Capítulo 1 – Os disfarces de amor



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3.5.1 - O papel da idealização no Amor
Freud (1914) já havia referido que uma forma de recuperar a auto-estima era através do amor, em que o ideal é projetado na pessoa amada e a reciprocidade do amor conduzirá a um aumento da estima do próprio.

Também na sua obra de 1921, “Psicologia de Grupo e A Análise do Ego”, Freud vai referir-se ao facto de amarmos por causa das perfeições que desejamos atingir, sendo um modo de satisfazer o narcisismo, pois:


“ (…) o objeto foi colocado no lugar do ideal do ego” (E.B. p. 123).
Se uma excessiva idealização do próprio não é saudável e representa um narcisismo doentio, no amor a excessiva idealização do objeto é também perigosa. Como refere Mitchell (2002), o que é proveitoso, em termos psicológicos, é uma valorização apropriada do próprio e do outro.

O amor trata-se de um estado, como refere Viederman (1988), de experiência subjetiva integral e única, que está dependente das fantasias, memórias e desejos de cada indivíduo. O autor considera que é importante para a expressão do verdadeiro Self o sentimento de ser reconhecido e aceite pelo amado, sendo que o espelhamento constante contribui para o sentimento de coesão.

Person (1991) descreve este processo como narcisismo a dois, em que o espelhamento mútuo contribui para o aumento e regulação da auto-estima.

Gediman (1975) refere-se ao narcisismo gémeo como uma fusão entre Self e objeto, amados como um só.

Mitchell (2002) considera que a idealização tem um papel importante na manutenção do amor romântico o que, de acordo com Ogden (2004), representa uma inovação em relação ao que a psicanálise considerava, uma vez que a idealização era sempre vista como um escape da realidade para a fantasia, fugindo da tarefa de viver com a pessoa completa e separada. Esta visão considerava que a idealização representava uma forma de substituição omnipotente do objeto atual por outro imaginário.

De acordo com Person (2007), em termos de desenvolvimento, deverá ocorrer uma mudança do querer ser como para passar para o gostar de estar com, demonstrando uma mudança maturativa dos objectivos da idealização, relacionado com a consolidação do Self que procurará complementaridade e não completação.

No amor romântico, o amante atribui valores fantasiados ao amado, o qual se torna o receptáculo de ideias de beleza, poder, perfeição. As correntes psicanalíticas sempre olharam para esta idealização como algo de regressivo e defensivo. Claro está que algumas idealizações são mais fidedignas à sua fonte do que outras; a questão é, que algumas partem da fonte de inspiração e são próximas da realidade outras são apenas resultado da imaginação e da vida fantasmática do amante, em que o outro é apenas um resultado da projecção das necessidades pessoais, muitas remontando à infância.

Portanto, quanto mais regressivas essas necessidades mais arcaica a idealização, mais distante do objeto real e como tal conduz a maiores desapontamentos.

Assim, uma questão a ter em conta refere-se ao que cada um quer que o amor seja, pois está claro que depende das necessidades, desejos e fantasias de cada um. O estado amoroso desperta desejos e fantasias inconscientes que remetem para a infância; a questão está em se procurar, com o novo objeto, o preencher do que ficou em falta e não aspectos mais maduros correspondentes aos desejos adultos e fantasias mais elaboradas. As relações amorosas estabelecem-se em contextos de interacções conscientes e inconscientes, para onde convergem padrões relacionais interiorizados de cada elemento surgindo a possibilidade de formação de um novo padrão interactivo, ou em casos menos saudáveis, a repetição desses por meio de alianças psíquicas com o passado e que são impeditivas de uma nova relação.

Como se sabe, a imaginação é a fundadora do desejo, o que torna alguém desejável é a idealização, que faz sobressair as qualidades que tornam a pessoa única e especial, distante do comum. No entanto, esta idealização deverá ser próxima do real do amado e não das necessidades infantis do amante.

De acordo com Garza-Guerrero (2000), consideramos que muitos dos trabalhos que se referem à projecção do Ideal do Eu e à idealização nas relações amorosas, mantêm a visão de Freud de 1914, em que o Ideal do Eu era o substituto do narcisismo perdido da infância, em que o Eu era o próprio ideal. Em nossa opinião, deverá ter ocorrido uma maturação no sentido de que a idealização possa ser o mais distante possível do processo primário e compatível com o desejo de complementaridade.

Wisdom (1970) considerando a importância da posição depressiva refere que a idealização que surge no amor tem a ver com a neutralização dos aspectos maus, pela reparação e não para manter o objeto idealizado totalmente bom. Designamos esta de idealização madura a competência para manter em continuidade os aspectos bons e menos bons do objeto e, ainda assim, considerando a existência nele de aspectos que o distinguem de outros e o mantêm como especial. A idealização só será prejudicial quando resulta de uma produção fantasiada do próprio, sem ter em conta o outro, reveladora de uma construção fictícia do outro à medida dos desejos infantis do próprio.

É necessário que o Eu exerça a sua função de teste da realidade (Bergmann, 1995) no sentido de tornar possível a apreciação das reais qualidades do objeto e a análise do futuro da relação.

São estas idealizações maduras que permitem fazer uma renúncia a aspectos do passado, possibilitando a identificação sexual com o objeto de amor e com os seus valores, promovendo a empatia e o desenvolvimento da relação (Kernberg, 1975, 1995; Garca-Guerrero, 2000). Esta parece constituir uma diferença fundamental entre a idealização nas personalidades borderline e nas neuróticas em que nas primeiras a idealização tem contornos mais arcaicos e remetendo à posição esquizo-paranóide, uma idealização que exige que o objeto desempenhe funções mais de contenção e de organização, de coesão do Self.

A idealização da posição depressiva, pela capacidade reparadora de aceitação dos aspectos menos bons do outro, torna-se mais realista e menos exigente.

Kernberg (1974) referiu a existência de três tipos de idealização:




  • Um nível mais primitivo, característico das personalidades borderline, cujos estados do Eu reflectem o predomínio de mecanismos de clivagem, sendo possível o apaixonar, mas não a manutenção da relação;




  • Um nível de idealização mais associada à capacidade em se preocupar, típica da posição depressiva, que permite a idealização, com uma certa empatia face ao objeto, que embora possibilite relações que se mantêm no tempo, são assombradas por conflitos, tornando-se insatisfatórias;




  • Uma capacidade normal para a idealização que é atingida no final da adolescência e princípio da vida adulta, sendo baseada numa identidade sexual estável e uma preocupação realista face ao objeto de amor.

David (1971) e Chesseguet-Smirgel (1973), já enfatizavam a importância da idealização nas relações amorosas, considerando que a relação entre o Self grandioso com o objeto, reproduz a relação ideal entre Self e Ideal do Eu.

Chesseguet-Smirgel (idem) mencionou a importância da idealização, sendo que esta apenas se revelava patológica em condições de grande desvalorização, em que o indivíduo se considerava não merecedor do amor por parte do objeto idealizado. Nestes casos, como refere Kernberg (1995) o que ocorre é uma projecção do Supereu determinando uma idealização de tal modo poderosa que conduz à inferiorização do amante em face do seu amado, desembocando na retração, pelo receio de ser rejeitado.

A idealização terá de se ir ajustando à realidade de forma a que o objeto possa ser tido e aceite com a sua própria realidade, esta não deverá ser em exagero no sentido de deformar o objeto, para não provocar futuras desilusões. Person (2007) defende que se a idealização é exagerada, a desilusão subsequente será tão exagerada quanto a idealização inicial. E, em muitos casos, a relação termina sem que tenha havido um conhecimento real do amado, em que este era apenas uma construção da fantasia.

O que se passa é que quando as idealizações têm por base a projeção de aspectos mais arcaicos e primitivos do Ideal do Eu, com contornos de omnipotência e grandiosidade, os quais não foram passíveis de modificação na relação com o objeto cuidador, a distância em relação às qualidades do objeto de amor serão maiores e, consequentemente, maiores as desilusões.

Livingston (1996) refere que é o equilíbrio entre as idealizações e as desilusões que possibilita o desenvolvimento da relação de modo que quando as desilusões ocorrem no seio de uma relação de mutualidade e empatia é possível um desenvolvimento da estrutura da relação, uma vez que é plausível que as desilusões, inevitáveis, não se constituam como traumáticas de forma a ser possível uma reintegração das projeções românticas agora transformadas e adaptadas ao objeto real.

O amor romântico fica enriquecido quando é mínima a disparidade entre a natureza das fantasias e as reais qualidades do amado, sendo assim possível o seu desenvolvimento.

Em nossa opinião, esta idealização opera em muitos casos no sentido da escolha de um objeto que possua qualidades que se julga faltarem ao próprio Self. É uma opção narcísica já mencionada por Freud, em 1914, quando ao referir-se às escolhas narcísicas, focava a procura do objeto segundo o que o próprio gostaria de ser. Assim o que é procurado no outro é o que falta ao Self para se sentir completo e coeso, e/ou para ter uma visão mais positiva de si.

Surge então que, o que aparentava ser uma relação diferente e um afastamento de um ciclo de frustrações românticas e desapontamentos transformam-se numa nova repetição, no sentido em que aquela(s) característica(s) que conduz à escolha de determinada pessoa, opera no seu aparelho mental, como uma defesa contra o que é precisamente o contrário! Muitas vezes o que se passa é que o objeto é superficialmente diferente, mas, internamente, semelhante aos anteriores e sobretudo em relação à imagem construída acerca dos objetos primários.

Assim, a característica específica do outro que se escolhe e que parecia ser um antídoto em face de relações anteriores, aquele que se escolhe como sendo complementar do Self, revela, num conhecimento mais profundo, precisamente a(s) característica(s) em relação à qual se tinha esperança de escapar (Mitchell, 2002).

Daqui surge que, a escolha de um/a companheiro/a envolve sempre aspectos conscientes e inconscientes da personalidade, sendo que muitas vezes é procurado no outro aquilo que mais se reprime na personalidade do próprio. Ruszkzynski (2005) considera que a escolha inconsciente do parceiro assenta essencialmente no facto desse se constituir como um bom receptáculo para a identificação projectiva, assim, cada um dos elementos vai conter aspectos indesejados da personalidade do outro. De acordo com o autor, forma-se um contrato inconsciente, em que numa perspectiva de desenvolvimento, é possível um contacto com os aspectos menos desejados do Self, colocados no outro, o que possibilita uma maior integração, e por outro lado, em termos defensivos, forma-se um conluio de forma a impedir certas projecções, numa defesa partilhada em face de ansiedades partilhadas. Talvez seja este aspecto importante da identificação projectiva que determina a ideia comum de que o outro “é a minha cara metade”, isto porque contém partes indesejadas do próprio por meio da identificação projectiva, mas também pela projecção do Ideal do Eu, o que falta ao próprio para se sentir completo.

Segundo Ogden (1982) neste tipo de escolha, o amante está a redefinir elementos da experiência do Self no amado que são colocados na área do processo intrapsíquico – interpessoal da identificação projetiva. O que se passa é que, muitas vezes, através da projecção mútua, cada um dos elementos da relação transmite ao outro o sentimento de aceitação dessas projecções, de partilha de fantasias e de defesas. Para Ruszczynski (2005) a externalização de um conflito interno em alguém com quem se está diariamente, e que se mostra contentor, poderá implicar uma aceitação de partes do Self que eram intoleráveis, embora também possa desencadear uma tendência para punir esse aspecto no parceiro (a). O autor considera que as tensões no casal podem ser vistas como externalizações de conflitos internos que são agidos na relação, sendo que neste sentido, a relação de casal pode ser vista como uma relação de transferência mútua. Contudo, sabemos que se a actividade projectiva é muito intensa, poderá conduzir a uma debilitação da personalidade, e enfraquecimento das fronteiras do Self, conduzindo a um sentimento de confusão entre o próprio e o outro. No extremo, cada parceiro não está em relação com um outro separado, mas sim em relação com partes indesejadas do Self, projectadas e identificadas no outro.

A relação madura implica que aspectos não desenvolvidos e não aceitáveis possam ser contidos pela relação ou pelo Self mais maduro do outro parceiro, o que possibilitará o afastamento de funcionamentos mais narcísicos e da identificação projectiva omnipotente, sendo que as partes projectadas podem voltar a ser ganhas, permitindo uma maior integridade de ambos e uma interacção mais madura entre os elementos do casal.

Waelder (1936) referiu-se ao amor de um ponto de vista estrutural, defendendo que este correspondia a um acto de integração de ordem superior revelando as competências do ego para conjugar de forma harmoniosa os desejos do id, as exigências da compulsão à repetição, as exigências do superego e as chamadas da realidade. Deste modo, o amor reflectia uma capacidade do Eu para escolher um parceiro que possa ser sexualmente gratificante, representando aspectos inconscientes dos objetos amados do passado, suficientemente amados para ganhar aprovação do superego, e apropriados no encontro com a realidade.

Kernberg (1995) refere que a formação da identidade do ego e a relação com os objetos, bem como os conflitos edipianos e as proibições relacionadas, são necessários para a manutenção de um amor maduro.

Balint (1948) já havia focado a necessidade de adaptação requerida no romance entre elementos discordantes: a satisfação genital e a ternura pré-genital. Ele considerou que o amor genital seria um estado em que as identificações maduras entre os amantes providenciavam uma âncora para as suas regressões as expectativas pré-genitais de receberem perpetuamente gentileza, cuidados e consideração.

A adaptação, como uma forma de relação envolvente, faz com que o amante se reconcilie com as exigências interpessoais e com os seus recursos intrapsíquicos.

May (1969) enfatizou a importância do cuidar do outro (muito semelhante à descrita por Winnicott sobre a capacidade para se preocupar), como uma condição necessária para o amor maduro que, na sua opinião, tem a ver com a identificação mútua entre os parceiros e de certo modo com a capacidade de empatizar com a dor e alegria um do outro, sem que haja perda da identidade própria.

A manutenção do romance implica que cada um seja capaz de responder e reagir intuitivamente ao outro. Mas para isso é necessário, como refere Kernberg (1989), que tenha ocorrido uma maturação do Supereu, no sentido de possibilitar que haja uma transformação das proibições primitivas e dos sentimentos de culpa pela agressividade, em preocupação com o outro, tal como já havia sido referido por Winnicott. É o Supereu amadurecido que estimula o amor e o compromisso com o objeto amado. Assim, a relação amorosa poderá constituir-se como um meio holding, facilitador do desenvolvimento, um espaço onde se descobrem possibilidades de se ser o próprio.

Esta relação deve ser caracterizada pela estabilidade e capacidade para depender do outro e dirigida pela espontaneidade e excitação. Um amor para se ir desenvolvendo depende das experiências que são partilhadas pelo amante e pelo amado, assim como dos desejos e esperanças que cada um traz para a relação. O campo do romance é determinado pelo ritmo entre as reações reflexivas de um para com o outro e as reações intuitivas de cada um aos motivos profundos que estão subjacentes às ações do outro. Esta não é uma tarefa fácil e de acordo com Colman (2005), é longa a tarefa de desenvolvimento do sentimento de casamento psicológico, ou do casal criativo de Morgan (2006) ou do triângulo marital de Rusczynski (2005).

Kernberg (1989,1995) considera que um aspecto importante da paixão tem a ver com o atravessar das fronteiras do Self, em direcção ao outro, mas mantendo uma identidade separada, o que só é possível se as fronteiras do Self estiverem bem delimitadas sem o perigo do sentimento de dissolução do Eu no outro. Isto porque o autor, contrariamente a Brown (1968, cit. por Kernberg, 1989) considera que não poderá existir uma situação de relação amorosa significativa se o sentimento de existência do Self não se mantiver com a nitidez das suas fronteiras.

Infere-se que, não se trata de uma identificação regressiva, de fusão com o outro, mas sim de um contexto de preservação da própria identidade. Como refere Jacobson (1964), a dissolução das fronteiras entre Self e objeto interferem negativamente com a paixão.

De facto, como refere Kernberg (1989,1995), permanecer dentro das fronteiras do Self e ao mesmo tempo transcendê-las, na identificação com o objeto amado, é uma excitante e, ao mesmo tempo, dolorosa condição do amor. Implica a existência de um campo psicológico fora das fronteiras do Self, onde existe um encontro entre desejo e realidade (Kernberg, 1977).

Contudo, para o autor (1989), o ultrapassar as fronteiras do Self implica que haja a consciência da existência de um campo psicológico fora do Self e a capacidade para empatizar com ele.

Talvez o que é designado de espaço romântico (Wilkinson & Gabbard, 1995), apontamos como relação de conjugação onde há um conluio de fantasias, desejos, e concretizações conjuntas, mas que não estagnam, que mantêm a vivacidade na relação e que não se deixam contaminar com conflitos pessoais. Idêntica é a noção de espaço psíquico de Britton (cit. Balfour, 2006) que descreve a integração de duas realidades psíquicas diferentes na relação de casal. Por seu lado, Ruszczynski (2005) designa terceira área, aquela que diz respeito à criada pela relação de interacção entre os elementos do casal, caracterizada pelo constante interjogo entre o intrapsíquico e o interpessoal.

A relação de casal deve implicar uma aceitação inconsciente das projecções mútuas o que vai criar um sentimento de reconhecimento e reforçar a ligação. Como defende Ruszczynski (2004), a capacidade de metabolização e transformação dos elementos projectados por parte de um dos membros do casal, possibilita que estes possam ser de novo integrados de forma agora considerada mais manejável e aceitável, conduzindo a um desenvolvimento da relação.

Contudo, frequentemente o manter da relação não significa que assente em funcionamentos saudáveis. Existem casos em que se dá uma institucionalização da estrutura psíquica patológica dos elementos da relação, como numa espécie de folie à deux rigidificada (Ruszczynski, 2004), representando a predominância de relações objectais mais narcísicas ou esquizo-paranóides, caracterizadas por uma identificação projectiva mútua em acção.

Muitas vezes, o término do romance associa-se ao facto de as pessoas se transformarem ao longo do tempo e as mudanças operadas no psiquismo de cada um gerarem incompatibilidades. Pressupõe-se que o Self se vá desenvolvendo, o interno e o externo estão constantemente em transformação, modificando-se um ao outro o que tem implicações nas relações, e como é claro, as mudanças não ocorrem a par e passo.

Mitchell (2002) considera que o amor romântico requer aquilo que nós tendemos a evitar nas relações de longo termo: perigo, ambiguidade, intriga e o desconhecido. Para o autor, a manutenção do romance entre duas pessoas implica a fascinação em relação ao que, individualmente e em conjunto, conseguem realizar, gerando formas de vida com que possam contar, implica a tolerância às fragilidades dessas esperanças, a gestão das fantasias e das realidades e a apreciação dos modos como na densidade do mundo contemporâneo as realidades se tornam fantasia e a fantasia se torna realidade.

Com a dependência em relação ao outro surge inevitavelmente raiva, ressentimento e o ódio. Como é que não se odeia a pessoa única e insubstituível, de quem nós dependemos, não só por um sentimento de estar em casa, mas pela oportunidade de experimentar paixão e amor?

A manutenção do romance requer uma tolerância à vulnerabilidade e à agressão. Quanto mais profunda for a paixão, mais precária será a vulnerabilidade e mais destrutiva será a agressão. Assim, a capacidade para conter a agressão é uma pré-condição da capacidade de amar, e a manutenção da paixão romântica requer uma capacidade de equilíbrio.
3.5.2 - Sobre o Amor e a sua relação com a Agressão
Para Kernberg (1991 a), as relações amorosas não são pós-ambivalentes, elas permanecem ambivalentes embora com a predominância do amor sobre o ódio.

No entanto, quando existe uma falha na integração das relações objectais internalizadas totalmente boas e totalmente más remetendo à idealização primitiva, cuja qualidade irrealista conduz à destruição do relacionamento devido a conflitos intensos, pode, segundo Kernberg (1995 b), conduzir ao ódio apaixonado.

É esta idealização primitiva que não tolera a ambivalência e que é destruída por qualquer emergência da agressão no relacionamento, como tal é uma idealização frágil e insatisfatória, que não possibilita a emergência da identificação mais profunda entre parceiros (Kernberg, idem).

A maturação do superego está relacionada com a possibilidade de aceitação da ambivalência nas relações e com a possibilidade de reconhecimento da própria agressão e da ambivalência dos seus sentimentos.

O que acontece é que quanto mais profundo o envolvimento, maior a dependência o que determina um sentimento de perigo, uma vez que a dependência face ao outro conduz a uma certa vulnerabilidade, e ao sentimento de estar sob ameaça no sentido da fragilidade do Self e da possibilidade de humilhação, o que conduz à agressão como reacção. De acordo com Mitchell (2002), o desejo coloca-nos em situação de perigo e a resposta agressiva a esse perigo pode lesar o próprio, o objeto de amor e a própria relação.

Existem relações onde a agressão não tem espaço, mas estas também são cultivadas em terrenos inférteis para a paixão, uma vez que os dois aspectos seguem em conjunto.

A manutenção de um romance implica que seja possível tolerar o sentimento de vulnerabilidade e a agressão. Para Mitchell, quanto mais profunda for a paixão mais precária será a vulnerabilidade e consequentemente, mais destrutiva será a agressão, sendo que a capacidade de contenção dessa é uma condição essencial para que o amor se mantenha.

De acordo com Kernberg (1991, 1995 a), a capacidade de contenção da agressão prende-se com a possibilidade de tolerar as descontinuidades que surgem na relação.

É certo que em todas as relações existem momentos em que cada um dos elementos do casal está mais preocupado consigo do que com o outro ou com a relação, sendo que de acordo com Ruszczynski (2004), a capacidade para tolerar a tensão que resulta dessa separação necessária de cada um, se constitui como um sinal de saúde da relação.

A tolerância à descontinuidade, resulta de uma identificação à mãe com as suas competências maternais e eróticas, na altura em que a criança se apercebe da ausência da mãe pelo facto de existir um terceiro na relação, em que a mãe alterna a sua relação com estes dois, desempenhando dois papéis distintos, o de parceira sexual e de mãe carinhosa com o seu bebé. Deste modo, a criança vai aprendendo a gerir esta descontinuidade na relação o que, segundo Kernberg (1991), constitui uma preparação para as descontinuidades nas relações futuras.

Para Green (loucura privada) as descontinuidades na relação surgem como forma de proteção face à fusão na relação, a qual poderá conduzir a uma agressão máxima.

Kernberg (1991, 1995 b), refere ainda que a descontinuidade na relação amorosa resulta também da projecção de aspectos sádicos de um superego infantil, que pode conduzir a submissões masoquistas e distorções irreais sadomasoquistas, mas também a uma revolta contra essas projeções, manifestando-se por separações temporárias que representam descontinuidades normais nos relacionamentos amorosos. A rebelião contra o objeto culpabilizante poderá permitir uma libertação temporária face ao superego sádico projectado, o que poderá possibilitar o emergir do amor.

Considera, ainda, que uma das formas que o casal tem de se proteger da agressão, que surge naturalmente devido aos sentimentos ambivalentes nos relacionamentos íntimos, tem a ver com a possibilidade de refletirem sobre o casal, sobre a relação, de se sentirem responsáveis um pelo outro e de se protegerem mutuamente, o que está diretamente relacionado com as funções maduras do superego.

No entanto, parece-nos que esta situação só é possível quando existe um grau de satisfação narcísica saudável com o próprio, o que facilita a empatia, o entendimento de si e do outro, a possibilidade de descentração e de manutenção da agressividade num nível possível de funcionar. A relação madura implica que o outro possa ser visto enquanto separado, alude à capacidade em lidar com sentimentos de ser incluído e excluído, ao conhecimento dos próprios sentimentos de amor e de ódio, à gestão de culpas e o desenvolvimento do sentimento de gratidão.

Estes aspectos caracterizam a posição depressiva. É a dificuldade em fazer a transição entre a posição esquizo-paranóide e a posição depressiva que caracteriza o funcionamento narcísico. Deste modo, surgem facilmente sentimentos de rejeição e abandono em face de qualquer tentativa de independência de um dos elementos do casal, desenvolvendo-se ansiedades agorafóbicas e claustrofóbicas partilhadas, muitas vezes com recurso a formas defensivas sádico-masoquistas como tentativa de resolução destes problemas.

Stolorow e Lachmann (1983) haviam referido que as condutas sadico-masoquistas representavam tentativas de reparação de uma imagem do Self danificada e acrescenta (Stolorow & Harrison, 1975 b) que uma pessoa que tenha uma vulnerabilidade narcísica, revela uma fragilidade na sua auto-estima o que determinará uma maior tendência à agressividade, dado que estará constantemente preocupada com a restauração e manutenção da sua precária representação do Self, o que a deixa menos competente para o entendimento do outro, e mais sensível a qualquer crítica, sentida como uma injúria à sua imagem.

Esta vulnerabilidade narcísica é responsável pela agressão que se manifesta na relação de casal pela depreciação do outro, a desvalorização como forma de humilhação, e o controle de forma a manter o outro submisso.

A crítica surge como forma de agressão que permite o alívio do sentimento de fragilidade do próprio, induzido-o no outro por intermédio da identificação projectiva. Em muitos casos a severa patologia do superego é responsável por esta agressão e por um comportamento hostil e depreciativo face ao outro. Kernberg (1995 b) refere que em muitos casos, estas projecções vão provocando um distanciamento no casal que conduz a um congelamento numa posição de desligamento emocional que se pode manter durante muito tempo.

Person (2007) refere que a projecção da desvalorização do próprio, no amado constitui um dos fatores mais comuns de desequilíbrio nas relações amorosas. As flutuações graves na auto-estima e na auto-avaliação são aspectos potenciais para destabilizar a idealização saudável, a qual é um pré-requisito para a duração do amor. Quanto mais comprometida estiver a admiração do próprio, mais distorcida será a idealização que se fará do objeto amoroso. A visão do outro enquanto objeto especial possibilita um incremento da visão positiva do próprio enquanto capaz de despertar o interesse e desejo de um objeto especial.

Também Bergmann (1995) se refere ao narcisismo como um dos inimigos do amor, impondo limites à capacidade de amar, referenciando Tausk que sustentara que quando o narcisismo é muito forte, o amor e os desejos sexuais são vivenciados com hostilidade.

Deste modo, consideramos que a vulnerabilidade narcísica é responsável por relacionamentos amorosos onde predomina a agressão, esta muitas vezes manifestada pelo desprezo e desvalorização do outro, cujo objectivo consiste numa manutenção de uma visão mais ou menos estável do próprio e/ou a possibilidade de coesão do seu Self.

De salientar que quanto maior a vulnerabilidade narcísica, maior a tendência para uma centração no próprio e, por conseguinte, uma dificuldade em criar uma estrutura de relação flexível, que não se rigidifique, conduzindo muitas vezes a uma instauração da patologia na relação.

Esta vulnerabilidade, geradora de grandes inseguranças conduz, muitas vezes, a que se formem relações tipo claustros (Fisher, 2005), resultado de uma série de projecções que geram ansiedades, não metabolizáveis, e que se tornam paralisantes do crescimento relacional.

Assim, a agressão fará parte de um amor saudável na medida em que é zanga com o objeto, no sentido de afinar sintonias e de incrementar o desenvolvimento da relação amorosa, ela é patológica quando não é zanga mas sim ódio, apenas libertação de aspectos odiosos que o próprio não consegue conter e que necessita projectar no outro, ainda que na expectativa de encontrar um lugar para a sua metabolização. Muitas vezes, em casos de funcionamento borderline ou psicótico, a libertação deste ódio tem como intento o aniquilamento do outro, sendo mais maléfico e destruidor do relacionamento.

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