Camille Flammarion As Casas Mal Assombradas



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Camille Flammarion
As Casas Mal Assombradas
Traduzido do Francês

Camille Flammarion - Les Maisons Hantées

Paris (1923)

Eugene Bodin - O Ancoradouro


Conteúdo resumido
Camille Flammarion, conhecido e respeitado astrônomo francês, foi um dos grandes propagadores do Espiritismo, em fins do século XIX e início do século XX.

Nesta obra ele faz uma minuciosa análise científica dos fenômenos extrafísicos nas chamadas casas mal-assombradas, demonstrando a presença, participação e direta responsabilidade dos espíritos.

Analisa vários aspectos dos fenômenos ali verificados que atestam a continuidade da vida após a morte e conclui pela necessidade de contínuo estudo das ciências psíquicas, sem idéias preconcebidas, ou que se vinculem a conveniências pessoais.
Advertência
No fim do 3º volume da minha trilogia metapsíquica, A Morte e seu Mistério, eu disse (pág. 442) que a abundância de documentos destinados àquela obra me obrigava a eliminar um certo número desses documentos, aliás muito valiosos, reservando-os para publicações ulteriores, notadamente de fenômenos concernentes a casas mal-assombradas, aparições de mortos junto ao leito de moribundos, manifestações póstumas históricas, etc. Hoje, cumpro em parte o prometido, com relação a casas mal-assombradas, assunto de si mesmo rigorosamente observado e muito mais complexo do que comumente se imagina. Estrênuo o meu labor por condensar num só volume esses fatos importantes, aqui os submeto, confiante, ao exame científico e filosófico dos meus leitores.
Observatório Flammarion, Juvisy, 1923.
Sumário


Prólogo

Espiritualismo e Materialismo 6

Capítulo I

As provas experimentais da sobrevivência:


Resposta preliminar a algumas críticas. – A averiguação dos fatos. – Cegos e negadores por preconceito. – Laplace e o cálculo das probabilidades. – Escolha de observações exatas. 23

Capítulo II

As casas mal-assombradas – Prospecção do assunto:
Há o falso e há o verdadeiro. – Realidades verificadas. – Observações antigas e modernas. – Reconhecimento jurídico de casas mal-assombradas. – Contratos rescindidos. – Certeza dos fenômenos de assombramento. 65

Capítulo III

Fenômenos estranhos observados num castelo do Calvados 101

Capítulo IV

A casa da “Constantínia” (Corrèze) 122

Capítulo V

Uma casa perturbada, no Auvergne. – Incidente psíquico no Bispado de Mônaco. – Fenômenos psíquicos correspondentes a óbitos. – A morte e os relógios. 132

Capítulo VI

Os rumores misteriosos do presbitério. – A casa do professor de Labastide-Paumès. – Um companheiro invisível. 147

Capítulo VII

A casa fantástica de Comeada, em Coimbra, Portugal 166

Capítulo VIII

Observações feitas em Cherbourg
– Qual será o ambiente dessas casas?
O Dr. Nichols e o quarto fatal. – O teto maléfico de Oxford. – A obsessão de Cambridge. – A mesquita de Pierre Loti, em Rochefort. 178

Capítulo IX

Excursão geral pelas casas mal-assombradas 192

Capítulo X

Classificação dos fenômenos. – Fenômenos associados a pessoas falecidas. 250

Capítulo XI

Fenômenos de assombramento sem indício de ação dos mortos. – Espíritos turbulentos. – “Poltergeist”. 288

Capítulo XII

Os casos clandestinos 302

Capítulo XIII

Investigação das causas:
Origem e modo de produção dos fenômenos. – O quinto elemento. 304

Epílogo


O desconhecido de ontem é a verdade de amanhã.
O progresso inçado de obstáculos. – Relatório de Lavoisier apresentado à Academia das Ciências, sobre os aerólitos. 337



Prólogo

Espiritualismo e Materialismo


Resposta a Camilo Saint-Saens.

(Artigo publicado na 1ª página de Nova



Revista, em 15 de dezembro de 1900).
Subsistente o desacordo de psiquistas e não psiquistas, nada obstante o progresso das observações mais positivas, parece-me cabível aqui intermitir de preâmbulo esta página já antiga, de vez que ela ressalta, de paralelo, os argumentos das duas correntes opostas. Meu amigo Camilo Saint-Saens acabava de publicar um estudo a favor das faculdades cerebrais e contra a teoria da personalidade da alma. Se compararmos os termos desse artigo com as cartas publicadas em A Morte e seu Mistério (tomos II, pág. 34 e III, pág. 8), veremos que, no século XIX, ainda não caturrávamos. Apesar das divergências de prisma, continuamos amigos, até que ele faleceu em 16 de dezembro de 1921. Todos os que buscam a verdade com espírito despido de preconceitos podem divergir nas idéias, sem quebra de amizade. Esses não conhecem a intolerância. Seja, pois, esse artigo, publicado no último ano do último século, o prólogo deste livro:

“Caro amigo:

Acabo de ler, um pouco tardiamente – pois, como sabe, moro mais no céu que na Terra –, o seu belo e sábio artigo da Nova Revista. Li-o como se escutasse uma das fortes sinfonias de que possui você o segredo, e nas quais rivalizam ciência e arte, para produzir nos espíritas o máximo efeito. Tenho a impressão de que conseguiu enflorar realmente o assunto, deixando-o entrever-se em toda a sua profundeza. Dou-lhe absoluta razão, quando diz que as palavras espiritualismo e materialismo não passam hoje de mero verbalismo, já que a essência das coisas nos fica desconhecida e as recentes descobertas científicas induzem a alicerçar o mundo visível sobre um mundo invisível, que lhe é, por assim dizer, o substrato. Agradeço-lhe o haver assinalado minha modesta excursão nesses domínios do desconhecido, mas venho pedir licença para responder à sua interpretação. Receia o meu amigo que o étimo do vocábulo psíquico tenha exercido qualquer influência no meu pensar. Os fatos expostos em meu livro, ao seu ver, não levam a admitir a existência da alma. Esses fatos que, de resto, aceita como autênticos, apenas demonstrariam que a força que produz o pensamento poderia projetar-se sobre outros cérebros, à distância, sem que daí se infira que essa força seja de natureza espiritual, independente do cérebro.”

Eis o argumento que eu desejaria examinar e dissecar. Se lhe apraz, tomemos e analisemos um fato. Jovem rapariga vai ao meu gabinete, em Paris, e me entrega o seguinte relatório, do qual omito os nomes próprios:

“Ao tempo em que nos entrevistamos pela primeira vez, tinha eu 22 e ele 32 anos. Nossas relações duraram 7 e nós nos amávamos com ternura. Um dia ele me comunicou, pesaroso, que a sua situação, a sua pobreza, etc., forçavam-no a contrair matrimônio. Das suas escusas embaraçosas pareceu-me adivinhar o seu desejo de não interromper nossas relações.

Liquidei, para logo, o penoso assunto e, mal grado o meu enorme desgosto, não mais revi o companheiro. No meu amor único e absoluto, repugnava-me compartilhar com outra as graças do homem a quem tanto amava.

Mais tarde, por linhas travessas, soube que ele se casara e já tinha um filho.

Passaram-se anos e, uma noite, em abril de 1893, vi penetrar na alcova uma forma humana. Estatura elevada, envolto num manto alvo que lhe encobria quase todo o rosto, vi, aterrada, aproximar-se, inclinar-se para o meu leito e colar nos meus os seus lábios. Mas... que lábios! – jamais esquecerei a impressão que me produziam! Não era pressão, nem movimento, nem algo mais que frio... O frio de uma boca morta!

E, contudo, eu experimentei um desafogo, um grande bem-estar enquanto durou esse beijo. Verdade é, também, que, nesse transe, nem o nome nem a imagem do falecido amigo me assomaram à mente. Ao acordar, pouco me preocupei com o caso, até que à tarde, percorrendo o jornal de (...), li o seguinte: “Comunicam-nos de X... que ali se realizaram, ontem, os funerais do Senhor Y...” Enumeradas as qualidades do morto, terminava o artigo dizendo que ele sucumbira de uma infecção tífica, conseqüente a excesso de trabalho no cargo que exercia com esforço e abnegação.. Caro amigo – monologuei – tanto que, liberto das convenções mundanas, vieste dizer-me que era a mim que amavas e continuas amando para além da morte. Também por mim te agradeço e amo-te sempre.

Senhorita Z...”

Eis o fato, tal como se passou. A velha e cômoda hipótese de uma alucinação simples já não nos pode satisfazer. O que se procura explicar é a coincidência da morte com essa aparição. Tão numerosas são as manifestações desse gênero, que não mais as podemos considerar fortuitas. Elas indicam uma relação de causa e efeito. O meu amigo e eu admitimos, livres de quaisquer prejuízos, que a senhorita Z... viu e sentiu a presença do visitante, no momento crítico do seu trespasse. Centenas de episódios idênticos por aí se verificam. Entretanto, divergimos na sua interpretação: enquanto o meu amigo apenas vê um ato cerebral do moribundo, vejo eu um ato psíquico.

(A mim mesmo perguntei se a depoente não teria lido o jornal na véspera do sonho, sem aperceber-se do fato, e se a associação das idéias não se teria condensado no mesmo sonho. Reafirmou que a leitura só fora feita no dia seguinte. Devemos, portanto, suprimir essa hipótese. Houve então, aí, comunicação entre os dois seres.)

Certo, é sempre difícil discernir o que pertence ao espírito, à alma, e o que toca ao cérebro. Em nossas apreciações e julgamentos, deixamo-nos guiar naturalmente pelo sentimento íntimo que resulta da discussão dos fenômenos. Ora, não temos essencialmente aqui uma manifestação do espírito? Duas hipóteses se apresentam. Ou bem, como indica a descrição, o manifestante estava morto, ou estava ainda vivo e, no momento da morte, pensou na depoente, nessa amiga dos bons tempos, e experimentando a seu respeito um arrependimento, talvez um remorso e quem sabe, uma esperança, também no além-túmulo? A comunicação telepática não se teria feito imediatamente, durante as agitações diurnas e se retardaria para as horas de sono e tranqüilidade. Não se trata, bem entendido, de um qualquer fantasma, que se transportou de uma a outra cidade; trata-se de uma transmissão mental, de que as ondas da telegrafia sem fio nos oferecem uma imagem física. A distância de 100 quilômetros, entre as duas cidades, sabemos nós que nada representa. Essa comunicação mental tomou a forma descrita pela narradora. Tal é a impressão que nos fica do exame de todos esses fatos e que, de mais a mais, se evidencia, à medida que avançamos no estudo desses fenômenos. Vejamos, por exemplo, um segundo caso:

“Já casado, fazia meu curso na Universidade de Kiev, quando, certa feita, fui passar o verão no campo, na casa de uma irmã, não longe de Pskow. De regresso por Moscou, minha querida mulher foi ali subitamente assaltada por um ataque gripal e, não obstante a sua mocidade, não pôde resistir. Uma paralisia do coração abateu-a subitamente, como fulminada por um raio.

Não lhe direi da minha dor, do meu desespero. Simplesmente quero submeter à sua competência o seguinte problema, cuja solução assaz me preocupa:

Meu pai residia em Pultava, ignorava a enfermidade da nora, sabendo apenas que nos achávamos em Moscou. Enorme foi, portanto, a sua surpresa ao vê-la a seu lado, como que saindo de casa e acompanhando-o por momentos e logo desaparecendo! Tomado de angústia e espanto, passou-nos imediatamente telegrama pedindo notícias da nora, e isso precisamente no dia em que ela faleceu... Gratíssimo lhe ficaria se me explicasse esse fato extraordinário.

Venceslau Bililowsky
(Estudante de Medicina, Nikolskaja, 21, Kiev).”

Aqui, igualmente, a observação se verificou depois do falecimento.

Ainda nesse exemplo, não temos a impressão de uma origem imaterial, de uma causa moral, mental, a indicar não apenas a existência de faculdades desconhecidas no ser humano, mas também a existência de um ser intelectual, operante? Sim, pois não posso ver, nos fatos dessa ordem, um produto da anatomia, da fisiologia animal, ou da química orgânica.

Examinemos ainda outro exemplo, diferente dos precedentes, posto que pertencendo, como eles, à telepatia: Ouçamos o próprio relator:

“De Perpignan, minha terra natal, parti nos primeiros dias de novembro de 1889, a fim de continuar os estudos de farmacologia em Montpellier. Minha família compunha-se de mãe e quatro irmãs. Deixei-as satisfeitas e de perfeita saúde. A 22 desse mês, minha irmã Helena, bela criatura de 18 anos, a caçula e minha predileta, reunia em nossa casa algumas amiguinhas. Cerca de 3 horas, após o almoço, dirigiram-se todas, minha mãe inclusive, para o passeio dos Plátanos. Fazia um tempo magnífico. Ao fim de meia hora, Helena sentiu-se mal: “Mamãe – disse –, sinto arrepios por todo o corpo, tenho frio, dói a garganta... Vamos para casa.”

À noite seguinte, pelas 5 da manhã, Helena expirava nos braços de minha mãe, vitimada pela angina diftérica, que dois médicos não puderam debelar.

Único varão da família, competindo-me representá-la nos funerais, foram-me passados repetidos telegramas para Montpellier. Entretanto, por uma terrível fatalidade que ainda hoje deploro, nenhum de tais despachos me foi entregue a tempo.

Ora, na noite de 23 para 24, eis que fui vítima de espantosa alucinação. Recolhera-me à casa pelas 2 da madrugada, calmo e satisfeito das emoções recolhidas nos dias 22 e 23, em parte destinadas ao prazer. Deitei-me alegre e logo adormeci. Havia de ser 4 horas, quando a vi surgir diante de mim, pálida, sangrenta, inanimada, e um grito insistente, penetrante, punitivo, feria-me os tímpanos: “Que fazes, meu Luís? Mas vem, vem!”

No meu sonho, nervoso e agitado, tomei um carro, mas, a despeito de esforços sobre-humanos, não conseguia fazê-lo avançar. Via sempre minha irmã, no mesmo estado, a gritar: “Que fazes meu Luís, vem...”

Despertei súbito, face congesta, cabeça em fogo, garganta seca, respiração curta e suando por todos os poros. Saltei da cama e procurei acalmar-me. Uma hora depois, tornei a deitar-me, mas não pude reconciliar o sono. Às 11 da manhã fui à pensão, assomado de indefinível tristeza.

Argüido pelos colegas, contei-lhes tim-tim por tim-tim o que aí passara, não – seja dito – sem ouvir algumas pilhérias. Às 2 dirigi-me para a Faculdade, no intuito de encontrar no estudo algum repouso.

Deixando a aula às 4 horas, vi caminhar ao meu encontro uma mulher alta, trajando rigoroso luto, e logo reconheci minha irmã mais velha a perguntar-me aflito o que fizera de mim. Lacrimosa, comunicou-me a fatal ocorrência, que nada me faria prever, de vez que, ainda na manhã de 22, recebera de casa as melhores notícias.

Entregando-lhe este depoimento, abstenho-me de emitir qualquer opinião a respeito e só me obrigo a garantir, sob palavra de honra, a sua absoluta autenticidade.

Vinte anos são passados e a impressão que o fato me deixou é sempre a mesma, emocional, profunda (sobretudo neste momento), e se os traços fisionômicos de Helena não me aparecem tão nítidos, o seu apelo é sempre o mesmo: plangente, repetido, desesperado: “Que fazes, meu Luís? Vem, vem...”

Luís Noell
Farmacêutico, em Cette.”

Tal a narração do fenômeno psíquico. Se você, meu caro amigo, não admite que o corpo da morta, 23 horas após o falecimento, seja o agente dessa impressão e que haja, no feito, algo que não o organismo material – seja o transporte do espírito de Noell para a morta, durante o sono, seja que uma ação telepática tivesse nela, a morta, o seu ponto de emanação –, encontramo-nos diante de um fato pertinente aos domínios da alma, nunca ao corpo, induzindo-nos a crer que a alma existe pessoalmente e não é um efeito, uma função ou secreção do cérebro. Se você, o artista e pensador que eu conheço, assim não entende, será só por não haver dispensado tempo na ponderação do problema.

Que supor houvesse feito o cérebro dessa moça depois da morte? Toda hipótese material é inverossímil. Poder-se-á supor tenha ela chamado pelo irmão antes de morrer e que a recepção do seu apelo ficasse latente no espírito do irmão, até que um momento de tranqüilidade cerebral lhe permitisse percebê-lo. Poder-se-á supor, igualmente, que o apelo fosse posterior à morte. Tudo está por estudar.

O mais simples seria negar, quero dizer, declarar que o jovem estudante apenas teve um pesadelo, a coincidir com a morte da irmã. Sim, esta é a solução mais simples, mas, pergunto: satisfaz? Satisfará ao meu amigo, máxime quando tenha centenas de atestados da mesma natureza? Satisfará, igualmente, nos casos em que o narrador visse, o que se chamou ver à distância, todos os pormenores de um falecimento, de um suicídio, de um desastre, de um incêndio? Não. Você tem critério assaz científico, e racionalmente severo, para satisfazer-se com a cediça hipótese do acaso e sabe que o cálculo das probabilidades nos prova a sua improcedência.

Que dizer, que julgar então? Nem mais, nem menos, que o problema psíquico está posto. Confessemo-lo sem reticências. Não me encarrego de o explicar, é claro. A ciência ainda vem longe. Admitir é uma coisa, outra coisa é explicar. Os fatos se nos impõem, mesmo que não expliquemos. Passa um homem por uma rua e cai-lhe na cabeça um vaso de flores: ele é forçado a registrar o fato antes de adivinhar-lhe a origem, e como a vertical e a horizontal se cruzaram justo sobre a sua cabeça.

Não, absolutamente. Isso a que chamamos matéria, com as suas propriedades, não basta para explicar esses fatos e eis porque eles são de uma outra ordem, de uma ordem que reivindica todos os direitos à qualificação de psíquica e que induz a admitir a existência de almas, espíritos, seres intelectuais, espirituais, que não são meras funções do cérebro. A transmissão do pensamento, a visão à distância sem auxílio dos olhos e a previsão de acontecimentos futuros não nos dão os mesmos testemunhos?

A transmissão do pensamento não oferece dúvidas, notadamente entre um magnetizador e o seu sujet. Disso poderíamos citar aqui mil exemplos. Eis um, pouco sentimental, certamente, mas bem característico, citado pelo Dr. Bertrand, que é um experimentador dos mais competentes.

“Um magnetizador assaz imbuído de idéias místicas tinha um sonâmbulo que, durante o transe, não via senão anjos e Espíritos de toda espécie, visões que serviam para robustecer cada vez mais a sua crença religiosa. Como citasse de contínuo os sonhos do seu sonâmbulo em apoio do seu credo, outro magnetizador, seu conhecido, se encarregou de o desiludir, demonstrando-lhe que o sonâmbulo não tinha as visões que alegava, senão porque as guardava na própria mente. Propôs, então, para comprovar o seu asserto, que faria com que o sonâmbulo visse reunião de anjos à mesa e comendo um peru. Assim é que adormeceu o sonâmbulo e, depois de algum tempo, perguntou-lhe o que via de extraordinário. “Uma grande reunião de anjos” – foi a resposta. E que fazem eles? “Estão sentados à mesa, comendo...” Não pôde, porém, nomear as iguarias.”

Aí temos um exemplo de sugestão mental, como você bem sabe. A vontade do magnetizador atua silenciosamente sobre o magnetizado. Certo, podemos aqui dizer que se trata da ação de um cérebro sobre outro, mas não lhe parece que o cérebro não passa de instrumento da vontade? Por mim, jamais felicitaria o cérebro por pensar, assim como não felicitaria uma lente astronômica pelo fato de bem focar Saturno. Não lhe parece seja o cérebro órgão do pensamento, tal como os olhos o são da vista? E a visão à distância, em sonho? Não nos coloca em face de um ser espiritual dotado de faculdades especiais? Eis, por exemplo, o que me escreve um marinheiro de Brest:

“Entre 1870 e 74, tinha eu um irmão trabalhando no arsenal de Fou-Tcheou, na China. Certa manhã, recebeu ele a visita de um colega, conterrâneo e amigo, também operário mecânico, que lhe relatou o seguinte: “Estou deveras acabrunhado, pois sonhei esta noite que meu filhinho morrera de crupe, no meio de grandes angústias, deitado num colchão vermelho.” Meu irmão chasqueou da sua credulidade, falou-lhe de pesadelos e, a fim de o distrair, convidou-o para o almoço. Nada conseguiu, porém. O pobre rapaz persistia em considerar o filho morto e bem morto.

Pois bem: na primeira carta, chegada de França, a esposa confirmava o sonho, dizendo que o menino morrera de crupe, após grandes padecimentos e – curiosa circunstância – deitado num colchão vermelho. Assim que recebeu essa carta, foi ele mostrá-la a meu irmão, que, por sua vez, me relatou o fato.”

Não estão os fatos dessa natureza, aliás numerosos, a indicarem a existência no homem de algo mais que o corpo?

Que pensarmos, igualmente, desta visão:

“O general Charpentier de Cossigny, amigo de infância de meu pai, sempre me dispensou muita afeição. Acometido de uma enfermidade nervosa, tinha as suas esquisitices e não nos surpreendia quando, após três ou quatro visitas seguidas, retraia-se por muito tempo. Em novembro de 1892 (havia 3 meses que o não víamos) tive uma forte enxaqueca e fui deitar-me, por isso, muito cedo. Quando começava a adormecer, ouvi chamarem-me pelo nome, em surdina, e logo depois, mais alto. Prestei atenção, julgando fosse meu pai quem chamava, mas logo percebi que ele dormia e ressonava regularmente no quarto vizinho. Procurei adormecer novamente e sonhei que via a escadaria da residência do general, na vila Vaneau nº 7. Ele próprio me apareceu, encostado no gradil do patamar do 1° andar, descendo logo depois para beijar-me a testa. A impressão daqueles lábios frios despertou-me e vi, então, distintamente, no meio do quarto, aliás aclarado pelo combustor da rua, o vulto esguio do general, que se afastava. Não pude mais conciliar o sono, tanto que ouvi dar 11 horas no Liceu Henrique IV e assim vigiei o resto da noite, sentindo na testa a algidez daquele beijo. Pela manhã, disse logo à minha mãe: “Vamos ter notícias do general Cossigny, pois o vi em sonho esta noite...” Minutos a seguir, meu pai lia no jornal o falecimento do seu velho Camarada, conseqüente a uma queda da escada. Nenhum de nós tinha visto aquele jornal.

João Dreuilhe
Rua Boulangers, 36, Paris.”

Como no caso precedente e em todos os análogos, custa não admitir que o espírito veja, à distância. Não é o olho, nem a retina, nem o nervo óptico, nem o cérebro.

Você deveria ter notado, igualmente, o caso do marechal Serrano, contado pela própria mulher dele.

“Havia já um ano que meu marido sofria e via agravar-se a enfermidade que o devia levar. Pressentindo o próximo desenlace, meu sobrinho, general Lopez Dominguez, dirigiu-se ao presidente do ministério, Senhor Canovas, para obter o enterramento numa igreja, como se fazia com os militares dessa patente. O rei encontrava-se na sua Quinta do Prado e recusou o pedido do general, ajuntando, contudo, que prolongaria o seu estágio ali, a fim de que a sua presença em Madrid não impedisse as honras militares a que tinha direito o meu marido. Os sofrimentos deste aumentavam dia a dia, a ponto de já não poder deitar-se, passando as noites numa poltrona. Um dia, pela madrugada, em estado de completo aniquilamento devido ao uso da morfina, ele, que não podia fazer qualquer movimento sem auxílio de terceiros, levantou-se de súbito, ereto e firme, e, num timbre de voz forte, que nunca lhe surpreendi na vida, gritou: “Vamos, depressa, façam montar um oficial! Ao Prado! O rei acaba de morrer!” E retumbou, exausto, na poltrona. Todos nos convencemos que aquilo não passava de um delírio e recorremos aos calmantes. Ele pareceu sossegar, mas, daí a minutos, tornou a erguer-se e, agora, com voz débil, quase sepulcral, disse: “Meu uniforme, a espada... o rei está morto!” Esta a sua última manifestação de inteligência. Depois de recebidos os sacramentos e a bênção do papa, expirou. Afonso XII morreu sem essas consolações.

Essa tremenda visão de um moribundo era verídica. No dia seguinte toda Madrid, atônita, comentava a morte do soberano, quase isolado no Prado. O real cadáver veio para Madrid e por isso não pôde Serrano receber as homenagens que lhe estavam prometidas. É sabido que, estando o rei no seu palácio de Madrid, todas as honras lhe pertencem, ainda mesmo que morto, enquanto ali estiver o corpo. Foi o rei que apareceu a meu marido? Como lhe chegou a notícia do fato distante? É assunto para meditação.

Condessa de Serrano


(Duquesa de La Torre.).”

Temos aqui, pois, um moribundo, duplamente aniquilado pelo uso da morfina, a assinalar um acontecimento imprevisto e de toda a gente ignorado. Como, também nesse caso, repelir a conclusão de que o seu espírito houvesse percebido, de qualquer forma, a ocorrência?

A visão à distância, notadamente em estado sonambúlico e em sonho, está demonstrada por observações tão copiosas, que se torna incontestável. Não sei como lobrigar nela um argumento favorável às hipóteses ditas materialistas, mas ao contrário, argumentos em prol de uma entidade psíquica, dotada de faculdades especiais.

Mas, que dizer dos sonhos premonitórios e da visão exata de acontecimentos posteriores? Com isso é que me parece oportuno coroar esta resposta.

Leia, por exemplo, este sonho banal, ao demais, e que nada tem de preparado pelas teorias filosófico transcendentes.

“Encaminhava-me, no sonho, para o externato e ia atravessando a praça da República, em Paris, com um guardanapo debaixo do braço, quando, justo em frente às lojas do Pobre-Jacques, passou um cão acossado por um bando de garotos. Contei-os exatamente, eram oito. Caixeiros preparavam os mostruários, uma vendedora ambulante passava com o seu carro pejado de frutas e flores. No dia seguinte pela manhã, buscando o colégio, vi o mesmo quadro, no mesmo local e com todos os pormenores sonhados: o cão a correr pela sarjeta, os oito malandrotes a perseguirem-no, a vendedora com a sua carreta em direção à alameda Voltaire e os caixeiros do Pobre-Jacques arrumando as fazendas nas portas.

D. Hannais
Avenida Lagache, 10 (Sena).”

Se admitirmos que o cérebro, órgão físico, seja capaz, com todas as suas secreções, de assim entrever em todas as suas minudências um evento a realizar-se, importa, creio bem, substituirmos, no Instituto, a Academia de Ciências Morais pela de Medicina, ou, mais simplesmente falando, por uma clínica qualquer.

Ver o futuro! Não estamos em pleno psiquismo? Note-se que esses sonhos premonitórios não são raros, ao demais. Tenho citado muitos e conheço muitos mais. Lembra-se do que me contou o pai daquela encantadora pensionista do segundo Teatro Francês?

“Em 1869, por ocasião do plebiscito, tive um sonho, ou melhor, um pesadelo horrível. Via-me fardado, militar, estávamos em guerra. Simples soldado, amargurava todas as exigências do cargo: marchas, fome, sede; ouvia as vozes de comando, a fuzilaria, o canhão; gritos de moribundos e muitos mortos tombados a meu lado. De repente, eis-me num país e numa aldeia onde deveríamos enfrentar terrível ataque do inimigo: Prussianos, Bávaros e cavaleiros (dragões badenses), dos quais nunca vira os uniformes, pois ninguém pensava em guerra. Em dado momento, vi um oficial dos nossos trepar a um forno, munido de umas barras, a fim de observar os movimentos do inimigo; depois, vi-o descer, ordenar o toque de avançar e levar-nos céleres, baionetas caladas, sobre uma bateria prussiana. A essa altura do sonho, travada a luta corpo a corpo com os artilheiros, vi um deles dar-me um golpe de espada na cabeça, tão forte que me abriu o crânio de meio a meio. Foi assim que despertei. Tinha caído da cama e machucado a cabeça no fogareiro.

Esse sonho teve confirmação real no dia 6 de outubro de 1870. Local, escola, a igreja, nosso comandante trepado no forno, o toque de clarim e a investida às baterias prussianas. Aí, pelo sonho, deveria ter fendido a cabeça por um golpe de sabre, e a verdade é que o esperava realmente. Não deixei, contudo, de receber um golpe de lanada (certo, atirado à cabeça, mas aparado a tempo e derivado para a coxa direita).

Régnier
Antigo sargento-mor da Companhia de


franco-atiradores de Neuilly-sur-Seine,
rua Joana Hachette, 23, Havre.”

Poderíamos supor, com Alfredo Maury, que a pancada foi o que originou o sonho, mas essa hipótese nada tem que ver com a premonição.

Objeta-se, às vezes, que os sonhos dessa espécie são posteriormente arranjados, mui sinceramente embora, na imaginação dos narradores. Certo, não será impossível que se produzam modificações da memória; mas a objeção se anula por si mesma se considerarmos a impressão do observador, pois é precisamente essa impressão do já visto, que o tocou. E, depois, há casos em que se torna impossível qualquer modificação, como por exemplo este:

“Sonhei que estava passeando de bicicleta, quando um cão atravessou o caminho e eu caí, quebrando-se o pedal da máquina. De manhã, contei o sonho à minha mulher, que, conhecedora da exatidão dos meus sonhos, concitou-me a não sair de casa. Resolvi satisfazê-la, mas, às 11 horas, justamente quando nos sentávamos à mesa do almoço, chegou o estafeta trazendo uma carta com a notícia de haver adoecido minha irmã, que morava distante de nós 8 quilômetros. Esquecendo o sonho, apressei o almoço e montei a bicicleta. Fiz o percurso normalmente até ao ponto em que me vira em sonho, na noite antecedente. Mal se me desenhava na mente o quadro onírico e eis que surgiu, de uma granja, um canzarrão tentando abocanhar-me a perna. Sem refletir, quis dar-lhe uma ponta-pé; desequilibrei-me e caí com a máquina, quebrando-se-lhe o pedal.

Realizava-se, assim, o sonho com todos os pormenores. Notai, peço-vos, que era a centésima vez, no mínimo, que eu fazia aquele trajeto, sem que houvesse ocorrido qualquer acidente.

Amadeu Basset


Tabelião em Vitrac (Charente).”

E mais este:

“Em 1868, contava eu 17 anos e estava como empregado de um tio, estabelecido com mercearia na rua de S. Roque, 32. Certa manhã, impressionado com o sonho que tivera, contou-me ele que se vira à soleira da porta e, dirigindo o olhar para a rua dos Campinhos, viu aproximar-se um ônibus da E. de Ferro do Norte, que parou em frente ao seu armazém. Desse ônibus desceu sua genitora e o veículo seguiu o itinerário, levando sua avó e uma outra senhora vestida de preto, com uma cesta ao colo. Ambos nos rimos daquele sonho tão fora de termo, visto que minha avó jamais se atrevera a vir sozinha da Estação do Norte à rua de São Roque. Residindo perto de Beauvais, sempre que desejava passar algum tempo com os filhos, em Paris, ela escrevia de preferência a meu tio, a fim de esperá-la na Estação e conduzi-la invariavelmente de carruagem.

Ora, naquele mesmo dia, à tarde, estando meu tio à porta, aconteceu que, olhando casualmente para a esquina da rua dos Campinhos, viu desembocar um ônibus da E. de Ferro do Norte, vindo parar à porta da loja. Havia no dito ônibus duas mulheres e uma delas era justamente minha avó. Esta desceu e o ônibus seguiu levando a outra dama, tal qual a entrevista no sonho, isto é, vestida de preto e com uma cesta ao colo. Calcule-se a estupefação geral! Minha avó acreditando fazer-nos uma surpresa e meu tio contando-lhe o sonho!

Paulo Leroux
Neuborg (Eure).”

Restrinjo-me a esses testemunhos, já que, no fim das contas, é só querer e recolher a mancheias quantos desejemos. As ciências mais exatas, mais positivas, não se estabeleceram senão mercê do raciocínio humano e a própria astronomia – rainha das ciências – baseia-se na teoria da gravitação, da qual dizia Newton, seu fundador, que: As coisas se passam como se os corpos celestes se atraíssem na razão direta das massas, e inversa do quadrado das distâncias. Pois bem: diante dos exemplos de visão espiritual, à distância, sem auxílio dos órgãos corporais; diante do fato, ainda mais misterioso e incompreensível, do futuro entrevisto com precisão, digo por minha vez: as coisas se passam como se no organismo humano houvesse um ser psíquico, espiritual, dotado de faculdades de percepção ainda desconhecidas. Esse ser, essa alma, esse espírito, opera e percebe pelo cérebro, mas não é função material de um órgão material. Eis aí, parecem-me, conclusões lógicas, estabelecidas sobre um método escrupuloso, inatacável. Elas afiguram-se-me superiores às negações, tanto quanto às afirmações desacompanhadas de provas e baseadas numa fé cega. A fé, os pretensos milagres, o próprio martírio, nada provaram jamais, pois têm servido a todas as causas políticas ou religiosas mais díspares, antagônicas e até absurdas, às vezes. Só a ciência pode, verdadeiramente, esclarecer a Humanidade.

Camille Flammarion.

*

Esse o estudo que publiquei no último ano do passado século. Como já o disse, meu amigo Saint-Saens não guardou ressentimento dessa minha oposição ao seu sistema e, muito pelo contrário, nossas relações se tornaram mais íntimas. Contudo, ele não ignorava a existência dos fenômenos psíquicos, como se evidencia nesta carta de julho de 1921:

“Relendo pela nona vez teu último livro 1 ocorreu-me uma reminiscência que te quero contar hoje mesmo.

Foi em janeiro de 1871, no último dia da guerra. Estava eu num posto da vanguarda, em Arcueil-Cachan, e acabávamos de jantar. Aquele repasto reconfortara-nos a todos e estávamos até alegres, mais do que o permitiam as circunstâncias. Súbito, sinto timbrar-me no cérebro o musical queixume de acordes dolorosos, dos quais fiz, mais tarde, o prelúdio do meu Requiem, ao mesmo tempo em que me assaltava o pressentimento de uma desgraça. Fiquei profundamente acabrunhado. Depois, soube que naquele momento exato morria Henrique Regnault, a quem me ligava a mais profunda amizade. A notícia de sua morte causou-me tal impressão que me levou ao leito por três dias. Tive, assim, como vê, uma prova real da telepatia, antes que o vocábulo se inventasse. Razão tem tu em pensar que a ciência clássica ignora o ser humano e que todos temos o que aprender.

Camilo Saint-Saens.”

Aqui, cabe apenas repetir o que já havíamos replicado ao ilustre amigo:

“És o mais inspirado dos compositores, glória do Instituto, pensador contemporâneo dos mais profundos, mas não és lógico.

E achava-o ilógico tanto mais quanto, por outro lado, me havia ele assinalado observações pessoais bastante característicos, que publiquei no tomo II de A Morte e o seu Mistério (págs. 35-36).

Não é o espírito o que estará em jogo nessas manifestações? Como considerar as propriedades da matéria? Ora, os meus leitores sabem que esses casos psíquicos são assaz freqüentes para que possamos atribuí-los a coincidências fortuitas. O cálculo das probabilidades comprova-lhe matematicamente a realidade.

A mim me pareceu que essa revocação ao passado, com a permuta de idéias entre dois investigadores independentes, tinha cabimento como prólogo deste atual estudo.

Direi, ainda, que o próprio Saint-Saens deu, de si mesmo, um exemplo pessoal da independência da alma em relação ao corpo. Ele faleceu na idade de 86 anos, aos 16 de dezembro de 1921. Ainda no dia 16 de outubro, jantara em Juvisy e todos ficaram encantados com a sua conversação. Espírito ágil, como se tivesse 20 anos, queixava-se, todavia, da sua fraqueza orgânica e mal pôde escalar a cúpula para observar Vênus e Arcturo, na companhia dos nossos colegas da Sociedade Astronômica, quais o príncipe Bonaparte, os condes de Gramont e de Baume Pluvinel e outros. Ele queixava-se das pernas. Nessa mesma ocasião, a 21 de outubro, O Menestrel publicou-lhe um artigo fulgurante a respeito de Berlioz, Via-se, assim, que, enquanto o corpo deperecia, o espírito mantinha-se na plenitude do seu vigor. Esse contraste, entre o organismo físico e o elemento espiritual, não é raro.”

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