Capítulo 3: em busca da salvaçÃO



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CAPÍTULO 3: EM BUSCA DA SALVAÇÃO
O tema da salvação, presente em várias crenças fúne­bres antigas, sobretudo na tradição egípcia, tornou-se uma característica das religiões de mistérios entre os séculos VIII e VII a.C. e difundiram-se largamente no período hele­nístico, implantando-se na tradição religiosa ocidental.

A imagem mais recorrente foi a de uma divindade e uma fé salvadoras, que arrancavam os homens do poder da morte, submetendo-os ao poder divino, à ressurreição, ao julga­mento dos atos e pensamentos, de acordo com as suas condutas em vida. A tradição religiosa salvacionista frequentemen­te monoteísta, implica em noções de Bem e Mal, pecado, tri­bunal divino, Céu, Inferno, Purgatório, penas ou bem-aventu­ranças depois da morte, iniciações e sacrifícios durante a vida com nítidas doutrinas da imortalidade, a salvação como um prêmio pela fé e, acima de tudo, a vitória da vida espiritual sobre a morte física.



O REINO DE OSÍRIS-RÁ

Diante da idéia de imortalidade, durante séculos, formou-se o eixo central da vida religiosa e social dos an­tigos egípcios (1). Foi com uma existência religiosa voltada para os destinos além-túmulo e a preservação desta imortali­dade que as crenças na ressurreição e na vida futura guarda­ram uma grande unidade durante longos períodos, estando pre­sente nos elaborados ritos funerários, na construção de se­pulturas e o seu apetrechamento nas minuciosas técnicas de mumificação e nos cuidados com o destino da alma e da morada espiritual, que chamaram a atenção de todos que tiveram qualquer forma de contato com esta cultura. Mesmo no mundo contemporâneo, pirâmides, sarcófagos, múmias, tesouros, mal­dições, povoam a imaginação nos museus, nos locais frequen­tados pelos turistas, e popularizados na literatura, no ci­nema de aventura, suspense ou terror, nos bailes de carnaval e, atualmente, no lucrativo surto "esotérico" da nossa soci­edade.

O conjunto de crenças funerárias do Egito, lentamente estruturadas do ponto de vista mitológico, religioso e cultural desde os períodos pré-dinásticos até seu modelo mais tradicional do Médio Império em diante, com suas múmias, tumbas, Livro dos Mortos, jornada da alma, julgamento, princípios espirituais, o reino de Osíris-Rá, acabou por alimentar várias matrizes religiosas em diferentes períodos históricos. O medo da morte e as esperanças de imortalidade foram projetados num conjunto de práticas mágicas e místicas que envolveram a preservação do corpo morto, orações, proteção divina, confissão e julgamento de ações e uma existência pós-espiritual das almas que lograssem ultrapassar as provas. De uma idéia arcaica dos mortos vivendo no solo onde estava enterrados, cercados pelas forças dos ciclos naturais de germinação e crescimento, chegou-se a uma teologia da transformação divina do morto, representada na mitologia do deus Osíris-Rá.

Durante o Antigo Império, o Faraó foi identificado com o deus-solar Rá. Esta divindade lhe conferia a imortali­dade, e sua morte física significava a sua passagem, enquan­to uma divindade, para o reino celestial, o mundo dos deu­ses. A teologia solar adequava-se para representar as ações terrenas do Faraó- Deus, assim como a sua imortalidade num mundo celeste e estelar.

A grande maioria das fórmulas religiosas relativas ao Faraó falavam da viagem celeste da alma do soberano, des­crita na forma alegórica como um pássaro, garça, falcão, ajudado pelos ventos, pelas nuvens ou subindo por uma esca­da. Porém, era sempre a ascensão de um deus, um ser com es­sência totalmente diversa dos homens comuns e que deveria passar, durante a sua ascensão, por algumas provas de cará­ter iniciático, como ter de responder a certas perguntas, invocar potências divinas, revelar um caráter divino, cora­gem, astúcia e conhecimento das coisas do universo mágico-sobrenatural (2).

No céu, o Faraó reproduzia sua existência terrena: em seu trono, recebia homenagens, julgava e dava ordens, cercado de súditos privilegiados e membros da família real, que compartilhavam a identificação com as estrelas e a imor­talidade celestial. Reinava sobre os mortos como soberano e senhor, a própria encarnação divina (3).

O outro mito fundamental para o desenvolvimento da religião funerária foi o deus Osíris, um deus agrário arcaico do Delta do Nilo, ligado aos mitos e ritos de fertilidade e vegetação. Posteriormente, foi transformado numa divindade célebre pelo seu vigor e justiça, que havia governado o Egito em tempos imemoriais. No final do Antigo Império seu culto ganhou importância crescente. Osíris e sua esposa-irmã Ísis figuravam, no intrincado sistema teológico egípcio, entre os casais divinos da origem do mundo.(4).

Esta ressurreição era um drama específico: durante a batalha com Seth, Horus teve um olho arrancado. Após a sua vitória ele ofereceu este olho a Osíris e, na tradição popu­lar egípcia, o olho de Horus converteu-se em amuleto podero­so contra todas as formas de malefício e encantamento. Após sua vitória Horus desceu ao mundo subterrâneo dos mortos e acordou Osíris, ressuscitando-o com palavras, rituais e in­vocações: "Osíris, tu partiste, mas retornaste; adormeceste, mas foste despertado; morreste, mas de novo vive" (5). Osí­ris foi ressuscitado enquanto pessoa espiritual, força vital, passando a assegurar a fertilidade, a força reprodutiva e de crescimento de toda a Terra.

O mito da Ressurreição de Osíris tinha uma caráter profundamente hermético e iniciático, uma alegoria aos fenômenos da Natureza. Um grão lançado à terra devia desti­nar-se a produzir uma planta completa. Mal era semeado, trava­va-se uma luta entre a semente geradora, sua natureza inte­rior e os elementos exteriores. Iniciava-se a decomposição e, justamente dela, do caos desintegrador, surgia uma nova planta, que crescia em direção ao sol. De um grão morto e enterrado surgiam numerosos rebentos, imagens da imortali­dade e eternidade. Este mito não era antagônico à situação da realeza faraônica, podendo ser adaptado: o filho divino que sucedia o pai, garantindo a prosperidade e riqueza do reino (6), uma concepção profundamente enraizada nos ritos agrários e de fertilidade, que receberam um tratamento mais elaborado, do ponto de vista simbólico, quando a religião egípcia começou a ficar mais organizada institucional e filo­soficamente. O deus Osíris já não era mais uma simples di­vindade agrária. Ele era uma alegoria dos ciclos da existên­cia, das metamorfoses da vida que oscilavam entre destrição e regeneração.

No final do Antigo Império aconteceu uma fusão, ainda parcial e cheia de contradições, entre estas crenças.

Um ponto era comum a todas estas situações, terrenas ou celestiais, da alma (ou almas): a sua dependência da so­brevivência do corpo físico, o suporte material que permitia a existência espiritual. Desta forma, a sua melhor garantia era a conservação do corpo. Portanto, a mumificação, as com­plicadas práticas de inumação, a necessidade de fornecer provisões aos mortos, a construção de túmulos de acordo com proporções especiais e orientações específicas, eram frutos de um conhecimento bastante particular. Isto mostrava toda uma categoria especializada de sacerdotes, mestres, aprendi­zes, dedicados aos ofícios para cada etapa da morte, desde a conservação do corpo até os detalhes astronômicos, geográfi­cos, geométricos e arquitetônicos que orientavam os destinos dos mortos. Todos estes atos, rituais e especialização dos ritos funerários revelam uma crença muito arraigada na relação entre a matéria e o espírito, marca do pensamento mágico-religioso egípcio (7).

Esta ligação entre os corpos e as partes espirituais que iam progressivamente se sutilizando e libertando após a morte merece um esclarecimento. Pensava-se que os mortos iam para baixo (ou para dentro) da terra, num mundo à parte, um reino próprio. O corpo, ao ser sepultado, era levado para baixo, afundando, devido ao peso do seu coração. Esta imagem do espaço subterrâneo dos mortos que para lá eram levados pelo peso do seu coração era conseqüência de uma crença que atribuía a cada órgão, víscera ou parte do corpo, a regência de determinadas ações, sentimentos, desejos, pensamentos ou palavras. Isto explicava o tratamento ritual dado aos mor­tos.

Através do uso de técnicas especiais, todos os ór­gãos e vísceras eram retirados de dentro do corpo e passavam por práticas purificatórias que consistiam na imersão pro­longada de cada uma das partes em banhos com fórmulas espe­ciais seguidas de defumações, cânticos, hinos, invocações e orações. Estas práticas destinavam-se a tirar o peso do corpo, lavar os pecados, tornar o corpo novo, leve, bri­lhante, dando força e coragem, tornando a voz clara e forte, causando boa impressão e afastando o mal de perto do morto, e colocando os protetores espirituais mais próximos. Assim, o mel, os óleos, o vinho e o leite eram elementos que comu­nicavam doçura e força, enquanto as ervas específicas reti­ravam a amargura, o rancor, a inveja, a luxúria, o ódio e todos os outros sentimentos negativos, de forma a que os da­nos causados pelas ações humanas nos órgãos correspondentes fossem neutralizados. Banhar o cadáver em natrão (uma mistu­ra de carbono, enxofre e sódio) tinha um profundo signifi­cado religioso, pois a palavra Natron vem de um vocábulo egípcio que significava "deus". O cadáver era "divinizado" neste banho.

Depois de tudo, o corpo do morto, em ofício religi­oso, era envolvido em várias camadas de faixas de tecido branco com metragem definida para cada ano de idade, enrola­das em sentido anti-horário, de baixo para cima. As ataduras brancas simbolizavam Ísis e Néfis, as companheiras de Osí­ris. Desta forma, o morto comparecia semelhante a um deus, abraçado a duas deusas. Assim ele era apresentado aos deuses no tribunal. Ao final dos rituais dos funerais, após as ofe­rendas e libações costumeiras, era erguido um pilar de pe­dra, o djed ou estátua, significando ter o morto levantado para a vida, que a sua identidade individual havia ressur­gido para a eternidade.

O morto vivia algum tempo sob a terra e, após o Jul­gamento, poderia ser sentenciado e consumido ou alcançar o Reino da Eternidade ao lado dos deuses. Em alguns casos, quando não eram cumpridos os ritos funerários adequados, de­vido à destruição de seu túmulo, em conseqüência de uma morte acidental ou violenta, o morto vagaria na face da terra, sofrendo por muito tempo, até ser consumido.

Durante o período de crise política do Primeiro Pe­ríodo Intermediário e no Médio Império, a figura sagrada do deus Osíris ficou no centro de preocupações éticas e religi­osas. Num período de grande instabilidade política, a cons­ciência da síncope social e religiosa do Faraó-deus e das estruturas remeteram, fatalmente, ao questionamento do sen­tido da vida e da morte (8).

A religião osiriana deste período foi acompanhada por modificações éticas e morais. A idéia de justiça e cari­dade como atos positivos que pesarão no dia da morte e, es­pecialmente, a crença num julgamento de nossas ações terre­nas ganharão um forte sentido coletivo. Esta foi a concepção central que orientou o futuro das crenças sobre o papel da moral na existência humana e o verdadeiro desenrolar do des­tino da alma no Além, sobrevivendo, com algumas modifica­ções, às transformações políticas, religiosas e sociais de outros períodos da história egípcia.

O drama do julgamento, que existia no Antigo Império restrito ao faraó, que deveria ser puro, iniciado nos ritos sacerdotais e justo num sentido mais jurídico que moral, vai sendo ampliado, principalmente no Período Intermediário, de­sembocando no tradicional "Tribunal dos Mortos", presidido por Osíris e assistido pelas divindades principais das dife­rentes regiões (9).

Nesta época de desordem social, de instabilidade e insegurança material, o sentimento religioso buscou uma jus­tiça divina, que deveria acontecer no mundo espiritual. A possibilidade de salvação dependia então da existência huma­na e da sua relação benévola com o próximo, superando um mundo de injustiças e maldades (10).

Temos aqui duas formas religiosas: uma que cuidava da morte, da alma e do espírito, e outra que cuidava da vida, da justiça social, da fé, dos deuses e dos problemas existenciais. A fusão destas duas formas passou a marcar a religião oficial e institucional, absorvendo e, simultanea­mente, sacralizando a estrutura social e política. Devoção, piedade, bondade, justiça eram categorias espirituais e di­vinas, bases para uma visão salvacionista da alma (11).

No Médio Império, mais precisamente durante a XII dinastia, a solarização da teologia assumiu a identificação de Amon, o deus oculto da tradição hermopolitana, agora con­vertido em entidade suprema, associado ao deus-solar, Rá. Esta sincretização Amom-Rá possibilitou o surgimento da idéia de um deus universal, uma teologia universalista e a formação de uma numerosa casta sacerdotal, que sobreviveu à invasão dos Hicsos e ao chamado Segundo Período Intermediá­rio, ressurgindo no Novo Império com uma excessiva politaza­ção da elite sacerdotal (12).

Estes movimentos teológicos de unificação de divin­dades éticos e morais de salvação, perdão e justiça espiri­tual marcaram, na história do antigo Egito o processo de "democratização" da vida além-túmulo já no Médio Império. Todos os homens poderiam apropriar-se do modelo de Osíris e vencer a morte por seus méritos. Com a ajuda dos deuses pas­saram aspirar a sua transformação em seres espirituais inte­grados e imortais.

Durante o Novo Império estas concepções alcançaram a sua mais elaborada síntese: a associação Rá-Osíris, a imagem de um deus solar e celestial com a do deus subterrâneo e ressurrecto. (13). Numa associação metafórica entendia-se que assim como o grão "morria" para ressurgir multiplicado, o Sol destinado a dar vida a todos os seres também "morria" todas as noites, para ressurgir com força, a cada manhã. Aparentemente, era quando a morte mais parecia triunfar que a vida tinha mais força, sendo necessário morrer para revi­ver imortal.

Desde a XVIII dinastia vemos o estabelecimento da forma mais tradicional de concepções sobre a vida após a morte. Embora não existisse um relato sistemático da doutri­na da ressurreição e da vida futura, as principais crenças religiosas sobre a morte deste período encontravam-se na grande coleção de textos religiosos reunidos ao longo dos tempos, e que ficou conhecido como o "O livro dos Mortos".

Na verdade, nunca existiu um "livro" assim como en­tendemos hoje. Existiram várias recensões destas composições abrangendo um período milenar, contendo crenças, ideais, fi­losofia, sabedoria, ritos mágicos e iniciáticos, orações, encantamentos e superstições, representativas das mais di­versas formas e categorias de religiosidade, cultura e ciên­cia de variadas épocas.

Inicialmente, foram encontrados papiros ao lado das múmias contendo orações, histórias dos deuses e instruções ao morto, junto com textos da mesma natureza pintados nos ataúdes e paredes dos túmulos (14). Este material foi, du­rante o Novo Império, reorganizado pelos teólogos a partir de textos mais antigos, que gozaram de grande popularidade até o fim da civilização egípcia e o advento do cristia­nismo, tendo convivido, por um bom período, com a fé cristã (15). Na verdade, é difícil precisar com exatidão o momento em que se deu a extinção deste conjunto de crenças, embora possamos falar do declínio que sofreram a partir da introdu­ção do Cristianismo.

O material do Livro dos Mortos continha uma série de orações e fórmulas mágicas, de caráter iniciático, para fa­cilitar a viagem da alma para Além. Refletia as sínteses te­ológicas do Novo Império, governado simultaneamente por um soberano que era rei-soldado e rei-deus e por uma forte classe sacerdotal, e também marcado pelos aspectos arcaicos e populares da religiosidade egípcia.

Podemos depreender do pensamento religioso deste pe­ríodo transcrito no "Livro dos Mortos" que, para os egípci­os, assim como para outros povos da antiguidade, a morte não efetuava apenas a separação entre corpo e alma, mas, acima de tudo, era a libertação de princípios físicos, mentais e espirituais que constituíam o homem durante a sua vida e após a sua morte. Vemos a descrição e divisão do homem em outros corpos imateriais. Estes princípios espirituais eram nove ao todo, embora a dificuldade em traduzir seu sentido verdadeiro acabe por levar a alguma indefinição sobre os seus sentidos de fato. São eles: (16)

1. O corpo físico, o Khat, passível de corrupção e decadên­cia, devendo ser preservado pela mumificação. (Aquele a quem os vermes comem).

2. O duplo, o Ka, a individualidade e personalidade abstrata com a forma e os atributos do ser a quem pertencia. Embo­ra pudesse vagar livremente, habitar uma estátua, era obrigado a comer e beber. Quando abandonado sem suprimen­tos podia deixar sua tumba e vagar como alma errante dando bastante dor de cabeça aos vivos. Esta seria a forma espiritual menos sutil, podendo aparecer aos vivos, falar aos videntes, enviar mensagens, receber os cultos e oferendas, podendo, mediante invocação, realizar determi­nados trabalhos. (Digamos que era o corpo sutil, a maté­ria do espírito)

3. A alma do coração, o Ba. Embora aparentemente continuasse a viver no túmulo, sua condição era representada na forma de um falcão, podendo voar até o fundo da tumba, levando ar alimentação ao corpo mumificado.

4. O coração, o Ab. A fonte da vida, do bem e do mal, deven­do estar ritualisticamente preparado para ser examinado durante o Julgamento. Se ele não fosse cuidado poderia posicionar-se contra o morto em queixas, comprometendo o seu julgamento. Centro da vida pensante e espiritual, a "consciência", revelava tanto os vícios como as virtudes, algo assim como um corpo mental.

5. A sombra, o Khaibit. Não tinha uma definição muito clara, mas estava em conexão com a alma do coração e parecia alimentar-se das oferendas tumulares. Guardava o corpo emocional, os apegos, desejos e paixões que o morto tinha em vida. Para não incorrer no desagrado desta dimensão espiritual, eram feitas as oferendas que mitigassem e aplacassem os desejos, as carências e necessidades que o morto tinha um vida. Era um invólucro de forma espiritu­al.

6. A alma espiritual, o Khu. Um ser etéreo que habitava o corpo espiritual, indestrutível. Não era o espírito mas o espírito da alma, a centelha divina que fornecia energia e habitava a alma, representado em chama.

7. O corpo espiritual, o Sahu. Formava a habilitação da alma e provinha do corpo físico. Sua durabilidade e incorrup­tibilidade dependia das orações e dos cultos funerários. Unia todos os atributos mentais e espirituais do ser vivo, assim como um fluído que permeava e mantinha coesa a forma física, os sentimentos, os pensamentos e os dese­jos. Era o Sahu que, integrado ao Ka, realizava tarefas e recebia as oferendas.

8. O poder, o Seklem. Tratava-se da força vital, natural, cósmica, que morava no céu, entre os espíritos, e era o elemento de conexão entre a alma e o espírito, centro da vida pensante e espiritual e que mantinha o indivíduo li­gado ao Universo, à natureza, ao ambiente, à Unidade. Era a vitalidade.

9. O nome, Rhem. Preservar o nome significava a conservação da existência espiritual. A preservação da memória dos mortos era a garantia da espiritualidade. Um dos maiores castigos que se podia infringir a uma pessoa já falecida era apagar o seu nome das estátuas, dos túmulos, conde­nando-o a uma morte definitiva pelo esquecimento. Isto porque, se o seu nome fosse retirado do culto aos mortos, o defunto nunca seria chamado para o julgamento, para a barca dos deuses, para as oferendas e rituais e para re­ceber as homenagens dos descendentes e da posteridade (17).
O TRIBUNAL DOS MORTOS

Este era o momento mais temido: a pesagem das ações, o exame de consciência. Na representação mais tradicional do Novo Império, a sala de julgamento era denominada "A Sala das Duas Verdades". Osíris, hierático e impassível, presidia o julgamento sentado em seu trono, ladeado por Ísis e Néfis e secundado por catorze assessores. No meio a sala estava a balança, que podia ser ornamentada com a cabeça de M`aat, a Verdade ou a Ordem, a cabeça de Anúbis ou de Thot. O defunto apresentava-se com uma túnica de linho branco e era condu­zido por Anúbis. Após saudar a todos presentes começava a pronunciar a declaração de inocência do cap. CXXV do Livro dos Mortos:



"1. Não fiz mal a ninguém. 2. Não prejudiquei uma fa­mília. 3. Não pratiquei mal algum em lugar sagrado. 4. Evitei as más companhias. 5. Não causei nenhum dano. 6. Não sobrecarreguei de trabalho os meus homens. 7. Não busquei honrarias. 8. Não maltratei os criados. 9. Não fiz pouco de deus. 10. Não me apoderei de proprie­dade alheia. 11. Não fiz o que os deuses não gostam. 12. Não falei mal de um criado a seu amo. 13. Não cau­sei sofrimento a ninguém. 14. Não deixei ninguém pa­ssar fome. 15. Não fiz ninguém chorar. 16. Não matei. 17. Não obriguei ninguém a matar. 18. Não causei dor. 19. Não roubei oferendas do templo. 20. Não roubei o pão sagrado. 21. Não roubei o pão das oferendas. 22. Não forniquei. 23. Não me poluí no santuário do deus da cidade. 24. Não roubei nas medidas. 25.Não roubei terras. 26. Não invadí propriedade alheia. 27. Não fraudei. 28. Não usei pesos falsos. 29. Não tirei o leite das crianças. 30. Não roubei gado. 31. Não prendi pássaros sagrados em armadilhas. 32. Não peguei peixes com armadilhas de peixes da mesma espécie. 33. Não detive os cursos de água. 34. Não cortei a margem do canal. 35.Não apaguei o fogo. 36. Não fraudei aos deuses as suas oferendas de comida. 37. Não roubei o gado sagrado. 38. Não repeli as manifestações de deus" (18).

Esta declaração era recitada novamente diante de cada uma das divindades presentes ao julgamento, reforçando a pureza (ou pelo menos a intenção) do morto, que acrescen­tava não temer a fação dos juizes porque, além de estar pu­rificado, havia agido de acordo com a vontade dos homens e a aprovação dos deuses. A confissão passava por uma prova prá­tica: a pesagem do coração na balança da verdade e justiça. Esta confissão indicava o germe da consciência religiosa, o desabrochar de uma conduta ética. Enquanto algumas trans­gressões tinham um fundo mais prático com conotações sociais e culturais, outras tinham um caráter ético, moral e místi­co, prenunciando um código de valores espiritualizado.

Num dos pratos desta infalível balança ficava o co­raçao do falecido; no outro a estátua (ou uma pena), simbo­lizando a verdade. Restava ao morto implorar ao seu coração que não desmentisse a confissão de pureza:

"Oh! meu coração de minha mãe, coração de minhas for­mas! Não te voltes contra mim como testemunha, não te oponhas a mim diante dos juizes, não faças teu peso contra mim distante dos juizes, não faça teu peso con­tra mim diante do senhor da balança. És meu Ka que está em meu seio, o Khnum que dá integridade a meus membros. Não permitas que o meu nome cheire mal, não digas mentira contra mim diante de deus!" (19).

Diante desta admoestação, a balança deveria equili­brar-se, o morto triunfava, tornava-se Maa Kheru, o justo de voz, podendo entrar para o Reino da Eternidade. Antes de atingir este supremo objetivo, muitos perigos rondavam a alma do morto. Podia ser devorada durante a viagem, morrer de fome ou sede caso não fossem feitas oferendas, tornar-se uma alma errante vagando pelos desertos, comendo detritos e bebendo água suja ou, ainda, incorrer no desagrado de Tcha­tcha e Sheniu, os administradores do Reino de Osíris e ser destruída. Morrer pela segunda vez no Outro Mundo era uma perspectiva definitiva e aterrorizante (20). O julgamento podia ser desfavorável e o morto seria entregue a Amemet, o devorador de almas.


O MUNDO DA ETERNIDADE

Em primeiro lugar, à semelhança dos seres divinos, o morto que alcançasse o mundo de Osíris comia da mesma co­mida, bebia a mesma bebida, vestia as mesmas roupas, em suma, gozava das mesmas vantagens que os deuses. Reencon­trava parentes e amigos, dedicava uma parte do seu tempo às tarefas de lavrar, semear, ceifar, fazer canais de irrigação ou então delegava estas tarefas a pequenas estatuetas colo­cadas no seu túmulo para que fossem trabalhar no lugar do defunto que, investidas da energia vital e espiritual do morto, agiam em seu lugar (21). A esperança residia numa existência livre de preocupações e de felicidade eterna.

Esta frutuosa existência eterna passava-se numa es­pécie de Campos Elísios, uma forma sacralizada de um Egito ideal. Sua localização podia variar, não havendo uma preci­são espacial nas suas diferentes descrições. A morada dos mortos podia situar-se ao Norte, tanto quanto poderia loca­lizar-se acima ou abaixo da Terra. Em tempos posteriores do Novo Império, a morada dos mortos ficava situada a oeste ou noroeste do Egito, passando por uma fenda nas montanhas da margem ocidental do Nilo. Uma outra crença colocava os mor­tos num lugar imaginário, um longo e estreito vale percor­rido por um rio de percurso espiral, cercado de vales reple­tos de monstros e seres perigosos. Esta imprecisão refletia os diferentes níveis espirituais onde os mortos, de diferen­tes categorias, jaziam. Reinos de trevas ou luz, deuses ou demônios, nas estrelas ou nos subterrâneos, um destino er­rante na terra convivendo com chacais, devorando carniças e bebendo águas podres: estas imagens correspondiam aos está­gios espirituais de cada morto, a condição de seu sepulta­mento, ao estado de sua múmia e de sua tumba, de suas está­tuas e à preservação de seu nome.

Certas definições estabeleciam verdadeiras geogra­fias do mundo sobrenatural,O Tuat, a partir da idéia da Terra plana, tendo como centro o Egito, rodeado por uma alta cadeia de montanhas. O sol, Rá, nascia de um buraco nesta montanha, e desaparecia por outro situado a oeste do lado de fora das montanhas onde ficava o Tuat. Além do Outro Mundo existia uma cadeia de altas montanhas e um vale escuro e frio, lugar de medo e horror , cheio de perigos, chamas, va­pores venenosos, terríveis criaturas demoníacas que barravam o caminho das almas e uma serpente gigantesca que tentava eliminar a barca do deus-sol e as almas (22).

A religiosidade funerária egípcia nunca estabeleceu um modelo fixo do lugar de destino dos mortos. De um lado, foram muitas as situações descritas: na Barca de Rá, no sub­terrâneo Reino de Osíris, num polimorfo e imaginário Tuat, como uma estrela no céu, como um pássaro. Por outro lado, as crenças mais difundidas nos cultos aos mortos associavam à múmia uma vida, ou melhor, uma espécie de semi-vida que de­pendia dos ritos e oferendas e da manutenção do corpo para continuar vivendo.

Na verdade, a grande concepção religiosa que triun­fou na sistematização teológica dos cultos oficiais foi a fusão, a síntese final entre duas divindades opostas: Rá, o deus solar e celestial Osíris, o deus subterrâneo. Durante o Novo Império, estas duas divindades eram encaradas como ema­nações de uma mesma unidade principal, como a complementari­edade entre a vida e a morte, numa síntese religiosa que marcou o maior período da cultura religiosa do antigo Egito.

Ultrapassar os diferentes estágios da viagem da alma dependia de uma série de conhecimentos, tais como: conservar a memória, lembrar-se do próprio nome e dos nomes secretos dos deuses e das passagens, recitar a declaração de inocên­cia ou a confissão negativa aos quarenta e dois deuses que constituíam o tribunal, evitar uma segunda morte espiritual e, supremo objetivo, o acesso da alma à barca solar, alcan­çando a eternidade ao lado das divindades, uma tranqüila existência no Reino dos Deuses, partilhando suas venturas e imortalidade. Aquelas almas que não morressem durante a via­gem, podiam ser devoradas por Amemet, o monstro devorador dos ímpios e injustos durante um julgamento e pesagem do co­ração desfavoráveis. A crença na imortalidade da alma liga­va-se à ressurreição de um corpo espiritual num outro mundo eterno, livre das penas e pesares da vida, em felicidade e imortalidade, ao lado dos deuses.

Um aspecto deve ser considerado. A atitude diante da morte entre os egípcios era, sobretudo, mágica. O aspecto moral, embora existisse, era relegado diante da possibili­dade de acomodar as declarações no tribunal dos mortos. O coração do morto podia ser compelido, por artifícios, a tes­temunhar em favor do morto, proclamando-se justo. Não havia nenhuma preocupação de ordem ética ou Heróica da moral no julgamento, nem recompensa espiritual após a morte. Nas con­fissões negativas de culpa do Livro dos Mortos, o desenlace feliz da alma dependia tanto do respeito a certos tabus como a observância de costumes com interesse social.

A mitologia egípcia refletia a insegurança diante da natureza que podia revelar-se imprevisível e hostil trazendo de volta esta desordenação. O que garantia a regularidade das cheias do Rio Nilo? Como prever a germinação de uma quantidade suficiente de grãos? Como converter a catástrofe das águas em benefícios regulares para os que viviam da terra? Como impedir as doenças, manter os inimigos naturais à distância e promover a paz? O esforço do pensamento reli­gioso, dos ritos e cultos era no sentido de procurar conci­liar forças opostas, na construção de um equilíbrio sempre precário, para garantir o ciclo anual das cheias, a sucessão de dias e noites, a reprodução, a vida e a morte, em suma, os ciclos e metamorfoses do Universo. A todo momento, tinham de superar a adversidade, as forças contrárias e acreditar no poder da vida sobre a morte e o desaparecimento.

Seguindo este raciocínio, duas imagens se associavam no simbolismo da morte. Uma, de frio e trevas, mundo subter­râneo e adormecimento. Outra, a da grande vitória sobre a morte nas crenças que apontavam um caminho celeste, estelar e solar, claro e aquecido, uma sobrevivência espiritual no espaço superior da alma imortal, ao lado dos deuses.

No caso das crenças religiosas egípcias a síntese teológica Osíris-Rá representou uma fusão que caracterizou estes dois níveis simbólicos, estas duas tradições religio­sas, entre a Desordem e a Ordem mitológica e, sobretudo, um novo rumo mais espiritual e de vitória para a alma. Viver significava prepara-se para um destino final próximo às di­vindades, a Imortalidade.


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