Camille flammarion deus na natureza



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CAMILLE FLAMMARION


DEUS NA NATUREZA





ÍNDICE


Introdução
PRIMEIRA PARTE - A Força e a Matéria

CAPÍTULO 1 = POSIÇÃO DO PROBLEMA

CAPÍTULO 2 = O CÉU

CAPÍTULO 3 = A TERRA
SEGUNDA PARTE - A Vida

CAPÍTULO 1 = CIRCULAÇÃO DA MATÉRIA

CAPÍTULO 2 = A ORIGEM DOS SERES
TERCEIRA PARTE - A Alma

CAPÍTULO 1 = O CÉREBRO

CAPÍTULO 2 = A PERSONALIDADE HUMANA

CAPÍTULO 3 = A VONTADE DO HOMEM
QUARTA PARTE - Destino dos seres e das coisas

CAPÍTULO 1 = PLANO DA NATUREZA — CONSTRUÇÃO DOS SERES VIVOS

CAPÍTULO 2 = PLANO DA NATUREZA — INSTINTO E INTELIGÊNCIA
QUINTA PARTE - Deus

CAPÍTULO 1 = DEUS

Introdução


Destina-se esta obra a representar o estado atual dos nossos conhecimentos precisos, sobre a Natureza e o homem.

A exposição dos últimos resultados a que atin­giu a inteligência humana no estudo da Criação é, ao nosso ver, a verdadeira base sobre a qual se há-de fundar doravante toda a convicção filosó­fica e religiosa. Em nome das leis da razão, tão solidamente justificadas pelo progresso contemporâneo e por força dos inelutáveis princípios cons­tituintes da lógica e do método, pareceu-nos que só através das ciências positivas deveremos pros­seguir na pesquisa da verdade.

Se temos, de fato, a ambição de chegar pes­soalmente à solução do maior dos problemas; se estamos sôfregos de atingir, por nós mesmos, uma crença na qual encontremos repouso e pábulo de vida; se nos anima, ao demais, o legítimo desejo de transmitir ao próximo a consolação que já en­contramos; — não temamos nunca afirmá-lo ser na ciência experimental que devemos procu­rar os elementos de cognição, só com ela devendo marchar.

O cepticismo e a dúvida universal imperam no âmago de nossa alma e nosso olhar escrutador, que nenhuma ilusão fascina, vigila na cripta dos nossos pensamentos. Não nos despraz que assim seja. Não lastimemos que Deus não nos houvesse tudo revelado ao criar-nos, dando-nos contudo o direito de discutir. Essa prerrogativa do nosso ser é ótima em si mesma, como condição maior de pro­gresso. Mas, se o cepticismo nos atalaia vigilante, também a necessidade de crença nos atrai.

Pode­mos duvidar, certo, sem por isso nos isentarmos do insaciável desejo de conhecer e saber. Uma crença torna-se-nos imprescindível. Os espíritos que se vangloriam de não a possuírem são os mais ameaçados de cair na superstição ou de anular-se na indiferença.

O homem tem, por natureza, uma necessidade tão imperiosa de firmar-se numa convicção —, par­ticularmente quanto à existência de um coordena­dor do mundo e da destinação dos seres — que, quando não encontra uma fé satisfatória, experi­menta a necessidade de se demonstrar a si mesmo que esse Deus não existe e busca, então, repousar o espírito no ateísmo e no niilismo.

Diga-se, também, já não ser a questão que ora nos apaixona, a de sabermos qual a forma do Criador, o caráter da mediação, a influência da graça, nem discutir, tão-pouco, o valor de argumentos teológicos. A verdadeira questão é saber se Deus existe, ou não.

Note-se que, em geral, a negativa é patroci­nada pelos experimentalistas da ciência positiva, enquanto a afirmativa se ampara nos indivíduos estranhos ao movimento científico.

Qualquer observador atento pode, ao presente, apreciar no mundo pensante duas tendências dia­metralmente Opostas.

De um lado, químicos ocupados em tratar e triturar, nos seus laboratórios, os fatos materiais da ciência moderna, por lhes extrair a essência e quinta-essência, a declararem que a presença de Deus jamais se manifesta em suas manipulações.

Doutro lado, teólogos acocorados entre poei­rentos manuscritos de bibliotecas góticas compulsando, folheando, interrogando, traduzindo, compi­lando, citando e recitando versículos dogmáticos, e declarando com o anjo Rafael, que, da pupila esquerda à pupila direita do Padre-Eterno medeiam trinta mil léguas de um milhão de varas, cada qual equivalente a quatro e meia vezes o comprimento da mão.

Queremos crer que de ambos os lados haja boa fé, que os segundos, como os primeiros, este­jam animados do propósito de conhecer a verdade. Pretendem os primeiros representar a Filosofia do século 20, enquanto os segundos guardam, respei­tosos, a do século 15. Os primeiros, passam por Deus sem O ver, como o aeronauta que sulca o espaço celeste, enquanto os segundos focalizam um prisma que retrai a imagem, colorindo-a.

O observador imparcial e independente que pro­cura explicar-lhes suas tendências contrárias, adimi­ra-se de os ver obstinados no seu sistema particular e pergunta a si mesmo se será verdadeiramente impossível interrogar, de um modo direto, este vas­to Universo e chegar a ver Deus na Natureza.

Por nós, isento de qualquer sectarismo, sen­timo-nos à vontade em eqüacionar o problema. Diante do panorama da vida terrestre; no âmbito da Natureza radiosa à luz do Sol, beirando mares bravios ou fontes inúrmuras; entre paisagens de Outono ou florações de Abril; tanto quanto no silêncio das noites estreladas, temos procurado Deus. A Natureza, interpretada com a Ciência, foi quem nô-lo demonstrou num caráter particular. De fato, Ele está nela, visível, como a força íntima de todas as coisas. Temos considerado na Natureza as re­lações harmônicas que constituem a beleza real do mundo, e, na estética das coisas, encontrámos a manifestação gloriosa do pensamento supremo.

Nenhuma poesia humana se nos figurou com­parável à verdade natural, e o Verbo eterno nos falou com mais eloquência nas mais modestas obras da Natureza, do que o pudera fazer o homem com seus cantos mais pomposos.

Seja qual for a oportunidade dos estudos que este trabalho objetiva, não esperamos agradar a toda a gente, certo de haver muitos incapazes de acordar do seu sono, e outros tantos a quem longe estamos de lhes corresponder aos pendores.

Acusa-se de indiferentismo a nossa época. A acusação é merecida. Onde estão, com efeito, os corações palpitantes de puro amor à verdade? Em que alma — perguntamos — ainda reina a fé? Não diremos, já, a fé cristã, mas uma crença sin­cera, seja no que for. Onde se vão os tempos em que as forças da Natureza, divinizadas, recebiam homenagens universais?

Tempos nos quais o homem, contemplativo e deslumbrado, saudava com fervor a potência eterna e manifesta na Criação?

Que é feito daqueles tempos em que os homens eram capazes de derramar o sangue por um prin­cípio, quando as repúblicas tinham à sua testa um ideal e não um ambicioso?

Quem se lembra dos tempos em que o gênio de um povo, esculpido em Notre Dame, ou em São Pedro de Roma, ajoelhava-se e pedia, conchegado aos seus muros de pedra?

Que é feito da virtude patriótica dos nossos antepassados abrindo as portas do Panteão para acolher as cinzas dos heróis do pensamento, e re­legando à noite do olvido a falsa glória da ociosidade e das almas?

Não coremos de o confessar, já que temos a franqueza de suportar um tal aviltamento: saturados de egoísmo, nossa alma não alimenta outra ambição que a do interesse pessoal.

Riqueza cuja origem permanece equívoca, louros surpreendidos, antes que conquistados, uma doce quietação, uma profunda indiferença pelos princípios, quem não verá nisso o nosso galardão? A parte, contudo, fora do mundanismo empolgante e rumoroso, vivem os que não se conformam em baixar a fronte dian­te da hipocrisia. Esses, trabalham na solidão e esquadrinham em silenciosa meditação os abismos da Filosofia e, se se mantêm fortes, é porque não se atrofiam ao contacto das sombras. Na verdade, é um contraste penoso de assinalar, quando vemos que o progresso magnífico, sem precedentes, das ciências positivas; que a conquista sucessiva do homem sobre a Natureza, ao mesmo tempo que tão alto nos elevaram a inteligência, deixaram res­valar o sentimento a níveis tão baixos. Doloroso, sentir que, enquanto por um lado a inteligência mais demonstra a sua capacidade, extingue-se por outro lado o sentimento, e a vida íntima da alma mais se embota na geena da carne.

A causa da nossa decadência social (passageira, de vez que a História não pode mentir a si mesma) deve-se à nossa falta de fé. A primeira hora deste nosso século marcou o derradeiro alen­to da religião de nossos pais. Baldos serão quais­quer esforços de restauração e reconstrução. Tudo o que se fizer não passará de simulacro, pois o que está morto não pode ressurgir. O sopro de uma revolução imensa passou sobre as nossas ca­beças deitando por terra nossas velhas crenças, mas, entretanto, fecundando um mundo novo.

Estamos, ao presente, atravessando a fase crí­tica que precede a toda renovação. O mundo pro­gride. É em vão que homens políticos e homens eclesiásticos imaginam, cada qual do seu lado, pros­seguir na representação do passado, num proscênio em ruínas. Impossível impedir que o progresso nos conduza a todos para uma fé superior, que ainda não possuímos, mas para a qual já caminhamos. E essa fé, não será outra que a convicção cientí­fica da existência de Deus; numa escalada à ver­dade pelo estudo da Criação.

É preciso ser cego, ou ter interesse em ilu­dir-se a si e aos outros (quantos neste caso se encontram!), para não ver e não ajuizar a nossa atualidade pensante. Foi por ter a superstição matado o culto religioso, que nós o menosprezámos e abandonámos. E foi porque as características do verdadeiro se nos revelaram mais claramente, que a nossa alma aspira a um culto mais puro. E não foi senão por se haverem afirmado diante de nós os imperativos da justiça, que hoje reprovamos institutos bárbaros, tais como a guerra, que, ainda recentemente, recebia a homenagem dos homens. É, enfim, porque o pensamento rompeu os grilhões que o prendiam à gleba, que não mais admitimos, de boamente, quaisquer tentativas que nos aproximem de qualquer espécie de servilismo. Nada obstante, há em tudo, e sempre, um progresso. Na incerteza, porem, em que ainda permanecemos, en­tre as perturbações que nos agitam, a maior parte dos homens, ao perceberem que as suas impres­sões e tendências esbarram fatalmente na inércia do passado, ou se afastam silenciosos se lhes so­bra força e coragem de o fazerem, ou se deixam arrastar na corrente geral, pela atração vigorosa da fortuna. É nas épocas críticas que as lutas se intensificam, intermitentes, sobre os eternos problemas cuja forma varia à feição dos tempos, a revestirem-se de um aspecto característico.

Nesta nossa época de observação e experimentação, os materialistas procuram apoiar-se em trabalhos cien­tíficos, e pretendem deduzir da ciência positiva o seu sistema.

Os espiritualistas, em geral, acredi­tam, ao invés, poderem pairar acima da esfera experimental e assomar aos píncaros da razão pura. Ao nosso ver, o espiritualismo para triunfar deve medir-se com o adversário no mesmo terreno e com as mesmas armas deste. Ele não perderá nada do seu caráter, condescendendo em baixar à arena, e nada terá a recear nessa justa com a ciência experimental.

As lutas empenhadas e os erros a combater, longe estão de se tornarem perigosos para a causa da verdade. Com o exigirem um exame mais rigo­roso das questões versadas, essas lutas nos ense­jam a preparação de uma vitória mais completa.

A Ciência não é materialista, nem pode servir ao erro. Como, e porque, pois, haveriam de temê-la o espiritualismo e a verdadeira religião? Duas ver­dades não se podem opor a uma terceira.

Se Deus existe, sua existência não poderia ser suspeitada nem combatida pela Ciência.

Para nós, temos a convicção íntima de que, muito pelo contrário, no estabelecimento de conhe­cimentos exatos sobre a construção do Universo, sobre a vida e o pensamento, propicia-se atual­mente o único método eficiente ao aclaramento do problema. Só assim poderemos saber se devemos admitir a soberania da matéria universal, ou se importa reconhecer uma inteligência organizadora, um plano e um destino imanentes.

Tal, pelo menos, a forma por que o debate se nos apresenta e impõe à mente, neste nosso trabalho.

Esperamos que esta tentativa de versar a exis­tência de Deus pelo método experimental aproveite ao progresso de nossa época, por estar de acordo com as suas tendências características.

Ficaremos satisfeito se a leitura deste livro deixar cair uma fagulha luminosa nos espíritos indecisos. Mais, ainda, se depois de haver meditado fundo estes nossos estudos, alguma fronte se le­vantar cônscia de sua legítima dignidade.

Se, regra geral, os ideólogos franceses não têm aplicado o método científico aos problemas da filosofia natural, em compensação alguns sábios tra­taram o assunto do ponto de vista das relações gerais manifestadas no mundo, e que lhe consti­tuem a unidade viva. Com prazer assinalamos, en­tre as obras deste gênero, os diversos trabalhos do Sr. A. Langel, aqui mesmo utilizados várias vezes.

Problemas da Natureza e problemas da vida não conduzem eles, efetivamente, ao máximo problema? Examinar as forças ativas no organismo universal, não será o mesmo que examinar as diversas mo­dalidades da força essencial e original?

As investigações que focalizam o estudo da Natureza podem aproveitar à Filosofia com maior segurança, às vezes, do que os tratados ou os diti­rambos especialmente consagrados à Metafísica. Os próprios escritos dos senhores Moleschott e Büchner nos ofereceram elementos de refutação.

A circulação da vida, qual a expõe o primeiro, mostra na vida uma força independente e trans­missível, dirigindo os átomos, mediante leis deter­minadas e conforme o tipo das espécies. O exame da Força e da Matéria estabelece, por outro lado, a soberania da Força e a inércia da Matéria.

Sendo a Força e a extensão os primeiros princí­pios do conhecimento, e sendo a Filosofia a ciência dos princípios, poderia esta obra ser considerada antes como um estudo filosófico, se não houvéssemos resolvido limitar-nos a uma discussão pura­mente científica. Este, efetivamente, o seu fim precípuo e que, por bem dizer, oferece mais atrativos, mau grado à aridez aparente do trabalho.

Pensamos que o único meio eficaz de combater o negativismo contemporâneo é voltar contra ele o materialismo científico e utilizar as suas próprias armas para derrotá-lo.

Esse discrime compete antes à Ciência que àFilosofia.

A Ideologia, a Metafísica, a Teologia, mesmo a Psicologia, dele se afastaram quanto possível.

Nós não razoamos com palavras, mas com fatos.

As verdades significativas da Astronomia da Física e da Química, como da Fisiologia, são, de si mesmas, as defensoras intrépidas da realidade essencial do mundo.

Por mais difícil que à primeira vista pareça a refutação científica do Materialismo contemporâneo, nossa posição é belíssima, desde que nos colo­camos no mesmo plano dos nossos adversários.

E nesta guerra eminentemente pacífica, estamos de

antemão seguros da vitória.

Basta-nos, com efeito, de vez que o inimigo está em falsa posição, descobrir a fraqueza dessa posição e desequilibrá-lo.

O método é simples e infalível, tão seguro que não o escondemos: deslocado o centro de gravida­de, sabe qualquer mecânico que o individuo colhido de surpresa cai, imediatamente, a procurá-lo no solo. Eis o quadro que se nos vai deparar. Críticos houve que pretenderam ver em nosso método laivos de sorriso e um tanto de ironia.

Não podemos ser juiz em causa própria, mas, ainda que a acusação tivesse fundamento, não nos caberia culpa alguma e sim, e só, aos acontecimen­tos, nos quais o grotesco teria momentaneamente empanado o sério, graças aos adversários tantas vezes arrastados ás consequências mais curiosas.

Referindo-nos à forma, devemos pedir ao leitor acredite, que, se por acaso tratarmos mais asperamente um que outro adversário, não é a nós que a falta deve ser imputada, visto não utilizarmos esses recursos extremos senão nos casos (muito frequentes talvez para eles) em que os adversários se obstinam em não se deixarem vencer. Somos, então, bem a nosso pesar, levados a feri-los com uma tática mais rude, forçando-os a convir, pelos argumentos irresistíveis do mais forte, que são eles de fato os mais fracos nesta guerra de princípios.

De resto, não há necessidade de acrescentar que são sempre esses princípios que atacamos, e nunca a personalidade dos que os advogam. Assim, considerando-se a índole mesma da questão, exclusas ficam as pessoas do campo de batalha.

Além disso, em consciência, não acreditamos pratiquem os adversários o materialismo absoluto — o dos seus interesses e das paixões egoístas e, portanto, não temos outra intenção que discutir as suas teorias.

Dividiremos nossa argumentação geral em cin­co partes, no intuito de demonstrar em cada uma a proposição diametralmente contrária à sustentada pelos eminentes advogados do ateísmo.

Assim, na primeira, lidaremos por estabelecer, preliminarmente, pelo movimento dos astros e depois pela observação do mundo inorgânico terrestre, que a Força não é atributo da Matéria, mas, ao contrário, a sua soberana, a sua causa diretora.

Na segunda parte, verificaremos, pelo estudo fisio­lógico dos seres, que a vida não é propriedade for­tuita das moléculas que a compõem e sim uma força especial a governar átomos, conforme o tipo das espécies. O estudo da origem e progressão das espécies também aproveitará à nossa doutrina.

Na terceira parte observaremos, examinando as rela­ções do pensamento com o cérebro, que há no ho­mem algo mais que a matéria, e que as faculdades intelectuais distinguem-se das afinidades químicas. A personalidade da alma afirmará o seu caráter e a sua independência.

A quarta evidenciará em a Natureza um plano, uma destinação geral e particular, um sistema de combinações inteligentes, no seio das quais o olhar desprevenido não pode dei­xar de admirar, mediante sadia concepção das cau­sas finais, o poder, a sabedoria e a previdência que coordenam o Universo.

A quinta parte, enfim, como centro de conver­gência das vias precedentes, nos colocará na posi­ção científica mais favorável para julgar simultaneamente a misteriosa grandeza do Ente Supremo e a cegueira inconteste dos que fecham os olhos para se convencerem de que Ele não existe.

O verdadeiro título desta obra deveria ser: — “A contemplação de Deus através da Natureza”.

Há alguns anos que se anuncia, como estando no prelo, este trabalho, e nós lhe temos modificado várias vezes o título, que, de início era puramente científico. (Da Força, no Universo.)

Acabamos, finalmente, por nos fixarmos neste. Sem dúvida, um título não tem essencial importância para que o autor se explique tão formalmente a respeito.

Mas, no caso vertente, julgamos útil declarar desde logo que todos quantos vissem nas quatro palavras da capa a expressão de uma doutrina, errariam completamente. Aqui não há panteísmo, nem dogma. Nosso objetivo é expor uma filosofia positiva das ciências, que, em si mesma, comporta uma refutação não teológica do materialismo con­temporâneo. É, talvez, imprudentíssima ousadia o tentar assim uma senda isolada, entre os dois ex­tremos, que sempre aliciaram poderosos sufrágios; mas, de vez que nos sentimos impelidos e susten­tados por uma convicção particular, tanto quanto por ardente amor a um novo aspecto da verdade, podemos, porventura, resistir ao impulso interior que nos inspira?

Ao leitor compete examinar a obra e decidir se alguma ilusão nos seduz e se nos oculta, sob o prestigio da verdade.

Não podemos, todavia, eximir-nos de confessar que, desde que lemos em Augusto Comte que a Ciên­cia aposentara o Pai da Natureza e acabava de »re­conduzir Deus às suas fronteiras, agradecendo os seus serviços provisórios” — sentimo-nos algo ofen­didos com a vaidade do deus-Comte, e nos deixamos empolgar pelo prazer de discutir o fundo científico de semelhante pretensão.

Verificamos, então, que o ateísmo científico éum erro e que a ilusão religiosa é outro erro. (De passagem digamos, o Cristianismo nos parece ainda esotérico.) Nossos atuais conhecimentos da Natu­reza e da vida nos representaram a idéia de Deus sob um prisma cujo valor a teodiceia, como o ateís­mo, não podem menosprezar.

Aos nossos olhos, o homem que nega simples­mente a existência de Deus e o que definiu esse Desconhecido e lhe debita em conta a explicação embaraçante, são ambos criaturas ingênuas, equi­valentes na erronia.

Mas, também não compete nos engajarmos aqui assim no método antinômico, e, sobretudo, não que­remos revestir-nos de aparências misteriosas.

Entremos, portanto, sem mais detença no âma­go do assunto, declarando que nos esforçamos por explanar com a mais sincera independência o que acreditamos ser a verdade.

Possam estes estudos ajudar a escalada, na trilha do conhecimento, a quantos tomam a sério a sua passagem pela Terra e o progresso da Hu­manidade.
Paris, Maio 1867.

PRIMEIRA PARTE
A Força e a Matéria

1

POSIÇÃO DO PROBLEMA

SUMÁRIO — Papel da Ciência na sociedade moderna. — Sua potência e grandeza. — Seus limites e tendências a ultrapassá-los. — As ciências não podem dar ne­nhuma definição de Deus. — Processo geral do ateísmo contemporâneo. — Objeções à existência divina, infe­ridas da imutabilidade das leis e da íntima União entre a força e a matéria. — Ilusão dos que afirmam OU negam. — Erros de raciocínio. — A questão geral resu­me-se em estabelecer as relações recíprocas da força e da substância.
O século que vivemos está desde já inscrito com caracteres indeléveis nas páginas da História. A partir dos mais remotos tempos, das velhas civilizações, nenhuma época viu, qual a nossa, esse magnífico despertar do espírito humano, para simultaneamente afirmar os seus direitos e a sua força. O mundo já não é o vale de lágrimas me­dieval, onde a alma vinha expiar a falta do primitivo pai e, confundindo-se no isolamento e na oração, acreditava conquistar um lugar no paraíso, ciliciando o corpo e cobrindo-se de cinzas.

Os frutos da inteligência já não atestam as longas, abstrusas e infindáveis discussões de esté­ril metafísica, construí das de palitos e escoradas em sutilezas escolásticas, a que se entregaram cegamente poderosos gênios, consagrando-lhes uma preciosa vida de estudos e despercebidos de assim perderem não apenas o seu tempo, mas o de algu­mas gerações.

Lá, onde em murados claustros se concentra­vam monjes e oratórios, ouve-se agora o ruido das máquinas, o ranger das engrenagens e o silvo do vapor das caldeiras combustas.

Se as instituições monásticas tiveram o seu papel no período das invasões bárbaras, nem por isso deixou de soar a sua hora extrema, como su­cede a todas as coisas perecíveis: o trabalho fecundo do operário e do agricultor substitui a deca­dência senil pela juvenilidade operosa e fecunda.
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