Caminhadas Turísticas no Centro Histórico de Porto Alegre – construindo significados turísticos, históricos e culturais



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Caminhadas Turísticas no Centro Histórico de Porto Alegre – construindo significados turísticos, históricos e culturais
Ivone dos Passos Maio1
A verdadeira arte de viajar...
A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!

Mario Quintana

O Turismo pode ser considerado um “assunto do momento”, no mundo, chama a atenção o alto desempenho de sua economia que a cada ano aumenta o fluxo de turistas, o movimento e a geração de divisas. No Brasil, o Turismo ganha cada vez mais espaço devido à expectativa que os megaeventos que serão sediados no país e também em Porto Alegre tem suscitado.

Sabe-se que o Turismo em muito transcende a dimensão econômica e comercial. O Turismo, entendido como um fenômeno social, revela muito sobre a sociedade, seus costumes e valores culturais conforme teorizou Urry (2001). Acredita-se que o turismo, além de uma atividade comercial, é uma forma de enquadrar o mundo, expressando ideologias, significados e valores a seu respeito (MACCANNELL 2006).

Além disso, o fenômeno turístico é complexo e multifacetado, envolvendo questões do universo da Ecologia, da Antropologia, da Sociologia entre outras (JAFARI apud LOHMAN e PANOSSO NETO 2008). Esta complexidade inerente ao turismo pode ser percebida na definição de De La Torre (1992 apud BARRETTO 2000, p.13):

o Turismo é um fenômeno social que consiste no deslocamento voluntário e temporário de indivíduos ou grupos de pessoas que, fundamentalmente por motivos de recreação, descanso, cultura ou saúde, saem do seu local de residência habitual para outro, no qual não exercem nenhuma atividade lucrativa nem remunerada, gerando múltiplas inter-relações de importância social, econômica e cultural.
Não há uma definição unânime do conceito, talvez justamente pela sua complexidade. Grünewald (2003, p.141) afirma que “a amplitude do termo parece caber desde ao olhar visitante a um monumento na própria cidade de origem até ao passeio em lugares totalmente desconhecidos de outros países”. O autor entende que independente do enfoque dado à definição do conceito, sua prática ou sua estrutura, esta deve considerar se as pessoas se sentem ou não em turismo (grifo do autor). Este entendimento, com dimensões simbólicas e subjetivas, parece adequado para uma de nossas reflexões que envolve fazer turismo em sua própria cidade.

O Turismo Cultural é um dos segmentos turísticos que mais vem se destacando. Segundo Barretto (1998) viagens com cunho educacional/ cultural tem se mostrado em ascensão, contrastando com um tipo de turismo mais descompromissado e ligado ao lazer – tradicionalmente identificado ao turismo de sol e praia.

Para Pereiro (2002, p.1) “está sobretudo em curso uma mudança do gosto e da motivação dos turistas, que procuram cada vez em maior número formas de turismo cultural.” Uma das evidências empíricas para isso, seria o grande número de passeios, roteiros com enfoque cultural propostos por entes públicos e privados nas pequenas e grandes cidades.

Do ponto de vista do turista, esse tipo de experiência é uma oportunidade de acumular conhecimentos através de uma vivência prazerosa. Do ponto de vista dos equipamentos culturais, o turismo tem sido uma atividade que contribui para sua manutenção e revitalização.

Em Porto Alegre, um projeto tem chamado bastante atenção: o Viva o Centro a Pé2. Iniciado há cerca de quatro anos, promovido pelo Gabinete da Primeira Dama e as Secretarias do Planejamento, da Cultura e de Turismo, o projeto oferece caminhadas orientadas por professores universitários das áreas de História, Arquitetura, Artes, entre outras. A objetivo principal era divulgar o Caminho dos Antiquários3 e também incentivar as pessoas a conhecerem o patrimônio histórico-cultural da cidade, em especial do Centro Histórico. No verão de 2010, nos meses de janeiro e fevereiro, devido ao período de férias docente, as caminhadas ficaram por conta dos Guias de Turismo da Secretaria Municipal de Turismo, que habitualmente atuam na Linha Turismo. Tal experiência consistiu em um grande desafio, uma vez que o Viva o Centro a Pé já possuía bastante reconhecimento da sociedade e um nível alto de exigência dos seus participantes.

Avalia-se a experiência das caminhadas turísticas de verão como um momento/espaço de produção de sentidos e significados sobre a cidade, seu patrimônio, sua história, seu valor turístico. As caminhadas são, uma oportunidade para sensibilizar a população e os visitantes sobre a importância destes espaços e de sua preservação. Esta reflexão está presente na fala do garoto de 10 anos, morador de Porto Alegre, que demonstra preocupação com o vandalismo observado durante o percurso:

“A gente não tem idéia do tempo que foi preciso para entalhar essas esculturas e pedras, e tem quem venha nesses lugares para pichar” (entrevista concedida em 09/01/2010, durante a caminhada).

É importante dizer que o patrimônio não se apresenta com um valor em si mesmo, é preciso envolver as pessoas para que juntas percebam e construam valores e significados (PEREIRO, 2002). Da mesma forma, um objeto ou paisagem não possui um valor turístico intrínseco, este valor é uma construção social. Neste sentido, o papel do Guia de Turismo é fundamental, pois como mediador cultural ele “apresenta”, informa, seduz, envolve o público, agregando valores a bagagem cultural e informacional que estas pessoas trazem.

MacCannell (2006), com base na semiótica de Peirce, entende as atrações turísticas como signos. Entendendo que signo representa algo para alguém. Para além do objeto visitado existem informações a ele vinculadas, que o dotam de sentido e o transformam em atração turística. Tais informações são denominadas de marcadores. Os marcadores estão presentes em uma variedade de suportes, são fotos, textos, comentários de um amigo, bem como as informações pontuadas pelo Guia de Turismo. Dois depoimentos de participantes das caminhadas contribuem para compreender a importância dos marcadores:

Sobre o Viaduto Otávio Rocha:

“É impressionante saber como e porque este viaduto monumental foi construído” (Turista de Campo Bom/RS, entrevista concedida em 09/01/2010 durante a caminhada).

Sobre a caminhada orientada:

“É uma visita ao passado, interessante não só para turistas como para moradores que, por não conhecerem, não atribuem valor à própria cidade" (Turista de Irara/BA, entrevista concedida em 09/01/2010 durante a caminhada).

Neste sentido, as caminhadas orientadas pelo Centro Histórico, possuem grande importância. Os locais visitados ganham sentidos e significados pela sua divulgação, pela própria escolha de “merecerem” fazer parte de um roteiro, e de forma muito especial pela fala do guia que (re)apresenta, (re)significa, cada um dos espaços, cada uma das paisagens do roteiro perseguido. O espaço talvez seja o mesmo percorrido cotidianamente por muitos daqueles que fazem as caminhadas, mas a partir dos marcadores, presentes na fala do guia, a cidade vai ganhando outros significados. O olhar é direcionado a detalhes que passavam desapercebidos. A paisagem vai sendo preenchida por valores históricos, culturais e turísticos, como se pode observar na fala da visitante procedente de Canoas/RS:

"Normalmente, passamos na correria e não percebemos a beleza do lugar". (entrevista concedida em 23/01/2010 durante a caminhada).

Acredita-se que o turismo devido a sua complexidade e capacidade de abraçar e envolver tantas áreas, ao seu potencial lúdico, prazeroso deve não só buscar a partir de seu desenvolvimento gerar ganhos econômicos e sociais como a geração de emprego e de renda, mas também promover a valorização dos locais em que ocorre e conseqüentemente de seus moradores. A experiência turística deve ser compreendida como um espaço de produção de sentidos e significados sobre a cidade, de valorização de seu patrimônio, sua memória, seu valor turístico; contribuindo para a sensibilização da importância destes espaços e de sua preservação.



Referências:

BARRETTO, M. O Grand Tour revisitado in CORIOLANO, L. N. M. T. (Org.). Turismo com Ética. Fortaleza: FUNECE, 1998.

GRÜNEWALD, R. Turismo e Etnicidade. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 9, n. 20, p. 141-159, outubro de 2003.

LOHMANN, G. e PANOSSO NETTO, A. Teoria do Turismo: conceitos, modelos e sistemas. São Paulo: Aleph, 2008.

MACCANNELL, D. The tourist: a new theory of the leisure class. Berkeley, LA: California Press, 2006 (1996).

PEREIRO, Xerardo. Itinerários turístico-culturais: análise de uma experiência em Chaves. Actas do III Congresso de Trás-os-Montes. Bragança, Setembro de 2002. (Disponível em http://home.utad.pt/~xperez/ficheiros/publicacoes/turismo_cultural/Intinerarios_Turismo_Cultural_Urbano.pdf)




11 Bacharel em Turismo (PUCRS), Mestre em Turismo (UCS), Técnica em Turismo da Secretaria Municipal de Turismo. ivonemaio@turismo.prefpoa.com.br Fone: 3289 6700

22 Para mais informações sobre o projeto, acesse www.portoalegre.rs.gov.br/vivaocentro

3 É caracterizado por ser um passeio cultural cujo foco é a concentração de Antiquários no “triângulo” formado pela Praça Daltro Filho, a Praça Marquesa de Sevigné e o Viaduto da Borges de Medeiros. O trajeto conta também com cafés, bares, butiques e outros serviços. Aos sábados, ocorre a Feira do Caminho dos Antiquários, que consiste em exposição de antiguidades, artes plásticas e performances artísticas na Rua Mal. Deodoro e na Pça. Daltro Filho. Mais informações pelo site www.caminhodosantiquarios.com.br.


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