Capítulo 1 De casos à história 1 origem do bairro de matosinhos e de são joão del rei



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CAPÍTULO 1

De casos à história

1.1 ORIGEM DO BAIRRO DE MATOSINHOS E DE SÃO JOÃO DEL REI
Após a exploração e conflitos no litoral brasileiro, preocupou-se o governo português com a exploração e ocupação do interior do território e com a busca de novas riquezas, entre elas: ouro e pedras preciosas. Assim, Diogo Gonçalo Laço ao lado de Francisco Proença, em 1611, e Felix Jaques, em 1646, adentraram-se no sul de Minas Gerais, porém sem maiores organizações. O bandeirante Fernão Dias Paes, que intentou desbravar os sertões a partir de 1673, já tinha algumas informações de entradas no sul de Minas e na região do rio Doce (centro leste de Minas Gerais), por onde entraram portugueses a partir do litoral do Espírito Santo e sul da Bahia, mas seu objetivo era encontrar esmeraldas.

O caminho que Fernão Dias percorreu a partir de 1673 era o único que ligava São Paulo e também o Rio de Janeiro aos sertões de Minas Gerais, até o fim do século XVII, conhecido como “caminho geral do sertão”. Por este caminho chegava-se à atual cidade de Ibituruna, primeiro arraial a ser fundado em Minas Gerais, nas palavras do historiador Diogo de Vasconcelos. Posteriormente, outros bandeirantes transitaram por São João del Rei, por um atalho passando por Carrancas, a partir da cidade de Cruzília, denominação esta advinda do cruzamento dos dois atalhos; porém, até este cruzamento, o caminho era um só partindo da cidade de Taubaté.


A data documentada mais antiga de que se tem notícia de se achar ouro nas Minas Gerais foi em 1693 por Antônio Roiz de Arzão, natural de São Paulo, nos sertões da Casa da Casca, região que até nos dias de hoje suscita dúvidas quanto à sua localização. Antônio Roiz não permaneceu no local nem retornou por não encontrar ajudantes para tal empreitada, devido à grande resistência de índios furiosos. Assim, ele retornou a São Paulo passando pelo Espírito Santo e Rio de Janeiro.

Num trabalho denominado “Levantamento Histórico e Toponímico do Município de Itapecerica (MG)”, de autoria de Maria Luiza de Castro Siqueira (setembro2002, em http://planeta.terra.com.br/capurso/historia/zinha.htm ), a autora descreve:


Em 1793 (deve ter trocado o 6 pelo 7) Antônio Rodrigues (Roiz) Arzão, saindo de Taubaté, transpôs a Mantiqueira e chegou a Ibituruna. De lá entrou pelos sertões, chegou a Pitangui, na borda da terra da conquista, embrenhou-se por estas terras e veio ter a uma localidade então conhecida como Casa da Casca do Tamanduá (hoje cidade de Itapecerica - MG)”.
Por outro lado, sabe-se que existe o Rio Casca, região centro-leste de Minas Gerais.

Se a Casa da Casca ficava nas proximidades de Itapecerica (centro-oeste de Minas Gerais), reforça a idéia de que o caminho percorrido inicialmente por Fernão Dias foi realmente: Ibituruna – Itapecerica – Pitangui – Paraopeba. Se a Casa da Casca ficava nas proximidades do Rio Casca, reforça a idéia de que inicialmente os bandeirantes chegaram primeiro no Sumidouro (região a partir de Paraopeba – MG), para depois descerem para a região de Itaverava (região do Tripuí - vale a partir do Pico do Itacolomi, próximo à cidade de Itabirito, região centro-leste de Minas Gerais). Tanto numa hipótese como na outra, percebe-se que os bandeirantes chegaram à região do Tripuí, sem passar pelo Porto Real da Passagem, em São João del Rei. Em “Relatos Sertanistas”, o bandeirante e relator dos “Primeiros Descobrimentos”, Bento Fernandes, falecido em 1765, também descreve a dúvida quanto ao local da Casa da Casca:


A dita Casa da Casca que até hoje está para se descobrir, primeiro porque esta diligência [bandeira de Bartolomeu Bueno] teve outro efeito [descobriram outras minas] e segundo porque está povoada por bravos índios.” (Taunay: 1981, p.24)
Fica a dúvida, até então, que o leitor amigo poderá ajudar neste árduo trabalho de pesquisa, já que este é infindável, descobrir o verdadeiro local dos sertões da Casa da Casca. Poderia ser na região do Tripuí, próximo de Ouro Preto, onde existe o Rio Casca, com a mesma denominação de fins do século XVII, ou na cidade de Itapecerica, antiga Casa da Casca do Tamanduá, conforme defende a nobre escritora Maria Luiza de Castro Siqueira. Justifica-se a denominação de “Casa da Casca”, porque os desbravadores daquela época faziam casas e canoas com casca de árvore, principalmente do jatubazeiro. Eu, particularmente, fico com a opção da Casa da Casca se localizar no Tripuí, dado a grande quantidade de ouro que se descobriu naquelas imediações.

Em 1694, Bartolomeu Bueno, cunhado de Antônio Roiz, por desistência deste, acompanhado de Miguel de Almeida e Antônio de Almeida, na intenção de voltar à Casa da Casca, descobriram ouro em Itaverava, centro-leste do Estado, entre as cidades de Conselheiro Lafaiete e Ouro Branco (MG). Há discrepância de datas entre os escritos de Taunay (1981) e Raimundo José da Cunha Matos (1979) sobre a data da partida de Bartolomeu Bueno para a Casa da Casca. O primeiro afirma que foi em 1697, e Matos afirma que foi em 1694. Parece ser erro de impressão, pois tanto um como o outro basearam seus estudos em informações de Salvador Fernandes, pai do referido Bento Fernandes, sendo que a data mais correta é a de 1694, já que Salvador Fernandes, em 1695, já tinha notícia da grande quantidade de ouro no Tripuí e para lá partiu.

O governo de Portugal nomeou Artur de Sá e Meneses para governador da província do Rio de Janeiro e São Paulo em 16/12/1695, e a 27/01/1697, deu-lhe ordens para explorar outras minas, aquelas a que dariam o nome de Minas Gerais. Assim, Manoel Garcia, natural de Taubaté, e João Lopes de Lima, natural de São Paulo, descobriram ouro no ano de 1700 no Ribeirão do Carmo (atual cidade de Mariana). Antônio Dias, natural de Taubaté, Pe. João de Faria Fialho, natural da Ilha de São Sebastião (SP), e Tomás Lopes de Souza Camargo, natural de São Paulo, descobriram ouro nos anos de 1699, 1700 e 1701 na atual cidade de Ouro Preto, tudo isso passando antes por São João del Rei (Porto Real da Passagem), sem que este último local tenha sido oficialmente fundado e, chegando ao Tripuí, onde o Pico do Itacolomi destacava-se como sendo o “Farol do Tripuí”, no dizer de Vasconcelos (1974).

Se a descoberta do Tripuí se deu fazendo volta por Paraopeba (centro-norte de Minas Gerais), aí sim, podemos raciocinar que o caminho por São João del Rei (Porto Real da Passagem) somente foi usado a partir de 1697, com a liberação das novas minas por Artur de Sá e Meneses, mesmo antes da ocupação do Porto Real, já que a distância mais curta entre Taubaté e estas localidades citadas anteriormente era passando por Ouro Branco, a 40 quilometros de Ouro Preto, Carijós (atual cidade de Conselheiro Lafaiete), São João del Rei e serra de Carrancas (sudeste de Minas Gerais). Dai, a criação do novo caminho.

A partir do ano de 1697 é que foi concretizada e confirmada a grande quantidade de ouro existente na região do Tripuí. Assim sendo, para lá seguiram centenas de garimpeiros, comandados por poderosos bandeirantes. Considerando que o ouro tinha que ser levado à fundição ou usado como moeda nas grandes cidades e com o aumento de desbravadores, naturalmente foi descoberto um novo caminho, ou atalho, como queiram, encurtando a distância entre o Tripuí e as cidades de Taubaté e São Paulo, de onde originou a maioria desses desbravadores. Este novo caminho passava por São João del Rei e Carrancas, conforme registrado na “Corografia” de Raimundo José, quando este afirma:
não confundir o caminho novo do sertão, atalhando em Carrancas, com o caminho novo do Rio de Janeiro, que só foi concluído em 1704, passando este último, entre outras, pelas atuais cidades de Matias Barbosa, Juiz de Fora, Barbacena, Conselheiro Lafaiete para chegar ao Tripuí”.(1979, p. 312)
Ainda no documento sobre os primeiros descobridores, escrito por Bento Fernandes, temos a seguinte citação, também ratificada pelo escritor e militar português Matos (1837):
O Rio das Mortes, que fica à parte do poente de Vila Rica, na estrada, que vai para São Paulo, foi descoberto por Tomé Portes Del Rei, natural da Vila de Taubaté, passados bastante anos, depois dos mais descobrimentos, não porque estivesse remoto, senão porque Deus foi servido dilatar por mais tempo o ampliar seus haveres, pois este rio se passa primeiro vindo de São Paulo, cinco dias de viagem comuns, antes de chegar a Vila Rica, e por ele passavam todos os mais descobridores já referidos, sem fazer nele experiência alguma.” (Taunay: 1981, p. 46)
Aqui Bento Fernandes esqueceu que, o Rio das Mortes, já tinha sido descoberto por Fernão Dias em 1673, quando este o atravessou na altura da cidade de Ibituruna (MG).

Os paulistas originários da capitania de São Vicente e região, incluindo os taubateanos, enriqueceram-se e comandaram vários grupos de entradas e saíram para desbravarem os sertões. A grande presença de taubateanos nos descobrimentos das Minas Gerais se credita à grande confiança que o governo português depositou no Coronel Salvador Fernandes Furtado, pai de Bento Fernandes, e no Capitão Manuel Garcia Velho, ambos de Taubaté, por levarem pela primeira vez doze oitavas de amostras de ouro ao representante do governo português.

As serras ou morros, como chamavam os bandeirantes, bem como os rios eram pontos de referência e pontos de sobrevivência para estes, de tal forma que, partindo de Taubaté, o bandeirante Tomé Portes del Rei e sua comitiva atravessaram a serra da Mantiqueira, tomaram a direção do Rio Grande, em seguida Rio das Mortes a montante e tomou a direção da Serra de São José. Tudo indica que Tomé Portes e seus comandados escolheram o ponto do Rio das Mortes na altura do bairro de Matosinhos para se estabelecerem, por ser ali uma das partes mais estreitas do rio, como também pela planície da região, qualidade da terra para se plantar e por ficarem praticamente a meio caminho entre Cruzília (MG) e região do Tripuí (MG), a fim de comercializarem comida, animais e serviços com os transeuntes que iam e vinham das localidades já descobertas, conforme consta:
O dito Portes, que se situando na mesma passagem, viveu anos de fabricar mantimentos para vender aos mineiros, que passavam para as minas, ou voltavam para os povoados, fazendo neste negócio altíssimas fortunas, até que pelos cascalhos, que se descobria pelos barrancos do rio, fazendo experiência neles descobriu ouro.” (Taunay, 1981, p. 46)
Baseados nestes depoimentos anteriormente em destaque é que vários historiadores são unânimes em afirmar que daí surgiu um núcleo de habitantes que viria a se chamar Várzea do Porto Real da Passagem, depois Várzea da Água Limpa e posteriormente Arraial de Matosinhos, hoje bairro de Matosinhos.

Como o sonho de encontrar ouro na serra de São José não foi bem-sucedido e com a notícia da descoberta de ouro no alto das Mercês e serra do Lenheiro, pelo taubateano João de Siqueira Afonso e o português Manoel João de Barcelos, sendo que o primeiro antes já tinha descoberto ouro na região do Sumidouro, houve uma verdadeira debandada dos moradores da Várzea do Porto Real da Passagem para a nova região aurífera, fundando assim o atual núcleo habitacional central da cidade de São João del Rei:


E logo pelo ribeirão, que ao pé da mesma passagem fazia barra, fez o mesmo, que se portou com tal grandeza, que à margem dele se formou uma tal povoação, que é hoje a Vila de São João del Rei, cabeça de comarca com grandiosos templos, e amplíssimo termo, com uma ponte real na passagem, que rende a real fazenda em suas rematações trienais consideráveis cômputos.” (Taunay, 1981, p. 46)
Apesar dos descobridores terem transitado por Matosinhos a partir de 1697, não significa dizer que esta data é a data de fundação do Porto Real da Passagem e das vindouras vilas de São João e São José del Rei, pois até então não temos nenhum documento que comprove que alguém tenha aportado no Porto Real. A data de 1701 é a mais perseguida pelos historiadores são-joanenses, entre eles, Basílio de Magalhães (1933), Augusto Viegas (1942), Luiz de Melo Alvarenga e Altivo de Lemos Sette Câmara, nosso conterrâneo, nascido no bairro de Matosinhos, filho do histórico republicano Sebastião Sette, que na revista nº 2 do Instituto Histórico e Geográfico de São João del Rei (1974-1975), relatou o seguinte:
Em 1701, estando o ouro em aloprada, desatinada exploração nas Gerais, Tomé Portes del Rei foi nomeado Guarda-Mor distrital do Porto Real da Passagem. [Arquivo Nacional “Governadores do Rio de Janeiro”, livro VII, fl. 17].”
Apesar do acesso a toda coleção de “Governadores do Rio de Janeiro”, infelizmente nada foi encontrado sobre Tomé Portes. Portanto, 1701 é a data mais provável da fundação do Porto Real da Passagem, em conseqüência da nomeação de Tomé Portes como Guarda-mor, e conseqüentemente a data mais provável de fundação do núcleo habitacional das vindouras cidades de São João e São José del Rei.

No sentido etimológico da palavra, “fundação” tem por definição: “Ato do Estado, ou liberalidade privada, por doação ou por testamento, que institui uma pessoa jurídica autônoma destinada a fins de utilidade pública ou de beneficência, mediante dotação especial de bens livres”.

Com a existência de muito ouro na região do Tripuí, a região inicialmente percorrida por Fernão Dias (Ibituruna, Itapecerica e Paraopeba) foi esquecida e ocorreu que os desbravadores se fixaram mais no Tripuí. Naturalmente, o governo português foi reconhecendo as vilas mais ou menos na seqüência cronológica de seus descobrimentos. Primeiro Mariana, antiga Vila do Ribeirão do Carmo, em 08/04/1711, segundo, Ouro Preto, com o nome de Vila Rica, elevada a Vila em 08/07/1711, Sabará em 16/07/1711, São João del Rei em 08/12/1713, Serro, antiga Vila do Príncipe, em 29/01/1714, Caeté, antiga Vila Nova da Rainha, em 29/01/1714, Vila de Pitangui em 1715 e Tiradentes, com o nome de São José del Rei, em 28/01/1718, apesar do seu povoado ter se iniciado junto com o do bairro de Matosinhos, primeiro com o nome de Arraial de Santo Antônio e depois Arraial Velho do Rio das Mortes, já que a antiga São João del Rei se chamava Arraial Novo do Rio das Mortes e depois Arraial de Nossa Senhora do Pilar.

A vila de São João del Rei foi assim denominada, em homenagem a D. João V, rei de Portugal. Em 06 de março de 1838 foi elevada à cidade.


1.2 - BAIRRO DE MATOSINHOS, BERÇO DA CIDADE DE SÃO JOÃO DEL REI
Com a chegada da tropa de Tomé Portes del Rei em Matosinhos ou, mais especificamente, no Porto Real da Passagem, em 1701, foi se desenvolvendo um povoado que sobrevivia em decorrência dos excelentes recursos locais, alguns de seus habitantes comercializavam criações, gêneros alimentícios e ouro, em troca de sal, azeite, velas, roupas etc. Esse tipo de comércio pode ser atestado pelas cópias de cartas que encontramos no Arquivo Público Mineiro, datadas de 27 de junho e 28 de agosto de 1720, encaminhadas a Lisboa aos atacadistas Sr. Francisco Pinheiro e Luís Alves Pretto, pelo comerciante do Rio das Mortes João Deniz de Azevedo.

O primeiro comerciante de Matosinhos de que temos notícia foi o próprio Tomé Portes del Rei, que ainda tinha o direito de explorar a cobrança da passagem daquele Porto, que no princípio era feita por barco e após 1730 por ponte de madeira. A Tomé Portes também foi conferido o título de Guarda-Mor, título este dado somente a homens de confiança do governo português. Com sua morte, seu genro Antônio Garcia da Cunha apoderou-se do direito da cobrança da passagem e a ele também foi passado o título de Guarda-Mor. Ao genro de Tomé Portes sucederam-se vários outros contratadores.

Sabendo nós que o núcleo da atual cidade de São João del Rei somente foi iniciado no ano de 1704, com a descoberta de ouro nas imediações do Senhor dos Montes e da igreja das Mercês, quando Tomé Portes já tinha falecido, somos obrigados a acreditar que o atual Bairro de Matosinhos é o berço da cidade de São João del Rei, porque este local já era povoado antes de 1704 e, sem dúvida, grande parte desse povoado formou o novo núcleo do Arraial Novo do Rio das Mortes, que depois sucessivamente passou a chamar-se Arraial de Nossa Senhora do Pilar e posteriormente São João del Rei. Assim relatou José Mattol:
No ano de 1704, com pouca diferença, morando sobre o Rio das Mortes desta parte, onde hoje é, e foi sempre o Porto da Passagem, Antônio Garcia da Cunha, Taubateano, que por morte do dito Tomé Portes, seu sogro, sucedeu em Guarda-Mor para a repartição das terras minerais, assistia na sua vizinhança um Lourenço da Costa, natural de São Paulo, que servia ao dito Antônio Garcia de seu escrivão das datas; este descobriu o ribeiro que corre por detrás dos morros desta Vila de São João, para a parte do Noroeste, e foi repartido entre várias pessoas com o nome de São Francisco Xavier, e tem dado, e dá ainda hoje ouro, e não só no princípio do seu descobrimento, mas em alguns anos depois se lhe acharam e algumas paragens pintas ricas.” (MATTOL, citado por TAUNAY: 1981, p. 176 )
O formador do primeiro núcleo de São João del Rei, foi exatamente o bandeirante Tomé Portes, sendo que temos de concordar que cabe a ele o título de fundador da cidade de São João del Rei e Tiradentes, já que o fundador de um povoado é aquele que chega primeiro e se estabelece, mesmo não tendo a intenção de assim fazê-lo. Diríamos que se chegasse alguém nas imediações de São João e Tiradentes por volta do ano de 1701 e pedisse para falar com o comandante, só poderia falar com o Sargento-Mor Tomé Portes del Rei, líder de uma região, cujos primeiros ocupantes eram seus parentes e amigos.

O grande historiador Augusto Viegas (1942) informa que Milliet de Saint Adolphe e Monsenhor Pizarro afirmaram que os paulistas começaram a erigir a primeira igreja da região, em 1703, que só poderia ser na Vargem do Porto Real da Passagem, local onde se estabeleceram os paulistas, antes do português Manoel João de Barcelos encontrar ouro em 1704, a qual não foi terminada dado a debandada dos habitantes para a extração de ouro nas imediações da igreja das Mercês e no ribeirão São Francisco Xavier, atrás do bairro Senhor dos Montes. Muito provavelmente essa mesma igreja inacabada foi escolhida para construção dos quartéis dos soldados do rei, conforme mandado do Governador da Capitania de Minas, Conde de Assumar, em 06/09/1719.

Com essa notícia datada de 1703, temos ainda mais indícios de que Matosinhos possuía um número razoável de habitantes naquela época, a ponto de construir uma igreja, cujo tamanho dava até para acomodar, por menor que fossem, tropas do rei e demais equipamentos necessários a uma tropa de milícias.
1.3 FUNDAÇÃO DE SÃO JOSÉ DEL REI, HOJE, CIDADE DE TIRADENTES
Sobre a fundação de São José del Rei, hoje cidade de Tiradentes, e da primeira igreja eregida na região, temos:
O que posso informar a V. Revma. Sobre o que me ordena, é, que no ano de 1702, pouco mais ou menos, descobriu Tomé Portes Del Rei, junto ao sítio, em que hoje está a Vila de São José, um ribeiro que ele, como substituto do Guarda-Mor Garcia Roiz Paes, repartiu entre si, e alguns taubateanos, onde formaram todos um arraial, a que deram o nome de Santo Antônio, levantando nele uma pequena capela com a invocação do mesmo santo [igreja de Santo Antônio da Canjica de Tiradentes*], e neste teve princípio a primeira Freguesia deste distrito”. (MATTOL, citado por TAUNAY: 1981, p.176)
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* Não confundir igreja matriz de Santo Antônio com igreja de Santo Antônio da Canjica, esta última, a mais antiga.
Como se vê, pode-se perceber que após Tomé Portes aportar-se no Porto Real, em 1701, como Guarda-Mor da Passagem, já que Garcia Roiz Paes, filho de Fernão Dias Paes, era Guarda-Mor das Minas, e como afirmou Bento Fernandes, anteriormente, que Tomé Portes enriqueceu-se de vender mantimentos aos viandantes que passavam pelo Porto Real, determinou que seu povo fosse explorar ouro nas imediações, que só poderia ser nos ribeiros que descem da Serra de São José, onde o fluxo da água trazia ouro de aluvião.

Daí é possível raciocinar que, tal como o bairro de Matosinhos, o núcleo habitacional da cidade de Tiradentes formou-se antes do centro histórico de São João del Rei, e também como o de Matosinhos, não logrou sucesso dado à debandada dos exploradores dessas últimas regiões citadas para a região do Alto das Mercês e Serra do Lenheiro, em São João del Rei, onde descobriram ouro em grandes quantidades.

Então, pode-se aceitar também que, o verdadeiro fundador da cidade de Tiradentes é realmente o bandeirante taubateano Tomé Portes del Rei que com o seu assassinato por seus oponentes, em 1702, ocupou o cargo de Guarda-Mor, seu genro, Antônio Garcia da Cunha.

A colonial e histórica cidade de Tiradentes teve inicialmente a denominação de Arraial de Santo Antônio, posteriormente, Arraial Velho de Santo Antônio, para diferenciar do recém criado Arraial Novo de Nª Sª do Pilar, hoje cidade de São João del Rei.

O nome São José del Rei, em homenagem ao príncipe D. José, futuro rei de Portugal, adveio com a elevação do Arraial à Vila, em 28/01/1718, pelo governador da Capitania de São Paulo e Minas, Pedro de Almeida e Portugal.

Em 1860, São José del Rei é elevada à categoria de cidade e a 06/12/1889, logo após a proclamação da república, seu nome é mudado para cidade de Tiradentes, por sugestões de republicanos que queriam ver seu nome trocado por um herói brasileiro, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.




1.4 - O PORTO REAL DA PASSAGEM

O Porto Real da Passagem tem um passado bastante histórico e alguns pontos curiosos. Neste local, antes de 1730, o único meio de atravessar o rio era a barco e pagava-se por este meio de transporte. Em 1735, o português Marçal Cazado Rotier construiu, com seus próprios recursos, uma ponte de madeira e começou a cobrar pedágio de quem passasse por ela. Por esta ponte passavam obrigatoriamente todos os transeuntes que iam ou vinham de São Paulo e Paraty (litoral do Rio de Janeiro, próximo à cidade de Taubaté em São Paulo) com destino às Minas Gerais, mais especificamente Ouro Preto, na época Vila Rica; Mariana, na época Vila do Ribeirão do Carmo; Sabará; Caeté, antiga Vila Nova da Rainha; Serro, antiga Vila do Príncipe; e muitos outros povoados que já existiam naquela época, inclusive outros sertões de Minas e sul da Bahia. Alguns transeuntes também optavam por passar pela Ponte do Porto, dado à riqueza do comércio local, em que as variedades eram muitas, tais como; sal, carne seca, couro, animais e outros alimentos. Ainda hoje, podemos conhecer uma construção reformada ao lado da ponte que, segundo seus proprietários, funcionou como depósito de sal, mercadoria na época importada e que chegava via Rio das Mortes.

O Porto Real da Passagem foi a base primordial da formação do primeiro núcleo habitacional, do qual se originou São João del Rei e Tiradentes.

O grande historiador são-joanense, Sebastião de Oliveira Cintra (1982), escreveu em suas "Efemérides de São João del Rei" que, a 11/07/1730, o senado da Câmara solicitou a D. João a construção de uma ponte que separa São José de São João del Rei, a qual foi construída por Marçal Cazado Rotier, português que posteriormente seria proprietário de toda Várzea do Marçal, hoje bairro de São João del Rei.

A Várzea do Marçal foi por duas vezes cogitada para ser capital. Da primeira vez, para ser capital do nosso país, projeto dos Inconfidentes, caso ficássemos independentes de Portugal. Da segunda vez, para ser capital de Minas Gerais, quando resolveram tirar a capital mineira de Ouro Preto. A região foi aprovada pelos engenheiros da Novacap, inclusive pelo seu coordenador Dr. Aarão Reis, que achou a Várzea do Marçal ideal por ser plana e banhada pelo Rio das Mortes. A idéia não foi à frente, porque na última hora um deputado de Barbacena (MG) levou a Assembléia decisiva para lá e, por apenas um voto, São João del Rei perdeu para o Arraial de Curral Del Rei, atual cidade de Belo Horizonte.

Em 15/07/1736, a Câmara convocou seus usuários para resgatarem a ponte a troco de doações em ouro, no intuito de evitar o pagamento do pedágio na ponte, o que não aconteceu, pois aos 17/10/1744, o Senado da Câmara de São João del Rei torna a escrever ao governador pedindo declarar livre o Porto Real da Passagem, isentando seus usuários do pagamento do pedágio, em que também não logrou sucesso, pois temos registro que até 1801, perduraram os contratos de passagem da ponte, onde o administrador cobrava pedágios e recolhia impostos para o governo. O historiador Dario Cardoso Vale (1985) registrou em "Memória Histórica de Prados" que, já em 1715 o Senado da Câmara de São João del Rei pediu liberdade do Porto nos seguintes termos:


"Nesta Villa se acha um Rio que vulgarmente chamam das Mortes, e por ser invadiável, há nele barca de passagem, e por ordem dos Governadores destas Minas se pos a tal passagem em praça, e os rendeiros dela obrigam aos moradores desta Villa e seu termo a pagar a passagem que fazem para suas Fazendas e comunicação de uns Arraiais circunvizinhos, Villas e mais partes donde há as tais passagens, os moradores delas suplicam isenções, nos parece dar contas a S.M.(Sua Majestade), e prostrados a seus reais pés, pedir-lhe que ira fazer-nos a graça de que os moradores desta Villa e seu Termo sejam escusos de pagarem as tais passagens, e que só o façam os viandantes. V. Majestade mandará o que for servido. - Deus guarde a real pessoa de S. Majestade. - São João del Rei, maio de 1715, e eu Joseph da Silveira Miranda, Escrivão da Câmara que o escrevi ( folha 2, do livro da Câmara de São João del Rei)”. (VALE: 1985, pág.42)
A verdade é que os transeuntes não conseguiram isenção do pagamento com exceção dos militares pagos e militares da tropa auxiliar (1), conforme livro códice número 9, Seção Colonial, do Arquivo Público Mineiro.

Em 17/07/1756, a Câmara de São João del Rei torna enviar pedido ao governador, no sentido de aliviar os moradores da região, da opressão em que se encontram a cerca do pagamento das passagens das pontes. Desta feita, isentaram os moradores, desde que estes passassem sem carga ou sem escravos.

Em 19/04/1779, o Real Erário expediu nova tabela de cobrança das passagens, com os seguintes valores: 3$000 (três mil reis) para cada escravo, 1$500 (um mil e quinhentos reis) para cada cabeça de gado, 3$000 para cada cavalo com carga e 2$350 para cada carga de fazenda seca de peso até 2 arrobas.

Como se sabe, em Minas Gerais, além do Porto Real, tinha fiscalização de passagem também no Rio Grande, Rio Verde, Sapucaí, Jacuí, São Francisco, Jequitinhonha e Araçuaí.

Os contratos de passagem do Porto Real, inicialmente realizados pela Câmara Municipal (2) tiveram início a 10 de maio de 1708, em que foi arrematante Pascoal de Macedo. Em 27/03/1711, por 400 oitavas de ouro, Pascoal de Macedo torna a arrematar a passagem do Porto Real, por permissão do Procurador da Fazenda Real Damião de Oliveira e Souza, sendo escrivão Manoel Dias de Britto.

Posteriormente, as normas de passagem foram emanadas de Lisboa, oportunidade em que os contratos se tornaram mais rígidos, exigindo mais controle das arrecadações, porém dando maiores poderes aos contratados, que na maioria das vezes eram guarda-mores ou até mesmo capitães-mores. Esses contratos eram assinados em Vila Rica, pelo governador, com no mínimo duas testemunhas e pelo chefe do erário, este último, a partir de 1773, pelo famoso Coronel Carlos José da Silva, que acabou contraindo segunda núpcias com Maria Angélica de Sá Menezes, moradora em Matosinhos e pais do Barão de Pouso Alto e Dona Carlota, ambos nascidos em Matosinhos.

Os contratos davam também autonomia aos administradores para repartirem terras, datas de minas e título de descobrimentos de minas. Os descobridores avisavam imediatamente aos guarda-mores das descobertas, sob pena de perdê-las para quem as comunicassem primeiro.

Vários outros contratadores administraram a ponte, sempre cobrando pedágio. É a seguinte a relação de administradores do Porto Real da Passagem:

- 1700 a 1702 – Guarda-Mor Tomé Portes Del Rei (presumido);

- 1702 a 1708 – Guarda-Mor substituto, Antônio Garcia da Cunha, genro de Tomé (4ª Noticia Prática);

- 1708 a 1730 - Pascoal de Macedo (Fl. 30 do livro códice “Delegacia Fiscal 1001”, Arquivo Público Mineiro);

- 1730 a 1770 - Marçal Cazado Rotier (códice I-25,29,040 – Biblioteca Nacional);

- 1771 a 1773 - Custódio José Ferreira (códice I-25,01,018 – Biblioteca Nacional);

- 1774 a 1786 – Capitão-Mor de São João del Rei, Manoel Antunes Nogueira (códices I-25,03,022,004 e I-25,03,38,7 – Biblioteca Nacional);

- 1787 a 1789 - Dr. Manoel de Sá Fortes de Bustamante (códice I-25,17,011 – Biblioteca Nacional);

- 1790 a 1799 - Manoel Cardoso Pais (códice I-10,33,003,013 – Biblioteca Nacional;

- 1799 a 1801 - Dr.Gomes da Silva Pereira (códice I-25,29,056 – Biblioteca Nacional).

A partir de 1801, parece que a administração regional passou a cuidar da ponte, porque não aparecem mais contratos. Naquela época, o governo não tinha recursos para realizar grandes obras; então, passava-se o direito de exploração para determinadas pessoas, as quais construíam e recuperavam o investimento com aluguéis ou pedágios, como era o caso da Ponte do Porto.



Sobre a famosa ponte que constituía o Porto Real, assim se expressou o botânico francês, Augusto de Saint-Hilaire (1779–1853), em 1819:
A cerca de meia légua [três quilômetros] de marçal [Colônia do Marçal] chega-se ao arraial chamado Porto Real, onde se encontra o Rio das Mortes, que empresta seu nome à comarca (...) em Porto Real atravessa-se esse rio por uma ponte de madeira, de aspecto assaz pitoresco, com largura bastante apenas para um carro-de-bois, e que é abrigada como as da suiça, por um pequeno telhado de telhas ocas sustentada por postes. (...) tendo atravessado o Porto Real, cheguei logo à aldeia de Bom Jesus de Matosinhos, onde se celebram de modo especial as Festas de Pentecostes”.



O desenhista alemão, João Maurício Rugendas (1802–1858), presente nesta cidade em 1824, também relatou:
Nas imediações de São João existe uma aldeia muito agradável: o arraial de matosinhos. sua bela situação e a vizinhança do rio das mortes, já navegável por grandes canoas, permitem prever um futuro mais próspero que o das cidades vizinhas...”
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(1 ) Pessoas influentes, como grandes fazendeiros e comerciantes, que ganhavam do governo o titulo de Coronel e gozavam de certos poderes, sem serem remunerados.

(2) Naquela época, as Câmaras Municipais obedeciam à estrutura das de Portugal, assim constituídas:

a) 2 Juízes Ordinários, também chamados de Ouvidor ou Juiz de Fora.

b) 1 Presidente do Legislativo ou Prefeito Municipal.

c) 3 ou 4 Vereadores.

d) 1 Escrivão ou Secretário.

e) 2 almotaces ou funcionários oficiais da Câmara.

Eles eram eleitos pelo sistema de votação indireta, dentre os chamados homens bons. Ouvidor ou Juiz de Fora mais velho ia pedindo votos, e os seis mais votados, que eram separados em grupo de dois, e cada grupo escolhia dois juízes, três vereadores, um procurador e um escrivão. Os votos eram recolhidos e contados pelo Juiz mais velho.
1.5 OS TRÊS CAMINHOS
A hipótese aqui defendida é a de que, inicialmente, havia dois caminhos para o sertão de Minas Gerais. O primeiro e mais antigo dos dois caminhos foi o percorrido por Fernão Dias Paes, a partir de 21 de julho de 1674, o qual partiu de São Paulo até chegar em Cruzília, tomando em seguida a direção de Ibituruna, Itapecerica e Pitangui, estas no centro-leste de Minas Gerais, para chegar a Paraopeba no centro-norte, ou seja, lados opostos do Tripuí, descoberto posteriormente. Não é à toa que denominaram a BR-381 que parte de São Paulo com destino a Belo Horizonte de rodovia Fernão Dias. A rodovia Fernão Dias fica praticamente paralela às várias cidades citadas pelos bandeirantes, tais como Lambari, Cruzília, Ibituruna e Itapecerica. O historiador e cartógrafo Eduardo Canabrava Barreiros (1908) também defende a idéia de que o caminho trilhado por Fernão Dias seguia de Ibituruna para o nordeste e não passava pelo Porto Real. Basta pensar que de Ibituruna ao Porto Real são cerca de 75 km de distância, sem contar a volta que dariam do Porto Real a Paraopeba.

O renomado historiador Tarquínio de Oliveira descreve:


Matias Cardoso de Almeida, ajudante de Fernão Dias, foi provido capitão mor da primeira leva, que partiu na seca de 1673, indo plantar roças naquele sertão (Sumidouro). Seria a base do Sumidouro do Rio das Velhas, com três escalas anteriores: Ibituruna, Paraopeba e Roça Grande”. (Oliveira, 1981, p. 312)
Nessa citação, parece que Fernão Dias mandou seu companheiro, amigo e ajudante Matias Cardoso seguir na frente, desbravando sertões e plantando roças para alimentar um batalhão de desbravadores que viriam depois.

Maria Luiza de Castro Siqueira em “Levantamento Histórico e Toponímico do Município de Itapecerica” descreve que:


Em 1676 Lourenço Castanho Taques, filho de Pedro Taques e de Dª. Ana de Proença, atendendo a um pedido da Coroa que veladamente era uma ordem, formou uma bandeira às expensas de seus cabedais para conquistar o território dos Catu-auá, tornando assim livre o caminho para a ocupação de Minas. Desempenhou seu trabalho expulsando os índios para além das fronteiras dos países do Tamanduá (Itapecerica) e do Pinhuí”. (SIQUEIRA: setembro 2002, em http://planeta.terra.com.br/capurso/historia/zinha.htm ..)
Com isso, prova-se mais uma vez que o caminho Ibituruna, Itapecerica, Pitangui e Paraopeba existiu antes do Porto Real da Passagem. Ora, sabendo-se que o Sumidouro tinha por base Paraopeba no centro-norte de Minas e sumia (sumidouro) para o norte até Montes Claros, é inadimissível que as bandeiras de Fernão Dias tivessem passado antes pelo Tripuí (centro-leste), região riquíssima em ouro e que só foi descoberta a partir de 1691/92, ou seja, muitos anos depois.

Sendo assim, o segundo caminho que raciocinamos ter sua existência após 1695, partia de Cruzília, com destino a Minduri, Carrancas, Porto Real da Passagem em São João del Rei, Itaverava e Tripuí, este último, local de partida dos exploradores da região da Comarca de Vila Rica (Ouro Preto).

Sabendo-se que em Itaverava foi a primeira localidade onde encontraram ouro em quantidade no sertão de Minas Gerais, podemos imaginar que primeiramente os descobridores saíram de Taubaté, atravessaram a serra da Mantiqueira, chegaram à atual cidade de Cruzília e daí para Ibituruna. De Ibituruna, atravessavam o Rio das Mortes e embrenharam-se no sertão com destino a Paraopeba.

Portanto, a fundação do Porto Real somente ocorreu, em linhas gerais, com a volta dos desbravadores de Paraopeba, passando pelas ricas reservas auríferas do Tripuí com destino a São Paulo e Taubaté.

Assim, podemos concluir que o primeiro caminho (1674) foi o percorrido por Fenão Dias, ou seja: Taubaté – Cruzília – Ibituruna – Itapecerica – Paraopeba. O segundo (1691/92): Paraopeba – Sabará (Sabarabussu) – Bonfim – Itaverava (Tripui) – Carijós (Conselheiro Lafaiete) – Lagoa Dourada – São João del Rei – Carrancas – Cruzília – Taubaté. Finalmente, o terceiro: Rio de Janeiro – Matias Barbosa – Juiz de Fora – Barbacena – Conselheiro Lafaiete – Tripui. Todos os três caminhos chegavam ao tripui, base para explorar a maior reserva de ouro existente no Brasil setecentista, que era a Comarca de Vila Rica (Ouro Preto).

E para reforçar a criação do segundo caminho velho, aqui vai mais uma citação do maior e mais convincente narrador dos primórdios de Minas Gerais, Bento Fernandes:


E passados mais anos, descobriu a Aiuruoca(1), pelo sertão, que então era a parte do sul da estrada, que vai para São Paulo, três dias de jornada afastado para aquela parte de São João del Rei, em as cabeceiras do Rio Grande”. (FERNADES citado por TAUNAY: 1981, p. 46).
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(1) Aiuruoca, cidade no sul de Minas Gerais, entre Caxambu e Baependi.


1.6 A GUERRA DOS EMBOABAS NO BAIRRO DE MATOSINHOS E A ESPADA CENTENÁRIA ENCONTRADA NO RIO DAS MORTES – UMA HIPÓTESE POSSÍVEL
Acreditou-se por muito tempo que o famoso “Capão da Traição”, onde se desenrolou o principal episódio desta contenda (1708-1709), situava-se em Matosinhos, chegando a se erigir um marco no bairro, comemorativo e alusivo ao fato, conforme informa Gaio (1996). Sabe-se hoje, conforme Guimarães (1986) que situava-se na outra margem do rio, a légua e meia de distância rumo norte, próximo ao povoado do Pombal.

O ouro também foi explorado em Matosinhos; houve um dique para trabalhos de sua mineração no Ribeirão da Água Limpa, no local denominado Ouro Preto, na antiga “Fazenda Velha”. O negociante inglês John Luccock, que por ali passou em 1818, cita esta mineração. Outro inglês, o pastor anglicano e desenhista Robert Walsh escreveu:


Passamos pelo arraial de Matosinhos... o lugar tinha tido outrora uma mina de ouro bastante extensa. Para interceptar as partículas de ouro trazidas por um riacho da montanha, havia sido construído um dique através de uma ravina; o seu construtor, porém, não calculara a pressão da água e, após um prolongado período de chuvas, o dispendioso dique se rompeu, fazendo desaparecer com ele, numa única noite, todas as riquezas acumuladas à sua margem” (WALSH, citado por GAIO: 1996, p. 12)
Mais tarde, em 1868, um terceiro inglês, explorador e diplomata, Richard Francis Burton confirma: “Mais acima está uma ponte quebrada, que data do tempo em que Matozinhos tinha uma mina de ouro florescente. A explosão de um poço (...) acabou com a mineração.

A exemplo do que ocorreu em "Serra Pelada” (Estado do Pará), com a descoberta de ouro, na década de 1980, que atraiu milhares de garimpeiros para lá, também aqui em Minas Gerais ocorreu idêntico fato no princípio do século XVIII. Os forasteiros denominados "emboabas" chegaram na região das minas após a ocupação pelos paulistas com a notícia que se alastrou por todo o país sobre a grande facilidade de se apanhar ouro por aqui. Eles começaram a chegar a partir do ano de 1705, ocupando vários povoados auríferos, entre eles; Ouro Preto, Caeté, Sabará e São João del Rei. Aconteceu que os paulistas que foram os primeiros a desbravarem os sertões de Minas Gerais tinham como líquido e certo a posse das minas auríferas; só que, naquela época, o uso da força física por parte de alguns aventureiros e a falta de legislação a respeito não davam nenhum direito aos paulistas. Com a chegada dos emboabas, vários conflitos começaram a ocorrer. Há registros de que a 27/06/1707, um paulista assassinou um português emboaba, em Caeté (MG), diante de um outro português. Em outras cidades também houve conflitos. São João del Rei, como possuidora de diversas minas auríferas, não ficou fora desses conflitos, denominados de “Guerra dos Emboabas”.

Um episódio denominado Capão da Traição ficou marcado na Guerra dos Emboabas, onde estes chacinaram a tropa paulista, depois dos comandantes terem combinado uma trégua. Eduardo Canabrava Barreiros (1982), ilustra em seu livro que o local do Capão da Traição foi a cinco léguas do Arraial Novo do Rio das Mortes (São João del Rei), conforme sua interpretação dos escritos de Rocha Pita (1730) e do Padre Manoel da Fonseca (1752). Alguns historiadores defendem outros locais, tais como o Bairro de Matosinhos e Várzea do Marçal, esses dois últimos próximos ao Porto Real da Passagem.

O emboaba José Alvares de Oliveira, participante ativo do movimento emboaba na região, inclusive atuando nas lutas entre emboabas e paulistas naquela época, resumidamente escreveu o seguinte:


... Acordaram logo [os emboabas] por em marcha um destacamento de 200 homens e chegaram a este Arraial [do Rio das Mortes] em dezembro de 1708, sob o comando de Bento do Amaral Coutinho.

Os Paulistas se dividiram em mangas [pelotões] e certo de que uma delas se meteu da outra parte do Rio das Mortes, coisa de légua e meia ao rumo do norte, comandados pelo Cabo Gabriel de Góes, Bento do Amaral Coutinho passou o rio com sua gente e alguma do Arraial. E chegando a vista por sítio ao dito capão e os paulistas como de nada temiam pegaram nas armas, deram tiros e feriram alguns Emboabas. Assim sendo, os Emboabas ajuntaram o cerco e os Paulistas puseram as armas em terra e pediram quartel, sendo levados a presença do Comandante, onde foram mortos a sangue frio. Após este episódio, Bento do Amaral se pos em marcha de volta dessas minas para as gerais.” (Taunay, 1981, p. 94)
Quando José Alvares de Oliveira cita o local da batalha como sendo légua e meia em direção norte, tudo aponta para a região da Fazenda do Pombal, já que a distância entre São João del Rei e a Fazenda do Pombal, em linha reta, é aproximadamente esta. E para reforçar ainda mais esta ideia, citaremos o seguinte fato:

Em 1986, o pescador Jair Lombelo, residente no bairro de Matosinhos, ao lançar seus anzóis à caça de peixes no Rio das Mortes, próximo ao quilometro 108 da Estrada de Ferro local, região da Fazenda do Pombal, recolheu uma espada, cujo cabo é ricamente trabalhado em cordões de pura prata, que ainda estão intactos; porém, nele existem, colados, grânulos de areia petrificados pelo tempo. A alça junto ao cabo é de ferro fundido que, com o decorrer dos anos, foi afinando, afinando, até se partir ao meio. A lâmina que se encontra sem a sua extremidade está, a exemplo da alça, totalmente enferrujada. Esta espada foi negociada, logo após ser pescada, por aproximadamente um salário mínimo daquela época (U$70,00), segundo relatos do próprio pescador. Foi vendida para o Sr. José Trindade Soares, que na época morava no bairro de Matosinhos. A espada foi emprestada e encaminhada ao Professor João Bosco de Castro Teixeira, ex-Diretor Executivo da FUNREI, hoje Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ) para uma análise mais pormenorizada com a colaboração de pessoas do Instituto Histórico e Geográfico de São João del Rei, tais como: Geraldo Guimarães, Sebastião Cintra, Professor Antônio Gaio, Jairo Braga Machado e outros mais. Consultaram então, o Major Linhares, Sub-Comandante do 11º BIMth, Batalhão Tiradentes, que sugeriu o encaminhamento da espada ao Sr. Otávio Sérgio Pereira Coelho, perito do Museu Histórico do Exército, que assim se manifestou: “Trata-se de um achado arqueológico de grande valor, conhecida como "Rapieira", originada em Portugal, Espanha ou Sul da Itália (nesta ordem de possibilidades), provavelmente de 1650 a 1730, usada tanto por um militar como por um civil”.

Temos notícias de que outras peças, inclusive espadas inteiras, foram achadas também naquela região, principalmente por garimpeiros não identificados. O que se pode frisar é a grande incidência de peças antigas achadas na região da Fazenda do Pombal e a coincidência com os escritos do português-emboaba José Alvares de Oliveira, citando o local do Capão da Traição, como sendo a légua e meia do Arraial Novo, rumo norte, leva a concluir que, a batalha do Capão da Traição foi realmente na região da Fazenda do Pombal.

Quanto ao local onde se estabeleceram paulistas e emboabas durante a Batalha do Capão da Traição, o experiente historiador são-joanense Geraldo Guimarães, que possui excelentes trabalhos sobre a Guerra dos Emboabas, afirma que emboabas e paulistas viviam em locais separados. Podendo-se raciocinar da seguinte forma: os emboabas, que conseqüentemente chegaram depois dos paulistas, mais precisamente depois da descoberta do ouro em 1704, construíram moradas nas proximidades da Igreja das Mercês (centro da cidade de São João del Rei). Os paulistas, como já tinham formado um núcleo habitacional no Porto Real, desde a chegada de Tomé Portes com seus parentes e amigos, voltaram a Matosinhos e se fortificaram:


Cuidaram logo os Emboabas de formarem Arraial e fazerem Ranchos e ao mesmo tempo eregiram sua Capela [primeira Igreja de Nossa Senhora do Pilar]...E os Paulistas se arrancharam por fora, buscando a vizinhança dos matos e levantaram suas moradas com espaçosas varandas” (José Álvares de Oliveira, citado por TAUNAY, 1981, p. 101).
Só poderia ser fora da região aurífera das Mercês, ou seja, em Matosinhos.

1.7 - O BAIRRO DE MATOSINHOS NA INCONFIDÊNCIA MINEIRA
Matosinhos também teve participação na Inconfidência Mineira, tanto é que o Desembargador José Pedro Machado Coelho Torres e o Ouvidor Marcelino Pereira Cleto ali estiveram a mando do Vice-Rei Luís de Vasconcelos e Souza (1), inquirindo um dia inteiro pessoas suspeitas com o levante.

Num dos casos, um pardo de nome Manoel da Costa Capanema, sapateiro, foi preso por insultar o jovem português de 25 anos, de nome Manuel Moreira, que morava com uma parda aforriada de 40 anos de idade e de nome Josefa Teixeira. O sapateiro, na ânsia de tomar cachaça na taverna do jovem Manuel Moreira, instalada por ocasião da festa do Divino Espírito Santo, na Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, não obteve sucesso, já que a mesma encontrava-se fechada. Aos brados e murros, o sapateiro, que já se encontrava alcoolizado, começou a insultar o dono da taverna dizendo: "estes branquinhos do Reino que nos querem tomar nossas terras, cedo os haveremos de botar fora dela". O sapateiro foi denunciado pelos que presenciaram o fato, entre eles o escrivão Antônio da Costa Braga e o Capitão Bernardo José Gomes da Silva Flores. Sendo inquirido pelo desembargador e ouvidor, foi preso em 22/09/1790. Em 22/01/1791, foi conduzido para o Rio de Janeiro, juntamente com José Martins Borges e o alfaiate Vitoriano Veloso, morador no atual vilarejo do Bichinho, distrito pertencente à cidade de Prados e situado na estrada que liga esta à Tiradentes (MG). Finalmente, foi absolvido depois de mais de dois anos de prisão.

Também o promotor e o desembargador queriam saber do Senhor Joaquim Pedro de Souza Câmara - moço fidalgo da casa de sua majestade e Sargento Mor da Cavalaria de Auxiliares da Comarca do Rio das Mortes, nascido em 1729 na Vila Viçosa, em Portugal, morador em Matosinhos, onde faleceu solteiro em 08/04/1798, deixando uma filha de nome Inácia Xavier Caetana de Aragão - se era verdade que o mesmo disse para o Coronel Francisco Antônio de Oliveira Lopes (2) - inconfidente morador na Fazenda da Ponta do Morro, próximo à cidade de Prados e pai adotivo do famosíssimo Barão da Ponta do Morro (3) - que ele tinha recebido uma carta de sua prima, freira Joana de Menezes e Valadares, moradora em Portugal, alertando-lhe sobre um levante que haveria de acontecer nestas Minas Gerais (4). Os termos que suscitaram dúvidas na referida carta de 18/06/1787, ou seja: praticamente dois anos antes da prisão de Tiradentes, que foi em 10/05/1789, data marcante do início da repressão portuguesa aos inconfidentes, são os seguintes:
e se Vossa Senhoria continuar no seu silêncio, porei termo à minha escrita, mas não aos desejos de que Vossa Senhoria mude de resolução a respeito da esquecida pátria”.
“Vossa Senhoria ainda que aí está bem, aqui está melhor; e suponhamos que se introduz o espírito de vertigem nos ânimos desses naturais, e que tumultuam; neste caso parece mais arriscado é o partido da honra, que Vossa Senhoria infalivelmente havia de seguir, e o melhor é evitar estes apertos e vir sem eles à presença da adorada soberana [Dª Maria I] e livrar-se de um governo subalterno que às vezes degenera em despotismo”.
O Senhor Joaquim Pedro de Souza desmentiu o inconfidente, pai adotivo do Barão da Ponta do Morro, dizendo que a carta apenas o chamava de volta a Portugal, já que era muito mais seguro viver em seu país ao lado de sua Majestade a Rainha e toda sua dinastia (5), conforme manifestou sua prima. A carta foi encaminhada ao Vice-Rei Visconde de Barbacena e nada aconteceu ao Senhor Joaquim Pedro de Souza Câmara.

O terceiro delator dos inconfidente foi Coronel Inácio Correia Pamplona. O coronel Pamplona tinha chácara em Matosinhos e residência fixa em Lagoa Dourada (MG), de onde partiam suas diversas correspondências para a corte portuguesa no Brasil. De lá partiu a celebre carta (ver Anexo I), denunciando o movimento dos inconfidentes ao Visconde de Barbacena, datada de 20/04/1789, mas que na realidade somente chegou nas mãos do Governador Visconde de Barbacena em 05/05/1789, gerando suspeita quanto à sua verdadeira data de emissão. Esta carta foi entregue ao governador, pelo poderoso Carlos José da Silva, do qual Pamplona era compadre.



Praticamente todos os português suspeitos de participarem do movimento da Inconfidência Mineira, como inconfidente, foram perdoados. Entre eles o Coronel Pamplona.
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(1) D. Maria I, desde a morte do seu pai, o Rei D. José I, em fevereiro de 1777 até o começo do ano de 1792, quando por motivo de moléstia mental, foi substituída nos despachos por seu filho D. João. Era o Vice-Rei Luís de Vasconcelos e Sousa (1779/1790), que tomou as primeiras providencias relativas a prisão e ao julgamento dos conjurados. Substituiu-lhe D. José Luís de Castro, Conde de Resende (1790/1801). Fez executar o Acórdão da Alçada que condenou à morte o Alferes Joaquim José da Silva Xavier e ao degredo vários dos Inconfidentes.

(2) Francisco Antônio de Oliveira Lopes, Coronel da Cavalaria Auxiliar de São João del Rei, nasceu em 1750 na Borda do Campo, região de Barbacena. Morou na monumental Fazenda da Ponta do Morro, de propriedade de sua esposa D. Hypólita Jacinta Teixeira de Mello. Entrou para a Inconfidência Mineira a convite de Luiz Vaz de Toledo, irmão do Padre Toledo.

(3) Antônio Francisco Teixeira Coelho, Barão da Ponta do Morro, filho legítimo do Tenente português Antônio José Dias Coelho e Maria Inácia Policena da Silveira Buenos, irmã solteira da grande heroína Barbara Heliodora, nascido em 1786, portanto há três anos antes de eclodir a Conjuração Mineira e falecido em 07/03/1851. Foi criado pelo Inconfidente Francisco Antônio de Oliveira Lopes e sua esposa, D. Hypólita Teixeira, que o batizou na Matriz de Prados em 03/01/1787. Mesmo com os sequestros dos bens da Fazenda da Ponta do Morro, o Barão se transformou num dos homens mais ricos da região do Rio das Mortes, graças a cobertura e herança que seu pai lhe deixou, bem como D. Hypólita, que chegou a oferecer à rainha um cacho de banana todo de ouro, para livrar seu marido da prisão, o que não aconteceu.

(4) Realmente o nome "Inconfidência Mineira" foi muito bem escolhido, já que até a população de Portugal, muito antes do início do movimento, ficou sabendo do levante que haveria de acontecer aqui em Minas Gerais. Os participantes não souberam fazer confidências da trama. José de Lacerda e Almeida, paulista matriculado em Coimbra em 1772, denunciou a Melo e Castro, em setembro de 1786, que Antônio Pires da Silva Pontes, mineiro, disse que sua terra logo se tornaria um grande reino. Dessa forma dá para notar que, há dois anos e meio antes do movimento eclodir, os meios mais informados já sabiam das intenções daqueles que não souberam guardar confidências. Por essa razão, foram chamados de Inconfidentes. No meu entender, a diferenciação entre a denominação "Inconfidência Mineira" e "Conjuração Mineira" é que a primeira existiu numa fase anterior a descoberta do movimento e a segunda a partir da descoberta, onde os principais participantes foram denominados de conjurados.

(5) Em Portugal, a linha da Dinastia dos Alcântara Bragança é outra, de forma que D. Pedro I lá era D. Pedro IV.


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