Capítulo 1 – Os disfarces de amor



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5.1.3 - Relacionamento amoroso tipo Evitante-Desnarcisante
Escreveu Fernando pessoa: O amor maior é por isso morte…, ou ainda: o amor causa-me horror; é abandono…

Quando as experiências de ligação a um outro implicam o reviver de sentimentos, recordações, fantasias e outros conteúdos experienciais que ameaçam o ressurgir de configurações vinculares avassaladoras, a recusa à relação afigura-se como uma estratégia de sobrevivência. De facto, para alguns, a vivência de intimidade está estreitamente ligada ao fusional e como tal é morte, é desaparecimento do próprio no outro, pelo que ilusoriamente se salvam pelo refúgio narcísico, criando uma falsa estabilidade com um efémero Eu disfarçado de grandioso que se alia de forma maníaca ao poder, desprezo e ao controlo (tríade maníaca descrita por Klein), subestimando o outro como forma de se enaltecerem e encobrirem o sentimento profundo de menor valor, negando a dependência através do controlo do objeto para o submeterem ao seu poder, para o fragilizar, não reconhecendo que esta atitude apenas leva a um empobrecimento da vida emocional, uma deterioração do sentimento de identidade e ao incremento do ódio e da inveja que corrompem nocivamente toda a relação.

Trata-se da manifestação de um narcisismo persecutório (Manzano & Espasa, 2008) ou maligno de acordo com Kernberg (1975,1984), cujo objectivo é denegrir os aspectos idealizados do outro de forma a negar o sentimento de inveja profunda e encobrir a angústia paranóide, o qual é próprio dos funcionamentos mais psicóticos e que se caracteriza essencialmente pela negação intensa da necessidade de ligação ao objeto, um ataque a tudo o que signifique vínculo, sendo total ou parcialmente destruídas todas as funções cognitivas do Eu traduzindo-se numa simplificação da vida mental, num empobrecimento desastroso de toda a vida afectiva e emocional, desembocando num bloqueio afectivo que culmina num enfermo vazio interior.

Até porque nestes casos a dependência em relação ao outro extrema, porque o próprio é incapaz de produzir pensamentos, pela ausência ou debilidade da função alfa, necessita do outro para que exerça essa função. Como refere Fabião (2007) é como se o Self destes indivíduos tivesse ficado sepultado, encerrado, impedido de se desenvolver e todo ele imerso em emoções que necessitavam de ser alphabetizadas e que não encontraram lugar para o ser, o problema é que muitas vezes a ligação ao objeto desperta o emergir de todas essas emoções conduzindo a estados confusionais e de desintegração do Self.

Surge a maciça actividade projectiva, pelo que o outro deixa de existir, e no lugar dele fica apenas a projecção (Amaral Dias, 2004). Devido à intensa actividade projectiva e de identificação projectiva, o vazio é cada vez mais profundo tendo que ser preenchido por actividades delirantes, condições megalómanas que por sua vez vão afastando mais da realidade e, por isso, aumentando o vazio e delineando um ciclo vicioso psicótico (A. Perez Sanchéz, 2003).

Nestes indivíduos surge um balançar entre o medo e a raiva, o receio de desaparecer no outro e a cólera em face do que o outro possui. Estas formas psicóticas encontram-se num dilema entre poder ver o outro enquanto separado o que desencadeia toda uma série de ódios insuportáveis e impossíveis de metabolizar, e por outro lado, a dificuldade em manter a ligação fusional com o objeto idealizado, pois isso implica um terror de engolfamento.

Glasser (1992) refere-se às retiradas narcísicas que têm como objectivo a segurança e auto-suficiência, mas que conduzem a sentimentos de abandono e desintegração, estados de isolamento, depressão e diminuição grave da auto-estima. Amaral Dias (2010) refere-se ao desmentido que estes sujeitos fazem da necessidade de dependência, traduzido na alienação.

Desenvolve-se, em certos casos, uma arrogância psicótica (que substitui o orgulho próprio), alicerçada numa ilusão de auto-suficiência, donde sobressai uma inveja destrutiva, a indiferença geral e a ausência de vida afectiva que acompanha o algemar das emoções. Nestes casos há uma destruição dos aspectos do outro que desencadeiam inveja, num ataque constante ao narcisismo alheio, por projecção das partes indesejadas do próprio Self no outro. O Self pouco coeso está fragmentado numa imagem grandiosa arcaica e numa outra incompleta e frágil, esta última negada e projectada sobre o outro. Poderíamos dizer que se forma um Self narcísico (que encobre o Self desnarcisado), de tal modo forte, atacante e arrogante face ao outro, abarcando a personalidade, tentando proteger a imagem grandiosa afastando-se do contacto com a realidade, a qual é tida como anti-narcísica dado que confronta o próprio com a necessidade do outro e com as fragilidades que desencadeiam uma vergonha arrebatadora e um sentimento de inexistência válida. A realidade interna e externa é odiada, a parte psicótica da personalidade em aliança com este Self narcísico destrói as funções que constituem resposta evolutiva ao princípio da realidade (Mesquita, 2008), forma-se então necessariamente uma realidade virtual (Manzano & Espasa, 2008), caracterizada por todo um conjunto de confianças mais ou menos mágicas, vivendo com base no ataque a toda a relação que possa evidenciar-se como suficientemente boa.

Neste caso, de acordo com Fabião (2007), toda a sensorialidade é tida como perigosa já que induz sentimentos ligados à dependência, devendo ser por isso atacada e rejeitada, criando-se um sistema defensivo cada vez mais rigidificado e frio em relação às emoções que coloca o sujeito a meio caminho do ataque à própria vida.
Capítulo 6. Evidencia dos disfarces de amor a partir de um estudo

Como já foi referido anteriormente, Kohut (1971) defendeu que quando na infância falta a satisfação das necessidades de admiração, de idealização das figuras parentais e de um sentimento de ligação a essas o Self fica impossibilitado de se desenvolver, ficando comprometido o sentimento de estabilidade temporal e de coesão bem como a manutenção da auto-estima, dando-se motivo à possibilidade de desenvolvimento de um narcisismo patológico. Consequentemente, segundo o autor, manter-se-à uma grande necessidade de objetos do Self, ou o evitamento defensivo das experiências com os objetos do Self, ou a negação da necessidade desses objetos.

Um dos nossos objectivos com o estudo realizado em que se aplicou o Inventário de Tipos de relacionamento Amoroso (ITRA) e a Escala de Necessidade de Objetos do Self (SONI), a uma amostra de 266 participantes com média de idade de 37 anos, foi o entendimento do modo como estas necessidades de objetos do Self se organizam de forma a originar tipos de relacionamento amoroso, conduzindo ao estabelecimento de padrões relacionais compensatórios.

Atendendo ao nosso estudo e aos resultados obtidos na correlação entre as escalas do Inventário de Tipos de relacionamento Amoroso (ITRA) e a Escala de Necessidade de Objetos do Self (SONI), apuramos que de facto os diferentes tipos de relacionamento amoroso que considerámos - submisso-idealizador, eufórico-idealizante e evitante-desnarcisante - apresentam valores significativos ao nível das necessidades de objetos do Self, apontando para a ideia de existência de falhas no respeitante ao desenvolvimento de determinadas estruturas do Self que se procuram esbater mediante a ligação a um objeto amoroso, implicando a escolha de um parceiro no sentido da reparação das falhas narcísicas do Self, em que a relação só pode perdurar enquanto permite a fantasia de reparação dessas falhas sentidas, ou então pelo evitamento da relação de forma a negar as necessidades e as faltas conhecidas bem como a urgência do outro. Assim, defendemos que nestes funcionamentos o foco está nas necessidades do próprio, em detrimento das do outro.

Os resultados de correlação obtidos revelaram valores significativos denunciadores da necessidade de ligação ao objeto do Self gémeo no tipo de relacionamento amoroso submisso-idealizador, o que, em nossa opinião, esta procura de uma ligação com o objeto idêntico, a urgência de se sentir unido e fazendo parte de um outro, surge para aludir ao sentimento de completude narcísica. Nesta linha, defendemos que o que se assiste na relação tipo submisso-idealizador, é um modo relacional para realização do desejo narcísico de compensação da falha sentida ao nível da auto-estima e da visão mais positiva do próprio enquanto objeto sexual, erótico, numa necessidade de colmatar o “défice falo-narcísico” (Coimbra de Matos, 2009), almejando-se uma exibição do próprio enquanto objeto de desejo, faceta mais histérica mas com contornos borderline, já que o Self se manifesta em imperfeição procurando uma plástica reparadora na relação com o outro.

Esta necessidade de um objeto do Self gémeo nestes casos da relação submisso-idealizador terá a ver com a necessidade da exclusividade do Self, a incapacidade de conceber a existência de um terceiro, porque a separação que remonta à fase triangular remete para vivências de perda de exclusividade que se relacionam com fragilidades ou incompetências do próprio para manter o objeto centrado nele desenbocando numa angústia narcísica.

No relacionamento amoroso tipo submisso-idealizador, os resultados revelaram também um valor significativo da necessidade de ligação a um objeto do Self idealizado aquele que se admira e do qual o individuo julga fazer parte e que no fundo está relacionado com a necessidade anterior de estar ligado ao objeto que é admirado pelas qualidades que o próprio julga que lhe faltam para ter uma imagem mais reconhecida e valorizada de si.

O que se passa é que a ligação ao outro faz-se baseada no sentimento de que o outro possui as qualidades de que o próprio está desprovido, criando-se uma ilusão de segurança, que repele o sentimento de solidão ou de rejeição, mas tal é a escravização do Self que se mantém na sombra desse objeto idealizado, apenas seguindo o caminho da auto-desvalorização, debilitando-se cada vez mais porque abdica de si e fica impedido de se desenvolver, apenas se sustenta com a ideia de que está ligado a um objeto com qualidades superiores às suas. Em muitos casos, a escolha destes objetos idealizados afigura-se como uma solução protectora e segura, mas rapidamente conduz à desilusão pelo facto desta idealização ser irreal e baseada em aspectos mais arcaicos que remontam muitas vezes à fase triangular.

Encontrámos também valores significativos na correlação entre o tipo de relacionamento amoroso submisso-idealizador e as necessidades de objeto do Self valorizante, indicando a necessidade de se sentir apreciado e valorizado, apoiando-se no outro para a reconstrução da sua auto-estima fragilizada, correspondendo ao que referimos anteriormente como sendo uma necessidade de se ver através do olhar dos outros porque não foi possível construir uma imagem segura e valorizada do próprio, ficando assim na dependência infantil da apreciação vinda do exterior, sempre à procura de uma co-validação do seu Self, dependendo da actividade confirmatória do outro para a interiorização do valor próprio, mas em vez dessa interiorização se firmar e se constituir como uma competência do próprio Self o que se cimenta cada vez mais é essa sujeição da imagem do próprio face ao emitido pelo exterior. Como expusemos anteriormente, na origem, esta reflexão era dependente do reflexo emitido pelo cuidador, se não foi reafirmante de uma visão positiva do indivíduo, não se criou a estrutura interna e a função passa a estar sempre no exterior. O objeto está lá no lugar da sua função de objeto espelhante um reflexo positivo e válido do indivíduo dependente. No entanto, na procura do outro como objeto valorizante, o reflexo é estático e não conduz ao desenvolvimento.

O evitamento do objeto do Self gémeo e idealizado que encontramos nos resultados, neste tipo de relacionamento submisso-idealizador, com um valor de correlação significativa, poderá ser justificado por condutas de retraimento, também, evidentes em funcionamentos mais depressivos em que pelo facto de antecipar a rejeição o indivíduo se retrai narcisicamente, retira-se, evitando o desapontamento e a constatação da sua menor valia. Trata-se de um comportamento de resignação ao sentimento de ser menos digno de amor, uma conformação típica de funcionamentos mais depressivos. Por outro lado, o sentimento de receber menos do que dá (economia depressiva, Coimbra de Matos, 2002) e a tendência à passividade e à submissão leva-o muitas vezes ao evitamento pelo facto de não conseguirem contrariar a sua tendência masoquista, antecipando a sua incapacidade de se impor e de exigir na relação o afecto a que tem direito, retiram-se e asilam-se narcisicamente, mantendo-se numa posição de reconforto narcisante em que o próprio não se sente ameaçado pelo sentimento de menor valia. Muitas vezes assistimos nestes funcionamentos mais depressivos uma tendência ao isolamento que se prende com o sentimento que as relações são esgotantes e que lesam o próprio porque quase se esvai na sua dedicação e necessita retirar-se como que para repor as suas reservas narcísicas, como se neste voltar-se para si, pudesse encontrar um reforço da auto-estima e do valor que pretende auferir. É uma forma de mal-estar do desejo, o desejo do próprio passa a ser o do outro, numa forma de identificação adesiva, que esgota o Self na sua essência.

No relacionamento amoroso tipo euforico-idealizante, que considerámos como mais característico de funcionamentos em que predomina uma fragilidade do Self ao nível da sua representação, coesão e estabilidade, a indispensabilidade do outro é mais saliente e como tal desponta a tentativa de aprisionamento do objeto através de estratégias mais nocivas e que conduzem ao enfraquecimento da objectalidade.

Assim, neste tipo de funcionamento amoroso há necessidade de um objeto do Self gémeo revelado por um valor de correlação signiticativo, indicador da inevitabilidade de estar ligado a um outro porque não se formou a pele psíquica, uma identidade própria, que será ilusoriamente proporcionada nesta relação a qual, em nossa opinião, é muitas vezes mediada pela desvalorização infligida no outro, em grande parte resultado da projecção das inferioridades do próprio, conduzindo a que o objeto à medida que desfalece narcisicamente fique sem força para se afastar do indivíduo desnarcisante, mantendo-se na sua senda e à sua mercê estabelecendo-se uma dependência mútua criando um círculo narcísico o qual é difícil quebrar, ficando o par acorrentado pela inferioridade, espécie de ligação siamesa - apegados pelo que falta a ambos.

A fragilidade ao nível da imagem do próprio, a inviabilidade de possuir uma auto-imagem gratificante determina, muitas vezes, a impossibilidade de se ligar a um outro que possua qualidades que o próprio se julga desprovido, pois isso implicaria um confronto com as suas inferioridades, e, consequentemente, uma queda depressiva, trata-se de um espelhamento mútuo que como Pearson (1991) referiu, contribui para o aumento da regulação da auto-estima. Assim, a união ao objeto gémeo cria uma fantasia de reinado perfeito, onde a diferença ao não existir, não remete para a fragilidade, permite que a auto-estima se mantenha a um nível que possibilite o funcionar, ainda que com pouco vigor determinando estados mais depressivos e noutros casos falseada e envolta em disfarces maniformes.

Por outro lado, há que referir que nestas situações a intimidade fica confundida com a fusão, muitos casais só se sentem íntimos quando se sentem iguais um ao outro, como refere Colman (2005) existe um sentimento de abandono que é aflorado pela diferenciação, o que é separado pode estar desligado, pelo que a fusão, a ligação ao objeto igual, constitui-se como uma defesa em face da angústia abandónica, a separação é tida como precursor do abandono e a fusão a defesa contra essa realidade.

Assim, consideramos que embora em ambos os tipos de relacionamento - submisso-idelizador e eufórico idealizante - a necessidade de objetos do Self gémeo se apresente com valores de correlação idênticos e significativos, a função que desempenha o objeto na vida mental do individuo é diferente, não se trata somente de haver essa necessidade mas da função dela no mundo psíquico, que embora seja sempre de completação do Self, difere no que respeita somente a aludir a uma imagem mais valorizada do próprio ou a aludir a uma estabilidade e coesão do Self. Nestes casos consideramos que o objeto é tido como virtualmente fazendo parte do Self mas num sentido de uma identificação adesiva, em que prevalece a imitação ao outro de forma a favorecer um sentimento de identidade, na medida em que tudo se passa como se estivessem na presença de um objeto sem mente própria, que passa a ser parte do Self do próprio, porque o objeto separado se pode tornar muito persecutório e traduz uma hipótese de abandono.

A necessidade de ligação a um objeto do Self idealizado também se apresenta como significativa no tipo de relacionamento eufórico-idealizante, pois quando as lacunas do Self são grandes a ligação a um objeto que permita uma ilusão de completude e confira um certo sentimento de segurança torna-se imperativo para que o Self possa funcionar. Assim, a ligação a um objeto considerado como gozando de características que faltam ao próprio conferirá uma ilusão de completude e segurança ao Self.

Como já havia sido anteriormente referido aquando da exploração sobre as ideias de autores kleinianos acerca do amor, a culpa inconsciente típica dos funcionamentos depressivos e dos núcleos depressivos nos funcionamentos borderline, reforça a tendência à idealização e consequentemente as posições de submissão em face do objeto idealizado. Esta culpa, ora assumida pelo próprio, ora projectada e deslocada para um outro de forma a culpabilizá-lo por não ser um objeto amante, revela a insatisfação que vem de cedo em face do amor do objeto primário ou edipiano, entrando-se num sistema de encontros e reencontros com objetos sempre tidos como insatisfatórios, receptáculos de culpas inconscientes e de insatisfações originárias, conduzindo a ciclos de repetições de relacionamentos incapazes de gerar amor, porque cada nova relação apenas se estabelece como uma re-edição do passado, sem escolha de objetos novos na sua essência, na esperança de reparação, do que não foi mas deveria ter sido.

Em todo o caso, a necessidade de ligação a objetos idealizados terá uma função diferente nos relacionamentos tipo submisso-idealizador e eufórico-idealizante uma vez que no primeiro caso, o objeto terá uma função que será da ordem da completação de um Self que se sente mais diminuído e depreciado, tendo o objeto a função de possibilitar uma regulação da auto-estima ao tornar possível ao indivíduo uma visão com colorido mais positivo de si. Nestes casos, a idealização é menos exigente, dado que permite uma continuidade entre os aspectos bons e maus do objeto, o sujeito é mais tolerante e empático com o objeto pois possui uma competência de reparação conseguida na posição depressiva, contudo esta idealização conduz sempre a uma insatisfação porque é assombrada por conflitos.

No segundo caso, a função do objeto será mais da ordem da facilitação da definição da identidade, da possibilidade do indivíduo formar uma visão de si mais coesa e com uma estabilidade temporal a qual está comprometida na ausência de ligação ao outro, dado que nestas situações as fronteiras do Self são menos definidas, pelo que a idealização do outro será assente em conteúdos mais arcaicos, mais exigentes, menos realistas e com menor flexibilidade na aceitação dos aspectos menos bons o que é típico da posição esquizo-paranóide, o que conduz a rupturas precipitadas das relações, e uma fuga a pensar os aspectos do outro que podem atingir aspectos menos admissíveis do próprio. Os mecanismos de identificação projectiva são aqui mais activos, é urgente colocar no objeto o que não é aceite no próprio Self, pelo que a ausência do outro pode ser também mais avassaladora porque implica a confrontação com o vazio interno e com a falta de amor.

Encontrámos, também, no tipo de funcionamento amoroso eufórico-idealizante a necessidade de um objeto do Self valorizante - que segundo Kohut traduz a precisão de ser admirado e valorizado pelo outro - e que em nossa opinião, neste tipo de funcionamento amoroso as relações acusam muitas vezes coloridos perversos em que mantêm o objeto capturado pela inferioridade, retirando daí a valorização. Nestes relacionamentos, as próprias fragilidades e a vulnerabilidade com a qual o próprio não consegue lidar são projectadas no outro ocorrendo um espelhamento pelo que é necessário passar ao ataque, desenvolve-se um ódio que não pode ser contido porque não existe um contexto de amor, e porque o afecto odioso prevalece face ao amoroso, porque se ficou a meio caminho da posição depressiva e como tal os afectos contrários não puderam ser integrados .

Assim, por meio de mecanismos projectivos, acusa-se no outro aquilo que não se aceita no próprio, num constante movimento de debilitação narcísica, que de forma maligna, possibilita um reforço do narcisismo mediado pela fragilização do objeto e enaltecimento do próprio. Esta necessidade de ser valorizado passa muitas vezes pelo denegrir da imagem do outro para auto-fortalecimento narcísico do indivíduo depreciante.

Mas a acusação do outro enquanto objeto incapaz de satisfazer, impossibilita que o mau objeto interno se possa transformar num bom objeto, mantendo-se a clivagem ficando impedida a passagem à posição depressiva, posição reparadora e que tem em conta a sensibilidade do objeto. A possibilidade de ver o outro como um bom objeto levaria ao confronto com as limitações do próprio e à constatação das suas inferioridades intoleráveis e consequentemente à assunção da culpa pelo ataque ao bom objeto.

Mas quando os aspectos inaceitáveis são colocados fora, o Self fica cada vez mais debilitado, a dependência face ao objeto aumenta e encripta o desenvolvimento. O outro é o lugar onde são colocados aspectos não pensáveis, mas à espera de serem contidos, porque sem continente próprio têm de ser evacuados num outro, num objeto-continente, na expectativa que funcione como tal.

Assim se estabelecem impasses relacionais, na medida em que ao tentar afastar a dependência face ao outro mediante ataques narcísicos que afirmariam a independência - porque não se depende de um objeto sem valor - mais dependente se fica pelo aumento da fragilização do Self resultante dos movimentos projectivos, que esgotam e esvaem o Self, porque não são devolvidos, transformados, pois, não encontram na maioria das vezes objetos que funcionem como contentores e transformadores. O sucesso de uma relação assenta em grande parte no sentimento de autonomia do próprio num sentimento de identidade pessoal com a manutenção de uma capacidade para depender (Sandler, 1993), o que não acontece nestes tipos de funcionamento.

O que se passa é que quanto mais debilitado está o Self, maior a premência do outro para realizar uma função remediadora, pelo que maior o recurso a defesas de forma a evitar as necessidades de ligação ao objeto. Assim, encontramos neste tipo de relacionamento amoroso resultados significativo no que respeita ao evitamento das necessidades de ligação ao objeto do Self gémeo e idealizadonecessidades que induzem a sentimentos de dependência em relação ao outro, pelo que esta tende a ser negada porque se constitui como uma ameaça de dissolução das débeis fronteiras do Self , remetendo à inveja e aos sentimentos de menor valia que têm de ser colocados à distância do Self. O que está em causa é a impossibilidade de formação de um envelope narcísico (Solan, 1999), espécie de película protectora do Self, que torna possível o desejo pelo outro, sem que haja ameaça à segurança do próprio.

O evitamento das necessidades de Objetos do Self gémeo e idealizado que encontramos com resultados mais significativos nas relações amorosas tipo eufórico-idealizante e evitante-desnarcisante confirmam a nossa hipótese acerca das tendências defensivas destes tipos de relacionamento que são muitas vezes salientados na manifestação de uma pseudo-grandiosidade que proporciona uma ilusão de independência com alicerces fragilmente edificados, possibilitando em todo o caso, uma exibição narcísica da não necessidade do outro, pseudo-independência que afasta da relação íntima e de partilha que conduz ao crescimento.

O evitar do reconhecimento dessas necessidades, pela negação da urgência do outro e pelo narcisismo mais negativo que afasta a ligação ao outro de modo maniforme e através da demonstração de comportamentos da ordem da depreciação e da negação do valor desse, ao mesmo tempo que ao denegrirem o outro surge a hipervalorização do próprio, testemunham a intervenção de um Supereu patológico, exigente e castrador, que impele à identificação projectiva, e são estes aspectos parciais do Supereu projectado que impedem a elaboração mental e prejudicam a evolução para a posição depressiva. Em muitas situações de relacionamento amoroso, estes movimentos projectivos cujos elementos não são contidos vão deteriorando de tal modo a relação, agudizando o fosso emocional entre os elementos e desenvolvendo o que Fisher (1994) designou de relações tipo claustros, com estagnação do desenvolvimento e encriptamento da emocionalidade.

A pseudo-ligação ao outro é realizada muitas vezes por interacções eróticas, de satisfação sexual, desprovida de qualquer afecto amoroso, em que o outro possibilita a exaltação, mas de uma sexualidade imatura e até mesmo perversa. Saliente-se, no entanto, que o evitamento da necessidade de um objeto do Self gémeo e idealizado é também mais significativo nas relações eufórico-idealizantes, pelas razões referidas anteriormente.

Encontrámos, ainda, em todos os tipos de relacionamento amoroso uma necessidade de objetos do Self valorizantes que de acordo com os autores da escala SONI se prende com a necessidade de ser admirado e com a necessidade de se sentir superior aos outros sendo reveladoras de fragilidades e falhas na coesão do Self. No entanto, estas necessidades serão de graus diferentes e como tal, as condutas adoptadas diferem na sua manifestação sendo que, defendemos que nos tipos de relacionamento eufórico-idealizante e evitante-desnarcisante, serão mais da ordem do narcisismo negativo através de condutas arrogantes e de depreciação do objeto e enaltecimento bizarro do próprio.

Defendemos que estas necessidades remontam a falhas sentidas em fases mais precoces do desenvolvimento em que era crucial para o desenvolvimento do Self a apreciação e manutenção do afecto por parte de um objeto e o estabelecimento de uma relação de contenção e com continuidade afectiva de forma a possibilitar um sentimento de coesão e estabilidade do Self, e em que o desenvolvimento do Self não foi ainda suficiente para que haja uma provisão das falhas.

Deste modo, para o tipo de relacionamento submisso-idealizador a necessidade de um objeto do Self valorizante prender-se-à com o desejo de ser reconhecido e valorizado ao nível da imagem sexual, tendo mais em conta o relacionamento com o objeto, sem que os comportamentos de ligação ao outros sejam tão extractivos e invejosos como acontece nos funcionamentos amorosos tipo eufórico-idealizante. Em casos de funcionamento mais desorganizado, como é o caso dos funcionamentos borderline com contornos mais psicóticos ou mesmo nos funcionamentos psicóticos, que caracterizarão os relacionamentos tipo eufórico-idealizante e evitante-desnarcisante, em que o sentimento de coesão e integridade do Self estão mais ameaçados, o sentimento de coesão e estabilidade e de superioridade advém da ausência de ligação, de modo a evitar estados confusionais, e o afastamento de angústias persecutórias. Para Amaral Dias (2010) esta alienação tem a função de desmentir a dependência, a qual em nossa opinião desperta a inveja face ao sentimento de bondade do objeto que desencadeará, também, as culpas persecutórias.

Esta necessidade de objetos do Self, embora seja transversal aos diferentes tipos de relacionamento amoroso que propusemos, distingue-se pelo grau e pela tendência ao evitamento dessa mesma necessidade, a qual é mais significativa no caso do relacionamento tipo evitante-desnarcisante pela ameaça à fragilidade das fronteiras do Self e a ameaça de dissolução do Self no outro, determinando um maior evitamento, sendo mais significativo também o evitamento da necessidade de um objeto do Self que cumpra funções valorizantes na medida em que está patente o receio da dependência e do emergir da necessidade do outro, e a dificuldade no reconhecimento das competências do outro, na medida em que a consciência dessas desperta a inveja e a ameaça de desintegração. Assim, à custa do desmentido da necessidade do outro é possível a formação de um Self Ideal defensivo, livre de afectos inaceitáveis, criado à custa das lesões do Self do próprio.

Por outro lado, nestes casos, a necessidade de ligação a um objeto do Self idealizado surge para permitir o sentimento de coesão e de estabilidade do Self, por ser um objeto ao qual se atribui qualidades superiores, com o qual se estabelece uma identificação adesiva, que confere significado ao Self instável aludindo um sentimento de segurança no próprio e na ligação com o outro.

Estes resultados reforçam a ideia de que a ligação ao objeto deverá ser analisada em função do que representa na vida mental, pois a sua função poderá ser diferente, a questão reside no que é que cada um procura na ligação ao outro, e portanto o que é que cada um procura no relacionamento amoroso.

Deste modo, podemos afirmar que os resultados confirmam as nossas hipóteses de que os tipos de relacionamento amoroso que propusemos com base na vulnerabilidade narcísica revelam necessidades de objetos que cumpram funções que faltam ao Self. Assim, os resultados obtidos possibilitaram-nos a confirmação de que os tipos de relacionamento que propusemos se afiguram como funcionamentos narcísicos, com fragilidades ao nível do Self, procurando os outros como continuidades do Self.

Por outro lado, sustentamos, de acordo com Pistole (1995), que olhar para a vinculação nos adultos sem ter em conta os aspectos da vulnerabilidade narcísica, poderá ocultar o modo como os padrões de vinculação podem estar relacionados com a manutenção da auto-estima e a protecção do Self. Na visão da autora, os padrões inseguros de vinculação serão caracterizados por graus de vulnerabilidade narcísica mais elevada.

Assim, resolvemos perceber se existe correspondência entre estilos/padrões de vinculação e os tipos de relacionamento amoroso que propusemos enquanto tipos de relacionamento que se organizam com vista à reparação da vulnerabilidade narcísica.

Deste modo, no respeitante aos resultados das correlações entre o Questionário de Vinculação Amorosa (QVA) e o Inventário de Tipos de Relacionamento Amoroso (ITRA) verificamos que a dimensão confiança/desconfiança que diz respeito à responsividade e sensibilidade do companheiro para corresponder às necessidades de vinculação do sujeito, apresenta-se com correlação significativa relativamente à escala submisso-idealizador, indicando uma certa capacidade para confiar na habilitação vinculativa do parceiro, indiciando uma maior segurança na figura de vinculação, uma maior competência para o estabelecimento de relações objectais, de troca afectiva, contrariamente ao que acontece com os dois outros tipos de relacionamento amoroso (eufórico-idealizante e evitante-desnarcisante), em que a correlação aparece com significação negativa, apontando para a desconfiança face à figura de vinculação, para uma dificuldade em estabelecer relações com maior intimidade, acusando grandes dificuldades ao nível da vinculação e da capacidade para estabelecer relacionamentos amorosos, ao mesmo tempo que apresenta correlações significativas com a dimensão evitamento, revelando um afastamento da necessidade de formar vínculos, por dificuldade em confiar no objeto e porque remete para a dependência negativa e para a antecipação da rejeição e da insatisfação vivenciada na relação de dependência precoce com as figuras de vinculação da infância, o que envolve a angústia antecipatória que reenvia para experiências menos benéficas, interiorizadas, à sombra das quais ficam as novas experiências relacionais. A impossibilidade de se ter internalizado a imagem de um objeto interno predominantemente bom parece, em muitos casos, impedir a abertura a relações também elas vividas como predominantemente boas.

Por outro lado, este evitamento estará também na base da fragilidade das fronteiras do Self, que levam a que se desenvolva um afastamento face ao objeto de vinculação por receio de dissolução da identidade frágil, uma perda de limites e do sentimento de si, é o dilema claustro-agorafóbico mediando a distância face ao objeto, nem muito íntimo nem ausente, de forma a possibilitar uma ilusão de coesão do Self.

A tendência ao evitamento revela-se como negativa no caso do relacionamento amoroso tipo submisso-idealizador pois, neste caso, o evitamento a existir está relacionado com os comportamentos de retracção e inibição característicos das personalidades depressivas e que se prende com uma certa desistência no investimento por considerar que não é digno de apreciação, pelo que se afasta, desinveste por não se considerar com valor para despertar o interesse do objeto, optando por uma retirada narcísica pela retracção que impede que a ferida inflame quando o sujeito se confronta com a rejeição ou com o sentimento de receber menos do que o que sente que necessita, até porque a rejeição remete para uma culpabilidade que o sujeito teme vivenciar. Ou, como verificamos no caso do evitamento da necessidade de objetos do Self gémeo, que se prenderia com a dificuldade neste tipo de funcionamento, em se afirmar, exigir os seus direitos, em oposição à tendência habitual de se manter numa posição passiva, infantil, de quem espera que o outro antecipe as suas necessidades, confirmando assim a não responsividade do outro, a falta de sintonia afectiva e o sentimento de extenuação pela ausência de troca afectiva recíproca. Pelo que, deste modo, o evitamento surge como uma defesa contra o sentimento de desvalorização, reforçado pelo sentimento de ter menos direito que os outros.

Neste tipo de relacionamento submisso-idealizador, a correlação com a dimensão de dependência do QVA é muito significativa, na medida em que há uma grande necessidade de ligação ao outro, porque como já verificamos, a confiança é maior, e há uma necessidade de fusão com o outro idealizado de forma a regular a auto-estima, sendo grande o receio da perda e elevada a ansiedade de separação pois o objeto é investido como uma parte do sujeito pelo que a sua ausência remete para o sentimento de incompletude, falta o objeto protésico, o que completa o sujeito e lhe possibilita uma visão mais positiva do Self diminuído e desvalido. Por outro lado, a dependência é grande porque ela permite um afastamento das angústias de rejeição típicas destes padrões de relacionamento. As dependências possibilitam em muitos casos uma ilusão de pertença e de ter um significado na vida emocional do outro que se torna reconfortante e que alivia as angústias de menor valia que despoletam os sentimentos de rejeição. No entanto, como já referimos anteriormente, trata-se de uma dependência estéril, sem manifestação dos desejos próprios deixando-se ficar numa posição submissa de modo a sentir que agrada ao objeto.

Se tivermos em conta o modelo de Bartholomew e Horowitz (1991), no qual as autoras do Questionário de Vinculação Amorosa (QVA) se basearam, encontramos grandes correspondências entre o funcionamento amoroso tipo submisso-idealizador e o tipo de vinculação descrito como preocupado\inquieto (preoccupied) (no modelo de Hazan & Shaver ,1987; corresponde ao estilo de vinculação designado de ambivalente e no modelo de Main et al, 1985, corresponde ao estilo preocupado) expresso por uma visão mais negativa de si e mais positiva do outro, com tendência à culpabilização e idealização, com grande dificuldade em lidar com as separações (Mikulincer et al., 1990). Bartholomew e Horowitz (1991) referem-se a este padrão de vinculação preocupado como revelando uma dependência grande face ao parceiro no sentido da manutenção de uma visão mais positiva de si. Estas ideias reforçam as nossas de que no tipo de funcionamento amoroso tipo submisso-idealizador existe uma fragilidade da auto-imagem do próprio enquanto objeto amoroso e capaz de despertar o afecto do outro, o que é muito típico no tipo de funcionamentos mais depressivos, pela sua auto-imagem ser desfavorecida, pelo facto de se sentirem como não estando à altura do outro, pela negatividade no que respeita aos seus atributos atractivos, pela sua auto-imagem sexual ser muito desvalorizada. Deste modo, a visão mais agradável e fortalecida do próprio advém da ligação ao outro visto como mais digno de valorização.

A dimensão, ambivalência, surge como mais significativa nos tipos de funcionamento eufórico-idealizante e evitante-desnarcisante em que as dúvidas surgem como mais prementes no que diz respeito ao desempenho do próprio enquanto objeto amoroso e na capacidade de se ligar afectivamente ao objeto, uma vez que nestes funcionamentos onde a fragilidade do Self é maior, sendo as fronteiras delineadoras do Self menos estáveis, as inseguranças são mais agudizadas e mais desorganizadoras pelo que o sujeito tem menos conhecimento sobre o seu modo de funcionamento, sobre o seu Self e o modo como se comporta na ligação ao outro, a ambivalência surge como mais elevada devido a estas dúvidas que afectam o estabelecimento de relacionamentos mais estáveis e seguros.

No tipo de relacionamento submisso-idealizador a dimensão ambivalência apresenta uma correlação significativa, embora muito inferior aos resultados da correlação desta dimensão nos outros dois tipos de relacionamento. Consideramos que estes valores se ficam a dever à insegurança que o próprio tem acerca das suas competências atractivas, das interrogações acerca da capacidade de despertar afectos e desejo no objeto, deixando-se invadir por sentimentos de incerteza quanto ao seu valor para o outro.

Defendemos que a competência que deverá surgir, ao longo do desenvolvimento, no sentido da gestão interna do sentimento de ambivalência inerente a qualquer relacionamento amoroso, constitui-se como um resultado da resolução da fase edipiana e é tida como um pré-requisito para o estabelecimento de relações saudáveis. Nestes tipos de relacionamentos amorosos que descrevemos, em que defendemos que existe uma fragilidade ao nível do narcisismo, os resultados elevados na correlação com a escala de ambivalência sugerem-nos a defesa de que a fase edipiana terá acarretado conflitos quer da ordem da desvalorização quer da ordem do abandono ou ambas. Como já referimos anteriormente ao longo do desenvolvimento da teoria, a gestão das ansiedades edipianas remetem para a capacidade de integração do sentimento de não ser o único, de que o mundo não gira em seu redor e conseguir entender os ganhos de ter o seu lugar entre outros, o que traduz o amadurecimento e que conduzirá a benefícios para relacionamento amoroso.

Nos tipos de funcionamento - eufórico-idealizante e evitante-desnarcisante - e que parecem corresponder a padrões de vinculação designados de evitantes em que existem modelos negativos do outro, com tendência ao evitamento de relações íntimas, com elevados valores de desconfiança face à figura de vinculação e uma negação grande da dependência, revela-se a impossibilidade de se possuir um objeto usável - aquele que é mais do que um objeto de projecção e face ao qual se tem preocupação - o que é delineado pelo desconhecimento do próprio e consequentemente, do outro. Neste sentido, a vulnerabilidade narcísica é manejada através do distanciamento afectivo ou íntimo, sendo maior nos casos de funcionamento psicótico e com outros contornos nos funcionamentos borderline. Nestes últimos, a ligação ao outro deve servir uma função, apenas se baseia nas idealizações primitivas, sem compreensão dos mundos internos do par relacional, conduzindo ao estabelecimento de relações com união pelo falso-Self , conduzindo ao que Fisher (2005) designou de casal falso Self.

Nestes casos, existe uma tendência para externalizar as partes do Self que não são manejáveis, através de movimentos projectivos, sendo que através dessa projecção é possível o Self adquirir um ilusório e temporário sentimento de controle e segurança (Fonagy, Gergely, Jurist & Target, 2002). Elizabeth Spillius (1994) designou estes movimentos de evocatory projective identification.

Mas, como refere Holmes (2001) alguns indivíduos com padrões de vinculação inseguros têm um tal deficit ao nível do Self que têm necessidade de se ligar a um outro para saberem quem são. Embora, nestes funcionamentos amorosos a dependência surja com uma correlação negativa), mas significativa, parece-nos poder evidenciar uma negação que o sujeito faz da necessidade do outro através da utilização de estratégias defensivas que têm como função a manutenção de uma certa coesão do Self e da sua estabilidade temporal através do sentimento da pseudo-independência face ao outro.

A vulnerabilidade narcísica é governada pelo distanciamento face ao objeto, permitindo que haja uma ilusão de afastamento emocional que protege do ser tocado internamente por emoções não manejáveis e avassaladoras, como refere Pistole (1995) o distanciar de um envolvimento emocional e próximo com o parceiro assegura a manutenção de uma fachada protectora, garantindo que a auto-estima não sofre injúrias e que as emoções ingovernáveis não brotam pois há a fantasia de que o Self seria sucumbido e desfaleceria em face da intensidade dos sentimentos.

O que se passa é que se os conflitos e falhas originárias na infância entre autonomia e dependência, entre exploração e segurança, amor e ódio prosseguem sem se resolver, o relacionamento amoroso surge como um terreno profícuo para o ressurgir desses conflitos. É então que os relacionamentos amorosos se constituem mais para reparações e resoluções de aspectos do passado que por compromissos de desenvolvimento mútuo.

Já Bartolomew & Harowitz (1991) referira que nestes funcionamentos evitantes a regulação do afecto era realizada através da desvalorização da importância da vinculação e através da idealização do Self ou de um outro (Hazan & Shaver, 1987).

O que acontece nestes casos é que o outro não está lá enquanto objeto, ele apenas ocupa o lugar da sua funcionalidade, no lugar da continuidade do próprio, portanto nunca é um outro real, ficando comprometida toda a possibilidade de tomar para si a experiência do outro sem perda do próprio ser.

Deste modo esta dependência face ao objeto é negada, porque como referimos anteriormente, trata-se de uma flutuação entre a necessidade do objeto que organiza e o objeto que tem de ser atacado porque existe o receio de uma dependência fusional, porque nunca foi possível ao sujeito a integração do amor com o ódio e consequentemente ficou impossibilitada a transformação dos objetos parciais em totais. Deste modo, reforçando as palavras de Amaral Dias (2010) a dependência nestes funcionamentos não é emocional mas sim a da actividade cogitativa do outro. O outro está no lugar de uma pele psíquica organizadora e contentora dos aspectos não contidos do sujeito, o problema é que nem sempre é fácil encontrar o objeto que possa desempenhar essas funções e que possa possibilitar um reinício do desenvolvimento que havia estagnado. O que se passa nestes casos é que as relações são mediadas por mútuas projecções, sem que cada elemento possa funcionar como continente do outro, não havendo hipótese de desenvolver o taking back, no sentido da retoma dos aspectos projectados, agora passíveis de serem integrados na estrutura psíquica

Desta forma, a dependência é muitas vezes mascarada com atitudes altivas de desvalorização do objeto amoroso, revelando desprezo mas o qual tem como objectivo o aprisionamento do outro através da depreciação sugando o seu narcisismo de tal forma que esse, se vai desvalorizando, desfalecendo narcisicamente tendo cada vez menos força para abandonar o indivíduo, mantendo-se assim uma dependência negada, à conta da depleção narcísica do objeto. O indivíduo dominador e desnarcisante encobre a sua falha narcísica e a sua necessidade de dependência mantendo o outro na sua submissão, a “presa” sem reforço narcísico mantêm-se sob o seu domínio e satisfaz necessidades de vinculação desse, ao mesmo tempo que o alimenta narcisicamente pela prestação de vassalagem e admiração. O outro é fundamental como receptáculo das projecções do indivíduo, mas como não se tratam de relações maduras, essas projecções não são digeríveis e não podem ser devolvidas de forma manejável, porque o par amoroso não se constitui enquanto tal, e não tem essa capacidade de mútuo taking in, de forma a que o que é projectado possa ser novamente integrado de modo a poder favorecer a integração desses elementos no todo mental, sem que se caia num vazio interno pela intensa actividade projectiva, que muitas vezes só pode ser colmatado com a actividade delirante.

Claro está, que em todos os relacionamentos amorosos existe dependência, embora a dependência madura seja mais em função do que o outro pode complementar no desenvolvimento do próprio, a dependência a que nos referimos nestes três tipos de relacionamento amoroso é mais em relação a estruturas que faltam no desenvolvimento psico-afectivo, algo que não se formou em termos de estrutura psíquica e que se prende com a auto-estima, com a delimitação e definição de fronteiras do Self e com o sentimento de coesão e de estabilidade do funcionamento mental. Assim, depende-se do outro naquilo que ele proporciona em termos de completação do próprio. Trata-se de dependências doentias, não desenvolutivas e que tendem a aprisionar e a não possibilitar o desenvolver dessas mesmas estruturas em falta. Consideramos que uma relação amorosa salutogénea permite que o que ficou por desenvolver na relação com os objetos de desenvolvimento numa fase mais precoce da vida, possa agora retomar o seu desenvolvimento, é a “retoma do desenvolvimento suspenso” nas palavras de Coimbra de Matos, 2009, possível com a troca afectiva e com a revelação do Self genuíno e aberto à mudança e reconstrução permanente, geradora de amor e crescimento mental.

Não significa que nas relações amorosas maduras não existam actividades projectivas, o que se passa nesses casos, é que os elementos projectados no outro podem, pela própria competência de taking in serem transformados e devolvidos de forma a contribuírem para o desenvolver da relação e não para a sua destruição, é a capacidade de taking in do par amoroso que favorece o desenrolar saudável da relação, deste modo os receios e conflitos internos deixam de ser agidos e tornam possível uma transformação interna de cada elemento e uma modificação do mundo partilhado.

Não obstante, consideramos que os resultados que encontramos apontam para a ideia de que os tipos de funcionamento amoroso que propusemos (submisso-idealizador, eufórico-idealizante e evitante-desnarcisante) se enquadram mais em padrões de vinculação inseguro. De salientar que no modelo de Bartolomew e Horowitz (1991) apenas consideramos o padrão seguro e dois tipos inseguros: evitantes e preocupado, podendo estabelecer-se uma correlação entre o submisso-idealizador e o padrão de vinculação preocupado e os tipos eufórico-idealizante e evitante-desnarcisante com os padrões de vinculação evitantes.

De facto, as distinções feitas na literatura entre os padrões de vinculação evitante, ambivalente e incoerente parecem descrever o que em termos de funcionamento mental se enquadra nas descrições de esquizóide, histérico e borderline (Holmes, 2002), corroborando os nossos resultados.

O que nos surge acrescentar é que defendemos a ideia de que os padrões de vinculação inseguros estão relacionados com fragilidades ao nível do Self que determinam escolhas do objeto amoroso na expectativa de colmatar essas falhas. Talvez possamos afirmar que a diferença entre padrões de vinculação seguros e inseguros se relaciona com o predomínio da posição objectal nos padrões seguros enquanto nos inseguros se encontra o predomínio da posição narcísica, mas também, nalguns funcionamentos mais depressivos, um predomínio exagerado da objectalidade o qual conduz a uma posição de submissão subserviente face ao outro, o que também está no domínio da patologia e leva ao que Coimbra de Matos (2011) designa de hemorragia narcísica (pág. 199), ao esgotamento da estima por si próprio em função da idealização do objeto narcísico. Portanto, há assim duas formas de compensação da vulnerabilidade narcísica, uma mais típica de um narcisismo benigno (típica dos histéricos) de exaltação maníaca e sedução, e uma mais comummente praticada pelo narcisismo maligno, a da desvalorização do outro, utilizando a possessividade e o denegrir do narcisismo do objeto. Embora, e de acordo com Coimbra de Matos (idem), estes dois mecanismos de defesa face à vulnerabilidade narcísica possam ser utilizados em simultâneo.

O que se passa é que estes padrões de vinculação constituem-se como re-edições de relações interiorizadas que remontam a experiências da infância a partir das quais não foi possível um desenvolvimento das estruturas basilares do Self. A questão é que muitas vezes encontramos indivíduos que ao andarem à procura do que falta, repetem consecutivamente o que tiveram, numa continuidade patologizante que implica uma sucessão de relações frustrantes onde não é possível o desenvolvimento do Self nem o encontro com o verdadeiro amor. Esta repetição ora alude à relação com o objeto primário ou com o objeto edipiano. É nesta repetição que se revela a estagnação do desenvolvimento do Self , a sua fragilidade e incapacidade para ser autónomo e possibilitar a procura de relações que seja desenvolutivas, novas e criadoras, seguindo o pensamento de Coimbra de Matos (idem), há mudança de objeto mas não de objectivo.


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