Capítulo 3: em busca da salvaçÃO


RESSURREIÇÃO E IMORTALIDADE



Baixar 219.14 Kb.
Página2/5
Encontro29.07.2016
Tamanho219.14 Kb.
1   2   3   4   5

RESSURREIÇÃO E IMORTALIDADE

A ressurreição foi um dos simbolismos religiosos mais importantes das crenças funerárias egípcias. Ligada à arte ritual da mumificação, à mitologia Osiriana, e perdu­rando na síntese teológica de Osíris-Rá, na viagem da alma e no Tribunal dos Mortos, a questão da ressurreição foi um tema fundamental, segundo o qual era possível renovar-se no mundo do além--túmulo e viver entre os deuses (24).

A ressurreição, uma metáfora divina que a história de Osíris e o percurso do deus-Sol, na sua morte e renasci­mento de todos os dias referendavam, era o objetivo final pelo qual rezavam-se as orações e fórmulas, celebrava-se as cerimônias. Todos os textos, amuletos, fórmulas, túmulos, mumificação e ritos destinavam-se a permitir que o morto pu­desse alcançar a imortalidade e viver, eternamente, num corpo transformado e glorificado, a vida eterna da Bem-Aven­turança.

Apesar da distância histórica e cultural, nos sur­preendemos com a balança, o livro dos atos e a pena, o Tri­bunal dos Deuses, os infernos, paraísos, o destino errante das almas penadas, a ressurreição, tão caras à tradição re­ligiosa ainda vivas e contemporâneas. O medo do esquecimento que busca a imortalidade na fama, no sucesso, nos túmulos imponentes de nossos cemitérios, nas lápides que falam de saudades, de eternas recordações, nos separam tanto assim dos túmulos egípcios? Claro que sim e não, ao mesmo tempo. Culturas tão distantes no tempo e no espaço trazem ainda uma possibilidade de diálogo através do tempo, apesar das difi­culdades materiais, arqueológicas, lingüísticas: trata-se da linguagem dos medos e esperanças.

As palavras diante da justiça e acima de tudo, de sua própria consciência que aparecem na Confissão Negativa do Livro dos Mortos refletem uma situação humana: não trans­gredir um código, seja ele religioso, moral ou, no caso de certas culturas históricas, as duas coisas simultaneamente, sob pena de uma punição que, no caso de relações divinas e espirituais, podem significar a eterna exclusão da Bem-aven­turança.

O conjunto das crenças funerárias egípcias merece ser destacado por vários motivos. Em primeiro lugar porque apesar do tempo e da diferença cultural, nunca deixou de despertar interesse e curiosidade de todos aqueles que se preocupam com temas transcendentais e espirituais. Nos dias atuais a cultura religiosa egípcia continua povoando sonhos e a imaginação, sendo divulgada frequentemente numa litera­tura inadequada sobre os mistérios das pirâmides, a sabedo­ria secreta e outras tantas obras afins.

Em segundo lugar, e o mais importante para o estudo aqui realizado, vem do fato de que essas visões encontram-se intimamente associadas ao conjunto de crenças clássicas so­bre a vida após a morte. Começou com a idéia arcaica dos mortos vivendo no solo onde estavam enterrados, cercados pela força mágica dos ciclos naturais de germinação e renas­cimento; evoluiu para uma teologia de transformação e reno­vação, simbolizados no mito de Osíris e a sua ressurreição, até chegar ao destino celestial das almas, ao Julgamento, à salvação e à bem-aventurança eternas, ao lado dos deuses na barca de Osíris-Rá, numa síntese teológica duradoura e pro­funda.

Anterior em muitos séculos a qualquer das religiões de salvação que sobreviveram até os nossos dias, a religião funerária egípcia antecipou as imagens de julgamento final, a balança dos atos, a ressurreição, a condenação eterna e a imortalidade gloriosa.



UMA LUZ NAS TREVAS: A SALVAÇÃO NO ZOROASTRISMO.

"Há dois espíritos contrários no

pensamento, na palavra a na ação.

Um escolheu o bem, o outro o mal;

um mostra a vida, o outro, a morte.

Assim fizeram desde o tempo do

primeiro homem,

assim farão até o fim do mundo."

(AVESTA - Yasna XXX)
Por volta do século VI a.C. a emergência do fenômeno profético teve profundas repercussões em diferentes tradi­ções religiosas. Um fenômeno religioso que surgiu com carga fortemente crítica das religiões tradicionais e, simultanea­mente, uma grande força criadora e inventiva marcada por uma visão religiosa universalista e ecumênica. A palavra profé­tica tornou-se o arauto da idéia de um Deus único, poder so­berano na transcedência, na plenitude, que se traduziam no perfeito domínio tanto do universo como dos acontecimentos da humanidade, da história dos homens. Os portadores das no­vas mensagens eram fortes personalidades religiosas que sub­verteram estruturas e o pensamento religioso e levaram à for­mação de novas religiões.

Os movimentos proféticos elaboraram um discurso com­pleto e orgânico, no qual a Verdade soberana constituiu o tema mais importante da natureza divina, o princípio, o meio e o fim dos cosmos, a saber: a razão suprema tanto do mundo físico como do humano do social. Todos os profetismos ali­mentaram-se de concepções religiosas marcadas pela idéia de "vida", ou seja, o caminho que conduz à divindade única, transcendente, universal, o Poder sublime, juiz do mundo, do espaço, do tempo, da história e dos homens. O profetismo transformou a questão da morte e da sobrevivência no caminho da salvação.

Assim foi com o Zoroastrismo, movimento profético que surgiu no decorrer do século VI a.C., na região subcau­cásica da Pérsia, habitada por comunidades de pastores de origem indo-européia aparentados com o povo indiano (25).

O estudo da religião iraniana revela que este movi­mento, assim como a tradição judaico-cristã desde o profe­tismo bíblico, incorporou uma concepção linear de tempo, re­valorizou e sistematizou idéias fundamentais para o desen­volvimento posterior do próprio Cristianismo, do Judaismo. Numerosos foram os textos dos Evangelhos que revelaram sua fonte da gnose zoroástrica, num encontro decisivo do judaísmo após o Exílio e da insurreição contra a excessiva helenização do pensamento, da cultura e da religião. Na verdade, os profe­tas de Israel, a mensagem cristã e o Islamismo passaram pela brecha aberta do profetismo zoroástrico (26).

O ponto principal desta fusão que nos interessa está na apresentação de uma via mística original: alcançar o Reino de Deus transformou-se no objetivo supremo das aspirações humanas tanto na vida como na morte. Junto com isto ficou estabelecida a ressur­reição dos mortos, o Julgamento Final, o purgatório como o espaço intermediário das almas que não alcançaram o céu ou o paraíso, uma angelologia universal e a figura de um Salvador que viria para curar, renovar o mundo e suprimir a morte.

Perante uma comunidade constituída por pastores se­dentários emergiu a figura lendária do profeta Zaratustra, o reformador das antigas radiações religiosas e o missionário da pregação da palavra de um único Deus, Ahura-Mazda, uma divindade do panteão antigo, elevada por ele à categoria de Supremo Criador. O profeta construiu então um sistema reli­gioso articulado com a idéia de uma nova e verdadeira pro­posta salvacionista, pressupondo a existência de um Deus, Ahura-Mazda, o "Sábio Senhor" ou "Senhor da Sabedoria" (ou Ormazd na tradução pálavi), que revela a religião, direta­mente a seu profeta Zaratustra. Estas revelações ocorriam através de visões e diálogos durante os quais Deus esclare­cia dúvidas e indicava o caminho da sabedoria e da salvação. Ahura-Mazda é apresentado no Zoroastrismo como mestre e amigo, juiz e colaborador na tarefa espiritual dos homens, o instrutor da sabedoria e da benevolência, criador de todas as boas obras que existem no universo. Dentre estas boas obras estão os Amesha Spentas, seus auxiliares divinos que reunem os homens a Deus e as sete criações materiais que, juntas, formam a obra divina na matéria: o homem, o gado, o fogo, a terra, o céu, a água e as plantas. Este Deus único é o responsável pela luz, pela vida, pela saúde e alegria (27).

As revelações de Mazda fizeram parte da tradição oral do profetismo de Zaratustra, memorizadas pelos seus se­guidores. Esta tradição oral foi compilada nos primeiros sé­culos da Era Cristã, num conteúdo repleto de tradição reli­giosa pré-zoroastriana e, sem dúvida alguma, pré-cristão. Esta forma escrita de livro sagrado passou a ser conhecida como Avesta (palavra que significa prescrição ou funda­mento), do qual, infelizmente, três quartos estão perdidos. (Fala a tradição dum Avesta de 21 divisões, os Nasks, dos quais só um - o Vendidad - permaneceu intacto e do resto so­braram fragmentos. No século III d.C. um rei persa da dinas­tia arsácida reuniu tudo o que existia em escrito ou na me­mória dos fiéis, fixando a forma atual do livro sagrado. Uma parte importante deste material foi destruída durante as in­vasões muçulmanas a partir do século VII). O que sobrou apa­rece organizado em hinos, os Yashts, na coleção de Yasnas, onde se encontram as coleções de hinos de Zoroastro, conhe­cidos como Gathas. É sobre este material que realizam-se os principais estudos do sistema religioso desenvolvido pelo Zorastrismo.

Em primeiro lugar vamos falar do dualismo zoroástri­co. Ahura-Mazda, o criador do mundo pela ação de seu pen­samento e protetor dos homens, vinha acompanhado por uma es­colta de seres divinos (os Amesha Spenta) que eram manifes­tações de princípios divinos e protetores das boas criações do mundo.

Além de ser o criador destas divindades ele era o pai de dois espíritos gêmeos, Spenta Mainyu (Espírito do Bem) e Angra Mainyu espírito destruidor), que por liberdade de escolha optaram por caminhos diferentes: o primeiro, o caminho do Mal; o segundo, o caminho do Bem , numa opção de escolha e não uma questão de natureza. Desta maneira, o dua­lismo da teologia zoroástrica não fazia referência a um Deus do bem e outro do mal, mas apontava a uma oposição entre dois princípios emanados de uma mesma divindade, que, por livre escolha, fizeram sua vocação, não cabendo a Ahura-Mazda a responsabilidade pela criação do mal. A contradição aparente entre a luta do Bem e do Mal era uma referência à liberdade humana de escolher entre o caminho da Luz e da Vida ou o Mundo das trevas e da Morte (28). O mundo era or­denado pela luta entre estes dois princípios, numa oposição metafísica que virava a história linear e dramática dos ho­mens, incerta devido à contínua alternância das potências em combate, porém segura do exílio do bem, nos últimos tempos apocalípticos. Cabia à humanidade participar desta luta, para garantir a vitória final de Ahura-Mazda: luta divina e participação humana resolvem a inserção total no tempo e as vicissitudes cósmicas até a vitória final (29).

Muito importante era a doutrina desenvolvida pelo Zoroastrismo sobre a Ressurreição dos corpos, da salvação final e da vitória do Bem. A crença na ressurreição dos cor­pos estava expressa no Yasht (19, 11, 13, 89 e 129), relaci­onando-a com a chegada do salvador anunciada por Zaratustra e com a grande Renovação Final, num movimento escatológico especial: o mundo renovado e purificado representava uma nova Criação sem a presença de impurezas ou ação do Mal e os ressuscitados receberiam vestes gloriosas e indestrutibili­dade que eram a imagem da imortalidade espiritual num Mundo Transfigurado, que a nova crença conferia aos seus fiéis (30). Alguns autores tentam repensar esta questão da ressur­reição dos mortos no âmbito do Zoroastrismo, recriando uma nova abordagem de coerência lógica: se um novo mundo vai ser instalado, mandava a justiça divina trazer os que morreram antes de tal acontecimento, para participar e receber a justa retribuição pelos seus atos. O tempo Final, após os cataclismas cósmicos, terrenos e sociais, depois da ressur­reição e da grande batalha entre as forças celestes e demo­níacas, será marcado pela passagem do mundo num rio de metal derretido que testará a verdadeira pureza. Quando o Mal for definitivamente derrotado, o céu e a terra se fundirão no melhor dos mundos e o gênero humano que sobreviver espiritu­almente purificado viverá no Reino Eterno de Ahura-Mazda, pela eternidade, livre de toda impureza e maldade (31).


O DESTINO DA ALMA.

(32). O destino da alma após a morte estava diretamente relacionado à soma dos atos praticados em vida; a saúde espiritual dependia da mesma ordem divina superior que regia o universo. Uma vida virtuosa e justa determinava o futuro após a morte. O caminho da salvação está em seguir e imitar o caminho de Ahura-Mazda:

"Mazda limpa o fiel tão rapidamente como o vento forte limpa a planície' (VD. III. 42.).

O homem depende, para os bens deste mundo, dos atos do destino, mas para os bens espirituais do mundo futuro, depende de suas próprias ações.. (Dhalla)."

Após a morte, a alma (urvan) permanecia por três di­as ao lado do corpo, amparada por Sraosha, um anjo esplendo­roso e mensageiro de Ahura-Mazda, que velava pela disputa entre o bem e o Mal. Na terceira noite, um vento perfumado vindo do Sul trazia a imagem do Daema do morto. A construção do daena reflete um dos mais importantes momentos do ensina­mento religioso zoroástrico, e admite dois sentidos: tanto podia ser entendida como uma parte do indivíduo que se li­bertava após a morte, represtando tanto a essência de natu­reza divina interna e comum a todos os seres humanos como também era a própria conduta religiosa do indivíduo (33). Este duplo aspecto da daena manifestava virtudes pessoais e essência divina, na imagem de uma bela jovem "de formosa jo­vem, radiosa, de braços brancos, cheia de vigor, de bela aparência, reta de corpo, grande, de seios empinados, com quinze anos" (Hâdoxt Nask, 9) que pronunciava a seguinte re­velação:

"Gentil que eu era, tu me tornaste ainda mais gentil por teus bons pensamentos, por tuas boas palavras, por tuas boas ações, por tua boa religião; bela tu me tor­naste ainda mais bela; desejável, ainda mais desejável me fizeste (...)" (Hadoxt Nask, 14).

A daena refletia, na morte, a qualidade dos atos e a sinceridade espiritual do indivíduo, e definia o destino da alma em direção a uma dimensão qualitativa, sendo ela que espera o morto na Ponte Chinvat, (Ponte do Separador ou Ponte do Juizo), no começo da terceira noite após a morte, onde ele deve refletir sobre sua vida, seus atos, palavras e pensamentos. Esta ponte revela-se larga para os justos e es­treita para os maus e representa, metaforicamente, o con­fronto da alma com sua essência. Depois da travessia , os Justos davam quatro passos e atravessavam as três esferas celestes, sendo conduzidos pela bela jovem para a Garo-Dema­na (Garotman - o Paraíso) a Casa dos Cantos extáticos, en­quanto os Maus encontram no vento do Norte, uma pavorosa me­gera que os conduz à região das Trevas sem começo, tendo como destino a Drujo-Demana, a Casa da mentira (34).

Este paraíso, o garotman, comporta quatro níveis di­ferentes de estágios da alma relacionados aos bons pensamen­tos e às estrelas, às boas palavras e à Lua, às boas ações e o sol e, no nível mais elevado, ao da Luz Infinita de Deus. Entre o paraíso e o Inferno existe um lugar intermediário, o Hamestagan, destinado às almas iguais em bondade e maldade. As almas aguardam em cada uma destas situações espirituais, o dia da ressurreição geral, quando um novo mundo renovado será habitado pela Bondade e Justiça. O julgamento definidor da situação espiritual é feito no momento que antecede a passagem pela Ponte Cinvat, onde realiza- se a separação das almas (35). Zaratustra anuncia sua presença neste momento fatídico:

"Em companhia de todos eles, eu atravessarei a ponte do julgamento" (Yasna, 46:10).

O homem espiritual compõe-se por certos elementos responsáveis por diferentes formas imateriais de existência. Além da daena, o elemento divino, são três os elementos que constituem a alma: Ahu, o elemento vital; Baodha, a percep­ção ou consciência; Urvan, alma espiritual. Existe também um terceiro aspecto espiritual, a fravarti, um arquétipo celes­te simbolizando as almas pré-existentes dos homens, que, após a morte, chamará a alma individual para a imortalidade (36). A questão das fravarti merece ser melhor esclarecida. Uma noção de origem pré- zoroástrica, representava o espíri­to dos ancestrais que agiam como gênios protetores, sendo invocadas e cultuadas através de ritos específicos. O desen­volvimento desta noção no Zoroastrismo apontou para um sen­tido do Eu superior da alma de todo indivíduo justo e formam um arquétipo celeste de todas as almas já nascidas ou por nascer. A tradição mazdaica fez das fravarti a "proteção", o anjo da guarda de cada ser humano justo e piedoso, tanto du­rante sua vida como após a sua morte.Na qualidade de "anjos protetores dos fiéis", as fravartis lutavam contra as forcas do mal representadas como cavaleiros armados que protegiam o Céu contra as hostes diabólicas, juntamente com os arcanjos e anjos do antigo mazdeísmo (37).

A nova visão do projetismo zoroástrico colocou um deus profundamente ético e apresentou o mundo como o campo de batalha entre os homens e tudo que impedia o estabeleci­mento da Justiça. A existência humana era um combate interno contra pulsões negativas e, exteriormente, contra os agentes do Mal e das Trevas. O zoroastrismo apontou três exigências cardeais: o pensamento puro na oração e fé, a palavra pura dirigida à realização do plano divino e a ação pura lutando pelo estabelecimento de uma nova ordem divina e humana.

Mas, acima de tudo, conferiu um sentido inovador para a morte: ela tornava-se um sacrifício interior, com in­tuito de garantir um destino divino para todos os homens:

"Instrui-vos sobre os caminhos santos e a alegria de uma vida eterna, ó Mazda!

Dita-nos as palavras, os gestos que nos farão criar um mundo digno de tua Ressurreição.

Traga-vos a palavra da saúde, da santidade, da Imorta­lidade. Mazda reina!" (Gathas, 47-50)
AS TORRES DO SILÊNCIO

Os costumes funerários da tradição zorástrica só se­rão devidamente entendidos se os colocarmos diante da inter­pretação religiosa da morte física.

Esta maneira de encarar a morte está ligada à crença religiosa do mundo ordenado pela relação entre os princípios do Bem e do Mal. O Espírito do Mal, Angra Nanyu, havia cria­do forças espirituais demoníacas, os daevas, representados em várias formas (animais, insetos, seres monstruosos), que refletiam sua natureza e função maléfica e destrutiva. Estas forças do Mal apresentavam-se como a violência, a ira, o ca­os, a mentira, a doença, a sujeira e a morte. Desta forma, a morte é uma das ações do espírito do mal, e o local onde ela acontece fica impregnado pela maldade, numa vitória momentâ­nea e aparente de Angra Many, pelo menos até o dia da res­surreição e da Grande Batalha final, após o que surgirá o mundo transfigurado e purificado de Ahurra- mazda, do Bem e da Vida Eterna no Reino de Deus. Nesta perspectiva religi­osa, os restos mortais são considerados impuros, contamina­dos pela vitória do mal.

O costume regional de algumas tribos da °sia Central de expor seus mortos no alto das colinas para serem devora­dos foi herdado pela tradição zoroástrica. Este ritual fune­rário, observado nos dias de hoje pelos parses, faz do corpo morto um objeto especial. Após a morte, o rosto do cadáver é coberto com um véu, o Padan, sendo conduzido e elevado até o alto das plataformas dos dakmas, ou "torres do silêncio", pelos Nassasalars ou "porta-cadáveres", no alto das quais o cadáver é colocado e exposto para ser devorado pelos animais de rapina. O seu esqueleto descarnado é, então, jogado num poço central, um ossário coletivo dos membros da comunidade.

Este ritual de exposição está ligado à sacralização dos elementos terra, fogo e água na interpretação zoroastri­ana. O contato dos dejetos do corpo morto, considerado impu­ro, com qualquer destes elementos divinos, causaria poluição e contaminação indesejáveis em todos os aspectos. A exposi­ção às aves de rapina indicam uma elevação e devolução ao elemento Ar, representado tanto na atmosfera quanto nos ven­tos, numa atitude ritual que reflete um profundo temor em ver o cadáver contaminado os elementos nobres destinados ao culto (no caso do Fogo), a vida (em se tratando da água) e à agricultura (na proteção à terra) (38).

As diferentes práticas relativas aos cadáveres ope­ram-se mediante a restrição do corpo morto a um dos elemen­tos naturais e originais. Alguns mitos fúnebres colocam o defunto nas águas sagradas, consideradas purificadoras e li­bertadoras das formas e espíritos. A cremação é uma prática onde o elemento fogo apressa a destruição do corpo, facili­tando o desprendimento espiritual, a purificação e a trans­migração da alma. Os sepultamentos tem na terra o seu agente primordial e, assim como o embalsamento, fortalecem à idéia de morte-renascimento e ressurreição dos mortos.


DO SHEOL À VIDA ETERNA

O profetismo bíblico também se constituiu num movi­mento importante, que alterou a essência de uma tradição uniforme de relação com a morte no Antigo Testamento, e que não se esgotou com a tradição bíblica de Israel.

O profetismo influiu ao longo de todo o Antigo tes­tamento. Era o modo mais frequente através do qual Deus di­rigia o seu povo (39). Desde Moisés, toda uma linhagem de herdeiros de seus dons, homens e mulheres, guiaram e manti­veram a cultura religiosa durante as dispersões, cativeiros e exílios, foram agentes das Revelações e formaram o corpo doutrinal em torno de três grandes linhas.

A primeira delas tratava do monoteismo absoluto e exigente, num processo que passou da aceitação da existência de outros deuses, embora Iaweh fosse o único Deus de Israel até a afirmação da existência de um só Deus, absoluto e uni­versal. Neste caso, não existia mais espaço para nenhum ou­tro Deus e Iahweh transformou-se no Criador e Senhor de todo o universo e a religião da tradição monoteísta judaica ad­quiriu o seu caráter mais radical e ortodoxo. Esta divindade única exibiu muitas faces. Cruel, vingativo, zeloso, ciumen­to e protetor dos seus eleitos, era uma divindade caracte­rística das sociedades arcaicas e guerreiras. Bondoso, terno e protetor de seu povo, foi uma divindade transcendente que os protegia nos momentos de sofrimento e destruição, mas também os repreendia, castigava, amaldiçoava. A fala divina variou de acordo com a situação histórica , o local e a época.

Um segundo aspecto estava ligado à função moral das profecias. A partir de um contato direto com Iahweh, fosse pela visão, audição ou inspiração, os profetas falavam da revolta divina contra uma determinada situação estabelecida, contra a natureza humana e a natureza das coisas. Toda a fala profética apontava para a necessidade de transformação de hábitos, práticas e da unidade religiosa. Os profetas in­vestiram contra as estruturas sociais, condenado o modo de vida, a idolatria, a ambição, o luxo, a hipocrisia, as mal­dades e as injustiças, mas, acima de tudo, a desobediência às leis de Iahweh. A possibilidade de superar este estado calamitoso da existência estava na obediência à Iahweh, numa vida pautada pelos princípios religiosos e no cumprimento dos mandamentos. Assim, os profetas desempenharam um papel ético e moral pregando o combate ao pecado, garantindo a unidade cultural e religiosa do povo escolhido através de tantos séculos.

O terceiro aspecto profético estava ligado à possi­bilidade de Salvação. A idéia de salvação evoluiu dentro do pensamento religioso profético junto com a imagem de Deus. Não era mais apenas punição ou castigo. Após o julgamento final, o Senhor pouparia aos que se revelassem justos e fi­éis cumpridores da Lei. A estes concederia a salvação e fe­licidade eternas. O Reino de Deus e de seus eleitos seria de felicidade, num clima espiritual de prosperidade, justiça, santidade, perdão, conhecimento de Deus, paz e alegria. Este sonho esperançoso alimentou séculos de religião aguardando a vinda do Messias, o Julgamento Final, o reino de Deus e a salvação eterna.

O Profetismo judaico introduziu o tempo das esperan­ças, o tempo de promessa e da Salvação. O destino de um povo dependia de sua fidelidade à Aliança e a Lei violada por IAHWEH, para assim merecerem a vinda do Reino de Deus e a Vida Eterna. O profetismo afirmou que o futuro e a salvação dependiam da confiança nos valores divinos (40).

Uma das conseqüências importantes do profetismo foi o fato de que, ao combater a idolatria, o paganismo e os cultos aos diferentes deuses, terminou por promover uma pro­funda dessacralização e desvalorização da Natureza, da reli­giosidade cósmica, dos ritos agrários e de fertilidade que caracterizavam todas as crenças religiosas. Esta dessacrali­zação da natureza foi sinal de uma nova visão religiosa: a valorização da história, os acontecimentos históricos como portadores de um valor próprio, a tradição, na medida que eram determinados pela vontade de Deus (41).

Em Isaías, a morte era simbolizada pelas trevas, ig­norância e falta de fé. O xeol era o espaço sombrio dos mor­tos esquecidos e adormecidos, o mundo abismal que nivelava os homens na sua ignorância. Os mortos ímpios e iníquos es­tavam condenados a não reviver nem ressurgir. Suas sombras seriam exterminadas e esquecidas. Aqueles que fossem elei­tos, porém, tornariam a viver, ressurgiriam, passando das trevas à luz despertando e cantando. (Is 26, 14, 19).

Num dos oráculos mais sombrios de Jeremias, a morte era vista como um castigo infligido por Iahweh, e que podia se estender pelos despojos, profanados de maneira irremediá­vel e sem salvação. Aparentemente, a profanação dos restos mortais indicava a mais completa impossibilidade de salvação ou repouso após a morte: a profanação das sepulturas, ossos desenterrados e espalhados são conseqüência trágicas da con­duta errada do homem, da sua falta de respeito para com os princípios divinos. Os ossos secos, espalhados, os corpos insepultos compõem a imagem da árida imobilidade e inutili­dade dos mortos. (Jr 8,1-3).

Em Ezequiel, que atuou entre 593 e 571 a.C. durante o exílio na Babilônia, encontramos uma mudança. Foi o desen­volvimento de uma forma de religiosidade mais espiritualiza­da que atravessou o Judaísmo e desembocou no Novo Testa­mento. Toda a doutrina de Ezequiel tinha por objetivo cen­tral a renovação interior, a benevolência divina diante do arrependimento, a onipresença de Deus e a promessa de retri­buição individual no além-túmulo. Suas monumentais visões e profecias anunciavam as correntes apocalípticas que influen­ciarão toda a tradição cristã, sobretudo o Apocalipse de São João. A morte espiritual era uma extensão dos pecados e da iniqüidade, e podia ser a Salvação ou a perdição eterna: (Ez 18,4,21,24)

O estado do morto pecador no Sheol era o do morto es­quecido, que não existia, num castigo sombrio pela eterni­dade. A cova, um lugar subterrâneo onde eram reunidas as al­mas dos mortos sem salvação. Porém, aqueles que fossem fi­éis, venceriam a morte e, pelo poder de Iahweh, ressurgi­riam. Este poder supremo de reviver, tornar a vida pela in­suflação do sopro divino, o Ruah, foi demonstrado durante a ressurreição no campo dos ossos secos. Iahweh usou seu poder para recompor os ossos espalhados num vale, juntando-os, co­brindo-os de tendões, músculos, carne e pele para, final­mente, insuflá-los com o ruac, o sopro divino, o espírito vital que anima a vida. (Ez 37, 11-14).

Mas seria com o profeta Daniel, num livro composto durante a perseguição de Antíaco Epifanes entre 167 e 164 a.C., e que se destinava a sustentar a fé e a esperança, que apareceu a primeira referência incontestável à ressurreição dos mortos. O profetismo deste período estava profundamente alterado e influenciado pelos sincretismos religiosos de sua época, sobretudo pela influência iraniana. Entre histórias de sabedoria, revelações de segredos divinos para um enigmá­tico futuro, um novo gênero apocalíptico foi inaugurado: o Tempo que estaria próximo, a esperança do Reino e a espe­rança da vinda do Senhor.

Numa transposição literária que transcendeu o tempo, o texto apresentou o sentido profético da história, os desígnios secretos de Deus e a ressurreição dos mortos para a vida ou a vergonha eterna. Este foi o principal mo­mento do Antigo Testamento sobre a ressurreição e a trans­formação escatológica dos corpos gloriosos. (12,2-4).

Escrito em uma época tardia, foi um marco sob o ponto de vista doutrinal.Foi a afirmação, clara e indiscutí­vel, do anúncio da ressurreição e do julgamento, da reafir­mação do poder absoluto de Deus sobre a vida e a morte, da ação retroativa deste poder sobre todas as vítimas da morte, de seus corpos e almas, para uma nova vida, um novo homem, nova terra e céu. Era a vitória final de Iahweh como Deus dos vivos, no Grande Dia Final.

Como decorrência surgiram a noção de julgamento numa vida após a morte, as concepções de céu e inferno, o Fim dos Tempos, a redenção messiânica e, final­mente o advento do Mundo Ideal. De acordo com esta doutrina, que se desenvolveu como a base do Judaísmo, a própria morte seria vencida e os mortos triunfariam na ressurreição e no encontro com o Deus da Vida Eterna. A injustiça e a dor pas­saram a ser vistas como transitórias, no longo caminho que conduzia os homens à libertação. (Dn 12, 11-13).

A partir de Daniel, a religião passa a ser apocalíp­tica. Todos os textos, profecias e tradição judaicos insis­tem na importância do arrependimento, pois o mundo aproxi­mava-se do fim, de acordo com o os planos de Iahweh. A his­tória precipitava-se para o fim e chegava a hora do triunfo de Israel, dos justos e dos eleitos. Este fim seria anunci­ado com catástrofes, cataclismas e fenômenos cósmicos ber­rantes. No fim do mundo, aconteceria o grande julgamento e a ressurreição dos mortos e a salvação. Os mortos tornariam à vida, para o Julgamento Final e os justos e ímpios teriam a Vida Eterna ao lado de seu Senhor.


Catálogo: ~elmoura
~elmoura -> Os corpos sutis: uma contribuiçÃo aos estudos espíritas. Prof a. Dra. Eliane Moura Silva
~elmoura -> Por uma ciência da morte: fenômenos, fatos e provas
~elmoura -> MAÇonaria, anticlericalismo e livre pensamento no brasil (1901-1909)
~elmoura -> Ifch unicamp
~elmoura -> A tradiçÃo hermética e mágica de giordano bruno. Profa. Dra. Eliane Moura Silva Dep. De História/ifch/unicamp
~elmoura -> Prof. Dra. Eliane Moura Silva. Departamento de História. Universidade Estadual de Campinas
~elmoura -> ConsideraçÕes finais
~elmoura -> O cristo reinterpretado: espíritas, teósofos e ocultistas do século XIX
~elmoura -> \capítulo 4 : a razão da igreja o purgatório em crise
~elmoura -> Pudessem da morte os agentes visíveis do invisível, dissolver de vez, além da forma vista, o conteúdo envelhecido, desgastado, corroído. Também da alma, o sofrimento, a mágoa, o dolorido


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal