Capítulo 1 – Os disfarces de amor



Baixar 0.68 Mb.
Página2/11
Encontro18.07.2016
Tamanho0.68 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11

2.1 - Perspectiva do narcisismo em relação com as pulsões.
Freud ao propor a segunda teoria das pulsões, na qual considera a preponderância da agressividade na génese dos conflitos psíquicos, não fez revisão do conceito de narcisismo, embora em muitos dos seus escritos posteriores a 1920 se encontrem referências à relação entre narcisismo e agressividade.

São os autores da escola Kleiniana os pioneiros nesta temática (Espaza & Manzano, 2008) uma vez que desenvolvem o conceito de narcisismo partindo da concepção de instinto de morte definido por Freud, em que as pulsões destrutivas estariam relacionadas com a manifestação de omnipotência do Self e com a negação da dependência, estando portanto relacionadas com o narcisismo patológico (Mancia, 1990).

Embora Klein não se tenha debruçado muito sobre o tema do narcisismo, os avanços por ela introduzidas em termos das relações de objeto, permitem uma melhor compreensão do mundo interno e consequentemente possibilitam mudanças na sua concepção (Mollon, 2006).

Para a autora, as pulsões libidinais e agressivas têm um papel fundamental nas relações de objeto, os objetos são criados pelas pulsões e independentes dos objetos reais, assim, o imago parental seria resultado da distorção da imagem dos pais por acção das pulsões agressivas, sendo estes sede de projecções de imagens de objeto inatas, originando uma imagem muito diferente do real.

As pulsões, segundo a autora, possuem imagens inatas do mundo real pelo que, o bebé possui um conhecimento inato inconsciente da existência da mãe, o qual servirá de base para a relação primitiva da criança com a sua mãe (Greenberg & Mitchell, 2003).

Klein considera que existe desde o início um ego rudimentar, que alterna entre estados de coesão relativa e estados de desintegração ou não integração, mas que estabelece intensas relações com os objetos. Este Eu estabelecia relações com os objetos na realidade e na fantasia. Deste modo, a autora contesta a existência de um narcisismo primário, pois considera que desde a nascença o bebé estabelece intensas relações com os objetos, ainda que inicialmente parciais (mamilo, seio e pénis), renegando a existência de estados anobjectais, uma vez que a criança estabelece com estes objetos parciais reais, na fase esquizoparanóide, ligações mediadas por identificações projectivas e introjectivas, utilizando mecanismos de negação, projecção e clivagem, que visam a protecção do Self e dos objetos idealizados face a objetos ameaçadores, estes resultantes de projecções da agressividade da criança.

A dinâmica mental para Klein, de acordo com Amaral Dias (2010), seria o resultado da gestão entre estes afectos (bons e maus) internalizados ou colocados fora pelo mecanismo projectivo, ou vindos de fora, que permitiriam a evolução do aparelho mental.

Amaral Dias (idem) refere que a criança psicanalítica de Klein é uma criança constituída por uma relação entre partes clivadas, desconhecidas uma da outra, do Eu e do objeto. A tarefa básica da posição esquizo-paranóide será a de construir um objeto suficientemente bom de forma a possibilitar uma integração posterior, isto é, a construção de um objeto integrado percepcionado como um todo.

Será pois, na posição depressiva, com os objetos totais “bom” e “mau” integrados, com consequente integração dos afectos de amor e ódio, que a criança tenderá a estabelecer uma relação de reparação, fundada na culpabilidade depressiva e no medo da perda, em face aos ataques destrutivos da fase anterior. A capacidade para lidar com esta culpa será fortalecedora do ego.

Contudo, se o ódio for demasiado forte e diminuída a confiança nas capacidades reparadoras, não é sustentável a relação com os objetos totais, sendo urgente um retorno ao mundo cindido da posição esquizo-paranóide (Mitchell, 2002).

Segundo Grinberg (2000), os escritos de Klein contêm implícito uma ideia de culpa persecutória, anterior à culpa depressiva, uma mais relacionada com a posição esquizo-paranóide, cujo Eu rudimentar é incapaz de a integrar e como tal, projecta-a, tornando-se persecutória, sendo na fase depressiva, com um Eu mais maduro que esta pode ser colocada ao serviço da reparação uma vez que pode, agora, ser suportada.

Estas são, para Klein, modalidades para lidar com a realidade interna e externa e por isso as designou de posições de forma que estão sempre presentes no desenvolvimento.

Assim, a autora, acentuando os aspectos libidinais do narcisismo, refere-se a este como um fenómeno secundário, baseado numa relação com o objeto interno bom ou objeto ideal.

Constata que a libido narcísica descrita por Freud não estaria relacionada com um investimento no próprio ego, mas tratar-se-ia de um investimento em objetos internos, deste modo a distinção entre libido objectal e narcísica proposta por Freud deveria, segundo Klein, ser substituída por uma visão entre relações com objetos internos v.s. objetos externos (Greenberg & Mitchel, 2003).

Deste modo, nas relações narcísicas existiria segundo Klein uma retirada das relações com o meio externo, em favor de uma identificação com o objeto interno idealizado e com as suas qualidades constituindo-se como uma defesa contra a inveja, originando o que Rosenfeld designou de simbiose defensiva (Rosenfeld, 1971; Coderch, 2006).

Nesta linha, Heimann (1952 cit. Manzano & Espaza, 2008), considera que a retirada narcísica em direcção ao objeto interno seria resultado da raiva e ódio face ao objeto externo, exigindo um reforço compensador do seu investimento libidinal.

No artigo de 1946, Notes on Some Schizoid Mechanisms, Klein considera, de modo semelhante a Freud, que o narcisismo e a psicose estão relacionados com fases de desenvolvimento que antecedem relações maduras com os objetos mas, contrariamente a este, defende que não são estados de ausência de relação com o objeto mas sim estádios em que há relações com objetos primitivos (Segal & Bell, 1991).

Segal (1983) considera que está implícito nos trabalhos de Klein uma relação estreita entre o narcisismo e a inveja, acentuando que narcisismo e inveja são duas faces da mesma moeda. Em que o narcisismo seria uma defesa face à inveja.

Embora Klein não se tenha debruçado muito sobre a relação entre inveja e o narcisismo, na sua obra Inveja e Gratidão de 1957, refere-se a esta como uma manifestação dos impulsos mais destrutivos, o que chamou a atenção de autores posteriores, nomeadamente de Rosenfeld que elaborou das mais detalhadas descrições das características psico-estruturais das personalidades narcísicas bem como os desenvolvimentos da transferência no decurso da análise (Kernberg, 2004).

É este autor que reintroduz, no seio da escola Kleiniana, o conceito de narcisismo primário, mas longe do conceito clássico, dado que para ele não se trata de um estado anobjectal, será mais comparável ao sentimento oceânico, ao narcisismo sem limites descrito por Abraham, ou ao amor primário referido por Balint.

É Rosenfeld (1964) quem desenvolve o tema do narcisismo em torno da agressividade e da pulsão de morte. Compara as relações de objeto narcísicas com as da posição esquizo-paranóide (Guillem, Loren & Orozco, 1991). Considera que as relações de objeto narcísicas representariam a incorporação de partes do objeto experienciado como omnipotente e a consequente negação da separação entre Self e objeto evitando a inveja e a raiva, a desvalorização do objeto serviria como uma defesa contra o emergir destes sentimentos. A percepção da separação levaria à tomada de consciência sobre a necessidade de dependência face ao objeto e as frustrações inevitáveis pela constatação das qualidades de aspectos bons deste, o que constituiria uma ameaça ao Self omnipotente. De salientar que é necessária uma certa separação entre Self e objeto de forma a surgir o sentimento de privação, de falta, o que conduz à inveja.

Deste modo, desencadeia-se no narcísico um aparente desligamento e a indiferença face aos objeto externos, revelando uma atitude arrogante e uma imagem de si idealizada, negando de forma omnipotente toda a realidade que a coloque em causa (Rosenfeld, 1965).

Para o autor, a manutenção de uma relação objectal omnipotente e narcísica estaria relacionada com a força dos impulsos destrutivos e invejosos.

Deste modo, com Rosenfeld, dá-se uma mudança na visão do narcisismo, o qual se torna mais complexo (Mancia, 1990), para além de uma defesa contra a inveja, passa a ser encarado como uma defesa contra a separação resultante da expressão de partes omnipotentes do Self que têm a sua origem na primeira infância.

Passa agora, a relacionar-se o narcisismo com a agressão, a destrutividade e com o instinto de morte (Mancia, 1990, Fabião, 2007).

Se outros autores vinham considerando o narcisismo como um investimento libidinal do Self, o autor considera necessária uma distinção entre aspectos libidinais e agressivos no narcisismo. Os primeiros, ao serviço do instinto de vida, caracterizar-se-iam pela sobrevalorização do Self baseada nas identificações projectivas e introjectivas omnipotentes com os objetos bons e as suas qualidades, de tal forma que o narcísico se sentiria como estando na posse e controle de tudo o que é bom pertencente ao mundo externo. Os aspectos destrutivos manifestavam-se da mesma forma por uma idealização do Self, mas agora este estaria identificado às partes más do objeto, estando relacionado com o instinto de morte, dirigindo toda a agressão face a qualquer parte do Self libidinal que experimente necessidade e desejo de dependência face ao objeto (Rosenfeld, 1965; Mancia, 1990; Fabião, 2007; Espaza & Manzano, 2008).

Rosenfeld distingue narcisismo destrutivo e raiva narcísica descrita por Kohut, referindo que essa tem a ver com situações de humilhação e incompreensão, melhorando quando o paciente se sente compreendido, no caso do narcisismo destrutivo, existe um ataque maciço face a quaisquer sentimentos de ligação os quais são vivenciados como fragilidade do próprio Self.

O autor considera que a descrição que Green faz do narcisismo negativo que visa a destruição das relações objectais através de um ataque à função objectalizante, em direcção ao zero, estaria próximo das suas descrições acerca do narcisismo destrutivo, em que há um ataque a qualquer manifestação de ligação libidinal aos objetos.

Segundo Rosenfeld, este narcisismo destrutivo estaria muitas vezes de tal forma organizado constituindo-se como uma espécie de «quadrilha/gang narcisista» que afectaria as partes mais saudáveis do Self e quando aliado a uma estrutura ou organização psicótica criariam uma ideia delirante de completa ausência de dor dentro do objeto omnipotente, estando impedida qualquer relação de objeto (Rosenfeld, 1991; Fabião, 2007). De salientar que Freud (1926, cit. Laplanche e Pontalis, 1971) referira o facto de o narcisismo se constituir como um ponto de fixação que inibe e impede qualquer desenvolvimento mental.

Na sua obra de 1987, Rosenfeld faz uma distinção entre os narcísicos de pele fina, hipersensíveis, reagindo a qualquer situação que torne visível a sua fragilidade, por seu turno, os de pele grossa, seriam insensíveis a sentimentos profundos, revelando-se como muito invejosos.

De salientar que o autor não considera de grande importância a influência dos pais na origem dos distúrbios narcísicos. Segundo Mollon (2006), Rosenfeld parece formular a existência de um sistema psíquico fechado.

Nesta linha de ligação do narcisismo às pulsões, André Green (2002) faz uma distinção entre narcisismo positivo que tem como objectivo a unicidade, que alimenta o Self através de um certo investimento em objetos, visando a manutenção da auto-estima, a defesa da auto-imagem, a auto-idealização e a grandiosidade conseguida à custa da desvalorização dos objetos e um narcisismo negativo, ligado às pulsões destrutivas, em que há uma desvalorização grande do Self do próprio, não merecedor de qualquer valor, e cuja finalidade é a morte psíquica. Deste modo, o narcisismo de vida seria uma forma de vida, muitas vezes parasitária, noutras auto-suficiente, mas com um empobrecimento do Eu, que está limitado a relações que ilusoriamente suportam o Self, mas sem grande envolvimento com objetos reais. O narcisismo de morte é uma cultura do vazio, da auto-depreciação constante, com qualidade masoquista, conduzindo ao desaparecimento do próprio Self. Neste caso, há um desinvestimento constante do próprio Self, que se dirige à inexistência, à anestesia, ao que Green (1980) designou de branco, que vem a considerar como uma perda sofrida ao nível do narcisismo, apenas revelada na transferência, cujas queixas se centram em torno do sentimento de impotência, fracasso nas relações amorosas, denotando-se a presença de um Ideal do Eu exigente.

Estes casos resultariam do sentimento de catástrofe originário numa tristeza profunda materna, acarretando o desinvestimento brusco do filho, implicando uma mudança brutal no imago materna, conduzindo à formação de um núcleo frio que deixa marcas profundas nos investimentos eróticos futuros. A retirada do investimento materno determina uma fragilidade interna na criança que condicionará futuras relações, impossibilitando o estabelecimento de ligações objectais duráveis, acarretando constantes decepções em relação ao Eu e ao outro, quer por dificuldade em encontrar alguém desejável, quer por não se considerar objeto capaz de despertar o desejo. Deste modo, ficam comprometidas as relações amorosas dado que, pela compulsão à repetição, serão procurados objetos que sejam passíveis de decepcionar, repetindo-se a defesa antiga, ficando estes sempre no limite do Eu, nem completamente dentro, nem totalmente fora, uma vez que o centro está ocupado por uma mãe morta, envolta numa depressão branca que consome todo o investimento, lesando os investimentos no próprio.

Esta falta de investimentos no próprio aumentam a ferida narcísica, futura chaga no adulto que se considera não digno de amor, comprovando-o na sua vida amorosa posterior. Ora refugia-se, ora faz uma dissociação corpo/mente, separando sentimento e ternura, encontrando soluções fictícias numa vida sexual profusa e dispersa, múltipla e fugaz, num encontro incessante com objetos parciais que satisfazem apenas a nível erógeno, resultando num descontentamento permanente que bloqueia o amor.

Segundo o autor trata-se de uma situação em que há uma perda do Eu, em que todo o investimento se encontra a tentar animar a mãe morta, procurando trazê-la à vida.

Também Bollas (1992) seguindo as ideias de Green, sobre o narcisismo positivo e negativo, refere-se ao antinarcísico como aquele que se opõe ao seu destino, que se nega a utilizar os objetos em favor da elaboração do seu Self verdadeiro e que opta por um Self negativo, revelando um ódio por todas as suas qualidades uma vez que estas o impedem de manter uma ligação de dependência face ao objeto materno.

O autor considera que se trata de um ataque em relação às representações do Self, da existência de uma parte da personalidade que destrói todas as representações positivas, denotando-se uma certa semelhança com o que havia dito Rosenfeld sobre a gangue narcisista.

Symington (2006) considera um erro designar-se antinarcisismo uma vez que no narcisismo há a ligação entre a idealização e a desvalorização as quais funcionam conjuntamente.


2.2 - Formulações sobre o narcisismo enquanto independente das pulsões.
Na tentativa de conceber o narcisismo afastado das pulsões, Grunberger, da escola francesa apresenta, desde Freud, as concepções dotadas de maior originalidade.

Para Gunberger (1971), o feto encontra-se num estado de elação e bem-estar, de autonomia e omnipotência, de onde é retirado abruptamente resultando numa primeira ferida narcísica. A este estado de narcisismo primário deseja todo o ser humano regressar, sendo a compulsão à repetição uma tradução desse desejo de reencontro com um estado fetal de perfeição, “fonte de todas as variantes de narcisismo”, de forma a reparar a ferida original. (Grunberger, 1971; Mancia, 1990; Dessuant, 1992).

Na passagem deste estado de elação para o confronto com os estímulos que afectam a sua estabilidade, está aberto o caminho para a maturação do Eu, sendo, no entanto, necessário o auxílio do objeto na manutenção do equilíbrio narcísico. Deste modo, é imprescindível que veja reflectido no olhar materno a confirmação da sua unicidade, do seu valor e da estima que a mãe tem por ele, o que possibilita que se vá adaptando ao novo mundo e que mantenha, em certa medida, o seu sentimento de integridade narcísica e o seu valor. Grunberger vem, assim, chamar a atenção para a importância da relação com o objeto primário no estabelecimento do equilíbrio narcísico, e na gestão dos estímulos que provocam instabilidade.

A reconquista (ainda que parcial) deste estado de bem-estar original dependerá do compromisso entre as pulsões e o narcisismo (Guillem, Loren & Orozco, 1991).

O autor considera que o balanceamento entre libido objectal e narcísica deverá ser visto numa perspectiva de relação dialéctica entre componente instintiva e componente narcísica. Assim, o facto do sujeito se amar mais ou menos não terá a ver com a quantidade de libido objectal de que dispõe, mas sim da relação entre o seu narcisismo e a sua libido pulsional. O narcisismo utiliza a libido, mas não se confunde com ela, e é o movimento narcisante e valorizante do Eu que carrega libidinalmente os objetos e a si próprio, os seus actos, os seus desejos, as suas satisfações pulsionais, sendo designado de investimento narcísico.

Deste modo Grunberger propõe a clivagem entre narcisismo e factor pulsional, sendo estes interdependentes, propondo assim uma linha de desenvolvimento autónoma para o narcisismo (tal como fará Kohut). As pulsões opõem-se ao narcisismo uma vez que estas tendem a investir os objetos, e o narcisismo tende à fusão pré-natal com o objeto primário.

O autor sustenta que em cada fase de desenvolvimento deverá ocorrer uma integração das pulsões e um investimento narcísico (onde o objeto desempenha um papel importante), de forma a se conseguir uma síntese entre pulsões e narcisismo. O fracasso no restabelecimento narcísico constituir-se-á como uma nova ferida, representada inconscientemente como castração (Dessuant, 1992).

Grunberger afirma que existe um equilíbrio entre a libido narcísica e a libido objectal, quanto mais o indivíduo investir em si próprio mais libido terá disponível para investir na relação com os outros. Contesta, assim, a perspectiva económica de Freud e, também, a ideia de que na esquizofrenia haveria um investimento sobre o Eu, referindo-se ao empobrecimento da libido narcísica nestes casos, baseando-se nas conclusões de Federn, que considerava que nestes casos existia um desinvestimento narcísico maciço das fronteiras do Ego (Grunberger, 1971; Dessuant, 1992).

Assim, surge uma alteração à teoria da libido, em que a libido que era tida como sempre narcísica, surge agora como uma energia assexuada, e o narcisismo correspondendo a um estado de amor puro. Secundariamente, a libido narcísica, que pode ser dirigida ao objeto ou ao próprio, receberá elementos agressivos ou sexuais, que transformam o narcisismo em auto-erotismo ou em perversão narcísica e o investimento objectal em amor (Guillem, Loren & Orozco, 1991).

Grunberger critica Freud, pois considera que quanto mais o sujeito investir em si próprio mais libido objectal terá à disposição, e considera que o narcisismo não deverá ser estudado dentro do quadro pulsional, mas entra em relação com a pulsão.

Abre assim caminho para as ideias de Kohut, considerando a importância do investimento narcísico de forma a possibilitar o desenvolvimento do narcisismo, enquanto linha independente do mundo pulsional.

Numa ligação muito próxima com a obra de Grunberger, Chasseguet-Smirgel, dedicou-se ao estudo da ligação entre narcisismo e perversão. Para esta autora, o narcisismo é uma doença da idealidade, em que os pacientes evitam a realidade causadora de frustração e tentam a todo o custo realizar ideais narcísicos infantis. Deste modo, a perversão é uma estratégia de manutenção das ilusões narcísicas, que permite apagar as diferenças entre Self e não-Self (Chasseguet-Smirgel, 1992).

Assim, a distância entre Eu e Ideal do Eu (visto como herdeiro do narcisismo infantil) deverá ser encurtada de forma a não causar danos na auto-estima.

Na América do Norte, o narcisismo encontrou um destino diferente, nomeadamente em relação às ideias de M. Klein (Mancia, 1990).

Uma das importantes contribuições para as compreensões sobre o narcisismo reside na concepção de Hartmann que, em 1950, altera a visão que Freud havia proposto do narcisismo enquanto investimento libidinal do Eu, passando o narcisismo a ser redefinido como “ …o investimento libidinal, não do ego, mas do Self” (Hartmann, 1950, p. 85) ocorrendo uma elaboração do conceito de Self como sendo uma parte da estrutura do Eu, e dizendo respeito às representações inconscientes, pré-conscientes e conscientes do Self corporal e mental (Teicholz, 1978; Stolorow & Lachmann, 1983; Ornstein, 1991; Livingstone, 1996).

Apesar de Hartmann manter a visão psicoeconómica de distribuição da libido, ele faz um avanço considerável em relação às ideias de Freud, fixando uma importante posição do Self nas concepções psicanalíticas e possibilitando a integração do narcisismo dentro da teoria estrutural (Joffe & Sandler, 1967; Ornstein, 1991), propondo uma definição de narcisismo que seria a mais aceite, e que se refere ao investimento libidinal da representação do Self (Kernberg, 1984; Teicholz, 1978).

Em sequência destas formulações, Jacobson (1964) embora ainda presa a conceitos instintivos, vai referir-se ao narcisismo enquanto investimento libidinal da representação do Self relacionando-o com afectos, valores, auto-estima e auto-desvalorização, considerando que a auto-estima revela a maior ou menor harmonia existente entre a representação do Self e o conceito de Self desejado, não apenas um resultado da tensão entre Ego e Superego. Desta forma, como refere Eduardo Val (1982) a distinção feita entre auto-estima enquanto estado afectivo-cognitivo e enquanto processo, possibilitou um melhor entendimento das suas formas patológicas.

Para Jacobson, qualquer distúrbio no investimento libidinal ou agressivo das representações do Self terá como consequência alterações na auto-estima.

Após esta noção de narcisismo enquanto investimento libidinal da representação do Self, Jacobson vai considerar a abolição da noção de narcisismo primário pois, se não existe diferenciação entre Self e objeto, não fará sentido falar de investimento libidinal da representação do Self.

A partir desta ligação do narcisismo à representação do Self, outros esforços correctivos foram feitos, nomeadamente por Joffe e Sandler que apresentaram em 1967 uma visão sobre os distúrbios do narcisismo implicando uma ligação deste aos estados afectivos e não às pulsões, não deixando espaço para a perspectiva económica a qual se demonstrara pouco eficaz aquando da aplicação à prática clínica, na medida em que não era evidente que um maior investimento no Self implicasse um desinvestimento nos objetos (Joffe & Sandler, 1967; Pulver, 1986; Ornstein, 1991).

Sabemos que quanto maior o bem-estar próprio, melhor será o relacionamento com os outros. A antítese entre libido do Eu e libido objectal, proposta por Freud (1914), não fazia sentido.

Deste modo, a ideia era focalizar nos estados afectivos e não nas descargas libidinais, apontando a necessidade de analisar o narcisismo tendo em conta os afectos dolorosos subjacentes, atendendo a que comportamentos como a super-compensação pela fantasia, a identificação com figuras omnipotentes e idealizadas, formas exageradas de escolha objectal narcísicas, pseudo-sexualidade e outras, representariam esforços para lidar com esses estados de dor, correspondendo a defesas que poderiam assumir formas mais ou menos patológicas, e que, ao falharem podem conduzir a uma reacção depressiva (Joffe & Sandler, 1967; Ornstein, 1991).

Para Joffe e Sandler (idem), o narcisismo seria caracterizado por um estado de bem-estar ideal definido por um funcionamento integrado e harmonioso das estruturas mentais e biológicas, devendo ser analisado na sua relação com as representações do Self, ou seja com a auto-estima (Joffe & Sandler, 1967; Pulver, 1986).

Deste modo, os autores estavam numa outra linha de desenvolvimento do narcisismo dado que não consideravam os comportamentos narcísicos como defesas contra conflitos pulsionais, vinculando-os aos estados emocionais, apresentando como exemplo alguns comportamentos exibicionistas manifestados pelas crianças que estariam relacionados com a manutenção de um certo tipo de relação de objeto visando o ganho de admiração de forma a afastar os sentimentos de menor valor, inadequação e culpa. Assim, chamam a atenção para a ligação ao objeto de forma a obter um ganho narcísico, como forma de gratificação da necessidade de apreciação ou elogio.

Annie Reich (1953,1986) procura realizar uma integração entre a perspectiva económica de Freud e as concepções estruturais de Jacobson. Enfatiza a componente afectiva no narcisismo prestando especial atenção aos modos de regulação da auto-estima referindo-se ao facto de determinados padrões de funcionamento narcísico terem como objectivo a reparação de uma imagem desvalorizada de si, e de como em certos casos a ligação ao objeto se faria de acordo com uma necessidade de enaltecimento do próprio, estando portanto relacionado com a regulação da auto-estima.

Considera o narcisismo como um fenómeno normal do desenvolvimento, tornando-se patológico em certas formas de regulação da auto-estima (Reich, 1960; Stolorow & Lachmann, 1983; Mancia, 1990; Morrison, 1986).

No seu artigo de 1953, a autora refere-se à escolha que algumas mulheres fazem do seu objeto de amor o qual deve ser possuidor de qualidades que faltam ao Self de modo a possibilitar o encobrir de um trauma de castração e os intensos sentimentos de inferioridade, em alguns casos, desencadeando comportamentos masoquistas que visam a todo o custo a conservação da relação, impedindo a perda do objeto tido como o que possui o que falta ao próprio. Segundo a autora o que aparenta tratar-se de uma forma de amor intenso revela numa análise mais profunda o seu carácter narcísico infantil, não sendo mais que uma forma mágica de reparação da auto-estima. Noutras situações estes sentimentos de inferioridade levariam à procura de um objeto idealizado com o qual estabelecem uma relação temporária, extraindo a valorização que necessitam para largar de seguida, apenas visando identificações que surgem como meras imitações do objeto e que estariam em alguns casos relacionadas com uma distorção profunda da relação com o objeto materno, também este com graves fragilidades narcísicas. Reich encontra semelhanças com a descrição da personalidade “as if” de Deutsch, referindo-se a traços de imaturidade, superficialidade, maleabilidade e labilidade emocional, que em nossa opinião tem uma grande proximidade com o estilo de relação que é característico do funcionamento borderline.

Segundo Reich, a retirada temporária da libido dos objetos em direcção ao Self em risco seria indicador de sujeição, ao longo do desenvolvimento, a injúrias narcísicas que se revelavam através de sentimentos de desamparo, ansiedade e raiva. A libido encontrar-se-ia a investir o Ideal do Eu grandioso e irrealizável, não diferenciado do Eu e remetendo para aspectos idealizados das figuras parentais (Reich, 1953).

As injúrias narcísicas determinariam medidas patológicas de reparação da auto-estima, manifestas pela necessidade excessiva de enaltecimento do próprio, a preocupação desmesurada com o corpo e a urgência constante de admiração, reveladora de uma perturbação ao nível do Supereu (Reich, 1960). Parece-nos que deste modo, a autora faz uma antecipação da relação entre narcisismo e relações objectais.

Morrison (1986) refere que nestes dois aspectos de ligação ao objeto referidos por Reich, estariam os precursores da psicologia do ego para as contribuições de Kohut e seguidores.

Já Karen Horney em 1939 analisara a relação entre narcisismo e auto-estima salientando a oposição entre estes, ao considerar que o narcisismo não revelava um amor por si próprio mas sim uma alienação do Self, conseguida através da tendência compensatória para a exaltação de um valor exagerado, do qual o Self não é possuidor. Deste modo, seria uma forma de manter a auto-estima a um nível sustentável, que estaria na base da perda de um verdadeiro Eu, em virtude de relações perturbadas na infância, que conduziriam à busca de uma admiração enganosamente substituta de um amor não disponível.

Também Miller (1986) vê os distúrbios narcísicos como falhas no desenvolvimento do verdadeiro Self, que passam a ser compensadas pela grandiosidade ou, quando esta falha, manifestos na depressão. Para a autora, estes distúrbios narcísicos seriam resultado de uma fixação num falso Self ou num Self incompleto, enunciação de um investimento materno de cariz narcísico, em que o objeto materno procura compensar com o filho o que falhou na relação com a sua própria mãe, transformando-o em marioneta que deverá ecoar os próprios desejos maternos, em que o filho devoto de admiração e reconhecimento, apenas poderá manifestar sentimentos que alimentem a auto-estima materna.

Deste modo estes pacientes sentiram que não beneficiaram, numa fase precoce, de um objeto disponível e usável, sendo-lhes exigido uma inversão em que eles se tornariam no objeto à disposição da satisfação materna, em ordem a manter o afecto do objeto, mas em que falhou a constância do afecto e a sua continuidade.

Já Riviére (1936) havia estabelecido uma associação entre narcisismo e depressão, defendendo que quando as resistências narcísicas eram muito acentuadas, elas fariam parte de um sistema de defesa fortemente organizado contra uma condição depressiva, mais ou menos inconsciente. Steiner (1993) refere que Riviére terá talvez sido o primeiro autor a estudar as relações de objeto narcísicas e a referir a formação de uma estrutura superiormente organizada, resultante da relação entre os objetos e os mecanismos de defesa. Contudo, W. Reich (1933, citado por Rothstein, 1979; Cooper, 1986; Stolorow & Lachmann, 1983) já havia acentuado o carácter defensivo do narcisismo, funcionando como um mecanismo protector contra os perigos vindos do mundo exterior e do mundo instintivo.

Morrison (1986) vai relacionar a ênfase que Miller deu à depressão, nos distúrbios narcísicos, com a vergonha como sendo um afecto central nestes pacientes e que resultaria da dificuldade no alcance de ideais envoltos em fantasias grandiosas, as quais não foram modificadas pelos objetos do Self contentores e empáticos, e como tal são irrealistas e conduzem a sentimentos de falha sucessivos, desembocando na vergonha que conduz a que o indivíduo esconda, mascare e faça uma retirada do investimento. Também Broucek (1982) considera que a vergonha e o embaraço serão resultado de crescer na relação com uma mãe que tem na sua mente, uma imagem de filho que não corresponde à veracidade do seu ser.

Acentuando a importância da falha precoce do meio circundante no desenvolvimento, Winnicott (1960, 1963, 1969) embora não se referindo directamente ao tema narcisismo, lançou bases importantes para a sua compreensão.

Referiu-se à necessidade do encontro entre o gesto espontâneo e a resposta maternal adequada de forma a validar a expressão do Self em desenvolvimento. É nos repetidos encontros entre o gesto espontâneo e a resposta adaptativa da mãe que se desenvolve o verdadeiro Self e se abre caminho para a formação do símbolo. Caso contrário, se o verdadeiro Self na sua manifestação através do gesto espontâneo, não encontra uma resposta adequada, forma-se um falso conluio entre o falso Self e as exigências do meio, retrai-se a espontaneidade, passa a desenvolver-se a imitação, predominando o sentimento de futilidade e irrealidade, se não é possível mudar nada, então o melhor é resignar-se, aceitar o que vem pois o outro é necessário à sobrevivência.

Segundo o autor, é necessário que a mãe esteja disponível para a satisfação das necessidades do seu bebé, mas também que se disponha a ser utilizada por este na satisfação dos seus desejos; i.e. que se disponibilize para ser criada pelo bebé, cujo Self está em constante transformação, necessitando de uma relação criativa e não limitativa do desenvolvimento. Antecipando-se a H. Kohut, refere a importância do reconhecimento da existência do falso Self e de como falham as tentativas terapêuticas que não procuram o entendimento do verdadeiro Self escondido (Cooper, 1986).

Balint terá sido um dos autores que influenciou Kohut e Kernberg nas suas formulações sobre o narcisismo. A sua visão teve implicações na técnica psicanalítica uma vez que, considera que o narcisismo se fica a dever a injúrias narcísicas ocorridas na relação entre a criança e o cuidador, o que constitui uma mudança na visão tradicional do narcisismo (Bergmann, 1987).

As suas considerações referem-se à existência de um amor primário e não de um narcisismo primário, em que a criança desde o nascimento está em relação com o cuidador necessitando ser amada e satisfeita nas suas necessidades, sem que lhe seja feita qualquer exigência. O narcisismo seria assim visto como um resultado de um desapontamento na procura deste amor primário:


Se eu não sou suficientemente amado pelo mundo ou não recebo gratificação suficiente, eu devo amar-me e satisfazer a mim próprio” (1937:98-99).
A ideia de Balint de amor primário parece derivar da definição de Ferenczi (1933) de objeto de amor passivo, em que o autor se refere à vulnerabilidade da criança face à necessidade de ser entendida intuitivamente pela mãe nas suas necessidades.

Bergmann (1987) considera que Ferenczi e Balint foram os primeiros psicanalistas a sugerir que a interacção entre a mãe e o bebé era crucial para o desenvolvimento posterior. Também Holmes (2006) sustenta que Balint e Ferenczi diferem de autores anteriores na medida em que propõem a existência na patologia, de um deficit (falha básica de Balint) em vez de um modelo conflitual.

Nesta linha, Kohut segue a ideia de que o narcisismo seria resultado de um deficit de narcisação por parte dos pais, que desencadearia um sentimento de falta, resultando na patologia.

Kohut é um autor de referência da escola norte-americana da Psicologia do Self, tendo sido o autor que maior contributo trouxe ao pensamento psicanalítico, nomeadamente sobre o desenvolvimento e tratamento das perturbações do Self, merecendo um destaque especial.

Kohut (1988) considera que as perturbações do Self se ficam a dever a carências empáticas do meio. Fazendo uma ruptura quase completa com o modelo pulsional freudiano, afasta-se do conceito de Freud de amor objectal como a última etapa do amadurecimento do narcisismo, defendendo que este possui a sua própria linha de desenvolvimento (separada da linha de desenvolvimento do amor objectal), o que implicou novas questões sobre a prática clínica e um desafio à centralidade do complexo de Édipo, que para o autor, deveria ser analisado à luz da relação da criança com os seus objetos do Self, sendo conflitual apenas quando essas relações estão perturbadas (Allen Siegel, 2005).

A ideia de Kohut surge como original, ao defender que o narcisismo não é somente patológico, fazendo parte do desenvolvimento saudável da personalidade e do carácter, constituindo-se como motor de desenvolvimento para a construção do Self. Salienta-se que, já em 1921 Andreas-Salomé enfatizara a importância do narcisismo no desenvolvimento humano, considerando que este não estaria só relacionado com uma fase da libido, mas fazia parte do amor-próprio e acompanharia todas as fases do desenvolvimento. Acentuando a importância da relação Self-Objeto no desenvolvimento do narcisismo considerando a importância das identificações formadas nessa relação.

Kohut também enfatiza a importância dos aspectos relacionais como facilitadores da grandiosidade infantil e da idealização, enquanto processos normais do desenvolvimento. Assim, vem acentuar a influência da função parental no desenvolvimento do narcisismo saudável, focalizando mais os aspectos ambientais do que os pulsionais, dado que desde o início da vida que o ser humano necessita de afecto, empatia e comunicação e não apenas de objetos adequados à descarga pulsional.

Considera o narcisismo como algo saudável, uma constelação psicológica enriquecedora, uma linha autónoma de desenvolvimento, o qual só será patológico em certas circunstâncias de reciprocidade deficitária dos objetos do Self para com a criança, uma vez que determinam o desenvolvimento de um Eu lesado, que tentará a todo o custo a criação de estruturas compensatórias. A patologia narcísica seria resultado de paragens no desenvolvimento do Self grandioso e/ou da imago parental idealizada. Assim, com Kohut (1972), o narcisismo não se define pela direcção do investimento pulsional (se é o Self ou o objeto), mas sim pela natureza ou qualidade da carga instintiva. Deste modo, mantendo a metáfora económica, porém utilizando-a de forma diferente. Refere que não é a direcção da libido que importa ter em conta, mas sim a sua natureza, objectal ou narcísica. De facto, consideramos que a ideia de investimento no Self ou nos objetos não serve para caracterizar a modalidade de investimento narcísico dado que, o investimento no objeto também pode ser de cariz narcísico, isto é, um investimento em que o objectivo é o ganho narcísico do próprio. Para Kohut (1966) a antítese do narcisismo não é a relação objectal mas sim o amor objectal, pois o autor considera que a relação com os objetos pode implicar um investimento tipo narcísico e um isolamento e solidão podem esconder uma abastança de investimentos objectais. Sendo assim, o oposto à libido objectal não pode ser a libido narcísica dado que esta também pode investir os objetos (Teicholz, 1978).

Kohut (1966) considera que a experiência narcísica se inicia com o estado de plenitude do bebé. Na sua conceptualização, o recém-nascido começa a vida num estado de narcisismo primariamente indiferenciado, o qual será perturbado pelas falhas naturais da mãe cuidadora, não podendo estas ser evitadas. O bebé procurará restaurar esse estado de plenitude que foi interrompido, através da criação de dois novos sistemas de perfeição narcísica. Um primeiro que visa a criação de um Self perfeito em que tudo o que é bom, agradável e prazeroso é sentido como pertencendo ao interior e o que é desagradável é relacionado com o exterior. Freud (1915), falara de ego de puro prazer, Kohut chama-lhe configuração de Self narcísico, termo que, em 1968, foi alterado para Self grandioso, cujas características são: omnipotência, grandiosidade e exibicionismo. Este necessita de objetos do Self especulares que confirmem, através da admiração, a sua grandiosidade e possibilitem um sentimento de plenitude, grandiosidade esta que é considerada como natural desta fase tendo uma função adaptativa que se pode traduzir no sentimento de: “eu sou perfeito e tu admiras-me”, o que representa o seu sentido saudável de omnipotência, que se transformará na auto-estima e auto-confiança, contribuindo para a formação das ambições.

Kohut, tal como Winnicott já havia feito, chama a atenção para a importância do brilho do olhar materno para o desenvolvimento do sentimento de valor e importância do Self do bebé, o qual “…precisa do brilho nos olhos da mãe para manter a impregnação libidinal narcísica…” (1966, pp. 252).

O sentimento de grandiosidade será gradualmente integrado no ego, originando um sentimento de confiança nas próprias capacidades e atributos. Caso a criança sofra graves traumas narcísicos, implicando a não satisfação desta necessidade de exibição e confirmação, o Self grandioso fica retido na sua forma arcaica, inalterado, não se desenvolve, torna-se inacessível a experiências exteriores modificadoras, ficando vulnerável e irá procurar restaurar a todo o custo a satisfação dessas necessidades mais infantis. Deste modo, o ego adulto ou tenderá à sobrevalorização irreal do Self ou revelará sentimentos exagerados de desvalorização, reagindo de forma agressiva à frustração das suas necessidades. Daqui se deduz que, é a exposição prolongada às falhas parentais que conduz a malformações do Self.

O que acontece é que se a mãe tem dificuldade na contenção das angústias do bebé, se falha na sua função de espelho valorativo (objeto do Self especular), denunciando uma lacuna da sua competência empática, a criança tem de se voltar, de modo compensatório, para o pai. Se este tiver disponibilidade e empatia, pode possibilitar a formação de estruturas psicológicas importantes.

Kohut (1988 b) refere o recurso do psiquismo a estruturas defensivas e compensatórias, em que as primeiras têm como objectivo cobrir uma falha primária no Self, resultante da falha do objeto materno enquanto especular e validante das necessidades exibicionistas da criança, sendo que as segundas visam possibilitar uma compensação para essa falha, como se de uma reabilitação funcional do Self se tratasse. Muitas vezes a procura incessante de um objeto do Self idealizado constitui uma medida compensatória de uma falha ocorrida na relação com o objeto do Self especular. Quanto maior a falha com o objeto primordial, maior a avidez na procura do objeto idealizado e consequentemente maior será a decepção, caso ocorra de novo uma falha na relação com esse.

No segundo sistema sugerido por Kohut, a procura de ligação a um objeto tido como perfeito serve para restaurar o sentido de completude e plenitude da criança. Deste modo, precisa criar uma imagem idealizada de pelo menos um dos seus pais e de experimentar uma fusão com o objeto do Self idealizado no sentido: “tu és perfeito e eu faço parte de ti”, constituindo a imago parental idealizada, que se transformará nos valores ideais que acompanharão o indivíduo pelo resto da vida. As qualidades idealizadas do objeto são amadas como fonte de gratificação às quais a criança se sente ligada.

Assim, o sentimento de segurança da criança está relacionado com a manutenção de um certo resíduo de grandiosidade infantil e para que essa segurança perdure, é necessária a dependência e “uma simbiose protectora” (Cortesão, 1990, pp. 37) com um objeto idealizado.

Quando os desapontamentos da criança vão ocorrendo de forma gradual é possível manejá-los de forma saudável e integrá-los internamente. Este sistema é perturbado quando a criança descobre precocemente as falhas parentais, quando estas têm uma magnitude acentuada que desiludem drasticamente ou mesmo quando os pais se colocam numa posição narcísica tal que impedem a descoberta gradual das suas fraquezas. Assim, Kohut fala em falhas óptimas ou frustração óptima que indica o grau ajustado das mesmas de modo a que a internalização transmutadora (1988 a) possa ir ocorrendo e os dois sistemas possam ser modificados na relação com o objeto.

Kohut (1988) fala de três tipos de perturbação da imago parental idealizada, dependendo da fase do desenvolvimento em que ocorrem. Assim, quanto mais precocemente ocorrer a perturbação mais grave será a consequência para o desenvolvimento do psiquismo. Deste modo, se ocorre ao nível do período pré-edipiano inicial, devido a uma falta de competência responsiva materna adequada às necessidades do bebé, o autor considera que conduzirá a interferências graves no desenvolvimento da competência do psiquismo para a expansão e o restabelecimento do equilíbrio narcísico. Se acaso o trauma ocorre no período pré-edipiano tardio, este conduzirá à sexualização como forma de compensação das necessidades narcísicas. Durante o período edipiano, o trauma conduz a uma necessidade constante de aprovação e de admiração por parte de outros e a procura constante de objetos que possa idealizar.

Daqui se deduz que, para o desenvolvimento de um narcisismo sadio é necessário que tenha havido a valorização do próprio e de um outro significativo. Se estas necessidades não forem satisfeitas, o Self não chega a atingir a força e coesão necessárias para manter a estabilidade e uma auto-estima num nível suficiente, desenvolvendo-se um Self fragmentado, frágil e descontínuo, com um baixo nível de auto-estima.

Para Kohut, o não desenvolvimento de, pelo menos, um dos pólos determina a psicopatologia narcísica, caracterizada por um sentimento diminuído do Eu e uma incapacidade em manter a auto-estima num nível sustentável. Assim, a angústia da pessoa com perturbação narcísica está relacionada com a percepção de que o seu Self é vulnerável e tende à fragmentação, dado que não ocorreu o desenvolvimento das configurações narcísicas.

Na sua perspectiva, a fragilidade do Eu infantil à nascença determina a necessidade da presença e interacção com os outros para lhe dar um sentido de coesão, constância e resiliência. Surge a necessidade de um outro para promover o fortalecimento e sentimento de coesão do Self. Os objetos, inicialmente não tidos como separados (Selfobjects = objetos do Self), vão desempenhar funções através da sua responsividade empática, que ocorrendo a transformação pela interiorização se constituirão como estrutura do indivíduo.

Deste modo, são as relações entre a criança e as funções dos objetos do Self que são os constituintes básicos da estrutura e do desenvolvimento psíquico. Deste modo, o outro só tem existência enquanto testemunha da grandiosidade da criança e das suas necessidades de exibição, não é um outro em si mesmo, a sua acção configura-se como função psicológica de um segmento do aparelho psíquico em formação.

Os objetos do Self devem satisfazer as necessidades narcísicas de grandiosidade e de identificação idealizadora, que são para o autor os constituintes básicos de um Self coeso. Deste modo, o autor concebe um Self bipolar (1977, 1988), composto por um lado por tendências exibicionistas e ambiciosas e por outro, pela idealização dos pais e do próprio Self. O desenvolvimento dos dois pólos conduz às ambições e ideais, entre os quais existe uma tensão relativa ao fluxo de actividade psicológica que se mantém entre os dois pólos e que o autor designa arco de tensão (1988, pp.144). Introduz assim um terceiro elemento no Self bipolar que diz respeito à área dos talentos e habilidades, onde se podem formar os mecanismos compensatórios.

Quando as relações empáticas dos pais para com a criança assim o permitem, o Self vai-se configurando de forma coesa e integrada e a formação das estruturas psíquicas possibilitam um sentimento de continuidade interna e de coesão do Self, o que determina uma autonomia cada vez maior em relação aos objetos do Self, e torna possível uma maior resiliência face a situações de desapontamento narcísico, e até mesmo face à perda de objetos.

As exigências do Self grandioso dão lugar ao prazer de uma vivência realista e a uma auto-estima estável e concordante com as competências reais.

De acordo com Socarides e Stolorow (1984), a função do objeto do Self refere-se sobretudo à integração do afecto e à organização da experiência do Self, sendo que a ligação ao objeto do Self tem a ver com a necessidade de uma resposta de sintonia afectiva nos vários estádios do ciclo de vida.

Para Kohut, a patologia narcísica é uma doença da deficiência, determinada pela ausência de função empática e contentora por parte da mãe. Assim sendo, o conflito, se existe, é interpessoal e com o ambiente envolvente, não será tanto o conflito intrapsíquico (Cortesão, 1990).

Falhas empáticas dos pais face às necessidades de admiração da criança, determinam uma não integração do Self no Eu, que permanecerá ligado aos objetos do Self arcaicos e irrealistas e fixados num Self grandioso e omnipotente. Para o autor, uma pessoa com o Self grandioso mal integrado e tensões exibicionístico-narcísicas tenderá a experimentar o sentimento de vergonha frequentemente, pois as pressões desse Self grandioso serão tão grandes que impossibilitarão uma reacção adequada do Eu pelo que a resposta será a vergonha face a qualquer tipo de fracasso.

Os objetos do Self desempenham a função que depois será desempenhada pela estrutura interna, mas se esta não se formou “ o psiquismo fica fixado num Selfobjeto arcaico, naquilo que parece uma forma intensa de fome objectal. A intensidade da busca desses objetos e da dependência a eles é devido ao facto de que são procurados sofregamente como substitutos de segmentos que faltam à estrutura psíquica (…) são necessários a fim de tomar o lugar de funções de um segmento do aparelho mental que não se estabeleceu durante a infância” (1971, pp. 45-6).

Contudo, Kohut defende que quando a relação com os objetos do Self originários é deficitária e geradora de traumas é possível, devido à plasticidade saudável do Self, a procura de objetos que sejam compensadores, no sentido da reparação das falhas originadas. A patologia representará uma incapacidade de libertação desses maus objetos e a procura de estilos relacionais que são repetitivos e não transformadores.

Kohut refere que “… a psicologia do Self descobriu o desespero do adulto na profundidade da criança: a realidade do futuro. A criança cujo Self é tolhido pelos fracassos dos objetos do Self está, na sua depressão, pranteando um futuro não vivido e irrealizado.” (1977, p. 83).

Nos fracassos da função parental estão incluídas as incapacidades empáticas bem como as dificuldades dos pais em olharem para o Self do filho como separado e autónomo e em vez disso, consideram-no como um prolongamento do seu próprio Self, sem organização psíquica própria, constituindo-se uma modalidade de relação que caracteriza o investimento narcísico.

Na sua obra “A restauração do Self” (1988 a), Kohut distingue claramente a psicologia do Self da psicologia clássica de pulsão-defesa, propondo que há um Self defeituoso no centro de toda a patologia.

Deste modo, a raiva, agressividade e voracidade que se encontram nestas perturbações narcísicas são acontecimentos secundários à desagregação do Self, gerados pelo desapontamento com o Self e com os seus objetos e não primários ou responsáveis por essa desintegração. A agressividade e o ódio surgem como secundários à não gratificação das necessidades das estruturas narcísicas, que na infância não foram alvo de admiração por parte dos pais e constituem esforços para manter ou restaurar a auto-imagem procurando fixá-la a um nível positivo. Assim, aquilo que um analista clássico vê como pulsões sexuais e agressivas primárias, Kohut considera expressões secundárias de um Self fragmentado (Siegel, 2005).

Segundo Kohut, quando o indivíduo se sente narcisicamente vulnerável ele reage às críticas (reais ou imaginadas), com a retirada, asilando-se narcisicamente constituindo uma fortaleza narcísica que o impede do sentimento de vergonha, ou pelo ataque, pela arrogância ou humilhação do outro.

Como refere o autor: “O desejo de transformar a experiência passiva em activa (Freud, 1920), o mecanismo de identificação com o agressor (A. Freud, 1936), as tendências sádicas conservadas por aqueles que, em criança, foram sadicamente tratados pelos pais – todos estes factores ajudam a explicar a prontidão do indivíduo inclinado à vergonha a reagir a uma situação que potencialmente provoque pelo uso de um remédio simples: infligir activamente aos outros aqueles danos narcísicos que mais têm medo de sofrer, ele próprio.” (1988, pp. 138).

Assim, a agressividade associada à raiva narcísica surge face ao que coloque em causa a grandiosidade arcaica ou as idealizações, pois constitui uma ameaça à integridade do Self e à sua estabilidade.

Kohut considera que a vergonha, o medo da humilhação e da super-excitação, que está associado ao Self grandioso, é delegado pelo processo de divisão vertical para um sector da mente que contém aspectos recusados da personalidade. Este processo implica a alternância entre estados de grandiosidade que negam a necessidade frustrada de admiração e estados de um vazio intenso e uma baixa auto-estima.

O processo de divisão horizontal contém aspectos arcaicos do Self grandioso que se encontram abaixo da barreira do recalcamento. Deste modo, o objectivo do tratamento consiste na eliminação da divisão vertical, possibilitando a integração dos aspectos recusados na restante personalidade, o que determina um fortalecimento do ego de forma a que se possam elaborar os aspectos arcaicos do Self grandioso que se encontram abaixo da barreira do recalcamento (Siegel, 2005).

O analista funcionaria assim, como um objeto do Self secundário, cujo papel é responder de forma adequada às necessidades do paciente evidenciadas na transferência. Assim, o analista tem de ter em conta os tipos de transferência, especular ou idealizante, na medida em que representam a expressão do Self grandioso ou da imago parental idealizada, e deste modo, informam sobre o papel do analista, como objeto que reflecte a imagem grandiosa do paciente, ou objeto idealizável face ao qual o paciente necessita sentir-se ligado. Para Kohut, mais do que o conhecimento, é a experiência de relação com um objeto empático que promove o crescimento do Self.

Com efeito, pretende-se com a análise a criação de um Self coeso através do preenchimento das estruturas narcísicas de modo que se possa viver com alegria e criatividade. Deste modo, visa possibilitar o estabelecimento de estruturas confiáveis que compensem uma falha primária na auto-estima. Kohut considera que a análise termina quando o Self está preparado para funcionar adequadamente uma vez que sejam reabilitadas as estruturas que estavam enfraquecidas, tendo sido possível durante a análise a mobilização de configurações narcísicas que haviam ficado bloqueadas na infância, desencadeando uma paragem no desenvolvimento. Kohut defende ainda (análise do Self), que com a análise o paciente adquire competências para poder identificar e procurar objetos do Self adequados, especulares e idealizáveis.

Embora os objetos internos e externos desempenhem um papel fundamental ao longo de todo o desenvolvimento, discordamos com a ideia de que a vida toda se procuram novos objetos do Self dado que segundo Kohut estes não seriam tidos como separados, e desempenhariam funções que viriam a tornar-se estruturas psíquicas. Deste modo, procuram-se novos objetos mas que complementem e que sejam respeitados pelo que diferem em relação ao próprio e, pelo facto de serem separados e complementares.

Partindo das ideias de Jacobson, e num esforço para integrar as contribuições Americanas e Inglesas para o diagnóstico e tratamento das personalidades narcísicas tendo por referência a psicologia do ego, Kernberg propõe uma alternativa teórica e clínica àquela sugerida por Rosenfeld.

O prestigiado autor norte-americano, contraria a posição de Kohut, pois considera que no narcisismo existe um investimento num Self que é patológico, que resulta de um desenvolvimento patológico da diferenciação entre Eu e Supereu, resultante de relações objectais patológicas que não integraram aspectos bons e maus do objeto. Deste modo, não é possível analisar o narcisismo normal e patológico sem se ter em conta o desenvolvimento das relações objectais interiorizadas, com os derivados dos instintos libidinais e agressivos.

O autor segue as ideias de Klein e Rosenfeld, ligando a pulsão de morte com a destrutividade e a relação destes com os fenómenos da vida mental. O ponto de vista de Kernberg sobre o narcisismo não representa um completo abandono da teoria freudiana já que este segue a linha de Klein, sendo que o modelo pulsional continua a ter um papel predominante, apesar do enriquecimento com a ideia de representação objectal inata.

Assim, para o autor, não se trata da paragem no desenvolvimento de certas estruturas mas sim, do seu desenvolvimento patológico ficando impedido o desenvolvimento posterior de outras. Igualmente, defende que nestes casos o desenvolvimento anormal do amor-próprio coexiste com o desenvolvimento deficitário do amor pelos outros, pelo que narcisismo e relações objectais não podem ser separados um do outro (Kernberg, 1975, 1984; Fabião, 2007).

Este autor inclui o narcisismo dentro do que designa de desordens caracteriológicas de nível inferior, distinguindo claramente um narcisismo normal e um narcisismo patológico, considerando que o narcisismo seria um subtipo de desordem borderline divergindo das ideias de Kohut que distingue as duas perturbações.

Kernberg distingue três formas de narcisismo: um normal infantil, que se caracteriza por uma estrutura de Self normal mas excessivamente infantil, por uma internalização de relações objectais normais; o narcisismo adulto normal caracterizado por uma regulação da auto-estima por meio de um Self normal com representações objectais totais integradas, por um superego integrado e gratificações das necessidades pulsionais no contexto de relações objectais e sistemas de valores estáveis, enquanto o narcisismo patológico é caracterizado por uma estrutura de Self patológica, com relações objectais patológicas que não contêm integradas a visão do mau e bom objeto, e um Supereu fragilmente integrado (Kernberg, 1975,1984; Manzano & Espaza, 2008).

Deste modo, nas personalidades narcísicas as relações de objeto internalizadas são estáveis, ainda que ambivalentes e conflictivas. Existe, no narcisismo patológico um investimento libidinal, não numa estrutura de Self normal, mas sim, num Self grandioso que resulta da fusão patológica de elementos do Self real, do Self ideal e os objetos idealizados da infância, originando uma difusão entre fronteiras entre o Eu e Supereu o que interfere negativamente com a formação de um Supereu maduro, resultando uma formação que contém derivados cruéis e agressivos do Supereu primitivo (Kernberg, 1975, 1984). Esta falha de integração do Ideal do Eu, enquanto estrutura importante do Supereu, determina uma extrema dependência face ao exterior em termos de apreciação e validação, com a concomitante necessidade de gratificação, acarretando uma fragilidade na auto-estima, e uma dificuldade em mantê-la a um nível que possibilite o bom funcionamento.

A construção do Self inflacionado tem como objectivo eliminar a tensão que existe entre o Self normal (cuja imagem é de fraqueza e debilidade, tornando-se odioso), o Self ideal e o objeto ideal sendo que, neste, os elementos aparecem confundidos.

Para Kernberg (1986) estes indivíduos necessitam destruir toda a fonte de amor e gratificação de forma a afastar os sentimentos de inveja e raiva projectada, ao mesmo tempo que investem internamente numa imagem de Self grandiosa que não é mais do que a fusão arcaica das imagens parentais idealizadas e do próprio Self idealizado, o que possibilita um escape ao ciclo de raiva, frustração e desvalorização agressiva da fonte de gratificação à custa da destruição das relações objectais internalizadas.

Segundo o autor, desta fusão entre imagens de Self real, Self ideal e objeto ideal determinam uma desvalorização dos objetos externos e a destruição dos objetos internalizados. Os aspectos inaceitáveis do Self são projectadas nos objetos externos, os quais passam a ser desvalorizados ou vistos como perigosos, parasitas e sugadores (Cooper, 1986).

Assim, a diferença fundamental entre o narcisismo normal e o patológico é que no primeiro existe um investimento libidinal da representação do Self, enquanto que no patológico há um investimento do Self grandioso patológico, o qual torna os sujeitos narcísicos invejosos, idealizantes, irrequietos e aborrecidos, incapazes de depender verdadeiramente dos outros e prontos para desvalorizar e atacar o objeto. Fica assim o caminho aberto para a negação da dependência e para a defesa contra as relações de objeto primitivas patológicas, as quais estão centradas na raiva narcísica e na inveja, no medo e na culpa por essa raiva. Deste modo, situar-se-iam a meio caminho entre a posição esquizo-paranóide e a posição depressiva.

Nestes pacientes, a idealização representa uma defesa contra a inveja, mas não é mais do que uma identificação projectiva da grandiosidade. Desta forma, a fusão patológica da imagem do Self, com o Self ideal e o objeto ideal vem permitir o perpetuar do ciclo vicioso:



auto-admiração depreciação dos outros eliminação da dependência
(Kernberg, 1975, p. 235, p. 270).
A desvalorização dos outros protege contra o sentimento de inveja e ódio, ao mesmo tempo que destrói a esperança de receber algo de novo e bom, a um nível mais profundo. Há por partes deste indivíduos a necessidade de posse de tudo quanto é invejável e sentido como tendo valor, de forma a se tornarem centro de admiração, ambicionando o que Kernberg designa existência satélite (1975, p. 270).

Assim, o mundo interno destes pacientes é povoado por uma imagem de Self grandioso, imagens desvalorizadas e frágeis do Self e dos outros, imagens objectais primitivas e distorcidas que resultam da projecção de aspectos internos do sadismo oral. Kernberg insistiu no vínculo entre narcisismo e agressão, no papel que a agressividade oral desempenha no Self grandioso patológico e que pode ser dissociada ou afastada nas relações objectais primitivas contra as quais este se defende. Para o autor, a raiva oral e os traços paranóides associados têm um papel central nesta patologia, conduzindo a defesas pela arrogância, grandiosidade e o controle.

Contudo, segundo o autor, fica difícil saber a que se deve este aumento da raiva oral, se a factores constitucionais determinados pelas pulsões agressivas, se a dificuldades constitucionais de tolerância à ansiedade face a impulsos agressivos ou se por outro lado, é resultante de frustrações graves nos primeiros anos de vida. Segundo o autor, muitos destes pacientes tiveram mães frias e indiferentes reveladoras de uma agressividade passiva, mas que os apresentavam como fonte de auto-valorização, expostos a exibição publica como se de uma obra de arte se tratasse (Kernberg, 1975). Este investimento narcísico, por parte do progenitor, desencadeou um sentimento de serem explorados, frustrados, maltratados e utilizados em benefício das necessidades do outro.

Estes indivíduos são incapazes de sentir a depressão quando abandonados ou desapontados, surgindo em vez dessa a raiva e o ressentimento, o desejo de vingança.

Para o autor, a organização defensiva destes pacientes narcísicos é idêntica à da personalidade borderline, apresentando uma predominância de mecanismos defensivos primitivos: clivagem, negação, identificação projectiva, omnipotência e idealização primitiva. O que as distingue, na opinião do autor, é que o narcísico tem um melhor funcionamento social e controla melhor os seus impulsos. Aparentemente parecem controlar as situações de ansiedade, mas esse controle é conseguido através de fantasias de grandiosidade, bem como retiradas para o isolamento esplêndido.

Ambos os autores, Kohut e Kernberg consideram que no narcisismo patológico está envolvido um Self defeituoso onde desempenham um papel importante imagens arcaicas grandiosas do Self e dos objetos, embora para Kernberg elas estejam reunidas com a imagem do Self real enquanto Kohut as considera afastadas da representação do Self mais madura.

De acordo com Ornstein (1974 cit. Teicholz, 1978) a distância entre Kohut e Kernberg resume-se a uma questão de visão do narcisismo em termos de paragem no desenvolvimento versus desenvolvimento patológico.

Embora na opinião de Emde (1988), ambos os autores tenham enfatizado o papel que as falhas empáticas precoces por parte dos cuidadores têm no desenvolvimento da patologia narcísica e borderline, consideramos que Kernberg não encarou este aspecto como sendo o de maior importância, ao passo que Kohut o fez.

Alguns autores vêem sublinhar a importância da relação simbiótica com a mãe no desenvolvimento das perturbações do narcisismo.

Bursten (1986) acentuara a importância da gravidade das dificuldades na tarefa de separação-individuação no desenvolvimento de quatro tipos diferentes de perturbação narcísica: o succionador, o manipulador, o paranóide e o fálico. Todas estas personalidades narcísicas balanceavam entre a necessidade de serem fortes e poderosos de forma a agradar a mãe, mas não o suficiente pois deveriam continuar a ser “os bebés da mãe”.

Também Modell (1986) considera que os distúrbios narcísicos estariam relacionados com uma necessidade de autonomização precoce, devido a uma relação com uma mãe intrusiva o que determinaria a formação de um Self frágil e vulnerável que só poderá ser sustentado por fantasias grandiosas e omnipotentes. Formar-se-ia, assim, um falso Self, com uma falha grave no processo de autonomização que seria sustentado por ilusões de auto-suficiência em que estes pacientes, embora ávidos de admiração, consideram não ser necessitantes de ninguém, «… como se estivessem enclausurados numa bolha de plástico onde nada entra e de onde nada sai» (op. cit. pág. 295).

Numa linha semelhante, Rothstein (1979) considera que o investimento narcísico secundário estaria relacionado com a resposta do ego face à ansiedade de separação em relação ao objeto materno que acarretaria a tomada de consciência das limitações do Self e do objeto, constituindo-se deste modo como injúria narcísica ao sentimento omnipotente do Self, sendo que o investimento narcísico teria como função a manutenção da ilusão de união do Self com o objeto materno omnipotente. Considera que muitas vezes existe uma sobrevalorização das competências da criança, mas apenas as que são satisfatórias para o narcisismo materno, levando a criança a ligar a esses momentos de gratificação do objeto materno, de forma a afastar as recordações da mãe fria e rejeitante.

O autor reforça também a ideia de quanto menos empático for o objeto materno, maior a angústia de separação e consequentemente, mais defensivo será o investimento narcísico na representação do Self.

Rothstein considera ainda que, nestes casos, existe uma problemática ao nível do complexo de Édipo, em que a criança (referindo-se mais aos rapazes) sentir-se-ia vitoriosa o que levaria a um receio da vingança do pai, que conjuntamente com a relação de exploração sentida com a mãe, acarretava um aumento das angústias de castração.

Robbins (1982) considera que o que falhou, nestas perturbações, foi a possibilidade da vivência do que designa de ligação simbiótica válida e incondicional com a mãe. Em que o que se passou foi uma ligação a uma mãe que não é responsiva e não entende as verdadeiras necessidades da criança, ou responde com desvalorização e crítica. A relação é construída na base da imposição das fantasias e desejos maternos, havendo uma adaptação da criança, desenrolando-se um esquema relacional tipo possuidor/possuído, impeditivo da autonomização da criança. Futuramente, estas personalidades estabelecem relações em que ou são objeto de possessão, embora desvalorizados nas suas necessidades e desejos engrandecem-se com a hipótese de satisfação do objeto omnipotente que é o possuidor. Caso contrário surge a projecção das próprias desvalorizações no outro, e seguem um caminho ilusório de auto-suficiência e omnipotência. Assim, o possuído será sempre o continente das projecções dos aspectos inaceitáveis do possuidor, possibilitando-lhe a ilusão de grandiosidade.

De modo idêntico, Gear, Hill & Liendo (1981), consideram a existência de uma estrutura bipolar do aparelho psíquico, resultado de uma relação com uma mãe e um pai, que falham no reconhecimento dos desejos da criança, impondo os próprios com uma autoridade sádica que coloca a criança numa posição de submissão, cuja função é a de realizar os desejos inconscientes reprimidos dos pais. Assim tornada espelho dos pais reprime os seus desejos e procurará futuramente um espelho idêntico, procurando relações que se desenrolam em cenários sádicos e masoquistas, dado que as possibilidades psíquicas estão restringidas. Para os autores, existe uma mutilação do espaço psíquico, que impede a tomada de consciência das interacções repetitivas que se estabelecem, de forma a barrar a consciencialização das próprias limitações. Assim, vivem enclausurados num sistema impenetrável, onde ou adoptam uma posição sádica, ou uma posição masoquista.


1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal