Capítulo 3: em busca da salvaçÃO


O LENTO DESPERTAR DOS MORTOS



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O LENTO DESPERTAR DOS MORTOS

As imagens do sono dos mortos sofrerão uma lenta e progressiva alteração durante alguns séculos, fruto de ade­quações, concessões a certas crenças populares e produto de concepções desenvolvidas pelo primeiro teólogo da Igreja. Os fundamentos da idéia de um lugar intermediário das almas ga­nham espaço, apoiados em correntes filosófico-religiosas gregas, principalmente nas concepções platônicas divulgado­ras do orfismo e pitagorismo, característicos da fusão entre o helenismo e o Cristianismo na teologia cristã de Alexan­dria (55).

Entre os séculos II e IV estarão estabelecidos cer­tos questionamentos sobre o estado espiritual entre a morte e o Juizo Final, da existência de uma escala de pecadores e uma perspectiva de diferenciação entre eles, assim como a crença na possibilidade de salvação de algumas almas em pe­cado após determinados tipos de provação a que seriam subme­tidas em um estágio espiritual intermediário.

O perdão e a possibilidade de arrependimento das al­mas após provação e ajuda das devoções dos vivos são noções que crescem nas construções teológicas e dogmáticas da Igre­ja. Muitos dos fundamentos estavam em crenças religiosas bastante arcaica, traduzidas nas imagens de Fogo Purifica­dor, Rejuvenescedor e Regenerador, comuns a este período. Este também era o caso da Fênix símbolo da tradição mitoló­gica grega mostrando a possibilidade de passagem, através de uma série de provas e purificações, à imortalidade e ressur­reição.

A iconografia das catacumbas cristãs dos primeiros séculos refletiam um momento muito preciso da história das mentalidades religiosas deste período. Mostravam profundo sincretismo, perceptível na utilização de certos simbolis­mos, como a imagem da Fênix e do Pavão representando a res­surreição ao lado de imagens típicas do Novo e Antigo Testa­mento.

As crenças numa situação intermediária das almas, na possibilidade dos vivos ajudarem os mortos estavam entre os primeiros cristãos. Este foi o caso das visões de Perpétua, mártir cristã na África durante as perseguições de Sétimo Severo em 203.

Severa, durante a prisão, quando estava rezando com seus companheiros, ouviu uma voz falando o nome de Dinocra­tes, seu irmão falecido há bastante tempo Teve a intuição de pedir alguma coisa em seu favor através de preces dirigidas ao Senhor. Na noite seguinte, uma aparição durante o sono confirmou seus presságios:

"Durante a noite seguinte, eis aqui a aparição que tive: veio Dinocrates saindo de um lugar de trevas em que se encontrava com outros mais, todo queimado e se­dento, descabelado e sujo, e em rosto a ferida que ti­nha ao morrer. Dinócrates era meu próprio irmão; havia morrido de doença com a idade de sete anos, o rosto devorado por um cancro maligno, e sua morte havia co­movido todo mundo. Eu tinha rezado por ele: porém, en­tre eu e ele havia uma distância tão grande que não podíamos nos aproximar um do outro. No lugar em que Dinócrates estava havia um recipiente cheio da água com a borda muito alta para a estatura de uma criança. E Dinócrates levantava-se na ponta dos pés como se quisesse beber. Eu sofria ao ver que o recipiente es­tava cheio de água, porém ele não podia alcançar por causa da altura da borda. Acordei então, e tive a cer­teza de que meu irmão estava submetido a uma prova: e não duvidava que eu poderia aliviá-lo daquela situa­ção. Orei por ele todos os dias até que fomos parar na prisão do Palácio Imperial (...) Eu segui rezando por meu irmão dia e noite, gemendo e chorando até que me fosse outorgado o seu perdoa..(...).

No dia que fomos jogados na prisão, eis aqui a apari­ção que tive: voltei ao lugar que havia visto antes, e vi Dinócrates, com o corpo limpo, bem vestido e re­frescado, e com uma cicatriz no lugar em que havia a ferida; e a borda do recipiente que eu vira havia re­baixado até a altura do umbigo do menino e derramava sem parar. (...) Logo, uma vez saciado, começou jubi­losamente a jogar água, como costumam fazer as crian­ças. Acordei então, e compreendi que meu irmão havia sido libertado de sua pena" (56).

Esta pugente declaração de Perpétua, estudada pelos teólogos, principalmente S. Agostinho, apontava um Além in­termediário, um lugar de provações embora, sem Juizo nem castigo, diferente do Sheol judaico e do Hades grego (57).



OS PRIMEIROS TEÓLOGOS

Vamos encontrar nos teólogos da tradição helenísti­ca, entre os séculos I e II, principalmente em Clemente de Alexandria (morto em 215) e Orígenes (morto em 23-254), as primeiras construções sistemáticas sobre a questão da situa­ção das almas. Neste período anterior a S. Agostinho, os mais importantes teólogos eram os padres da Igreja grega, considerados como os "fundadores" da doutrina do Purgatório, embora, por paradoxal que seja, a idéia deste espaço inter­mediário tornou-se uma crença da cristandade latina e oci­dental, servindo de motivos para longas querelas e cismas com a Igreja Grega.

Clemente de Alexandria estabeleceu categorias de pe­cadores e de castigos impostos, tanto em vida como após a morte: castigos educativos para os pecadores que reconheciam seus pecados e se arrependiam, ou punitivos para os endure­cidos persistindo em seus erros. As penas para as diferentes categorias de pecadores apareciam representadas nas imagens do fogo devorador ou santificador: para os primeiros, o fogo que penetrava a alma e santificava; para os incorrígiveis, um fogo que devorava e consumia.

Mas Orígenes articulou os principais aspectos teoló­gicos desta época, embora a posteridade da Igreja tenha ex­comungado sua teologia e concepções. Autor de uma imensa obra, estudou sob a orientação de Amonio Saccas, futuro mes­tre de Plotino vinte anos mais tarde. Orígenes acreditava no estudo e compreensão da cultura grega para poder divulgar o Cristianismo nos meios mais intelectualizados de sua época. Foi o responsável pela infiltração definitiva do neoplato­nismo na tradição cristã, embora seus ensinamentos e obras tenham sido condenadas no Quinto Concílio da Igreja, em 553 (58).

A concepção de Orígenes mais criticada pela Igreja foi a Apocatástase, a "restauração de todas as coisas", se­gundo a qual o drama universal definia-se como as provações da alma ao longo de sua penegrinação até Deus, em busca da perfeição original. Utilizando-se de metáforas e imagens da viagem da alma repletas de sentido simbólico, levantou a possibilidade de não existir pecador tão mal e incorrigível que não pudesse arrepender-se e purificar-se, alcançando a comunhão divina. Não podendo admitir as doutrinas filosó­fico-religiosas gregas sobre metempsicose e reencarnações sucessivas, sua apocatástase passou a significar um pro­gresso ininterrupto e progressivo da alma que começava em vida e prosseguia após a morte. A alma era submetida a dife­rentes tipos de fogos purificadores, num processo progres­sivo de penitências, devoções e conhecimento, chegando à contemplação eterna de Deus (59).

Ao negar a metempsicose e a reencarnação, tentando enriquecer o conteúdo simbólico e aumentar as possibilidades de salvação sem incorrer nas concepções "pagãs" ou filosófi­cas, Orígenes arranjou uma teoria onde tudo era parecido, mas nada era igual.

Não cessaram de surgir novas formas no âmbito do Cristianismo, de responder às condições dos mortos, ao des­tino das almas entre a morte, o Juizo Final e a Ressurrei­ção. Nos tempos da Igreja primitiva vivia-se sob crenças escatológicas muito fortes e aguardava-se a eminência do fi­nal dos tempos. O tempo entre a morte individual e o Juizo seria muito breve. Mesmo para Orígenes e Clemente a idéia de um espaço intermediário para as almas encontrava-se mal de­finido. Em Orígenes funcionou a concepção de um paraíso pro­visório, lugar de purificações, onde as almas aguardavam o Paraíso das Delícias após o Julgamento.

S. AGOSTINHO E OS MORTOS

As concepções de um espaço onde as almas se purifi­cavam tiveram em S. Agostinho de Hipona e na sua teologia um momento decisivo. (60). Suas obras forneceram o sentido da construção do Cristianismo através da convicção de que a vocação do verdadeiro cristão era a busca da salvação, em detrimento de quaisquer acontecimentos materiais, desprovidos de sentido espiritual verdadeiro.

As primeiras aproximações de seus pensamentos à idéia de um lugar intermediário dos mortos estão presentes na confiança demonstrada quanto ao valor das orações em in­tenção aos mortos, principalmente após a morte de sua mãe. Nas Confissões (IX, XII, 34-37) pedirá a Deus, misericordio­so e justo, que perdoe os pecados de sua mãe como boa crista que foi, rogando à suprema bondade divina o seu descanso em paz ao lado do esposo. A obra de S. Agostinho contribuiu, assim, para o estabelecimento e organização das relações en­tre a comunidade cristã dos vivos com seus mortos, através de uma rede de solidariedades espirituais, teologicamente definidas e aceitas.

Nos capítulos 109-110 do Enchiridio estabeleceu a existência de certos lugares que acolhiam as almas entre a morte individual e a Ressurreição, de acordo com os tipos de pecados, onde poderiam ser alcançadas pelos sufrágios dos vivos. (61).

Referia-se a penas purgatórias ou de expiação, admi­tindo que podiam ser padecidas tanto em vida como após a morte. Eram penas temporais porque cessavam no dia do Juizo Final, e então, aqueles que as haviam sofrido seriam, ou não, admitidos no Paraíso supremo. Estas afirmações consti­tuíram um elemento fundamental para o desenvolvimento do Purgatório medieval, das crenças, imagens e ritos fúnebres na cristandade ocidental.

A obra agostiniana reservou espaço para discutir a questão das aparições dos mortos, dos sonhos com as almas, característicos de todas as crenças religiosas. No opúsculo De cura por mortuis gerenda, sem negar a existência destes fenômenos, buscou explicá-los de forma a que os cristãos en­contrassem os caminhos devidamente aplainados pela Igreja, sem os "desvios" da oniromancia e da necromancia da religio­sidade pagã e popular: (62).

Utilizando-se do Eclesiastes ( 3, 22), "Aplica-te àquilo que te é acessível e não te ocupes de coisas misteri­osas, além do teu conhecimento", S. Agostinho recomendava ações cristas tais como missas, orações e esmolas pelas al­mas dos mortos. O pensamento agostiniano contribuiu, assim, com certos fundamentos que serviam de embasamento teológico para a idéia futura de um Purgatório, o grande depósito das almas, lugar de onde estas saíam para suas aparições, duran­te os séculos XII e XIII.

Da mesma maneira, foi um marco importante para defi­nir, no âmbito teológico, as ações e cultos funerários, nas transformações das liturgias aos mortos, no culto às almas e nos cuidados da piedade crista devida aos seus mortos, con­siderados parte e patrimônio da Igreja.

No fundo, os primeiros grandes teólogos da Igreja, ao insistirem na prática das virtudes, sentimentos e atitu­des cristãs, vedavam a intromissão intelectual nos mistérios inacessíveis da religião, procuravam evitar a irrupção do imaginário composto por crenças populares, vestígios das mais estranhas e complexas vivências religiosas que compu­nham o substrato religioso da grande massa polimorfa, onde se espalhava a mensagem cristã (63).

O Cristianismo não apresentava limites teológicos e dogmáticos claramente definidos. A própria formação institu­cional, doutrinária e sacerdotal era absolutamente embrioná­ria e isto acontecia num mundo marcado pelas mais diferentes crenças e religiões. A religião cristã foi ganhando filosofia, exegeses, cultura religi­osa, uma teologia e debate intelectual ex­clusivo dos meios mais cultos da Igreja, organizadores da ortodoxa e dogmática oficial, imersa em grande cultura e erudição, inacessível para a imensa maioria dos fiéis e seguidores, que não tinham mais que compreender ou sentir, mas simplesmente obedecer.


O LUGAR DAS ALMAS

Durante os séculos seguintes o Além intermediário ganhou alguns poucos seguidores teológicos, como Gregório Magno e várias ilustrações imaginárias, esboços de um espaço purgatório enquanto local e sistema de purificações.

O espaço onde as almas estavam submetidas ao fogo purificador foi ganhando maior definição. Os contatos entre mortos e vivos estreitavam-se dentro do imaginário, embora não ocorressem maiores avanços nas concepções doutrinárias sobre o Além durante o florescente período carolíngio (64). O culto aos mártires e santos, a importância atribuída às relíquias, aos locais sagrados de visitação, romaria e pere­grinação foram práticas consagradas e tradicionais ao Cris­tianismo desde o final do século II e, de forma ininterrup­ta, até os dias atuais.

Este culto adquiriu um caráter transcendente; era como se estivessem além da condição de mortos comuns, estan­do, simultaneamente, ao lado de Deus e aqui na terra, numa visão sacralizada de suas relíquias, suscetíveis de propor­cionar milagres, curas extraordinárias e espíritos capazes de interceder em favor dos mortos e dos vivos. Mártires e Santos tinham acesso direto aos anjos. Seus túmulos conver­teram-se em lugares privilegiados para as comunicações entre o Céu e a Terra, entre Deus e os homens. Tratava-se, acima de tudo, de uma visão religiosa politeísta no interior de uma instituição e doutrina monoteísta (66).

Os cultos aos santos, sobretudo os terapeutas e os protetores da frágil condição humana diante dos cataclismas e do desconhecido, e os cultos às almas dos mortos, além de repletos de sentido da religiosidade tradicional pré-cristã e popular, refletiram todas as formas de surgimento que fo­ram ao longo dos séculos, permitindo a sobrevivência e tam­bém, as rupturas, os cismas e as crises do Cristianismo.

Nestes momentos certos fenômenos intervinham liber­tando o pensamento. Todas as mediações mágicas possíveis transformavam os ritmos regulares, submetidos a estranhos influxos vindos de um outro mundo, de um outro tempo miste­rioso agora visíveis e tangíveis pela fé coletiva e sedenta de explicação. Era a emersão da força anímica, sensível, através da emoção que culminava na exaltação. E, então, tudo era possível, viável: curas, milagres, visões, apari­ções, que causavam descrença, incômodo e horror nos teólogos e no clero erudito daquela época, como até os dias atuais.

No Cristianismo, como no fundo em qualquer religião, os poderes dos corpos santos, das relíquias sagradas, ossa­das, cruzes, roupas e túmulos operavam um profundo encontro, diria mesmo arquétipo e presente nos mais altos níveis da consciência religiosa, entre a religião organizada sobre as bases da Igreja e as mais profundas, antigas e tradicionais crenças nas relações entre os vivos e seus mortos.

Estas crenças e cultos em torno de santos e mártires indicavam que, ao contrário da imagem de sono, os mortos possuíam uma vida bastante ativa: lançavam apelos, necessi­tavam de favores e devoções. Havia frequentes relações entre o país dos mortos e dos vivos, fossem eles mártires, santos ou mortos comuns. Durante todo o percurso de sua história bilenária a Igreja Cristã Ocidental incorporou crenças muito antigas, principalmente sobre a morte e a vida após a morte. O sono dos mortos nunca foi muito tranqüilo, assim como não era a consciência do cristão, sempre atormentado por culpas, medos e pecados.

De uma certa maneira, os mortos sempre estiveram presentes em um tipo de existência imaterial, habitando uma dimensão incerta entre a terra e o céu, de onde solicitavam e aguardavam serviços religiosos dos vivos para mitigar seus sofrimentos. Purgavam suas faltas mas não habitavam, pelo menos até o século XIII, teológica ou geograficamente, o Purgatório. As expressões religiosas dos cristãos sempre comportaram esta visão, inclusive de uma maneira independen­te do consentimento da Igreja. Do ponto de vista doutrinário e teológico, a existência espiritual dos mortos foi sendo elaborada mais lentamente.

Era como se, apesar do sono dos mortos, o corpo e alma não estivessem mais imersos em sono profundo e retidos em seus túmulos, unidos na profunda hipnose da morte. Uma parcela desta ligação tênue entre a vida e a morte ganhou autonomia com relação aos despojos, e podia vagar, sofrer, aparecer, cumprir penas e purificações, embora ainda não ti­vesse um lugar preciso e definido para permanecer enquanto aguardava o dia do Juizo Final.


A NOÇÃO DE PURIFICAÇÃO

Até o século XIII falava-se de "penas purgatórias" no sentido de limpeza espiritual e aprimoramento religioso em direção à Ressurreição ou como resgate de penas e peca­dos, através de sofrimentos físicos. Surgiu também uma nova categoria de pecados: os pecados veniais. O lugar da purga­ção, porém, permanecia incerto. As visões dos mortos ou as viagens ao país dos mortos, se por um lado comprovaram a existência de penas e castigos e o valor das intercessões dos vivos em favor dos mortos, por outro não precisavam um espaço e uma cartografia.

Entre 1170 e 1200 apareceu a palavra purgatório (purgatorium), num esforço de localizar o lugar e o processo onde aconteciam as penas e purificações após a morte. A ex­pressão "in purgatoriis" no sentido de um lugar foi apare­cendo com mais freqüência (65).

A reflexão sobre o destino após a morte parecia ori­entada pelo desejo de justiça e não necessariamente pela salvação espiritual. A justiça divina devia corrigir as in­justiças terrenas, oferecendo uma esperança, visto como a possibilidade de superar os pecados e alcançar a Vida Eterna mesmo depois de morto, sem cair nos extremismos heréticos e filosóficos das doutrinas reencarnacionistas.

O desenvolvimento do Purgatório cristão articulou-se com o julgamento dos mortos, impondo os cristãos um duplo tribunal: no dia de sua morte e no Final dos Tempos. Ficou estabelecida uma estreita ligação entre o Além intermediá­rio, o Purgatório e a idéia de responsabilidade individual e livre- arbítrio. A organização escolástica do saber teoló­gico foi estruturando, aperfeiçoando e definindo o caráter devocional e dogmático do Purgatório, das penas, direitos e deveres do pecador (66).
A ESCOLASTICA E O ALÉM

A obra de Tomás de Aquino refletiu o sentido jurídi­co das penas e castigos impostas ao homem por Cristo, embora qualquer leitura atenta do Novo Testamento indique a unidade do perdão. A Suma Teológica (Terceira Parte; Questão LIX) discutiu o poder judiciário de Cristo sobre os vivos e os mortos assim como a validade de um duplo julgamento. Siste­matizou também as quatro moradas do outro mundo: o Céu, o Inferno, o Purgatório, o Limbo das crianças mortas sem ba­tismo e o Limbo dos Patriarcas, o valor das orações aos mor­tos, as exéquias e as condições da Ressurreição.

Incorporou o Purgatório, que teve sua primeira defi­nição pontífice com Inocêncio III em 1254, no período em que Tomás de Aquino escreveu sua obra, como um espaço do fogo purgador onde eram redimidas as faltas ligeiras ou mínimas dos pecados veniais. O Purgatório era ainda, do ponto de vista doutrinal e teológico, uma temporalidade e não uma lo­calidade (67).

As imagens do fogo e da água ganharam uma dimensão teológica importante enquanto princípios regeneradores espi­rituais. A água, que refrescava e saciava, um simbolismo universal e imemorial de purificação e regeneração foi in­corporado ao Cristianismo em uma nova perspectiva. Era a pu­rificação batismal obrigatória dos vivos, daqueles que de­claravam a intenção de conseguir a salvação cristã, a reden­ção da alma e o perdão dos pecados. Já o fogo recebeu uma dupla imagem: a purificação radical e decisiva da alma arre­pendida padecendo para alcançar a salvação, ou o fogo in­flingindo tormentos e destruição aos infiéis e pecadores. O fogo associou- se ao Purgatório, ao Inferno e ao cataclisma do Juizo Final. Adquiriu uma dramática materialidade nas fo­gueiras acesas pela Inquisição que demoraram séculos para apagar.

O fogo enquanto princípio representante da Suprema Divindade era um substrato comum a quase todas as religiões, assim como o sacrifício pelo fogo um ato de devoção ao Cria­dor. No Cristianismo estas manifestações ganharam um sabor amargo nas perseguições e intransigências destituídas de ca­ráter transcendente, em oposição à imagem de um Deus de be­nevolência e misericórdia e ao próprio ideal e pregação do perdão em Cristo.

Partindo do presssuposto de um Deus Misericordioso Justo e, portanto, mais inclinado a premiar do que castigar, Tomás de Aquino defendeu a tese da possibilidade de perdão dos pecados após a morte dos arrependidos que recebessem a absolvição sacramental, sobretudo se tivessem seus pecados catalogados como veniais, ou seja, desculpáveis. (Suma Teológica, Volume XI, Questão II do Apêndice, Artigo I).

O Purgatório apareceu como temporalidade penitencial, uma espacialidade tanto subterrânea e contígua ao Inferno, como relativamente superior a ele. De qualquer maneira, para S. Tomás, as penas purgatórias seriam sofridas em um lugar diferente daquele onde foram cometidos os pecados. Prosse­guiu discutindo a qualidade, tempo, duração das penas impos­tas no purgatório, o valor dos sufrágios dos vivos sobre os mortos, inclusive o valor das indulgências pelas almas do purgatório, delimitando o campo das devoções e das relações de atenção, cuidados e caridades da comunidade dos fiéis mortos e vivos.

A teologia tomasiana reviu a questão das visões, aparições e contatos entre mortos e vivos, submetendo-as às formulações dogmáticas e teológicas do Purgatório. (S.T.Questão LXXI, Ar­tigo III).

Segundo a concepção de Tomás de Aquino, as almas separadas dos corpos eram remetidas a lugares determinados, certos receptáculos espirituais, de acordo com o grau de di­gnidade, de punição que mereciam. Podiam ser precipitadas no inferno, subir ao céu ou receberem a purificação purgato­rial. Os méritos ou deméritos definiam o receptáculo provi­sório das almas incorpóreas. A partir da teoria dos receptá­culos ( S. T., Questão LXIX, Artigo III), foram examinados os fenômenos das aparições e visões, submetendo-os à vontade divina. As aparições dos mortos aconteciam por disposição divina.

As exéquias fúnebres foram valorizadas. Para os vi­vos, a sepultura livrava-os da visão do cadáver em decompo­sição, da pestilência e dos perigos exalados pela putrefa­ção, além de beneficiar espiritualmente a fé na ressurrei­ção. Mas almas já não dormiam acorrentadas ao túmulo. Esta­vam separadas do corpo em algum lugar, não tão próximo à se­pultura e nem tão longe que não pudessem sentir a interces­são dos vivos (68). O sepultamento condigno, nos cemitérios, igrejas ou Ad Sanctos, deveria ser uma expressão da fé na providência divina na ressurreição, ao contrário das crenças em uma sensibilidade do corpo morto ou do repouso absoluto da alma na sepultura.

As formulações tomasianas refletiram um momento es­pecial: os mortos como fonte de fé e esperança para os vi­vos. As almas agitavam-se, padeciam ou sofriam nos seus re­ceptáculos espirituais, num além antropomórfico com diversas dimensões. Os mortos podiam manifestar-se, exemplarmente, para infundir coragem nos momentos em que cristãos ou a fé encontravam-se ameaçados, para advertir os vivos de seus er­ros ou solicitar devoções para aliviar suas penas purgató­rias. A comunidade dos mortos teve sua atuação definida nos limites do exemplo, da devoção e da fé, de acordo com os de­sígnios da Providência Divina. Se os mortos não dormiam mais, movimentavam-se de acordo com as regras e normas da teologia cristã. Domadas e obedientes, as almas usufruíam prêmios ou castigos progressivos.

O elemento chave para compreender esta existência após a morte estava no Juizo Final e na idéia de Ressurrei­ção.. A purificação escatológica do mundo no Dia Final con­duziria à grande Ressurreição dos Mortos, a reunião daquilo que a morte havia separado: alma purificada pelo fogo purga­tório e o corpo reduzido a pó.

A discussão desenvolvida pela escolástica apontava um corpo ressurrecto, individualmente, idêntico ao morto, mas com atributos diversos, pois ressurgia imortal mas liga­do à mesma alma racional. Os mortos ressurgiam julgados, perfeitos, imaculados, em outra substância incorruptível, isento de todos os defeitos humanos, assim como Deus os fez, puros, limpos, sem concupiscência ou desejos. A vida cristã, os sacramentos, a piedade, a devoção e a fé venceriam a morte: a morte não devia ser temida e sim uma vida de peca­dos e ignorância, nas trevas do paganismo e das heresias.

O Purgatório como um lugar intermediário onde as almas pudessem aplacar, penitencialmente, seus erros menores e preparar-se para a oportunidade da remissão dos pecados e a salvação eterna, abrandou os castigos infernais. Aumentou as perspectivas salvacionais da religião cristã, assim como definiu uma nova relação entre mortos e vivos. As penas es­pirituais não compreendiam todo o período entre a morte e a Ressurreição. Segundo a crença purgatória, havia a esperança de livrar a alma antes do Juizo.

A formulação espacial do Purgatório oficializou-se no final do século XIII. Sob o domínio eclesiástico, o ima­ginário e crenças antigas ganharam limites. Os fenômenos das visões e aparições tiveram uma explicação: eram as almas do Purgatório admoestando, suplicando e necessitando de atenção e devoção. Uma redefinição dos vínculos entre mortos e vi­vos, aumentando a solidariedade entre eles, diminuindo as fronteiras e o limites da morte, valorizando a memória pós­tuma e os aspectos individuais dos ofícios fúnebres. A famí­lia, as comunidades cristas adquiriram um papel especial di­ante de seus mortos (69). Os contatos espirituais, as via­gens e visões do Além foram respaldados pela Igreja.

Na obra de Dante Alighieri os lugares das almas dos mortos ganharam forma e cores, aliando fervor místico à exu­berante capacidade criativa. Dividindo o Céu, o Inferno e o Purgatório, mostrou o destino de cada alma, de acordo com as ações e as intenções de vida. O Inferno ficava debaixo de Jerusalém, um abismo circular até o centro da Terra, em cír­culos que começavam no Limbo, o local onde estão os que mor­rem sem batismo, sucedidos pelos demais círculos habitados pelos sensuais, pelos gulosos, os avarentos, os pródigos e os iracundos. No sexto círculo estão os hereges; no sétimo os que pecaram pela violência, contra o próximo, contra si mesmos e contra Deus. No oitavo círculo, dez fossos castigam os sedutores, os aduladores, os simoníacos, os adivinhos, os fraudulentos, os hipócritas, os ladrões, os maus conselhei­ros, os fundadores de seitas e os falsários.

Se o Inferno ocupava uma montanha apontada para o centro da Terra, o Purgatório ficava numa montanha apontada para o alto, indicando a esperança, formada por dois cones, respectivamente, o Antepurgatório e o Purgatório. Neles pu­rificam-se os coléricos, os soberbos, os invejosos, os pre­guiçosos, os avarentos, os pródigos, os gulosos e os luxuri­osos. O Purgatório estava isolado do Paraíso e do Inferno, pois ficava numa ilha.

O Purgatório era encimado por um planalto, sobre o qual elevava-se o Paraíso. O primeiro céu, que era da Lua, acolhia os cumpridores dos votos religiosos; no segundo, de Mercúrio, estavam os que praticaram o bem; no terceiro, de­dicado à Vênus, ficavam os que uniram devoção com o amor; no quarto céu do Sol, brilhavam as almas dos doutores da Igre­ja; no quinto, o de Marte, estavam os que combateram pela fé; no sexto céu de Júpiter localizavam-se os santos; no sé­timo céu de Saturno purgavam as almas dos que tiveram vida inerte; o oitavo céu das Estrelas Fixas correspondia ao tri­unfo de Cristo; no nono céu, também chamado de Primeiro mó­vel, aparecia o ponto luminoso em torno do qual giravam as nove esferas do mundo; no último círculo, o décimo chamado de Empíreo, triunfavam os anjos e os bem- aventurados, for­mando a Cândida Rosa.

Na concepção de Dante, o Purgatório constituía a ponte entre dois mundos extremos, um meio termo entre o céu e o Inferno, numa montanha em alguma parte remota do oceano inexplorado, erguido do fundo do mar após a queda de Lúci­fer. Um anjo guardava a foz do rio Tibre. Ele recolhia as almas para um período de purgação, nos diversos círculos, de acordo com as necessidades. Lugar povoado por almas, cânti­gos, preces, visões e muitos exemplos virtuosos, era simul­taneamente um lugar de expiação e de esperança.

As almas vinham no barco celestial atravessando o imenso oceano, em direção à ilha purgatória onde poderiam purificar-se para, depois, contemplar a Deus. Todas tinham suas formas da vida e traziam as marcas de doença ou feri­mentos. (A Divina Comédia, Canto V.,100-1)

As almas do Purgatório reafirmavam o poder das pre­ces dos vivos para libertá-los mais rapidamente. Ao distin­guir Virgílio, tentavam mandar notícias para os vivos, con­tavam suas histórias, relembrando seus pecados, falando de seus arrependimentos, da graça divina e do fogo purificador. (Canto XI, 25).

Sem negar as possibilidades das aparições, estas fo­ram sendo progressivamente ordenadas de acordo com a Igreja. Deviam servir para fins exemplares tanto dos vivos como dos mortos. Qualquer aparição ou tentativa de invocação das al­mas dos mortos por parte dos vivos foi progressivamente sendo associada à bruxaria e ao paganismo. O resultado de tais aparições e invocações eram obras satânicas, não sendo o morto quem aparecia, mas o próprio Diabo. As únicas apari­ções admissíveis, sem práticas invocatórias, provinham das almas do Purgatório, com autorização divina, para admoestar, suplicar e ajudar os vivos no caminho da fé.

Do Purgatório, as almas podiam ser alcançadas pelos vivos através de preces, missas, ações votivas, esmolas, do­ações e a prática da caridade. Isto diminuia suas penas e o tempo de permanência em purificação. Graças à interação re­ligiosa entre mortos e vivos tornava-se possível a passagem para uma melhor situação espiritual, na passagem espiritual de modo de ser inferior ao outro, purificado e pleno de es­peranças e graça.

Esta solidariedade espiritual espalhou-se ao longo dos séculos XIII e XIV nas pregações pastorais, mais timida­mente nos testamentos e com força na literatura e no cotidi­ano, porém, de maneira desigual de uma região para outra. No final do século XIV as imagens tornaram-se mais detalhadas e as crenças nas almas do Purgatório um fato definitivamente estabelecido. (69).

O discurso teológico foi valorizando a alma indivi­dual e racional. O XV Concílio de Varennes (1311-1312), pre­sidido por Clemente V acatou a definição da alma como racio­nal e na forma humana, colocando como herética qualquer con­cepção contrária. A Igreja colocou os mortos como parte in­tegrante da Igreja Militante, concordando com breves apari­ções autorizadas pela Divina Providência, para mensagens e admoestações aos vivos, solicitando devoções e sufrágios. Durante séculos o Purgatório das almas antropomórficas foi o grande reservatório oficial dos fantasmas cristianizados, dando vazão a crenças arraigadas nos mais profundos níveis mentais sobre a vida após a morte, visões, viagens ao Além e aparições, conferindo-lhes um sentido teológico, moral e salvacional (70).

A idéia do Além intermediário, a devoção às almas do Purgatório, recém incorporadas dogmáticamente ao credo ofi­cial da Igreja e transformadas em culto obrigatório na forma de missas, altares ou ex-votos dedicados às almas santas e benditas, não cessou de expandir. Integrou-se no imaginário tanto na forma de explicação para as aparições e visões como também um local definido, visitado durante os sonhos, os transes e viagens espirituais da alma.

Projetando-se profusamente no plano iconográfico, o Purgatório solidificou certas imagens como um lugar defini­do. O detalhe sobre o Purgatório na Les Riches Heures du Je­an Duc de Barry, do século XV, temos algumas imagens mes­clando a antiga concepção do sono dos mortos com a purifica­ção purgatorial. O Purgatório foi desenhado como um lugar de penas, agonia e indecisão: as almas estavam submetidas ao Fogo Purificador e a uma disputa entre anjos e demônios. Seu destino final ainda indefinido, dependendo do grau de puri­ficação e qualificação que lograssem alcançar. Um detalhe chama a atenção: as almas purificadas repousam adormecidas na relva verdejante, sob a proteção de anjos. Retomou-se a idéia do sono como um repouso das almas purificadas à espera da Ressurreição Final. Mas, o Inferno e o Purgatório eram lugares agitados, povoados por almas, anjos e demônios.

Em primeiro lugar, a idéia da morte como um sono po­dia ter dois significados: de um lado, o repouso hipnótico e beatífico dos mortos conforme o próprio testemunho bíblico: "Os vivos sabem ao menos que irão morrer; os mortos porém não sabem e nem terão recompensa, porque sua memória cairá no esquecimento. Seu amor, ódio e ciúme já pereceram, e eles nunca mais participarão de tudo o que se faz debaixo do sol (...). Tudo o que te vem à mão para fazer, faze-o conforme a tua capacidade, pois no Sheol para onde vais não existe obra nem conhecimento nem sabedoria." (Eclesiastes, 9:5,6 e 10). De outro lado, o sono povoado de pesadelos, de desassossego, de uma alma intranqüila por seus medos e culpas, presa ao corpo em decomposição sem sossego ou descanso.

Em oposição à imagem do sono foram inventados uma série de artifícios beneficiadores da alma. No caso da his­tória do Catolicismo, surgiu o Purgatório e a noção de peca­do venial proporcional à existência média da maioria das pessoas. Só quando surgiu a idéia de pecado que podia ser perdoado ( Venia = perdão, desculpa, licença), é que pode surgir o Purgatório, pois se " o salário da morte é o pe­cado" (Romanos: 6:23) como purgá-lo, diante da imagem de um Deus terrível? Invocando a idéia de "porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, pois não há um único justo sequer" (Romanos 3:10), a Igreja perderia sua função de oferecer salvação, de intermediar com a divindade o per­dão. O pecado venial apresentou-se como a categoria que com­portava a maior parte das ações humanas. A construção do Purgatório conduziu a alma para um estágio intermediário onde deveria purgar seus pecados para, só então, merecer o repouso eterno, o descanso e a Glória dos justos.

O corpo e sua representação (quase um "duplo") eram objetos de punição material em vida e após a morte, íntegros ou mutilados no objeto de seu desejo. No imaginário, as di­ferentes representações da alma acompanhavam o seu destino: podia apresentar-se esquálida, descarnada, marcada por fer­imentos ou doenças, desgrenhada, suja de terra, sedenta, ma­cabramente decomposta e roída pelos vermes, arrastando cor­rentes, gemendo e suspirando, arcando com penas e culpas, ainda no túmulo ou nas proximidades de onde viveu. Imagens da alma flutuando, claras e translúcidas, levitando como se voassem, leves e sem penas, mostravam a possibilidade dos vínculos celestiais, livres do corpo morto, sem pesos ou culpas, num destino espiritual ideal que só era obtido após o cumprimento dos bons atos, sentimentos, virtudes, padeci­mentos e purificações.

Através dos séculos, o Além intermediário recebeu seus estilos: o gótico-flamengo de devotio moderna, um Pur­gatório da Contra-Reforma, um clássico, um barroco, um sul­piciano e romântico (71). Poderíamos acrescentar um estilo contemporâneo entre o final do século XIX e inícios do XX, um além representado por um mundo espiritual intermediário vívido, passível de ser estudado, observado e catalogado pelo conhecimento científico.


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