Capítulo 1 – Os disfarces de amor



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5.1.1 - Relacionamento amoroso tipo Submisso-Idealizador
Rank (1941) enfatizara a função das relações amorosas enquanto reguladoras da auto-estima, em que ambos os elementos da relação se alimentavam de modo parasitário dos aspectos bons um do outro. O autor considerava que a dependência excessiva do outro para a regulação da auto-estima poderia desencadear comportamentos de dependência, subserviência masoquista de forma a impedir a perda do objeto tão necessário ao engrandecimento do Self.

Neste sentido, os outros são utilizados como veículos para alcançar um colorido afectivo da representação do Self. As relações amorosas são estabelecidas de forma a possibilitar a ilusão de possuir uma auto-estima verdadeira, fortalecida.

Quando o indivíduo sentiu que foi amado parcialmente, apenas pelos aspectos que satisfaziam o objeto, só aprendeu a amar desse modo. Liga-se aos objetos de forma parcial. Estabelece relações bidimensionais (sem profundidade), baseadas em processos primários em que o que interessa são os aspectos exteriores e não a pessoa em si, em que o básico na relação pode ser pensado do seguinte modo: ”gosto não dele, mas do que ele me faz iludir que eu seja”. O que encanta não é tanto o outro, mas o que ele possibilita ao próprio em termos do seu narcisismo, sendo que ainda assim, existe um certo investimento objectal. Já A. Reich (1953) havia referido estas ligações como ilusoriamente mágicas vividas como supostamente reparadoras de danos graves sentidos na auto-estima, aparentando um intenso amor mas não sendo mais do que restaurações narcísicas.

Mas, tendo sido amado não pelo que é, mas sim pelo que faz de bom aos olhos do objeto e, do que satisfaz as necessidades narcísicas desse objeto, a avaliação do Eu e o reforço da auto-estima não poderá realizar-se senão através de actos. Contudo, o acto não é utilizado como uma prova das capacidades do Eu, mas sim, como meio de se fazer aprovar pelos outros. Além do mais, os actos não são vividos como exprimindo a totalidade do Eu, mas como um meio de se fazer confirmar. É a repetição do trauma de infância, como nos refere Miller (1986): continua a ser admirado não pelo que é, mas sim pelo que possui e agrada aos outros.

Malpique (1993) considera que as escolhas amorosas que estas pessoas realizam constituem uma vingança para com o objeto primário que não foi capaz de dar um amor suficiente e provisor.

De acordo com Kernberg (1995 b) consideramos que, muitas vezes, quando nestes casos há uma ligação ao outro, a sua paixão se centra em torno da beleza física, do poder ou da riqueza, os quais conferem ao indivíduo o sentimento de posse de tais atributos. Muitas vezes, a idealização refere-se ao facto de imaginar que o outro vive uma vida de gozo, sem vergonha, sem inibição e sem culpa, tão desejada pelo indivíduo. Assim, é como se fantasiassem que o brilho do objeto ilumina e oferece a esperança, ainda que vã, a um Eu nas trevas. Trata-se de uma espécie de maquilhagem psicológica, em que o que se pretende é um disfarce das falhas, reais ou imaginadas, que se julga associadas ao seu Self. A idealização do outro prende-se com as necessidades de manutenção desse como alimento narcísico do próprio.

Person (2007) designa de amor vaidoso ou amor auto-valorizante, aquele em que o objectivo consiste num ganho, como dinheiro, poder, vantagem social, que possibilite o emergir da vaidade do Eu.

Zimerman (2004) designa de fetiches substitutos, estes aspectos que possibilitam que o individuo se esconda por detrás de uma aparência, criando uma vida ilusória, um falso Self que permite ir encobrindo a verdadeira essência.

Com efeito, encontramos homens/mulheres que se ligam ao objeto possuidor de beleza ou estatuto social, que julgam conferir ao próprio a potência, o poder de possuir tal objeto de valoração. Denotando-se uma clivagem entre interior e exterior, com supremacia do segundo face ao primeiro.

Estas relações são mediadas pela idealização infantil em que o outro, muitas vezes, é procurado como objeto poderoso a quem se possam ligar de modo siamês (é a fusão com o objeto grandioso e omnipotente que Kohut considerara como fase essencial no desenvolvimento infantil). São as personalidades tipo B designadas por McDougall (as que realizam uma transferência idealizadora, na versão de Kohut), que se agarram com avidez a pessoas significativas de forma a projectarem nessas o seu Ideal, de modo a preencherem um vazio.

Como sustenta Bleichmar (1985), o indivíduo, julga assim, poder ocupar o trono narcísico do objeto. É como se pensasse que, na ligação ao objeto, ele próprio pode brilhar e envaidecer-se com a sua grandiosidade (do objeto).

Nestas relações, o indivíduo aumenta as suas reservas narcísicas alimentando-se do narcisismo do objeto, quase como se fantasiasse que, por osmose, recebesse o valor que admira no outro, encontrando-se permanentemente numa posição narcísica. Relações que podem ser equacionadas do seguinte modo: 1+1=1 ou, como refere Coimbra de Matos (2002), estas relações são ilustradas pela comum frase “Eu, sou Eu e a minha mulher”.

Confundem relação objectal com dependência; e quando o amor é confundido com dependência, o que se passa a procurar é a admiração do outro em vez do seu amor, sem perceberem que se tornam profundos adictos, insatisfeitos, de admiração. Sem alcançarem que esta é apenas uma gratificação substituta da necessidade de respeito, amor e compreensão; é a vicariância narcísica – “não sou amado, mas sou admirado”.

No entanto, em muitos casos, a dependência face ao objeto amoroso é conscientemente negada e ao mesmo tempo temida, pois remete para a dependência pré-edipiana, fazendo ressurgir conflitos em torno da fase oral. Na relação com o cuidador, o indivíduo vivenciou uma relação de dependência em que se sentiu esgotado na sua capacidade de satisfazer e lesado na sua necessidade de compreensão e afecto, desencadeando o sentimento depressivo de dar sempre mais do que recebe; é a economia depressígena e depressiva (Coimbra de Matos, 2002).

Nestas circunstâncias, apenas era permitido na infância a expressão de sentimentos consonantes com a disponibilidade do objeto, aprendendo o que não é permitido sentir, sob pena de perder o amor do objeto. Passa a desenhar-se um padrão que estabelece que os sentimentos inaceitáveis pelo meio e pelo próprio devem ser escondidos de forma a evitar a rejeição e a vergonha. Quando estes sentimentos surgem e não são completamente evitados, eles terão de ser clivados e não podem ser integrados, o que conduz a um empobrecimento marcado da personalidade (Miller, 1986).

Abraham (cit. Rui Coelho, 2004) ao referir-se aos pacientes deprimidos, afirmara que estes se agarravam aos objetos como sanguessugas, como se a sua intenção fosse devorá-los. Também Green (1993) refere que quando a ferida narcísica se transforma numa chaga aberta é indispensável o sequestro do objeto, de modo a reconstruir a unidade perdida com o objeto por meio da criação de uma complementaridade interna.

Estas são relações que se sustentam pela amputação, tolhidas por um sentimento, muitas vezes mútuo, de insuficiência crónica, em que o outro é apenas um complemento do próprio, aquilo que lhe falta para ter uma visão mais colorida do seu Eu, embora permanecendo sempre uma estrela sem luz própria que necessita de objetos que gravitem à sua volta e lhe proporcionem gratificações que são da ordem da pré-genitalidade, dado que as exigências são de reconhecimento e admiração e não de envolvimento efectivo.

É a dependência estéril do depressivo, que não manifesta o desejo porque se coloca à mercê do outro para evitar a rejeição e impede-se de se colocar na relação enquanto ele próprio, muitas vezes controlando o outro de modo masoquista, não deseja mas submete-se ao desejo do outro, apenas recebe o que o outro quer dar e não exige o que sente que necessita pois receia a rejeição. Ávidas presas, que se deixam encarcerar em relações que ilusoriamente lhe trazem um benefício à estima mas que resultam num sentimento de darem mais do que recebem e como tal são insatisfatórias, diz-nos o fado lágrima da Amália: “Se eu soubera que morrendo tu me havias de chorar, por uma lágrima tua que alegria me deixaria matar”.

Como refere Coimbra de Matos (1979):

... o indivíduo ... vive ... dos juros do capital investido – é uma espécie de amor próprio no sentido de o fazer render e aumentar, mas que resulta num logro pois que o capital investido numa relação não produtiva se desvaloriza”.


Por norma estes indivíduos envolvem-se em paixões de foro sádico-masoquista em que a atracção é sempre por um outro que se apresenta como incapaz de corresponder aos desejos do próprio, comprovando o sentimento de não ser merecedor de melhor (decorrente da sua fragilidade narcísica), muitas vezes protegendo-se assim dos temores da rivalidade edipiana.

Trata-se de um masoquismo ilusoriamente compensatório, que coloca o indivíduo numa situação de admissão de tudo o que de desagradável lhe possam fazer, criando a ilusão de que aguenta tudo o que de mal vem dos outros, e deste modo compensa-se narcisicamente, porque encobre a fragilidade, mas colocando-se numa posição submissa, de grande dificuldade em impor limites na relação, permitindo o desrespeito, deixando a descoberto a grave desvalorização e o sentimento de inferioridade.

Estas pessoas facilmente se iludem com a atractividade do distanciamento narcísico, que aparenta ser difícil de conquistar, de conseguir, ilusoriamente seguros de si, envoltos num mistério que simula ser interessante, mas que não é mais que uma defesa face ao sentimento de incompetência e menor valia, encapotando uma fragilidade do Eu e um empobrecimento da vida afectiva e relacional.

Kernberg (1995 a) menciona o facto de nestes casos existir a projecção na pessoa amada, não de um Ideal do Eu normal, mas sim de um Self grandioso patológico, que se encarrega deste modo, da estabilidade da própria grandiosidade do paciente.

Consideramos que este se constitui como um lado mortífero do amor que se fica a dever a um sentimento de ligação de dependência, na infância, a um objeto frio, indiferente, não sintonizante, em que muitas vezes o que se realiza é uma vingança contra esse objeto que lesou e utilizou o indivíduo como objeto de completude narcísica (Coimbra de Matos, 2002), numa fase do desenvolvimento em que era crucial o reforço narcisante e provisor de reservas.

De acordo com Kohut, nestas relações, o objeto amoroso não é mais do que um objeto do Self cuja função é de trazer ao próprio um ganho narcísico. Como refere Miller (1986), os outros estão ali para admirar e o próprio está de corpo e alma envolvido em conseguir tal admiração, numa dependência torturante. É a tarefa de reparação narcísica a que se refere Bursten (1986), que, face à vulnerabilidade do narcisismo do indivíduo, se torna uma tarefa para toda a vida, tendo como objectivo principal fugir da vergonha, e ligando-se a objetos que desempenhem essa função restauradora.

Como refere Coimbra de Matos: “ Na catexia narcísica do objeto, este só é reconhecido, apreciado, admirado e desejado, assim como aceite e respeitado, enquanto é sentido como idêntico e unido ao sujeito, sem vontade própria nem diferente (1997: 23).

Contudo, nestes casos existe um certo investimento no objeto, o indivíduo está predominantemente numa posição depressiva, mas em que a culpa não foi elaborada, daí a sua condição mais depressiva, mas entretanto as ansiedades esquizo-paranóides foram suficientemente manejadas. Considera-se, no entanto, que o objeto não é clivado, ele possui uma continuidade afectiva, de acordo com Coimbra de Matos (2002); é o objeto bifacial (idem).Por isto, estes indivíduos têm o outro em conta, ainda que sempre à espera de receber algo, nunca sentido como o suficiente, porque não chega a ser colmatada a debilitação narcísica do Self, nunca chega a haver um verdadeiro restauro do Self falhado.


5.1.2 - Relacionamento amoroso tipo Eufórico-Idealizante
Quando a auto-estima está diminuída, a representação do Self é frágil e as angústias esquizo-paranóides não foram integradas, as relações que se estabelecem são, em certas situações, mediadas pela inveja e pela agressividade face ao objeto.

O outro é necessário para uma pseudo-organização do Self, o objeto amoroso desempenha uma função que é mais do que a de colorir o Self, é a de possibilitar a sua contenção. É como se o Self tomasse de empréstimo a mente do outro para se poder organizar. O objeto tem aqui uma função organizadora, ainda que de forma suplente, do Self que não se desenvolveu; estabelecendo-se assim uma pseudo-relação, em que o outro apenas está no lugar da sua funcionalidade, ou seja, é como se o objeto estivesse lá para colmatar a falha deixada pela relação com o objeto primário, está lá para cumprir a função e não para uma relação de troca madura e de reciprocidade.

O'Shaughnessy (1981) refere o facto de nas situações em que as ansiedades infantis não foram modificadas e integradas, não sendo possível atingir a posição depressiva, surge a necessidade de criar um refúgio em relação aos objetos internos e externos, os quais são tidos como responsáveis no ressurgir de ansiedades desorganizadoras. Assim, irrompe uma organização defensiva ainda que precária (pois o ego é frágil), que muitas vezes desfalece e põe a descoberto uma série de angústias intoleráveis.

Este refúgio em relação aos objetos prende-se com a inveja sentida pelo que se julga estar em falta vendo os outros em sua posse. Segal (1975) referia que a inveja visa a que se seja tão bom como o objeto e que quando isso é vivenciado como impossível o objectivo é danificar o que no objeto provoca inveja, removendo a fonte de sentimentos invejosos. Miller (1986) referira que a inveja se devia ao facto de considerarem que os outros não tinham de fazer grandes esforços para obter admiração.

Procuram-se então objetos que possibilitem uma vivência, ainda que falsa, de libertação dos sentimentos de desvalorização através da projecção das partes más do Self, no outro, por meio de mecanismos de identificação projectiva. Como não aceitam a falha em si mesmos, projectam-na nos outros, fazendo um ataque ao narcisismo alheio. Segundo Coimbra de Matos (2002), este tipo de pessoas são os designados perversos narcísicos pois vivem do ataque ao narcisismo alheio, restringindo-se por vezes a um ataque à imagem sexuada do outro – castração narcísica (op. cit. p. 445).

Kernberg (1995 b) refere-se a homens que escolhem mulheres feias como forma de fazer sobressair a sua própria beleza e suscitar, assim, admiração. Tornam-se incapazes de apreciar o que o outro possui de único e diferente.

O objeto não pode nunca ser melhor que o Ideal do Eu, pois isso desencadearia inveja e consequentemente ataques sádicos à sua personalidade de modo a que esse não possua nada de invejável. O objectivo é destruir o narcisismo do outro, porque esse aumenta o sentimento de inferioridade do próprio. Coimbra de Matos (2002) refere que se o objeto exibe alguma qualidade superior, ao desejo de possuir atributos iguais aos do outro acrescenta-se o desejo de o destruir: é o complexo de revolta (2002, p. 133).

O indivíduo narcisicamente vulnerável tem receio que o objeto o atinja na sua ferida narcísica, desencadeando a humilhação, pelo que passa a ter uma atitude agressiva de modo a desencadear no outro esse sentimento. Os sentimentos de inferioridade conduzem ao emergir de agressões hostis, surge a vingança para com aquele cuja única falha foi a de ser (parecer) mais forte que o próprio.

Podemos dizer que esta agressividade, pela desvalorização do outro, permite tornar menos consciente o sentimento de vergonha do próprio, na medida em que ele passa a ser o objeto vexatório e discipiente.

O outro deve, em muitos casos, ser um objeto gémeo do indivíduo (Kohut, 1988 a), pois se o Eu não está fundido com o objeto, surge o reconhecimento das qualidades do outro e das inferioridades do próprio, surgindo a inveja, sendo necessário pôr em curso todas as defesas contra a separação. São relações pontuadas pela identificação narcísica ou projectiva – em que o outro é investido à imagem e semelhança do próprio. Como refere Coimbra de Matos (2002), o outro é um alter ego em imagem especular.

Assim, encontramos nestas relações um balouçar constante da visão do objeto, por um lado mau enquanto fonte de projecções, por outro ideal, com o qual o indivíduo se quer identificar. Numa constante alternância em que: se gosto de mim, não gosto do outro, se gosto do outro não gosto de mim. Isto, porque se o objeto é visto como mau, inferior, o próprio sente-se valorizado, surgindo sentimentos de inferioridade e humilhação quando o outro é vivenciado como objeto perfeito. Em outros casos, trata-se de um oscilar entre a idealização, na maioria dos casos do objeto que completa, e o denegrir do objeto que se mostra independente.

Estas relações podem ser designadas de transnarcísicas, dado que permitem a regulação da auto-estima, uma vez que, como num sistema de vasos comunicantes (Coimbra de Matos, 2002), o narcisismo circula de um para o outro. De uma forma mais simples poderíamos dizer que, como dois pratos desequilibrados de uma balança, o aumento do narcisismo de um corresponde a um abaixamento do nível do narcisismo do outro; o que é típico numa relação narcísica fusional. (Sistema de “cápsula” ou “guindaste”- par maníaco-depressivo). (Coimbra de Matos, conferências)

Como se de um travestismo mental se tratasse, nestas relações narcísicas, o sujeito apodera-se do que no outro é sentido como bom e simultaneamente invejável, fantasiando um controle omnipotente do objeto, como refere Rosenfeld (cit. por Bleichmar, 1985):
O sujeito trata de fundir-se com ele (objeto) para assim controlá-lo omnipotentemente num duplo movimento: por um lado apoderar-se dos aspectos invejados do objeto e senti-los como próprios e, por outro, evacuar através da identificação projectiva, tudo o que causa desprazer” (1985, p. 43).
Esta ideia parece aproximar-se da tríade maníaca descrita por Melanie Klein: omnipotência – controlo – desprezo.

Deste modo, nas relações amorosas que estes indivíduos estabelecem, para que um esteja na ribalta é necessário que o outro permaneça nos bastidores. Trata-se de uma dijunção exclusiva – ou o Eu ou o outro (Bleichmar, 1985). O objeto não pode aparecer enquanto alguém que tenha outros objectivos que não sejam a complementação do sujeito através da sua conduta de admirador. Há como que uma recusa da subjectividade e alteridade do outro (Coimbra de Matos, 1982), o objeto não pode ter outros desejos que não sejam os mesmo que do indivíduo, há uma ausência ou precariedade da função discriminante Self/objeto.

São muitas vezes relações tirânicas, nas quais o objeto tem de brindar à admiração do sujeito, deixando que o seu pensamento e os seus desejos sejam controlados, de modo a ser criada uma ilusão de segurança na relação.

O desinteresse pelo outro, enquanto entidade separada, parece poder relacionar-se com a tríade descritiva do carácter abandónico referida por Bergeret (1974), quando da definição de carácter narcísico. Assim, a desvalorização do objeto, a negação do seu existir e do seu valor enquanto ser importante e autónomo, terá como objectivo provocar no objeto sentimentos de abandono que o indivíduo já sentira e que tem receio de vir a sentir por considerar que o outro o vai rejeitar pelo seu fraco valor. Deste modo, realiza-se uma espécie de seguro contra a rejeição e o sentimento de abandono: para evitar a sua desvalorização, despreza o objeto, como consequência da desvalorização que possui de si mesmo. Trata-se de uma desmentido da dependência e uma defesa face à humilhação.

Por outro lado, se o indivíduo não se valoriza, não se considera digno de amor, tenderá a provocar no outro esses sentimentos. É um modo implícito de ataque ao narcisismo do outro, como vingança em função de frustrações do passado. Estes indivíduos, possuidores de um profundo sentimento de vergonha devido à sua fragilidade narcísica, tendo sido, na sua infância, objeto de atitudes desnarcisantes por parte dos pais, pretendem transformar o passivo em activo (Freud, 1920) tendendo a responder agressivamente a qualquer situação que desencadeie esse sentimento, passando, como refere Kohut (1972) inflingir activamente nos outros aquelas feridas narcísicas que mais teme sofrer.

Realizam assim, activamente com o outro, aquilo que sentem que sofreram passivamente na relação com o objeto inicial.

Uma manifestação da agressividade nestas relações verifica-se pela tendência ao domínio sobre o objeto de forma a torná-lo submisso e próximo para conferir ao indivíduo um sentimento de segurança.

Muitas vezes estes individuos revelam uma heterosexualidade frágil, resultante de uma identidade mal edificada, o que desencadeia frequentemente o estabelecimento de relações sexuais sucessivas como comprovação da virilidade ou feminilidade. Num acting-out permanente, que parece, acima de tudo, revelar falhas no processo de identificação.

Como refere J. Milheiro, estes indivíduos «... Têm uma pseudo-sexualidade, fazendo dela um uso expansionista ou de retracção conforme a possibilidade íntima que os aspectos organizados da psicossexualidade e a caracterização das circunstâncias por onde circulam o permitam». (1990:, p. 47).

O que acontece é que acabam por viver a sua sexualidade de forma exibicionista, em que, de modo maniforme, se envolvem em diferentes relações, as quais julgam contribuir para uma valoração viril/feminil, no entanto esta apenas é reveladora de uma ambivalência em relação ao sexo oposto traduzindo-se numa procura de gratificação sexual ao mesmo tempo que é posta em acção uma vingança sádica, não se envolvendo afectivamente com o objeto e desprezando-o na sua capacidade afectiva.

De acordo com Kernberg (1995 b), no caso das mulheres o exibicionismo e os mecanismos de sedução frios e controlados podem revelar uma identificação inconsciente a uma mãe fria, narcísica e rejeitante, pretendendo, acima de tudo, um domínio e exploração do parceiro, o que permite uma gratificação sexual e uma protecção contra a inveja. Estabelecem-se relações em que o envolvimento afectivo é menosprezado em favor de um envolvimento que sustente o sentimento de ser desejado, que dissimule o Self falhado, sendo para isso importante a sua performance sexual, a qual desenvolve um cariz mecanizado. Quase como se o prazer sexual resultasse somente da satisfação com a sua performance, conduzindo à existência de orgasmos do Eu. A satisfação é com o seu desempenho, e não advém da relação íntima, genital. São personagens animados pela incessante procura de relações sufocadas pela erotomania ou a histeria (vicariância erótica – “não sou amado, mas sou desejado”).

A necessidade de ser desejado e admirado leva a que alguns homens e mulheres se deixem envolver numa ilusão de que constituem objeto de desejo, não passando, nas suas relações, de meros objetos de exibição narcísica. Sendo que nesta modalidade relacional, o investimento no outro nem sequer é sexual, porque o outro nem sequer é vivenciado como objeto de prazer, é apenas um intermediário para a exibição sexual do próprio.

A excitação que surge face a cada nova relação vai desaparecer com a proximidade ao objeto. O que excita é a curiosidade que antevê a fusão com o Ideal do Eu, e a transformação no Eu Ideal. Quando a curiosidade desaparece, desfalece o desejo. Surge nestes pacientes a ideia de que tudo se desvanece com o passar do tempo, de que tudo tem um término. Isto, porque sentiram, na relação mais precoce, uma perda do interesse do objeto. Assim, partindo dessa premissa, optam por não se envolver afectivamente, para não serem rejeitados; é a insuficiência narcísica, que desemboca na retracção. O indivíduo vai-se retirando cada vez mais do mundo das relações verdadeiras, passando, em muitos casos, a afastar-se, pois julga, deste modo, poder manter uma imagem idealizada face aos outros. A aproximação ao objeto é vista como a queda da posição fictícia de superioridade com que julgam iludir os outros.

O que se aspira é cada vez mais o desapego emocional; o objectivo é não depender de nada, não haver ligação a nada, cultivando-se a negação do sentimento.

O estabelecimento de relações sexuais com diferentes parceiros fortalece o sentimento de desapego e de ser desejado. Atitude maniforme que visa testemunhar a satisfação de viver. Situações em que há como que paixões compulsivas que procuram, ilusoriamente, eliminar a frustração com o Self e o ressentimento do passado, através de uma gratificação sexual conseguida com um novo objeto. Trata-se de um agir a sexualidade de modo a aumentar a auto-confiança, sem o menor interesse pelos sentimentos do outro. Neste agir, o indivíduo vai sempre repetir inconscientemente as experiências passadas, sendo a repetição realizada de forma compulsiva, permitindo, assim, preservar os aspectos da idealização.

Estes indivíduos apenas se interessam pela conquista do objeto, pelo que durante um curto período de tempo se mostram amantes solícitos e atentos. Efectivada a conquista, tornam-se indiferentes, pois criam enormes expectativas que caem por terra, pois a idealização é muito primária, (remetendo para aspectos infantis) - refere-se a aspectos parciais, ou até mesmo em relação a partes do corpo do outro, algo invejável que o indivíduo julga poder apropriar-se ao possuir o objeto. Trata-se de um processo extractivo, em que o indivíduo julga que, ao ligar-se ao outro, lhe pode extrair algo que inveja.

Inicialmente, são relações fogosas, ofuscadas pelo brilho exterior que o objeto apresenta, mas que rapidamente caem na desilusão, porque não foi possível o conhecimento do conteúdo interno do outro, nem uma revelação do próprio, e porque a comparação com o Ideal do Eu resultou num falhanço, e o amor genuíno não constituiu uma realidade.

Não há nada mais humilhante que o sentimento de impotência que afirma que o Eu não é capaz de ser o que deveria ser, e quando o Eu se decepciona frente ao Ideal do Eu, que passa a ser o seu objeto, o Eu Ideal perde o seu frágil equilíbrio. Há então que partir para uma nova relação, reafirmar as capacidades de dotes de D. Juan, de modo a restabelecer a auto-estima perdida e a impedir a queda no vazio e na depressão. A perda do objeto é vivida com alguma culpa, a qual é necessário negar para não cair na depressão. Mas é esta fuga à depressão que impele à evolução maligna em que a parte da personalidade que está amputada só “... pode existir e crescer em continentes-conteúdos vivos e em que o conhecimento e a verdade da realidade interna se possam ir afirmando” (Fabião, 2007, p. 148).

Assim, quando uma relação se deteriora, facilmente se encontra outro/a parceiro/a, demonstrando uma incapacidade egóica para superar a debilitação narcísica, adoptando uma conduta de estabelecimento de muitos e nenhuns vínculos, amainando o sentimento de indispensabilidade do outro, da dor e da perda.

Coimbra de Matos (1984) sustenta que este agir reflecte a fraqueza do Eu, a impulsividade é resultado de um Supereu organizado de modo incipiente, resultado de um sofrimento pré-edipiano, em que o indivíduo experimentou a acção de um objeto predominantemente narcísico e sádico. Desta relação resulta um prejuízo grave na confiança básica, no atingir da constância objectal e na passagem da indiferenciação para a separação-individuação, comprometendo a evolução benigna do Self.

Resta então a acção de forma a iludir que cada nova relação traga a promessa atraente de poder converter o sujeito num Eu Ideal. Desenvolve-se um desejo metonímico (Bleichmar, 1983), o qual se desloca incessantemente de um objeto para outro, revelando que o que se deseja não é a pessoa em si, mas um Eu Ideal, revelando a insuportabilidade a uma relação de envolvimento profundo, dado que não se sentem suficientemente integrados na sua pele psicológica, para arriscar numa relação de intimidade.

Desenvolve-se uma forma patológica do vínculo de amor que é designado por Zimerman (2004) de vínculo tantalizante, cujo objectivo é paralisar o outro através do exercício de um domínio e de uma sedução que possibilite ao próprio colocar-se num lugar do Ideal do Eu, deixando o objeto na expectativa do amor que é inalcançável, pois existe uma séria incapacidade do próprio para amar de verdade. O que acontece muitas vezes é que o objeto idealizado é um objeto que se deixa dominar e que seja incapaz de se afastar do sujeito, passando a denegri-lo e a vexar quando este faz qualquer tentativa de autonomização e de desligamento face ao indivíduo.

O indivíduo age, deste modo, em acordo com o seu objeto interno: succionador, insaciável e devorador, gerador de inseguranças e de incerteza do afecto.

Trata-se de uma situação em que em termos de desenvolvimento mental, o indivíduo ficou a meio caminho entre a posição depressiva e a posição esquizo-paranóide, numa posição borderline que Steiner (1993) designa de refúgio psíquico, que não é só típico de funcionamentos borderline, mas também pode surgir em funcionamentos psicóticos ou mais neuróticos em situações de stress. Nestes casos o envolvimento com o outro não pode ser muito íntimo pois poderá remeter para dores intoleráveis o que conduzirá a retiradas da relação para esse, refúgios internos protegidos por um forte sistema defensivo. O Self está, deste modo, escondido por detrás de um poderoso sistema defensivo que possibilita a ilusão do alcance de um lugar seguro, dado que a fantasia é a de que o envolvimento conduz a uma dor ou ansiedade.

Estas relações encenam-se num vacilar entre o objeto que se submete e como tal está sob domínio e o objeto que se desenlaça desse domínio, esclarecendo a violência que surge nas relações em que o indivíduo se enraivece quando o objeto sai do controle e em face disso, gera angústias abandónicas.

A procura ininterrupta de um novo objeto vai adiando o risco de queda na depressão anaclítica, reveladora de uma falha grave de sintonia empática, por parte do cuidador da infância. Nestas relações ocorre uma defesa pela sexualização (vicariância erótica) possibilitando ao indivíduo livrar-se facilmente da desilusão das perdas; tudo o que causa injúria é facilmente extraditado para fora de si, colocado num outro.

Trata-se de um funcionamento baseado no princípio do prazer, em que há uma procura, por parte do Eu, de que todas as tensões sejam reduzidas ao mínimo. É o funcionamento primário que não permite o adiar da experiência de satisfação numa lógica primária de “não adiar para amanhã o prazer que se pode obter hoje.”, já que se vive apenas da acção e não do pensamento.

Os objetos devem responder prontamente de forma a construírem (ainda que ilusoriamente) uma espécie de pele mental (Amaral Dias, 2004), a impedirem o sentimento de separação, e a consciência do desejo do outro, o qual deve apenas permitir-se a existir enquanto continuidade do próprio (Symington, 2006), o que falta ao próprio para se sentir um todo. Para Amaral Dias (2010) nestes casos, os objetos são prolongamentos do Self que se encarregam do sonho que o sujeito não pode sonhar (idem, p.47).

De salientar que já Bach (1975) considerara a despersonalização e uma série de outras experiências estranhas, como resultantes de disjunções na experiência do Self, que tinham a ver com um déficit do desenvolvimento narcísico, que envolve a falta do sentimento de continuidade e significado do Self, sendo indispensável um outro que traga a hipótese de efectivação desta função.

Quando o objeto falha nestas funções, ou seja, quando o objeto não está a desempenhar a sua função essencial, crucial que é a identificação projectiva complementar (Amaral Dias, 2010), aumenta a raiva narcísica e a suposta solução é passar de imediato a uma nova relação sem se pensar no que levou ao fracasso da anterior, havendo uma repetição que impede o crescimento afectivo, mas que transitoriamente forma uma pseudo-estabilidade. Cria-se, assim, um ciclo repetitivo:


ilusão desilusão nova ilusão
É o círculo vicioso narcísico descrito por Svrakic, (citado por Trechera, 1996) que engloba os seguintes passos: Projecção do Eu grandioso em objetos externos ou identificação com objetos valiosos, projecção dos fracassos narcísicos, cansaço em relação à fonte de gratificação – o que leva à desvalorização e desprezo pelo objeto, conduzindo ao aborrecimento e sentimento de vazio, pelo que é imperativo a procura de um novo objeto.

Estes falhanços na relação, este sentimento que surge de que o outro não exerce a sua função, é apenas uma repetição do que o indivíduo vivenciou na infância, o sentimento de que a mãe/pai não exerceram a sua funcionalidade de contenção e transformação do Self, porque não tiveram uma maleabilidade funcional do próprio Self de forma a tornar possível a contenção dos conteúdos projectados pelo bebé, não corresponderam à sua necessidade de amor, conduzindo à criação de um sistema defensivo liderado pelo sentimento de que o melhor é não necessitar do amor do outro, porque o resultado será o sofrimento. O melhor é não haver uma entrega, até mesmo porque dizem: “quem dá o que tem, a pedir vem!”, e a necessidade do outro é para o narcísico insuportável, abriria a ferida narcísica originada na infância, em que, quando dependente, se sentiu vítima de abuso do poder dos pais.

A inibição da expressão dos afectos e das emoções resulta do facto de o indivíduo considerar que ao expressá-los se torna mais vulnerável. Inibe-se a expressão dos desejos de forma a defender-se contra qualquer dano. Assim, faz do outro, na relação, como sentiu que precocemente os pais lhe fizeram (transferência invertida de Pearl King). Utiliza-o como mero objeto de exibição narcísica. A relação forma-se sem intensidade, sem intimidade, uma vez que não há verdadeiro respeito. A comunicação é distorcida e a expressão de sentimentos verdadeiros fica impedida, entrando-se num circuito relacional em que se considera que o outro deverá ter a capacidade para adivinhar os sentimentos e necessidades do próprio, tal é a posição infantil de captação, e a idealização assente em necessidades infantis.

Nestas relações, o objeto tem, constantemente, de confirmar a sua admiração e desejo, pois o indivíduo não teve possibilidade de aprender, com o objeto inicial, a reconhecer o olhar de desejo e satisfação.

O que se passa é que, tal como refere Kernberg (1875,1995), estes indivíduos se amam tão precariamente como amam precariamente os outros; o outro apenas serve de intermediário para a auto-valorização, apenas veneram a imagem com a qual julgam iludir os outros.

Não se trata, nestas relações, de dar mas somente de tentar receber. O indivíduo apenas se apaixona pelo sentimento que o outro nutre por si, esperando do outro o que nunca oferecem. A escolha do objeto não é feita pelos atributos que possui, mas sim pelo facto de admirar o próprio, tal como Freud havia referido na sua obra de 1914, quando da referência à eleição narcísica da mulher não necessitam amar, senão ser amadas (Mancia, 1990).

É a manifestação do narcisismo maníaco (Manzano & Espasa, 2008), com séria dificuldade em amar verdadeiramente, procurando apenas no outro a manifestação do desejo e paralisando a relação, desenvolvendo-se muitas vezes condutas sexualmente excitantes mas que não implicam intimidade onde os pensamentos erotizados substituem os afectos, quase sempre implicados numa sucessão cíclica de relações dependentes das circunstâncias, revelando-se o que designamos ser uma sexualidade operatória, não se ligando verdadeiramente a ninguém, mas adoptando jogos de sedução com contornos infantis, que mantém o objeto na expectativa da satisfação do desejo, o que nunca acontece.

De acordo com Zimerman (2004) a sedução visa prender o objeto com a promessa encantatória de uma completude paradisíaca, que com o tempo se revelará ilusória e desembocará num ciclo de desilusões e renovadas ilusões, muitas vezes culminando na desvitalização do objeto.

Nestas relações, o que é partilhado são sentimentos falsos, que resultam da manifestação do falso Self, os verdadeiros ficaram bloqueados, não são passíveis de serem aceites, as necessidades genuínas mantêm-se à deriva do Self, há um distanciamento em relação aos próprios afectos e aos do outro.

Stolorow e Lachman (1983) já se haviam referido ao facto de certos comportamentos sexuais cujas experiências corporais intensas têm apenas como objectivo suster uma organização psicológica precária que tende à fragmentação. Precisam do outro sem falta, para fugir de si, pois com a ligação ao outro vem muitas vezes a esperança de uma nova identidade, a que possibilite lidar com uma realidade interna que é vivida como dolorosamente insuportável.

A procura constante do outro prende-se com a necessidade de consubstanciar o seu frágil Self, cujo sentimento muitas vezes é de estar débil ou destruído (Cooper & Maxwell, 2004). A impossibilidade de intimidade fica a dever-se à fragilidade do Self, o frágil Self ou procura a fusão de forma a sentir-se completo (e porque só se sentem íntimos quando se sentem iguais), ou evita a intimidade por confundir com dissolução do próprio no outro.

Neste ultimo caso, desenvolvem-se procuras de afecto de forma agida, que como tal é impossível de encontrar, implicando-se assim numa incessante troca de relações sem intimidade nem profundidade, onde não é possível o desenvolver do conhecimento de si nem do outro, até porque está ausente a conjunção constante, no sentido de Bion (cit. Amaral Dias, 2010), dado que não existe um padrão emocional que possa caracterizar o sujeito, e conferir-lhe uma identidade única, com unicidade de actos e pensamentos, permitindo um reconhecimento de si próprio.

São relações muitas vezes com carácter parasitário em que o objectivo é sentir que se é objeto de desejo, em que há uma antecipação do sexual face ao relacional, onde o contacto corporal jamais reflecte o envolvimento emocional e afectivo, criando-se relações com proximidades ilusórias constituindo-se como verdadeiros ataques à intimidade; ilusório é também o sentimento de ausência de dependência e o afastamento do temor de abandono que supõem que esta implica. Encontram-se assim, num dilema claustro-agorafóbico (Rey, 1991), em que necessitam do objeto para sentirem alguma estabilidade do Self mas por outro lado não conseguem estar em relações demasiado próximas pois a consciência da dependência compromete o sentimento de identidade, ameaçado por dissolução e fragmentação do Self. A proximidade relacional é também assustadora pois aumenta o receio de destruição do outro e do próprio. Na mesma linha, Steiner (1991) refere-se a este dilema claustro-agorafóbico como uma situação em que o paciente não suporta viver emocionalmente próximo dos objetos, pois isso acarreta uma ansiedade claustrofóbica, com ameaça de aprisionamento e exigências demasiadas sobre o Eu e por outro lado, o afastamento demasiado em relação aos objetos desencadeia angústias esquizóides de fragmentação.

Está em causa uma procura desenfreada de um outro ideal, envolto de particularidades construídas com base em sonhos estéreis, e por isso facilmente desidealizável e imediatamente desprezível. Trata-se de um objeto que tem duas faces com as quais o indivíduo joga alternadamente, ora é desvalorizado, ora ideal, convenientemente, de forma a regular a auto-estima e a organizar o Self, impedindo a queda na depressão e/ou na desorganização.

Se quisermos, numa outra linha de orientação, como defende Amaral Dias (2010), o border oscila entre a necessidade de ter ao dispor um objeto que organiza, e um objeto que tem de ser atacado devido ao temor que existe à fusão, neste sentido o autor defende que a dependência do borderline não é emocional mas sim a dependência da actividade cogitativa do objeto (idem, p.45). Os objetos são também aqui utilizados como prolongamentos do sujeito mas no sentido de desempenharem uma função de contenção, como parte do aparelho de pensar os pensamentos.

O Supereu destes indivíduos é externo, o que os torna dependentes da apreciação emitida pelos demais, num ver-se ao espelho através dos olhos dos outros, revelando-se furioso quando essa necessidade não é satisfeita. A fragilidade do Supereu está relacionada com a não-aceitação da diferença, do outro enquanto distinto do próprio no que respeita aos sentimentos, desejos e ambições.

No narcisismo maníaco, cujas defesas se organizam contra a angústia de separação e abandono, o outro inexistente enquanto objeto separado apenas desempenha um papel previamente encomendado: o de admirador, não é objeto de desejo, apenas de exibição, muitas vezes para confirmar o valor do próprio. Já em 1952, Heimann referia que a diferença entre uma relação infantil e uma relação objectal madura se prendia com o facto de a criança sempre considerar o objeto em referência a si própria, enquanto a relação madura implica uma visão do objeto com uma existência independente. Deste modo, o objeto só tem valor para a criança em função do papel que desempenha para si.

Nesta linha, arriscamos a considerar estas relações eminentemente infantis em que o objeto só tem valor pelo que representa para o Self do próprio.

Também a sexualidade, privada do desenvolvimento, é infantil, muitas vezes baseada em condutas exibicionistas em que o outro não é senão objeto de actividade masturbatória do próprio, uma vez que o prazer não resulta da relação. O envolvimento afectivo fica substituído por condutas robóticas e desafectadas, que impedem o crescimento mútuo. O culto do corpo surge para demonstração da própria virilidade ou feminilidade. O amor, esse, tão ansiado e nunca encontrado!

Assim o fazem porque assim sentiram que lhes fizeram, ficando penhorada toda a vivência de uma sexualidade baseada na troca de afecto e ternura, essa sim geradora de um sentimento de plenitude.

A sexualidade saudavelmente vivida implica uma troca de ternura e respeito mútuo, de conhecimento e reconhecimento, onde é possível surgir o prazer de dar e receber, o apetite por satisfazer, onde existe a sede do desejo. Como referiu Santo Agostinho: “A medida do amor é amar sem medida!”, mas quando ocorre o fracasso genital, surge a adopção de estratégias de compensação, pelo poder, dinheiro, um consumismo exagerado, a procura de um objeto do qual ficam à sombra ou colocando-o na sua sombra, de forma a que possa iludir uma visão mais valorada e coesa de si, como se pudessem estar “sempre à mama”, revelando uma dificuldade na autonomização e uma manutenção de uma dependência infantil, ainda que sempre negada pois têm grande dificuldade em aceitar a dependência face ao outro e em consciencializar o que o outro tem de bom para dar, pelo risco de experimentar sentir inveja.

A genitalidade é distante do controle obsessivo sobre o outro, onde se instala a ritualização da relação em que prima o exibicionismo do próprio, em que a relação se estabelece sem emoção ou criatividade, implicando uma estagnação asséptica, em que ninguém se toca verdadeiramente em intimidade, porque existe um receio de poder ser invadido pelas emoções e perder o controle, em que o afecto tem de ser colocado à distância sob pena de trazer sofrimento. São assim relações envoltas numa redoma asfixiante que conduz a uma insuficiência de vida, porque não vivida em plenitude.

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