Camilo Castelo Branco a morgada de Romariz



Baixar 144.55 Kb.
Página1/2
Encontro29.07.2016
Tamanho144.55 Kb.
  1   2


Camilo Castelo Branco
A Morgada de Romariz








http://groups.google.com/group/digitalsource


A Francisco Teixeira de Queirós,

autor da Comédia do Campo,

por Bento Moreno,

saúda com superior admiração e indelével reconhecimento
Camilo Castelo Branco


I

Vi esta morgada, há três anos, em Braga, no Teatro de S. Geraldo. Estava em cena Santo António, o taumaturgo. A comoção era geral. Tanto a morgada como seu marido, o comendador Francisco José Alvarães, choravam, às vezes; e, outras vezes, riam-se.

Era uma senhora de espavento, avermelhada, com as frescuras untuosas e joviais dos quarenta anos sadios, seios altos e atlantes, pulsos roliços e averdugados pela compressão das pulseiras cravejadas de esmeraldas e rubis.

Riu-se a morgada quando aquele Santo António do século XIII recitou às raparigas uma poesia madrigalesca de Brás Martins -bom homem que esteve quase a regenerar o teatro nacional como ele deve ser. A poesia rezava assim nesta prosa inocente:


Mimosa nasce a flor e vive linda,

Se arrancada não foi logo ao nascer;

Assim a virgem nasce e vive pura,

Se o vício não trabalha pra perder
Et coetera, com a mesma unção e música.

A morgada sorrira-se para o marido; e ele, para lhe provar que também percebera o chiste, formou um tubo com os beiços carregados de chalaças mudas e disse com aticismo velhaco:

- Versalhada...

Ora, a morgada de Romariz, lagrimando com inteligência na prosa da oratória, assim que algum personagem pegava de rimar, ria-se. Persuadira-se de que a missão dos versos era como a das cócegas. A natureza dera-lhe ao espírito aquele feitio.

Remirei-a de esconso por sobre a espádua do esposo.

Ela bocejava nos entreactos, até mostrar as campainhas; ele tosquenejava, e às vezes, espreguiçando-se, grunhia:

- Estou maçado.

- Pudera... - obtemperava a esposa -, a comedia bonita e... mas não há nada como estar a gente na sua cama, Zezinha!

E dava tons lúbricos ao diminutivo.

- Quem me lá dera... - volvia Alvarães, deslocando as botas e dando folga e frescor aos pés no aprazível túnel dos canos. - O polimento estorcega-me os calos... - queixava-se com azedume. - Comédias... Ora adeus! Patranhas...

- Modos de vida, homem...

E abriam juntos as bocas espasmódicas.

- Ao menos se eu viesse ceado... - dizia ele.

- Fizesses como eu...

- Não me cabia cá... - E batia com os dedos dobrados no alto ventre como se faz às melancias suspeitas.

- Já agora, hemos de ver acenada glória, que é o mais bonito... - opinava a esposa.

Neste comenos, visitou-os um meu conhecido de Famalicão. Ao erguer do pano, saiu de lá e entrou no meu camarote. Foi ele quem me disse o nome das duas pessoas, acrescentando:

- Ali, onde a vê, tem romance; dá matéria para dois temos...

- Picarescos? Não me servem... Eu quero filosofia: os meus leitores querem filosofia, percebe o senhor?

- É o que ela tem mais que dar.

- Ora essa!... O senhor sabe que ela tem isso? Queira apresentar-me...

- Deus me defenda... Eu disse à morgada que você era romancista...

- E ela que disse?

- Riu-se.

- Riu-se?! É boa!... E o marido...

- O marido disse: «Arreda!»



II

Vejamos a filosofia que eles têm.

Melhor que uma estirada narrativa, desfigurada talvez pela imaginação do informador, li um processo que o sujeito me emprestou. Correra o pleito entre panes que litigavam em matéria de casamento. Figurava uma donzela depositada judicialmente. O pai da nubente impugna e alega que o pretendente a sua filha é um birbante de vilíssima relé. O noivo, contrariando, expõe que o pai da sua futura é de origem tão canalha que, apesar de ser fidalgo da casa real, é filho de um salteador de estradas, como é público e notório. dizia o noivo; e acrescentava «que não havia ainda vinte anos que o seu contendor exercitara ofício de fogueteiro em Vila Nova de Famalicão». Neste conflito, a depositada trancara o pleito vergonhoso aceitando outro marido que o pai lhe inculcou.

A menina questionada era aquela morgada de Romariz e o marido o comendador Alvarães.

Quanto a filosofia, este acontecimento pareceu-me assaz chocho; eu pelo menos não fita encontrei, por mais que virasse do carnaz os personagens do processo. Louvei» procedimento da moça injuriada na pessoa do seu progenitor; mas o fermento da tal filosofia não me dava para levedar massa de cinquenta páginas. Abri mão do assunto e larguei-o às imaginações florentíssimas de minha pátria. Porém, transcorridos dois anos, em um livro impresso por 1815, li uns nomes que tinha visto nos autos escandalosos.

Examinei de novo o processo e trasladei certas passagens que, alinhavadas a outras do referido livro, deram esta novela, em que, por felicidade do leitor e minha, não há filosofia nenhuma, que eu saiba.



III

Quando Vila Nova de Famalicão era um burgo de cem vizinhos com um juiz pedâneo, saiu dali para a corte, em 1744, um rapaz de quinze anos, que principiara com seu pai ofício de pedreiro. Assinava-se António da Costa Araújo, escrevia limpamente e era esperto. Chamara-o a Lisboa um tio, mercador de panos, estabelecido na Rua dos Escudeiros, que até ao terramoto de 1755 ocupava parte do terreno hoje compreendido na Rua Augusta. Matias da Costa Araújo, irmão do pedreiro, engraçou tanto com o sobrinho que, apesar dos poucos meios, mandou-o às aulas dos Jesuítas no Pátio de Santo Antão, a fim de o habilitar para clérigo, contra a propensão mercantil do moço.

Matias havia sido infeliz no comércio e dizia que era mau modo de vida aquele em que a prosperidade se desavinha da honra.

No 1? de Novembro de 1755, o constrangido destino do estudante trans-tornou-lho a catástrofe em que seu tio pereceu debaixo da abóbada da Igreja de S. Julião, onde assistia às missas dos fiéis defuntos. Os seus medianos haveres armazenados devorou-lhos todos o incêndio. Ficou portanto em desamparo grande o estudante, e cuidou de amanhar sua vida, deixando arder sem saudade a gramática latina do padre Álvares com os cartapácios correlativos.

Nicolau Jorge, mercador abastado, vizinho e amigo do defunto Matias, condoído do sobrinho, chamou-o, ouviu-o discorrer a respeito da espécie de mercadoria em que mais seguro negócio deveria tentar-se na crise do terramoto e, aplaudindo-o, emprestou-lhe duzentas moedas de ouro. Leiloavam-se então, nas ruas e praças, fazendas avariadas por água e fogo. António da Costa Araújo arrematou por preço ínfimo fardos equivalentes ao seu avultado capital, pagando-os no mesmo acto com grande espanto do desembargador Torciles, presidente das arrematações. Estabeleceu-se Costa Araújo no Campo de Sant'Ana e ganhou, no primeiro ano, com estas fazendas avariadas, doze mil cruzados (1). Volvidos seis anos, era um dos mercadores mais opulentos da cone; morava no primeiro quarteirão da Rua Augusta, à esquerda, indo do Rossio, e era geralmente conhecido pela alcunha de Jóia. Tinha camarote efectivo na ópera, banqueteava personagens de alta condição, recebia nos seus armazéns a mais luzida sociedade de Lisboa com fidalga cortesia: chamava «jóias» às damas, e daí lhe pegou a ele a alcunha desmaliciosa. Confluía ao seu balcão a flor da cidade, porque ninguém o excedia na fina escolha dos atavios, no primor do gosto e em probidade de contratos. «Ali vinham», diz o coronel Francisco de Figueiredo, «comprar-se os enxovais para os grandes casamentos, o vestuário para todas as grandes funções, de que houve muitas, entrando neste número os casamentos dos nossos soberanos, nascimentos de príncipes, os dias de anos de toda a real família e os três dias das funções da inauguração da estátua equestre do Sr. Rei D. José, o 1º, de tão gloriosa memória.»

Costa Araújo não compelia os devedores a pagarem-lhe judicialmente; que o infortúnio dos que não podiam gozar a honra e o prazer da pontualidade fazia-lhe dó.

Quis o marquês de Pombal nobilitá-lo como fizera a outros comerciantes, mais para abater a fidalguia histórica do que para levantar a burguesia industriosa. O Jóia nunca pediu nem aceitou distinções. Foi toda a vida mercador, sempre ao balcão, ou encostado à ombreira da porta, como hoje o não fazia um caixeiro com a cabeça cheia de socialismo e óleo de amêndoas doces.

À volta dos sessenta anos, António da Costa Araújo enfermou de paralisia. Era solteiro. Chamou para sua companhia um irmão que tinha na terra natal, pedreiro como seu pai e que nunca deixara de trabalhar, posto que o irmão rico lhe desse boa mesada, sem todavia lhe aconselhar ofício menos grosseiro, por entender que são muitos os pedreiros felizes e pouquíssimos os grandes do mundo que a inveja dos pequenos não perturbe.

O paralítico fez testamento, em que repartiu o seu capital por diversos amigos, e deixou a seu irmão Bento da Costa três mil peças de 7$500 réis.

Falecido o Jóia, apareceu em Famalicão Bento pedreiro, envergando um tabardo velho de briche, que exibia com visagens consternadas, dizendo que não herdara outra coisa do irmão, o qual tudo gastara e morrera pobre. O pedreiro, supondo que o acreditavam, era boçal à proporção de avarento; faltava-lhe a velhaca finura que hoje em dia ilustra os Minhotos. Verdade é que não havia ainda gazetas que assoalhassem as verbas testamentárias; mas a notícia da herança de Bento chegara a Famalicão primeiro do que ele. Cinquenta e seis mil cruzados e tanto! Quem poderia herdar secretamente riqueza tamanha num tempo em que bazofiava por Lisboa um argentário a quem chamavam o Trezentos Mil Cruzados porque ele, vindo do Brasil, manifestara aquela colossal e quase fabulosa quantia! Cem contos de réis, hoje em dia, é quase uma vergonha possui-los; a quem não fingir que tem essa soma quadruplicada é um homem que, se souber governar-se com muito prumo, poderá talvez dispensar-se de ser recolhido a um asilo de mendicidade.

O pedreiro era viúvo, vivia só e tinha um filho soldado de artilharia do regimento do Porto, aquartelado em Valença. Quando a notícia chegou ao quartel, o rapaz, insano de alegria, desertou, confiado na herança. Entupiram-no, porém, o espanto e a consternação quando encontrou o pai à orla da estrada a brocar uma penedia por conta de um lavrador. Recobrado do assombro, perguntou-lhe se não herdara três mil peças de ouro.

O velho pôs os olhos espavoridos no céu, abanou a cabeça como os personagens da Ilíada, desfechou contra o filho um esgar desabrido e bradou:

- Três mil peças?! Três mil diabos que te levem a ti e mais a quem levantou essa aleivosia! O que eu herdei foi um reguingote de saragoça já no fio. Se o queres, vai buscá-lo, que ele lá está pendurado num gancho... Com que então, Joaquim, vinhas ao cheiro das peças?

- Vinha pedir-lhe, Sr. Pai - respondeu o moço com tristeza e respeito -, que me livre de soldado, porque já não posso com o serviço. Estou doente e preciso de mudar de vida.

- Trabalha, faze como eu, que também não posso, e estou aqui a furar este calhau. Quiseste ser soldado.., lá te avém.

- Sr. Pai, olhe que eu saí da praça sem licença... sou desertor...

- Não me digas isso segunda vez, que te rejeito esta broca à cabeça (2)!

- Faz-me vossemecê uma esmola - replicou serenamente Joaquim -. que eu antes quero a morte que as chibatadas... Sabe que mais, Sr. Pai? - prosseguiu o desertor limpando o suor e as lágrimas -, ou vossemecê me livra, ou eu vou juntar-me à quadrilha que anda na Terra Negra.

- Capaz disso és tu, alma do diabo! Sai-me da vista dos olhos, que eu já te não enxergo, ladrão!

E, arrojando a broca e o maço de ferro pelo respaldo do penedo, sentou-se com os cotovelos fincados nas pernas e cismou alguns segundos com a cara tapada pelas mãos esfoliadas e negras de terra.

O filha esperava, indeciso entre o ódio e a compaixão. Se cogitava que o pai herdara as três mil peças e o deixava optar entre a chibata e a malta de ladrões, Joaquim sentia-se tremer de raiva; se, porém, a herança era uma invenção, o ar aflito do velho sujo, roto e quebrado de trabalho compungia-o.

Nesta vacilação, ergueu o pedreiro o rosto menos descomposto e disse:

- Vai para casa, que eu vou daqui falar com teu padrinho... Aí tens a chave; procura as peças, e leva-as, que eu dou-tas...

Esta zombeteira liberalidade incutiu logo em Francisco dúvidas da herança.

Entrou em casa e examinou toda aquela antiga e conhecida pobreza. Na lareira, entre cinzas, a panela de barro desbeiçada e duas tigelas na trempe; o escabelo corroído de caruncho e a espaços espumado de gorduras lustrosas; o catre de bancos e a enxerga rota e arrepiada de palhiço; a candeia de ferro enganchada na parede; por baixo, pingada de sail, uma banca de pau-santo com pés torneados, mas com as roscas esborcinadas e gavetas de pinho em bruto com puxadores de corda. Sobre a miséria dos trastes, o lixo, a sordícia que o filho do pedreiro nunca assim vira, porque sua mãe ainda vivia, quando ele assentou praça. Aos pés da cama havia uma rima de cascabulho, grabatos de lenha, ferramentas quebradas, rodilhas e cacos. Em uma forquilha de quatro esgalhos pregada na trave mestra pendia, coberto da fuligem da lareira, o albornoz poído que o irmão do Jóia dizia ter herdado.

O desertor sentou-se na arca de pinho, contemplou aquela indigência e pensou consigo:

«Acho que me mentiram... Meu pai não herdou nada... Dantes ainda nesta casa havia uns lençóis lavados e pão à farta, quando recebíamos todos os meses a moeda que o tio tios dava... E agora que há-de ser de mim?... Estou perdido!...»

Neste comenos, assomou ao limiar da porta um vizinho, que vira entrar o soldado.

- Estás por aqui, Joaquim Faísca?! - perguntou o Luís Meirinho.

Convém saber que o filho de Bento ganhara alcunha de Faísca desde que mostrou, aos dezoito anos, extraordinária destreza em ferir lume no fósforo dos ossos dos adversários. O outro chamava-se o Meirinho, porque o havia sido do corregedor de Barcelos, e na opinião pública passara de quadrilheiro da justiça a capitão da quadrilha que infestava a Terra Negra. Continuava o ofício, diziam alguns, ganhando na carreira três postos de acesso.

- Vieste com licença? - perguntou o Luís Meirinho.

- Não, senhor. Pedia-a, e não ma deram - respondeu Joaquim, com o propósito de se acolher ao valimento do vizinho, se o pai lhe não acudisse. - Eu estou doente do peito e não posso com esta vida de soldado. Ouvi lá dizer que meu pai estava muito rico com a herança de meu tio. Desertei, cuidando que ele me livraria com dinheiro; mas agora mesmo o topei no Vinhal a quebrar pedra e ele me disse que herdara um albornoz velho que ali está.

- E tu acreditaste? - atalhou o outro velhacamente.

- À vista da miséria em que eu encontro esta casa...

- Pois fica sabendo que teu pai herdou três mil peças. Sabes quanto fazem três mil peças?... Cinquenta e seis mil e tantos cruzados. Sabe toda a gente da vila que teu pai está riquíssimo. Posso. mostrar-te a cópia do testamento. Teu pai é um miserável, é a vergonha dos homens! Mata-se à fome, come duas tigelas de caldo por dia e diz mal do irmão porque lhe deixou um albornoz coçado,. quanto toda a gente sabe que o deixou rico...

- E o dinheiro? - acudiu Joaquim circunvagando os olhos pelos cantos da casa e lareira.

- Dizem uns que o deixara em Lisboa a render e outros querem que ele o tenha enterrado aí nesse chiqueiro; mas a minha opinião é que teu pai, se trouxe o dinheiro, não o tem em casa. Meteu-o debaixo de alguma fraga aí da serra por onde ele anda sempre a quebrar pedra.

- E que hei-de eu fazer, se. ele me não livrar? - perguntou Joaquim.

- Eu sei lá, rapaz! Se o teu livramento depende do dinheiro de teu pai, não quisera eu estar-te na pele! Levas as chibatadas da lei tão certo como eu quisera valer-te e não posso. Conheço-te desde rapazito, e nunca me há-de esquecer que vai agora em dez anos, na romaria das Cruzes de Barcelos, me acudiste num aperto e quebraste três cabeças, enquanto eu quebrei duas. Olha, Faísca, se te vires em apuros, procura-me; livrar-te de desertor, isso não posso eu; mas das chibatadas e da farda eu te livrarei...

- Como?


- Isso são contos largos... Aí vem teu pai ao fundo da rua. Vou-me embora, que não posso encarar aquele sórdido avarento! Se eu soubesse que ele tinha o dinheiro no bucho, tirava-lho pelas goelas e dava-to, rapaz!

1 - Vou condensando estas noticias colhidas em um livro do coronel Francisco de Figueiredo. Escritor coevo dos sucessos. É um tomo que forma o 14º da obra intitulada Teatro, de Manuel de Figueiredo. Este livro raro, malissimamente escrito, precioso repositório dos costumes portugueses do décimo oitavo século. A propósito do negociante Araújo, informem-se os curiosos desde p. 632 até 640.
2 - Em província nenhuma, salvante o Minho, ouvi ainda empregar este verbo rejeitar [de rejicere] como quem diz arremessar. Arma que fere de arremesso, em bom português, chamou-se antigamente rejeito. O povo usa o verbo que é excelente e onomatopaico. Os minhotos que fizeram exame de bacharéis e de instrução primária (o que é mais difícil) riem-se quando o gentio analfabeto diz: «rejeitou-lhe uma pedra.»

IV

O pedreiro ainda vira o vizinho a safar-se da sua testada.

- Que fazia aqui o Luís Meirinho? - perguntou ele carranqueando.

- Nada; conversávamos...

- Eu cá à minha porta não quero conversas com ladrões, ouviste?

- Ladrões!... O Luís não me consta... que...

- Passa tu na Terra Negra com dinheiro de modo que ele to bispe, e lá verás quem é o Meirinho. Há-de haver três anos que deixou o ofício, que rendia pouco; e, desde que não tem ofício, comprou casa, tem cavalgadura, trata-se à regalona, come carne do açougue e bebe do da companhia. E eu, que trabalho há bons quarenta anos, custa-me a amanhar para uns feijões e bebo água da fonte.

- O Sr. Pai assim o quer... - atalhou Joaquim entre receoso e risonho. - Perca o amor às peças...

- E tu a dar-lhe!... - volveu iracundo o pedreiro. - Já te disse que as procu-res!... Não herdei nada!, não herdei nada! - E berrava convulsionado freneti-camente, sacudindo os braços.

- Não grite assim, que não faz mingua barregar! - atalhou o filho. - A gente está conversando... às boas... Hem?

No aspecto do Faísca ressumbravam sentimentos pouco filiais. A ironia franzia-lhe os cantos dos beiços, ao mesmo tempo que a ira lhe avincava a testa. No ar com que se sentara na arca, dobrando o corpo e bamboando as pernas em gingações de tarimba, denotava quebra de respeito e disposição a questionar faceiramente com o velho.

- Com que então... - prosseguiu Joaquim. - Vossemecê não herdou três mil peças?

- Não! - bradou o pai. - Não!, com mil diabos (Deus me perdoe), não!

- E se eu lhe mostrar a cópia do testamento... - volveu Joaquim esbuga-lhando os olhos, abrindo a boca e pondo fora a língua em todo o seu comprimento. - Que me diz vossemecê, Sr. Pai?, se eu lhe mostrasse a cópia do...

- Tu acho que vieste cá para dar cabo de mim! - interrompeu Bento, desentalando-se da sua aflição por aquela estúpida réplica. - Amaldiçoado sejas tu!... -

E, com os dentes cerrados e as mãos na cabeça, ia e vinha da lareira para a porta, considerando-se o mais desgraçado homem que Deus criara.

- Sr. Pai! - continuou mansamente o filho -, isto não vai a matar. Tome fôlego e escute o seu Joaquim. Lembre-se que não tem outro filho a quem deixar os seus cinquenta e seis mil cruzados...

- Olha o diabo! - regougava o velho.

- O que eu lhe peço pouco monta. Livre-me de soldado e dê-me alguma coisa para eu casar com a Rosa de S. Martinho. O pai dela decerto ma dá, se eu levar mil cruzados. Vou ser lavrador, terei saúde e alegria, e nunca mais lhe peço nada, Sr. Pai.

Joaquim, desde que proferira o nome de Rosa de S. Martinho, mudara de tom e gestos. Os olhos imploravam e a voz tinha as modulações do respeito. O seu amor de dez anos, golpeado de saudades, quebrara-lhe os pulsos. Se o pai naquele instante abrisse no rosto uma ténue claridade de esperança, Joaquim acabaria a súplica de joelhos.

- Mil cruzados! - resmoneava o pedreiro. - Onde queres tu que eu os vá roubar?

Esta interrogação varreu do semblante do Faísca os sinais da boa reacção.

- Eu não quero que os vá roubar, valha-me Deus! - respondeu Joaquim. - Mas, a falar verdade, quem tem três mil peças de seu também pode ser ladrão da felicidade de um filho que ainda lhe não custou seis vinténs desde que pode trabalhar... Olhe, Sr. Pai, repare bem no que vou dizer-lhe... Eu para a praça não torno. Sou desertor.

- Venho de casa de teu padrinho - acudiu o pai menos torvo -; o Sr. Coronel Lobo da Igreja dá-te uma carta para o comandante, e diz que tudo se há-de arranjar.

- Não torno para o quartel, já lhe disse. Estou doente, preciso mudar de vida.

- Que te leve a breca... Não quero saber de contos. Lá te avém. Dinheiro não tenho; sé se queres que eu venda a casa e me vá depois pedir um eido nos palheiros dos lavradores à beira dos cães.

- Está bom - concluiu Joaquim erguendo-se e espreguiçando-se -, vou ouvir a opinião do Luís Meirinho, que, dum modo ou doutro, prometeu livrar-me da farda e da chibata...

- Vais falar com o Meirinho para isso, ó alma perdida?

- Pois então! Aquele é amigo do seu amigo e se me for necessário dinheiro...

- Ensina-te a roubá-lo...

- E ele que sabe onde o há... - respondeu Joaquim bocejando e fazendo três sinais da cruz na boca escancarada.

- Eu te deito a minha maldição - bradou o velho com solenidade bastante para a cena final dum acto, porém insuficiente para abalar o 32 da 7ª companhia do regimento de artilharia do Porto.

O Faísca sorriu e murmurou:

- Vossemecê parece que tem mais maldições que pintos... Pois cá vou com a sua maldição e depois... veremos se ela nos empece a ambos.

Bento, ao pular-lhe o coração em saltos de ruim presságio, ainda deu três passos para chamar o filho e avençar-se com ele mediante quantia necessária ao livramento; mas a imagem de um pote de ferro cheio de peças bateu-lhe rija no peito.

Quedou-se como empedrado a olhar para a soleira da janela de peitoril, cujas portadas quatro travessas de castanho esfumado imobilizavam.



V

Poucos dias depois, o juiz-de-fora de Barcelos incumbia ao ordinário do julgado de Vermoim a prisão do desertor Joaquim da Costa Araújo, de alcunha o Faísca. A gente mais grada de Famalicão, convencida da riqueza do avarento sem entranhas, advogou a favor do infeliz moço, rodeando o pedreiro com rogos e até com insultos e ameaças. O pedreiro, assustado, foi ter-se com seu compadre, o coronel Lobo da Igreja Velha; e, bem aconselhado pelo fidalgo, cujo credor era, deu o dinheiro necessário para abafar o processo militar, comprar a baixa e substituir a praça no regimento.

Em seguida, quando se viu esbulhado das economias que amealhara antes de herdar as três mil peças, entrou-se de tamanha paixão, espicaçaram-no tantas saudades do seu dinheiro, que morreria abafado se não desafogasse no ódio ao filho. As vinte e quatro moedas de ouro que lhe custara a liberdade de Joaquim representavam fomes e sedes, desconfortos de frio em noites de Inverno, muitos suores em dias de Estio nó trabalho da serra a horas de sesta. E lembrava-se com bastante remorso que sua mulher padecera sem cirurgião e morrera sem botica e fora indigentemente enterrada, tudo isto assim desgraçado e infame, porque ele não quisera bolir naquelas vinte e quatro moedas.

No entanto, Joaquim, bem que muito grato ao pai, não se mostrou tão penhorado que prescindisse de o julgar obrigado a dar-lhe modo de vida. O velho mostrou-lhe um ferro de monte, um pico, um camartelo, e disse-lhe:

- Se queres modo de vida, segue o meu. Anda daí brocar uma fraga, e saberás quanto me custaram a ganhar as minhas vinte e quatro... - E, ficando entalado, esfregava os olhos debruados de roxo com o encodeado canhão da jaqueta.

O filho não se compadecia daquelas lágrimas; antes se sentia bravejar de condição com remoques e até com ódio à avareza do pai. Mau foi convencer-se Joaquim da herança e supor que o velho podia morrer sem testamento nem declaração do esconderijo do tesouro.

Debalde lhe espiava os movimentos, os olhares, as caminhadas no monte, a fim de farejar a lota das mil peças. Bento de Araújo ia frequentemente quebrar esteios de pedra nos penhascais de Vermoim e vendia-os aos lavradores para especar parreiras. As desconfianças do filho seguiam o velho entre fragoedos, chamados o Castelo; e o pai, que se julgou espreitado, alegrava-se secretamente e não se mostrava ofendido.

Entretanto, continuara Joaquim a sua velha afeição a Rosa de S. Martinho; e, confiando que a fama da riqueza do pedreiro seria bastante a que o abastado lavrador, esperançado na herança, lhe cedesse a filha, pediu-a afoitamente; mas o pai da Rosa tinha mediana confiança em sapatos de defunto e disse que só daria sua filha se o noivo trouxesse mil cruzados em dinheiro ou terras. O moço namorado abriu de novo o seu peito ao pai, que parecia apertar os cordões da bolsa à medida que o coração do rapaz se abria. Joaquim, bem aconselhado pelo seu amor, socorreu-se do padrinho, o coronel da Igreja Velha, pedindo-lhe que movesse o velho a dotá-lo.

Era o fidalgo a única pessoa que exercia influência em Bento de Araújo, e tamanha que pudera arrancar-lhe alguns mil cruzados a juros, sob juramento de não dizer a alguém que lhos devia. Mandou-o chamar e aconselhou-o a que desse dote a Joaquim. Avultou-lhe as funestas consequências da sua teimosia em querer passar por pobre quando toda a gente estava convencida do contrário; pintou-lhe os perigos em que ele punha o filho sem ofício que o salvasse da camaradagem de vadios suspeitos com que patuscava nas tabernas da Lagoncinha e outros lugares infamados. Afinal, como o velho insistisse desaforadamente em dizer que não tinha senão o dinheiro que seu

compadre lhe devia, o coronel rendeu-o com esta honrada deliberação:

- Pois bem: tudo se arranja, querendo Deus e tu. Devo-te três mil cruzados; não tos posso pagar, enquanto algum dos meus filhos não trouxer esposa com dote; mas irei tirar quatrocentos mil-réis a juro em alguma confraria, e esse dinheiro vais tu dá-lo a teu filho para casar com a rapariga, que é de boa gente, e há-de ter dobrado ou mais do que ele tem.

As últimas palavras de Bento, nesta pendência, definem cabalmente a sua natureza. Quando o compadre lhe disse:

- Tu virás de hoje a oito dias receber os quatrocentos mil-réis para os dares ao teu Joaquim no acto da escritura do casamento -Bento acudiu impetuosamente:

- Eu não quero ver o meu dinheiro! Arranje Vossa Senhoria cá isso de modo que eu não veja o meu dinheiro!...

Ele sabia que, no acto da contagem dos mil cruzados, seria capaz de agarrar a saca e fugir com ela do escritório do tabelião.

Assim mesmo, o pedreiro, se tinha muitas maldades de avarento, possuía também algumas belas qualidades de pai; e uma, digna de bastante memória, é que, tendo ele em casa arsénico para matar os ratos, não o administrou ao filho.



VI

Joaquim de Araújo entrara na vida por má porta. Oito anos de caserna bastariam a degenerar-lhe as boas qualidades: mas, com certeza, o Faísca já tinha ganho esta alcunha à custa de turbulências, quanto assentou praça, e não se regenerara, como é de supor, no ofício de soldado.

A sua nova posição de lavrador não lhe quadrava: a pesada rabiça do arado dava-lhe engulhos no estômago, quando a sacudia do rego aberto para romper outro; o cabo da enxada empolava-lhe as mãos; de sáfaras não sabia nada; ignorava todo o tráfego da lavoura; e, em vez de aprender, como queriam a mulher e o sogro, ia bandarrear por feiras, quatro vezes por semana, na sua égua rabona, de pau de choupa debaixo da perna, mão direita à cinta, chapéu braguês na nuca e besta travada que não havia outra daquela andadura.

As impertinências do sogro respondia que não precisava de labutar sujamente na terra, porque seu pai tinha o melhor de cinquenta mil cruzados em peças; e aos queixumes da mulher amante e ciosa voltava as costas enfastiado. O lavrador de S. Martinho, a fim de se desfazer do genro, repartiu a casa por três filhos, ressalvou uma pequena reserva, deu em terras o dote estipulado a Rosa e mandou-os viver onde quisessem.

A libertinagem do Faísca foi até onde os dois mil e tantos cruzados da mulher chegaram; e naquele tempo, quem os desbaratasse em seis anos alcançava reputação dos que em nossos dias derivam à miséria sobre ondas de ouro. Antes de conhecer as primeiras necessidades, Rosa morreu na flor da idade, deixando um filho de seis anos entregue ao avô, porque o marido havia muitos meses que demorava pela Galiza, amaltado com jogadores de esquineta, seus antigos camaradas, uns com baixa, outros desertores.

O filho de Rosa breve tempo viveu da caridade do avô, que faleceu pouco depois.

Quando Joaquim de Araújo voltou a S. Martinho por saber que estava viúvo, encontrou o menino de sete anos esfarrapado, sem amparo de parentes, a esmolar o pão e o agasalho dos vizinhos, porque seu pai não tinha casa própria e todo o património de sua mãe estava vendido. Quem recolhera o rapazinho era um fogueteiro, o mais remoto e desprezado parente de sua mãe. O pequeno ajudava-o a afeiçoar as canas e encher os canudos para os foguetes com bastante jeito e disposição para o ofício. Perguntara-lhe o pai porque não fora procurar o avô a Famalicão. O fogueteiro respondeu que lá fora com ele quando a mãe morreu, mas que o avô dissera que estava também muito pobre, e apenas lhe dera estopa para umas calças e um chapéu de Braga mais rapado que a escudela de um cão. Lembrou-se Joaquim do padrinho; mas a morte cortara-lhe esse recurso. Foi ter-se com o filho sucessor na casa, a ver se quereria protege-lo como seu pai. O fidalgo da Igreja recebeu-o com furiosas declamações contra o Bento pedreiro, a quem chamava ladrão porque lhe pedia dois mil cruzados e juros que o pai lhe ficara devendo.

Neste tempo, o irmão do honrado Jóia já não podia trabalhar. Passava os dias sentado ao sol no degrau da porta e dava alguns chorados vinténs por semana a uma vizinha que lhe levava as couves e a broa.

Nesta situação o achou o filho, quando voltou da Corunha, trajando à castelhana, mas delatando na jaqueta safada e suja a miséria que o trazia à porta do pai. Pediu-lhe dinheiro com suplicante brandura, com muitos actos de arrependimento e promessas de reformação de costumes.

- Se puderes reformar os teus costumes, fazes bem; eu é que não posso desfazer-me em dinheiro - dizia o velho. - Tudo o que eu tinha estava na mão de teu padrinho; ele morreu, e o ladrão do filho não me paga.

- O que o padrinho lhe devia - disse Joaquim - são dois mil cruzados; mas vossemecê herdou cinquenta e tantos...

- Não sei o que herdei - replicou o pedreiro -; tudo o que tinha dei-o a guardar ao coronel, Deus lhe fale na alma, e tudo lá ficou.

- O meu padrinho não era capaz de o roubar, Sr. Pai! Vossemecê está metendo a sua alma nas mãos do Diabo! Há-de morrer para aí como um mendigo e o seu dinheiro há-de ajudá-lo a cair nas profundas do Inferno...

No calor da discussão figurou-se ao velho que o filho seria capaz de praticar alguma violência. Teve medo - o medo que devia ser-lhe uma agonia fulminante, se o gozo de sentir-se rico não prevalecesse às angústias de recear-se em perigo na presença do filho. Abriu com as mãos trémulas a arca, tirou um pé de meia, atado pelo calcanhar com uma guita, deu-o ao filho e disse-lhe com a voz cortada de soluços:

- É tudo quanto tenho. Recebi ontem esses vinte cruzados novos dos esteios que vendi. Se queres dar-me metade, dá; se não queres, leva tudo.

Joaquim quedou-se alguns minutos a olhar para o pai com piedoso aspecto; e, depois de pensar na repartição dos pintos, ouvindo filialmente a consciência e a razão, deliberou.., não repartir nada. Saiu com mais duas maldições tácitas, e foi relatar o caso ao Luís Meirinho.

Neste tempo, o antigo aguazil do. corregedor de Barcelos andava muito acautelado das justiças da comarca. A sua reputação de salteador de estradas estava feita; mas as provas que legalizassem a captura eram insuficientes. Os latrocínios de encruzilhada amiudavam-se na Terra Negra, na Lagoncinha e nas serras distantes do Ladário e da Labruja. Algumas casas afamadas de dinheirosas eram assaltadas por quadrilhas que venciam pelo número a resistência; e, quando esses roubos estrondeavam, Luís Meirinho e outros sujeitos da sua familiaridade nunca estavam em Famalicão ou nas aldeias circunvizinhas. Era sabido que as maltas se reuniam em um grupo de cabanas numa cafurna de pinheiros chamados os Ribeirais, não longe da vetusta igreja dos templários de Santiago de Antas. Ainda hoje estão em pé, mas ninguém as habita, essas choupanas execradas pela tradição de serem aí enterrados os ladrões que voltavam mortalmente feridos dos seus assaltos.

Como quer que fosse, a maledicência não caluniava Luís Meirinho, nem ele por modéstia escondeu do Faísca a superior categoria de capitão de ladrões a que o promovera a voz pública.

Joaquim ouviu estas confidências íntimas sem pavor nem sequer estranheza. A esquineta era-lhe bastante iniciação para ser admitido aos mistérios da Terra Negra. O Meirinho encareceu-lhe as vantagens e desfez nos perigos do ofício. Principiando pelo argumento mais insinuante a favor dos ladrões, ofereceu-lhe, de uma grande saca, dinheiro que ele afiançava ter adquirido sem escândalo nem efusão de sangue. Umas das suas regras de bem viver era (dizia ele ao Faísca) matar somente um última necessidade: talvez a «justa defesa» que a lei indulta. Rómulo, o salteador que fundou Roma, não exibia ideias mais benignas.

A granjeada de um bravo para a jolda foi fácil. O Faísca, em uma das próximas noites, foi apresentado na estalagem da Lagoncinha aos seus irmãos de armas e achou-se em melhor sociedade do que ele previra. Condecoravam a cáfila alguns sujeitos que pareciam andar naquela vida aventurosa por amor das impressões rijas: eram artistas, como hoje diríamos. Filhos segundos de casas honradas e coutadas desde os reis da primeira dinastia, recrutas fora-gidos, desertores, jornaleiros, indivíduos barbaçudos vindos de longes terras, facinorosos escapulidos das cadeias ou dos degredos, gentes várias, como se vê, mas todos alegres, chalaceadores, benquistos nas aldeias por onde residiam temporariamente, liberais nas tabernas com conhecidos e desconhecidos, armados até aos dentes e, segundo a excelente máxima do capitão, matando somente em última necessidade. A malta, por espírito de imitação, chamava-se «Companhia do Olho Vivo». Florescera outra, com igual denominação, na corte, capitaneada por José Nicós Lisboa Corte Real. Quarenta anos antes haviam sido enforcados os mais graduados da companhia, salvante o capitão, porque era protegido do infante O. António, tio de el-rei D. José I. Um dos mais novos dessa horda de ladrões, que teve um período de esplendor, fugindo à perseguição, ainda funcionou na malta do Minho, à qual legou o saudoso nome da outra.

A «Companhia do Olho Vivo» não prosperou no ano em que o filho de Bento de Araújo se alistou. O terror afastara os passageiros dinheirosos do trânsito por serras infamadas e os proprietários das povoações sertanejas mudaram para as vilas e cidades as suas residências.

No programa de Luís Meirinho estava desde há muito inscrito Bento de Araújo; mas, como ainda há pessoas de bem, ao capitão repugnava-lhe propor em conselho que se planeasse o expediente mais plausível na exumação das três mil peças do pai do Faísca. Os sécios mantinham entre si estes decoros, o que não sucede em todas as companhias com estatutos legalizados.

Entretanto, como a necessidade apertava, e à notícia do Faísca chegara a má nova de que seu pai, acariciado por uns sobrinhos de Gondifelos, tratava de se passar para a companhia deles, o capitão, forte de razões aconselhadas pela prudência e aplaudidas por Joaquim, pôs em discussão a matéria, quanto ao modo de obrigar o pedreiro a confessar a lura do tesouro. O Faísca tirou a salvo, porém, que o haviam de dispensar de assistir ao assalto porque, enfim, o homem... sempre era seu pai, e o sangue gritava.

Ninguém se riu na assembleia da sentimentalidade daquele filho: é que as ideias grandes e fundas abalam toda a casta de alma. Foi apoiado calorosamente Joaquim e até abraçado por um sócio de Felgueiras, processado por parricida.



VII

Naquele tempo, Famalicão, às nove horas de uma noite de Novembro, negrejava silenciosa e rodeada de pinheirais e carvalheiras. Aqueles palacetes brasonados com seus titulares campeiam hoje onde então rebalsavam extensos nateiros de lama, a espaços habitados por cabaneiros. A quadrilha de Luís Meirinho podia manobrar sem temor e desassombradamente no centro da vila como nas Rodas do Marão.

Em uma dessas noites, o chefe, com uma dúzia de escolhidos, entrou na Congosta de Enxiras, onde morava Bento de Araújo. Ele, com mais dois, acercaram-se da porta; os outros postaram-se de atalaia nas extremidades da viela.

O pedreiro estava ainda sentado à lareira. Desde que lhe disseram que o filho pernoitava às vezes em casa do Meirinho, velava até ser dia claro. O receio de ser assaltado era tamanho que já três vezes, em noites tempestuosas, gritara à d'el-rei. Os vizinhos, à primeira, acudiram vozeando das janelas com invulnerável intrepidez, e viram dessa feita que um porco vadio, atraído talvez pelo cheiro de pocilga, foçava contra a porta de Bento. Depois, ainda que ele gritasse, ninguém se mexia, atribuindo a porco as agressões incómodas ao avarento.

Foi o que aconteceu naquela noite de Novembro. O pedreiro sentiu o abeirar-se gente da sua porta e deu tento do raspar de ferro entre a ombreira e o batente. Gritou; mas parecia já gritar com os colmilhos apertados. A língua da fechadura estalou, e a porta foi diante de dois possantes ombros tão rapidamente que os homens, como duas catapultas, entraram de roldão e só pararam filando-se à garganta do velho empedrado.

Por entre eles, e à luz do canhoto que flamejava, o pedreiro viu lampejar o aço de uma navalha e ouviu, através dos lenços com que os hóspedes cobriam as caras, uma voz disfarçada:

- Se grita, você morre aqui já. Se quer viver, entregue as três mil peças que herdou, e ande depressa. Não nos conte lérias, nem faça lamúrias. É decidir: o dinheiro ou a vida.

Bento erguera as mãos suplicantes e pedira, soluçante, que o não matassem.

- Onde estão as três mil peças! - perguntou o Meirinho.

As três mil peças?! - gaguejou o velho como tolamente espantado de que lhe perguntassem por três mil peças não tendo ele de seu três moedas de seis vinténs.

- Mate-se este diabo! - acrescentou o Meirinho - e vamos levantar o soalho.

- Eu não tenho aqui o dinheiro, meus senhores... - acudiu o pedreiro desfeito em lágrimas.

- Então, onde o tem você?

- Enterrei-o debaixo de uma fraga...

- Perto daqui? Avie-se.

- Não, senhor, muito perto não é. São três quartos de légua... em Vermoim.

- Bem - concluiu o capitão. - Salte para diante de nós e venha desenterrar o dinheiro. Mexa-se!

O homem sentiu certos alívios nesta mudança de situação, como se expor a vida, salvando o dinheiro, lhe fosse uma considerável melhoria de fortuna.

A malta, precedida do velho, embrenhou-se nos matos, atravessou o outeiro que toca nas faldas da serra de Vermoim e por S. Cosme do Vale trepou ao espinhaço de penhascos que lá chamam o Castelo.

- Você não vá aflito - dizia-lhe o Meirinho -, porque há-de ter o seu quinhão com que pode viver regaladamente. O necessário não se lhe tira; nós o que queremos é o que lhe sobeja. Somos honrados ou não, seu velhote?

E dava-lhe palmadas nos ombros.

- Sim, senhor - dizia o Bento, e recolhia-se a cismar na situação perigosa em que se via e no modo de a esconjurar.

- Ande depressinha - tornava o chefe empurrando-o brandamente.

- Será bom ajudá-lo com alguns pontapés - alvitrava outro, receando que a manha lhes viesse tolher a empresa.

Chegados ao cabeço da serra, espigado de rochas, disse o Meirinho:

- Cá estamos. Onde é a fraga?

- Não enxergo bem... Só quando for dia é que eu conheço o sítio – respondeu Bento.

- Temo-las arranjadas... - tornou o Meirinho com um sorriso agoureiro de más coisas. - Ó Freiamunde, petisca lume e faze aí um archote de codessos para este tio ver onde está o arame.

- Parece-me que o melhor seria alumiá-lo com a luz da pólvora... – observou Freiamunde, bebendo alguns tragos de aguardente de uma cabaça que trazia a tiracolo. - Quer lá, capitão? Se lhe parece, dou dois goles ao velho como se faz aos perus...

- Tio Bento - insistiu Luís Meirinho -, você acha a pedra ou não acha? O dinheiro ficará enterrado; mas você também fica de papo para o ar à espera que o enterrem. Veja lá no que ficamos; lembre-se que está tratando com homens de palavra.

No entretanto, um da companhia petiscara fogo e comunicara o lume da mecha à manada de fetos secos apanhados debaixo de uma rocha que figurava um dólmen.

- Aí tem luz que farte - disse Luís. - Veja lã agora qual é a pedra, Tio Bento.

- Parece-me que é aquela... - respondeu ele a tiritar, já convencido de que estava chegado às últimas.

- Parece-lhe ou é? - instou raivoso o Meirinho. - Ande. Mostre lá o sítio. Ó Zé Landim, se for preciso desenterrar o morto, serve-te da tua faca. Patrão, estamos às suas ordens, diga lá onde quer que se cave; a cova há-de fazer-se ou para sair o dinheiro ou para entrar você.

Bento caixa sobre os joelhos como ferido de súbita apoplexia e começou a gaguejar uns sons ininteligíveis.

- Este alma de dez diabos que está a mastigar? - disse Freiamunde.

Neste momento, o pai de Joaquim caiu de borco, batendo com a face na pedra; e, quando dois homens o levantaram de repelão e o viram à luz dos fetos, estava morto.

Este incidente nem levemente impressionou aqueles homens fortes. Ninguém fez a mínima reflexão acerca do lance em teatro tão lúgubre. Os mais preocupados bebiam aguardente a frouxo, dizendo que o homem morrera de frio. Nem uma ideia filosófica, nem sequer um dito elegíaco! Luís Meirinho discorreu brevemente sobre a certeza de que o morto os tirara de casa para os desviar do lugar onde tinha o dinheiro. Decidiu que se aproveitasse o restante da noite indo a casa revolver a terra quanto se pudesse; e, no caso de lá não aparecer o dinheiro, viriam na seguinte noite escavar debaixo da rocha, no Castelo.

Assim se fez. Bento de Araújo ficou deitado de costas sobre uma moita de codessos, com os braços hirtos e abertos em cruz, os punhos cerrados e os olhos envidraçados de lágrimas. Ao alvorecer do dia, uma nuvem pardacenta, que ondulava pela costa da serra, rasgou-se em saraivada glacial, que lhe batia no rosto e saltava pelo peito nu e descarnado. Chovera e nevara depois, durante muitos dias. Nenhum pastor subira com o rebanho àquelas cumeadas, sempre escondidas na negridão da névoa e perigosas, se o lobo uiva faminto.

Quando o tempo estiou, quem denunciara o cadáver já disforme no rosto fora uma revoada de corvos que crocitavam pairando sobre os restos do seu banquete disputado às feras.



VIII

Contava-se assim o caso em Famalicão:

Que o Bento de Araújo, receando os ladrões seus vizinhos, desenterrara as suas riquezas que tinha debaixo da lareira e, indo escondê-las nos montados de Vermoim, em uma noite de grande inverneira, morrera tolhido pelo frio e traspassado da neve.

Fundavam-se os desta versão em que a pedra da lareira estava deslocada e no seu lugar uma cova funda; e debaixo dos bancos da cama outra escavação, e no entulho uns cacos de panela, onde com certeza estava porção do tesouro, e a outra porção debaixo da lareira.

Outro boato:

Que a malta da Terra Negra assaltara o pedreiro, roubara-o. matara-o e levara o cadáver ao castelo de Vermoim. Não se dava a razão deste saimento a três quartos de légua; mas também não era necessária a lógica para explicar tal coisa.

A versão, porém, mais popular e que tinha o sufrágio das pessoas mais razoáveis era que Joaquim assassinara o pai na serra, quando o velho voltava do seu trabalho de brocar pedra; e, depois, deixando-o morto, viera a casa desenterrar o dinheiro. Em confirmação do boato, alegava-se o facto de ele ter aparecido em Famalicão a procurar o pai e a indagar dos vizinhos se tinham dado conta do arrombamento da casa - isto no dia em que o pai já estava morto.

A voz pública forçou a autoridade a prender o Faísca; mas, na noite seguinte à da prisão, algumas dúzias de homens armados arrombaram a cadeia de Famalicão e tiraram de ferros o inocente.

Esta fuga completou a ruína de Joaquim de Araújo. Acreditou-se geralmente no roubo e no parricídio. As aldeias do julgado de Vermoim, com Famalicão à frente, deram montaria à quadrilha da Terra Negra, com o reforço militar de Guimarães e Braga. A malta dispersou, mortos alguns dos mais audazes; e os dispersos engrossaram, na Póvoa de Lanhoso, a celebrada quadrilha que tem a sua história em um livro dignamente esquecido (3).

O filho de Bento pedreiro morreu em 1809 no Carvalho de Este, defendendo a Pátria da invasão francesa comandada por Soult. Bateu-se com o heroísmo do suicida, ao cabo de dezoito anos de salteador, arrostado a todos os perigos, mas fugindo a que o filassem vivo, porque tinha grande horror à forca. Afinal, inscreveram-no entre os valorosos defensores da nossa autonomia, e o seu cadáver foi mais acatado que o do general Bernardim Freire, assassinado por outros patriotas da laia do Faísca.


1 - O Demónio do Ouro.





Compartilhe com seus amigos:
  1   2


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal