Camilo Castelo Branco a morgada de Romariz



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IX


Hão-de lembrar-se que Joaquim de Araújo tinha um filho, que aprendera em S. Martinho do Vale o ofício de fogueteiro com o parente de sua mãe.

Aos vinte e seis anos, quando seu pai acabou, estava ele ainda na companhia do velho benfeitor e mestre, ganhando alegremente o seu pão. Falecido o parente, alguém lhe disse que ele tinha em Vila Nova de Famalicão a casa, boa ou má, de seu avô, que ninguém lhe podia disputar.

Facilmente se habilitou herdeiro de Bento de Araújo e tomou posse do casebre, desabitado desde 1790. Às vezes, os mendigos, nas noites quentes, levantavam a aldraba, que era um cavaco de castanho, e albergavam-se no sobrado podre, contando os casos horrendos que ali passaram - o parricídio e o roubo. As covas estavam ainda abertas e o desentulho em montículos de redor.

Silvestre de S. Martinho, o filho do Faísca, não usava dos paternos apelidos: do pai aproveitara somente a casa, transigindo com a honra o necessário sem prejuízo seu.

Apossado da casa, deu-lhe um jeito para poder habitá-la e pendurou meia dúzia de foguetes e bombas reais à porta. Era habilidoso, principalmente para as bonecas de pólvora. Gabava-se de haver inventado o barbeiro a amolar navalhas na roda e levara à perfeição da indecência a velha que despedia contra a cara combustível do barbeiro um repuxo de chispas pela pane posterior, tudo com uma graça portuguesa que era um estoirar de riso o arraial!

Corria-lhe bem a vida e já tinha casado com uma rapariga dura e trabalhadeira, quando o descuido de um aprendiz, na ausência dos patrões, deixou pegar o lume em um feixe de bombas. Houve explosão, que sacudiu em estilhas o tecto da casa e abrasou todas as madeiras. Quando Silvestre voltou com a mulher da romagem da Santa Eufémia, nas terras da Maia, encontrou quatro paredes denegridas e o interior da casa a fumegar, cheio da brilhante claridade da Lua. O aprendiz, carbonizado, estava já na cova.

Tiveram compaixão do pobre fogueteiro os Vila-Novenses. Diziam-lhe que construísse uma cabana com as esmolas que lhe iam tirar pela freguesia; mas que a fizesse noutra pane, porque naquela casa, onde um filho matara seu pai para o roubar, pesava a maldição de Deus. Um vizinho comprava-lhe o terreno da casa amaldiçoada para acrescentar à sua; mas deixava-lhe a pedra, que era boa para o fogueteiro edificar noutra parte. Silvestre aceitou, convencido de que o sangue de seu avô funestara para sempre aquele teatro do grande crime.

Recebido o terreno de esmola, principiou Silvestre a demolir as paredes da casa queimada. Fazia ele este serviço, com ajuda da mulher, enquanto o carreteiro ia carreando a pedra.

Às três da tarde de um sábado o carreteiro, consoante o costume, despegara do serviço; mas Silvestre e a mulher continuaram a desfazer o último lance de parede que lhe restava, com o fim de na próxima segunda-feira acabarem o trabalho da demolição.

Observara o fogueteiro que este lado da parede quadrilátera era mais grosso um palmo que os outros que formavam o recinto, reentrando para o interior o excedente da grossura. Estava coberta de pasta de barro e caleada como as outras. Divisava-se ainda no barro gretado o risco traçado pelo atrito de qualquer como que se encostara à cal ainda fresca.

Por esta raspadura, conjecturou Silvestre que ali devia estar o banco da cama do avô, até porque ouvira dizer que parte do tesouro estivera enterrado debaixo da cama; e ele, quando tomara posse da casa, ainda vira a cova aberta, dois palmos distante daquela parede.

- A pedra aqui é mais larga - disse o fogueteiro à mulher.

- Agora é! - emendou ela. - O que a faz parecer mais larga é a camada de barro; senão, olha.

E começou a picar ao longo da parede com a extremidade aguda da alavanca, e o barro, esboroando-se e desacamando a pedaços, deixava descobrir a superfície da pedra, que não era mais grossa que a outra.

- Dizes bem, é isso - aprovou o marido. - Vamos apeando a parede por esse lado, que o bano, ele se despegará.

E, dizendo, pegou noutra alavanca e começou a derribar as capas da parede, enquanto a mulher, para não estar com as mãos debaixo dos braços, ia descaliçar a camada barrenta. Quando atirava rijamente com a ponta da alavanca à parede, notou que o ferro batera e se cravara em pau.

- Aqui há madeira - disse ela.

- E alguma cascaria que tinha mão no barro - explicou Silvestre.

A mulher repetiu os golpes em diversos pontos na circunferência de dois palmos e tirou sempre o mesmo som.

- Parece que bate em vão... - notou ela.

- O quê?! - acudiu o marido, descendo do andaime em que trabalhava. - Bate em vão! Que dizes tu?!

- É o que te eu digo... Olha... Ouves?

- Ó mulher! - exclamou ele, cravando-lhe os olhos cheios de palpites que a língua não ousava formular.

E como nesse comenos passasse gente, e parasse a olhar para as ruínas, o fogueteiro fez um trejeito à mulher, que ela entendeu, calando-se.

- Ajunta a ferramenta, Maria, e vamos embora, que já mal se enxerga - disse ele.

- Lá vai a casa do Bento pedreiro, Deus lhe fale na alma! - disse o mais ancião dos curiosos. - Que dinheirão aqui esteve neste pardieiro! Cinquenta e seis mil cruzados! Era o homem mais rico da vila e seu termo, e tanta necessidade passava aquele alma do diabo, Deus lhe perdoe, para afinal o dinheiro ser repartido pela quadrilha do Luís Meirinho, que também o levou berzabum com duas balas que lhe meteram na barriga ali à ponte de Santiago!

- São fadários, Tio Simeão!... - disse Silvestre.

- Você podia a esta hora estar rico como um porco, se tivesse outra casta de pai... - tornou o velho.

- Assim é; mas não o quis Deus. Desgraças...

- Ora faça você de conta que tinha achado aí o dinheirame do seu avô!

- Ainda venho a tempo!...

- Pois sim; mas faça de conta que o topava! Você que fazia, ó Sor Silvestre?

- Eu sei cá, Tio Simeão!

- Foguetes é que você não fazia mais!, aposto dobrado contra singelo!

- Não falemos nisso... Foguetes é que eu hei-de fazer toda a minha vida, e Deus me dê saúde para os fazer.

- Amen; mas você, se se pilhava com as três mil peças, metia a vila toda num chinelo e pintava aí o diabo a quatro!

- Está enganado!, não pintava nada... Comprava uns benzinhos, e havia de trabalhar neles, como trabalho nos foguetes.

- Vem daí, homem - disse Maria, já aborrecida das impertinentes perguntas do Simeão, que, encostado à sachola, parecia jubilar nas pachorrentas hipóteses e nas delícias de coçar uma perna com a outra alternadamente.

Simeão foi seu caminho com os outros; e o fogueteiro e a mulher seguiram para casa; mas, assim que as portas e janelas se fecharam na rua, aí estavam eles outra vez sobre o cascalho, raspando com ferramentas pouco ruidosas a parede no espaço em que o som do vácuo respondia ao toque do ferro.

No termo de curta fadiga tinham descoberto uma superfície lisa de madeira, envasada na parede como a portada de um postigo. Facilmente desencaixilharam a tábua do envasamento de pedra, porque não tinha dobradiças nem outra firmeza além da que lhe dava a espessa camada de barro. Silvestre introduziu a mão e topou um corpo frio.

- Que achas? - perguntou Maria ofegante com as mãos postas.

- É um panela de ferro... - balbuciou ele. - O mulher!... tem mão em mim, que não sei o que me dá pela cabeça!...

- Nossa Senhora! - exclamou ela - Nossa Senhora!...

E, em vez de ter mão no homem, meteu ambos os braços até achar a panela, enquanto Silvestre abria e fechava a boca em trejeitos de tão estúpida felicidade que só a suprema desgraça os poderá fazer iguais.

Nisto, a rija mocetona arrancava da lura o peso enorme de ouro; e, caindo de cócoras com o pote no regaço, exclamou sufocada:

- Ai Jesus!, que eu morro de alegria!...

Silvestre apertava o ventre com as mãos. Esta postura não é ridícula nem inverosímil para os que sabem que os intestinos quase nunca são estranhos às comoções grandes.

Aos primeiros assomos da seguinte aurora, a parede estava arrasada. Os vizinhos ouviram o ruído da assolação e cuidaram que a derribara um pegão de vento.

Mas, na semana seguinte, a obra da casa nova parara. O fogueteiro dizia aos seus benfeitores que ia mudar de terra e talvez mudar de vida..82

X

Por esse tempo, um fidalgo da corte de D. João VI mandou vender as suas vastas propriedades na província do Minho. Nos arrabaldes de Barcelos demorava a principal das quintas que havia sido paço senhorial. Chamava-se a Honra de Romariz e já fora dote de D. Genebra Trocosende, no século XII, casada com D. Fafes Romargues, filho de D. Egas, que gerara D. Fuas, e tão copiosa e compridamente se geraram uns dos outros que afinal degeneraram na pessoa do fidalgo que mandou vender a casa solarenga, para cruzar ricamente uma dançarina sobre os leões rompentes do seu escudo.

Chamava-se Silvestre de S. Martinho o comprador, que contara na mesa do tabelião de Barcelos vinte e cinco mil cruzados em peças de 7$500 réis. Quantos casais e leiras o filho de Joaquim Faísca pôde comprar à volta da Honra de Romariz incorporou-os no cinto de muralha que foi alargando a termos de arredondar a mais vasta e formosa vivenda do coração do Minho.

Em 1826, quando Silvestre já desesperava da fecundidade da esposa, em anos bastante serôdios, deu-lhe ela uma menina que se chamou Felizarda. Aos oito anos, a moça, filha única e conhecida pela morgadinha de Romariz, já bastante espigada e gorda, levava folgada infância. Aos dezoito anos, compu-seram-se-lhe as feições com proeminências grandes, mas esbeltas. A fertilidade do peito dizia com a curva tumecente das espáduas. Felizarda tinha uns arquejos de cansaço que lhe alinhavam o carmim do bom sangue.

Um bacharel formado, que aspirava de longe os olores desta flor de girassol, queixando-se da demora que ela pusera em chegar a uma festividade de igreja, fez-lhe o seguinte improviso, depois de trabalhar três dias a rima:
Eu, que sou fogo, não tardo,

ela, que é gelo, é que tarda.

Se eu, que amo, feliz ardo,

FELIZARDA feliz arda.
Ela deu pulos a rir como se tivesse a critica de Mad. Girardin. Por esse tempo, 1846, Silvestre de S. Maninho estava muito rico, mas muitíssimo aborrecido na diluente ociosidade de tantos anos. Às vezes mandava comprar pólvora bombardeira, furava canudos, apertava-os com guita alcatroada e fazia foguetes para se distrair. Felizarda, bastante entretida com a arte, pedia à mãe que lhe ensinasse a fazer valverdes e bichinhas de rabear.

A Srª D. Maria, excelente matrona e mãe, não se enfastiava, como o esposo, porque mourejava sempre na casa e na quinta, fiava ou dobava nas noites grandes com as criadas à lareira e envergonhava os servos calaceiros batendo as meadas no lavadouro, ou padejando as broas na cozinha.

Mas o marido, que, tirante as diversões pirotécnicas, não fazia nada, andava dispéptico e clorótico, quando teve de optar entre fogueteiro e político.

Era no tempo da Patuleia. Silvestre manifestara-se progressista nas belicosas eleições de 1845, em Barcelos, e sentiu-se invadido pela paixão sociológica por causa do canibalismo dos fuzilamentos de Alvarães. No ano seguinte, influiu no movimento de Maio e manteve-se nas ideias avançadas até Outubro, em que os agentes da junta do Porto lhe embargaram, no Largo da Aguardente, duas cavalgaduras que iam à praia da Foz buscar a mulher e a filha. Neste conflito, oscilou politicamente entre os irmãos Passos, que amamentavam a República nos seios dessorados da liberdade caquéctica, e o padre Casimiro José Vieira, o Defensor das Cinco Chagas, que proclamava D. Miguel.

Aliciaram-no ao seu partido alguns sectários da realeza absoluta, que viam desde a ponte de Barcelos a política europeia e traçavam com as bengalas no Campo das Cruzes as evoluções militares e triunfais dos exércitos russos. Silvestre não subia nestas compreensões tão alto como os seus foguetes de três respostas, mas entendia que, tendo as coisas de dar volta, não lhe seria mau adoptar o partido vencedor. Ofereceu dinheiro ao Dr. Cândido de Anelhe e ao advogado Francisco Jerónimo para se enviará Lua (1).

À sua generosidade respondeu magnanimamente a assembleia realista condecorando-o com a comenda de S. Miguel da Ala. Ele já era Rosa Cruz, graduado na hoje extinta viela da Neta, por José Passos. Abriu-se um pleito de liberalismo entre Silvestre e a cabeça visível de el-rei absoluto. Boa porção das peças intactas do defuntíssimo Jóia passaram para o cinturão do aventureiro escocês Macdonnell, e depois para os bornais dos soldados de caçadores que o espingardearam em Sabroso. Ó fados do dinheiro! Que estremeções não daria na cova o cadáver do Bento pedreiro, se os corvos e os lobos o não tivessem comido na serra!

Extintas as facções políticas, Silvestre, por insinuações da mulher, entrou a desconfiar que era tolo e que o Sr. D. Miguel não o conhecia. Retirou-se da política, cheio de desenganos e ridículo. Os funcionários administrativos e judiciais de Barcelos zombavam dele e, no Periódico dos Pobres, um «Amigo da verdade» escreveu que o Silvestre de Romariz, no auge da sua dor, fabricava foguetes de lágrimas. Alusão perfurante que ele soletrou na folha.

A respeito de soletrar, a morgada recebia cartas de um amanuense da Câmara de Barcelos; mas só abriu sete que ajuntara quando uma costureira lhas leu. Felizarda criara-se sem letras e vivia, a respeito de literatura, como as raparigas gregas antes de Cadmo, filho de Agenor, introduzir na Grécia o alfabeto fenício; mas, em compensação, tinha muita flor nativa e fresca de acres aromas naquele aflante seio e folgava de ouvir trovas de chula e desafios de cantares em que às vezes a frase estava pedindo a intervenção da polícia.

Direi do amanuense da Câmara Municipal de Barcelos:

Era um sujeito que perlustrara as regiões da ciência por toda a extensão do

Manual Enciclopédico do Sr. Emílio Aquiles de Monteverde. Era autor de charadas impressas. Só a Felizarda 6. Tinha este moço, José Hipólito de nome, imensa fé na brisa, no paul, na justiça e no arcanjo da poesia de 1840. Os duendes das suas visões nocturnas nas margens do Cávado sangravam-no. Era melancólico e magro como um galgo doente. A sua paixão grande, não falando na falta de dinheiro, era Felizarda.

Ganhava três tostões na escrivaninha da Câmara e devoravam-no aspirações a ter cavalo e carrinho. Entretanto, andava pelas casas a recitar a poesia de Paimeirim:


Que poeta que não era

Da linda Inês o cantor;

ou, da lua de Londres, o

É noite; o astro saudoso

Rompe a custo o plúmbeo céu, etc.
E chorava quando os versos coavam fúnebres.

Felizarda não parecia talhada (sem calemburgo) para este homem; ele, porém, talhara-se para ela. Far-se-ia boi, como Júpiter, para arrebatá-la, bem que os seus instintos voláteis o levassem para cisne, se Felizarda tivesse, além dos próprios, os instintos um tanto bestiais de Leda.

Escreveu-lhe sete missivas profusas e tristes como os sete pecados mortais. A costureira que as leu debulhava-se em lágrimas e decorava períodos para responder às cartas de um furriel do 13 de infantaria. Felizarda ouvia aquelas coisas com a atenção de uma rã que emerge à flor do lago os olhos espantadiços e escuta um rouxinol. Como as prosas levavam recheio de quadras, assim que a morgada dava tento da rima, espirrava um frouxo de riso, tal qual como no lirismo de Santo António, no Teatro de S. Geraldo.

Tinha aquele aleijão! Era - quem sabe? - a preexistência desta enorme gargalhada que hoje atabafa os golfos da poesia subjectiva.

A costureira interpretou-a e respondeu, vestindo a ideia de Felizarda com palavras inocentes, mas facinorosas em ortografia. O amanuense amava-a deveras: leu a carta, em que era chamado bem da menina com v; e, dando os pêsames ao seu Monteverde, fez votos de educar Felizarda nas quatro panes da gramática, se um dia conjugasse o verbo amar, que só é verdadeiramente regular quando o matrimónio o defeca.

Trocaram-se cartas assíduas. Felizarda começava a ser um pouco séria, pouseira e sensaborona. Amava. Entre a psique e a outra abriram-se as válvulas de comunicação.

Tinha morbidezas de Ofélia e indigestões por falta de exercido. Não saia do mirante que olhava para o caminho do carro. José Hipólito passava por ali aos sábados de tarde; e, se a solidão era absoluta, perguntava-lhe como passou. E Julieta, debruçada sobre o varandim do miradouro, com a face rubra e o seio ondulante, dizia-lhe que passou bem.

Nas cartas, falou-lhe em matrimónio, o amanuense. Ela respondeu que sim. José Hipólito, esporeado pelo amor, abalançou-se à interpresa de que os amigos o dissuadiam. Pediu-a ao pai, e arrependeu-se. Silvestre perguntou-lhe quem era e quanto tinha. Ouvida a resposta, disse gesticulando um esgar de desprezo:

- Ora adeus... O senhor, se não é tolo, parece-o.

Despediu-o apontando-lhe para a porta. Depois chamou a filha e perguntou:

- Que diabo é isto? Onde conheceste o pelintra que te veio pedir para mulher?

Ela contou ingenuamente o caso, mostrou as cartas, confessou quem lhas lia, quem lhes respondia, e concluiu:

- Assim como assim, já agora quero casar com ele.

O pai expediu berros cortados de interjeições brutas. A filha fugiu, a soluçar, e não apareceu ao jantar nem à ceia.

E a mãe, a mulher laboriosa que nunca pensara nas soberbias implacáveis da riqueza, dizia ao marido:

- Se ela gosta do rapaz, deixa-a casar... Bem me pregava meu pai que não casasse contigo porque tu eras filho de quem eras. E daí? Casei e nunca me arrependi.

- Queres dizer na tua que dê a minha filha com oitenta mil cruzados a um troca-tintas que não tem casa, nem leira, nem...

- Tem-na ela, homem. A riqueza chega para os dois. Trata de saber se ele é bom rapaz; e, se for, deixa-a casar, que tem vinte anos.


1 - Os realistas usavam nas suas correspondências termos convencionais. Lua era o general-chefe Macdonnell. Este general, quando foi batido pelo conde de Casal em Braga, deixou ali um volumoso dicionário manuscrito, curiosamente elaborado pelos realistas de algum vulto lexicológico, com bastantes documentos que hoje estão esquecidos e mais tarde a história não saberá onde procurá-los. Neste dicionário criptográfico os vocábulos mais engenhosamente disfarçados são estes:

Inimigos - BESTAS.

Inimigos em movimento - BESTAS DESINQUIETAS.

Inimigos em marcha contra nós - BESTAS DE JORNADA.

Os liberais, se interceptassem a correspondência, não suspeitariam decerto que os miguelistas chamassem aos seus adversários bestas.

Leia-se a Carta Dirigida ao Cavalheiro José Hune, Membro do Parlamento, sobre o Último Debate Havido na Câmara dos Comuns a Respeito dos Negócios de Portugal, etc., Lisboa, 1847.

O tradutor e anotador anónimo desta obra, a mais noticiosa que ternos da revolução chamada da Maria da Fonte, foi António Pereira dos Reis, notável escritor político, falecido em 1850.

XI

José Hipólito criara protectores esperançados no bom êxito da tentativa. Os inimigos políticos de Silvestre de Romariz coadjuvaram-no a tirá-la judicialmente.

O juiz prestou-se a interrogar a morgada, visto que ela não podia requerer por seu pulso. Supridas legalmente as formalidades, Felizarda foi depositada em Barcelos, no seio da família Alvarães.

Trava-se então a luta nos tribunais. O pretensor, mal dirigido pelo seu advogado, responde com retaliações pungentíssimas a insultos que o argentário lhe dirige ao seu nascimento obscuro e à sua pobreza. A pugna passara a ser um assanhado pugilato dos dois causídicos.

Um dos membros da família Alvarães era moço, chamava-se José Francisco e estudava o 5º ano de Latim a ver se aprendia o necessário para cónego da colegiada barcelense. Tinha quatro reprovações conscienciosas em Braga; mas ao 5º ano já distinguia o verbo do complemento objectivo e traduzia com poucos erros a Ladainha.

A família Alvarães era antiga e abastada; contava muitos frades bernardos na prosápia e um governador em uma praça da Ásia, donde trouxera navios de especiarias que formaram o casco da riqueza. A casa tinha pedras de armas e uma liteira brasonada que antigamente ia a Alcobaça buscar os frades a rusticar nas pescarias do Cávado e a encher as roscas da caluga, balofas pela inércia do claustro.

José Francisco, o estudante, era sanguíneo, nédio, com as maçãs do rosto vermelhas e os olhos enfronhados nas pálpebras sonolentas. Felizarda, a noiva depositada, pareceu-lhe bem, ao passo que o amanuense da Câmara lhe era um antipático bandalho, desde que em plena praça o enxovalhara perguntando-lhe, no 3º ano de Latim, o acusativo de Asinus. Opusera-se José Francisco à recepção da morgada para haver de casar com José Hipólito, filho do Manuel Colchoeiro; mas força maior obrigara os Alvarães a protegerem o amanuense.

Às vezes, o futuro cónego pasmava-se a contemplar Felizarda e sentia em si as suaves dores da natureza em pano do primeiro amor. Se ela, a morgada, olhava para ele a fito, produzia-lhe no rosto o efeito do Sol que aponta em dia de calma - avermelhava-o até aos glóbulos das orelhas; e José coçava-se a disfarçar, ou esbofeteava as moscas que lhe passeavam sobre a epiderme oleosa e faziam titilações incómodas nas fossas nasais.

A morgada achava-o bonito e dizia às irmãs que era pena fazerem-no padre. José, quando soube isto, criou umas esperanças que o tresnoitavam e tinha as sentimentalidades doloridas de Jocelin e dum ou outro clérigo de Barcelos que deixava vingar-se a natureza.

Procurava José Francisco Alvarães modos de conversar com Silvestre de Romariz e contava-lhe o que a filha dizia a respeito do Hipólito. Levava à depositada cartas do pai e lia-lhas às escondidas da família. O amanuense suspeitara-o e tratava de remover o depósito, alegando subornos que a lei não facultava.

Ora, naquelas confidentes leituras, estabelecera-se intimidade bastante entre a morgada e o intérprete das lástimas de seu pai. Duma vez que Felizarda enxugava as lágrimas, ouvindo ler o adeus que o pai enfermo lhe enviava, José Francisco, transportado num rapto inconsciente de entusiasmo, pegou-lhe na mão e disse com terníssima meiguice:

- Não case contra vontade de seu pai... Tenha pena dele, que está tão acabadinho...

A morgada pôs-se a torcer e a destorcer o seu lenço branco e a lamber uma lágrima que lhe pruía no beiço superior; mas não respondeu.

Alvarães foi contar isto ao velho. Silvestre pegou no processo que o seu advogado lhe enviara e disse-lhe:

- Faça-me o Sr. Josezinho o favor de levar estes autos e ler a minha filha o que o tal patife, que quer ser seu marido, aqui diz de seu pai: leia-lhe isto, e veja o que ela diz.

O leitor já sabe, por eu lho haver dito nas primeiras páginas deste livrinho, que o indiscreto amanuense consentira que se escrevesse que o pai de Silvestre fora salteador de estradas e que o pai de Felizarda exercitara o baixo mister de fogueteiro em Famalicão.

Tudo isto era expendido na tréplica de José Hipólito com grande lardo de zombarias e sarcasmos em estilo picaresco. A morgada ouviu ler as injúrias entoadas com veemência por José Francisco, que as declamou como se estivesse traduzindo um período de Eutrópio.

Concluída a leitura, Felizarda, antes que o leitor a interrogasse com os olhos, exclamou:

- Quero ir para casa de meu pai, e há-de ser já. O Josezinho vai comigo. Mande dizer a meu pai que me mande a burra.

José foi dar parte à família da súbita resolução da morgada; o depositário foi dar pane ao juiz, e o juiz respondeu que a lei não podia empecer à vontade da depositada.

Quando estas altercações chegaram à notícia de José Hipólito, a filha de Silvestre ia já caminho de casa, acompanhada pelo estudante e pelas irmãs.

O pai e a mãe receberam-na nos braços, ofegantes de júbilo, a pedir-lhes perdão da sua doidice. Silvestre abraçava José Francisco Alvarães chamando-lhe o salvador da sua filha e da sua honra. A santa mãe de Felizarda olhava para o estudante com os olhos cheios de riso e dizia:

- Não queira ser padre, Sr. Josezinho... Olhe que o meu homem já disse que, se Vossa Senhoria quisesse a nossa rapariga, que lha dava, e eu também.

José olhou estupefacto para o velho; Silvestre entendeu o espanto e disse-lhe:

- Não olhe para mim, que eu não sou o que caso; olhe para a minha filha e veja o que ela diz. Felizarda, queres casar com o Sr. José Francisco?

- Se o pai quiser... também eu. - E escondeu o rosto no seio da mãe com umas visagens que pareciam de entremez mas que eram da maior naturalidade.

As irmãs de José Francisco rodearam-na e beijaram-na sofregamente, enquanto o noivo, alumiado por aquele improviso e inesperado lampejo de felicidade, achou no coração estas frases que balbuciou, abeirando-se da morgada:

- Se a menina casasse com o outro, eu acho que morria de paixão, e mais nunca lho disse.



Conclusão

Quando os vi em Braga, no Teatro de S. Geraldo, estavam casados havia já vinte e cinco anos. Na casa de Romariz, durante essa temporada, apenas pesaram dias funestos quando se fecharam as sepulturas de Silvestre e sua mulher.

José Francisco Alvarães era um modelo raro de continência conjugal. Em Portugal só se conhecem dois exemplares: el-rei D. Afonso IV e ele. As diversões da vida, convencionalmente chamadas prazeres, não perturbaram a sua monotonia de Romariz.

D. Felizarda apenas conhecia na arte dramática o Santo António, de Brás Martins, e a Degolação dos Inocentes, por onde entrou na vida infame de Herodes. As noites de Dezembro aligeiravam-se em Romariz a dormir. Ceavam e digeriam serenamente. Ao pé de um bom estômago coexistiu sempre uma boa alma. Acordavam alegres para continuar as funções animais. Viviam para crédito da fisiologia: eram duas pessoas que se adoravam e faziam reciprocamente o seu quilo em um só órgão.

Tinham um coração, um fígado e um pâncreas para os dois. Nesta vida vegetal havia ternuras cupidíneas, como as das cilindras e acácias florescentes; e, quando extravasavam da órbita fisiológica. jogavam a bisca de três; mas ordinariamente entretinham-se mais com o burro.
De S. Miguel de Seide, Julho de 1876

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