Capitalismo e Tecnologia: as transformações na produção e o surgimento da Nova Direita



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Simpósio 31: Ciência, Tecnologia e História Econômica

Capitalismo e Tecnologia: as transformações na produção e o surgimento da Nova Direita



Tatiana Poggi

Universidade Federal Fluminense - Brasil

tatiana.poggi@gmail.com
O projeto social-democrata de sociabilidade construíra durante o entreguerras uma forte hegemonia, sendo aceito por amplos setores sociais durante muitas décadas, aproximadamente até o fim da Guerra Fria. Nem por isso, podemos pensar que este fora menos complexo e que tenha enfrentado menos conflitos durante sua existência.

É durante o período da Guerra Fria que podemos perceber os primeiros avanços em direção a uma reação coletiva e organizada com o objetivo de deter o avanço keynesiano. E, segundo Himmelstein (1990) e Diamond (1995), os grandes veículos agregadores da oposição liberal e fascista durante as décadas de 1950 e 1960 serão não apenas a clara oposição ao New Deal, mas também o anticomunismo e uma forte crítica ao humanismo secular.

Era comum entre Republicanos a ligação do New Deal, suas reformas e significados, ao comunismo. A segunda metade da década de 40 é marcada por crescentes pressões desse partido ao Comitê de Atividades Não-Americanas por investigações de casos de subversão dentro e fora do Partido Democrata. (BERLET &LYONS, 2000 p.19-20) Para além de pressões dentro da sociedade política, esforços também foram feitos na sociedade civil. Intelectuais liberais, como os economistas neoclássicos Friedrich Hayek, Ludwig von Mises e Milton Friedman, assim como figuras tradicionais do que se conhece como Velha Guarda do GOP1, como Herbert Hoover e Robert Taft, trabalharam intensamente pela defesa e propagação da ideologia liberal.(Idem p.46) Esta, profundamente influenciada pelo Jus-naturalismo e pela doutrina do laissez-faire, estava assentada na defesa das liberdades individual e econômica, no direito à propriedade privada e no papel limitado, senão inexistente, do Estado na economia. Além disso, o liberalismo assume ainda, que um conjunto de indivíduos na busca pela realização de suas próprias felicidades individuais viveria harmoniosamente em sociedade.

Lugar privilegiado para articulação política, os periódicos conservadores desempenharam a essa época papel crucial para o desenvolvimento de projetos e propagação ideológica. Entre os mais relevantes podemos citar a National Review, o Human Events e o The Freeman. Na luta contra o dito ‘coletivismo doméstico’, os artigos por tais periódicos divulgados traziam tanto a crítica liberal secular exposta acima quanto à de cunho moralista tradicional. Críticas de fundo moralista da sociedade tornaram-se particularmente intensas no período da Guerra-Fria.

Fruto de longo processo de luta, movimentos sociais em prol da ampliação do Estado de Bem-Estar e principalmente os movimentos em prol da ampliação dos direitos civis explodiram em diversas regiões do país nas décadas de 1960 e 1970. Mais do que qualquer período, tais décadas ficaram marcadas no imaginário social norte-americano enquanto tempos de contestação e mudança profundas, tempos de ampliação da própria idéia de cidadania e de luta pela tolerância.(PAMPLONA, 1995)

Destacada importância e significado tiveram os movimentos sociais (principalmente o sindical) e suas conquistas no campo dos direitos trabalhistas durante as décadas de 1930 e 1940. Entretanto, observamos que tais conquistas não foram asseguradas para a totalidade dos trabalhadores. A luta pela construção de organizações classistas mais consistentes na sociedade civil, por transformações no cenário social e pela democratização da sociedade política norte-americana de 1930 não se mostrou limitada por consistir em uma luta de cunho reformista –uma vez que a maioria das organizações não advogava projetos revolucionários ou de transformações profundas-, mas de forma limitada se concretizou por este mesmo reformismo ser pouco, muito pouco democratizado entre o conjunto dos trabalhadores. Aqui jaz especificidade do processo de construção da social-democracia estadunidense. Se a social-democracia tem como objetivo básico trazer soluções às crescentes reivindicações dos trabalhadores por meio de uma ampla negociação entre as classes (como forma manter a própria estrutura de classes), esta encontrou nos EUA um terreno especialmente particular, onde o conjunto dos trabalhadores se encontrava marcado pela segregação de negros, latinos, judeus e asiáticos. Durante a década de 1930, “a estrutura fragmentada do movimento sindical, dividido em habilidades profissionais e disputas raciais, étnicas e religiosas”(LIMONCIC, 1999 p.32) dificultava a formação de um coletivo unido pela problemática da classe. Os aparelhos ditos classistas2 mostravam-se entrecortados não pela diferença, que traz riqueza ao coletivo, mas pela segregação. Limoncic (1999) afirma que

desde o fim das tentativas de integração social, econômica e política dos negros do período da Reconstrução, no pós-Guerra Civil, até a ascensão da CIO [Congress of industrial Organizations], a mão de obra negra viu-se sistematicamente rejeitada pelo movimento sindical, particularmente o liderado pela AFL[American Federation of Labor]. (Idem p.137)

O mesmo autor nos revela ainda quão delicado era o panorama dessas relações no Sul.

No sul, as empresas reproduziam os ‘hábitos locais’ de segregação racial, e os negros só tinham acesso aos postos mais baixos da linha de montagem e tal prática era apoiada, por exemplo, por várias seções estaduais do UAW [United Auto Workers], em flagrante contraste com a política nacional dos sindicatos. Por fim, a cruzada do CIO contra os comunistas, tradicionais aliados dos trabalhadores negros do Sul, enfraqueceu decisivamente a empreitada.(Idem, ibidem p.137-138)

O diferencial trazido pelas décadas de 1960 e 1970 consiste exatamente em não apenas em ampliar o Estado de Bem-Estar em suas políticas reformistas, consolidando assim a social-democracia, mas por ampliar também qualitativamente estas conquistas, estendendo-as a outros grupos em certo sentido (legal e politicamente) ainda mais subordinados, posto que privados da cidadania em sua forma plena. As reivindicações assistidas em 60 e 70 conjugaram lutas pela ampliação e consolidação dos direitos sociais e dos direitos civis. Foram tempos que marcaram profundamente a sociedade norte-americana ao figurarem enquanto marco de contestação e avanços notáveis na cidadania em direção a uma perspectiva multicultural. Ao movimento em prol dos direitos civis dos afro-americanos e a luta pela abolição do Jim Crow3, juntavam-se os movimentos em favor de outras minorias como hispânicos, indígenas, mulheres e homossexuais. Discussões outrora pouco tocadas ou deliberadamente relegadas ao âmbito do pecado como a revolução sexual, o amor livre, a preservação do meio ambiente, o aborto e métodos contraceptivos adentram como um furacão pela porta da frente, juntamente com iniciativas de oposição feroz à política externa norte-americana. Popularizam-se, particularmente entre os jovens, movimentos a favor da paz, contra a guerra, e nesse caso mais especificamente, pela saída dos EUA do Vietnã.

As reivindicações então assistidas faziam parte, seguramente, de um processo complexo de lutas em torno de uma nova idéia de ‘América’ e que, naquele momento, explodiram de forma dramática, iniciando um processo concreto de renovação social em várias direções. Tal processo obteve os primeiros sucessos em 1946, com a criação do Comitê Presidencial sobre os Direitos Civis. No ano seguinte, o mesmo comitê trouxe a público o relatório intitulado ‘Para assegurar esses direitos’ propondo leis federais antilinchamento e anti-segregação, garantia do direito de voto, iguais oportunidades de emprego e a proposta de estabelecimento de uma comissão permanente para assegurar os direitos civis no Ministério da Justiça. (PAMPLONA, op.cit. p.74)

As administrações Kennedy e Johnson buscaram, assim, solidificar a agenda de ampliação da cidadania e inclusão social tão reivindicada por organizações como SNCC (Student Non-violent Coordinating Commitee), CORE (Congress of Racial Equality) e NAACP (National Association for the Advancement of Colored People), militantes como Martin Luther King e tantos outros manifestantes. Seus respectivos programas ‘Nova Fronteira’ e ‘Grande Sociedade’ procuraram expandir, o segundo mais que o primeiro, as responsabilidades do governo federal para com os direitos civis e o Estado de Bem-Estar Social, recuperando a tradição keynesiana do reformismo democrata de 30. Pelo Office of Economic Opportunity comunidades de baixa renda eram encorajadas a participar da implementação de programas de habitação, educação e emprego. Em 1965 passa a funcionar o Medicare (ajuda federal aos idosos), a nova lei de imigração elimina as restritivas ‘cotas nacionais’ estabelecidas desde os anos 20, entra em vigor a lei dos direitos civis garantindo proteção federal para que o negro pudesse votar. Seguem-se ainda outras importantes medidas como a ação afirmativa, Medicaid (sistema de assistência social), a constituição da Comissão Especial para Desordens Civis e a legalização do aborto em certos casos. (BERLET & LYONS, op.cit.; PAMPLONA, op.cit.)


Entretanto, é preciso ter em mente que esses esforços nem sempre foram frutos da ação e organização integrada do conjunto dos trabalhadores e que, em muitos aspectos, esse período de consolidação do Estado de Bem-Estar nos EUA parece apresentar vínculos parcos entre as lutas democráticas e as lutas sociais.

Nos anos 1960, o sindicalismo norte-americano ver-se-ía atacado em duas frentes. De um lado, tendo sido incapaz de incorporar organicamente a mão-de-obra negra, deixando-a, em grande parte, fora dos benefícios privatizados do fordismo keynesiano, ele não foi capaz de fazer frente, adequadamente, à explosão racial iniciada ainda nos anos 1950. (...) [E, por outro, os] movimentos sociais de emancipação das mulheres, contra a Guerra do Vietnã, a New Left, a contra-cultura etc., muitas vezes chegaram mesmo a se opor ao AFL-CIO, crescentemente identificado, não sem razão, ao mainstream da política norte-americana.(LIMONCIC, op.cit. p.140)

Parece-nos, assim, um tanto peculiar a construção da social-democracia na ‘América’. Melhor talvez se fosse denominada ‘social e democracia’, dado que ambas as lutas parecem se acirrar dentro do mesmo espaço de tempo, mas desenvolvem-se muitas vezes de forma separada. Ainda que desta forma única e peculiar, acreditamos que as décadas de 1960 e 1970, assim como anteriormente em 1930, consistiram em um novo momento importante, no qual setores da classe dominada e setores dominados da classe dominante realizaram concretamente muitas de suas reivindicações, conquistando espaço na sociedade política para implementar, pelo menos, parte de seus projetos. É certo que o dissenso sempre existiu juntamente com outras tantas investidas contra-hegemônicas desde o XIX. Mas foram nessas décadas especificamente que as investidas em prol de uma sociedade mais inclusiva e democrática resultaram em medidas efetivas em favor dos mais diversos grupos sociais subordinados.


Entretanto, não seria sensato presumir tampouco que as vitórias angariadas nesse momento, ainda que mudando efetivamente o caráter da ‘América’, resultaram numa transformação radical das relações de hegemonia a ponto de se observar a emergência de uma nova classe dominante. O que podemos observar com mais segurança é um quadro político complexo, envolvendo simultânea e concomitantemente vitórias dos setores subordinados aliadas a uma crise de hegemonia da classe dirigente. Gramsci (2001) entende os conceitos de hegemonia e guerra de posição de forma intimamente relacionada.

expressão prática das necessidades da ‘tese’ de se desenvolver integralmente, até o ponto de conseguir incorporar uma parte da própria antítese, para não se deixar ‘superar’, isto é, na oposição dialética somente a tese desenvolve, na realidade, todas as suas possibilidades de luta, até capturar os supostos representantes da antítese. (GRAMSCI, 2001 p.318)

Para o êxito em transformações mais profundas, porém, Gramsci destaca que a revolução deve ser permanente, pressões de cunho econômico-corporativo criariam somente fissuras, que se não aprofundadas na luta continuada em torno dos interesses de todos os setores subordinados, não se chegaria a mudanças concretas, efetivas e duradouras ou a um Estado caracteristicamente novo (e não renovado).

No caso dos EUA, apesar de alguns poucos aparelhos advogarem uma diretriz revolucionária, este processo nunca se desencadeou efetivamente e as crises sociais acabaram por resultar numa reorganização da hegemonia no seio da classe dominante como forma de assegurar a dominação e o desenvolvimento continuado das forças produtivas.(BOTTOMORE, 1988 p. 165-167) Nos parece claro, portanto, que ao longo desse árduo processo de luta iniciado desde os anos 1930 a perda da posição hegemônica representada politicamente pelo liberalismo segregacionista não chegou a reverter, senão amenizar pela ampliação dos direitos sociais e revitalização temporária do Estado de Bem-Estar Social, as relações de subordinação presentes no sistema.

Tantas transformações certamente não foram conquistadas facilmente, encontrando uma série de obstáculos e entraves durante o próprio processo de luta. Nota-se que, aliada à crítica liberal mencionada já no capítulo anterior, temas como a descrença na existência de uma ordem moral divina, o declínio do senso de comunidade, a decadência dos valores espirituais e morais, a corrupção de instituições burguesas tradicionais como família e o casamento faziam-se igualmente presentes nos discursos da oposição, muitas vezes mesclados aos argumentos de defesa do liberalismo clássico. A essa nova abordagem moral do liberalismo deu-se o nome de fusionismo. (HIMMELSTEIN, 1990 p. 28-62) A aliança fusionista, mais do que nova configuração política para conter o avanço e a, a essa época, clara consolidação do projeto social-democrata, representa a pedra fundamental para o entendimento do caráter moralista, e até religioso, explícito no neoliberalismo abraçado pela presente ala conservadora do Partido Republicano. Os discursos e direcionamentos políticos de Reagan, Bush pai e filho têm suas raízes no fusionismo. Os periódicos citados ao início do capítulo foram exatamente os canais usados para o desenvolvimento e expansão desse projeto. Frank Meyer, por anos editor da National Review, afirmara que a busca pela virtude seria impossível sem liberdade e que essa, por sua vez, seria vazia e sem significado se desprovida de um finalidade transcendental.(MEYER, 1969 p.43-51) Whittaker Chambers em artigo para a National Review reitera o argumento ao alertar que a pura e simples busca pela felicidade acabaria por se degenerar, transformando-se rapidamente pela busca do mero prazer, e daí para o desejo de que o Estado desse conta dos problemas. Sem um propósito maior, liberdade e individualismo levariam facilmente à passividade e seria o homem alvo fácil para a manipulação.(CHAMBERS, 1957 p.594-596)

Com fortes ligações com a ala conservadora do Partido Republicano e apoio de parte do capital industrial do Meio-oeste e do Texas, o projeto fusionista de liberalismo moral rapidamente se popularizou entre setores médios da sociedade. Impulsionou ainda o surgimento de diversos aparelhos privados de hegemonia, a exemplo do Young Americans for Freedom (YAF) e da John Birch Society.

Setor jovem da ala conservadora do Partido Republicano, o YRF fora formado em 1960 durante uma reunião na propriedade familiar de William Buckley Jr.(fundador da National Review), se desligando do setor formal dos Young Republicans.(HIMMELSTEIN,op.cit. p.67) Os comícios promovidos pelo YAF tinham o apoio do GOP e objetivavam apoiar políticos e personalidades favoráveis ao programa fusionista como os senadores John Tower do Texas e Barry Goldwater do Arizona. Durante os primeiros dois anos de existência, a YAF inaugurou 310 agências regionais e ao final do ano de 1962 trinta e oito membros do Congresso faziam parte do quadro nacional de conselheiros da YAF. (DIAMOND, 1995 p.61)

A John Birch Society (JBS), igualmente de abrangência nacional e composta por inúmeros aparelhos locais, fora fundada em 1958, opondo-se a todo e qualquer tipo de interferência governamental no mundo do trabalho ou que viesse cercear as tão prezadas liberdades individuais e a tradicional boa e velha ordem moral. Era, portanto, contrária à legislação pró-sindical e aos subsídios agrícolas, aos programas de seguridade social e às medidas integracionistas –todas essas, medidas consolidadas durante as administrações social-democratas- além do desarmamento. Idéias conspiracionistas eram também populares entre os membros da John Birch Society. A ‘Get US Out’, uma das primeiras campanhas públicas encabeçadas pela JBS, lutava já em 1959 pela retirada dos EUA da ONU, alegando que esta organização internacional ambicionava a construção de um governo único e universal, comprometendo assim a soberania do Estado e da nação norte-americana. Seus membros pertenciam geralmente aos abastados setores médios do sul, eram fundamentalistas religiosos e favoráveis ao Partido Republicano.(Idem p. 75)

Entretanto, fusionistas e liberais seculares não eram os únicos insatisfeitos com o novo quadro social que se instalara com o advento da social-democracia, hegemônica desde o New Deal. Fala-se ainda muito pouco sobre como se comportaram os aparelhos privados de hegemonia do conservadorismo segregacionista e fascista a esta época.

Núcleos de resistência segregacionista espalhados pelos estados sulistas, os Citizens’ Councils começaram a se organizar no início dos anos 50, em reação direta às vitórias angariadas pelo movimento de ampliação dos direitos civis. Sua popularidade cresceu juntamente com o processo de integração racial nas escolas e, sintomaticamente, a maioria dos núcleos fora rapidamente organizada em regiões denominadas Black Belts, onde os brancos eram minoria e sentiam-se ameaçados. Compostos basicamente por pequenos empresários e elementos dos setores médios, seus membros e simpatizantes eram também facilmente encontrados entre os afiliados de clubes como Rotary e Lyons. O ativismo dos Citizens’ Councils prezava por métodos educacionais e propagandísticos, procuravam incitar repressão econômica ao negro via boicote, fazendo uso da violência em menor escala. Daí, podemos logo perceber a diferença central entre este tipo de proposta de abordagem segregacionista e a historicamente implementada pela Ku Klux Klan. Manifestavam suas angústias, projetos e ideologia em discursos públicos, via literatura, transmissões de rádio e televisão locais, sendo os dois últimos passiveis de realização graças ao desenvolvimento de laços estreitos com políticos locais. Segundo Diamond (1995 p.70-74), os programas de rádio eram quase que subsidiados pelos impostos, uma vez que gravados nos estúdios de gravação do Congresso a convite dos próprios deputados. Ainda segundo a autora, em 1962 cerca de ¼ do deputados havia sido entrevistada.

Finalmente, temos Liberty Lobby (1957-2001) fundado por Willis Carto em 1957 abertamente racista e xenófobo. O Liberty Lobby além de anticomunismo virulento e racismo, expressava também considerável dose de conspiracionismo. Em sua visão, uma nova ordem mundial vinha sendo arquitetada pelo governo em aliança com banqueiros comunistas e já infiltrava os EUA pela implementação de medidas democratizantes e anti-segregacionistas, sendo ratificada pela ‘mídia corrompida’.(BERLET &LYONS, op.cit. p.185-196) Desejava um sistema autoritário de governo baseado no mito do renascimento racial nacionalista. Em prol disso, o Liberty Lobby desenvolveu institutos afins como o Institute for Historical Review fundado em 1979, o Populist Party em 1984 e a organização paramilitar Nationbal Youth Alliance, fruto das organizações da campanha presidencial de George Wallace (1968) e que viria a se tornar a National Alliance, uma das mais importantes organizações neofascistas nos anos 90.(Idem p.189) O Liberty Lobby investiu também na produção de diversos materiais de mídia com o intuito de conscientizar e angariar adeptos. O primeiro deles fora o boletim Right, divulgando as atividades realizadas por diversos aparelhos xenófobos de menor abrangência, entre os quais podemos citar: Americam Women’s Party, Christian Party, Constitution Party, Interim Committee for a new party, National Renaissance Party, Nationalist Conservative Party e o Nationalist Party.(DIAMOND, op.cit. p.85) O Liberty Lobby produziu ainda os periódicos Spotlight e Liberty Letter, este último de circulação sensivelmente maior que as fusionistas National Review e Human Events, além de livros, panfletos, boletins on-line e o programa de rádio semanal Radio Free América. (DIAMOND,op.cit. p.153.; BERLET&LYONS,op.cit. p.185-194)

Apesar de advogarem projetos de sociedade notadamente distintos, aparelhos fusionistas, como a John Birch Society e os periódicos National Review e Human Events, e fascistas, a exemplo do Liberty Lobby e do Citizens’ Councils, apoiaram e financiaram a partir de 1960 a campanha de diversos candidatos em comum. Fora esse o caso das candidaturas do republicano Barry Goldwater durante as eleições presidenciais de 1964 e do xenófobo George Wallace, candidato do American Independent Party, durante as presidenciais de 1968. Como já vimos anteriormente, esforços a partir de 60 no sentido de formarem uma ponte entre seus representantes e a sociedade política não se restringiram à aliança desses aparelhos -que pelo menos naquele momento podemos dizer que assumiram a feições de partido- sendo observado o surgimento de novos aparelhos com propostas similares como o Young Americans for Freedom, a Youth for Wallace e a National Youth Alliance. Como podemos perceber, a eleição de ambos os candidatos e os esforços dedicados a mobilização popular na tentativa de elegê-los ocorrem exatamente durante os tumultuados, revoltosos, libertadores e inebriantes anos 1960. Acreditamos ser as transformações sociais vivenciadas naqueles anos, ou seja, o processo de luta em torno da consolidação da ‘social e democracia’ o detonador fundamental para tal aliança estratégica.

A derrota dos dois candidatos à presidência não significou, entretanto, derrota ou retrocesso do movimento conservador. Ao contrário, todo o esforço de mobilização conjunta em torno não apenas das campanhas, mas principalmente em torno da formação de aparelhos e de ocasionais alianças estratégicas entre os mesmos foram fundamentais para o desenvolvimento de projetos político-ideológicos bem definidos e para a construção de um bloco de apoio suficientemente forte para frear o avanço social-democrata. Este longo processo de luta que se inicia, ainda que esparso, nos anos 30 trará frutos proveitosos para o movimento conservador.

Entendemos que as repercussões dos movimentos sociais pela ampliação do Estado de Bem-Estar Social e as mobilizações em prol dos direitos civis contribuíram de forma fundamental para tornar hegemônico o projeto da ala conservadora do Partido Republicano -o neoliberalismo moral da Nova Direita- e para multiplicar em centenas a quantidade de aparelhos da vertente fascista. A ameaça, ainda que longe de se concretizar realmente -uma vez que a grande maioria das agências e aparelhos envolvidos não rogava projetos de caráter revolucionário- já foi suficiente para dar início a um processo de reformas significativas sem alterar as bases do sistema. Ainda assim, tal realidade foi suficiente, como vimos a pouco, para frações dos setores médios sentirem-se intimidadas e começarem a se organizar juntamente com frações da classe dominante no sentido de reverter a situação.

Começa-se, então, a se construir o momento quando a classe dominante, cada vez melhor organizada, vai superando a crise de hegemonia, não precisando mais já na década de 1980 fazer tantas concessões, compartilhar tanto espaço dentro da sociedade política e negociar tão cuidadosamente com as frações da classe dominada. Amenizam-se as fissuras, muito particularmente porque nesse momento as classes dominantes contam com o apoio de frações dominantes da classe dominada, representadas por uma parte dos setores médios. Busca-se agora revogar os direitos sociais conquistados no passado pelos setores subordinados. A perda de terreno na sociedade política assim como dos benefícios de inclusão social, reivindicados por tantos anos de luta, não foi somente vitória da classe dominante reorganizada no sentido neoliberal, mas também resultado da não persistência de pressão impelida por parte das frações da classe dominada em prosseguir com a luta para preservar ou ir além das políticas reformistas. O processo de luta tem de ser permanente se é desejado resultado durador, mesmo do reformismo.

Mas longe de representar o único fator, é preciso lembrar que, concomitantemente às conquistas e crise do reformismo, são observadas desde 1930 importantes transformações de caráter econômico nos EUA com a entrada do capitalismo em sua fase monopolista-financeira, e a partir do advento e desenvolvimento da microeletrônica e das novas tecnologias de informação e comunicação nos é revelada uma nova configuração do sistema capitalista como um todo, alterando significativamente as relações de trabalho. São exatamente estas mudanças na estrutura que igualmente contribuirão para o enfraquecimento gradual das lutas em torno do reformismo. Acreditamos, portanto, que as mudanças no mercado de trabalho, trazidas com a ‘revolução técnico-científica’, e o decorrente depauperamento econômico vivenciado por setores dominados aliados a uma reação às políticas inclusivas, frutos dos movimentos de ampliação dos direitos civis e sociais são de suma relevância para o entendimento tanto do desenvolvimento da forma peculiar de neoliberalismo norte-americano, conhecida como Nova Direita, quanto o aumento extraordinário de aparelhos neofascistas aos fins da década de 1970.

Na periodização proposta por Mandel as revoluções tecnológicas caracterizam-se por mudanças qualitativas na base técnica do sistema produtivo de uma dada sociedade em um dado momento histórico. Segundo o autor, à Revolução Industrial do XVIII seguiram-se três revoluções tecnológicas, sendo a última marcada pelo desenvolvimento progressivo da computação, da robótica e da microeletrônica, intensificando o processo de automação durante o processo produtivo. (SEGRILLO, 2000 p.17-52)

À entrada nesta nova fase do capitalismo monopolista-financeiro Brenner (2003 p.45-93) e Sweezy (1982) observam, em trabalhos distintos, fatores similares ocorridos durante o processo de reestruturação econômica, dentre os quais destacamos: uma redução significativa de investimento nas indústrias do setor básico (indústria pesada e de bens de consumo) resultando na redução, falência ou deslocamento geográfico da produção de países centrais para países periféricos; crescimento dos setores de serviço e financeiro; incentivos crescentes ao desenvolvimento de indústrias de alta tecnologia. Em reação às taxas de lucro decrescentes do setor básico ao longo dos anos 70 e 80, decorrente da concorrência imposta por países centrais e periféricos recentemente industrializados, produtores norte-americanos buscaram compensação reduzindo os custos com mão-de-obra, num ataque agressivo às organizações e padrões de vida dos trabalhadores. O governo, por sua vez, contribuiu recorrendo a uma política monetária expansionista, desvalorizando periodicamente o dólar, subsidiando empresas, contendo gastos públicos e facilitando o crédito para produtores e consumidores. A indústria de ponta, pela intensa racionalização de sua produção, e o setor de serviços, dada a qualidade temporária dos empregos (Mcjobs), não foram capazes de absorver eficientemente a massa de desempregados despejada pelo setor básico durante 20 anos.

Mas, como se desenvolveu todo esse processo, para que chegássemos a esse quadro aos fins do século XX? Que tipo de mudanças vinham ocorrendo nos backstages do reformismo keynesiano?

Durante as décadas de 1930 e 1940, observamos o desenvolvimento de relações conturbadas entre frações da classe dominante, mais especificamente uma luta por hegemonia entre o setor industrial da produção (manufaturados, indústria pesada, etc.) e o setor financeiro, refletindo mesmo em um racha político dentro do GOP. O setor ou capital financeiro, por sua natureza de acumulação de riqueza abstrata, desvencilhada dos incômodos da produção material, não apenas se viu menos prejudicado ou tolido em seus lucros devido aos encargos sociais (dada a quantidade sensivelmente menor de empregados), mas em diversos momentos teve apoio da administração Roosevelt a seu desenvolvimento. Para recordarmos apenas alguns rápidos exemplos, podemos lembrar que o incentivo a ampla abertura de crédito a produtores agrícolas e cidadãos como forma de salvar a produção e estimular o consumo foi garantida pela administração pública. Esta mesma efetuou vultuosos empréstimos (basta atentarmos para o crescimento da dívida pública) para o desenvolvimento das obras públicas, geradoras de emprego e resgatou da falência uma série de bancos logo após o crash. Entretanto, se a finança não viu o ‘fundo do poço’ durante a década de 1930, esta também não decolou num desenvolvimento desenfreado, dados os limites impostos pelo acordo de Bretton Woods.

O pós-segunda guerra, conhecido como ‘idade do ouro’ para as economias dos países centrais, fora marcado pela recuperação econômica, possibilitada pelos altos índices de investimento (dos EUA via a própria guerra, posteriormente via plano Marshall e transferências para países periféricos; e da Europa e Japão via empréstimos feitos àquele) e de e crescimento da produtividade. Os países centrais, principalmente os EUA, foram capazes de realizar e sustentar altas taxas de lucro e ao mesmo tempo cumprir com as bases do acordo keynesiano. E assim,

como o sucesso econômico dos EUA acabou estando tão estreitamente atrelado ao sucesso de seus concorrentes e aliados, o desenvolvimento econômico internacional do pós-guerra dentro do mundo capitalista avançado pôde, por um breve período, manifestar um grau relativamente alto de cooperação internacional –marcada por altos níveis de ajuda e apoio político-econômico americano a seus aliados e concorrentes-, ainda que sob dominação do Estado americano e predominantemente modelada pelos interesses americanos. (BRENNER, 2003 p.54)

Contudo, o boom tal estratégia estava fadada a apresentar a médio prazo um revés, fazendo ruir a temporária ‘cooperação’. Como indica Brenner (2003), tais economias foram capazes, em curto espaço de aproximadamente 15 anos, criar setores domésticos de manufaturados especialmente grandes, além de expandir suas vendas internacionais, penetrando rapidamente no mercado norte-americano e competindo com o mesmo por ‘fatias’ do mercado mundial. A competição internacional no setor de manufaturados fora ainda intensificada pelo início das exportações de manufaturados por parte de países periféricos em desenvolvimento. Fora este o caso do Leste Asiático, México e Brasil durante a década de 1970 graças à combinação de salários baixos, equipamentos relativamente avançados e vultosos empréstimos de seus governos a bancos e agências de crédito internacionais.

O resultado inexorável foi uma taxa de lucro agregada em declínio no setor manufatureiro internacional, que expressava o excesso de capacidade e de produção em todo o sistema. Entre 1965 e 1973, o setor manufatureiro dos Estados Unidos experimentou uma queda de 43,5% na taxa de lucro sobre seu estoque de capital; já os setores manufatureiros das economias do G-7 juntos(...) experimentaram um declínio na lucratividade da ordem de 25%.(BRENNER, op.cit. p.57)

Como podemos perceber, a queda de lucratividade da economia norte-americana não esteve ligada a um esgotamento tecnológico ou ao peso dos encargos sociais, como querem fazer crer os argumentos neoliberais. “A fonte do problema se encontrava principalmente na intensificação da competição que levava a uma superacumulação no setor de manufaturados.”(Idem p.75)

Ainda assim, mesmo não sendo a fonte do problema, a saída encontrada por Reagan e Thatcher para garantir a lucratividade se refletiu exatamente na hemorragia de empregos no chamado setor secundário e em uma pressão pela redução do crescimento real dos salários e dos encargos sociais para aqueles que permaneciam. Tais medidas haviam sido implementadas buscando desesperadamente a restauração das taxas de crescimento estáveis e a conseqüente reanimação de um capitalismo mergulhado na estagflação. Os êxitos foram parciais: a taxa de inflação efetivamente regrediu, caindo de 8,8% para 5,2% entre 70 e 80; as taxas de lucro industrial também obtêm saldo positivo aumentando 4,7% durante a década de 80.(ANDERSON, 1995 p.15) As vitórias do capital foram, em contrapartida, possibilitadas pela adoção políticas de contenção salarial e ataque às organizações de defesa do trabalhador, aliados a medidas de coação implícitas representadas pelo exército de desempregados e imigrantes prestes a aceitar quaisquer condições de trabalho.

...a administração Reagan deferiu o coup de grace no movimento trabalhista americano ao demitir os membros em greve dos sindicatos dos profissionais controladores de tráfego aéreo (o PACTO). Desde então as campanhas sindicais definharam a ponto da insignificância, pulularam práticas trabalhistas injustas cometidas pelas gerencias durante campanhas de organização sindical e a densidade sindical desmoronou. De 38% não muito longe em 1973, e de 32,3% em 1979, a proporção de mão-de-obra do setor manufatureiro nos sindicatos caiu para 20,6 em 1990 e 17,6 em 1995...(BRENNER, op.cit. p.99)

Certamente, em sua retórica não primava a problemática da superprodução. O fim da ‘idade do ouro’ ou a crise do fordismo eram tidos como resultado dos entraves colocados pelo funcionamento do mercado de trabalho.

Interferências tais como os sindicatos, os salários mínimos, os seguros-desempregos e políticas do chamado welfare state retiravam a flexibilidade do mercado de trabalho (...) para se adaptar às exigências impostas pelas circunstâncias econômicas, sociais e tecnológicas contemporâneas.(BORGES, 2006 p.91)

Célia Borges ressalta ainda que essa necessidade da flexibilização do trabalho, ou seja, a diminuição do excesso de regulação das relações entre capital e trabalho, vinha acompanhada de uma flexibilização da produção. A perda de competitividade das empresas no sistema fordista devia-se naturalmente a dita rigidez da produção e à desqualificação da mão-de-obra, característicos da produção de massa e que, às portas do século XXI, reprimiam o avanço das novas tecnologias. Era preciso, então, uma reestruturação da produção, uma que viesse enxugar, racionalizar, flexibilizar, toyotizar e principalmente liberar os fluxos de mercadorias e de capital.

É justamente a essa época, em meio a esse contexto de flexibilização da produção e do trabalho assegurados pelas políticas neoliberais, que observamos uma virada marcante da economia norte-americana em direção a dois setores em particular: a finança e os serviços. Este último se expandiu rápida e facilmente, num campo onde a sindicalização e a seguridade quase inexistiam e a força de trabalho era abundante, composta pelo enorme contingente de desempregados.(BRENNER, op.cit. p.84-86) Em troca, oferencia-se o emprego do século XXI, o emprego temporário, flexível e sem maiores vínculos, o emprego fácil e rápido, uma maravilha da modernidade como nos comerciais de casas de crédito.

A finança, por sua vez, fora finalmente libertada das amarras impostas por Breton Woods, conhecendo com a desregulamentação financeira um crescimento sem precedentes. “Os tetos das taxas de juros e afins foram rejeitados. As restrições ao acesso aos mercados para instituições financeiras, descartadas. Os controles de capitais, em quase toda a parte, finalmente eliminados.”(Idem p.87) Para isso, revelou-se primordial o apoio de um conjunto de Estados igualmente comprometidos com a flexibilização, uma vez que a liberalização e desregulamentação dos mercados somente se realizou por meio medidas efetivadas de comum acordo entre as administrações centrais dos países centrais a partir de 1979.

O capital portador de juros (...) não foi levado ao lugar que hoje ocupa por um movimento próprio. Antes que ele desempenhasse um papel econômico e social de primeiro plano, foi necessário que os Estados mais poderosos decidisse liberar o movimento dos capitais e desregulamentar e desbloquear seus sistemas financeiros. Foi igualmente preciso que recorressem a políticas que favorecesses e facilitassem a centralização dos fundos líquidos não reinvestidos das empresas e das poupanças das famílias.(CHESNAIS, 2005 p.35)

O capital financeiro pode, então, desenvolver-se livremente ampliando seu raio de ação de forma variada. Os bancos não mais imperariam enquanto clássicos domínios do capital financeiro. A eles se juntariam novos agentes do capital, enriquecendo o conjunto que conhecemos hoje como finança. Foram eles -os fundos de pensão, fundos coletivos de aplicação, sociedades de seguros e bancos que administram sociedades de investimento- os que “fizeram da centralização dos lucros não reinvestidos das empresas e das rendas não consumidas das famílias, especialmente os planos de previdência privados e a poupança salarial, o trampolim de uma acumulação financeira de grande dimensão.”(Idem p.36)

Foi a salvação do setor produtivo estagnado, desde a superprodução de fins de 1960? Sim, mas não apenas devido a isso e certamente não somente o único setor alavancado pela finança! A mundialização da finança, como denominada por François Chesnais (2005), se constituiu não apenas em uma liberalização monetária aliada à descompartimentalização dos mercados financeiros nacionais, mas envolveu igualmente a desintermediação desses fluxos de capital, outrora reservada aos bancos e agora aberta a todo e qualquer tipo de investidor-aplicador institucional. A desregulamentação atraíra muitos empresários a contrair consideráveis empréstimos, não exatamente para o investimento em tecnologia, mas especialmente a serem aplicados na recompra de suas próprias ações (visando valorizá-las) ou em aquisições de outras companhias, gerando gigantescas corporations. Segundo Brenner (2003), entre 1981 e 1989 apenas 21% do total de fundos adquiridos por empresas não-financeiras foram investidos em gastos com capital, contrastando com 50% dos fundos que entre 1983 e 1989 foram aplicados em compras líquidas de ações.(BRENNER, op.cit. p.106) O resultado não fica muito difícil de se imaginar.

A partir de inícios da década de 1980, imensas bolhas financeiras incharam por todas as economias capitalistas avançadas, em especial nos mercados de ações, nas fusões e aquisições e nos imóveis comerciais, com a demanda especulativa elevando o valor dos ativos e com os investidores efetuando suas compras na expectativa de que, havendo subido no passado, o valor dos ativos continuariam a subir.(Idem p.87)

Entendemos, portanto, que a configuração do capitalismo monopolista-financeiro aos fins do século XX e início de XXI apresenta-se sob a especial interação e desenvolvimento de dois processos: a mundialização da finança e da agenda neoliberal. Esta fora pouco a pouco ganhando terreno sob a alegação de fracasso do modelo keynesiano de economia mista. Os novos direcionamentos da economia política neoliberal se definiriam pela maximização dos lucros, fazendo recuar as restrições impostas pelas políticas keynesianas, reforçando as desigualdades patrimoniais. Aquelas, ao oferecerem aos trabalhadores certas garantias de emprego, legislação referente às condições de trabalho e seguridade social emperravam o livre caminho dos lucros infinitos e ainda haviam, segundo a retórica neoliberal, levado o país a um quadro de estagnação e crise inflacionária. Já o capital financeiro, se na primeira metade do século XX experimentava relações por vezes tensas com o capital funcionante, ao se aproximar do XXI encontra-se numa relação quase simbiótica com o mesmo, no sentido em que seus empréstimos não se apresentam mais como mero crédito, mas constituem condição primordial para a reprodução última do capital. Ao capital funcionante cabe, em última instância, a função da extração da mais-valia. Parte do lucro advindo da extração de sobretabalho torna ao círculo da produção, no momento em que o pagamento dos juros posssibilitarão não só o lucro do capital financeiro, mas igualmente a possibilidade de novos empréstimos a serem investidos na produção ou serviços.

Não se trata mais de uma subordinação ou de lutas intestinas entre duas formas de capitais, mas de uma escala tal de concentração de capitais que os proprietários de capital sob forma monetária encontram-se diante da necessidade permanente de valorizar massas crescentes de capital, que pretendem – e precisam - manter o maior tempo possível sob essa mesma forma monetária. Para tanto, é preciso impor aos processos de produção de mais-valia uma nova intensidade e um novo ritmo de produção, associando as mais diversas modalidades de sujeição dos trabalhadores, de maneira a liberar o capital de suas peias (o momento “M” do processo D-M-D’) e reconvertê-lo o mais rapidamente à sua forma monetária, lamejando o impossível mundo do puro D-D’. (FONTES, 2007 p.21)

Curiosamente, apesar da adoção de tantas medidas vantajosas ao capital, a taxa de crescimento pouco se alterou nos países centrais. Segue-se invariavelmente a pergunta que não quer calar: Por que a recuperação dos lucros não levou a uma recuperação dos investimentos? Em sua análise do neoliberalismo Perry Anderson (1995) nos ajuda a desvendar a questão.

Essencialmente, pode-se dizer, porque a desregulamentação financeira, que foi um elemento tão importante do programa neoliberal, criou condições muito mais propícias para a inversão especulativa do que produtiva. Durante os anos 80 aconteceu uma verdadeira explosão dos mercados de âmbito internacionais, cujas transações, puramente monetárias, acabaram por diminuir o comércio mundial de mercadorias reais.(ANDERSON, op.cit. p.16)

Seguindo linha de pensamento similar, Gerard Duménil (2003) e Dominique Levy (2003) igualmente destacam a espetacular transferência de renda para os detentores de títulos. Conseqüentemente, as cotações das bolsas explodiram, “alimentando, no contexto de uma corrida às rendas e mais-valia financeiras, o que se chama de ‘bolha’, emanação especulativa da nova configuração do capitalismo”.(CHESNAIS et. alli, 2003 p.25)

O boom de aplicações não fora revertido em investimentos suficientes, os quais, ao gerar efetivamente capital, garantiriam o crescimento estável a longo prazo. Ao invés disso, seguiu-se a especulação, jogadas astronômicas com dinheiro virtual, que por sua vez gerou um crescimento virtual. Além disso, desde os inícios da década “a administração Reagan incorr[ia] em déficits federais sem precedentes a fim de sustentar os cortes recordes nos impostos e os gigantescos aumentos nos gastos militares...”(BRENNER, op.cit. p.99) Ao final da década os volumosos empréstimos transformavam-se agora em volumosas dívidas, fazendo cair vertiginosamente a taxa de retorno das ações e ativos às instituições financeiras e iniciando assim uma onda de falências. Começava a se desenhar uma nova crise, fruto das bolhas financeiras e da qualidade tão degradada do trabalho, que impossibilitava o consumo, quadro este que só será revertido em fins da década de 1990, particularmente entre o período de 1996 a 2001, quando se observa nos EUA um real crescimento nos investimentos direcionados para informatização da produção geral.(Idem p.193-214)

No momento em que a participação dos salários nos resultados da produção se reduz e a parte dos lucros reservada aos investimentos também diminui, a taxa de investimento é duplamente atingida pela desaceleração do consumo dos assalariados e pela reduzida propensão a investir. A taxa de crescimento é lenta e o desemprego aumenta.(CHESNAIS, 2005 p.58)

Às portas de 1990 os EUA traziam na bagagem um déficit público e privado astronômico, uma economia demasiadamente exposta a ondas especulativas, falência por endividamento de inúmeras empresas e queda dramática na qualidade de vida.4

Assim, discursos que enfatizassem as crises econômica e moral, perda de status social e incompetência e traição governamental nos âmbitos interno e externo tornaram-se demasiadamente atraentes para setores da sociedade (particularmente setores médios) que, mais do que nunca, sentiam-se desnorteados. Imersos em um contexto de insegurança e sentindo-se ameaçados por mudanças que não lhe favoreciam, frações dos setores médios e das classes dominadas tenderam a estereotipar seus medos na figura do ‘outro’. Este, visto como inimigo, destituído da moral implícita do ‘ser americano’ e desrespeitando o credo instituído pelos pais fundadores, acaba por legitimar desde sentimentos de rejeição até práticas racistas e xenófobas. O governo democrata e seu característico Estado de Bem-Estar Social, por sua vez, não mais estariam a serviço ou prezariam pela segurança do ‘verdadeiro’ americano, do ‘americano médio’. Ao contrário, seus projetos estariam muito mais comprometidos com as causas dos humanistas seculares imorais e dos setores ditos ‘parasitários’ da sociedade, mais especificamente negros e imigrantes latinos, pouco empenhados com as coisas do trabalho e basicamente interessados em viver dos programas do Estado. Objetivamente, o elemento desencadeador de tantas angústias fora essencialmente o sentimento irreal, mas ainda aterrorizante de deslocamento do sonho americano, o medo da queda: primeiramente pelo processo de reformas que atinge seu ápice em 60 e 70, privilegiando grupos sociais desprivilegiados e finalmente pelo empobrecimento vivenciado por diversos setores sociais.

O projeto conservador em linhas gerais se popularizará por sua “habilidade de distinguir entre o amigo e o inimigo da nação, da família, de instituições como o casamento, dos valores religiosos e da economia nacional, não poupando esforços para neutralizar quem os ameaçasse.”(VIANA, 2000 p.97) São eles os participantes mais assíduos da reação conservadora, que encherão as fileiras de suas agências e aparelhos privados e estarão sensíveis às propostas do neoliberalismo moral e do neofascismo, ainda que verdadeiramente se beneficiem muito pouco das mesmas.

A reação deu-se, então, na forma da ascensão de movimentos sociais de cunho patriarcal-moralista (movimento anti-gay, anti-feminista, anti-aborto), de uma expansão sem precedentes da direita xenófoba, e na rearticulação política neoliberal nos termos da Nova Direita.

Comumente descrita como uma fração significativa do Partido Republicano, a Nova Direita representa, segundo Diamond (1995), uma ratificação dos princípios da Old Right dos anos 50 fundados no tradicionalismo, anticomunismo e na liberdade econômica, dedicando agora ênfase especial no tradicionalismo moral. Berlet e Lyons (2000) desenvolvem a idéia referindo-se a Nova Direita como uma coalizão entre os advogados do Estado mínimo e a Direita Cristã. A mobilização da Direita Cristã, participando ativamente da sociedade política e civil, a partir da década de 70 foi de vital importância no processo de expansão da ideologia conservadora pelo papel desempenhado por seus aparelhos privados de hegemonia. A Direita Cristã investiu e ainda investe pesadamente em novos estilos de mobilização de massa, a exemplo do televangelismo, e arrecadação de fundos, pelo direct-mail. A articulação entre aparelhos como o National Christian Action Council e o Citizen’s Councils encabeçadas por intelectuais orgânicos como Robert Billings e o televangelista Jerry Fawell deu origem a novos aparelhos de âmbito nacional como a Moral Majority e espaços como o Annual Family Forum destinado ao compartilhamento de idéias, projetos, novas formas de organização.

Assim, o bloco de reivindicações inclui: ataque ao Estado de Bem-Estar Social; oposição à ação reguladora do Estado e seus altos impostos; reação às reformas governamentais implementadas em 60 e 70 e o a busca pela implementação de políticas de cunho patriarcal-moralista. Acreditamos que as mudanças no mercado de trabalho, trazidas com a ‘revolução técnico-científica’, e o decorrente depauperamento econômico vivenciado por setores dominados aliados a uma reação às políticas inclusivas frutos dos movimentos de ampliação dos direitos civis e sociais são de suma relevância para o entendimento do desenvolvimento da forma peculiar de neoliberalismo norte-americano conhecida como Nova Direita.

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1 Sigla para Grand Old Party, em referência ao Partido Republicano.

2 Com relação às discussões acerca desse ponto, me centrarei no sindicato como prima entidade classista. A opção pelo sindicado baseia-se muito mais em uma falta de informação por parte da autora sobre outras entidades classistas de grande porte do que em uma escolha propriamente dita.

3 Sistema de segregação racial institucionalizada adotado em 1890 por muitos estados norte-americanos.

4O debate em torno da condição econômica e posição hegemônica dos EUA é abordado parcialmente por esse texto. O contraponto pode ser visto em: MEDEIROS,C., 2001; TAVARES, M.T&FIORI, J.L(org),1998.


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