Capítulo 1 – Os disfarces de amor



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Capítulo 5. Tipos de relacionamento amoroso
No campo das relações amorosas do adulto, muitos dos primeiros trabalhos realizados para investigação nesta área eram a-teóricos, com tendência para descrever e focar na descrição de vários tipos de relacionamento amoroso. Hoje, é largamente aceite a ideia de que a investigação deverá centrar-se na necessidade de formular e testar teorias que expliquem como e porque é que determinadas formas de amor se desenvolvem (Feeney, Noller & Roberts, 2000).

Actualmente existem alguns estudos realizados no sentido da compreensão dos processos que levam as pessoas a ligarem-se em termos amorosos. Alguns estudos procuraram entender as diferenças entre amor e processos de ligação (Davis & Todd, 1982; Duck, 1983; Sternberg, 1987), também se tem aplicado teorias da emoção para compreensão do amor apaixonado. Os principais estudos têm como base uma teoria da emoção e vinculação como explicação para a ligação amorosa (Hazan & Shaver, 1987; Shaver, Hazan & Bradshaw, 1988, Bartholomew & Harowitz, 1991).

No entanto, em 1973, Lee (cit. por Hendrick & Hendrick,1997), considerou que existiam essencialmente seis formas de amor – Eros - que traduzia o amor apaixonado que se caracterizava pela intensidade e profundo envolvimento; Storge – uma amor companheiro que implicava a cumplicidade, evitamento da paixão e expectativas de um envolvimento a longo prazo; Ludus – um tipo de jogo amoroso inconsequente e com pouca envolvência, temporário e com controle emocional; Pragma – resultante da combinação de Storge e Ludus, resultando num tipo de relacionamento amoroso que se caracteriza pela racionalidade, escolha pragmática e calculista; Mania – um amor possessivo e dependente caracterizado por uma labilidade emocional, resultante da combinação de Eros e Ludus, conduzindo a um amor onde o ciúme predomina e onde é grande a necessidade de confirmação de que se é amado; Agape – combinaria Eros e Storge resultando num amor altruísta caracterizado por um dar mais do que receber, um cuidar do outro sem que se espere reciprocidade. Hendrick, Hendrick & Dick (1998) desenvolveram uma escala -The Love atitude scale - cujos itens contemplam cada um destes tipos de amor, e que tem sido utilizada numa série de estudos, para compreender a diferença entre géneros, verificando que os homens tendem para um tipo de amor mais lúdico e as mulheres mais para um amor tipo Storge ou Mania (Hendrick & Hendrick, 1997), ou em estudos que relacionam os tipos de amor com a personalidade (Woll, 1989) em que Eros tem sido ligado a uma auto-estima sólida, enquanto Ludus tem sido associado a uma expressão da agressividade e também a uma tendência para envolvimentos casuais. Storge tem sido associado a um certo idealismo acerca da sexualidade, tal como acontece na Mania revelando uma auto-estima baixa, por outro lado Agape, surge relacionado com capacidade de escuta e interesse pelo outro, sem interesse pela sexualidade casual.

Uma das teorias que tem sido mais aplicada neste campo das relações íntimas do adulto tem sido a teoria etológica da vinculação de Bowlby (1969, 1973, 1980). A formulação teórica resultante defende a importância da formação de vínculos entre a criança e o cuidador da infância, sugerindo que um vínculo continuado é essencial para o desenvolvimento social e emocional da criança.

Quer a perspectiva psicodinâmica quer a da vinculação consideram que a relação que se estabelece entre mãe e bebé, o modo como a criança sente que é correspondida nas suas necessidades, não só serve de modelo de como os outros significativos respondem em situações de necessidade, como também constitui as bases da auto-estima, na medida em que a experiência de sentir o objeto disponível, responsivo e afectivamente aceitante conduz não só ao desenvolvimento de um vínculo seguro como também a criança se acha com valor devido, por ser sentir digna de tal afecto e disponibilidade (Cassidy, 1988).

Bowlby considerou que o ser humano, tal como outros primatas, estaria equipado com um sistema comportamental de vinculação, o qual seria responsável pela criação de uma ligação emocional a uma figura de vinculação, designada por Ainsworth (1972) de céu seguro (safe haven) em situações de desespero ou de base segura (secure base) em situações de exploração do meio envolvente, possibilitando à criança a vivência de uma experiência emocional positiva de segurança (Sroufe & Waters, 1977). A activação dos comportamentos de vinculação depende da avaliação que a criança faz de uma série de sinais do meio envolvente, resultando em sentimentos de segurança ou insegurança, sendo que, o objectivo principal é a aquisição deste sentimento de segurança, constituindo-se como um regulador da experiência emocional.

O autor sustentou a formação de modelos internos ou modelos representacionais segundo os quais as crianças desenvolveriam um conjunto de expectativas acerca de si próprias, dos outros e do mundo. Estes permitiriam, numa fase inicial, interpretar e prever o comportamento da figura de vinculação e, ao longo da vida, seriam utilizados como guias comportamentais, constituindo-se como uma base para interpretação de experiências relacionais (Canavarro, Dias & Lima, 2006).

Estes modelos, formados na relação com essa primeira figura de vinculação, seriam responsáveis pela formação de expectativas da relação com o outro, e pela formação de concepções sobre se o Self será ou não merecedor de cuidado e valorização. Estes seriam relativamente estáveis ao longo da vida, constituindo-se como protótipos de todas as relações entre o Self e os outros, embora, como refere Bretherton (1985) teriam a qualidade de dinâmicos (“working” models) tornando-se possível a sua reformulação a partir de experiências de vinculação significativas, capazes de infirmarem experiências anteriores e/ou de possibilitarem percepções diferentes sobre as experiências passadas, abrindo caminho à possibilidade de mudança ao longo da vida.

A finalidade inicial da teoria da vinculação de Bowlby (1988) era a de explicar o desenvolvimento da personalidade e da psicopatologia num contexto de relações próximas, principalmente as relações pais-filhos. Apesar da teoria não ser uma teoria de satisfação relacional per se, as investigações no campo da vinculação têm conduzido ao estabelecimento de índices psicológicos de relações saudáveis e não saudáveis, incluindo as relações entre parceiros românticos.

Ainsworth et al. (1978) acrescentaram aspectos importantes à teoria da vinculação aquando do estudo das diferenças individuais nos estilos de vinculação, a partir das observações que fizeram com bebés em situação natural e em laboratório. Destarte, dos estudos realizados nesta área surgiu uma classificação dos indivíduos em Tipo AInseguros/evitante, Tipo B Seguros/autónomos, que valorizam as relações de vinculação, e Tipo C Inseguros /ambivalente, em concordância com a teoria de Bowlby, ao referir que estes padrões de vinculação estavam directamente relacionados com a resposta afectiva do cuidador da infância.

Quase todos os esquemas subsequentes derivaram deste, sendo que se constata que o sistema de classificação sobre a vinculação introduzido por Ainsworth et al. (1978) tem uma importância extrema na investigação (Moreira, 2006).

Hazan e Shaver (1987) ao proporem uma integração das conceptualizações acerca do amor (teorias sobre o amor ansioso, teorias sobre os estilos de amor e outras) com a teoria da vinculação foram pioneiros no estudo das relações heterossexuais enquanto processos de vinculação. Assim, partem de três pressupostos centrais – os estilos de vinculação que se estabelecem na infância são determinantes do estilo de vinculação no amor entre adultos, a continuidade no estilo da relação vai depender dos modelos mentais acerca das relações e do próprio e os estilos de vinculação da infância (Seguro, Ansioso/Ambivalente e Evitante) são os mesmos na relação de amor nos adultos. Deste modo, consideraram a existência de fortes paralelismos entre a vinculação na infância e a vinculação no amor romântico.

Contudo, os autores defenderam a existência de duas diferenças essenciais e que dizem respeito ao facto dos padrões de ligação entre criança e cuidador terem assimetrias, contrariamente aos do amor romântico em que são esperadas simetrias, pois trata-se de uma troca, implicando uma reciprocidade dos padrões de cuidado (a menos que as falhas na infância tenham contribuído para uma estagnação no desenvolvimento e o indivíduo se coloque numa posição mais de captante!).

Por outro lado, estando a componente sexual presente no amor romântico, levou a que os autores considerassem que este deveria implicar uma integração de vinculação, cuidado e sexualidade, embora em sua opinião sendo o sistema de vinculação o que aparece primeiro, em termos desenvolvimentais, pode condicionar o desenvolvimento dos outros (Shaver et al., 1988).

A avaliação dos estilos de vinculação amoroso realizada por estes autores, era feita através da apresentação de três parágrafos para cada um dos estilos de vinculação propostos por Ainsworth et al. (1978), em que se descrevia a experiência que se esperaria que pessoas, com cada um dos estilos, relatassem nas suas experiências de relações românticas na idade adulta. Deste modo, era pedido aos participantes para se auto-classificarem, escolhendo o parágrafo que considerassem que melhor descrevia a sua experiência de relação amorosa.

A facilidade, simplicidade e rapidez de aplicação deste método bem como o facto de os resultados serem semelhantes aos que tinham sido obtidos com o procedimento de Ainsworth com os bebés, assim como uma série de correlações coerentes com a teoria, ajudaram a convencer muitos da validade desta medida, tendo sido responsáveis pelo grande número de estudos que a utilizaram nos anos seguintes (Moreira, 2006).

No entanto, uma série de aperfeiçoamentos foram posteriormente introduzidos nesta técnica, surgindo desenvolvimentos com diversas escalas multi-itens - em que os parágrafos originais eram divididos em frases ou em que se construíam novos itens - as quais proporcionavam resultados mais precisos e possibilitavam o uso da análise factorial para caracterizar a dimensionalidade no domínio das diferenças individuais na vinculação (Moreira,2006).

As investigações realizadas com base na tipologia de Hazan e Shaver concluem que o estilo de vinculação Seguro está relacionado com uma baixa tendência para o divórcio, com um compromisso nas relações conjugais e elevados níveis de satisfação com a relação, enquanto que os estilos Inseguros (Ansiosos/Ambivalentes e Evitantes) surgem como mais associados a insatisfações conjugais, maior solidão e com elevada tendência para somatizações .

Bartholomew & Horowitz (1991) desenvolveram três instrumentos de avaliação dos padrões de vinculação, a Family Attachment Interview que é uma entrevista semi-estruturada em que é pedida uma descrição de memórias da relação com os pais, em particular no que diz respeito a experiências de perda, rejeição e separação na infância, bem como a interpretação feita em relação ao comportamento dos pais, e a explicação de como consideram que a relação com os pais modelaram a sua personalidade. Outro instrumento é a Peer Attachment Interview que é também uma entrevista semi-estruturada, em que se procura perceber as relações com os amigos e as experiências de relações amorosas através de descrições de experiências de rejeição e aceitação, experiências de troca de apoio, reacções face ao conflito e à separação e as expectativas face ao futuro relacional. O Relationship Questionnaire apresenta quatro parágrafos que representam os quatro padrões de vinculação, em que os sujeitos devem escolher o padrão que melhor os descreve em termos do funcionamento das suas relações íntimas, classificando numa escala de sete pontos, o grau que corresponde às suas relações de proximidade em geral (Bartholomew & Horowitz, 1991).

Na continuidade dos estudos de Hazan e Shaver, Bartholomew e Horowitz (1991) sugerem uma tipologia de quatro grupos, uma vez que defendem que os padrões de vinculação reflectiam um modelo interno de representação do Self e um modelo de representação interna do cuidador; isto é, o Self pode ser visto como merecedor, ou não, de cuidados, atenção e amor, bem como a figura de vinculação pode ser vista como disponível e cuidadora ou o contrário. A combinação destas duas dimensões resultou em quatro estilos de vinculação:



Seguro – com visão positiva do Self e do outro, em que o indivíduo se sente seguro na relação com o outro, gerindo bem a mútua dependência, e a não aceitação por parte de outros, o Preocupado – com uma visão negativa do Self mas positiva do outro (cf, ansioso-ambivalente) com um sentimento de rejeição, e com um sentimento de incapacidade para gerir a própria vida sem o outro, revelando um sentimento de que os outros não apreciam da mesma forma que o próprio valoriza os outros; o Evitante Desligado – com uma visão positiva de si e negativa do outro, excluindo a mútua dependência e com o desejo de não se sentir ligado a ninguém; o Evitante Amedrontado – com modelos negativos de si próprio e do outro, revelando um desconforto nas relações íntimas, desconfiança em relação ao outro e às suas competências de dedicação, temendo a rejeição (Bartholomew & Horowitz, 1991, p. 244).

De acordo com a perspectiva de Bartholomew (1990), os indivíduos com modelos positivos dos outros (i.e; não evitantes), podiam ser classificados como seguros ou preocupados, tendo em conta o seu grau de dependência. Os indivíduos com modelos negativos acerca dos outros, poderiam ser desligados ou receosos, novamente em relação à necessidade de depender. Ou seja, quer os desligados quer os receosos tenderiam a evitar as relações íntimas, mas diferiam no que diz respeito à necessidade de aceitação por parte dos outros. Os evitantes desligados manteriam um sentimento de valorização pessoal à custa da intimidade.

Os evitantes receosos desejavam a intimidade mas como receavam a rejeição, evitam a ligação de forma a não estarem sujeitos a essa experiência (Bartholomew, 1990, Bartholomew & Horowitz, 1991; Feeney & Noller, 1990).

Feeney, Noller & Hanrahan (1994) chegaram à conclusão que os indivíduos desligados revelavam uma indispensabilidade de aprovação por parte dos outros e preocupação com as relações, concluindo-se que a necessidade de manterem o outro à distância se prendia com as ansiedades resultantes acerca das dúvidas sobre si próprios.

Em nossa opinião este é um aspecto importante e que se prende com a vulnerabilidade narcísica e com a fragilidade das fronteiras do Self. Deste modo, consideramos que estes estilos de vinculação deverão ser cuidadosamente analisados tendo em conta estratégias defensivas que visam a manutenção de uma estabilidade de um Self frágil e a possibilidade de estabelecimento de fronteiras que estão pouco delimitadas e que se podem sentir ameaçadas em face de uma ligação de maior intimidade.

Assim, nas relações fundadas no narcisismo, as necessidades do Self assumem a importância fundamental. O Self é mais frágil muitas vezes com fraca coesão, a auto-estima é mais difícil de equilibrar internamente, portanto existe um elevado grau de vulnerabilidade narcísica, a pessoa está mais sensível a toda a injúria emocional focando a atenção mais nas suas necessidades do que nas do parceiro, esperando sempre que o outro se comporte de forma a possibilitar um aumento da estima do próprio e a estabilidade e coesão do Self.

As pessoas com vulnerabilidade narcísica, utilizam estratégias defensivas que têm como finalidade compensar essa vulnerabilidade, não com estratégias de regulação interna, mas através de aproximações ao outro de modo indiferenciado ou através de distanciamentos defensivos.

Em todo o caso o que conta, nestes tipos de relacionamento amoroso formados a partir da vulnerabilidade narcísica, é que o outro é valorizado como uma parte do Self, devendo comportar-se de acordo com as suas estratégias defensivas. As estratégias defensivas devem proteger o Self das necessidades de ser amado, compreendido e reconhecido (Bach, 1987)

As pesquisas realizadas sobre os estilos de relação amorosa preocupado revelaram que este se caracterizava por elevados níveis de idealização do parceiro e uma preocupação obsessiva face ao amor do outro (Hazan & Shaver, 1987; Feeney & Noller, 1990), bem como uma angústia face à hipótese de separação (Mikulincer et al., 1990), uma maior dependência emocional, uma necessidade maior de comprometimento (Feeney & Noller, 1990), uma dependência maior dos outros para manter a sua auto-estima a um nível que permita funcionar (Bartholomew & Horowitz, 1991). Estes resultados parecem, em nossa opinião, prender-se mais com um estilo de relação que tem por base um funcionamento mais depressivo, tipicamente neurótico.

As investigações revelam também que, no estilo evitante há um evitamento da proximidade e intimidade, a regulação afectiva é realizada através da desvalorização da importância do vínculo, em que há uma fuga a domínios mais afectivos (Hazan & Shaver, 1987; Bartholomew & Horowitz, 1991). O afastamento permite a ilusão de uma certa segurança face ao criticismo e a hipótese de ser invadido por emoções que não sejam manejáveis internamente (Pistole, 1995), impedindo um contacto com tudo o que possa diminuir a imagem do Self (Akhatar & Thomson cit. Pistole, 1995). Deste modo, estes resultados parecem evidenciar a utilização de estratégias mas defensivas de evitamento da intimidade de forma a manter uma coesão do Self, ainda que ilusoriamente, em que o afastamento impede o confronto com as fragilidades sentidas ao nível da estabilidade e coesão da representação do Self.

Feeney (1995) ao estudar o controle emocional e o estilo de vinculação nos casais verificou que os casais em que o estilo de vinculação era inseguro havia uma maior frequência na manifestação de emoções negativas, comparativamente a casais em que pelo menos um revelava um padrão de vinculação seguro.

Outros estudos revelam que o estilo preocupado manifesta mais ansiedade e paixão que os seguros ou evitantes (Feeney & Noller, 1990; Levy & Davis, 1988) sendo também, geralmente mais obcecados com a relação (Hazan & Shaver, 1987) enquanto os evitantes revelam distância emocional (Bartholomew & Horowitz, 1991) e falta de interesse (Shaver & Brennan, 1992), os seguros revelam maior envolvimento nas relações, confiança no parceiro e satisfação (Pistole, 1989).

Neste sentido, consideramos que os estilos de vinculação deverão ter em conta a fragilidade narcísica e a função que esta tem no estabelecimento de relações de forma a colmatar as fragilidades sentidas ao nível da representação do Self. Consideramos que o olhar sobre os estilos de vinculação sem ter em conta a vulnerabilidade narcísica, corresponde a uma falha que pode ocultar a ligação entre a vinculação a regulação da auto-estima e a protecção\coesão do Self. A vinculação prende-se com a necessidade de proximidade, cuidado e segurança de um outro que é experienciado como separado do Self (Silverman, 1991; Pistole, 1995), a questão coloca-se quando o outro é vivido como não respondente a estas necessidades e como tal não pode ser vivenciado como separado estando-se no caminho que favorece o desenvolvimento de falhas no Self, condicionando todo o desenvolvimento posterior.

Elson (1987) e Solomon (1989) haviam concluído que a vulnerabilidade narcísica afectava as relações amorosas na medida em que a pessoa necessita que os outros funcionem como objetos do Self. As relações que não derivam de vulnerabilidades narcísicas baseiam-se mais numa troca, em que a centração no Self está em equilíbrio com a capacidade de reconhecimento do outro como separado, havendo portanto a autonomia do Self (Solomon, 1989). Assim, o maior ou menor grau de fragilidade narcísica determinará a maior ou menor segurança na relação com o outro e a capacidade de tolerar os movimentos projectivos e de identificação projectiva tão próprios de uma relação de intimidade. Em nossa opinião, o grau de vulnerabilidade narcísica do indivíduo influi na sua orientação para o estabelecimento de relações mais ou menos parasitárias e de exploração mútua em detrimento de relações de comensalidade, de troca mútua e com sentimento de bem-estar vincular.

Defendemos que os estudos sobre relacionamento amoroso não se poderão cingir à ideia de repetição de padrões relacionais interiorizados, até porque, se tivermos em conta o processo de desenvolvimento do Self, pressupõem-se uma modificação nos padrões relacionais desde a infância, visto que o aparelho mental é dotado de uma plasticidade e competência reflexiva que determinará modificações salutogéneas. Em nossa opinião a estagnação e repetição de padrões será da ordem da incompetência do Self para se desenvolver e remeterá para lacunas na sua estrutura de base. Logo, se os padrões relacionais interiorizados se repetem ao longo da história relacional do sujeito é porque há algo que se procura e que falhou, impelindo à repetição com a finalidade de um acabamento, em busca do que se sente que faltou e que determinou um encriptamento do Self, a sua paralisação. Destarte, defendemos a existência de tipos de relacionamento amoroso que se formam em ordem a possibilitar essa completação do Self, à procura de poderem retomar o desenvolvimento que ficou suspenso.
5.1 –Tipos de Relacionamento Amoroso que visam o reparo da vulnerabilidade narcísica
Não conheço nada mais complexo no mundo que amar.”

Carlos Amaral Dias, 2010


Reik (1944, cit. Barnes & Stenberg, 1997) considerou que o amor seria um substituto de outro desejo, e que resultaria de uma incapacidade do Self em se sentir completo e em atingir o eu-ideal, deste modo, o amor surgia da deficiência em que a pessoa seria compelida a amar de forma a obter na relação como outro, as qualidades que faltam ao próprio. Numa palavra, para o autor, o amor trata-se de um fenómeno singular resultante das falhas do próprio.

Embora, em nossa opinião o amor não se alicerce na deficiência, pretendemos defender a existência de tipos de relacionamento amoroso que decorrem das necessidades narcísicas, emergentes do sentimento de vulnerabilidade narcísica do Self, sendo postas em prática modalidades funcionais que têm como objectivo uma reparação do que ficou retido em termos de desenvolvimento do Self, visando uma coesão ou uma visão mais positiva, sendo perspectivada uma organização ou um aperfeiçoar do Self, que em modalidades diferentes, é sentido como falhado. Assim, são relações que se estabelecem com o intuito de uma pseudo-narcisação do Self, com a finalidade de diminuir o sentimento de vulnerabilidade narcísica. Assim, nestes tipos relacionais, o outro está no lugar da função, desempenha uma função que falta ao próprio, não está lá no lugar de um outro diferenciado, sendo relações da ordem da completação.

Este mecanismo de reparação narcísica opera por duas vias – a da submissão, mais típico dos funcionamentos neuróticos ou do Self grandioso, mais típico dos funcionamentos borderline e psicótico.

Em resumo, o que se procura é a segurança do Self, e a sua completação, seja através da fusão com um outro idealizado seja pela fuga a essa necessidade chegando ao isolamento, consoante a falha no Self seja da ordem da falta de uma estrutura reguladora da auto-estima ou de uma estrutura organizadora do pensamento, a qual conduz também a uma fragilidade grave na auto-estima.

Logo, as relações que se estabelecem são mediadas por idealizações e desvalorizações, expectativas exageradas e baseadas em pressupostos subsequentes de falhas de desenvolvimento no Self, sem que haja percepção realística do Eu e do outro, o que compromete o desenvolvimento de cada elemento na relação e naturalmente, a própria relação.

Consideramos que os estudos do relacionamento amoroso deverão ter em consideração o estabelecimento destas modalidades relacionais fundadas na procura de completar o que falta ao Self para que possa prosseguir o seu desenvolvimento e, como tal, sustentamos que estas relações se estruturam em torno de três tipos de funcionamento que passamos a descrever.


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