Camilo Castelo Branco a filha do doutor negro



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Camilo Castelo Branco


A filha do doutor negro





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Prefácio
Eu era estudante na Academia do Porto em 1845.

Em uma das férias pequenas do ano, indo eu despedir-me de um cavalheiro, meu patrício, de volta para o Porto, disse-me ele:

- Vou encarregá-lo de uma comissão. Tome o senhor estas quatro peças. Vá ao topo da Calçada do Mirante. Se lá encontrar ainda uma mendiga, pergunte-lhe se conheceu um homem chamado António da Silveira. Respondendo ela que me conheceu, e provando-o com alguns sinais, que o senhor facilmente colherá, entregue-lhe este dinheiro. E se o senhor, uma ou outra vez, sentir o desejo de abster-se de algum passageiro passatempo, e empregar, em favor de pessoa desvalida, o dinheiro, que tal recreio lhe havia de custar, vá depor, no regaço da pobre da Calçada do Mirante, a sua esmola. Verá que sensação doce e consolativa Deus lhe dá em retorno da sua beneficência; verá, meu amigo... Quando o senhor voltar a férias grandes, eu lhe contarei pelo miúdo quem foi a mulher. Careço de recopilar as minhas reminiscências.

É este um lavor melancólico de que fogem os velhos, cuja mocidade foi desaproveitada ou desastrosa. O tempo mal-baratado chora-se na vizinhança da sepultura; e as afeições perigosas, que lá se nos engolfaram na voragem das alegrias, parece que renascem com a formosura sinistra que tiveram nos últimos anos, quando mais desvanecidas deviam de estar na memória. Assim mesmo, há saudade ainda no recordar tristezas, que eram o escuro do quadro de mil cores da infância. Forsan et haec olim meminisse juvabit. Vá, pois - concluiu António da Silveira, disfarçando as lágrimas -, e volte a contar-me que romances lhe sugeriu a visão dessa mulher andrajosa, para a qual a própria caridade olharia sem interesse, enquanto eu lha estou apresentando entre umas névoas misteriosas, que parecem esconder alguma princesa incógnita, assim à semelhança das ilustres penitentes da Idade Média. Escreva-me do Porto a dizer-me se a pobre do Mirante ainda vive.

- E, se eu a não encontrar - atalhei -, quem me há-de dizer que ela morreu?

- É sensata a pergunta... Deixe-me ficar pensando na resposta alguns dias, que não sei responder-lhe agora. Entretanto, escreva-me.

No mesmo dia em que cheguei ao Porto, fui ao local indicado por António da Silveira.

Vi uma mendiga sentada na rua, e encostada ao muro do jardim do sr. Braga. À beira dela, enroscado sobre parte do capote da pedinte, dormia um cão de água, cuja brancura e limpeza contrastava com os remendos sobre que se deitara.

A pobre representava cinquenta e tantos anos. Como o vento de Janeiro era cortante, e a noite vinha já desdobrando, não pude ver-lhe bem o rosto que ela resguardava com a gola do capote. Ao ver-me parado à distância de dois passos, estendeu-me ela a mão aberta, sem proferir as palavras costumadas da súplica.

Aproximando-me, disse-lhe:

- Vossemecê conheceu António da Silveira?

A mendiga levantou o rosto de golpe, encarou-me, e disse:

- Já está com Deus?

- Vive, e está bom - respondi.

- Bendito seja o Senhor! - tornou ela Há quatro anos que não tive novas dele...

- Creio que é vossemecê a pessoa a quem ele manda entregar este dinheiro...

- Devo ser eu, que já recebi outras esmolas da sua caridosa mão.

- São quatro peças que lhe entrego por ordem do sr. António da Silveira.

A pobre beijou o embrulho e conservou-o entre as mãos erguidas, enquanto orou.

Depois, levantou-se, tomou nos braços o cãozinho, que tiritava, e disse-me:

- Faça-me a esmola de dizer ao, sr. Silveira que a desgraçada Albertina fica pedindo, a Deus saúde e contentamento para o seu benfeitor.

Perguntei-lhe onde morava.

- Tenho a minha enxerga num baixo aí da Rua da Sovela - respondeu Albertina -; mas, se Nosso Senhor me ajudar, amanhã, com este benefício do sr. Silveira, irei meter-me na Ordem de S. Francisco, e de lá irei dar contas a Deus.

Avisei do sucedido o meu amigo, e ele reiterou a promessa de me entreter uma tarde com a história da mendiga do Mirante.

Fiquei eu imaginando o que viria a ser a história desta mulher. Já naquele tempo me andava o cérebro, o coração, ou o espírito - não sei bem o que era - a fermentar a massa de volumes que saíram depois mal levedados, alguns azedos, outros insípidos, e Deus sabe se outros hão-de sair piores na substância e no feitio. O certo é que eu, em 1845, há quase vinte anos, bem que nem sequer entressonhasse o céu e o inferno de escritor, já me empenhava em tecer enredos de romances, enquanto os meus lentes de química e botânica se desvelavam em me fazer compreender que há ácidos e óxidos, e que há vegetais monocotiledóneos, e vegetais andróginos: cousas de que eu sinceramente não duvido nem sei nada.

O entrecho de novela, que eu fantasiava por conta da maltrapida Albertina, era injurioso à pobre mulher. Queria a minha derrancada imaginação que ela tivesse descido as escaleiras de unia vida precipitosa até se atolar no esterquilínio donde saíra para se assentar nas lájeas das ruas, estendendo a mão à caridade dos transeuntes. Ora, como já então estavam escritos aqueles muito sabidos versos de Victor Hugo, que dizem:



Oh! n'insultez jamais une femme qui tombe!

Qui sait sous quel fardeau la pauvre âme succombe!

eu cobria de flores as escadas resvaladiças do vício, e ia a melhor grinalda coroar a mártir no seu atoleiro, e lembrar-lhe, como estímulo de esperanças em melhor mundo, o quia dilexit multum de Jesus Cristo, com referência à pecadora, repulsada da vizinhança das pessoas honradas, segundo o padrão da honra convencional deste mundo. Vinha, portanto, a ser o hipotético romance de Albertina a milésima história de uma milésima desgraçada, com um remate de vida destoante do acostumado: em vez de morrer na enfermaria da Misericórdia, e do catre passar à mesa das dissecções anatómicas, acabava os seus penosos dias sob o tecto hospitaleiro da Ordem de S. Francisco, mediante quatro peças esmoladas por um homem, o único talvez que se lembrava de a ter visto bela, e deslumbrante na vertigem do crime impudente e faustuoso.

Que hedionda história eu engendrara! Para isto não valia a pena cerrar eu os ouvidos às prelecções dos srs. Santa Clara e Costa Paiva, quando um me dizia que há ácidos e óxidos, e o outro me podia encantar com a maviosa poesia dos amores dos vegetais monocotiledóneos e andróginos! Por amor destas estragadas fantasias, deixei eu de ser uma pessoa de serventia química neste mundo; e fiquei escassamente sabendo, em botânica, que as árvores são vegetais.

Aguilhoado pela impaciente curiosidade, que me não deixava esperar quietamente a época das férias grandes, fui à enfermaria da Ordem de S. Francisco procurar Albertina, com o disfarce de lhe oferecer o meu préstimo.

- Não preciso de nada, bendito seja o Senhor! - me disse ela - Foi o sr. Silveira que mandou saber de mim? Santo homem! Coração de Deus na mocidade e na velhice!...

Esta linguagem predispôs-me a julgar do espírito da mulher com vantagem.

Condensavam-se as nuvens do mistério em volta de Albertina; mais insofrida portanto a curiosidade, o prurido de romper a nuvem, e desnudar o segredo daquela existência.

Aventurei esta sonda em forma de observação cristã.

- A srª Albertina sofre com admirável paciência os dissabores de sua vida!

- Que remédio, senão sofrê-los! - disse ela.

- Mas há poucos infelizes que saibam assim consolar-se.

- É porque são poucos os infelizes que sabem o caminho do Calvário, o porto da Cruz - redarguiu a mendiga do Mirante.

- Há muitos anos que é desgraçada? - perguntei com a audácia de um espírito esfalfado, que anda a cavar ideias para romances no recôncavo da consciência de toda a gente.

- Eu não sou desgraçada - respondeu ela serenamente -. Sou o que o meu Criador quer que eu seja. Se não tenho sobre que Deus chova, também não tenho cousa sobre que se cravem os olhos da inveja.

- Mas... - retorqui, balbuciando - parece-me que a srª Albertina, antes de chegar a esta posição...

- Se me dá licença - atalhou a irmã da Ordem de S. Francisco, -, vou à minha enfermaria, que são horas de médico.

Despedi-me, descontente do tom admoestador com que a pobre castigou a minha renitente investigação, e fiz parte disto ao meu amigo Silveira, o qual me respondeu nestes termos: «A vida dessa mulher não é o que o senhor cuida. Há umas histórias que se ouvem, sem se pedirem: são as dos crimes, que se desafogam das presas do remorso; e também as há negríssimas, contadas pela fatuidade cínica. Dessas busque-as o senhor que as há-de achar de molde para escrever um Flos diabolorum de ambos os sexos. No tocante, porém, à história de Albertina, dir-lhe-ei que os revezes são de uma espécie que não anda usada em romances, por ser iguaria insossa a paladares enfareados de condimentos ardentes da especiaria francesa, os quais cifram em sangue, lágrimas e lama. O pior da humanidade, o sedimento, as fezes do coração, servidas em taças de ouro - o ouro da linguagem florente à Jorge Sand, e satanicamente vigorosa à Frederico Soulié, que é isso senão lama? Oferecessem a biografia dessa mulher que o senhor visitou na enfermaria de S. Francisco a algum daqueles capitalistas da imaginação corrupta, aposto eu que eles a não aceitariam para romance sem a cláusula de alterarem a história de modo que lhe jarretassem as virtudes principais como inverosímeis, e as acidentais como empecilhos à travação do, enredo. Essa mulher decerto lhe não contará sua vida, porque faz de conta que lá está Deus que a sabe, e espera ser chamada a receber a féria dos que trabalharam por ordem e estipêndio d'Aquele que pertransiit benefaciendo. Já o senhor vê que tem de ouvir uma história de mediano interesse para os seus anos verdes. Há-de achá-la destituída de peripécias para um conto de livro que se vende consoante o travo de malícia, ou o destemperado do horror; porém, se o senhor a retiver em sua memória, passados vinte anos, bem pode ser que o seu espírito se compraza em escrevê-la, e o seu público se deleite em alternar com ela o fastio de alguma leitura dos seus romances escritos dez anos antes, sob a inspiração das paixões más.»

Quando voltei à província, apresentei-me a António da Silveira, que pontualmente desempenhou a sua palavra. A história de Albertina, no trajecto de vinte anos, muitas vezes me acudiu à lembrança, nas horas em que eu combinava na palheta as cores com que bosquejei os quadros tristes e alegres da humanidade, que mos aceitou benignamente, não porque fossem bons, mas porque eram fiéis: das deformidades da natureza seria injustiça irrogar-me censura a mim. Desaproveitei o romance de Albertina, em todas as vezes que me lembrou, porque me alistara na laureada e gananciosa milícia dos romancistas do terror grosso, como deles dizia Júlio Janin, o celebrado folhetinista, que escreveu O Burro Morto, romance que começa a aterrar a gente desde o título, e, lá pelo meio adiante, mete a humanidade num banho de sangue, de multa gente e do burro citado.

Afinal, e muito a tempo, desertei às bandeiras dos mestres franceses, e entendi no melhor modo de descrever os usos e costumes da minha terra, os sentimentos bons e maus como por cá os tenho visto, as paixões como elas são cá, e como creio que elas são em toda a parte, tirante as composturas, artifícios e maravalhas de linguagem, com que, para maior glória do génio pestilencial, corruptor das almas, os pintores da sociedade adulteram a verdade das cousas e pessoas:.

Cai a propósito neste ponto declarar eu à crítica bem intencionada de alguns avaliadores dos meus últimos livros, editados em folhetins do Comércio do Porto, que nem levemente me constrangem as condições que me pauto, e imponho no desenvolvimento da ideia moralizadora, ou, pelo menos, intuito social e humanitário de cada um dos romances. Tais são os publicados com os títulos: Três Irmãs, Estrelas Funestas, Estrelas Propícias, O Bem e o Mal. E, afora estes, que a crítica irreflectida cuidou me haviam sido assim prescritos e agorentados pela seriedade daquele jornal, escrevi com igual intento e desassombrada espontaneidade o Amor de Perdição, o Romance de um Homem Rico, e outro que está no prelo, chamado Amor de Salvação.

De nenhuns outros me ficou tão. cheio o ânimo de contentamento, contentamento, sem vaidade, satisfação de ter povoado a minha fantasia de imagens, que seriam ainda sublimes e belas, quando não fossem imitáveis e verdadeiras.

A esta série de romances pertence A Filha do Doutor Negro, bem que o título prometa cenas escuras, e se dê um jeito de engodo à curiosidade. Não vem para isso.

Faço pouco finca-pé em títulos, e não dou nada pela cousa que traz logo um rótulo de negócio, no modo como se intitula. Chamei ao livro assim, porque a heroína do romance, como já se vai dizer, tinha muita honra em ser assim conhecida.

A razão por que eu esperei vinte anos esta hora, hora de íntima dor, em que principio a escrever tal romance, é que eu, nesse longo termo de meia existência, cuidei que, sem intercalar de episódios imaginários a história de Albertina, mal ou de nenhuma maneira lograria dar-lhe vida, interesse, variedade e número, como diria um correcto juiz com o Quintiliano em mente. Agora, revirou-se o meu entendimento em cousas desta ordem, como em quase todas as cousas ordenadas ou desordenadas pela gente.

Estou apto para trasladar o que vi e vejo, sem pedir emprestado à imaginativa o que a natureza me não dá. Se, alguma vez, falsifico as tintas, ou derramo a mãos-cheias flores sobre as úlceras, é isso um excesso de generosidade que uso com o mundo e comigo.

Bastam as misérias vistas: poupemo-nos à estampa, que não corrige nem condena. Para juiz lá está Deus. Para algoz, basta que cada um o seja de si próprio.






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