933 Eugène Bodin Um rio perto d'Abbeville



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PEDRO E JOÃO PERANTE O SINÉDRIO

No dia seguinte reuniram-se em Jerusalém as autoridades, os anciãos, os escribas, Anaz que era o sumo sacerdote, Caifaz, João, Alexandre e todos os que eram da linhagem do sumo sacerdote; e pondo-os no meio deles, perguntavam: Com que poder ou em que nome, fizestes vós isto? Então Pedra cheio do Espírito Santo, lhes disse: Autoridades do povo e anciãos, se nós hoje somos inquiridos sobre o benefício feito a um enfermo como foi ele curado; seja notório a todos vós e a todo povo de Israel que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, a quem vós crucificastes, e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, neste Nome está este enfermo aqui são diante de vós. Ele é a pedra, desprezada por vós, edificadores, a qual foi posta como a pedra angular. E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu, não há outro nome dado entre os homens em que devamos ser salvos. — v. v. 5 – 12.


O Sinédrio era, entre os judeus, o Supremo Conselho onde se decidiam os negócios do Estado e da religião. Pela narrativa acima, pode-se bem julgar a justiça daquele tempo, cuja maioria de membros pertencia à classe sacerdotal, cotados ainda dentre os maiores, como Anaz e Caifaz.

Imagine o leitor que atmosfera premente havia naquele meio, absolutamente hostil aos Apóstolos. Não era um conselho em que a Justiça teria a sua cadeira principal, mas sim um conselho bastardo, apaixonado, no qual predominava o ódio, o despeito e o desejo de vingança e de morte.

Mas o Espírito domina tudo. Contra o Espírito nada pode prevalecer; nem a opressão, nem o suborno, nem a malícia, nem a força, nem as potestades terrestres.

Movidos pelos espíritos, Pedro, como outrora nas bandas de Cesárea; e no Cenáculo de Jerusalém, pôs-se de pé, e em tom severo, sem vacilar, manejando a espada de dois gumes que é a palavra da Verdade e da Justiça, repetiu, com todo o ardor do seu coração, o que já havia dito em seu discurso no templo, acrescentando que o nome de Jesus está sobre todos, sobre tudo e foi em virtude desse Nome que o coxo, então presente, havia obtido o uso dos membros enfermos.

Cheios de intrepidez, sem temer a condenação e a morte, os dois Apóstolos aproveitaram a oportunidade para externarem entre os maiorais que constituíam o Conselho, os motivos da sua Fé, acrescentando corajosamente que abaixo do céu não há outro Nome em que nos pudéssemos salvar, senão no de Jesus Cristo.


A IMPOTÊNCIA DO SINÉDRIO – PEDRO E JOÃO SOLTOS

E ao verem a intrepidez de Pedro e João, e tendo notado que eram iletrados e indoutos, maravilharam-se; e reconheciam que haviam eles estado com Jesus; vendo com eles o homem que fora curado, nada tinham que dizer em contrário. Mandaram-nos sair do Sinédrio, e consultavam entre si dizendo: Que faremos a esses homens? Pois na verdade é manifesto a todos os que habitam em Jerusalém que um milagre notório foi feito por eles, e não o podemos negar, mas para que não se divulgue mais entre o povo, ameacemo-los que de ora em diante não falem nesse Nome a homem algum. E chamando-os ordenaram-lhes que absolutamente não falassem nem ensinassem em o nome de Jesus. Mas Pedro e João responderam-lhes: Se é justo diante de Deus ouvir-vos a vós, antes do que a Deus, julgai-o vós, pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos. E depois de os ameaçarem ainda mais, soltaram-nos, não achando motivo para os castigar por causa do povo, porque todos glorificavam a Deus pelo que acontecera; pois tinha mais de quarenta anos o homem em que se operara essa cura milagrosa. — v. v. 13–22.


Por mais ardis que os sacerdotes lançassem contra os dois Apóstolos, não lhes foi possível manter aqueles homens na prisão. Eles mesmos reconheceram os poderes dos Apóstolos manifestados publicamente no Sinédrio, por Pedro e João. Diziam abertamente que eles haviam feito “um grande milagre”. Mas não lhes convinha absolutamente que a glória de Deus fosse proclamada com a manifestação de maravilhas que seus Apóstolos tinham o poder de operar.

Se eles se curvassem, se eles se submetessem à Voz dos Apóstolos, teriam que renunciar ao mando, às primazias, aos primeiros lugares, ao braço de César e se aniquilariam, não seriam mais sacerdotes, e seu egoísmo e orgulho não lhes permitiam tal renúncia.

A ambição de mando, a submissão ao dinheiro, o desejo de figurar constituem e tem constituído, em todos os tempos, o apanágio do sacerdotalismo.

Não os podendo manter em prisão, pois, seria bem fácil que, se isso acontecesse, houvesse uma rebelião do povo, não tiveram remédio senão soltá-los. Mas ainda assim só o fizeram após grandes ameaças e promessas macabras caso eles “falassem ou ensinassem em nome de Jesus”.

Mas os Apóstolos retorquiram imediatamente que não podiam submeter-se às ordens deles, em detrimento às ordens de Deus. Que eles mesmos julgassem a questão: se era possível obedecer a eles ou a Deus.

Libertos da prisão eles receberam grande manifestação de regozijo do povo, e ergueram ao Senhor fervorosa prece de graças por tê-los livrado de inimigos tão tigrinos, restituindo-os ao trabalho do Apostolado, sãos e salvos, e ainda com mais fé e mais vigor do que antes.

A bela oração, digna de ser lida, está no mesmo capítulo, em que nos detemos, v. v. 23–31.

Diz Lucas que, terminada a prece, tremeu o lugar onde eles estavam reunidos, o Espírito se manifestou novamente entre todos e com liberdade eles falavam a palavra de Deus.

Um trecho de dita oração é verdadeiramente edificante.

“Senhor! olha para as ameaças dos nossos inimigos, e concede a teus servos, que com toda a liberdade falem: a tua palavra enquanto tu estendes a mão para curar, e para que se façam milagres e prodígios pelo nome do teu santo servo Jesus”.




COMUNIDADE CRISTÃ

E da comunidade dos que creram, o coração era um e a alma uma, e nenhum deles dizia que coisa alguma das que possuía era sua própria, mas tudo entre eles era comum. E com grande poder os Apóstolos davam o seu testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça. Pois nenhum necessitado havia entre eles; porque todos os que possuíam terras ou casas, vendendo-as traziam o preço do que vendiam e depositavam-no aos pés dos Apóstolos; e repartia-se a cada um conforme a sua necessidade. — v. v. 32–35.


A Doutrina de Jesus é a Religião da Paz, da Fraternidade, do Desapego, finalmente, do Amor não fingido. Jesus não admitia o orgulho e o egoísmo, fatores principais da desorganização social.

No encontro do Mestre com Zaqueu, das propostas deste e da proclamação de Jesus: “Hoje entrou a salvação nesta casa”, pode-se perfeitamente concluir o pensamento íntimo do Senhor.

A sua Palavra sobre o Rico e Lázaro, também é muito frisante.

O trecho do seu Sermão no Monte que assim começa: “Não ajunteis para vós tesouros na Terra” é mais que categórico. No cap. VI – 19–34, Mateus, os leitores ajuizarão melhor esses preceitos.

As ordenações do Senhor para que seus discípulos não carregassem ouro nem prata, nem alforges, demonstram muito bem o desapego aos bens terrenos que todos deveriam ter.

E o interessante é ainda que todas essas ordenações concordam perfeitamente com os preceitos de João Batista, que foi o precursor de Jesus. A pregação de João é um apelo à humildade, ao arrependimento e ao desapego aos bens da Terra.

No cap. III, 10, quando o povo perguntou a João o que deveria fazer, o Batista respondeu: “Aquele que tem duas túnicas, dê uma ao que não tem; e aquele que tem comida faça o mesmo”.

A dizer com franqueza, segundo a linguagem dos tempos atuais, os dois grandes Revolucionários Cristãos, eram francamente comunistas.

Ninguém há que lendo os Evangelhos e o Novo Testamento, nos possa contestar esta verdade.

Naturalmente que não se tratava de um Comunismo Materialista, que degenera em Anarquismo, mas poderíamos intitulá-lo Comunismo Cristão, com todas as insígnias de Fraternidade, Igualdade e Liberdade.

Estas três palavras, sob a Paternidade de Deus, representam a trilogia divina.

Elas se estreitam e interpenetram. Não é possível desuni-las, pois, perderiam o seu significado verdadeiro.

De fato, como pôr em prática e ajuizar a Igualdade sem a Fraternidade, quando só a Fraternidade poderá regular com justiça a Igualdade!

A Igualdade, tomada arbitrariamente é de impossível execução. No próprio Universo nós vemos que a Lei que reina é de absoluta desigualdade. Não há uma estrela semelhante em absoluto à outra: não há um rio que seja igual ao outro na Terra; não há duas folhas de uma árvore, assim como não há duas árvores iguais. Nas nossas próprias mãos não temos dois dedos iguais.

A desigualdade é o brasão do Universo. Entretanto, tudo vive, tudo progride, tudo se movimenta, porque tudo é regido por uma Lei, que tanto tem ação sobre o grande como o pequeno; sobre uma gota de água, um grão de areia, como sobre os mais volumosos rios, o mais poderoso Sol, a mais portentosa Estrela que se balança no Éter. O próprio Éter está debaixo da direção dessa Lei de Unidade que rege a Diversidade.

A lei da relatividade descoberta por Einstein, é uma pura verdade e não vigora unicamente para as grandes coisas, mas também para as mínimas, A Igualdade como a Liberdade são, portanto, leis que só podem ser regidas pela Lei da Fraternidade.

Na “Comunidade Cristã”, conforme deparamos nos Atos, todos os bens dos Cristãos eram reduzidos a dinheiro, sendo estes haveres depositados em bem da comunidade, isto é, de 'todos, e administrados pelos Apóstolos. Está bem claro no texto que a repartição se efetuava periodicamente a cada um segundo sua necessidade.

Não havia, na “Comunidade”, propriedades reservadas, bens pessoais, mas o que havia pertencia a todos, por isso que, nenhum necessitado havia entre eles.

Essa união, solidariedade fraterna, constituía uma contribuição forte para que o poder de Deus se manifestasse por meio deles. O testemunho que eles davam de sua Fé, da obediência severa aos preceitos de Cristo, tornava-os respeitados e até temidos, devido às maravilhas que se iam verificando..

Diz o texto que José, companheiro de Matias, havia sido convidado pelos onze, para tomar parte no Apostolado, mas que a sorte recaiu neste, e possuindo José uma propriedade, um campo, vendeu-o, entregando o dinheiro aos Apóstolos. José foi cognominado Barnabé, que quer dizer — filho da exortação ou seja da consolação. José era da Tribo de Levy, natural de Chipre.

Não podemos terminar este capítulo, sem fazer referências ao modo por que tem sido interpretada pelas Igrejas oficiais, com especialidade a Romana, essa resolução dos Apóstolos sobre a constituição da “Comunidade Cristã”.

As Igrejas, umas instituindo o dízimo, outras vivendo, com as suas numerosas associações, confrarias, conventos, templos e sacerdotes, padres e frades, freiras, à custa do povo, baseiam essa sua atitude, nos versos acima descritos, dos Atos, transviando assim por completo, o pensamento Apostólico.

Nas congregações primitivas, como a que reuniu em Jerusalém 5.000 almas, todos participavam dos bens, todos comiam do mesmo bolo, todos se vestiam da mesma linhagem.

Na Congregação Católica é muito diferente, são os sacerdotes que vivem à custa do povo e com as espórtulas e donativos que recebem, enchem as suas arcas de ouro, prata, pedras preciosas; adquirem fazendas e terrenos, edificam quintas e palácios, chegando a constituir um Estado separado, como é o Vaticano. Não lhes faltam carruagens, automóveis, rádios, telefones, telégrafos. Os párocos de todas as cidades, quando não têm propriedades, têm depósitos mais ou menos avultados nos Bancos.

Em todo o mundo as construções — igrejas e catedrais — são feitas à custa do povo, e, entretanto, são propriedades do Catolicismo.

O “Comunismo Romano” é uma obra de astúcia admirável. A Igreja tudo recebe e nada dá.

Entretanto, são também “Comunidades”, onde todos os clérigos participam do produto recolhido em seus cofres.

Não podíamos deixar de salientar esse fato digno de menção, para deixar ver, mais uma vez, que a obra sacerdotal é a antítese da obra Apostólica. Enquanto os Apóstolos se esforçam para pôr em prática os Preceitos do Senhor, os sacerdotes desnaturam e desvalorizam a obra do Cristianismo.

Os Apóstolos e seus discípulos viviam para a Religião, chegando a sacrificar seus bens em benefício da Comunidade.

Os sacerdotes vivem da Religião, traficando com as coisas santas e sugando o dinheiro dos homens para viverem comodamente, sempre fora da lei do máximo esforço.



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