Cairbar Schutel Vida e Atos dos Apóstolos 1933 Eugène Bodin Um rio perto d'Abbeville



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ANANIAS E SAFIRA

Mas um homem chamado Ananias, com sua mulher Safira, vendeu uma propriedade, e reteve parte do preço, sabendo-o também sua mulher e, levando uma parte, depositou-a aos pés dos Apóstolos. E Pedro disse-lhes: Ananias, porque encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço do terreno? Porventura, se não o vendesse, não seria ele teu, e vendido não estava o preço no teu poder? Como formaste este desígnio no teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus. Ananias ao ouvir estas palavras, caiu e expirou; e sobreveio grande temor a todos os ouvintes. E levantando-se os moços, amortalharam-no e levando-o para fora, sepultaram-no. Depois de um intervalo de cerca de três horas entrou sua mulher, não sabendo o que tinha sucedido. E Pedro perguntou-lhe: Dize-me se vendeste por tanto o terreno? Ela respondeu: sim, por tanto. Mas Pedro disse-lhe: Por que é que vós combinastes provar o Espírito do Senhor? Eis à porta os pés dos que sepultaram teu marido, e eles te levarão a ti para fora. Imediatamente caiu aos pés dele e expirou; e entrando os mancebos, acharam-na morta e levando-a para fora, sepultaram-na junto ao seu marido. E sobreveio grande temor a toda a igreja e a todos que ouviram estas coisas. — Atos, V, 1–11.


A missão dos Apóstolos, desde o seu início no Cenáculo de Jerusalém, foi acompanhada por larga contribuição de fenômenos ostensivos verdadeiramente surpreendentes e maravilhosos.

O estudante dos Atos fica absorto ao contemplar a descrição de tais fatos que, ora se assemelhavam à brisa que cicia, ora à faísca que atroa e aterroriza. Uma palavra dos Apóstolos cura enfermos, saneia membros paralisados. De outro lado, uma acusação que qualquer deles faz, subjuga o delinqüente, fui mina, abate.

O caso de Ananias e Safira é, verdadeiramente, subjugador, e se meditarmos maduramente sobre o que ocorreu ao casal que aspirava entrar na Comunidade Cristã, não podemos deixar de ver a ação destruidora de um inimigo da Nova Fé, arremessando exânime no chão tanto o marido como a mulher, simultaneamente, ao verem-se descobertos e censurados por Pedro, como o tentador que queria deprimir o Espírito Santo, trazendo para a nova agremiação indivíduos submissos à sua nefasta influência. Esta expressão de Pedro nos esclarece bem este ponto: “Ananias, porque encheu Satanás o teu coração para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço do terreno?”

Seria, porventura, esta uma frase mortífera para infundir temor àqueles que, candidatos ao Cristianismo nascente, deveriam ter submissão às exortações do Alto, e bastante humildade para poderem participar das dádivas celestes?

O caso que acabamos de ler nos parece um desses casos de possessão de Espírito que deixou o casal Ananias em estado de catalepsia, ou seja de morte aparente. Esses fenômenos eram muito vulgares na Judéia, segundo lemos no Novo Testamento.

Nos Evangelhos temos, por exemplo, o caso da “filha de Jairo”, do “filho da viúva de Naim”, e mais semelhante ainda ao que estudamos, o “epilético que era arremessado na água e no fogo pelo Espírito” (Marcos, IX, 14-29) e que ao ser ordenada a sua retirada por Jesus, arremessou o menino ao chão, deixando-o como morto, a ponto de o povo dizer, “Morreu” (v. 26).

Em outras obras (1) já tratamos mais circunstanciadamente desses casos de catalepsia, e no “Livro dos Médiuns”, de Allan Kardec, os leitores estudarão melhor esses fenômenos de subjugação e possessão.

Essas crises, outrora, na Judéia, eram tomadas como estado de morte e seguidas de quase imediato enterramento.

Seja como for, no caso de Ananias e Safira, somos propensos a crer que tal enterramento não se tivesse efetuado, mas que ambos, retirados pelos moços da Comunidade; passada a crise que lhes sobreviera, tornaram a si.

A narração de Lucas é incompleta, nada mais refere sobre o casal Ananias e a conseqüência de sua “morte”, pela qual seriam responsabilizados e severamente punidos os Apóstolos. Nos Atos não é registrado processo algum a tal respeito. A prisão de todos eles, relatada nos versos 17 e seguintes, não foi absolutamente por crime de morte, mas sim por crime de curas.

Ora, se a audácia e o absolutismo sacerdotal naquele tempo chegavam ao auge de encerrar os Apóstolos na prisão por curarem doentes, o que não fariam tais sacerdotes se algum deles matasse qualquer indivíduo!

E seria possível que os sacerdotes, a polícia, os agentes do Governo, poderiam ignorar numa época de opressão como aquela em que se achavam os discípulos de Jesus e de terrível perseguição, que os padres e governos de então moviam contra os Discípulos de Jesus, caso se tivesse verificado a morte de Ananias e Safira?

O que podemos concluir do capítulo transcrito dos Atos, é que os Apóstolos não admitiam na sua Comuna, hipócritas nem mentirosos, e por isso julgaram de bom alvitre expulsar dela aqueles neófitos que, no dizer de Jesus, não se achavam, como é preciso aos que comparecem ao Grande Banquete, com a túnica nupcial.

Não se diga também que os Apóstolos exigiam aos que ingressavam em suas fileiras todos os seus bens. Por estas palavras de Pedro, se observa que eles desejavam dádivas espontâneas e não forçadas: “Porventura, se não o vendesses, não seria ele teu; e vendido, não estava o preço em teu poder?”




OS MILAGRES E AS CURAS – A PRISÃO DOS APÓSTOLOS

E faziam-se muitos milagres e prodígios entre o povo pelas mãos dos Apóstolos; e todos estavam de comum acordo no pórtico de Salomão; dos outros, porém, nenhum ousava ajuntar-se a eles, mas o povo os engrandecia; e cada vez mais se agregavam crentes ao Senhor, homens e mulheres em grande número; a ponto de levarem os enfermos até pelas ruas e os porem em leitos e enxergões, para que, ao passar Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse algum deles. E também das cidades circunvizinhas de Jerusalém afluía uma multidão, trazendo enfermos e atormentados de espíritos imundos; os quais eram todos curados.

Levantando-se, porém, o sumo sacerdote e todos os que estavam com ele (que eram da seita dos saduceus), encheram-se de inveja, prenderam os Apóstolos e os recolheram à prisão pública. Mas um anjo do Senhor abriu de noite as portas do cárcere e, conduzindo-os para fora, disse-lhes: Ide e, no templo, postos em pé, falai ao povo todas as palavras desta vida. E tendo ouvido isto, entraram ao amanhecer no templo e ensinavam. Mas comparecendo o sumo sacerdote e os que com ele estavam, convocaram o Sinédrio e todo o senado dos filhos de Israel, e enviaram os oficiais ao cárcere para trazê-los. Mas os oficiais que lá foram não os acharam no cárcere; e tendo voltado, relataram: Achamos o cárcere fechado com toda a segurança e os guardas às portas, mas abrindo-as, a ninguém achamos dentro. E quando o capitão do templo e os principais sacerdotes ouviram estas palavras ficaram perplexos a respeito deles e do que viria a ser isto, e chegou alguém e anunciou-lhes: eis que os homens que meteste no cárcere, estão no templo postos em pé e ensinando o povo. Nisto foi o capitão e os oficiais e os trouxeram sem violência, porque temiam ser apedrejados pelo povo. E tendo-os trazido, os apresentaram no Sinédrio. E o sumo sacerdote interrogou-os, dizendo: Expressamente vos admoestamos que não ensinásseis nesse Nome, e eis que tendes enchido Jerusalém com o vosso ensino e quereis trazer sobre nós o sangue desse homem. Mas Pedro e os Apóstolos responderam: importa antes obedecer a Deus que aos homens. O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, que vós matastes, pendurando-o num madeiro; a Eles elevou Deus com a sua destra a príncipe e Salvador, para dar arrependimento a Israel e remissão de pecados. E nós somos testemunhas destas coisas e bem assim: o Espírito Santo, que Deus deu aos que lhe obedecem. – Atos, V – 12 – 32.
O Cristianismo é uma reunião, um congregado completo de boas obras. Assim como o mundo não consiste unicamente de terras, de mares e de rios, mas é tudo o que nele existe de bom, de útil, de indispensável à vida, à instrução e ao progresso, também o Cristianismo é substância, é luz, é vida para todos os que ingressam em suas fileiras.

Todos os dons, todas as faculdades, quais clareiras abertas a um mundo novo, tudo o que é indispensável à vida moral e espiritual, que exalta o coração, que consubstancia o cérebro, que enobrece a alma, que eleva, dignifica e espiritualiza o homem, tudo encontramos no Cristianismo.

Observemos a união daqueles crentes que formavam a Comuna Cristã, — o seu desinteresse, o seu espírito de concórdia, de paz, de humildade, e de outro lado as extraordinárias lições que os Espíritos Santos lhes davam por intermédio dos Apóstolos; observemos os fatos maravilhosos que se desdobravam a todo o momento às suas vistas, o desenrolar de cenas admiráveis, patéticas que repercutiam de quebrada em quebrada na Judéia, atraindo homens, mulheres, crianças; são os que iam beber no Cálice da Revelação a Sabedoria que enaltece, o Amor que embalsama, a Fé que salva; enfermos — uns caminhando trôpegos, mas por seus próprios pés, — outros carregados por mãos piedosas em leitos e enxergões, para que ao passar Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse algum deles!

Imaginai as romarias que enchiam as estradas, vindas de todas as cidades circunvizinhas em direção a Jerusalém, conduzindo atormentados pelas enfermidades, e subjugados por Espíritos obsessores, que recebiam a saúde, o remédio que os libertavam do mal!

Observai ainda mais as pregações dos Apóstolos que conduziam numa urna triunfal a Doutrina do Ressuscitado, ao mesmo tempo que enfrentavam a sanha herodiana, dos sacerdotes e governos com aquele denodo que lhes era peculiar, com aquela coragem que só mesmo os Santos Espíritos lhes podiam dar, e tereis estampado às vossas vistas um quadro ainda muito mal delineado, do heroísmo em sua mais alta expressão, da Verdade com suas fulgurações modeladas em cores inéditas, não só para aquele povo de então, como até para o povo de hoje!

Poderemos, porventura, admitir que os grandes daquele tempo, os sacerdotes que se diziam guardas da Lei, não vissem diante de seus olhos o que outros, de longínquas terras observavam e compreendiam?

Viam e sabiam que uma Nova Luz havia baixado ao mundo, mas a inveja quando chega a denegrir a alma, modifica todas as cores, obscurece todo o entendimento, endurece o coração e desorienta o espírito, atirando-o nos báratros da descrença e da materialidade.

O Sumo Sacerdote e todos os que estavam com ele, feridos no seu orgulho, cheios de inveja, pois, apesar de sua grandeza não podiam fazer o que faziam os Apóstolos, a despeito da sua sabedoria, sendo absolutamente impotentes para imitar os humildes pescadores, fizeram-nos prender e os recolheram na prisão.

Eles não podiam prever que aquele recurso extremo que usavam, contra a lei, contra a justiça, contra a verdade, seria mais uma oportunidade, proporcionada ao Espírito, para a sua ostensiva manifestação, destruindo o poder dos poderosos e dando forças aos humildes.

E assim aconteceu, o Espírito que movimenta os ares e faz tremer a terra, o Espírito que traz em suas mãos potentes, as chaves de todas as prisões, o fogo que tudo consome, não poderia permitir que seus representantes e intermediários permanecessem no cárcere sob o jugo dos grilhões.

E deste modo libertos da prisão e com ordem expressa para pregarem no templo, assim foram encontrados aqueles que, seqüestrados, afastados de sua tarefa espiritual, tiveram, a seu turno, ocasião de ver e sentir a misericórdia de Deus e seu grande poder.

Que fenômenos maravilhosos! E quem os poderá esclarecer, explicar, confirmar e melhor glorificar do que o Espiritismo!

Pois, mesmo após a deslumbrante manifestação a que acabavam de assistir, o sumo sacerdote e seus companheiros, não se deram por vencidos e tentaram, mais uma vez, subjugar os Apóstolos, valendo-se para isso da sua autoridade e seu prestígio.

Mas suas pretensões não surtiram efeito, “Importa antes obedecer a Deus que aos homens”, disse Pedro.

Quão luminosas são estas palavras e quão poucos são os que as obedecem no dia de hoje, mesmo decorridos 1900 anos desde a manifestação do Filho do Altíssimo na Terra!

A vida dos Apóstolos e seus atos constituem um espelho que reflete as luzes do Puro Cristianismo. Quem os estudar e se esforçar por imitá-los não deixará de ter as bênçãos de Jesus, e a proteção dos eminentes Espíritos que dirigem a falange do Consolador que já se acha no mundo.





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