Capítulo 3: em busca da salvaçÃO


O TRIUNFO DA SALVAÇÃO ETERNA SOBRE A MORTE



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O TRIUNFO DA SALVAÇÃO ETERNA SOBRE A MORTE

Da morte natural inevitável dos que repousavam em seus campos, " fartos de dias" , junto com seus familiares, ao destino escatológico, à ressurreição dos mortos e o jul­gamento para se chegar à Vida Eterna, nas provações do Ju­daísmo, um longo caminho foi percorrido.

Apesar dos inúmeros pontos controvertidos, foi a re­ligião que colocou mais fortemente a importância da vida, da ética, da moral, da conduta correta e da obediência a Iahweh, para chegar à paz, à lembrança e, nos últimos sécu­los, à Vida Eterna, em detrimento de cultos e crenças fúne­bres, dos mistérios iniciáticos. A morte física era vista como natural e inevitável; o que preocupava era a morte es­piritual, punitiva, que excluía a memória, a lembrança, re­metia às sombras e aos subterrâneos do Sheol e, posterior­mente, vedava a Vida eterna ou seja, a destruição e sofri­mento irreversíveis. As ações dos homens para com o Senhor, a obediência aos Mandamentos, a fé irrestrita em Iahweh se­riam a marca da tradição religiosa judaica através de todo o Antigo Testamento (42).

Através do tempo, nas incertezas, nos exílios, cati­veiros, diásporas, nomadismo, em busca da Terra Prometida, nas desobediências e crenças paralelas contra as quais fala­ram sacerdotes e profetas, não foram os monumentos funerá­rios, os cultos aos mortos o elemento de união, e sim a fé que uniria mortos e vivos numa comunidade dos eleitos de Iahweh, em torno das Leis e Mandamentos.


O DESTINO DA ALMA NA SALVAÇÃO CRISTÃ

O Cristianismo deu continuidade ao movimento profé­tico e a mensagem de salvação pela fé, sob o signo da pro­funda renovação religiosa, sobretudo de um novo preceito de amor que o distanciou da matriz do profetismo de Israel. En­quanto uma tradição religiosa salvacionista manteve caracte­rísticas básicas. Em primeiro lugar, não foi mais um culto de mistério de sua época porém uma religião atualizada, en­carnada na imagem do Cristo ressuscitado para a eternidade e a Vida Eterna. Em segundo lugar, exprimiu com simplicidade e universalidade, o apelo à salvação e à imortalidade indivi­dual, aberta a todas as aspirações (43).

A morte não era mais do que o castigo do pecado. Não se po­dia fugir da morte, mas a redenção da carne era o resgate da morte. O sofrimento identificava-se com a recompensa, num sacrifício permanente, análogo ao de Cristo, para justificar a Vida eterna e a Imortalidade.

A gloriosa ressurreição, demonstrada pelo salvador, reconciliava a alma imortal na gloria de um novo corpo, numa metamorfose da incorruptibilidade para a Vida Eterna, supe­rando o desejo da salvação da carne. (I Cor 1, 54-7).

A força mística do Cristianismo falou aos sentimen­tos, desejos e sensibilidade de cada época, na busca da imortalidade dentro da condição mortal de cada homem:

"Tudo isso produz o único e mesmo Espírito. (...). Porque como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, formam um só corpo, assim também Cristo. Assim todos nós, judeus, gentios, escravos, livres, fomos batiza­dos num só espírito, afim de formarmos um só corpo, sendo todos impregados de um só espírito.(I Cor 12, 11-13).

Nos textos do Novo Testamento, como em toda tradição judaico- cristã, a morte a vida após a morte ocupa­ram um espaço pequeno e pouco espiritualizado. O que estava em jogo era a Salvação para a vida Eterna, a eminência do Fim dos Tempos, o Julgamento Final.

O tema da Ressurreição dos mortos e do próprio Cris­to foi visto numa perspectiva particular. Tantos os milagres da ressurreição feitos por Jesus como o próprio mistério da ressurreição do Cristo tiveram um papel importante dentro da escatologia e da promessa de Salvação anunciada pelos profe­tas. A Ressurreição era uma prova do poder de Deus, do ver­dadeiro Messias e deveria fortalecer a fé diante da morte. O verdadeiro crente não temia a morte, pois acreditava na ressurreição e na Vida Eterna.

Porém, o tema da ressurreição dentro do Cristianismo conservou elementos do antigos mistérios da morte e renasci­mento da vegetação, bastante arraigados nas crenças popula­res, revelando certas relações tradicionais do homem com o sagrado, que a construção da religião católica oficial in­corporou, embora conferindo novos sentidos. (47).

Além dos antigos ritos agrários e de fertilidade, o simbolismo da ressurreição caracterizava as religiões de "mistérios" e iniciáticas, explicando a morte e a vida futu­ra como, por exemplo, o mito de Osíris, sobrevivente do com­plexo de religiões de mistérios da época helenística. A morte e a ascensão do deus, suas experiências de sofrimento, morte e ressurreição, o papel de juiz dos Mortos, em suma, a lenda da morte e ressurreição de Osíris era uma das crenças deste período, com seus templos, rituais diários e festas públicas ligada à estações do ano, à posição dos astros.

Muitas outras religiões afirmavam que os deuses, como Osíris, Dionísio ou Atis morriam e ressuscitavam. Este poder de renascer estava relacionado aos movimentos cíclicos da natureza e da fertilidade. Contudo, desde a época hele­nística e perdurando por todo o período do surgimento do Cristianismo, a promessa da salvação individual caracterizou o pensamento religioso.

No caso do Cristianismo à morte e à ressurreição de Cristo serão acrescentados outros elementos. A lembrança, a memória da vida de Jesus seria um modelo exemplar para todo cristão. A imagem do Cristo ressurgido foi fundamental para a vitalidade religiosa do Cristianismo, conferindo à figura de Jesus uma atualidade constante: ele não era um símbolo morto, mas um testemunho vivo do poder de Deus para ressus­citar os mortos. A morte e a ressurreição sinalizavam uma nova aliança com Deus oferecendo a salvação aos seguidores.

Os cristãos, discípulos e fiéis, necessitavam mais da ressurreição do que outros. Ela imprimia um caráter divi­no, místico e sobrenatural à figura de Jesus. Também ligou a figura do Messias a uma tradição religiosa muito antiga das seitas iniciáticas e de Mistérios. De acordo com estas reli­giões, a salvação passava por provas e ritos de caráter ini­ciático de morte e renascimento, assim como o batismo e a comunhão. O batismo cristão, a eucaristia no mistério do pão e vinho transmutados em carne e sangue do Salvador, marcam o processo de sincretismo com antigas crenças.

No caso de alguns apóstolos e discípulos que não co­nheceram o mestre, como Lucas e, sobretudo Paulo, convertido por uma aparição de Cristo, a imagem da ressurreição confe­ria uma profunda atualidade divina, promovendo a imagem de um Messias imortal. O Cristo ressuscitado acompanhou a con­tinuação de sua missão dos apóstolos e seguidores. A imagem do Cristo foi um símbolo vivo, atuante, redevivo, a personi­ficação da salvação, um exemplo pessoal de como vencer a morte e chegar à Vida Eterna.

A salvação tinha na Ressurreição de Cristo uma prova concreta. A mensagem salvadora ganhou expressão real. A Vida Eterna foi obtida no exemplo da vida e morte de Jesus, atra­vés de um exercício de fé, comportando sofrimentos, humilha­ções, paciência, abnegação, a estrita obediência à vontade de Deus e, o menor de seus males, a morte física.

Em torno da figura do mestre ressuscitado cristali­zou-se toda uma simbologia e mitologia semelhante a dos deuses salvadores e do homem divinamente inspirado, junto com o profundo substrato das crenças agrárias e das religi­ões e das religiões de Mistério. Graças a esta simbologia e mitologia universais foi possível a linguagem religiosa do Cristianismo tornar-se ecumênica e acessível em limites es­paciais e culturais diferentes. A figura daquele que morreu para salvar o mundo será constantemente apregoada sobre as consciências cristã, junto com a idéia de pecado, de culpa primordial e da dívida eterna com o Salvador.

O SURGIMENTO DA IGREJA

O nascimento da Igreja, no ano 30 d.C. no dia de Pentecostes, descrita no Atos dos Apóstolos (2:1-4) apareceu como um momento especialmente carregado de simbologia mís­tica: No dia de Pentecostes, fenômenos cósmicos, línguas de fogo, o dom de falar vários idiomas, marcaram a presença do Espírito Santo entre os apóstolos. Diante da multidão reuni­da e estarrecida pelo fenômeno inusitado e repleto de sign­ificado religioso, Pedro falou da figura de Cristo, de sua ressurreição e vitória sobre a morte.(Atos, 2:23-2),(24).

A vitória de Cristo sobre o Hades, lugar das sombras desmemoriadas e esquecidas, pálidos reflexos da existência temporal, foi possível pela Ressurreição. A vontade de Deus, a Ressurreição foi uma superação da condi­ção degradante da morte. Crer era vencer a morte, ressurgir vencendo as trevas e a ignorância.

PAULO E A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS

Os mais antigos textos cristãos são as epístolas de Paulo escritas antes de 60 a.C. A nova fé foi apresentada na forma de longas pregações e discussões com o objetivo de or­ganizar comunidades e esclarecer a doutrina dentro do hele­nismo, em um período anterior ao da composição dos evange­lhos.

A cristologia de Paulo, um homem culto e intelectua­lizado, colocou a Ressurreição como o acontecimento revela­dor da natureza divina de Cristo, tentando adaptá-la ao pen­samento grego. A crença na ressurreição dos corpos comparti­lhada pela maioria dos judeus era considerada insensata para a tradição grega da imortalidade da alma, opinião esta com­partilhada por várias tradições helenísticas como o orfismo, pitagorismo e a filosofia platônica. Paulo tentou articular a concepção de origem grega da imortalidade da alma, obtida imediatamente após a morte, com uma pós-existência que não puramente desencarnada: um "corpo espiritual" que sobrevivia à morte e ressuscitava. (I Cor, 1:42-52)

Para Paulo, como para tradição bíblica e grega, a psyché (ou nefesh, em hebráico) era o princípio vital que animava a alma. Contudo, a Psyché como um princípio natural devia apagar- se diante do pneuma, o sopro vital, única pos­sibilidade do homem encontrar a vida divina e espiritual após a morte. Ao contrário do pensamento filosófico grego, que colocava a sobrevivência da alma superior liberta do corpo, no Cristianismo a noção de imortalidade estava ligada à restauração integral do homem pela ressurreição dos corpos espirituais, transformados através do Espírito, como um princípio divino que Deus retirou do homem como conseqüência do pecado. Este princípio só seria devolvido através da união do fiel com o Cristo ressuscitado. A ressurreição transformaria o corpo físico em corpo espiritual, incorrup­tível, imortal, liberto da matéria terrestre e de suas apa­rências (48).

Diferentemente da maioria das religiões, a tradição judáica-cristã muito pouco espiritualizada, e principalmen­te, o Cristianismo, não chegou ao um nível de sutileza espi­ritual que permitisse separar, por exemplo, alma e espírito. Dividindo o homem em corpo e alma, matéria e espírito, per­deu-se a antiga tradição, sobretudo oriental, de perceber diversos princípios espirituais, corpos fluídicos que compu­nham a natureza viva e que se libertavam após a morte. Limi­taram-se a ensinamentos de ordem prática, em modelos exem­plares e na construção dos dogmas da fé. A palavra "espírito" é usada como sinônimo de "alma". No léxico comum do Cristianismo, os mortos e espectros são "espíritos". S. Paulo associou na I Epístola aos Coríntios a palavra "espírito" com o corpo de natureza espiritual, incorruptí­vel, que conduziria a alma imortal para a salvação.

Este movimento prolongou-se durante os séculos pos­teriores através dos primeiros teólogos, convertendo-se em ponto central da teologia cristã. Isto de tal forma que as religiões da tradição judáico-cristã, inclusive o Islamismo, abandonaram todas as reflexões de natureza mais espiritual. Este espaço foi ocupado pelas inúmeras seitas, grupos inici­áticos e de conhecimento esotérico à margem das grandes re­ligiões, como o cabalismo, o gnoticismo cristão e o sufismo, frequentemente condenados e perseguidos como heréticos.

A ressurreição dos mortos e a ascensão dos vivos recuperou um argumento dotado de forte poder simbólico, bem conhecido na época: o do Salvador que desceu na Terra vindo Céu depois retornou tendo trazido um benefício para os ho­mens. Este papel diante da comunidade cristã de vivos e mor­tos foi exaltado em várias passagens onde Paulo revelou a "palavra do Senhor", como, por exemplo, na Primeira Epístola aos Tessalonicenses, escrita em Corinto no ano de 51 d.C. (4: 13-18).

Paulo reafirmou a ressurreição dos mortos, a trans­figuração espiritual dos vivos para robustecer a fé e espe­rança da comunidade cristã e emergente. No texto original, "os mortos" são literalmente " aqueles que jazem adormecidos " num eufemismo característico e natural tanto do Antigo como do Novo Testamento. A ressurreição era considerada como um despertar pois a imagem do sono implicava na possibili­dade do retorno à vida. A associação morte-sono trouxe um elemento importante numa crença que defendeu o ressurgi­mento, o despertar de algum momento. Várias passagens da vida de Jesus reafirmaram o sono dos mortos.
OS EVANGELHOS E AS IMAGENS DA MORTE

Nos Evangelhos, a vitória final sobre a morte apre­sentou uma dimensão bem interessante, embora não fosse uma novidade na tradição judaica: colocou a possibilidade da eternidade ao alcance dos novos fiéis, independente do fato de pertencerem ao grupo dos eleitos da tradição judaica. A salvação e a vida eterna tornaram-se acessíveis aos homens em geral, desde que seguissem a nova doutrina, as palavras do Mestre e aguardassem com fé e esperança, o momento esta­belecido para alcançar a consagração pela Eternidade.

A máxima apregoada pelos Evangelhos proclamava a vi­tória da Boa Nova sobre a Morte e os poderes do Mal. O Mes­tre havia descido aos Infernos do Sheol, porém ressuscitara, livre do poder temporal da morte. Seu martírio constituía-se em exemplo a ser seguido pelos fiéis. A Vida Eterna, um prêmio para os justos, assim como um castigo eterno para os ímpios e infiéis. Largo era o caminho que conduzia à perdi­ção e por ele seguiam os ignorantes da verdadeira fé com seus pecados. Estreito o caminho que conduzia à Vida; poucos o trilhariam para a salvação do poder da Morte, do destino de desolação.

Esta promessa de salvação foi reafirmada por todos os evangelistas. A morte de Cristo, afirmavam, simbolizava o início da era escatológica, a libertação dos mortos. (MT 27, 3-54). As aparições de Cristo aos discípulos confirmavam sua ressurreição, o poder da fé diante da morte e a ação do Salvador mesmo depois de morto, pois ressuscitou para conti­nuar conduzindo discípulos e fiéis. A vida de Cristo emanava do poder de Deus. Milagres de cura, de ressurreição de mortos, demonstravam a força de Deus através de seu enviado

As imagens da morte para os que desconheciam a men­sagem cristã estavam associadas à noite, trevas, desgraças, lágrimas, pecado e ignorância. A morte cristã transparecia em metáforas de luz, espiritualidade vitoriosa, símbolo de vida, de libertação, salvação e vida eterna. Este simbolismo podia ser interpretado como a morte física mas também, e principalmente, a da morte de si mesmo diante dos valores e do mundo material. Da mesma forma a ressurreição tanto reme­tia a recuperação do corpo como o renascimento de uma nova criatura e uma nova vida de acordo com a fé cristã.

Mas, o que ressurgiria? O corpo material, sangue, veias, tendões e carne? Ou o "corpo espiritual" de Paulo? O que apareceu com Cristo ressuscitado? Um corpo físico ou um "corpo espiritual", de natureza diversa, um corpo de ressur­reição, diferente de tudo conhecido até então? Esta questão teria profunda repercussão no Cristianismo posterior. Duran­te séculos, foram os mortos ressuscitados, em corpo e alma, que sairam de sua sepultura para, em fila, comparecer ao Julgamento Final. Mortos adormecidos acordavam ao som das trombetas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo usaram estas imagens da morte e dos mortos.

Porém, um grande número de cristãos e de filosofias religiosas da tradição judaica crista reviram esta questão da imortalidade e da ressurreição.. Correntes esotéricas e espiritualistas, dentro e fora do Cristianismo, chegaram a elaborar uma teoria sobre o "corpo glorioso" ou "corpo de ressurreição" como uma demonstração da unidade absoluta en­tre todas as coisas, a superação da dicotomia espírito-maté­ria, a chave da imortalidade, o sagrado matrimônio entre ma­téria e espírito. Sempre houve a interpretação de que o cor­po glorioso de Cristo, embora idêntico a si mesmo, tinha um estado novo, modificado e livre das condições do mundo mate­rial. Era um corpo novo, incorruptível.

Para estas correntes religiosas, o caso de Cristo não foi o único. Entre outros, havia Apolônio de Tiana, ar­rebatado diante do Imperador romano e de grande multidão. Em tempos mais contemporâneos sobretudo à partir do século XIX, rosacruzes, teosófos, correntes orientalistas e os espíritas recolocaram esta questão em termos de "corpo astral", peris­pírito, "corpo psíquico", "corpo fluídico", corpo bioplasmá­tico ou ectoplasmático, que sobreviveria, por um tempo de­terminado, fosse até a próxima encarnação ou até ser absor­vida pela Alma Universal.



A MENSAGEM EVANGÉLICA NA VITÓRIA SOBRE A MORTE

A grande e inquietante transformação religiosa con­tida na pregação dos evangelhos reside no poder da Mensagem Divina aos vivos. O caminho da Luz ou das Trevas eram opção feitas durante a vida e não depois da morte, pois os mortos jaziam, repousavam adormecidos. O verdadeiro despertar acon­tecia durante a vida, e significava não morrer espiritual­mente, sendo o adormecimento uma metáfora. Chegamos então ao Deus dos Vivos, ao Deus da Eternidade do Espírito.

A salvação aprego­ada por Cristo, miraculosamente representada nas curas, nas ressurreições exemplares da filha de Jairo ou de Lázaro, na sua própria ressurreição, simbolizavam o essencial da Boa Nova: a Vida Maior, do Espírito Eterno e Imortal, que estava em tudo. Deus estava dentro da Vida e a Vida dentro de Deus: este conhecimento representava a salvação. Uma maneira par­ticular de encarar a morte e o destino espiritual: um refi­namento de hábitos, das idéias, das práticas, dos sentimen­tos e sensibilidades. Era a morte da forma, a transformação, a mutação e o surgimento de um Novo Ser.
O SONO DOS MORTOS

Junto com as mensagens de Paulo, as interpretações sobre a ressurreição de Lázaro, da filha de Jairo e do pró­prio Cristo marcarão a consciência do cristianismo emergente e de um largo período da Antiguidade tardia e Idade Média.

O poder da fé venceria a morte: esta não era mais do que um sono hipnótico, um repouso aparente da alma e do corpo, aguardando o dia da Ressurreição e a Vida Eterna ao lado do Senhor. Os milagres de Jesus reafirmavam a imagem do sono dos mortos. (Marcos, 5: 38-42). (João, 11: 11-15)

Os primeiros cristãos julgavam que os mortos dormiam um sono longo e indefinido, dentro de uma espécie de insen­sibilidade hipnótica, aguardando o dia da ressurreição, o despertar para a vida eterna. O próprio termo "cemitério", desde os primórdios fazendo parte do léxico cristão, signi­ficava, em grego, "o local onde se dorme" (49).

No caso do Cristianismo, a imagem do sono pode ser interpretada de duas maneiras: em primeiro lugar, a visão tradicional associando a morte às imagens de sono, adormeci­mento, frio e escuridão. A morte representava um descanso, um repouso das agruras, vicissitudes, cansaços e sofrimentos impostos pela vida. Viver significava sofrer, lutar, adoe­cer, padecer, mesmo que fosse no caminho da Salvação. "Descansa em Paz": o epitáfio tão sugestivo ainda hoje en­contrado nos cemitérios, durante as cerimônias fúnebres. Em segundo lugar, a imagem do sono na visão cristã foi contra a idéia de morte como aniquilamento total sem possibilidade de retorno. Quem dorme e repousa pode ser despertado, acordado, chamado à vida e à ressurreição. Desta maneira, a imagem do sono vinha revigorada por uma nova crença: morrer era sim­plesmente dormir, e aquele que repousava na fé cristã des­pertaria no dia aprazado para a Glória e Vida Eterna.

Esta concepção marcou algumas das catacumbas mais antigas dos primeiros cristãos romanos. A catacumba de S. Calixto e seus familiares, do século III d.C. possui um epí­grafe aludindo à ressurreição dos mortos e manifestando a convicção de que a pequena Severa permanência naquela morada de paz até o momento do Senhor reunir seu corpo à sua alma imortal (50). Estas catacumbas também apresentavam, como de­coração, várias cenas representando a ressurreição de Láza­ro.

Tratava-se não somente da morte como repouso mas do repouso da alma no próprio túmulo, numa ligação entre o corpo e alma. Acreditava-se que a alma ficava retida em seu corpo na sepultura entre o sono dos justos e o sobressalto e pesadelo da consciência intranqüila. Nesta condição interme­diária, dependendo do grau de sossego espiritual do morto, ele via sem ser visto, ouvia sem ser ouvido, dia e noite sem descanso, numa vida sem vivência, suspenso entre dois mundos e preso ao corpo.

Um destino celestial ou infernal para alma, na con­cepção tradicional do Cristianismo antes do surgimento do Purgatório no século XII, só seria possível após o Julga­mento Final. Muito lentamente, a religião crista foi sepa­rando corpo e alma, construindo uma representação celestial ou subterrânea do destino da alma enquanto esperava a Res­surreição e a vida ou condenação pela Eternidade.

Através da ascensão da cristandade, da organização institucional da Igreja, a doutrina crista sobre o Além pas­sou a esclarecer os vivos sobre o sentido da morte, preser­vando a memória dos mortos de uma mesma comunidade. O desen­volvimento da eucaristia garantiu um papel fundamental aos cultos fúnebres, relembrando perante a comunidade crista o nome do todos os que faleceram na mesma crença. Esta solida­riedade demonstrada pelos cristãos, tanto os vivos quanto os mortos, foi um pólo agregador de fiéis: mesmo durante epide­mias, guerras e os cercos das cidades, eram os cristãos os únicos que se preocupavam em enterrar os mortos (51).

O desenvolvimento dos grandes cemitérios, a "terra consagrada" dos mortos ao redor das basílicas, a prática da deposito ad sanctos, garantiam uma integração bem visível dos mortos na cristandade (52).

No caso do Cristianismo, a convivência com os cris­tãos falecidos deu um novo sentido devocional à relação en­tre mortos e vivos, sobretudo ao valor religioso das relí­quias e à sacralizaçao dos cemitérios e túmulos no culto eu­carístico que se organizou, a partir da tradição dos banque­tes funerários (53).

Houve, evidentemente, sobretudo por parte dos que se preocupavam com a pureza evangélica e a organização institu­cional e teológica da Igreja, a preocupação com uma atitude pagã de culto aos mortos, aos ancestrais, aos ritos de fer­tilidade que pudessem estar ganhando espaço em detrimento da mensagem da Salvação. O túmulo retomava o seu lugar de al­tar e os cemitérios lugares de culto. Desta forma, aos pouco, estabeleciam-se paralelos fora do controle da insti­tuição e da Igreja. Os mortos podiam ser cultuados em pers­pectiva diferente daquela que a Igreja pregava.

Todos os teólogos falarão sobre o assunto, repreen­dendo e alertando sobre os perigos da idolatria e de práti­cas necromânticas, resgatando a pureza da fé e da mensagem crista da salvação. Porém, estas crenças e práticas resis­tiram nos submundos da religião oficial e foram marcando espaço. Muitas das crenças e concepções de Além que prolife­raram na religião católica, entre toleradas e oficialmente integradas aos cultos e dogmas têm suas raizes nestas formas nada ortodoxas, mas pagãs e antigas, de ver a morte, os mor­tos e o destino espiritual.

A representação do repouso das almas, do sono dos mortos foi uma das formas mais antigas e persistentes de descrição da situação da morte, e nunca desapareceu por com­pleto do imaginário religioso, sobrevivendo em orações, em intenções litúrgicas oferecidas para o descanso das almas, respeito e reverência demonstrada aos cemitérios, revelando um as (54).

Esta no­ção de sono dos mortos permanecerá durante séculos na arte funerária, na liturgia, em outras manifestações religiosas como, por exemplo, nas religiões reformadas do século XVI. Trata-se de uma imagem antiga, popular e constante da exis­tência post-mortem. Porém, esta concepção foi, aos poucos, adquirindo algumas modificações importantes, ressaltando uma nova função para o estágio intermediário da morte.


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