Capítulo 1 – Os disfarces de amor



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3.5.3 - Édipo, relações amorosas e triangulações
A primeira relação triangular vivida é a relação edipiana.

As relações amorosas podem ser contaminadas por triângulos, os quais em certos casos podem ser evocados defensivamente face à relação dual, a introdução de uma terceira pessoa pode aliviar a intensidade do amor sentida como ameaça ao Self (Person, 2007).

Britton (1998) sustenta que o complexo de Édipo fica resolvido através da elaboração da posição depressiva e por seu turno, o atingir da posição depressiva depende da elaboração do complexo de Édipo. Mas, em sua opinião, será esta constante resolução - resolução mediata e progressiva - ao longo da vida, que possibilita que se estabeleçam relações íntimas e vigorosas. A não aquisição desta posição tridimensional, a incapacidade de tolerar a existência de um terceiro é um dos aspectos que perturba o funcionamento do casal (Balfour, 2006), conduzindo ao dilema claustro-agorafóbico (Rey, 1991; Balfour, 2006), com receios de abandono quando existe ameaça de separação e angústias de engolfamento face à proximidade, o que alude uma posição a meio caminho entre a posição esquizo-paranóide e a posição depressiva.

A elaboração edipiana implica a capacidade em aceitar que é possível abdicar da relação dual e que existem benefícios em se relacionar com vários outros, nascendo a possibilidade de olhar para uma relação da qual não se faz parte, mas em que se tem uma relação especial e diferenciada com cada um dos elementos da mesma. Esta constitui uma passagem do narcisismo para a capacidade de estar em relação. Segundo Fisher (2005), é esta passagem que faz surgir a competência para o casamento, a possibilidade de desenvolver uma atenção especial, não só ao próprio, mas ao outro, e à relação entre ambos, em que é possível suportar as tensões, ultrapassando a fantasia de fusão entre duas pessoas, ou de isolamento, típicas das posições narcísicas.

Também Holmes (2006) afirma que o bom funcionamento nos casais depende da capacidade que revelam para olharem e refletirem sobre a sua relação como um terceiro, como uma entidade em si mesma, separada dos dois indivíduos que a constituem. Na mesma linha Colman (2005) sustenta que quando os casais falam da sua relação vêem-na como uma imagem, algo que existe independente deles, em que cada um tem o seu contributo, funcionando esta como um continente, como o resultado criativo da união de casal, com o qual ambos se podem relacionar. Designamos de meta-posição esta competência para olhar para dentro da relação, independentemente de cada um e ao mesmo tempo envolvendo cada elemento que nela participa. Morgan (2006) designa de casal criativo, um estado mental em que é possível que cada um se coloque numa terceira posição, de modo a se poder auto-observar na relação de casal, poder pensar os próprios sentimentos, bem como os do parceiro. Em resumo, este casal criativo é um espaço psíquico em que é possível estar como separado e independente numa relação de profunda intimidade. Na mesma linha de pensamento, Rusczynski (2006), refere-se ao triângulo marital, representando os parceiros e a própria relação como uma entidade própria, em que tal como a criança que observa os pais numa relação na qual ela não participa também os parceiros de uma relação deverão olhar para esta como uma entidade, tendo de abdicar muitas vezes de desejos próprios, interesses, ainda que de forma ambivalente, mas que faz parte de um processo de desenvolvimento.
Capítulo 4. Relações Amorosas, Narcisismo e Vulnerabilidade Narcísica
Quero-te não por quem és, e sim por quem sou quando estou contigo!”

Gabriel Garcia Marquez
4.1 - A relação do Narcisismo com o Amor
Freud considerou que Amor e Narcisismo seriam duas forças antagónicas, uma vez que nunca se distanciou da perspectiva económica e sempre teceu as suas considerações sobre o amor tendo como base o modelo topográfico.

Esta visão antagónica foi contrariada por Van Der Waals (1949) que considerou que todo o amor objectal encerra em si um carácter narcísico, sendo importante perceber se esse carácter narcísico é, ou não, primitivo. Deste modo, o autor considera que os comportamentos sexuais normais se satisfazem mutuamente nos seus desejos egoístas. Assim, narcisismo e amor andariam a par e passo.

Já Rank (cit. Stolorow & Atwood, 2004) acentuara o carácter narcísico do estado amoroso, na medida em que este seria uma manifestação das necessidades e ambições narcísicas. As relações amorosas seriam uma mistura complexa de manifestações transferenciais dos objetos do Self arcaicos, em que o objeto de amor teria uma função de regular a experiência do Self, servindo alternadamente como um outro idealizado, uma duplicação do Self grandioso desejado, um espelho e uma presença confirmadora.

Grunberger (1971) relacionou o amor com o narcisismo ao mencionar que o estado de enamoramento contribuía para o enaltecimento do narcisismo.

Contrariando a ideia de Freud de depleção narcísica do amante, revela a ideia de que a desvalorização narcísica apenas ocorrerá em situações de funcionamento masoquista, caso contrário, os amantes sentirão um aumento da sua auto-estima uma vez que há uma projecção mútua do narcisismo. Deste modo, o amor poderá possibilitar o colmatar da ferida narcísica da qual todo o ser humano sofre, resultado da retirada abrupta do estado de autonomia e omnipotente bem-estar em que o feto vive na sua condição pré-natal (Grunberger, 1971; Bergmann, 1987; Mancia, 1990; Dessuant, 1992).

Também Joffe e Sandler (1967) consideravam a existência de um estado ideal de bem-estar que implica a harmonia entre o funcionamento biológico e mental e em que o objeto não seria amado em si mesmo, mas como um meio de proporcionar o atingir desse estado ideal.

O problema reside em se considerar que o narcisismo é um amor ao próprio em vez de um amor ao outro e continuar com uma perspectiva economicista. Já Van Der Waals (1965) considerou que a questão não tem a ver com os narcísicos se amarem a si mais que aos outros, mas sim de se amarem tão pobremente a si próprios como aos outros. Na mesma linha Kernberg (1984) refere que o problema não tem a ver com a direcção do investimento, se é no próprio ou no outro, mas sim se existe um investimento num Self capaz de integrar o amor e o ódio, sendo predominante o amor ou se, por outro lado, é num Self patológico, onde o amor não é predominante.

Sabemos, hoje, que quanto maior o investimento em si próprio, mais positiva e coesa a visão do Self, maior a possibilidade de investir nos outros de modo verdadeiro e em função não do próprio, mas de uma relação transformante e não somente reparadora da falta.

Consideramos de acordo com Stolorow e Lachmann (1983) e Leslie Sohn (1985), que os problemas do narcisismo se situam num espectro que abarca os pacientes mais psicóticos e os pacientes menos narcísicos com uma estrutura de personalidade mais dirigida para o objeto.

O que se passa é que se o Self se sente incompleto ele procurará uma ligação que lhe possibilite o sentimento de completude, que possibilite uma visão mais colorida de si (na neurose) ou que traga a esperança da coesão do seu Self mais ou menos fragmentado (no caso dos estados borderline ou psicóticos). Quando o Self está consolidado e a visão de si é mais valorizada, a escolha do objeto amoroso segue a via da complementaridade e do desenvolvimento saudável.

Reforçando esta ideia revelamos as palavras de Fabião (2007) que considera que nestes casos “ no centro da personalidade é entronizada uma fortaleza defensiva, enquistada em torno de uma qualidade de Self idealizada e até idolatrada, ou de uma figura externa idealizada e, muitas vezes idolatrada (p.146).

Deste modo, consideramos que, quanto maior a vulnerabilidade narcísica, maior a tendência para estabelecer relações mediadas pela agressão, mais que pelo amor, havendo um maior predomínio de mecanismos regressivos, afastando o mais possível a realidade interna do próprio e do outro, com diminuição da empatia e da competência intuitiva, tão necessárias a um bom funcionamento da relação.

A incompletude narcísica determina que o objeto seja muitas vezes vivenciado como um fragmento do indivíduo, no sentido em que perfaz, organiza e permite a regulação da auto-estima; a ausência dele provocará sentimentos de vazio e depressão intoleráveis. Isto porque o objeto é o da actividade narcísica; logo, se ele desaparece surge a descompensação narcísica, o desinteresse, em que o indivíduo sente como se desaparecesse uma parte de si próprio.

Rank (cit. Atwood e Stolorow, 2004) já se referira às relações amorosas como espelhamentos do Self no outro, em que o objeto de amor seria uma personificação da imagem idealizada do Self. Em 1941, acrescenta que as relações amorosas teriam uma função reguladora da auto-estima ao acentuar a procura do sentimento de mais valia, ao ser amado por um outro idealizado. Embora em todas as relações amorosas este aspecto possa estar saudavelmente presente, em outras situações o que encontramos é uma exagerada dependência do outro no exercício desta função reguladora e organizadora do Self.

Muitas vezes esta é a única modalidade relacional que o indivíduo conhece. Isto porque a sua experiência primeira foi a de uma relação de mútua dependência entre o próprio e a mãe. Uma mãe que no seu sistema relacional com o filho usou de um investimento predominantemente narcísico, em que o filho, nascido da amputação, é utilizado para compensar a sua falta de amor próprio, fazendo dele uma continuação da mesma, ensinando-o a depender dela, dando-lhe a ilusão de que lhe pode dar tudo, inibindo-o face a qualquer tentativa de separação. Uma mãe com características fortemente narciso-simbiotizadoras (Zimerman, 1999).

O que consideramos é que, no início do desenvolvimento, o cuidador funciona para a criança como objeto do Self (Kohut, 1988 b) e que ao longo deste se vai criando a estrutura interna de regulação da auto-estima e organizadora do Self que será mais ou menos frágil consoante as provisões fornecidas pelos cuidadores, que enquanto objetos de relação, foram mais ou menos reforçadoras de um narcisismo estável, sadio e independente. Stern (1992) considera que o Selfobjeto pressupõe uma vivência de intimidade, acarretando um sentimento de bem-estar e vigorização, em que as necessidades básicas foram satisfeitas.

Contudo, tal como refere Kohut (1988 b), o Self que sente que não obteve por parte dos pais resposta adequada ficou incapaz para transformar a sua grandiosidade arcaica e o seu desejo arcaico de fusão com um objeto do Self omnipotente, numa auto-estima segura e sã, com ambições realistas e ideais atingíveis. Nas palavras de Modell (1986), encobertos por fantasias grandiosas que não foram modificadas através de respostas empáticas e realistas de um objeto do Self contentor, estes indivíduos defrontam-se com falhas sucessivas no alcance das suas irrealistas ambições. Resulta então numa ferida narcísica que é a mais dolorosa dos sofrimentos psíquicos, denunciando a discrepância entre o plano ilusório (Eu Ideal) e a realidade (Eu real) (Zimerman, 2004).

De salientar que já Pasche (cit. por Rui Coelho, 2004, p.159) havia referido que, para que a criança possa elaborar o Ideal do Eu primitivo é preciso que «… a realidade lhe ofereça amor suficiente para que encontre compensações objectais na diminuição das suas ambições narcísicas, é preciso que ela seja amada independentemente das suas realizações, que ao amor-estima sempre condicional se acrescente o amor pelo amor, o amor incondicional….».

Quando assim não acontece surge a formação de um Ideal do Eu tirânico, patológico, dominador e exigente de tarefas inatingíveis. Segundo Ferro (2005), este Ideal do Eu, patológico, não expõe somente à frustração, mas leva à desvalorização do Self, à depressão narcísica e, deste modo, à crítica e ao castigo de um Supereu implacável.

Assim, face a esta falha narcísica o indivíduo impede-se de olhar para o seu interior e passa a mascarar a sua ferida, escondendo-se no exterior e por detrás de um Ideal do Eu megalómano; que face ao menor desequilíbrio se despenha num precipício de inferioridade e vergonha. Modell (1986) considera que estes pacientes apresentam um Self grandioso que encobre defensivamente um Self vazio, uma ausência de ideais firmes e de relações interpessoais duradouras e estáveis, deparando-se consecutivamente com falhas repetidas no alcance das suas grandiosas ambições, o que desencadeia o sentimento de vergonha acompanhado de depressão.

Alice Miller (1986) considera que por detrás da grandiosidade está a depressão que se constitui como uma defesa face ao sofrimento causado pela perda do verdadeiro Eu.

Assim, a grandiosidade surge como uma defesa do Eu contra a depressão. Esta defesa, por vezes, realiza-se através de uma certa ruptura das relações com o ambiente, quando este já não possibilita o conforto e o afecto que o indivíduo esperaria dele; para escapar à angústia da depressão, o indivíduo vai-se afastando da relação verdadeira com os outros, asila-se narcisicamente e procura esconder os seus temores com a afirmação de um exagerado valor, do qual não é possuidor. Escondendo-se por detrás de um auto-fascínio defensivo que não é mais que uma capa protectora das fragilidades. Encobrem a dependência excessiva revelando uma independência falsamente construída. O objectivo é tornar o Eu verdadeiro invisível de forma a salvar as aparências.

Lewin (1971) considera que nestes pacientes a vergonha que surge na comparação com os outros pode conduzir a um retraimento e a uma retirada da relação.

Assim, tal como referem Stolorow e Lachmann (1983), quando a auto-estima é frágil e diminuída, as actividades narcísicas entram em jogo de forma a estabilizar a auto-estima, para tornar a representação de si próprio mais positiva. Os autores defendem que se o comportamento de afastamento e as fantasias associadas fortalecem a coesão, a estabilidade e contribuem para uma visão mais positiva do Self, ameaçado. Assim sendo, o afastamento deve ser designado narcísico.

Na mesma linha, Person (2007), considera que quando as fronteiras do Self são sentidas como muito frágeis são postas em marcha estratégias defensivas no sentido do distanciamento em relação à intimidade.

Nestes casos surge, por vezes, a necessidade de estes indivíduos se colocarem na posição do agressor. Aquele que não se sentiu reconhecido e desejado vai, agora, devido à sua raiva narcísica, fazer com que o outro se sinta da mesma forma. Ainda que de forma invertida, vai repetir com outro objeto (o qual desvaloriza), aquilo que vivenciou na infância; como refere Coimbra de Matos (2002), realiza activamente o que sofreu passivamente, transforma o masoquismo em sadismo, mas deslocando-o para outro objeto. Contudo, esta identificação ao agressor é uma identificação primária como refere o autor, é uma participação na força e no poder do objeto, mas em que falha o sentimento próprio de competência e independência.

Kernberg (1995 a) conclui que, nestas situações, existe uma raiva e um ressentimento em relação a um objeto necessário, sentido como frustrante e alienado, pelo que se desenvolve uma máxima de que tudo o que é desejado é fonte de sofrimento, orientando para uma necessidade de destruir tudo quanto é fonte de desejo e admiração. Mas é esta necessidade de estragar tudo o que é bom que conduz ao sentimento de vazio e à frustração nas relações.

Em algumas relações narcísicas, aparentemente o sujeito parece dominar, mas essa dominância apenas esconde as suas necessidades infantis de protecção; necessitam tornar-se indispensáveis e fortes para o companheiro. São relações espelho-meu em que o que se pretende é que o outro reflicta a imagem aspirada.

Miller (1986) referira que quando a legítima necessidade narcísica de ser notado, compreendido, levado a sério e respeitado não é cumprida pela mãe, quando a mãe falha na sua função especular, o indivíduo permanecerá sem um espelho, pelo que o resto da sua vida este espelho será procurado em vão. Na linha do pensamento de Kohut: o indivíduo necessita de um reflexo especular contínuo das suas fantasias grandiosas.

Quando faltam os elementos nutritivos, surge um sentimento de desvalorização do Eu, que é visto como diminuto e desamparado. Estamos perante uma depressão narcísica, onde os sentimentos de vergonha estão acentuados conduzindo à procura de mecanismos de super-compensação.

Também Kohut (1988) considerara que face a falhas na estrutura psicológica primária do Self adquiridas na infância, surgiriam estruturas secundárias defensivas e compensatórias relacionadas com essa falha primária. Para o autor não é difícil, nas perturbações narcísicas da personalidade, discernir a natureza defensiva que segundo ele se manifesta por uma pseudo-vitalidade que tentará encobrir uma baixa auto-estima e a depressão que revela um sentimento profundo de inutilidade e de rejeição.

A auto-estimulação tem como objectivo neutralizar um sentimento profundo de apatia e de depressão, em pacientes que em criança a falta de resposta à sua depressão e solidão conduziu à criação de respostas grandiosas e de fantasias eróticas.

O investimento no próprio, como estratégia compensatória, torna possível encontrar em si mesmo um objeto de admiração, mas este investimento não revela mais do que um sentimento de decepção amorosa primária (em relação ao objeto primeiro). Trata-se de um refúgio precário na auto-idealização, mas que é apenas ilusoriamente protector (Green, 1993).

O processo de narcisação, que designamos a posteriori, será tanto mais forte quanto mais se sentiu que o objeto primordial decepcionou, e que o amor genuíno nunca constituiu uma possibilidade real. É este objeto decepcionante, que origina o movimento depressivo. O objeto desiludiu, enganou, não desempenhou mais do que uma função de espelho desvalorizante, não possibilitando que o indivíduo constituísse as suas provisões narcísicas. O desejo do objeto não coincidiu com o do indivíduo: ser desejado.

Bibring (citado por Rui Coelho, 2004) considerou a precoce vivência de desamparo como o factor de suma importância no desencadear da depressão; conduzindo à “ruína narcísica” (Coimbra de Matos, 2001).

Pasche (1965) estabeleceu ligação entre a depressão de inferioridade caracterizada pela desvalorização, auto-depreciação dolorosa, sentimento de insuficiência e carência, de desamparo, sentimento de incapacidade, e a necessidade de desenvolver a aparência, o desejo de possuir beleza e riqueza como forma de compensar as falhas sentidas.

Deste modo, desde que a realidade individual e o Eu Ideal possibilitem um acordo, a depressão está refreada. Mas, o desvio seja por exacerbação do Eu Ideal, seja por falha real ou imaginária face ao objeto ou ao Ideal do Eu, dá livre curso às acusações do Supereu. Desencadeia-se a queda no vazio. Revela-se a doença. Muitas vezes, por detrás de uma euforia e indiferença (aparente) que estes indivíduos apresentam, dissimula-se um tremendo vazio afectivo, o vazio traumático Coimbra de Matos (2001), que revela a pouco e pouco, um mal depressivo. Constroem uma máscara atrás da qual se oculta a tragédia de um vazio depressivo.

A máscara manifesta-se muitas vezes sob a forma de uma atitude maniforme, representando uma defesa contra a depressão que, de acordo com Coimbra de Matos (2001) corresponde à colocação do Supereu no objeto (faceta paranóica da mania). Mas quando o indivíduo age desse modo, ele projecta aspectos parciais do seu Supereu, sem qualquer elaboração mental. Por outro lado, a defesa maníaca ao querer negar a depressão por perda de afecto, impede a evolução para a posição depressiva e a consequente reconciliação com o objeto (Coimbra de Matos, 2001).

Outra estratégia consiste na procura de um outro como um suporte, que permita continuar a fugir da depressão. Como refere Celeste Malpique (1993), nestes casos, o envolvimento amoroso actua como mecanismo anti-depressivo, mas acaba por ser pouco eficaz porque é um envolvimento efémero. E em nossa opinião, trata-se de um anti-depressivo de efeito passageiro na medida em que, estas relações superficiais são lesivas da imagem do próprio conduzindo à comprovação do sentimento de não serem dignos de verdadeiro amor.

Segundo Coimbra de Matos (1997), o ciclo consiste em:




Ser amado


Amar-se a si mesmo


Amar o objeto

O erro está em pensar que pode recuperar a sua idealidade através da idealização do outro. O erro de Narciso foi o de considerar que teria que amar um outro, para poder amar a si mesmo (Dessuant, 1992).



4.2 - Vulnerabilidade narcísica
Para muitas pessoas o grande dilema de sua vida amorosa é fazer uma opção entre uma destas duas sentenças: “Antes só que mal acompanhado” ou “Antes mal acompanhado que só”. Quanto mais forte for a forma patológica de amar, mais prevalece a segunda alternativa.”

D. Zimerman, 2004
Optamos pela designação de vulnerabilidade narcísica para nos referirmos a uma fragilidade e insegurança na representação do Self. Deste modo, uma pessoa com vulnerabilidade narcísica tenderá a lidar com essa fragilidade recorrendo a estratégias defensivas que serão tanto mais regressivas consoante o grau da percepção da vulnerabilidade e a necessidade de compensar falhas no desenvolvimento do Self.

Consideramos que face à percepção da fragilidade do Self, várias estratégias de funcionamento são postas em práticas no sentido de colmatar essa percepção e minimizar a dor emocional por ela causada.

A pessoa com vulnerabilidade narcísica tenderá a ser muito sensível a situações em que se sente ignorada ou em que se sente exposta, ou em que é tratada sem respeito (Mollon, 2006). As respostas a estas situações são variáveis e poderão ser mais no sentido da retirada depressiva com sentimentos de vergonha ou então, com reacções de raiva (raiva narcísica).

Deste modo surgem respostas protectoras quer da auto-estima – visão mais colorida do próprio – quer do sentimento de colapso do Self, no sentido da sua desintegração.

A partir das referências bibliográficas realizadas anteriormente, é possível resumir as perturbações ao nível do narcisismo incluindo as ilusões de auto-suficiência, perfeição e grandiosidade (Freud, 1914; Horney,1934; Kernberg, 1974, Green, 1993) levadas a cabo para colmatar dificuldades ao nível da separação e diferenciação (Rosenfeld, 1987, Kernberg, 1974 ), sentimentos de inferioridade, (Horney, 1934; Reich, 1960, 1986; Kernberg, 1974, Kohut, 1971, 1972) e de baixa auto-estima (Horney, 1934; Reich, 1986; Miller, 1986; Kohut, 1983; Stolorow & Lachmann, 1983), o que contribui para uma fragilidade ao nível do sentimento do Self, que conduzirá em casos mais graves a uma incompleta diferenciação de fronteiras entre Self e o outro (Mollon, 2006), confusão entre o interno e o externo (Symington, 2006), o que conduz a relações parasitárias e de exploração, mas que têm por base a necessidade de um objeto transformador que possibilite uma metamorfose da realidade interna e externa.

Deste modo, é-nos possível considerar algumas dimensões que permitem caracterizar a vulnerabilidade narcísica referidas na literatura, e que se prendem com o funcionamento do Self e com actividades que são postas em prática de forma a ser possível uma visão mais positiva e afectiva do Self, ou quando necessário, um sentimento de coesão e de estabilidade ao longo do tempo. Assim sendo consideram-se as seguintes dimensões:





  1. Diferenciação do Self

Vários autores (Mahler, Jacobson, Rosenfeld, Kernberg) referem-se à incapacidade da personalidade narcísica face à separação e diferenciação Self/objeto.

Teoricamente defende-se que esta dificuldade de diferenciação se relaciona com a incapacidade de separação face ao objeto materno, advinda de uma relação com um objeto materno pré-edipiano clonolizante (Glasser, 1992), no sentido em que não deixa espaço para o objeto paterno, conduzindo a uma falha na aquisição da posição triangular (Mollon, 2006), irrompendo assim uma dificuldade de conhecimento do próprio Self uma vez que não existe a terceira dimensão que permita essa perspectiva.

Por outro lado, devido à falta de um “pai suficientemente bom”, com uma manifesta “preocupação paternal primária”, que possibilite o desenvolvimento de um Supereu bem integrado, que assegure a auto-confiança fora do seio familiar, ou como melhor expõe Amaral Dias (1991) – a ausência da experiência de um pai fálico intacto, de um pai que possa sobreviver mesmo para além da mãe … a ausência de empatia paternal (p. 58).

Consideramos que a pessoa com vulnerabilidade narcísica tem dificuldade em vivenciar o outro como separado pois necessita que na ligação ao outro sejam colmatadas falhas sentidas no desenvolvimento do Self do próprio. Desta forma, o outro é procurado como um complemento do que falta ao próprio para que este tenha uma representação de si diferente e aceitável.

O par amoroso narcísico deverá possibilitar o preenchimento de uma falha sentida ao nível do Self, contribuindo para a saturação do espaço mental de forma a que não seja experimentada a incompletude gerada pela ferida narcísica, seja ela de maior ou menor grau.

Assim, defendemos que a ligação ao outro pode aspirar uma melhoria da auto-estima e do auto-conceito, isto é, da visão que o próprio tem de si ou – em casos de maior vulnerabilidade narcísica – a necessidade de que na relação com o outro seja facultado um sentimento de existência e de continuidade como nos funcionamentos borderline, ou até mesmo o afastamento da relação, como nos funcionamentos mais psicóticos, de forma a manter intactas as frágeis fronteiras do Self, dado que a ligação ao outro poderá conduzir a estados confusionais e de perturbação da identidade. Pelo que, face à fragilidade de diferenciação do Self, tanto podem surgir comportamentos de relação fusional com o outro, como o afastamento da relação de forma a preservar a integridade e a possibilitar a negação dessa necessidade de relação de completação, ou como referia Kohut, da necessidade de objetos do Self. Assim, a não diferenciação é tanto mais profunda quanto maiores as lacunas sentidas no desenvolvimento do sentimento de estabilidade e coesão do Self.
2- Self Subjectivo
Outra dimensão a ter em conta quando se avalia a vulnerabilidade narcísica diz respeito ao sentimento subjectivo do Self, isto é, à ideia que se tem sobre a competência de autonomia, a capacidade de despertar no outro sentimento válidos e que preencham o próprio.

Kohut (1971) referiu-se à importância da criança ser vista pelo objeto materno como um “centro de iniciativa independente”, de forma a facilitar a aquisição do sentimento de autonomia e competência. Por outro lado Broucek (1979) referiu que o sentimento de eficácia do Self se desenvolveria a partir do sentimento de capacidade para evocar no objeto materno respostas eficazes e concordantes com as necessidades, ou tal como referira Winnicott, a capacidade para evocar interesse e admiração, ou se quisermos ainda, de acordo com Bion (1991, 1959) a competência para despertar pensamentos.

Falhas precoces a este nível poderão nas relações adultas facilitar o desenvolvimento do sentimento de que não se recebe o suficiente, de que se dá mais do que o que recebe, ou que nunca será possível receber o que se necessita, pelo que o melhor será a retirada da relação.

Quando o sentimento subjectivo do Self apresenta perturbações, existe um sentimento de incapacidade ao nível da autonomia, de competência para conduzir a própria vida e para atingir os objectivos. Claro está que face a sentimentos de profunda incapacidade surgem mecanismos compensatórios, de extrema dependência face ao outro em que a plenitude é ilusoriamente encontrada quando se perde no outro (Jeanneau, 1991), agarrando-se aos objetos em paixões frenéticas ou, de outra forma, com ilusões de auto-suficiência, de não necessidade do outro sob a forma de negação ou desmentido, para compensar ilusoriamente, este sentimento de inaptidão. Muitas vezes o que acontece é que o Self necessitado do outro, fica enclausurado, impedido de se manifestar, sendo o lugar de emoções violentas e desorganizadoras, carentes de alfabetização, pelo que nas palavras de Fabião (2007): “O Self mais imaturo e carente de cuidados... é como que sepultado vivo...(p. 143).

Assim, desenvolve-se muitas vezes um falso Self que ora nega a indispensabilidade do outro, ora se sedimenta em relações mediadas pela idealização desajustada e efémera, pela crença de que no objeto exterior reside a salvação e a hipótese da transformação pela suposição da reanimação da sua existência desvalorizada.

3.Self objectivo
Esta dimensão prende-se com o modo como a pessoa avalia a si própria, a sua auto-estima.

Defende-se que a exploração narcísica sofrida na infância por parte de pais - eles próprios com uma imagem empobrecida de si – necessitantes dos filhos enquanto espelhos valorizantes, reflexos do objeto do Self, filhos que têm de parentalizar os próprios pais, o que conduz a um esvaziamento da auto-estima e ao desenvolvimento de sentimentos de menor valia e inferioridade.

Deste modo considera-se que quando a imagem que o próprio tem de si é mais desvalorizada, uma das formas de colorir essa imagem positivamente será através da ligação a um outro que se aprecie como mais valorizado, em que fantasiosamente se considera digno de reconhecimento pela conquista de um outro merecedor de maior valia, ou por imaginar que, como que por osmose, passe a beneficiar dos atributos que tornam a imagem do outro mais vigorosa. Ainda que parasitária, esta forma de relação é muitas vezes mais objectal, na medida em que o próprio se coloca à mercê do desejo do outro de forma a receber em troca estima e apreciação.

Existe no entanto, de forma mais maligna, a tendência a valorizar a imagem do próprio denegrindo a imagem do outro. Trata-se de um narcisismo mais destrutivo, que visa a narcisação do próprio à custa da desnarcisação do outro, como se fosse possível a libertação dos sentimentos de menor valia pela transposição desses para o outro.


4. Exclusividade do Self
Vários autores referiram a necessidade que a pessoa com vulnerabilidade narcísica tem de se sentir como uno na relação. Isto porque como já foi referido anteriormente, pela dificuldade em passar de uma relação dual para uma posição triangular, facilitadora do conhecimento da realidade.

Loewald (1951) referiu que na infância o pai teria um papel importante na facilitação da passagem ao conhecimento da realidade, possibilitando uma retracção e controle dos desejos infantis, dos desejos edipianos, conduzindo a um desenvolvimento do Eu, pela oportunidade de diferenciação e individuação.

Deste modo, o pai surgiria como um outro não mãe, permitindo a constatação de existência de um terceiro relacional, e consequente aceitação da existência de terceiros na relação, afastando a criança da relação simbiótica com o objeto materno.

Quando existe uma falha na aquisição desta posição triangular surge na idade adulta uma incapacidade de vivencia da rivalidade uma necessidade de exclusividade, pois a existência do outro remete para o sentimento de vulnerabilidade narcísica e de menor valia do Self, manifestando-se por sentimentos mais depressivos ou de desorganização em estados mais graves.

Esta necessidade de ser exclusivo na relação poderá conduzir a comportamentos mais masoquistas, de submissão aos desejos do outro, de forma a obter segurança e colmatando a sua fragilidade.

Gear, Hill & Liendo (1981) referem que a pessoa com vulnerabilidade narcísica encontra-se num situação de mutilação do espaço psíquico, sendo que apenas lhe é possível adoptar uma de duas posições: de domínio sobre o outro, ou de submissão.

Estas dimensões serviram de base para a elaboração dos itens que constituem um instrumento que designámos ITRA, um inventário de tipos de relacionamento amoroso que permite avaliar os tipos de relacionamento amoroso narcísico que postulámos e que foi utilizado no nosso estudo para uma amostra de 226 participantes, com uma média de idades de 37 anos.

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