Capítulo 1 – Os disfarces de amor



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3.1 - Freud e o Amor
Nenhum tema dos trabalhos de Freud ficou tão mal explorado e com tantos mal entendidos como o do amor, o que certamente estaria relacionado com as suas próprias dificuldades amorosas.

Na obra Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade Freud revela algumas das suas ideias iniciais sobre o amor constituindo-se, de acordo com Bergmann (1987), como a primeira teoria de Freud sobre o amor.

Nesta obra, Freud refere-se à mãe como primeiro objeto de amor da infância e face a quem os desejos sexuais são dirigidos, constituindo-se como primeiro objeto sexual e o primeiro amor:
Na época em que a mais primitiva satisfação sexual estava ainda vinculada à nutrição, a pulsão sexual tinha um objeto fora do próprio corpo, no seio materno (…) Não é sem boas razões que, para a criança, a amamentação no seio materno torna-se modelar para todos os relacionamentos amorosos. O encontro do objeto é, na verdade, um reencontro.” (E. B. p. 210).
Assim, todas as escolhas do objeto de amor adulto assentavam no modelo da infância. Deste modo, todo o encontro será um mero reencontro, revelando uma descoberta importante sobre a re-edição do amor primário o que o auxiliou na compreensão do amor transferencial. Freud deu ênfase aos aspectos da relação amorosa que estão relacionados com a repetição. Para o autor, encontrar um objeto era apenas re-encontrá-lo, e teria a ver com o reviver da excitação e felicidade envolvida no desejo edipiano proibido. As pessoas escolheriam o objeto de amor, inconscientemente, e essa escolha estaria relacionada com o amor pelo pai do sexo oposto, o primeiro objeto de amor heterossexual.

É ainda nesta obra que Freud, ao se referir aos homossexuais, revela a importância do papel da identificação no amor, ao considerar que os homossexuais se identificam com uma mulher e se tomam a eles próprios como objeto sexual.

Mais tarde, em 1910, em Cinco lições de Psicanálise, Freud refere:
É absolutamente normal e inevitável que a criança faça dos pais o objeto de primeira escolha amorosa. Porém a libido não permanece fixa neste primeiro objeto: posteriormente apenas o tomará como modelo, passando dele para outras pessoas estranhas (…).” (E. B. p. 58).
Salientando que, ainda que seja natural ter os pais como modelos, fará parte do desenvolvimento normal uma transição para outros objetos novos e que possam acrescentar algo ao desenvolvimento. Por outro lado, ainda que a escolha remeta para o primeiro objeto de amor, a pessoa será livre para escolher dentro de uma série de traços desse objeto da infância, não tendo que escolher precisamente os que são responsáveis por uma relação menos saudável.

Como refere Bergmann (1987), quando a ligação à figura parental é muito forte, a fixação resultará numa neurose, mas quando é suficiente ela abrirá o caminho para o amor adulto.

Com os estudos sobre o narcisismo, Freud faz importantes descobertas sobre o amor. Na obra Introdução ao Narcisismo (1914), Freud refere-se à paixão quando a libido narcísica é transformada em libido objectal, sendo que no amor toda a libido está a investir o objeto e como tal o Eu (enquanto reservatório de libido) fica debilitado, apenas sendo restaurada a auto-estima com a reciprocidade do amor por parte do objeto amado, o que fará diminuir as exigências do Ideal do Eu, agora projectado no objeto de amor.

Portanto, Freud descobriu que não só a libido seria investida nos objetos, mas também o Ideal do Eu seria projectado nesse objeto de amor, que passa a ter as qualidades que o próprio nunca teve, possibilitando amor do Eu Ideal pelo próprio pelo retorno do amor correspondido.

Assim, quando o Ideal do Eu é projectado, a tensão entre Eu e Ideal do Eu fica diminuída, e quando o amor é correspondido é como se o Eu fosse amado pelo Ideal do Eu, conduzindo a um sentimento de elação (Bergmann, 1987).

De salientar que este Ideal do Eu representava o narcisismo perdido da infância, onde o Eu era o próprio Ideal, deste modo, baseado em aspectos infantis. Assim, a sobrevalorização do objeto de amor seria baseada em aspectos infantis (Bing, McLaughlin & Marburg, 1959).

No entanto, hoje consideramos que o Ideal do Eu do adulto é maduro e não se reporta a este narcisismo da infância, excepto em condições onde o desenvolvimento encriptou.

Ainda neste texto, Freud refere-se a duas formas distintas de amar: segundo o modo narcísico ou o modo anaclítico.

A escolha anaclítica do objeto implica uma escolha à imagem da mulher que alimenta ou do homem que protege, portanto à luz dos objetos da infância. Significando, assim, que quando nos apaixonamos nós encontramos uma pessoa, que de um modo ou outro nos remete para os cuidadores da infância, aqueles com quem se estabeleceu uma relação significativa e que por isso evocam o nosso primeiro amor. Esta ideia de reencontro parece estar relacionada com o conceito de compulsão à repetição, em que se tenderia a procurar um objeto que possibilitasse uma relação idêntica aquela vivida com os pais da infância.

No modo narcísico a escolha do objeto seria feita em conformidade com o que a própria pessoa é, isto é, de uma forma especular; de acordo com o que a pessoa foi, remetendo para o passado e para a juventude; de acordo com o que a pessoa gostaria de ser, de forma que a pessoa amada representaria o Ideal do Eu; ou ainda de acordo com alguém que em tempos fez parte dela mesma, representando o amor em relação ao que teve de ser reprimido no próprio, sendo agora procurado no outro (Bergmann, 1987).

Mais tarde com o trabalho Instintos e suas Vicissitudes (1915), Freud questiona-se sobre a transformação da pulsão sexual em amor. Refere que o amor não pode representar uma simples manifestação do instinto, pois considera que este se tornou emoção, sendo que as emoções são dirigidas a objetos que não são facilmente substituíveis como são os objetos da pulsão. Conclui Freud que o amor não é um instinto, e que libido e amor não são sinónimos, sendo que se o amor é uma emoção ela pertence à esfera do ego:
Assim, tornamo-nos conscientes de que as atitudes de amor e ódio não podem ser utilizadas para as relações entre instintos e seus objetos, mas estão reservadas para as relações entre o ego total e os objetos” (E.B, p. 142)
Pela primeira vez aparece o amor relacionado com o Ego, e como todo o Ego está envolvido, não poderá tratar-se de um instinto, sendo que o amor só é possível de se alcançar quando é atingida a fase genital do desenvolvimento libidinal.

Freud vai relacionar a libido com o carácter no artigo de 1931, intitulado “Tipos libidinais”, onde distingue três tipos psicológicos: o erótico, o narcísico e o obsessivo, que embora considere não serem os únicos possíveis, devendo ser distinguidos dos quadros clínicos. Assim, o tipo erótico será caracterizado pelo facto da sua libido estar voltada para o amor, receando a perda, o que os torna muito dependentes dos outros, estes quando adoecem tendem a desenvolver histerias. O tipo obsessivo caracterizado pela predominância do seu Superego, determinando um comportamento que revela o temor da sua consciência mais do que o medo de perder o objeto de amor; estes quando adoecem tendem a desenvolver neuroses obsessivas. No que diz respeito ao tipo narcísico, caracterizar-se-iam pela necessidade de auto-preservação, como têm uma grande agressividade são pessoas que tendem a ser líderes e a serem admirados, preferindo amar a serem amados. Estes ao adoecerem desenvolverão psicoses e revelarão condições para a criminalidade (op. Cit., p. 226), (Bergmann, 1987).



3.2 - As ideias de Balint
É Balint em 1947 com o seu trabalho On Genital Love quem contesta a ligação entre o amor e o atingir da genitalidade, considerando que existem situações patológicas em que é possível o atingir do orgasmo sem que haja amor, como seja o caso das personalidades narcísicas, incapazes de amar mas aptos de orgasmo genital. Assim, embora, segundo o autor, a genitalidade possibilite a capacidade máxima de prazer sexual, esta não será sinónimo de amor genital.

Deste modo, considera que o amor genital apenas será possível quando associado à idealização, ternura e uma forma especial de identificação com o objeto de amor (Balint, 1947, Kernberg, 1995 b), sendo então o amor genital resultado da fusão de dois elementos, a satisfação genital e a ternura pré-genital.

Balint acrescenta que o amor não é uma emoção natural, terá de ser construída e desenvolvida, em sua opinião existem muitos adultos que funcionam segundo um nível de amor primário em que necessitam ser amados sem ter que haver uma troca, numa postura mais captativa e de amor passivo. Trata-se de uma forma de amor primitiva, revelando uma fraqueza do Ego para suportar a frustração, uma dificuldade na avaliação da realidade, impeditiva de uma avaliação realista da pessoa amada, determinando uma rápida alternância entre a visão do objeto como bom e mau; uma preponderância de exigências muito precoces e imaturas que implicam retiradas ao não serem satisfeitas; uma dependência absoluta face ao objeto amado, implicando a necessidade de satisfação imediata das exigências (Balint, 1947).

De salientar que o autor introduz um aspecto importante ao considerar que estas incapacidades de amor se ficariam a dever a falhas do objeto da infância, incapaz de prover as necessidades de amor do próprio, ficando limitado o desenvolvimento do amor genital e determinando um recurso ao amor a si mesmo como forma compensatória. Revelando deste modo que o narcisismo seria uma forma de compensar as falhas de amor da infância, posterior ao amor primário e contrariando a existência de um narcisismo primário, defendido por Freud.

Esta diferenciação que Balint fez sobre o amor primário e o amor genital introduziu na psicanálise uma nova forma de olhar para o amor. O amor não pode mais ser analisado distintamente do resto da personalidade, pessoas imaturas amam de forma imatura enquanto pessoas maduras revelarão maturidade no seu modo de amar (Bergmann, 1987).

No entanto, Balint (1937) refere-se ao facto de existirem em todas as relações posteriores, vestígios desta relação de amor primário, exaltando a relevância da relação precoce no desenvolvimento do psiquismo e a sua importância nas relações posteriores.



3.3 - Os kleinianos e o Amor
Numa linha de pensamento distinta, Klein (1975) considerou que o amor resultava da gratidão que o bebé sentia face ao bom seio e posteriormente, à boa mãe. Seria este sentimento que precedia a base para a apreciação de tudo o que era de bom no próprio e nos outros (Bergmann, 1987).

Será a experiência com o bom seio e com a boa mãe que fará surgir o sentimento de gratidão que posteriormente se desenvolve e progressivamente se transforma em amor, sendo este sentimento básico para a relação de reciprocidade com os outros. Para a autora, a idealização seria uma forma de lidar com as angústias de perseguição relativamente ao seio mau.

Segundo a autora, a constância objectal aumentaria a capacidade para sentir culpa (pelas agressões do próprio) e, consequentemente, permite o reforço do sentimento de gratidão (Klein, 1957). Mas, a culpa também aumenta a idealização, quanto maior a culpa inconsciente, maior será a tendência à idealização, em estreita relação com a severidade do Supereu. A culpa excessiva conduzirá a uma idealização primitiva e a uma postura de submissão face ao objeto desencadeando condutas masoquistas e de auto-desvalorização.

De acordo com Kernberg (1995), a competência do casal para se idealizarem mutuamente está directamente relacionada com a capacidade para sentir gratidão pelo amor recebido e com o desejo de poder retribuir.

Seguindo as ideias de Klein sobre as posições, Wilkinson & Gabbard (1995) referem-se à existência de um espaço romântico que se situa entre o amante e o amado. Trata-se de uma experiência intrapsíquica e interpessoal que implica a existência de modos de relacionamento depressivos e paranóides-esquizóides relacionados com cada um dos parceiros. O modo esquizóide-paranóide implicando a idealização e receptividade à relação e envolvendo a coerção do amado, através da identificação projetiva, sendo possível aos amantes fantasiarem que parte de si próprios foi depositada no amante.

O modo depressivo gera a capacidade para se preocupar e a liberdade para pensar por si próprio. Assim, será no inter-jogo entre estes dois modos de experiência que se torna possível que o amante e o amado ofereçam um ao outro uma relação que é familiar ao mesmo tempo que abruptamente nova e transformadora. Constitui-se, deste modo, uma nova oportunidade de resolução de conflitos internos, possibilitando o desenvolvimento emocional e o crescimento. A patologização do espaço romântico ocorre quando se dá a adopção rígida e inflexível de um dos modos de funcionamento.

Estes movimentos entre a posição depressiva e a esquizo-paranóide podem ser considerados idênticos aos movimentos entre as relações mais maduras e as narcísicas. Na opinião de Ruszczynski (2004), podemos diferenciar entre uma retirada defensiva temporária, que poderá consistir num movimento constante entre as posições depressiva e esquizo-paranóide, de outra organização psíquica narcísica rigidamente fixada. Neste último caso forma-se uma estrutura que encerra o casal em relações de objeto patológicas, que representam o medo de ser assolado por ansiedades associadas às emoções que surgem numa relação de intimidade. Criam-se relações defensivas (Colman, 2005), que não possibilitam a expansão e o desenvolvimento, enquistando todo o crescimento mental, em que todo o movimento do outro independente é vivenciado como ameaça.

Deste modo, os seguidores de Klein consideram a importância da integração dos bons e maus objetos para a manutenção do amor, e o papel importante da identificação projectiva.

De salientar que já, em 1928, Rado havia sido o primeiro a sustentar que o bebé tinha dificuldade em aceitar que a mãe boa que alimenta e dá prazer, é também a mãe que impõem limites, sendo que aqueles que permanecem fixados neste funcionamento podem apaixonar-se pelo objeto bom, desiludindo-se quando a imagem de mãe má é evocada (Bergmann, 1995).

3.4 - A Psicologia do Self e o Amor
Kohut (1980), considerou a importância dos Selfobjetos ao longo da vida, tendo a sua importância fundamental na infância de forma a possibilitar o desenvolvimento de um narcisismo saudável.

Para o autor, quando os objetos do Self da infância estiveram ausentes, foram frustrantes ou evitantes, poderá resultar no desenvolvimento do que designou “personalidades de contacto fugidio” (Kohut & Wolf, 1978, citado por Banai, Mikulincer & Shaver, 2005), que se defendem das experiências com objetos do Self e negam a necessidade dessas relações.

Deste modo, o autor considera que o amor é uma relação com um objeto do Self que facilite o desenvolvimento do Self, que seja transformacional. Em sua opinião o amor fortalece o Self e consequentemente, um Self fortalecido pode tornar possível uma experiência de amor mais intensa.

Kohut (1984) considera que a procura de um amor ideal terá que ver com um objeto que possibilite a compensação das falhas na relação com os objetos da infância e que permita o desenvolvimento de estruturas psíquicas que ficaram com desenvolvimento suspenso. No entanto este aspecto poderá conduzir a relações insatisfatórias e de cariz patológica.

Assim, caso a criança sofra graves traumas narcísicos, implicando a não satisfação desta necessidade de exibição e confirmação, o Self grandioso fica retido na sua forma arcaica, inalterado, não se desenvolve, torna-se inacessível a experiências exteriores modificadoras, fica vulnerável e irá procurar restaurar a todo o custo a satisfação dessas necessidades mais infantis.

Esta ferida aberta conduz ao caminho da compensação narcísica, seja pela sobrevalorização do próprio que se coloca numa posição defensiva de exaltação da grandiosidade de quem não necessita de ninguém (narcisismo agressivo), numa ofensiva constante ao narcisismo do outro; seja pela ligação a um objeto deificado que possibilite ao próprio uma auto-imagem enaltecida (narcisismo libidinal).

Kohut postulou que quando há um defeito na estrutura psíquica responsável pela coesão e visão colorida do Self – narcisismo – podem surgir duas vias para manter a auto-representação mais coesa e positiva: através da ligação a um objeto especular que reflicta a imagem de Self grandioso arcaico ou, através da ligação a um objeto idealizado, omnipotente, que participa na construção dessa imagem grandiosa.

Assim, em alguns casos, a exaltação do Self grandioso que resulta da megalomania infantil possibilita a ilusão de que o próprio não carece de ninguém, uma falsa independência que surge como consequência da desesperança e do sentimento de que nada se pode esperar do objeto. Isto porque o objeto primeiro decepcionou, não possibilitou o desenvolvimento da confiança de que as necessidades afectivas do próprio serão satisfeitas, não se constituiu como objeto contentor e valorizante. Deste modo, os objetos externos não são os reais, resultam de projecções maciças de objetos internos não satisfatórios, incapazes de satisfazer o próprio, frios e desafectados e, como tal, desprezíveis e face aos quais surge a indiferença e a desconsideração.

Todavia, sabemos que esta indiferença e desprezo escondem uma intensa necessidade de dependência, afecto e aceitação por parte de um outro. No fundo, procuram com avidez quem queira dar uma re-significação ao seu Eu – buscam uma nova relação restauradora.

Quando a relação com os objetos do Self primários é deficitária e geradora de traumas é possível, devido à plasticidade saudável do Self, a procura de objetos que sejam compensadores, no sentido da reparação das falhas originadas. A patologia representará uma incapacidade de libertação desses maus objetos e a procura de estilos relacionais que são repetitivos e não transformadores. Nestes casos, o indivíduo não pode reagir de uma maneira interna, pelo que a sua auto-estima e o seu sentimento de integridade vão depender de objetos externos, não se auto-avalia de forma positiva e fica subordinado à avaliação exterior, ficando na dependência da imagem reflectida por esses para a sua apreciação.

Os pais narcísicos, incapazes de se colocarem em causa, impunes, desvalorizam o filho para que este fique travado na sua tentativa de liberdade. Estabelece-se assim uma modalidade relacional de mútua dependência, a criança diminuída na sua imagem sente que necessita do objeto magnífico para a sua sobrevivência, para que lhe confira valor pela sua dedicação, mantém-se na dependência do objeto do Self para julgar e validar a sua experiência de vida. O objeto, por sua vez, não pode viver sem o nutriente narcísico: o filho que presta vassalagem!

São vinculações narcísicas que se estabelecem precocemente e que condicionam a escolha de futuros objetos de relação, impedindo a vivência do amor mais objectal. Deste modo, encontramos na vida adulta estilos relacionais que correspondem a uma repetição destes esquemas interiorizados na relação com o objeto precoce, num perpetuar da ligação ao objeto materno como objeto do Self idealizado, procuram-se relações com objetos também eles idolatrados que conferem sentimento de valor ao próprio. A separação em relação ao objeto idealizado não se deu e ainda que escolham outros objetos, estabelecem com eles ligações que espelham essa relação primária.

Deste modo, de acordo com as ideias de Kohut, o narcisismo próprio, o sentimento de mais valia advém da participação na ligação ao objeto perfeito, como fonte de sustentação narcísica e como substituto da estrutura psíquica responsável pelo narcisismo. A desvalorização do próprio é ocultada pela ligação a um objeto dotado dos valores almejados. Trata-se de uma alternativa cosmética, algo que permite ir disfarçando o sentimento de imperfeição, mas que não elimina a consciência da frouxidão do Self.

Reich (1953) já havia referido que algumas mulheres, para restaurar a sua auto-estima danificada, estabeleciam uma ligação a um ideal fálico engrandecido, que permitia uma compensação para o sentimento de insuficiência e inferioridade.

Muitas vezes colocam-se face a estes objetos de uma forma masoquista, subserviente, apenas para lhe ser atribuída a admiração. Nestes casos é a ligação ao objeto que confere um sentido positivo ao Self, um sentimento de existência válida. Existe um investimento no outro, ainda que seja de cariz narcísico. Poderemos falar de relação objectal, mas de cariz infantil, pois não se trata de uma relação de troca, é uma relação de dependência para receber a gratificação narcísica. Nestes casos, a sexualidade é pré-genital, muitas vezes agida e com o objectivo de receber elogios.

A ligação ao outro idealizado é um meio do próprio se poder validar, constituindo-se o outro como um complemento, algo que falta ao próprio e lhe confere o sentimento de maior valor. Nesta ligação é conseguida uma segurança contra o sentimento de humilhação que o próprio teme, espécie de escudo protector contra o seu sentimento de inferioridade. A ligação a objetos poderosos permite iludir o próprio e os outros sobre as suas fragilidades, conferindo uma auréola de superioridade e simbolicamente de poder sexual, mas esta imagem de grandeza é enganadora e apenas encobre o sentimento real de inadequação. Crêem que a posse de objetos poderosos lhes torna possível esconder a dor que sentem e minimizar o seu fundo depressivo, passando a viver uma vida assente numa festa de lágrimas.

Nestes casos, a ligação ao outro não serve tanto uma função de possibilitar uma coesão do Self, mas sim uma vivacidade, uma alegria que falta ao próprio pela visão denegrida que tem de si.

De outro modo, quando os mecanismos que predominam são os projectivos e a clivagem, as partes más do objeto são colocadas num outro, a imagem idealizada do próprio é conseguida através de um refúgio narcísico, forma de se colocarem num pedestal donde julgam ser admirados pelo seu poder e pela ideia que transmitem de não necessitarem de ninguém, embora sejam profundos adictos de admiração. No entanto, como o que procuram é a admiração a carência perdura, a falta de amor genuíno continua a corroer o seu mundo interno. O bloqueio afectivo vai ganhando terreno, o amor fica cada vez mais longe, a proximidade relacional acaba por ser evitada pois desencadeia angústias graves ao Self pouco coeso que ameaça desmoronar-se.

Assim, há cada vez mais uma fuga ao confronto com o interno e com os afectos, procura-se o adormecimento do sentir e do luto, muitas vezes com recurso a medicação que promova o entorpecimento emocional. O pensamento reflexivo não se desenvolve, fica-se pelo instrumental e o concreto.

As injúrias narcísicas que são infligidas precocemente, num estádio em que o corpo e a mente não estão conectados psicologicamente, conduzem a uma patologia mais severa pois interferem negativamente na possibilidade de desenvolvimento de um Self coeso e deste modo os Selfobjetos são mantidos, mentalmente, nas suas formas mais arcaicas (Ornstein, 1974).

Desta forma, quando as falhas maternas foram mais devastadoras para o desenvolvimento do Eu, porque o objeto incompetente, demasiado desatento e sem afecto, criou um vínculo precário, que impossibilitou a separação eu/outro, gerador de um Self fragmentado que receia diluir-se na relação, promovendo estados confusionais, em que a organização psicótica da mente domina e a exaltação do Self grandioso é conseguida através do delírio de grandeza e da megalomania, que possibilitam o sentimento de uma existência superiormente interessante. Uma auto-imagem mais valorizada é alcançada através de formas mais doentias, afastadas da relação, desenvolvendo-se uma arrogância psicótica (que substitui o orgulho próprio) donde sobressai uma inveja destrutiva. Nestes casos há uma destruição dos aspectos do outro que desencadeiam inveja, num ataque constante ao narcisismo alheio, por projecção das partes indesejadas do próprio Self no outro. O Self pouco coeso está fragmentado numa imagem grandiosa arcaica e numa outra desvalida e frágil, esta última negada e projectada sobre o outro. Poderíamos dizer que se forma um Self narcísico (que encobre o Self desnarcisado), de tal modo forte, atacante e arrogante face ao outro, que tenta proteger a imagem grandiosa afastando-se do contacto com a realidade, a qual é tida como anti-narcísica dado que confronta o próprio com a necessidade do outro e com as fragilidades que desencadeiam uma vergonha arrebatadora. A realidade interna e externa é odiada, a parte psicótica da personalidade em aliança com este Self narcísico destroem as funções que constituem resposta evolutiva ao princípio da realidade.

Kohut havia sugerido que quando os desvios parentais eram muito significativos implicando falhas graves enquanto objetos do Self, eles eram vivenciados como atacantes não empáticos da integridade do Eu (1988 (b), p.91).

Nestas situações a separação em relação ao objeto não ocorreu, a angústia de separação é mais grave, pois o objeto faltou enquanto bom objeto, não foi um objeto que falhou como acontece nas estruturas depressivas em que houve afecto, ainda que empobrecido e aquém da medida do desejo do próprio. A constância do bom objeto não se forma, porque o objeto não foi constante na dádiva de amor, a relação estabeleceu-se com um objeto mau, desenvolvendo-se um vínculo incompleto, que impede a formação de uma pele mental, formando-se um Self cheio de lacunas que o torna permeável.

Nestes casos, a ligação ao novo objeto é temida e a raiva narcísica tem aqui uma função marcada, na defesa do próprio pelo ataque ao outro, promovendo a separação.

Segundo Kohut, quando o indivíduo se sente narcisicamente vulnerável ele reage às críticas (reais ou antecipadas), com a retirada, asilando-se narcisicamente constituindo uma fortaleza narcísica que o impede do sentimento de vergonha, ou com o ataque, pela arrogância ou humilhação do outro. Nesta linha refere: “O desejo de transformar a experiência passiva em activa (Freud, 1920), o mecanismo de identificação com o agressor (A. Freud, 1936), as tendências sádicas conservadas por aqueles que, em criança, foram sadicamente tratados pelos pais – todos estes factores ajudam a explicar a prontidão do indivíduo inclinado à vergonha a reagir a uma situação que potencialmente provoque pelo uso de um remédio simples: infligir activamente aos outros aqueles danos narcísicos que mais tem medo de sofrer, ele próprio.” (1988 a, pp. 138).

Quando estes pacientes são atingidos na sua ferida, surge uma raiva cega face às experiências de frustração que o fazem sentir impotente e que despoletam memórias de experiências de humilhação precoces, as quais desencadeiam uma explosão vulcânica de raiva dominadora. A raiva narcísica manifesta-se muitas vezes pelo ataque constante ao narcisismo do outro que, para além da função de enaltecimento do próprio, impede a manifestação da necessidade desse objeto o qual afinal é idealizado, o que conduz à inveja e à frustração.

Daqui se deduz que o frágil Self que não teve oportunidade de se enriquecer narcisicamente e de se desenvolver na relação com o objeto principal, pois foi prematuramente esvaziado, tornando-se débil e pouco coeso, tem de se suster à custa da construção de fantasias grandiosas, que correspondem à exaltação do Self arcaico grandioso. A modalidade de investimento narcísico que facilita esta exaltação varia consoante a organização de personalidade é mais psicótica ou mais neurótica, contudo, a finalidade é a mesma: possibilitar uma visão mais colorida e coesa do Self, o que não foi possível com o objeto da infância. Deste modo, poderá ir num continuum desde a procura de uma ligação com um objeto idealizado à sombra do qual se enaltecem, até a uma posição de: “ o objeto sou eu” (Coderch, 2006), numa filosofia de basta-se a si próprio, porque considera que nada de bom pode esperar do objeto.

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