Camille Flammarion a pluralidade dos Mundos Habitados



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Camille Flammarion


A Pluralidade dos Mundos Habitados
Estudo onde se expõem as condições de habitabilidade das terras celestes discutidas do ponto de vista da astronomia e da filosofia natural
Título Original da 1º Edição 1862

La Pluralité dês Mondes Habites, Étude ou I’on expose lês conditions d’ habitabilité dês terres celestes discutées au oint de vue de i’astronomic, de la physiologie et la philosophie naturelle.


Urânia - Deusa Grega - Musa da Astronomia e da Astrologia
Estátua romana em mármore de Urânia século II ou I A.C. (encontrada em Málaga).

Museu Arqueológico de Madri na Espanha


Conteúdo resumido
Principais temas abordados nesta obra: Estudo Histórico, Os Mundos Planetários, Descrições do Sistema solar e Estudo comparativo dos planetas, Fisiologia dos seres sobre a terra, Imensidão dos Céus, A Humanidade no Universo, Os habitantes dos outros mundos, Inferioridade do habitante da terra, A humanidade coletiva, Cosmogonia dos Livros Santos, Tabela dos pequenos planetas situados entre Marte e Júpiter, O calor nas superfícies dos planetas, A constituição interior do globo terrestre, A análise espectral e a vida sobre outros Mundos, Como se determinam às distâncias das estrelas a terra (Cálculo de Paralaxe).

Extratos filosóficos sobre a pluralidade dos mundos (Plutarco, Cyrano de Bergerac, Fontenelle, Huygens, Voltaire, Swedenbord Charles Bonnet Lambert, Sir. Humphy, Davy Young, De Fontanes e Ponsard).

Trata-se de um livro que interessa a astrônomos, astrólogos, ufólogos, filósofos, esoteristas, espíritas, espiritualistas — enfim, todos os que buscam a compreensão do Universo em que vivemos, e para os quais esta obra clássica representa uma fonte inesgotável de sabedoria e esclarecimento.

Sumário


Camille Flammarion / 05

Advertência da 29º edição / 06

Advertência da 10ª edição / 09

Prefácio da 2ª edição / 10

Introdução / 12

Livro Primeiro



Estudo Histórico

I - Da Antiguidade à Idade Média / 19

II - Da Idade Média até nossos dias / 33

Livro Segundo



Os Mundos Planetários

1 - Descrições do sistema solar / 52

II - Estudo Comparativo dos Planetas / 65

Livro Terceiro



Fisiologia dos Seres

I - Os seres sobre a Terra / 91

II - A vida / 113

III - A habitabilidade da Terra / 130

Livro Quarto

Os Céus

I - Imensidão dos céus / 148

Livro Quinto

A Humanidade no Universo

I - Os habitantes dos outros mundos / 165

II - Inferioridade do habitante da terra / 203

II - A Humanidade Coletiva / 244

Apêndice

Nota A - A Pluralidade dos Mundos Perante o dogma cristão / 260

I - A Encarnação de Deus na Terra / 262

II - Cosmogonia dos livros santos / 284

Nota B - Tabela dos pequenos planetas situados entre Marte e Júpiter / 305

Nota C - Sobre o calor na superfície dos planetas / 308

Nota D - Sobre a constituição interior do globo terrestre / 319

Nota E - A análise espectral e a vida sobre os outros mundos / 325

Nota F - Como se determinam as distâncias das estrelas a Terra ou cálculo da Paralaxe / 332

Nota G - De Generatione / 337

Extratos filosóficos para servir à história da Pluralidade dos Mundos / 338

Camille Flammarion


Camille Flammarion nasceu em Montigny-le-Roy (Alto Marne), na França, no dia 26 de fevereiro de 1842, vindo a falecer em Juvissy, no mesmo país, no dia 4 de junho de 1925.

Foi um dos mais destacados astrônomos de sua época e autor de muitas obras literárias, entre as quais destacamos: A Pluralidade dos Mundos Habitados, Astronomia, Astronomia Popular, As Terras do Céu, Deus na Natureza, As Maravilhas Celestes, As Estrelas e as Curiosidades do Céu, entre outras.

Gabriel Delanne dizia que Flammarion era "um filósofo enxertado em sábio"; por sua vez, o grande historiador Michelet afirmava que ele se havia tornado o "poeta dos céus". Foi um exemplo dignificante de trabalho, ação e devotamento a um ideal.

A Pluralidade dos Mundos Habitados foi escrito em 1861 e editado em 1862, quando Flammarion contava menos de vinte anos de idade, e reeditadas dezenas e dezenas de vezes. Trata-se de um livro que interessa a astrônomos, astrólogos, ufólogos, filósofos, esoteristas, espíritas, espiritualistas - enfim, todos os que buscam a compreensão do Universo em que vivemos, e para os quais esta obra clássica representa uma fonte inesgotável de sabedoria e esclarecimento.

Nélson Marchetti


Aspecto da Terra e Marte

Tamanhos: Raio da Terra = 1.592: Raio de Marte = 827 léguas

Advertência da 29º edição
Vinte anos se passaram desde a publicação da primeira edição desta obra. Quando, em 1862, jovem aluno-astrônomo no Observatório de Paris, recebi do editor deste estabelecimento o convite para imprimir minha obra primitiva, eu não me dava conta da repercussão que rapidamente encontrou no mundo dos leitores. Por mais interessante que me parecesse pessoalmente, a questão astronômica e filosófica da pluralidade dos mundos não me parecia suscetível de cativar a atenção popular. O acontecimento mostrou o contrário: vinte e nove vezes esta obra foi reimpressa na França durante estes vinte anos, e foi traduzida para as principais línguas da Europa, da Ásia e da América.

Depois deste lapso de tempo, pode-se refletir um instante neste fato, menos individual do que parece. A astronomia deixou de ser uma ciência abstrata, reservada somente a um pequeno número de praticantes. Tornou-se popular, conforme a esperança formulada por Arago há trinta anos, esperança que o engenhoso astrônomo não chegou a ver realizada. Até então as pessoas consideravam esta ciência como inacessível, e além do mais desprovida de interesse direto, digno de prender útil e agradavelmente sua atenção. Hoje, começam a convencer-se de que se enganavam. O conhecimento do sistema do mundo é acessível a todas as mentes. O estudo do Universo é ao mesmo tempo interessante e importante. Nenhuma ciência abre horizontes tão vastos e pode melhor encantar a alma contemplativa que a bela, a divina ciência do céu. Nenhuma é tão indispensável para formar uma instrução positiva, real, exata; pois sem ela, vivemos como vegetais, sem saber o que nos faz viver, o que é esse sol cujos raios iluminam, adoecem e fecundam este planeta, o que é esta Terra sobre a qual repousam nossos pés, que forças a sustentam e levam-na pelo espaço, que leis regem os anos, as estações e os dias; vivemos sem saber quais são esses outros mundos que brilham acima de nossas cabeças, nem o que é o céu, essa extensão infinita no seio da qual se passam e se sucedem as várias existências de todos os mundos. A astronomia abrange, em seu estudo, o conjunto do Universo. Todos entendem agora que é preciso ter pelo menos uma noção elementar desse conjunto, para saber avaliar nosso mundo segundo seu justo valor, não mais tomá-lo como centro e fim da criação, nem manter idéias falsas apoiadas há tantos séculos sobre esta ilusão. Sem a astronomia, é impossível raciocinar, seja em filosofia, em religião, ou mesmo em política. Pois o destino do homem não é o mesmo se a Terra constitui sozinha o Universo, ou se ela não é mais que um ponto imperceptível perdido no Grande Todo: o deus dos exércitos deixa de receber piedosos holocaustos; a humanidade terrestre não é mais a única família do Criador; o começo e o fim da Terra não são O começo e o fim do mundo; em suma, os princípios que acreditávamos absolutos são apenas relativos, e uma nova filosofia, grande e sublime, ergue-se sozinha sobre o conhecimento moderno do Universo.

Sinto-me refiz, de minha parte, de ter podido servir para inaugurar esta nova filosofia, tornando o estudo da astronomia tão popular quanto possível. Desde a primeira edição desta obra, sempre tive o cuidado de manter as novas edições ao coerente dos progressos constantes da ciência. Ao longo das obras sucessivas persegui, ele ano em ano, segundo diferentes pontos de vista, a solução da mesma tese, e vi com alegria que estas obras não foram menos favoravelmente acolhidas que esta. Não experimento nenhum sentimento de mesquinha vaidade, mas sim uma alegria profunda em observar que os homens começam a ter a idade da razão, refletem, deixam pouco a pouco os ídolos para se aproximar da Verdade.

Passar-se-ão muitos anos, séculos ainda, antes que esta singular humanidade terrestre adquira totalmente o uso da razão, antes que ela saiba se conduzir, antes que ela deixe de nos oferecer espetáculos semelhantes aos que vimos se desenrolar em nossa própria pátria, há apenas doze anos, e que continuam a se reproduzir por toda a humanidade "civilizada", antes que ela se erga, enfim, acima da animalidade, para tornar-se um pouco espiritual e manifestar gostos intelectuais. Mas, quanto mais difícil é o progresso, mais enérgicos devera ser nossos esforços. Trabalhemos, pois, de comum acordo para educar esta raça ainda bárbara, para libertá-la do jugo da ignorância, para propagar em seu seio as sementes da verdade e do bem, e para multiplicar o número daqueles que, saindo do caminho estreito, conheçam outra coisa que não os apetites materiais e sintam desenvolver-se em si uma alma responsável chamada a destinos superiores.

Paris, 1882

Advertência da 10ª edição


Vendo esta obra chegar, em menos de cinco anos, a uma décima reimpressão em nosso país e difundida ao longe por traduções estrangeiras, não pode o autor impedir-se de unir sua voz aos sentimentos benevolentes da imprensa e asseverar que aí encontramos um testemunho digno de atenção para o filósofo. Se a questão da existência de uma raça inteligente sobre os outros globos do espaço, da universalidade da vida na criação sideral, da unidade das leis físicas e morais no mundo inteiro, suscitou a curiosidade e atraiu a simpatia de um número tão grande de pessoas, em meio às preocupações da vida material e malgrado a indiferença habitual pelos problemas da ciência pura, é que, de um lado, esta questão tem sua importância na teoria do destino humano, e que, de outro lado, compreendeu-se esta importância. Se consentíssemos em publicá-las, as cartas que recebemos de grande número de leitores, que extraíram de nossa doutrina uma força fecunda e o sentimento de uma nova grandeza, mostrariam qual já é a influência secreta desta contemplação científica da natureza. Acreditamos ter servido utilmente nossa época ao perseverar neste caminho e dar à luz sucessivamente as obras que representam a continuidade de nossos esforços.

Estamos felizes com o fato de a publicação desta nova edição coincidir com o lançamento de nossa obra Deus na Natureza. Esta obra é, com efeito, o desenvolvimento da idéia que ditou as precedentes. Seu objetivo esta inteiramente nas seguintes palavras: a "Religião pela Ciência". Procuramos formular neste trabalho uma filosofia positiva das ciências e dar uma refutação não Teológica do materialismo contemporânea. Possa esta obra, fundada sobre observação, seguir e mostrar o caminho do espiritualismo racional, a igual distância do ateísmo e da superstição religiosa.

Paris, maio de 1867

Prefácio da 2ª edição


A aceitação, tão favorável, da primeira edição deste livro ultrapassou de longe nossas esperanças; isto testemunha a grande oportunidade das idéias que expôs, sua grande utilidade e sua influência sobre a marcha progressiva da filosofia. Esta benquerença do público por nosso trabalho, longe de nos acalentar e adormecer no frívolo triunfo de um sucesso passageiro, foi considerada por nós como um engajamento implícito na obra por nós iniciada.

Chegou à época em que o homem pode se despojar daquele manto púrpuro com que estivera orgulhosamente vestido até aqui, em que, examinando sua verdadeira condição e sua verdadeira grandeza, ele sente o ridículo de suas idéias de outrora e não considera mais sua pequena personalidade a meta da obra divina. A filosofia deu um grande passo. Ela dormia, antigamente, numa calma enganosa, logo após um período agitado; veio a tempestade, que a sacudiu até suas camadas mais profundas. Hoje o homem, de pé, observa-se e sonha; procura, enfim, a explicação do enigma do mundo; examinar que lugar ocupa na ordem dos seres, qual é sua relação na solidariedade universal, qual é seu destino no plano geral procura a razão das coisas. Perante a grandeza do resultado a alcançar, quem não estaria cheio de alegria ao poder oferecer um elemento a mais mesmo que fosse infinitesimal -, para o progresso de nossa família humana bem-amada?

Nossa primeira edição não foi mais que o germe da abra que hoje publicamos; ela foi inteiramente refundida. Entregamo-nos a um estudo novo e aprofundado da questão considerada sob todas as suas facetas, ao exame dos documentos que podem servir para sua história e para o estabelecimento dos grandes princípios sobre os quais se alicerça nossa doutrina filosófica. Fizemos nossos esforços para apresentar aqui um livro digno dos filósofos e pensadores, e que possa, ao mesmo tempo, ser lido por todo o mundo que se interessa por estes assuntos, a um tempo curiosos e cheios de importância.

Nossos sinceros agradecimentos a todos aqueles que, penetrados como nós da grandeza da questão, houveram por bem secundar nossos esforços com suas pesquisas, instruirmos com seus sábios conselhos, e nos esclarecer com suas críticas e as discussões que conosco encetaram. Que nos seja permitido citar um nome caro à filosofia, e deixar cair aqui as nossas profundas lamentações sobre a tumba recentemente fechada do nosso mestre e amigo, Sr. Jean Reynaud, que trabalhou valentemente pelo edifício do futuro. Todos os que o conheceram sabem que ele era uma das mais belas almas de nossa época tão atormentada, da qual foi uma das mentes mais profundas e um dos maiores corações.

Paris, maio de 1864
No momento em que lançamos esta quarta edição, queremos agradecer aos filósofos e ao público pela simpatia que continuam a testemunhar para com nossa obra; fizemos nossos esforços para merecer cada vez mais tal aprovação. Nosso desejo é manter, sem cessar, este livro à altura da ciência, para que continue digno da estima com o qual ele é honrado, e mantenha o mesmo lugar na mente daqueles que compartilharam de nossas convicções: é também guardando a mesma integridade intelectual e o mesmo caráter de argumentação que esperamos ampliar sem cessar, ao menos no domínio de nossos estudos favoritos, a utilidade filosófica do ensino das ciências.

Novembro de 1864.

Introdução
Basta observar com atenção o estado de espírito atual para se perceber que o homem perdeu a fé e a segurança dos tempos antigos, que nosso tempo é uma época de lutas, e que a humanidade inquieta está à espera de uma filosofia religiosa na qual possa depositar suas esperanças. Houve um tempo em que a humanidade pensante estava satisfeita com crenças que satisfaziam suas aspirações; hoje não é mais assim: os ventos críticos que acabam de soprar secaram seus lábios, privaram-na das fontes vivas da fé, onde ela umedecia de vez em quando seus lábios sedentos, onde ela se regenerava nos dias de fraqueza. Tomaram-lhe sucessivamente tudo o que constituía sua força e seu sustento. O que se lhe deu, no lugar disso? O vazio, infelizmente! O vazio escuro, insondável, onde se movem na sombra esses seres sem forma geradas pela dúvida - o vazio do abismo, onde a própria razão perde a força de que se gaba, onde ela se sente presa de vertigem e cai, desmaiada, nos braços do Ceticismo.

Obra de destruição! Um século antes deste ano, e o que fazíeis, filósofos modernos! Rousseau, escrevendo o Emílio, escutava os primeiros estalidos da revolução que se aproximava; D'Alembert riscava a palavra crença do dicionário; Diderot parodiava a sociedade com seu amigo, o Sobrinho de Rameau; Voltaire (perdoai-nos a expressão) demitia Jesus com um tapinha no ombro; os abades-cardeais rimavam, para suas amantes, madrigais floridos; o rei se ocupava de filigranas de alcova... Eis aí os que lideravam o mundo. Depois de nós, o dilúvio, diziam eles. Veio, de fato, esse dilúvio de sangue que engoliu o mundo de nossos antepassados; mas ainda não vimos no céu a pomba trazendo em seu bico o ramo verde de um mundo que renasce.

O passado está morto; a filosofia do futuro não nasceu: está ainda envolta nos difíceis trabalhos do parto. A alma do mundo moderno está dividida e em contradição perpétua consigo mesma. Reflexão grave, a ciência, esta divindade poderosa de nossos dias, que tem nas mãos as rédeas do progresso, a ciência nunca foi tão pouco filosófica, tão isolada quanto hoje. Temos, diante de nós, à frente das ciências, homens que negam arbitrariamente a existência de Deus e que eliminam sistematicamente a primeira das verdades. Temos outros, cuja autoridade não é menor, que não admitem a existência da alma e não conhecem nada fora da atividade das combinações químicas. Eis ali uma plêiade que proclama abertamente a questão da imortalidade como questão pueril, boa, no máximo, para o lazer de gente desocupada. Eis acolá uma outra que só vê em todo o Universo dois elementos, a força e a matéria; os princípios universais da verdade e do bem são letra morta para eles. Este aqui representa nossas individualidades humanas como outras tantas pequenas moléculas nervosas do ser-humanidade; aquele ali nos fala de uma imortalidade facultativa. Ao longo de todo esse tempo, tivemos doutores católicos que ficaram isolados em seu status quo de há cinco séculos, que repudiam desdenhosamente a ciência, e que nos garantem seriamente que a fé cristã nada tem a temer!

O que poderia resultar desses diversos movimentos, que se agitam em todas as direções sob a sociedade, e que há meio século remexem o mundo como ondas atormentadoras? O resultado só podia ser o que temos perante os olhos: cada um flutua sobre a dúvida hoje em dia, esperando a calmaria que nunca vem; cada um procura ao longe uma praia, um porto feliz, aonde possa conduzir sua barca fatigada.

Assim, e sobretudo há alguns anos, observa-se um movimento filosófico cuja natureza não enganará ninguém. Algumas cabeças de elite, curvadas e fatigadas por esse filosofismo negador, ergueram-se, cheias de aspirações latentes que estavam soterradas, e o culto da idéia conta com novos e fervorosos adoradores. As agitações políticas, as eventualidades financeiras e a indiferença da maioria dos homens pelas questões que ficam fora da vida material não embotaram a mente humana a ponto de impedi-la de cismar, de quando em quando, sobre suar razão de ser e sobre seu destino; os soldados do pensamento despertam, por todo lado, ao apelo de algumas palavras caídas de bocas eloqüentes, e se reúnem em grupos diversos sob o estandarte da Idéia moderna.

E que o homem, progressista por natureza, não quer ficar estacionário, e muito menos retroceder. Acontece que o progresso ao qual o levam suas tendências íntimas não é uma idealidade perdida num mundo metafísico inacessível às investigações humanas, mas sim uma estrela radiante atraindo para seu foco todos os pensamentos ansiosos pelo verdadeiro e sedentos de ciência.

E que a humanidade ainda não atingiu a era luminosa à qual aspira, faltam séculos de preparação lenta e penosos trabalhos para chegar ao conhecimento da verdade, não há dia sem aurora, e se a época presente resplandece sobre as que a antecederam, pelas grandes descobertas que a caracterizam, é que efetivamente ela nos anuncia o dia.

Salve esta renovação intelectual! Que todos os nossos esforços, que todos as nossas vigílias lhe pertençam. Que ela possa não ser mais tão-só uma oscilação inevitável do movimento intelectual, e que assinale, enfim, a chegada do homem a estrada real do progresso. Possa filosofia não mais ser relegada a um círculo de seitas e de sistemas, e unir-se enfim à Ciência, sua irmã: é de sua união fecunda que a humanidade espera sua nova fé e sua grandeza futura.

Talvez, ao ler estas linhas, perguntar-se-á que relação existe entre a Pluralidade dos Mundos e a filosofia religiosa; talvez cause surpresa o fato de abordarmos, com tanta gravidade, um tema do qual poderíamos ter apresentado, antes de tudo, o lado pitoresco e curioso.

E, com efeito, parece que importa pouquíssimo para a filosofia que os mundos de Marte e Vênus sejam enriquecidos por uma natureza luxuriante e povoados de seres racionais, e que todas essas estrelas que cintilam sobre nossas cabeças durante a noite profunda sejam os lares de outras tantas famílias planetárias.

Os que pensam desse modo e sabemos que formam a maioria, para não dizer a totalidade dos leitores deverão mudar de opinião, e crer que a Pluralidade dos Mundos é uma doutrina ao mesmo tempo científica, filosófica e religiosa da mais alta importância.

E para demonstrar tal verdade que este livro foi escrito. E ao mesmo tempo, se possível for, para torná-la fecunda.

Para julgar sadiamente, é preciso considerar o todo, e não a parte. Já foi observado que as idéias recebidas sobre o homem e seus destinos são marcadas por uma parcialidade terrestre; demasiado exclusivista. Admiráveis páginas foram escritas sob a impressão de uma universalidade de humanidades de que não nos damos conta, e que, não obstante, nos rodeia por todo o lado, por uma enorme extensão. Os psicólogos interrogaram-se se nossa alma não poderia, um dia, ir habitar outros mundos, e se então a vida eterna, despojando-se do terrível aspecto sob o qual foi até agora representado, poderia e por conseguinte deveria ser recebida desde agora entre seus temas de estudo: os naturalistas procuraram desembaraçar o enigma da criação e o mistério das causas finais, erguendo-se até aqueles astros longínquos, que parecem outras tantas terras dadas, como a nossa, em apanágio a nações humanas; os curiosos e quem não é? - interrogaram o horizonte, procurando adivinhar que raças possíveis de seres podem ter plantado suas tendas lá em cima; cada um no entanto sempre duvidou da realidade da existência nesses mundos e logo recaía no abismo tenebroso das simples conjeturas.

A certeza filosófica da Pluralidade dos Mundos ainda não existe, porque não se estabeleceu esta verdade no exame de fatos astronômicos que a demonstrem; e constatou-se, nestes íntimos tempos, que escritores de renome deram impunemente de ombros ao ouvir falar das terras do céu, sem que se pudesse retrucar com fatos e deixá-los sem ação com seus raciocínios ineptos.

Mesmo que esta questão pareça a alguns de elevado alcance filosófico, mas rodeada de mistérios impenetráveis, embora para outros não seja mais que uma fantasia da curiosidade pela pesquisa vã do grande desconhecido, sempre á consideramos como uma das questões fundamentais da filosofia, e desde o dia em que, pressionados pela convicção profunda que residia dentro de nós anteriormente a todo estudo científico, quisemos aprofundá-la, discuti-la, e tentar fazer uma demonstração exterior dela, vimos que, longe de ser inacessível às pesquisas da mente humana, brilhava perante esta numa claridade límpida. De imediato tornou-se evidente para nós que esta doutrina é a consagração imediata da ciência astronômica; que ela constituir a filosofia do Universo, que a vida e a verdade resplandecem nela, e que a grandeza da criação e a majestade de seu Autor não brilham em lugar nenhum com tanta luz quanto nesta grande interpretação da obra da natureza. Também reconhecendo nela um dos elementos do progresso intelectual da humanidade, aplicamos nossos cuidados a seu estudo, e propomo-nos estabelecê-lo sobre argumentos sólidos, contra os quais as desconfianças da dúvida ou as armas da negação não pudessem prevalecer.

Pensamos que, num estudo objetivo deste gênero, deveríamos nos deixar conduzir belo espírito do método experimental, baseando-nos na observação, e entregamo-nos ao trabalho. Todos trabalham no grande edifício; uma vez reconhecido o plano do arquiteto, é à multiplicidade, tanto quanto ao vigor dos operários, que se deve o progresso e a construção. Foi por isso que nos permitimos, nós, perfeitamente desconhecidos no mundo dos pensadores, acrescentar também a modesta pedra que nos foi dado colher ao longo de nosso caminho; não que nos julgássemos necessários em meio aos trabalhadores, mas somente porque tendo nossa carreira nos ligado ao estudo pratico da astronomia, tanto no Observatório de Paris quanto no Bureau de Longitudes, (1) tínhamos em mãos os documentos necessários para dar base sólida à doutrina da Pluralidade dos Mundos, por tanto tempo relegada no domínio das questões metafísicas e conjeturais.



(1) Departamento criado em 1795, encarregado dos avanços da astronomia (até 1854, dirigia o Observatório de Paris). Reúne especialistas de renome nas áreas da astronomia, geofísica, meteorologia, navegação etc., publicando anualmente: La Connaissance des temps, Annuaire du Bureau des Longitudes (ambos desde 1795), Ephémérides nautiques (desde 1889), Ephémérides aéronautiques (1935) e Encyclopédie scientifique de 1'Univers, desde 1977. (Nota da Editora.)

Acrescentemos agora, para justificar desde o início a seus olhos, leitor, a razão de ser de nossa publicação, que, independentemente da atualidade de que se reveste pelos trabalhos recentes do pensamento humano, este capítulo da filosofia natural é o lado vivo, se é que assim se pode dizer, da ciência astronômica, a qual, malgrado suas magníficas descobertas, seria de uma utilidade menor para o avanço do espírito humano, se não se soubesse encará-la do seu ponto de vista filosófico, e que sob este aspecto ela deva concorrer, como os outros ramos da Ciência, e nos ensinar o que somos. O espetáculo do universo exterior é, de fato, a grande unidade com a qual devemos nos colocar em relação para conhecer o verdadeiro lugar que ocupamos na natureza, e sem este tipo de escudo comparativo, vivemos na superfície de um mundo desconhecido, sem nem sequer saber onde estamos nem quem somos, relativamente ao conjunto das coisas criadas. Sim, a astronomia deve ser doravante a bússola da filosofia; ela deve caminhar à frente, como farol dominador, tornando claros os caminhos do mundo. Por muito tempo o homem ficou isolado em seu vale, ignorante de seu passado, de seu futuro, de seu destino; por muito tempo ficou adormecido com uma vaga ilusão sobre seu estado real, num julgamento falso e insensato sobre a imensa criação. Que desperte hoje de seu torpor secular, que contemple a obra de Deus e reconheça o seu esplendor, que dê ouvidos ao ensinamento da natureza, e que seu isolamento imaginário se apague para que ele veja, na extensão dos céus, as humanidades que vogam e se sucedem nos distantes espaços!

Estabeleceremos aqui nossas doutrina sobre argumentos de várias naturezas, o que dividirá a obra em várias seções fundamentais. Num primeiro estudo, nossas considerações serão abertas pela exposição histórica da doutrina, de onde se evidenciará que os homens de destaque de todas as eras, de todos os países e de todas as crenças foram partidários da Pluralidade dos Mundos; esperamos que esta constatação faça pender a balança em favor de nossa tese. Nos estudos seguintes, a astronomia e a fisiologia virão, cada uma segundo o que lhe concerne estabelece que os mundos planetários são habitáveis como a Terra. E que esta não tem nenhuma proeminência marcante sobre eles. O espetáculo do Universo nos fará saber, depois, que o mundo que habitamos não é mais que um átomo na importância relativa das inumeráveis criações do espaço; - ficaremos sabendo (para tomar um exemplo à nossa volta) que a formiga, em nossos campos, teria infinitamente mais fundamento para acreditar que o seu formigueiro é o único lugar habitado do globo, do que nós, de considerar o espaço infinito como um imenso deserto, no qual nossa Terra seria o único oásis, no qual o homem terrestre seria o seu único e eterno contemplador - A filosofia moral virá em último lugar, para animar com seu sopro de vida esses raciocínios fundamentados no ensinamento das ciências, e mostrar que relações associam nossa humanidade as humanidades do espaço. Ela fundamentara o que julgamos poder chamar a Religião pela ciência.

Eis o programa, talvez demasiado amplo, que se delineou por si só perante nós, quando nos deixamos dominar por nossos estudos prediletos. Possamos tê-lo compreendido e abordado de uma maneira digna de um assunto tão grande e magnífico, e possamos ser de alguma utilidade àqueles que, como nós, procuram o conhecimento da verdade no estudo da natureza!

Escrito em Paris, em 1861; publicado em 1862.

LIVRO PRIMEIRO


ESTUDO HISTÓRICO
I
Da Antiguidade à Idade Média
A história da pluralidade dos mundos começa com a história da inteligência humana ascendeu a esta crença em primeiro lugar? - Os árias. - Os celto-gauleses e os druidas. - Opiniões da antiguidade histórica. - egípcios -. Seitas gregas. - A Lua, segundo Orfeu. - Escola jônica; Anaxágoras. - Os pitagóricos; harmonia do mundo. - Xenófanes e os eleatas. - Os cento e oitenta e três mundos de Pétron de Hímera. - Os platônicos. - A escola de Epicuro; Lucrécio. - Primeiros séculos do cristianismo.
"Todo esse universo visível", dizia Lucrécio, há dois mil anos atrás, "não é o único na natureza, e devemos crer que haja, em outras regiões do espaço, outras terras, outros seres e outros homens." Abrindo, com estas judiciosas palavras do antigo poeta da natureza, considerações que só devem ter por base dados positivos da ciência moderna, temos menos a intenção de nos apoiar no testemunho da antiguidade, para fundar nossa doutrina, do que de resumir numa epígrafe o assentimento da maioria dos filósofos quanto a este assunto. Todavia, antes de demonstrar pelo ensinamento da astronomia a habitabilidade real e manifesta dos mundos planetários, achamos que não será inútil acompanhar, ao longo de umas tantas páginas, a história da pluralidade dos mundos, e mostrar assim que os heróis do saber e da filosofia se alinharam com entusiasmo sob o estandarte que vamos defender. - Nosso sábio mestre Babinet escreveu, precisamente sobre o tema que nos ocupa, que não é grande recomendação para uma teoria ter sua origem na antiguidade, porque a opinião contrária poderia pretender à mesma vantagem. Não compartilhamos desta opinião; pois se é verdade, como veremos, que nossa doutrina foi ensinada pela maioria dos grandes filósofos conhecidos, é pouco provável que estes mesmos filósofos, não sabendo o que diziam, tenham avançado o pró e o contra das idéias que seus historiadores transmitiram à posteridade. Se alguns autores antigos não ascenderam a esta intuição, são aqueles cujas obras não tiveram por objeto o estudo do céu. - Portanto, achamos bem pertinente esperar que ao reconhecer que, longe de contar com raros campeões espalhados por todas as eras, esta causa teve como defensores gênios eminentes na história das ciências, constataremos; que uma tal doutrina não é devida ao espírito de sistema nem a opiniões efêmeras de seitas e de partidos, mas é inata na alma humana, que, em todas as eras e em todos os povos, o estudo da natureza a desenvolveu na mente humana. Será possível então, sem o receio de perder tempo com uma ocupação pueril, indigna dos trabalhos do pensamento, dedicar-se às contemplações grandiosas que mostrarão o homem relativamente a toda a natureza, e que farão conhecer o verdadeiro lugar que ocupa na ordem das coisas criadas. É este o objetivo eminente de nossos trabalhos sobre a pluralidade dos mundos.

Para conhecer a origem desta admirável doutrina, e para saber a que mortal devemos agradecer esta maravilhosa concepção da inteligência humana, remetamo-nos, pelo pensamento, aquelas noites esplêndidas em que a alma, sozinha com a natureza, meditava pensativa e silenciosa, sob o domo imenso do céu estrelado. Ali, mil astros perdidos nas regiões longínquas do espaço vertem sobre a Terra uma suave claridade que nos mostra o verdadeiro lugar que ocupamos no Universo; ali, a idéia misteriosa do infinito que nos rodeia nos isola de toda agitação terrestre, e nos leva, apesar de nós mesmos, àquelas vastas regiões inacessíveis à fraqueza dos nossos sentidos. Absortos numa divagação, contemplamos aquelas pérolas cintilantes que tremeluzem no melancólico azul, acompanhamos aquelas estrelas passageiras que sulcam de quando em quando as planícies etéreas e, indo com elas pela imensidão, erramos de mundo em mando no infinito do céu. Mas a admiração em nós excitada pela cena mais comovedora do espetáculo da natureza logo se transforma num sentimento de tristeza indefinível, porque nós nos julgamos estranhos a esses mundos onde reina uma solidão aparente, e que não podem dar origem à impressão imediata pela qual a vida nos liga à Terra. Despertam um pensamento do infinito que é fonte de melancolia ao mesmo tempo em que de puras alegrias; eles planam lá no alto como moradas que esperam em silêncio e cumprem longe de nós o ciclo de sua vida desconhecida; atraem nossos pensamentos como um abismo, mas conservam a palavra de seu enigma indecifrável. Contempladores obscuros de um Universo tão grande e tão misterioso, sentimos em nós a necessidade de povoar esses globos aparentemente esquecidos pela Vida, e, nessas praias eternamente desertas e silenciosas, procuramos olhares que respondam aos nossos. Tal como um ousado navegador explorou em sonho, longamente, os desertos do oceano, procurando a terra que lhe fora revelada, penetrando com seus olhos de águia as mais vastas distâncias e franqueando audaciosamente os limites do mundo conhecido, para abordar por fim as planícies imensas onde o Novo Mundo esperava, havia muitos séculos. Seu sonho se realizou. Que o nosso saia do mistério que ainda o envolve, e, no navio aéreo do pensamento, subiremos ao céu, para lá procurar por novas terras.

Esta crença íntima que nos mostra, no Universo, um vasto império onde a vida se desenvolve sob as formas as mais variadas, onde milhares de nações vivem simultaneamente nas extensões dos céus, parece ser contemporânea ao aparecimento da inteligência humana na Terra. Ela se deveu ao primeiro sonhador que, dedicando-se com a boa fé de uma alma simples e estudiosa à doce contemplação do céu, mereceu compreender esse eloqüente espetáculo. Todos os povos, em particular os hindus, os chineses e os árabes, conservaram até nossos dias tradições teogônicas onde se reconhece, entre os dogmas antigos, o da pluralidade das habitações humanas nos mundos que rebrilham acima de nossas cabeças; e, remontando às primeiras páginas dos anais históricos da humanidade, encontramos essa mesma idéia, seja religiosa, pela transmigração das almas e seu estado futuro, seja astronômica, simplesmente pela habitabilidade dos astros. (1)

(1) V. Rig-Veda, o Mahabharata, o Ramayana e os comentários de Colebrooke, Weber, Obry, Burnouf, Barthélemy Saint-Hilaire etc.

Os livros mais antigos que possuímos, os Vedas, gênese antigo dos hindus, professam a doutrina da pluralidade das moradas da alma humana nos astros, sucedendo à encarnação terrestre; segundo as próprias expressões desses discursos que o eco secular dos tempos conservou para nós com tanta dificuldade, a alma vai para o mundo ao qual pertencem suas obras. O Sol, a Lua e os astros desconhecidos estão preparados para a habitação e originaram formas vivas não compreendidas. (2) O Código de Manu, os livros do Avesta, os dogmas de Zoroastro, encaram o Universo sob o mesmo ponto de vista. (3) Mas é difícil, nessas filosofias antigas, avaliar a influencia da física e da metafísica, e aqui só vamos mencioná-las.



(2) V. Heródoto, Historias; Lanjuinais, La religion dês Hindous selon lês Védas

(3) Zend-Avesta, Vendidad Zade, Fuargard etc.

Os celto-gauleses, nossos ancestrais, e em particular os eduanos, celebravam, nas invocações dos druidas a Tutatis e nos cantos dos bardos a Belenos, o infinito do espaço, a eternidade da duração, a morada da Lua e de outras regiões desconhecidas, e a migração das almas no Sol e dali para as moradas do Céu. Os druidas, que possuíam conhecimentos astronômicos mais avançados do que se supõe geralmente, haviam elaborado um calendário exato e determinado à duração do ano e a obliqüidade da eclíptica; os druidas, que edificaram ao culto da astronomia os edifícios simbólicos de que encontramos hoje os últimos vestígios nas planícies solitárias de Carnac; os druidas, como dizíamos, eram mais avançados nas ciências físicas e naturais do que se levou a crer depois da queda de sua religião, sob a influência romanas.(1) O estudo da cosmogonia dos druidas mostra no mínimo conceitos em harmonia com aqueles dos quais Pitágoras se fez mais tarde o digno intérprete. Os pálidos vestígios que nos restam dessas civilizações desaparecidas suscitam profundas lamentações. E uma infelicidade, e uma grande perda para a história da França, que um dos pontos fundamentais do caráter celta tenha sido, como informa Júlio César, não escrever sobre nenhuma de suas obras, nenhum dos feitos de sua nação, nenhuma de suas crenças. Sobre nossa doutrina em particular, não conseguimos discernir suas idéias religiosas de suas idéias astronômicas; o mesmo ocorre com outros povos cuja história não chegou à nossa era sem estar profundamente alterada.



(1) V Henri Martin, Histories de France, Jean Reynaud, I’Esprit de la Gaule; Flammarion, Histories du Ciel, 2. soirée.

Ora, para nos atermos à doutrina da pluralidade dos mundos, a única que vamos levar em consideração aqui, e à antiguidade histórica e clássica, que é a única que podemos estudar com alguma base de certeza, observaremos inicialmente que o Egito, berço da filosofia asiática, ensinou a seus sábios esta antiga doutrina. Talvez os egípcios só a estendessem aos sete planetas principais e à Lua, que chamavam de terra etérea; seja como for, é notório que professavam largamente esta crenças. (1)



(1) Bailly, Historie de I’Astronomie ancienne. V. também Lepsius, Das Todtenbuck der Agypter; Bunsen, Agypteus Stelle in der Weltgeschichte; Brugssch, Lês Livre dês Migrations.

A maioria das seitas gregas a ensinou, quer abertamente a todos os discípulos, indistintamente, quer em segredo aos iniciados da filosofia. Se as poesias atribuídas a Orfeu são mesmo de sua autoria, pode-se contá-lo como o primeiro a ter ensinado a pluralidade dos mundos. Ela esta implicitamente encerrada nos versos órficos, onde se diz que cada estrela é um mundo, e notadamente nas seguintes palavras, conservadas por Proclo (2): "Deus construiu uma terra imensa que os imortais chamam Selene, e que os homens chamam Lua, na qual se ergue um grande número de habitações, montanhas e cidades."



(2) Comentário ao Timeu.

Os filósofos da mais antiga seita grega, a seita jônica, cujo fundador, Tales, acreditava que as estrelas eram formadas da mesma substância que a Terra, perpetuaram em seu seio as idéias da tradição egípcia, importadas da Grécia. Anaximandro e Anaxímenes, sucessores imediatos do chefe da escola, ensinaram a pluralidade dos mundos, doutrina que foi mais tarde difundida por Empédocles, Aristarco, Leucipo e outros. Anaximandro sustentava, como o fizeram mais tarde Epicuro, Orígenes e Descartes, que de quando em quando os mundos eram destruídos e se reproduziam por novas combinações dos mesmos elementos. Ferécïdes de Siros, Diógenes de Apolônia e Arcesilau de Mileto (3) alinharam-se, como os precedentes, no número dos adeptos desta doutrina; pensavam, aliás, que uma força inteligente, imaterial, presidia à composição e disposição dos corpos celestes. "Mesmo desde aqueles tempos antigos", dizia nosso infortunado Bailly (*) “a opinião da pluralidade dos mundos foi adotada por todos os filósofos que tiveram gênio suficiente para compreender o quanto ela é grande e digna do Autor da natureza.” (1) Anaxágoras ensinou a habitabilidade da Lua como artigo de fé filosófica, adiantando que ela encerrava, como nosso globo, águas, montanhas e vales. (2) Partidário famoso do movimento da Terra, deve-se observar que sua opinião suscitou ao seu redor invejosos e fanáticos e, por ter adiantado que o Sol era maior que o Peloponeso, foi perseguido e quase morto, preludiando assim a condenação de Galileu, como se realmente a Verdade devesse ficar todo o tempo fatalmente velado aos olhos dos filhos da Terra.



(3) Estobeu, Égloga Philosophorum.

(1) Histories de I’Astronomic ancienne, p. 200.

(2) Plutarco, De Placitis Philosophorum, lib. II, cap. XXV.

(*) Jean-Sylvain Bailly (1736-1793), astrônomo, membro da Academia de Ciências e da Academia Francesa. Deputado do Terceiro Estado (o povo) pouco antes da Revolução Francesa, foi nomeado prefeito de Paris em 15 de julho de 1789; perdeu sua popularidade após decretar a lei marcial e ordenar que atirassem nos manifestantes que exigiam a deposição e julgamento de Luís XVI (17/7/1791). Preso em 1793, foi condenado e executado no Campo de Marte, em Paris. (Nota da Editora.)

O primeiro dos gregos que levou o nome de filósofo, Pitágoras, ensinava em público a imobilidade da Terra e o movimento dos astros ao redor dela, ao passo que declarava a seus adeptos privilegiados sua crença no movimento da Terra como planeta e na pluralidade dos mundos. O ilustre autor da Lira celeste estabelecera que todas as coisas no mundo são ordenadas segundo as leis que regem a música, preludiando assim a harmonia Mundi de Kepler, as leis empíricas e séries de potências da matemática. Seu grande erro foi ter considerado a música convencional estudada aqui em baixo, na Grécia e alhures, como a representação da harmonia absoluta. As combinações de seu heptacordo pressupõem para os planetas elementos totalmente arbitrários, especialmente no que concerne à sua sucessão diatônica. No entanto, muitas de suas determinações se verificaram: a revolução de Saturno, igual a trinta vezes a da Terra; o movimento bianual de Marte. Os biógrafos do misterioso filósofa de Crótona, que se lembrava ter sido filho de Mercúrio; depois Eufórbio, do cerco de Tróia; depois Hermotímio; depois Pirro, pescador de Delos, não dizem se sua doutrina da metempsicose se aplicava á pluralidade das moradas humanas nos céus; entretanto, a estudo dos Mistérios tende a estabelecer que ele ensinava aos iniciados o verdadeiro sistema e a pluralidade dos mundos. Depois de Pitágoras, Hipponax de Regium, Demócrito, Heráclito e Metrodoro de Quios, os mais ilustres de seus discípulos, propagaram ex-cátedra a opinião de seu mestre, que se tornou a de todos os pitagóricos e a da maioria dos filósofos gregos. (1) Ocelo de Lucânia, Timeu de Locres e Arquïtas de Tarento compartilharam da mesma crença. Filolau e Nicetas de Sïracusa, que ensinavam na escola pitagórica o sistema do mundo reencontrado vinte séculos mais tarde por Copérnico no livro VII das Questões naturais de Sêneca, defenderam eloqüentemente nossa crença, (2) e seu sucessor Heráclides desenvolveu-a até declarar que cada estrela é um pequeno universo, tendo como o nosso uma Terra, uma atmosfera e uma imensa extensão de substância etérea.



(1) Fabricius, Bibliotheca graeca, t. I, cap. XX.

(2) Achilles Tatius, lsagoge ad Arati Phoenomena, cap. X.

O fundador da escola de Eléia, Xenófanes, ensinou a pluralidade dos mundos e, especialmente, a habitabilidade da Lua. (3) Este filósofo é um dos mais ilustres de seu século; nunca seria demais louvar seus esforços contra aqueles que aviltaram a majestade divina por arrazoados em que o antropomorfismo tinha a maior papel. "O antropomorfismo é uma tendência natural, a tal ponto que se os bois quisessem criar um Deus para si, eles o conceberiam sob a forma de um boi, e os leões, sob a forma de um leão, tal como os etíopes imaginaram divindades negras, e os trácios lhe deram uma rude e selvagem fisionomia." (1) Xenófanes repudiou essas analogias degradantes e indignas da concepção do Ser supremo. Parmênides e Zenão de Eléia vieram depois de Xenófanes, e tal como ele reconheceram a intervenção de um Espírito superior nas obras da natureza e se alinharam do lado da crença na pluralidade dos mundos. (2)



(3) Diógenes Laércio, in Vita Xenophanis; Cícero, Acad Quaest., lib. II.

(1) V. Nourrisson, Progrés de la pensée humaine.

(2) Diógenes Laércio, in Vita Zenonis Eleatii.

Por volta da mesma época, em que a escola itálica e a escola de Eléia foram erguidas sobre os escombros da escola jônica, quase extinta, Pétron de Hímera, na Sicília, escrevia um livro em que sustentava a existência de cento e oitenta e três mundos habitados. A crer em Plutarco, esta opinião, havia séculos, penetrara até o mar das Índias; um homem milagroso a ensinava por lá. Tratava-se de um venerável ancião que passara toda sua vida em contemplação e no estuda do Universo, e que, dizia ele, depois de ter vivido na companhia das ninfas e dos gênios, encontrava-se apenas um dia do ano nas margens do mar da Eritrëia, onde os príncipes e os secretários dos reis vinham escutá-lo e consultá-lo. (3) Cleômbroto, um dos interlocutores da Cessação dos Oráculos, conta que procurou-se por muito tempo e com grandes despesas esse filósofo bárbaro, e que dele se aprendeu que havia não um só mundo, nem uma infinidade, mas 183 (4). Este número, que parece desprovido de sentido à primeira vista, deriva de que este filósofo considerava o Universo como um triângulo cujos lados seriam formados por sessenta mundos, e do qual cada angulo seria também marcado por um mundo. A área do triângulo era o foco comum de todas as coisas e a morada da Verdade.



(3) V. Bonamy, Mémoire adressé à l'Académie des lnscriptions et Belles-Lettres, ed. in-12, das Mémoires, t. XIII, 1741.

(4) História relatada por Plutarco, Oeuvres morales: De Oraculorum defectu; Barthélemy, Voyage du jeune Anacharsis en Grèce, cap. XXX; Ramée, Théologic cosmogonique, cap. 1, etc.

Antes de chegar ao século em que dominou a escola de Epicuro, assinalemos aqui a filosofia socrática, e acrescentemos que a doutrina esotérica de Platão foi a precursora da nossa. Mas a crença do ilustre discípulo de Sócrates é um tanto mística: ele coloca as terras do céu além do universo visível, não se fundamenta na verdadeira física do mundo, e até mesmo passou por muito tempo como tendo restaurado o sistema da imobilidade da Terra. Riccïoli imputa-lhe gravemente esta falta; mas esta acusação me parece ser bem fundamentada, pois encontra-se no próprio século de Sócrates filósofos em grande número que acreditavam na imobilidade da Terra. Não é menos verdade que uma tal autoridade arrastou ao erro os últimos partidários do cirenaísmo e do eleatismo, e que colocou no caminho errado os do platonismo e mais tarde os do peripatetismo, seitas ilustres que contaram em seu seio com nomes tais como Fédon, Espeusipo e Xenócrates quanto a primeira, Aristóteles, Calipo e Aristoxenes quanto a segunda, e mais tarde ainda os sábios que se chamaram Arquimedes, Hiparco, Vitrúvio, Plínio, Macróbio e Ptolomeu, que emprestou seu nome ao sistema. É aqui o ponto de observar que se Aristóteles tivesse conhecido o verdadeiro sistema do mundo, teria certamente defendido menos a incorruptibilidade dos céus, única razão, como diz ele mesmo, (1) que o impediu de admitir outras terras e outros céus; e que não podendo, destarte, povoar os astros, acreditou que devia divinizá-los, tomado que estava por esta idéia, compartilhada por todos os que estudam a natureza, de que a terra é um átomo por demais insignificante para ser considerada como a única expressão do Poder criador infinito.



(1) Aristóteles, De Coelo, lib. II, cap. III.

A escola de Epicuro ensinou a pluralidade dos mundos, e a maioria de seus adeptos não compreendia apenas os corpos planetários a título de mundos habitáveis, mas acreditavam ainda na habitabilidade de uma multidão de corpos celestes disseminados no espaço. Epicuro fundava sua crença neste argumento: que, sendo infinitas as causas que produziram o mundo, os efeitos destas causas deveriam ser infinitos; (1) tal foi a opinião geral dos epicuristas. Metrodora de Lampsaco, entre outros, considerou também que seria tão absurdo colocar um só mundo no espaço infinito como dizer que só poderia crescer uma espiga de trigo num vasto campo. (2) Anaxarco dizia a mesma coisa a Alexandre, o Grande, espantando-se, quando havia tantos mundos, que este conquistador só houvesse ocupado um com sua glória - Numerosos autores adiantaram que os versos escritos por Juvenal quatro séculos depois, sobre a ambição do jovem macedônio, faziam alusão a idéias de Alexandre sobre a pluralidade dos mundos: não é nada disso, e este grande satírico limita-se a dizer que Alexandre sufoca nos estreitos limites do mundo como se estivesse confinado aos recifes de Giara, ou na ilhota de Serifa (3) - Um grande número de seguidores da escola epicurista, entre os quais citaremos logo Lucrécio, acreditaram não somente na pluralidade, mas ainda na infinidade dos mundos; era, como vimos, a opinião do mestre. Edificados sobre as ruínas da escola cética de Pirro, os discípulos de Epicuro levaram a uma reação das idéias e, ainda querendo ficar no positivismo, afirmaram a universalidade e a eternidade da natureza. Sua doutrina, que foi mais tarde compartilhada por Cícero, Horácio e Virgílio, estabelecia em sua física que as forças naturais inerentes a própria essência da matéria agem e criam em qualquer ponto do Universo onde os elementos se encontrara reunidos. Esta crença foi também a de Zenão de Cittium, o primeiro filósofo da sensação, (1) que reconhecia a intervenção de um espírito superior no governo da natureza, mas cuja opinião não diferia, talvez, da de Espinosa, esse grande proclamador do Natura naturans.



(1) Lucrécio, De Natura Rerum, lib. 11; Plutarco, De Placitis Philosophorum, lib. 11, cap.I; A. de Grandsagne, Système physique d'Epicure d'après les fragments retrouvés à Herculanum, cap. IV.

(2) Lalande, Astronomie, t. III, art. 3376.

(3) Juvenal, sátira X.

(1)Este foi o primeiro a enunciar a celebre máxima da escola empírica: Não existe no entendimento que não tenha antes passado pelos sentidos.

O mais ardente e o mais zeloso dos discípulos de Epicuro foi um dos mais fervorosos entusiastas da pluralidade ou, melhor dizendo, da infinidade dos mundos; observação digna de nota: mostrando seu sistema, nas estrelas visíveis, apenas simples emanações do globo terrestre, achou necessário criar, além desses mundos, um novo universo, invisível aos nossos olhos, para aí colocar outras terras e outras estrelas. "Se as inumeráveis vagas criadoras", diz Lucrécio, "se agitam e nadam sob mil formas variadas através do oceano do espaço infinito, teriam elas gerado, em sua luta fecunda, apenas o orbe da Terra e sua abóbada celeste? Crer-se-ia que, além deste mundo, um tão vasto acúmulo de elementos seria condenado a um ocioso repouso? Não, não; se os princípios geradores deram nascimento a massas de onde saíram o céu, as ondas, a terra e os seus habitantes, é preciso admitir que, no resto do vazio, os elementos da matéria geraram um sem número de seres animados, mares, céus, terras, e semearam o espaço de mundos semelhantes aquele que se equilibra sob nossos passos nas vagas aéreas. Onde quer que a imensa matéria encontre espaço para contê-la e não encontre nenhum obstáculo à sua ação, fará eclodir a vida sob formas variadas; e se a massa dos elementos for tal que, para enumerá-los, as idades somadas de todos os seres seriam insuficientes, e se a natureza dotou-os de faculdades que concedeu aos princípios geradores de nosso globo, os elementos, nas outras regiões do espaço, semearam seres, mortais e mundos." (2)



(2) Lucrécio, De Natura Rerum, Lib. II, v. 1051-1045.

Esta passagem da eloqüente obra de Lucrécïo, que estabelece de maneira tão peremptória sua opinião sobre a pluralidade dos mundos, traz a lembrança a passagem análoga do Anti-Lucrécio, poemeto inofensivo no qual o cardeal de Polignac tomou para si a tarefa de virar do avesso o edifício de seu adversário. Ora, se é notável que o poeta materialista arvore tão francamente nosso estandarte, não é menos notável que seu espiritualista adversário, que lhe é diametralmente oposto em todo o curso da obra, compartilhe aqui completamente das idéias de seu antagonista. "Todas as estrelas", diz ele, (1) "são outros tantos sóis semelhantes ao nosso, cercadas como ele de corpos opacos, aos quais elas comunicam o calor e a luz. Os planetas que as acompanham se esquivam a fraqueza de nossos olhos, e a distância dessas estrelas nos subtrai a enormidade de sua grandeza. Mas se se considera que os raios desses astros gozam das mesmas propriedades que os do Sol, e que o Sol mesmo, visto a uma mesma distância, nos apareceria tal como vemos as estrelas, poderíamos nos persuadir de que o Sol e as estrelas agem diversamente, e que tantos fachos maravilhosos brilhem inutilmente? A Divindade não se limitaria a formar um só ser da mesma espécie: ela verte ao mesmo tempo de seus inesgotáveis tesouros toda uma safra de seres semelhantes. Causas semelhantes devem produzir efeitos semelhantes."



(1) Anti-Lucretius, lib. VIII (1745).

Os termos do cardeal não são mais equívocos que aqueles de que se serviria mais tarde o matemático Laplace, para testemunhar sua adesão a nossa doutrina. Vamos ter oportunidade de citar este ilustre geômetra; mas antes de chegar ao nosso século, resta-nos ainda passar em revista nomes célebres na história das ciências.



Não é na época do esplendor romano, onde toda elevação interior da alma foi tombada sob os transbordamentos do desfrute sensual, que encontraremos a seqüência dessa longa série de adeptos de nossa crença; não foi tampouco nos séculos não menos críticos da queda do grande império e da convulsão dos povos que procuraremos catar aqui e acolá algumas aspirações em nosso lavor. No máximo poderíamos constatar que nos primeiros tempos do cristianismo, alguns espíritos independentes proclamaram em alta voz sua opinião a esse respeito. Plutarco escrevia seu tratado De Facie in orbe Lunae, e defendia valentemente a bandeira de nossa filosofia, que foi a de seus predecessores, os sábios da Grécia antiga. Em seu livro Dos Princípios, Orígenes emitia a opinião de que Deus cria e aniquila em seguida um número indefinido de mundos: era a palingenesia estóica e mesmo caldéia, que ensinava que um imenso período astrológico levava a uma absorção do Universo pelo fogo divino; era também a crença dos antigos povos da Índia, que admitiam uma reconstituição periódica da obra de Brahma. É verdade que Lactancio ria de Xenófanes, que sustentava que a Lua era habitada e que os homens lunares moravam em grandes e profundos vales. Todavia, as observações modernas mostram que esta idéia, por mais prematura que pareça, não é completamente desprovida de fundamento, pois que a atmosfera da Lua, se existe, cobre apenas os vales do satélite, e só pode permitir nestes lugares a vida tal como a compreendemos. Santo Irineu acreditava que os valentinianos, sob os nomes misteriosos de Bythos e Eones, ensinavam o sistema de Anaximandro sobre a infinidade dos mundos (1). Outros bispos, como Filastro de Bréscïa (2), só a discutiram para relegá-la ao número das heresias. Santo Atanásio, em sua obra contra os pagãos, deixou ao menos entrever alguns bons sentimentos em favor desta idéia (3). Infelizmente para o progresso das ciências em geral, e digamo-lo, para o de nossa doutrina em particular, o sistema errôneo de Aristóteles sobre a incorruptibilidade dos céus, e a interpretação não menos errônea dos livros sagrados sobre a imobilidade da Terra, já cobriam com um véu espesso os olhos de todo homem desejoso de saber, e se opuseram, a seguir, com funesta eficácia, à marcha já tão lenta das conquistas da mente humana. A ciência regrediu: "Não temos necessidade de nenhuma ciência depois do Cristo", escrevia Tertuliano, nem de nenhuma prova depois do Evangelho; aquele que crê, não deseja mais nada; a ignorância é boa, em geral, a fim de que não se aprenda o que é inconveniente. E esta palavra de Tertuliano tornou-se a divisa de um grande número, foi reverenciada por muitos como uma sentença, e infelizmente posta em prática durante séculos e séculos. Acreditou-se poder determinar e designar os mistérios dos quais Deus reservou o segredo para si, e proclamou-se que era um erro tentar a solução desses mistérios. Considerou-se que o homem estava instruído o bastante na ciência do mundo, e foi-lhe aconselhado deter-se, ou voltar seus passos para as regiões insondáveis de certos vazios metafísicos! Sim, a ciência regrediu. De erro em erro chegou-se até a dizer que aquele que acreditava nos antípodas estava em oposição formal com a revelação e acusado de heresia, e, dez séculos mais tarde, a pronunciar uma condenação memorável sobre aquele septuagenário, célebre para sempre, cujo grande crime foi ter encontrado no céu provas do movimento da Terra. Mas vamos passar tais fatos sob silêncio. Lembremo-nos de que há, na história da humanidade, períodos críticos que caracterizam a decadência intelectual e moral dos povos, que assinalam a queda dos impérios, e que anunciam a elaboração de novos destinos humanos. A épocas de que falamos aqui foi um de tais períodos; viu tombar o colosso romano como um montão de areia; favoreceu o surgimento útil e oportuno de grandes e verdadeiras idéias cristãs, e preparou de longe os séculos de hoje. Foi um tempo de parada um período de letargia, durante o qual o homem repousou para melhor se lançar, a seguir, rumo à perfeição a que aspira. Feliz se, durante esse repouso útil, aqueles mesmos, cuja missão teria sido dar o exemplo e preparar o progresso, não tivessem abusado de seu poder para propagar as trevas com a mesma mão que poderia difundir a mais pura das luzes do alto! A ciência foi esquecida tanto ao norte como ao sul do Velho Mundo, no Levante como no Poente, e os elementos da ciência foram dispersados. No Oriente, a mais rica biblioteca do mundo, onde os únicos arquivos do conhecimento humano estavam conservados, foi incendiada no sétimo século de nossa era, digno fruto das tristes revoluções árabes; no Ocidente, durante quinze séculos, as mais poderosas aspirações do pensamento permaneceram estéreis sob o céu de chumbo que as sufocava. Houve então, como o dissemos, um período de imobilidade para a história de nossa doutrina, bem como para a história geral da filosofia; sem procurar, pois, restabelecer a cadeia interrompida de nossos autores, continuaremos a seqüência de nosso estudo pelos nomes ilustres que, desde a renascença das letras e das ciências, ensinaram a habitabilidade dos astros.

(1) Adversus Haereses, lib.II.

(2) Hoereses, 65, t. 11.

(3) Contra Gentes. "Nec enim quia unus est Creator, idcirco unus est mundus; poterat enim Deus et alios mundos facere."

II
Da Idade Média até nossos dias



Continuação da história da pluralidade dos mundos.- A Renascença. - Cusa. - Bruno. - Montaigne. - Galiléu. - Descartes. - Kepler. - Campanella. - O discurso do conselheiro Pierre Borel sobre as Terras habitadas.- O homem na Lua, de Godwin. - Cyrano de Bergerac e sua História dos Estados e Impérios do Sol e da Lua. - Selenografia, de Hevelius. - O padre Kircher e sua Viagem no céu. - Os mundos, de Fontenelle. - O Cosmoteóros, de Huygens.- Século XVIII: Leibniz. - Newton. - Wolff. - Swedenborg. - Voltaire. - Lambert.- Bailly. - Kant. - Herschel. - Lalande. - Laplace etc. Conclusão tirada da história da doutrina.
Eis aqui nomes célebres por mais de um motivo. Nicolau de Cusa, o mais antigo de nossos partidários na Idade Média, autor do tratado De docta Ignorantia; o infortunado Giordano Bruno, que foi queimado vivo em Roma por suas idéias filosóficas, e principalmente pela doutrina emitida em seu livro sobre a infinidade dos Mundos: De I’ infinito, Universo e Mondi; Michel de Montaigne, cujos Ensaios são ainda uma mina de riquezas para nossos tempos; Galileu, que, sem no entanto ousar dar o nome de astro à Terra, contra a proibição da Inquisição, ousou indagar publicamente, em seu Systema cosmicum (Diálogo I), "se há nos outros mundos seres como sobre o nosso"; Tycho Brahe, astrônomo ilustre, se tivesse sido menos tímido; René Descartes e os cartesianos; Moestlin in Thesibus, e seu ilustre discípulo Kepler, que publicou seu Astronomia lunaris e sonhou seu Somnium astronomicum; Cardan, menos sonhador do que parece; Tommaso Campanella, enfim, que escreveu, na Cidade do Sol: "Os Solarianos pensam ser loucura afirmar que não há nada além de nosso globo, pois não poderia existir o nada nem no mundo visível nem fora deste mundo". Dado o impulso, o movimento se manifestou por toda parte. Encontramos, numa obra da filosofia teológica contemporânea, uma inversão das idéias religiosas consagradas sobre o movimento da Terra, uma passagem por demais curiosa, da qual eis a tradução: "Além deste mundo, quer dizer, além do Céu empíreo, nenhum corpo existe; mas neste espaço infinito (se é permitido falar assim) onde estamos, Deus existe em sua essência e pôde formar mundos infinitamente mais perfeitos que o nosso, como teólogos afirmam (1). Digamos porém, como observação geral, que a maioria dos filósofos que acabamos de citar, e mesmo a maioria da época seguinte, se admitiam a possibilidade da existência de outros mundos além do nosso, só o faziam timidamente, receando comprometer-se aos olhos da Igreja e da Inquisição, e na verdade pode-se perdoar-lhes facilmente esta timidez. Não se ousa afirmar as verdades físicas. Era um passo que só podia ser dado depois que a tocha das ciências modernas fosse acesa. O autor da teoria dos turbilhões, por exemplo, estima que seria temerário proclamar a pluralidade das terras habitadas, seja em nosso turbilhão, seja nos turbilhões das estrelas fixas; mas acrescenta logo que sendo os planetas corpos opacos e sólidos, e da mesma natureza que nosso globo, há fundamento em supor que eles sejam igualmente habitados. (2)

(1) Christophori Clavii Bambergensis in Sphoeram Joannis de sacro Bosco Commentarius Veneza, 1591, p. 72.

(2) Descartes, Théorie des Tourbillons, Ver também G.-C Legendre, Traité de I’Opinion, Livro IV.

No século XVII, citemos mora David Fabricius, que, incidentalmente, pretendia ter visto com seus próprios olhos habitantes da Lua; Otto von Guericke, Pierre Gassendi, Antonio Reita, em sua curiosa teoastrologia intïtulada Oculus Enoch et Elia; o bispo inglês Francis Godwin, em sua viagem à Lua (The man in the more moon); John Wilkins, outro bispo inglês, em seu Discourse concerning a new World, onde encontra o paraíso terrestre na Lua; e um grande número de pensadores, entre os quais assinalemos John Locke, o ilustre autor do Ensaio sobre o entendimento humano.

O meio desse famoso século XVII, ilustrado pelos Descartes, pelos Gassendi, pelos Pascal, é a época mais rica em aspirações e escritos de todo gênero a propósito de nossa doutrina. Os filósofos e os cientistas, entusiasmados pelas novas descobertas feitas em óptica, pela invenção do telescópio e da luneta astronômica, entregam-se com fervor à observação dos astros, e a maioria entre eles se sente instintivamente levados rumo a essas idéias da habitabilidade da Lua, do Sol e dos planetas. Na França, o conselho real Pierre Borel, amigo de Gassendi, de Mersenne e provavelmente de Cyrano de Bergerac, escreveu um tratado curioso sobre a pluralidade dos mundos examinada do ponto de vista da ciência daquela época. Esta obra tem por título: Novo discurso provando a pluralidade dos mundos; que os astros são terras habitadas, e a Terra uma estrela; que a esta fora do centro do mundo, no terceiro céu; e gira diante do Sol, que é fixo: e outras coisas muito curiosas. Eis ai um título e tanto! Encontrasse neste livro, difícil de conseguir, "relatos sobre as coisas que estão na Lua, segundo Galiléu e pesquisas sobre o meio pelo qual se poderia descobrir a pura verdade da pluralidade dos mundos: este meio é a navegação aérea e a observação aerostátïca! Na Inglaterra, Francïs Godwïn escreveu sua obra sobre a lua, que foi traduzida em 1640 por Jean Beaudoin, sob o título: O homem ns lua, ou a Viagem feita ao mundo da lua por Dominique Gonzales, aventureiro espanhol. Depois vem nosso belo intelecto, Cyrano de Bergerac, o mestre de todos os que se dedicaram a esta espécie de romances científicos. Publicou sua célebre Viagem à Lua, e mais tarde sua História dos estados e Impérios do Sol. Ao mesmo tempo, as mesmas idéias são proclamadas pelo padre Daniel, autor da Viagem ao Mundo de Descartes; por Guillaume Gilbert, em seu livro DeMagnete et magneticis Corporibus; pelo célebre astrônomo de Danzig, João Hevelius, em sua grande e notável obra Selenografia; pelo próprio Milton, que, em seu vôo misturado de sombra e luz, não conseguiu impedir-se de lançar um olhar sobre esses mundos desconhecidos, onde outros casais humanos deveriam, tal como cá embaixo, abrir-se à radiação da vida.

Um escritor da mesma época, que passa aos olhos de muitos como partidário de nossa doutrina, é o padre Atanásio Kircher. Seu livro de mais renome - se bem que não seja o melhor - é Viagem extática celeste (1), no qual ele visita os diversos planetas, conduzido por um gênio chamado Cosmiel. O autor não adota o verdadeiro sistema do mundo, mas o que Tycho Brahe tinha imaginado, sessenta anos antes, para salvar as aparências e concordar a mecânica celeste com o texto bíblico. A imparcialidade nos impõe o dever de dizer que o autor da Viagem extática não é dos nossos, e devemos insistir neste fato, porque a maioria dos escritores que falaram dele não o compreenderam, ou falaram só de ouvir dizer, fazendo fé nos primeiros, que se enganaram. Eis, por exemplo, o que se lê numa obra semiliterária, semicientífica (2), que trata de diversas questões relativas à astronomia:



(1) ltinerarium exstaticum, quo Mundi opificium, id est coelestis expansi, siderumque tam errantium quant fixorum natura, vires, proprietates, singulorumque compositio et structura. ah infimo Telluris globo, usque ad ultima Mundi confinia, nova hypothesi exponitur ad Veritatem. Roma, 1656.

(2) Lettres à Palmyre sur l'Astronomie, p. 182.

"Tive a curiosidade", diz o autor, "de folhear o livro [a Viagem extática]; é bem o caso de dizer que o bom Padre viu coisas do outro mundo.

"No globo de Saturno, ele vê velhos melancólicos vestidos de roupas lúgubres, caminhando em passo de tartaruga, e brandindo tochas fúnebres. O afundamento de seus olhos, a palidez de suas faces e a austeridade de suas frontes anunciam bem que são ministros da vingança e que Saturno está cheio de influências malignas.

"A Kircher faltam expressões para nos transmitir a admiração que lhe causaram os habitantes de Vênus. Eram jovens de porte e beleza encantadores. Suas vestes, transparentes como o cristal, se pintavam, aos raios do sol, com as cores as mais brilhantes e as mais variadas. Uns dançavam ao som das liras e dos címbalos; outros embalsamavam o ar espalhando a mancheias os perfumes que renasciam sem cessar nas corbelhas que carregavam.''

Eis como fala o autor das Cartas a Palmyre sobre a opinião do padre Kircher no que toca aos habitantes dos mundos. Outros escritores, depois dele, pareciam compartilhar da mesma maneira de ver. Para citar apenas um exemplo, lê-se no Panorama dos Mundos (obra, de resto, muito instrutiva), p. 354: "Nosso viajante [Kircher] mal pôs o pé no globo de Saturno, e viu velhos melancólicos, vestidos de roupas lúgubres, caminhando em passo de tartaruga e brandindo tochas fúnebres. O afundamento de seus olhos cavos, a palidez de suas faces e a austeridade de suas frontes anunciam que são ministros da vingança e que este planeta está cheio de influências malignas".

Vemos que estas palavras são textualmente as mesmas que as reproduzidas mais acima - e no entanto não são a tradução do livro de Kircher. Remontando, como em todas as coisas, à obra original, vimos que o padre Kircher se defende ao máximo da opinião não-dogmática da pluralidade dos mundos, e nunca fala de habitantes. Quanto a Vênus, como quanto a Saturno, bem como quanto aos outros astros e planetas, ele não deixa de dirigir a cada vez a pergunta seguinte ao seu guia: "Ó meu Cosmiel! Vem em meu auxílio, revela-me, rogo-te, o mistério dessas aparições!" E Cosmiel responde, a cada vez: "Esses são, ó meu filho! os anjos encarregados pelo Senhor da direção desse mundo; daí eles vertem as influências boas ou perniciosas desses astros sobre cabeças dos pecadores". O livro de Kircher é inteiramente ditada pelo espírito astrológico, que então reinava: para ele, a Terra, centro do mundo, é a única morada do homem; os Sete astros planetários rolam ao seu redor, derramam as suas influências recíprocas sobre nossos cabeças, segundo a relação genetlíaca que existiu entre o momento do nosso nascimento e a posição destes astros no céu; acima de toda o sistema, por fim, do céu e das estrelas fixas, ha a que ele chama de Águas supracelestes: são, segundo ele, as águas superiores de que fala o Gênese, que foram separadas dos águas inferiores na segunda Dia, e que envolvem atualmente o Universo. Vemos que o padre Kircher está bem longe de nossas idéias; todavia, não relatamos os episódios mais curiosos de sua viagem, não lembramos a pergunta que dirige a seu gênio Cosmiel: se as águas que se encontram sobre Vênus seriam boas para batizar um catecúmeno, e se o vinho que se poderia recolher das vinhas de Júpiter seria conveniente para o santo Sacrifício, etc. Eis aí, no entanto, perguntas bem interessantes.



Voltemos agora a nossa exposição histórica.

Antes de passar à época seguinte, devemos escrever letras maiúsculas o nome de nosso espiritual FONTENELLE, que herdou de seu século e que, no que concerne a nossa doutrina, guardou todo o seu renome. Mas encontrou-se em Fontenelle mais as belas idéias do que ciência: diz-se que foi um galante centenário que, segundo suas próprias palavras, "passou a vida entre frivolidades sem nunca amar pessoas nem coisas", e que morreu colhendo rosas na fronte da senhorita Helvetius. Quanto a nós, só sabemos que o livro que dedicou à marquesa de la Mésengère sob o titulo de Conversações sobre pluralidade dos Mundos foi recebido com entusiasmo há cento e setenta unos, e ainda é relido hoje com incessante prazer. E bem a mais encantadora obra que se possa escrever sobre o assunto, e seu imenso sucesso, sob os ornamentos da ficção com que sua tese é graciosamente paramentada, fez bem abrir os olhos do lado da verdade. O prazer que sentimos ao ler esta obra e nossa grande admiração pelo sábio secretário da Academia de Ciências levam nossas homenagens muito acima da pequena reprovação que acabamos de mencionar. Por mais insignificante que seja, esta pequena reprovação nos parece ainda por demais severa. "Ele queria dar o fruto sob a flor", diz M. A. Houssaye, "a filosofia sob a imagem das graças, a verdade sob o véu ondulante da mentira. Seu livro não pode tornar-se um clássico, pelo julgamento de Voltaire, pois a filosofia é sobretudo a verdade, e a verdade não deve se esconder sob falsos ornamentos. Não é com a galanteria que se vai à procura dos mundos; a divagação, armado de um compasso, seria melhor companheira de viagem: para a divagação, o horizonte se ampliaria a cada passo, enquanto que, para a galanteria, o horizonte, por mais claro que fosse, se restringe de golpe. Assim encontramos nos Mundos de Fontenelle: Um grande aglomerado de matérias celestes onde se acomodou o Sol. - A aurora é uma graça que a natureza nos dá a mais. - De toda a equipagem celeste, restou a terra apenas a lua, que parece ter por ela muito apego, etc. Tudo isto é muito engraçado, mas sobretudo para risonhos escolares, ou para mulheres que escutam com os olhos nas chinoiseries de seu leque. (1) "Como já dissemos, a reprovação é demasiado severa, sobretudo se se leva em conta, como se deve fazer, a época e a meio em que viveu Fontenelle, bem como o sistema errôneo que abraçou ao mesmo tempo que seus amigos, os cartesianos; no entanto, devemos acrescentar que Fontenelle deu lugar ele mesmo a esta reprovação. Nosso gracioso autor, com efeito, considerava tão leviamente a assunto de sua própria tese e ponderava tão pouco a influência dela sobre o raciocínio humano que, em seu próprio prefácio, encontram-se frases como: "Parece que nada deveria nos interessar mais que saber se há outros mundos habitados; mas, afinal de contas, inquiete se com isso quem quiser. Os que têm pensamentos para esbanjar podem esbanjá-los com esses assuntos; mas nem todos estão em condições de fazer esta despesa inútil".

(1) Galerie du dix-huitième siecle, primeira série.

Seja como for, mesmo reconhecendo que o livro de que falamos não está no nível da ciência e da filosofia, não é menos verdade que é a Fontenelle que devemos o ter popularizado as idéias astronômicas, o ter mesmo escrito o primeiro livro de astronomia popular, e nessa condição, nossas sinceras homenagens são prestadas à sua memória como um tributo ainda modesto de nosso reconhecimento.

Dez anos depois da publicação do livro de Fontenelle, o astrônomo Huygens, quase septuagenário, escrevia seu Cosmotheôros, (1) obra póstuma que foi publicada aos cuidados de seu irmão. É a obra mais séria que foi escrita sobre a questão. De um lado, ensina astronomia planetária e mostra doutamente em que condições os habitantes de cada planeta devem se encontrar na superfície de seus respectivos mundos; de outro, procura, com argumentos sólidos, estabelecer sua teoria fundamental: que os homens dos planetas são semelhantes a nós, seja do ponto de vista físico, seja do ponto de vista intelectual e moral; teoria sobre a qual nada temos a dizer aqui, mas que discutiremos quando examinarmos a habitabilidade comparativa dos diversos mundos e o estado biológico do homem terrestre. Huygens é superior a Fontenelle como cientista e como filósofo.

(1) Cosmotheoros, sive de Terris coelestibus, earumque ornatu Conjecture. Hagae-Comitum, 1698.

O autor de Telliamed, (1) mais conhecido pelas pilhérias de Voltaire do que por si mesmo, relata que a obra de Huygens foi muito mal recebida por seus contemporâneos e que se encontrou nele muita ostentação e pouca solidez. Não levaremos a sério este autor. Seu olhar filosófico não nos parece abarcar as coisas suficientemente do alto. No capítulo que consagrou em sua obra à doutrina da pluralidade dos Mundos, emite a idéia de que, se não tivéssemos a Lua, não teríamos noção da pluralidade dos Mundos, porque esta noção deriva do conhecimento que temos da Lua. Esta maneira de ver é demasiado estreita. A observação dos corpos celestes não criou a doutrina; esta existia antes, concepção natural de nossa mente; apenas foi desenvolvida e confirmada pelas descobertas dos íntimos tempos.



(1) Telliamed, Entretiens d’um philosophe indien avec um missionnaire français, de De Maillet, 1748.

Eis-nos chegados ao século XVIII. Aqui, como no passado, os filósofos, naturalistas e matemáticos mais célebres afluem em massa à nossa doutrina.



Para começar, o livre-pensador Bayle, que pertence ao século passado, o ilustre Leibniz, Bernouilli, Thomas Burnet e Nehemias Grew, autor da Cosmologia; depois, Isaac Newton, em Optic; William Whiston, em Theory of the Earth, e o alemão Christian Wolff, em Cosmologia generalis; Guillaume Derham, em Astro-Theology; George Cheyne, em Princípios de Filosofia Natural; Xavier Eimmart, em Iconografia das novas observações do Sol; o famoso teósofo que se chamava Emmanuel de Swedenborg e que escreveu os Arcanos celestes. - Acrescentemos a eles os espiritualistas que tiveram o dom de compreender sua misteriosa palavra, desde os apóstolos da Nova Jerusalém aos nossos contemporâneos de sua escola de ultramar. - Aos filósofos precedentes, acrescentemos: Voltaire, no romance tão conhecido de Micrômegas e em seus fragmentos filosóficos; (1) Buffon em suas épocas da Natureza; Condillac, em sua Lógica; Delormel, em seu Grande Período Solar; Charles Bonnet, em Ensaio analítico e em sua Contemplação da Natureza; Lambert em Cosmologische Briefe; Marmontel, em Os Incas; Bailly, em História da Astronomia; Lavater, em Fisiognomonia; Bernardin de Saint Pierre, em Harmonias da Natureza; Diderot e os principais redatores da Enciclopédia, malgrado o Não se sabe nada de d'Alembert; Necker, em seu Curso de moral religiosa; Herder, em Filosofia da História da humanidade; Dupont de Nemours em Filosofia do Universo; Balanche mesmo, em certos fragmentos de sua Palingenesia; Cousin-Despréaux, em lições da Natureza; Joseph de Maistre, em Noites de São Petersburgo; Emmanuel Kant, em Allgemeine Naturgeschichte des Himmels; os poetas filósofos Goethe, Krause e Schelling; os astrônomos de diferentes ordens: Bode, em suas Considerações sobre o Universo; Ferguson, em Astronomy explained upon Newton's principies; William Herschel, em suas diversas Memórias; Lalande, em suas quatro obras de astronomia; Laplace, em Exposição do Sistema do Mundo etc.; por fim, um certo número de poetas que, como o inglês Young, em suas célebres Noites; Hervey, seu imitador; Thompson, nas estações; Saint Lambert, seu imitador, e Fontanes, em seu Ensaio sobre a Astronomia, cantaram a grandeza do Universo e a magnificência dos mundos habitados. (2)

(1) Nosso muito espirituoso Voltaire deveria ser aqui levado mais a sério do que em outras obras? Enquanto proclama a pluralidade dos Mundos em diversos pontos de suas obras, transforma, em outros lugares, esta crença em brincadeira. Eis, por exemplo, o que diz em sua Física: "Não temos a respeito disto nenhum outro grau de probabilidade senão o de um homem que tenha pulgas e conclua que todos os que passam na rua as têm como ele; pode muito bem ser que os passantes tenham pulgas, mas de modo algum está provado que eles realmente as tenham".

Eis o que se chama um argumento a la Voltaire!

Este modo de raciocinar relembra a explicação que ele também deu das conchas fósseis nas montanhas dos peregrinos.

(2) Este é um esboço rápido dos principais autores que trataram antes de nós da questão da pluralidade dos mundos. Depois, consagramos uma obra especial, Os Mundos imaginários e os Mundos reais, a uma exposição histórica de todos os livros antigos e modernos escritos sobre este vasto assunto e as curiosas viagens imaginárias feitas nos planetas. A última edição desta obra conduz, inclusive, este exame até o presente ano de 1877.

Sem analisar as obras de nosso século, que, como as de sir David Brewster e Jean Reynaud, falariam ainda com mais eloqüência que as precedentes em favor de nossa causa, esperamos que esta série gloriosa de nomes para sempre célebres na história da ciência e da filosofia, desde a mais recuada antiguidade histórica até nossos dias. não seja em nossas mãos trena vã e inútil salvaguarda, e nos permitimos pensar que se todos esses homens ilustres não acreditaram diminuir seu gênio ou seu saber proclamando a pluralidade dos mundos, poderemos, nós que não temos de temer esta acusação, proclamar esta bela doutrina e tentar desenvolvê-la e mostrar toda sua grandeza. Filósofos, promotores de novas filosofias, muitas vezes esqueceram os nomes daqueles que os precederam nas mesmas idéias, e por vezes até tentaram substituir sua própria personalidade pela doutrina que ensinavam. Nós, que não viemos apresentar um eu como pedestal para nossa causa, nosso dever e nossa felicidade tem sido ao mesmo tempo procurar quais pensadores emitiram opiniões conformes à nossa e compartilharam uma crença que nos é tão cara. Com a justiça que fazemos aos que nos precederam, temos a satisfação de mostrar o quanto as idéias que emitimos estão longe de serem singulares ou sistemáticas, e de poder esperar que um tal apoio, santificando nossos esforços, nos ajude a popularizar esta doutrina, na qual saudamos a filosofia do futuro.

Os mais profundos filósofos das eras que já se foram compartilharam desta nobre crença, e se nos surpreendemos com alguma coisa estudando sua história, é o esquecimento, a insignificância em que ela caiu após ter sido tão antiga e universalmente conhecida. Esse nos parece ser um dos mais insondáveis mistérios do destino humano, ver a indiferença de dez ou vinte séculos por uma verdade que tem lugar entre as bases fundamentais da teologia e da filosofia, e parece-nos, concomitantemente, um de nossos primeiros deveres elevar esta verdade obscura sobre o broquel de nossos conhecimentos atuais, fazê-la resplandecer à plena luz da ciência moderna, e coroá-la rainha de nossos pensamentos e de nossas mais caras aspirações.

Sim, esta longe de ser nova, a nossa crença: é venerável pelos anos que a amadureceram, é respeitável pelos nomes daqueles que a defenderam. Nas páginas precedentes, que retratam o conjunto de sua história, permitimo-nos acrescentar algumas opiniões escolhidas em diversas épocas nos anais da filosofia; essas opiniões completarão nosso estudo histórico. Eis, para começar, as palavras que o muito sábio e veraz autor da Viagem do jovem Anacharsis pela Grécia põe na conversação de seu ávido cosmopolita; esse relato exprime o que se pensava de nossa doutrina quatro séculos antes de nossa era, e continuará como uma página admirável em favor desta doutrina: "Callias, o hierofante, íntimo amigo de Euclides, disse-me em seguida [é Anacharsis quem fala]: O vulgo não vê ao redor do globo que habita mais que uma abóbada cintilante de luz durante o dia, semeada de estrelas durante a noite; são esses os limites de seu universo. O universo de certos filósofos não tem limites, e cresceu, até nossos dias, a ponto de assustar nossa imaginação. Supôs-se de início que a Lua era habitado; depois, que os astros eram outros tantos mundos; enfim, que o número desses mundos deveria ser infinito, e depois, que nenhum deles poderia servir de termo e fronteira aos outros. A partir daí, que carreira prodigiosa se abriu de imediato à mente humana! Empregai até mesmo a eternidade para percorrê-la, tomai as asas da Aurora, voai até o planeta de Saturno, nos céus que se estendem sobre este planeta, e encontrareis sem cessar novas esferas, novos globos, mundos que se acumulam uns sobre os outros: encontrareis o infinito em todos os lugares, na matéria, no espaço, no movimento, no número dos mundos e dos astros que os embelezam, e depois de milhões de anos, conhecereis apenas alguns pontos do vasto império da natureza. Oh! como esta teoria cresceu perante nossos olhos! e se é verdade que nossa alma cresce junto com nossas idéias e se assimila, de alguma maneira, aos objetos de que ela se deixa penetrar, o quanto o homem deve se orgulhar de ter penetrado essas profundezas inconcebíveis!

“- Orgulharmo-nos! - exclamava eu com surpresa. E de quê, então, respeitável Callias? Minha mente sucumbe ante o aspecto dessa grandeza sem limites, perante a qual todas as outras se aniquilam. Vós, eu, todos os homens, não são, perante meus olhos, senão insetos mergulhados num oceano imenso, onde os conquistadores não se discernem, senão por agitarem um pouco mais que os outros as partículas de água que os cercam. - A estas palavras, o hierofante olhou para mim; e após recolher-se por um momento em si mesmo, me disse, apertando a mão: - Meu filho, um inseto que entrevê o infinito participa da grandeza que vos surpreende.

"Callias saiu assim que terminou seu discurso, e Euclides falou-me dos que admitiam a pluralidade dos mundos. Pitágoras e os seus. Depois, sobre a Lua: segundo Xenófanes disse ele, os habitantes da Lua levam sobre este astro a mesma vida que nós sobre a Terra. Segundo alguns discípulos de Pitágoras, as plantas lá são mais belas, os animais quinze vezes maiores, os dias quinze vezes mais longos que os nossos. - E sem dúvida - disse-lhe eu - os homens são quinze vezes mais inteligentes que sobre nosso globo? Esta idéia é feliz a minha imaginação. Como a natureza é ainda mais rica pelas variedades do que pelo número das espécies, distribuo a meu bel-prazer nos diferentes planetas povos que têm um, dois, três ou quatro sentidos a mais que nós. Comparo em seguida seus gênios com os que a Grécia produziu, e afirmo-vos que Homero e Pitágoras me fazem pena. - Demócrito, responde Euclides, salvou sua glória desse paralelo humilhante. Persuadido, talvez, da excelência de nossa espécie, decidi que os homens são individualmente os mesmos em qualquer lugar". (1)



(1) Barthélemy, Voyage du jeune Anacharsis em Grèce, cap. XXX.

O autor continua em seguida um pouco em tom de brincadeira.

Vê-se, por esta recapitulação da filosofia ateniense no século de Platão, que os debates sobre a pluralidade dos mundos estão abertos há muito tempo, como mostramos neste estudo histórico. Desde aquela época longínqua, eles só se extinguiram em aparência, e a grande idéia filosófica penetrou aqui e ali as obras do pensamento humano. "Prescrevemos limites a Deus", escrevia Montaigne, no século XVI, "mantemos seu poder assediado por nossas razões, queremos subjugá-lo às aparências vãs e frágeis de nosso entendimento, ele que fez a nós e ao nosso conhecimento. Qual! Deus nos colocou nas mãos as chaves e os últimos recursos de seu poder? Obrigou-se a não ultrapassar os limites de nossa ciência? Pensa bem, ó homem! que tenhas podido observar aqui alguns traços de seus efeitos, pensas que ele tenha empregado tudo o que pode, e que tenha colocado todas as suas formas e todas as suas idéias nesta obra? Não vês mais que a ordem e a política desse pequeno buraco em que te alojaste; ao menos se a visses: sua divindade tem uma jurisdição infinita para além, e este pedaço nada é, em comparação com o todo.

"Em verdade, por que Deus, todo-poderoso como é, teria restringido suas forças a certas medidas'? Em favor de quem teria renunciado a seu privilégio? Tua razão nada mais é que verossimilhança e fundamento ao te persuadir da pluralidade dos mundos:


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