\capítulo 4 : a razão da igreja o purgatório em crise



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\CAPÍTULO 4 :A RAZÃO DA IGREJA

O PURGATÓRIO EM CRISE

Com os movimentos de Reforma durante o século XVI, a questão do Julgamento das almas, da hierarquia dos pecados e das possibilidades de salvação após a morte geraram controvérsias. A Igreja ensinava que os pecadores arrependidos podiam pagar seus pecados através de sacramentos e também com a outorga de indulgências, retiradas do tesouro de méritos acumulados das obras dos santos e mártires, liberando, desta forma, o pecador de suas culpas e penas.

Em 1476, o papa Sisto havia estendido o benefício das indulgências às almas do Purgatório, procurando interessar aqueles que estavam preocupados com a sorte dos mortos. Esta questão, os "seguros de salvação" válidos tanto no Céu como na Terra e no Purgatório, tiveram um papel importante no desenrolar da crise religiosa e espiritual do século XVI (1).

Dentro do espírito da época, os movimentos de contestação religiosa buscaram recuperar a pureza original do Cristianismo dos tempos apostólicos. Recusavam, obstinadamente, as inovações da doutrina católica sobre a Bíblia. Os movimentos reformadores previam um retorno à Idade de Ouro da antiga Igreja, desvirtuada pelo papismo ao longo dos séculos, e negando os aspectos devocionais do catolicismo construido ao longo de séculos.

Voltando a velhas questões de natureza herética, críticas à Igreja institucional, aos sacramentos, às interpretações evangélicas, os movimentos reformadores do século XVI conduziriam a uma tendência geral de negação de todo o lado místico e sobrenatural tradicionais ao catolicismo, inclusive a idéia de Purgatório e as devoções decorrentes desta crença, assim como as possibilidades de comunicações entre mortos e vivos e as aparições.. Tiveram como proposta religiosa uma leitura fiel às Escrituras, uma lealdade interpretativa absoluta aos textos bíblicos que deveriam ser acessíveis a todos, traduzidos para que todos os fiéis pudessem ler o Livro Sagrado.

No séculos XV e XVI a cristandade vivia num universo onde numerosos canais de comunicação mediavam as relações dos homens com o sagrado: eram os sacramentos, a intercessão dos santos, os milagres, as aparições de almas do Purgatório, numa irrupção frequente do sobrenatural no cotidiano das pessoas.

Os movimentos protestantes negaram esta forma de sacralização do mundo ao sublinhar a majestade de Deus, insistindo na queda do ser humano para melhor enaltecer a intervenção soberana da graça divina. Reduziram a relação com o sagrado à Palavra de Deus, eliminando mediações sobrenaturais, cortando o cordão que ligava o Céu e a Terra, o mundo do Além e o mundo dos vivos. Colocaram o homem diante de si mesmo, sem perdão ou indulgência (2).

Os movimentos protestantes reafirmaram a doutrina do sono entre a morte individual e a ressurreição, restringindo a possibilidade de salvação eterna aos atos da vida terrena (3). Negando a salvação para aqueles que morreram em pecado, transformaram ritos fúnebres em atos muito simples, nada além do necessário ao respeito devido aos adeptos da mesma crença religiosa. De acordo com o espírito reformado, só existiam dois lugares para as almas após a morte: o Paraíso, onde repousavam as almas dos justos e não precisavam da intervenção dos vivos pois estavam ao lado de Deus, e o Inferno, de onde as almas condenadas jamais sairiam. Desta maneira, as almas não retornavam de onde estavam como também não adiantavam orações ou sufrágios especiais para os mortos.

A morte e os ritos funerários eram assuntos privados, sem luxo ou manifestações dolorosas exageradas. Entre os luteranos o enterro era uma prática familiar. Ao pé do túmulo, limitavam-se a uma breve oração. Depois da inumação, parentes e amigos reuniam-se no templo para ouvir um sermão. Entre os Calvinistas tal despojamento nos ritos mortuários foi exemplificado pelo próprio Calvino, ao pedir para ser enterrado num pedaço de pano, sem procissão, cânticos ou orações, e que seu túmulo fosse assinalado por uma simples pedra. Tais procedimentos chocaram muitas sensibilidades católicas diante da morte:

"Não há oração fúnebre, nem cântico, nem comemoração, muito menos dobre de sinos em tal circunstância.

Quando um homem morre, morre. Não lhe concedem sequer a esmola de um Pai-Nosso. Assim, os enlutados voltam para casa sem consolo, sem exortação" (4).

O culto reformado organizou-se de forma mais despojada nas cerimônias, assim como na construção de seus templos, retirando qualquer objeto ou prática "supersticiosa". substituindo estátuas de santos, altares e retábulos por uma simples mesa e singelos quadros de exposição dos dez mandamentos, textos bíblicos, artigos de fé, exortações morais, ordenações eclesiásticas, lista de pastores ou painéis comemorativos. O templo era, simultaneamente, um lugar de educação da fé e da alfabetização.

O movimento reformador do século XVI teve um papel fundamental no desencantamento do mundo, no processo de dessecularização das sociedades modernas. A salvação era, mais do que nunca, um assunto pessoal: certos de sua eleição e vida exemplar, os mortos não precisavam de mais nada para conduzi-los à Deus, e os vivos deveriam manifestar esta certeza, não necessitando de consolo.

A eleição divina acarretava uma certeza de salvação e a responsabilidade de viver segundo a lei divina, sem direito a erros ou falhas. Esta certeza deveria libertar o fiel das angústias e medos da morte e do Julgamento Final, desde que este realmente tivesse vivido segundo as exigências de Deus. Os mortos aguardariam, dormindo em seus túmulos, o dia da Ressurreição e do Julgamento.

Este tipo de visão prevalece entre os movimentos protestantes ainda nos dias de hoje. Em pleno final do século XX, as Testemunhas de Jeová argumentam no sentido do sono dos mortos, na ressurreição e na salvação eterna de todos os fiéis. Em Escute o Grande Instrutor (5), o tema da ressurreição de Lázaro serve de apoio à imagem do sono entre os mortos:

"A morte é como um sono profundo, tão profundo que a gente nem mesmo sonha (...). Quando está em sono profundo, não sabe nada que está em sua volta, não é? - E quando acorda, não sabe quanto tempo esteve dormindo, até olhar para um relógio.

Assim é com os falecidos. Não sabem nada do que está acontecendo. Não sentem nada. Não podem fazer nada.

Mas alguns tem medo dos mortos. Não querem nem passar perto dum cemitério, porque acham que os mortos podem causar-lhes mal. Pode imaginar isso? pode um morto causar dano a um vivo? - Não; a Bíblia diz que os mortos não podem fazer nada.

Crê no que Deus diz? - Se crermos, não teremos medo dos mortos, mas ficaremos alegres de estar vivos " (6).

A valorização da vida material em contraste com a condição dos mortos, sem possibilidade de alcançar a vida eterna ou já salvos pela fé, radicalizou a crença na salvação daqueles que realmente são servidores de Deus e de Cristo, o Salvador:



"Sim, o próprio Jesus disse: 'Vem a hora em que todos os que estão nos túmulos memoriais ouvirão a sua voz e sairão' - E este tempo vem em breve, sob a regência do reino de Deus. (João :28,29).

Imagine quão maravilhoso será acolher as pessoas à vida! Algumas delas serão nossos conhecidos. E saberemos quem são ao voltarem dos mortos assim como Jairo conhecia sua filha quando Jesus a ressuscitou. Outros serão os que morreram há milhares de anos atrás. Mas só porque viveram há tanto tempo, Deus não se esquecerá deles" (7).

Sob este ponto de vista, a morte não seria mais do que uma breve separação dos mortos adormecidos em sono profundo e sem sonhos.


A REAÇÃO CATÓLICA

Num século inspirado pelo Humanismo, pelo repúdio ao Tomismo e aos outros sistemas escolásticos, pela perda progressiva de domínios espirituais, de crise política do papado na chefia da cristandade católica, da falta de preparo e vocação religiosa do clero, a Igreja teve que se reorganizar internamente e buscar novos e mais consistentes apoios intelectuais, políticos e, sobretudo, religiosos (8).

A convocação do Concílio de Trento (1545-1562) em meio a tantas crises, encontrou muitas dificuldades, porém o resultado final foi extremamente importante para a história religiosa da sociedade ocidental. Foi o Catolicismo pós-tridentino que reafirmou a mensagem de salvação da Igreja e a sua missão apostólica diante do mundo.

Do ponto de vista doutrinário, o Concílio proclamou a existência de duas fontes de verdade crista: as Sagradas Escrituras e a tradição apoiada na obra dos Padres, do magistério conciliar e pontificial e no consenso da Igreja sob a divina proteção do Espírito Santo. Reafirmou o pecado original, o valor dos sete sacramentos, da eucaristia e a realidade da transubstanciação na missa. A remissão dos pecados só seria possível através da contrição, da confissão e da penitência, e, exclusivamente, a absolvição sacerdotal garantiria a eficácia do sacramento. Em 15 de dezembro de 1563, o Concílio confirmou a existência do Purgatório e a legitimidade dos cultos à Virgem, aos santos, aos mortos e o valor das preces, missas e orações que visavam alcançar alguma forma de intercessão ou perdão de penas (9).

A Igreja pós-tridentina valorizou, simultaneamente, as formas de devoção coletivas como expressão da Igreja Universal e, sob influência dos místicos dos séculos XVI e XVII acentuou o papel da devoção pessoal, as uniões místicas com Deus (10). Um momento privilegiado do Catolicismo deste período foi o fortalecimento da prática da confissão, do desenvolvimento da confissão individual periódica para libertar dos pecados através da contrição, penitência e abusavas, e que teria muita importância no momento da morte e sobre o destino espiritual após a morte (11).

O desenvolvimento da prática confessional teve fortes repercussões diante da morte. A prática da confissão final do moribundo, a aplicação dos últimos sacramentos levavam em consideração tanto as relações individuais com Deus e a salvação pessoal, como também a inserção do cristão na comunidade visível e invisível da Igreja universal. Os sacramentos de penitência, eucaristia e extrema-unção visavam garantir uma boa morte e a salvação da alma. A presença do padre na cabeceira do moribundo, acompanhando seus últimos arrependimentos e confissões passou a ser essencial, e a ausência deste amparo espiritual torna-se indesejável.

O mais temido não era ir para o Purgatório, onde se podia contar com práticas abreviadoras do tempo de purificação e penas, com a intervenção dos santos, as devoções e liturgias dos vivos, além das indulgências. Precisava-se evitar o Inferno e a certeza da condenação eterna, pois de nada adiantaria ao moribundo a intervenção dos vivos, dos santos, do anjo da guarda se este expirasse em pecado mortal.

A morte certa em hora incerta torna-se base da prática da confissão periódica, da necessidade de preparação constante diante do momento desconhecido e fatal, que levaria à condenação eterna: a prática confessional, principalmente in extremis, visava aplacar as angústias e temores quanto às possibilidades de salvação no Além.

Os rituais da extrema-unção, a participação individual e solitária do moribundo e do sacerdote na derradeira confissão, a participação da comunidade religiosa e social, através da oração, quando se rezava pedindo a proteção contra o demônio, o arrependimento das falhas passadas e a misericórdia divina, apontavam para um sentido muito claro: na morte, era impossível obter a salvação sem apoio da Igreja. As comunidades religiosas, a família espiritual eram o amparo e guia na vida mas, acima de tudo, na morte.

Esta noção de uma religião que amparava a comunidade católica dos mortos e vivos, numa dimensão espiritual antropormorfizada e povoada de seres imateriais e sobrenaturais tais como anjos, arcanjos, demônios, almas, santos e santas, milagres e aparições, da Virgem e do Menino Jesus, marcaram o misticismo religioso, o imaginário católico durante muitos séculos. Forneceram elementos simbólicos fundamentais para a vitalidade de qualquer religião, principalmente, nos momentos de transição mais delicados da vida humana.


A DISCIPLINA DOS HOMENS E DOS MORTOS

A Igreja divulgou os limites precisos das relações legítimas entre mortos e vivos. As determinações ordenadoras destas relações foram divulgadas através da catequese, obedecendo instruções gerais para serem seguidas em todo mundo católico. Os catecismos procuravam definir e explicar a doutrina, as crenças, os cultos e rituais de maneira simplificada e objetiva para a compreensão da população leiga. Diante da morte, dos cultos fúnebres, dos destinos das almas, a catequese sistematizou os domínios da espiritualidade. Num catecismo do século XVII, reeditado ainda no final do século XVIII, as explicações procuram ser bastante objetivas:



Instruções gerais em forma de catecismo das quais se explicam em compêndio pela Sagrada Escritura e Tradição, a História e os Dogmas da Religião, a Moral Crista, os Sacramentos, as Orações, as Cerimônias e os usos da Igreja impressas por ordem do Senhor Carlos Joaquim Colbert, Bispo de Montpellier, com dois catecismos abreviados para o exercício dos meninos. II Parte Traduzidos na Língua Portuguesa para o uso dos Reinos e Domínios de Portugal, Lisboa, na Régia Ofícina Typografia, ano MDCCLXX. Com licença da Real Mesa Censória.

O dia de defuntos- P. Por que razão destina a Igreja um dia particularmente para orar pelos mortos? R. Para procurar-lhes um alívio geral. P. Por que razão escolheu a Igreja para este efeito o dia seguinte a Todos os Santos? R. Para mostrar a união que há entre todos os membros da Igreja. Explicação: Os fiéis, que estão no Céu, no Purgatório e na terra, são todos membros da Igreja. Todos são chamados para a eterna felicidade. Estas três Igrejas não fazem mais do que uma debaixo da mesma cabeça que é Jesus Cristo. Acima deixamos bem provada e explicada esta verdade. Excita- se a Igreja da terra a merecer a felicidade dos Santos, alegrando-se no dia de sua festividade de que eles a possuam, e a quer também procurar na Igreja do Purgatório por meios das orações, que faz no dia seguinte pelas almas que compõem esta mesma Igreja.

Da Comunhão dos Santos: A Igreja do Céu, a do Purgatório e da terra não tem alguma união entre si? R. Todas as três não fazem mais que uma só Igreja, um só corpo cujos membros serão algum dia reunidos, em o Céu debaixo de sua cabeça por Jesus Cristo (...).

P. Como se faz esta comunicação entre os fiéis que vivem na terra os que já estão no Céu? Por meio das orações que os fiéis dirigem aos Santos e os auxílios que os Santos lhe procuram. P. Como se faz esta comunicação entre os fiéis que estão na terra e as almas do Purgatório? R. Pelas orações, sacrifícios e esmolas e outras boas obras dos fiéis que vivem, por cujo meio são aliviadas as almas do Purgatório.

Das Indulgências e do Purgatório: P. Os que morrem depois de terem recebido a absolvição de seus pecados, sem terem satisfeito plenamente a justiça de Deus e sem estarem perfeitamente purificados, são condenados? R. Não. Vão para o Purgatório acabar de satisfazer a justiça de Deus e purificar-se".

A confissão, o perdão, a justiça divina, o valor da intercessão dos santos, o culto aos mortos e as devoções aos santos e as almas do purgatório foram concepções longamente desenvolvidas. A catequese revelou os aspectos mais prosáicos da divulgação e esclarecimentos dos pontos centrais da doutrina ortodoxa. Um exemplo da organização dos cultos e ritos pode ser encontrado nas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, de 1707:



"834. É coisa santa, louvável e pia o socorro de sufrágios pelas almas dos defuntos, para que mais cedo se vejam livres das penas temporais, que no Purgatório padecem em satisfação de seus pecados e aos que já gozam de Deus, se lhes acrescente a glória acidental. Portanto, exortamos muito os nossos súditos que em seus testamentos e últimas vontades se lembrem não só de mandarem dizer missas e fazer os ofícios costumados, mas além disso os mais que cada um der, conforme sua devoção e possibilidade.

835. E do mesmo modo exortamos e admoestamos aos herdeiros e testamenteiros daqueles que não declaram Missas e Ofícios que por suas alma hão de fazer, que mandem se façam pelas almas dos ditos defuntos, os sufrágios que for possível. E esta advertência tem muito mais lugar nos herdeiros daqueles que morreram sem fazer testamento.

836. Porquanto é muito conforme a direito que os párocos, que na vida tiveram a seus cargos as almas de seus fregueses, tenham também cuidado delas depois de sua morte, conformando-nos com a boa razão e verossímel vontade dos diferentes, ordenamos que assim como os que morrem com testamento mandam fazer ofícios e exéquias de corpo presente, de mês e ano, assim morrendo pessoa 'ab-intestado', o Pároco donde tal defunto for freguês lhe faça também seus sufrágios de corpo presente, mês e ano, considerando a possibilidade da fazenda e o número de herdeiros que lhe ficam, obrigando-os a que assim o cumpram" (12).
O DESTINO DO CORPO

Até o processo de laicização dos cemitérios, a partir do final do século XVIII e início do XIX, em nome da higiene, da salubridade e da modernização, o hábito católico tradicional foi o de proceder aos enterramentos dentro das igrejas ou nos cemitérios anexos aos templos religiosos.

Na prática, o espaço das Igrejas ficou reservado aos personagens mais ricos e importantes, enquanto os cemitérios recebiam os menos privilegiados. A Igreja também regulou certa ritualização sobre os enterramentos que refletiam costumes e temores de uma época: as mortes violentas, criminosas e os enterramentos de catalépticos. Enquanto um ato religioso e público, as cerimônias fúnebres permitiam um controle tanto religioso sobre os fiéis como social nas transgressões criminais como suicídios ou assassinatos.

No mundo católico o cenário da igreja era exclusivo dos fiéis. Somente eles tinham a possibilidade de espaço dentro do círculo sagrado da Igreja, sob a proteção espiritual das orações, contra os avanços das hostes diabólicas e dos profanadores. Este direito era negado aqueles que, em vida, cometeram atos e ações contrários à religião, não devendo compartilhar da "comunhão e ajuntamento" com os fiéis exemplares (13).

Os interditados não podiam contar com um lugar sagrado para depositar seus corpos. Suas almas deviam padecer sem consolo, esperança ou proteção. As condenações católicas abrangiam o corpo e alma. Se o primeiro era matéria putrefeita e, posteriormente, pó, a alma era imortal e vagava em pecado e sofrimento no Inferno ou Purgatório.

Qual a ligação mais sutil, nas sensibilidades que viam na proibição do enterro da parte física uma espécie de castigo? A primeira delas referia-se à ligação feita, durante largo tempo na história, entre o corpo e a alma, a matéria e o espírito, o natural e o sobrenatural. Esta estreita ligação, embora tenha sofrido alterações e rupturas, revelou uma profunda duração da crença da relação entre o espiritual e o material.

A concepção de uma radical separação entre corpo e alma progrediu muito lentamente dentro de variadas culturas religiosas. Mortos que sangraram ou se mexiam na presença do assassino, corpos decompostos que ainda conservavam sinais vitais como crescimento de cabelos ou unhas levavam a especular sobre uma grande e forte ligação entre a parte espiritual e material dos seres vivos, numa forte crença de que tênues limites separavam o físico do sobrenatural, os mortos dos vivos, a matéria do espírito.

O fantasmagórico habitava o cotidiano das pessoas, os mortos ainda estavam bem separados dos vivos: castigavam-se grandes transgressões com punições ao corpo morto, fosse desenterrando-o para punir ou proibindo o enterro dos criminosos mais graves, condenados à morte eterna para sempre, sem o consolo de um sepultamento e repouso para a alma. Em última instância, punia-se o espírito, condenava-se a alma a vagar em castigo, sem abrigo ou morada segura sob a proteção espiritual da Igreja.

A segunda e a terceira estão articuladas: memória e sensibilidade social e familiar. O morto sem sepultura certa era abandonado pela proteção espiritual da religião, pelos cultos e devoções dos familiares e amigos: era o pária espiritual, anômimo, vencido pelo esquecimento. Mortos desconhecidos e grandes túmulos coletivos em honra ao anonimato: somente os heróis, da antiguidade ou da modernidade tem direito ao triunfo da memória no anonimato.

O corpo sem descanso, a alma desassossegada. Esta talvez seja uma das mais antigas e arraigadas crenças e sensibilidades humanas. Se o discurso religioso durante séculos forneceu os motivos piedosos para os sepultamentos condignos de acordo com determinados ritos, embora a questão higiênica estivesse presente nesta correlação, a higienização e medicalização das sociedades contemporâneas veio alterar esta correlação: enterrar-se, crema-se, reforma-se ou constroem novos cemitérios em nome da saúde e da limpeza, sobretudo dos grandes espaços urbanos, embora conviva-se também com a questão da memória e do sentimento religioso. Em que proporção e com que características foi processada esta inversão de valores? Esta é uma questão para pesquisas posteriores resolverem.


POR UMA DEFINIÇÃO DE CEMITÉRIO

O que era o cemitério? Se nos primeiros tempos do Cristianismo se referia a uma parte importante dos cultos e laços religiosos da comunidade emergente, lugar de devoção e convivência dos fiéis, ao longo dos tempos, ele foi adquirindo uma multiplicidade de aspectos.

Embora a imagem mais frequente esteja associada à idéia de repouso da alma, lugar de culto e respeito aos mortos, os cemitérios guardaram, sobretudo em alguns períodos históricos, a atemorizante presença do sobrenatural, dos espíritos, fantasmas e corpos em decomposição. As lendas e histórias em torno destes lugares, os cheiros, os ruídos eram um campo fértil para a origem dos grunhidos, choros, pancadas e ranger de dentes. Nos limites tênues que separavam a alma do corpo, os mortos dos vivos, o natural do sobrenatural, os lugares dos mortos adquiriam uma vivacidade atemorizante e concreta.

O cemitério amealhava duplicidades: lamentações e saudades, devoções e respeito, medo e horror. Historicamente, muitos foram os sentimentos despertados, porém o homem sempre pressentiu uma vida sobrenatural, desconhecida e amedrontadora, principalmente à noite. Durante o dia, o espaço dos mortos era o local dos atos de fé e piedade; à noite era o ponto de atuação dos desassossegados, daqueles que dedicavam-se às artes mágicas, bruxas, feiticeiras, invocadores dos mortos, os pactuados com o demônio, violadores e ladrões de túmulos.

O cemitério ficou associado à idéia de morada dos mortos, local de repouso do corpo e, também localidade das almas animadas pela dimensão extra-natural, ainda ligadas aos despojos orgânicos. Os cemitérios eram resguardados pelo círculo mágico que a religião estabelecia mas, também, pelos fogo-fátuos azulados, pelas cruzes e lápides, pelas almas dos mortos recém- enterrados aguardando as missas em seu favor. Fora deles, jaziam os condenados e proscritos, a fonte primeira das almas errantes e penadas, que arrastavam os pés e correntes, que assombravam os vivos com suas aparições e reivindicações.
A ALMA COMO FORMA DE CULTO

Dentro do Catolicismo, a alma era uma invisível continuação do ser vivo, inseparável do corpo durante a vida, e que se libertava após a morte, adquirindo uma forma definida, transparente e vaporosa. A Alma era o núcleo imortal do individuo que aspirava à salvação e revestir-se-ia de um corpo incorruptível, após a Ressurreição. Correspondia a uma consciência subjetiva.

Ao contrário da maioria das crenças religiosas que concebiam várias dimensões ou princípios espirituais, na parte não material da vida humana, a tradição judaico-cristã só aceitou uma única forma espiritual imortal após a morte. De acordo com as concepções tradicionais da Igreja, seria a alma na forma de um espírito incorpóreo quem cumpriria as determinações divinas, realizando, por exemplo, o papel penitencial. Isto até o Julgamento Final, quando a imortalidade definitiva seria o prêmio dos Justos.

Como as almas do Inferno, condenadas aos suplícios torturantes e as almas no Céu, vivendo em estado edênico ao lado do Pai, não tinham comunicação com o mundo dos vivos, toda e qualquer forma de manifestação ou aparição dos que já morreram vinha do Purgatório. Assombrado, admoestando, pedindo orações e despertando piedade, são sempre as "almas sofredoras" do Purgatório cumprindo penas determinadas pela justiça divina, que podiam perturbar o cotidiano dos vivos, se não fossem constantemente agraciadas com orações, missas e outros atos devotos.

Segundo uma outra tradição presente no Cristianismo mais popular, existiam certos tipos de assombrações, de almas malfazejas que, por motivos relacionados ao tipo de morte que tiveram como os suicidas, os que morreram de morte violenta ou clamando vinganças, cujos corpos não foram devidamente sepultados, podiam permanecer vagando pelos lugares conhecidos, espalhando catástrofes, desassossego e irradiações maléficas. Os fantasmas e assombrações, em suas formas espectrais, reapareciam nas casas, nos campos, nos cemitérios. Em bandos ou solitárias, as almas dos mortos assustavam, anunciavam desgraças. Por volta de 1600, alguns teólogos da Igreja falavam do fenômeno (14).

Este estado de desassossego espiritual era indesejável e absolutamente oposto ao desejado pelos bons cristãos. Um cristão deveria ter uma alma serena, pacificada de acordo com os desígnios divinos, sem sofrimentos ou penas excessivas. As almas errantes e penitentes não eram benvindas e deviam permanecer em seus limites e domínios espirituais. Os contatos indesejáveis, as invocações condenadas e as consultas aos mortos interditadas: eram práticas consideradas como satanismo e bruxaria. A Igreja mandava guardar extrema prudência com relação a visões e aparições. A verdadeira alma cristã era discreta e, quando aparecia, obedecendo a uma autorização divina, dizia seu recado ou mensagem de maneira suave, desaparecendo ao ouvir orações. Mesmo as almas atormentadas não deviam resistir ao exorcismo ou a preces.

As almas infantis gozavam de um estatuto específico. Até os cinco anos de idade, se batizadas, voavam diretamente para o Céu, ao lado de anjos e serafins que guardavam o trono divino. Os pequenos falecidos sem batismo não podiam ser enterrados em limites dos campos santos e tinham como destino a condenação infernal.

Uma das formas mais permanentes de culto católico foi a devoção às "Almas do Purgatório", um coletivo espiritual sensível às devoções dos vivos. Tanto consistia na veneração respeitosa às almas dos mortos como numa crença nos auxílios sobrenaturais que estas almas podiam realizar, em resposta e agradecimento às orações, missas e velas em sua intenção. Era a idéia de "Alma" enquanto uma entidade (ou um coletivo de entidades) a quem se devia devoção e respeito, podendo ser invocada em auxílio aos vivos.

As almas passaram a contar, inclusive, com um santo protetor: S. Miguel, tradicionalmente identificado pela sua balança e espada. Com o julgamento das almas e a defesa contra os ataques do demônio às almas dos moribundos, passou a ser identificado, sobretudo no século XVI, com a imagem de pastor das almas. O culto a S. Miguel inscreveu-se na veneração cotidiana, na organização de Irmandades e Confrarias, na construção de Igrejas dedicadas a seu culto. Os estatutos de fundação da Irmandade de S. Miguel na segunda metade do século XVIII refletiam a dimensão particular desta devoção:

"Compromisso da Irmandade de S. Miguel e Almas ereta na matriz de Nossa Senhora do Pillar, Comarca de Goyás, mandado por em forma e solicitada a aprovação por seus Irmãos devotos e indignos escravos. No ano 1752. Ao Glorioso Arcanjo S. Miguel (15).

Os crentes e devotos das almas contavam com elas para proteção, e organizavam, desde o século XVI, Irmandades e Confrarias, Igrejas e caixinhas para recolhimento de esmolas com as quais mandava-se dizer missas para as almas do Purgatório. Os altos cruzeiros nas encruzilhadas, as cruzes nos lugares onde morreram pessoas de forma violenta, a Cruz das Almas nas igrejas e cemitérios simbolizavam (e simbolizavam) uma das mais expressivas formas de fé religiosa.

O valor dos mitos e das crenças sobre o destino após a morte compatibilizava vida, morte e finitude através de uma grande diversidade de soluções religiosas. Qualquer forma ou tradição religiosa tem uma característica comum: procurar mostrar que a morte física não significa a anulação do Ser, cuja parte imaterial e espiritual sobrevive, pois é imortal. A morte é, assim, uma outra forma de vida (mesmo que não seja a melhor delas), seja no Céu, no Inferno ou Purgatório, no Hades ou Sheol, através dos ciclos de reencarnação.

No mundo cristão, durante séculos, as almas do Purgatório apareceram para instruir a Igreja Militante, pedir orações ou reparar erros. O catolicismo legitimou a crença nas aspirações e, teologicamente, integrou-as na perspectiva salvacionista. Porém, os fantasmas e aparições não sossegavam. Durante séculos suas manifestações inquietaram, apavoraram e insistiram em revelar uma feição pouco domesticada nos limites impostos pela Igraja.

Permanecia a convicção de que os mortos podiam voltar, e que as almas desassossegadas podiam assombrar ou serem invocadas para trabalhar ou perturbar os vivos. Os ritos, as crendices e superstições traduziam formas específicas de lidar com as almas dos mortos. Somente a partir da segunda metade do século XIX estas almas e fantasmas transformar-se-ão em espíritos desencarnados, objetos de estudo e de uma religiosidade específica, com o surgimento de uma nova abordagem dos fenômenos espirituais: o espiritualismo, a parapsicologia e o espiritismo modernos.

Mas, a Igreja manteve-se fiel aos seus dogmas tradicionais diante da morte e da existência espiritual. Reafirmou a Salvação e a Vida Eterna na fé cristã, Céu, Inferno e Purgatório, perdão e confissão, o lugar do culto às almas. Neste percurso, enfrentou o século das Luzes e da Razão, as Revoluções Políticas e Científicas, as religiões seculares, o Deísmo. Confrontou-se com uma nova sensibilidade espiritual, com a fundamental identidade entre Deus e a Natureza, igualmente transcedentes.

A cultura laica, durante o século XVIII e XIX contrapôs uma frente elaborada do seu sistema de crenças. Bíblia ou Enciclopédia? Deus ou Ciência? Um debate polêmico, um confronto e diálogo diretos. A razão, a experiência e a ciência, os valores mundanos encontravam na Natureza sua prova de fundo e confirmação: a concepção física do mundo preferia exaltar a Humanidade à Providência, mais imanente ao cosmos, ao homem e à história.
UMA NOVA DIMENSÃO ESPIRITUAL?

A Igreja ainda propagando os estudos tomistas e agostinianos não podia mais recusar-se a encarar a eclesiologia à luz da filosofia. As tendências Deistas expressaram esta vontade: "racionalizar" os fundamentos religiosos, as novas contruções teológicas. O moderno agnosticismo proposto por Hobbes, a dúvida metódica de Descartes como o único caminho da verdade, o caminho aberto por Locke que proclamou um cristianismo de caráter racional sobreposto às verdades da Revelação e da Tradição, foram momentos muito importantes nos abalos sofridos por todas as formas de religiões reveladas (). Os mistérios da Encarnaçao e da Divindade impostos pelas velhas concepções acabaram ressacralizados na idéia do Ser Supremo e da imortalidade da alma, no culto a Natureza e no deismo, nas imagens do Deus arquiteto e construtor do Universo.

O século das Luzes não significou a morte de Deus e sim um momento muito particular e curioso da sacralização, de novas abordagens e conteúdos específicos, onde o papel reservado para a tradição cristã foi um conjunto de mitos mais ou menos simbólicos. O aparato da Igreja conservou-se e, para um número bastante elevado de fiéis, manteve os laços afetivos.

Ser anti-católico não foi sinônimo de antirreligiosidade. As afirmações da imortalidade da alma e o culto ao Ser Supremo, foram facetas muito importantes do movimento de construção de uma nova relação sacralizada com a vida, longe do abrigo da religião institucionalizada. (16).

A construção de uma racionalidade na totalidade social baseou-se na crítica a todo tipo de superstição, paixão popular, efusão mística ou fanatismo de qualquer espécie. O culto tradicional da Igreja, contudo, sofreu menos mudanças do que se pode pensar. Apesar da tormenta revolucionária, do ascenso da burguesia, do liberalismo econômico e intelectual, a Igreja, que perdeu a influência política, foi buscar pureza evangélica, uma maior dedicação a seus compromissos espirituais e pastorais. No final do século XVIII, uma nova necessidade de fé religiosa, de consolos religiosos, de ritos e cerimônias tradicionais, orientou vários segmentos da sociedade ocidental. Um exemplo bem claro pode ser encontrado na publicação do O gênio do Cristianismo de Chateaubriand, símbolo da inquietudo espiritual do final do século. (17).

Uma nova visão de mundo e da vida acabou por impôr um novo limite à idéia de finitude e imortalidade. Qual o destino final da alma enquanto um princípio natural, um elemento no jogo das forças da natureza que movimentavam o universo de acordo com uma lógica racional, de leis constantes e imutáveis num mundo organizado de acordo com determinadas correlações previsíveis? Este universo no qual o homem estava inserido era obra de um Deus diferente, um grande arquiteto e mecanicista, o construtor e responsável pela ordem universal e natural, que reservou um lugar para a imortalidade humana. (18).

Porém, onde localizar esta dimensão espiritual? Numa perspectiva nova onde a natureza e todas as coisas eram formadas por elementos de natureza molecular, química, eletromagnética, a noção de alma, da espiritualidade, de vida após a morte foi retrabalhada. Após a morte deslizava-se para um descanso eterno, um além luminoso à semelhança do paraíso celeste? Ou acontecia uma dissolução etérica e molecular da alma?
AS ALMAS PERMANECEM NO PURGATÓRIO: OS SUSTENTÁCULOS DA IGREJA.

O respeito devido aos mortos, o medo despertado pelas relações sobrenaturais forma aplacados em devoções específicas. Do ponto de vista da escatologia católica, ainda no século XIX, colocavam-se as possibilidades de salvação após a morte, das almas do Purgatório, através de indulgências, esmolas, orações e missas. Assim proclamava o clero tradicional em 1842:



"Breve Catecismo das Verdade Católicas. Frei Antônio de Jesus por um devoto:

Novena das Almas. Nesta novena se acha um riquíssimo tesouro de indulgências, às quais se podem aplicar pelas almas do Purgatório.

Oferecimento: Estas saudações de S. Gregório e orações de Padres Nossos e Ave Marias, que intento rezar, vos ofereço, Meu Deus, e vos rogo as recebais em desconto e satisfação de minhas culpas e pecados, confirmando o que os Sumos Pontíficies tem concedido a quem rezar diante da imagem de Jesus meu Salvador cruscificado, e dutdo o que eu posso, aplico para o bem das almas do Purgatório, que forem agradáveis a vossa Divina Majestade, honra e glória.Meu amantíssimo Pai, eu vos ofereço a inocente morte de vosso precioso filho, e o amor de seu divino coração, por toda culpa e pena, que eu miserável pecador e o mais depravado de todos, por minhas culpas mereci, e por todos os meus conhecidos, amigos, vivos e defuntos, para que tenhais misericórdia de todos nós. Amém."

O purgatório, no século XIX, perdeu, do ponto de vista teológico, sua localização geográfica e espacial, para ver ressaltada, acima de tudo, sua dimensão moral, conforme aparece no Manual de Instrução Religiosa Boulanger, de 1907:



"Quanto a situação do Purgatório, a Igreja, nas suas preces, fala de lugar inferior, mas pode-se entender estas expressões em sentido moral, não material, e não há hada que determine onde fica o Purgatório."

O ponto de vista das crenças mais arraigadas na religiosidade cotidiana, contudo, o Purgatório ainda era um lugar específico, povoado por almas antropomorfizadas, esperando um auxílio e despertando piedade e comiseração dos vivos. As famosas "caixinhas de esmolas pelas almas", constantes durante todo o século XIX, refletiam esta posição ainda bastante material do Purgatório, da imagem de fogo purificador.



"Quatro ou cinco pés à frente, na porta da capela, erguia-se um poste do chão, com uma caixa de esmolas, presa a ele por ferro e fechada com um cadeado. No fundo via-se um cálice pintado e por baixo cabeças rolando nas chamas. Na caixa estava escrito: "Esmola para as almas - esmolas para tirar as almas do purgatório." (19).

No plano teológico, a Igreja, nos séculos XIX e XX, avançou pelo domínio espiritual e moral, em contraposição à perda de poder e domínio político. Não encontrava mais necessidade de impor uma iconografia ou cartografia da espiritualidade e dos destinos da alma: ficou com o nível mais sutil da consciência humana, num profundo jogo de medos e culpas, tão a gosto de uma época que gestou a psicanálise, que tirou do confessionário para lançar no divã os tormentos mais profundos da alma. Este processo de ruptura religiosa, da perda do caráter místico e sagrado da religiosidade vivida de forma catártica e simbólica pela Igreja e seus fiéis, foi um fenômeno muito importante, embora ainda não tenha sido devidamente explorado pelos estudiosos.

O século XIX foi marcado por avanços e continuidades dentro do pensamento da Igreja. Uma carta pastoral de 1867, de autoria de D. Manoel Joaquim da Silveira, colocou em debate os limites e as incorporações feitas pela Igreja nas grandes modificações do final do século XVIII e no século XIX.

"E de fé, que a alma do homem é um puro espírito, imortal, única para cada corpo, livre e que não existiu jamais antes do corpo que deve habitar. (.... ).

Finalmente a razão conhece, que Deus sapientíssimo autor do Universo, em o qual se observa uma admirável gradação, formando o homem a sua imagem e semelhança, pouco menor que os anjos, e colocando-os sobre as obras de suas mãos, quiz que ele fosse o elo do mundo espiritual e do mundo material, e portanto o corpo material é parte constituida do homem. (....).

O Purgatório é ensinado na Escritura Santa. Jesus Cristo diz: - E todo o que disser alguma palavra contra o Filho do Homem, perdiar-se-lhe-há; porém o que disser contra o Espirito Santo, não se lhe perdoará, nem neste mundo, nem no outro. - Donde se conclui, que há pecados, que são perdoados no outro mundo, do contrário a expressão do Salvador nada significaria, nem diria Nosso Senhor Jesus Cristo, que o pecado contra o Espírito Santo nao se perdiava, nem neste mundo, nem no outro, senão julgasse que alguns pecados se perdoavam no outro mundo. (....).

Já no Antigo Testamento estava escrito, - E o pó se trone na terra donde era, e o espírito volte para Deus que o deu. Eis aqui demonstrado pela autoridade da Escritura, que na morte do homem, cada um dos dois elementos, que essencialmente o constituirão, torna para donde tinha vindo, o corpo como formado de limo da terra, torna-se em terra, e a alma como produzida por Deus do nada, volta para Deus para ser pelo Senhor julgada pelos seus merecimentos. (....).

Está pois demonstrada pela autoridade da Escritura que os corpos vão ressucitar porque importa que todos nós compareçamos diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba o galardão segundo o que tem feito, ou bom, ou mau, estando no próprio corpo. - Sim, que ressucite cada um no seu próprio corpo, que o ajudou a servir a Deus ou ao Demônio, à fim de que este mesmo corpo participe das coroas e prêmios do seu triunfo, ou desgraçadamente também sofra as penas e os suplícios merecidos. (....).

Porque na verdade que é uma revolta contra a sabedoria divina querer saber as coisas que Deus nos quer ocultar e querer fazer voltar a este mundo as almas que a sua Justiça fez sair, e a Igreja nunca autorizou a vã opinião de que as almas dos mortos podem voltar a este mundo para fazer revelação aos vivos, quando Jesus Cristo no que disse ao rico avarento claramente mostrou que Deus não permite aos mortos falar aos vivos. (....). " ( ).

Punir ou controlar através da culpa? Este problema era colocado e resolvido, simultaneamente, pela religião católica. As relações com Deus eram permeadas por uma barreira de leis e punições. Pelo menos até a segunda metade do século XIX, em todos os meios sociais e culturais, a Igreja detinha os meios de salvação após a morte. Muitas das crenças e concepções que pareciam escapar da religião institucional na forma de ritos e crenças populares eram, na maioria das vezes, complementos aos atos religiosos católicos, em relação à morte, às almas dos mortos e ao Além. (20).

Durante toda a segunda metade do século XIX, sobretudo em fins do século, a Igreja debateu com uma sociedade em mudança, pelo menos nos centros urbanos, tentando afirmar seus princípios e incorporar, dentro de certos limites, as modificações inevitáveis. Em 1888, o Bispo Antônio de Macedo Costa escreveu um documento procurando colocar a posição da Igreja frente à questão da liberdade de cultos, fundamentando a posição religiosa oficial diante da Liberdade e da Razão, pensando na preservação das virtudes e corrupção que rondavam a sociedade.

"Como é que a Igreja depois de dezoito séculos de exercício desse apostolado, depois de haver usado constantemente da autoridade divina de seu magistério, profligando as superstições pagãs, anatematizando e condenando todas as heresias, todos os cismas e todos os erros que iam surgindo diante dela, como é que essa Igreja há de proclamar que não há mais erros, nem heresias, nem cismas condenáveis, nem religiões falsas, nem superstições abomináveis, mas que todas as religiões são boas, que em todas acham os homens meios de agradar a Deus e salvar-se, que não há religião obrigatória, que o homem é moralmente livre, tem a faculdade moral de adorar a Deus como entender?

Seria isso absurdo. Professem esse latitudinarismo as seitas, que em última análise são humanas, fundadas por homens, e, como tais, não se sentem com direito de obrigar moralmente os outros homens. A razão é igual a razão, as opiniões equivalem as opiniões. (.... ).

1 - A razão humana é limitada, falível, sujeita ao erro. Logo não pode ser ela a sua própria regra.

2 - A verdade é distinta da razão, pois é objeto dela. A razão é contingente, a verdade que é independente da minharazão, que subsiste na mente incriada, infinita do Criador, (....), se impõem à minha razão como sua lei imutável, como su regra absoluta.

A minha faculdade de pensar não é pois, livre em face da verdade, (....). Portanto é um absurdo dizer que o homem é livre de pensar como quiser e que se deve ter para com qualquer convicção o mesmo respeito que se tem para a verdade. (....)" (21).
A MANIFESTAÇÃO DA FÉ

Lançando mão de argumentos que trabalhavam com as inseguranças e os medos humanos, a Igreja deplorou as modificações da sociedade, a implantação de novos modelos laicos de organização. Na questão da publicização dos cemitérios, os argumentos contrários deixavam claro o aspecto emocional que a religião católica explorava, como exemplo na Carta Pastoral comunicando aos seus diocesanos a resolução pela qual a Câmara Municipal assenhorou-se dos Cemitérios de N. S. da Piedade e S. Gonçalo ( ), de autoria de D. Carlos Luiz D´Amour: (22)



"D´ora em diante, naqueles cemitérios, naqueles recintos sagrados, onde jazem os restos mortais de nossos antepassados, de vossos progenitores, de vossos amigos, não se poderá mais celebrar o Santo Sacrifício da missa pelo seu eterno descanso! Não vereis mais, filhos queridos, descer sobre suas sepulturas as bençãos de Deus! e o sino sagrado também emudecido, não soará mais plangente, não se fará mais ouvir convidando os fiéis a orar pelos Finados! Triste e lúgubre efeito que resulta da secularisação de um cemitério!..."

O destino das almas foi reguardade no domínio da ortodoxia oficial da Igreja, de acordo com uma pastoral coletiva de 1915 dos Senhores Arcebispos e Bispos do Rio de Janeiro. Mariana, São Paulo. Cuiabá e Porto Alegre (RJ, Typ. Martins de Araújo): (23)



"Creio que as almas dos que houverem falecido verdadeiramente arrependidos na Graça de Deus, sem ter durante a vida, satisfeito, com dignos frutos da penitência, pelos seus pecados de comissão e omissão, serão, depois da morte purificados com as penas do Purgatório, bem como creio que para serem aliviadas destas penas, lhes são proveitosos os sufrágios dos fiéis vivos, à saber: Missas, orações, esmolas e outras obras de piedade, que os fiéis tem por costume em bem dos outros fiéis segundo os ensinamentos da Igreja, creio também, que as almas dos que depois de terem recebido o batism, não incorreram absolutamente em nenhuma mancha de pecado, bem como aquelas que, tendo contraído alguma mancha de pecado, dela se purificaram, quer em vida, quer depois da morte, são logo recebidas no Céu e verão, claramente, a Deus, Trino e Uno, tal qual ele é, todavia, umas mais perfeitamente do que outras, conforme a diversidade dos merecimentos; creio porém que as almas dos que morrem em pecado mortal ou só original, descem imediatamente ao Inferno, para serem punidas com penas proporcionais aos seus delitos."
UMA NOVA VISÃO TEOLÓGICA

Somente no século XX o pensamento religioso católico sofreu modificações. A teologia da morte atual não concebe o fenômeno como doloroso ou problemático mas, simplesmente como inevitável. A grande realidade católica após o Concílio Vaticano II promoveu um esclarecedor inventário e uma revisão dos valores tradicionais diante de novos horizontes ecumênicos. Estabeleceu uma nova relação entre razão e fé, experiência e meditação, ciência e religião, filosofia e teologia.

Diante da fragilidade corpórea do ser humano, os sentimentos de dor e de perda irreparável mereceram uma reflexão sobre a natureza verdadeirado homem. O homem é corpo e alma. A alma é uma dimensão humana, justamente aquilo que lhe confere o poder de decisão, de construir a si mesmo e a tudo que o rodeia. A alma trabalha pelo corpo. A vida é, portanto, uma trajetória existencial das dimensões humanas em sua vias uma trajetória existencial das dimensões humanas em sua libertação. O homem e sua vida ganham uma formulação na nova teologia, uma perspectiva existencial de um eterno vir-a-ser no mundo. (24).

A morte, enquanto um fenômeno natural da condição dos seres vivos revela tanto a impotência do ser humano diante da sua fragilidade, mas é também vista no seu sentido sagrado, religioso, como a experiência que transcende o tempo e o espaço. A verdadeira reflexão do cristão moderno deve ser a compreensão verdadeira do sentido da morte:



"O homem é um nó de relações e dinamismos sem limite, voltados para todas as direções, clamando por uma realização plena e por um desabrochar no verdadeiro sentido. Quão diversa seria a nossa dor se chegássemos a compreender que FIM não precisa significar negatividade mas positividade (o estudante que conclui o curso, a mulher que no dar a luz plenifica sua gravidez). A morte é sim, o fim da vida (desta vida). Mas FIM entendido como meta alcançada, plenitude almejada e lugar do verdadeiro nascimento. A união interrompida pelo desenlace não faz mais que preludiar uma comunhão mais íntima e mais total. (....).

Morte é a cisão entre o modo de ser temporal e o modo de ser eterno no qual o homem entra. Pela morte, o homem alma não perde sua corporalidade. Esta lhe é essencial. Não deixa o mundo. Penetra-o de forma mais radical e universal. Não se relacionará com apenas alguns objetos, como quando perambulava pelo mundo dentro das coordenadas espacio-temporais. Mas com a totalidade do cosmos, dos espaços e dos tempos. Morrendo, acabamos de nascer, na expressão forte de Franklin. A morte é então o vers dias natalis do homem." (25).

Alcançar a eternidade, ao contrário do que pregou a teologia tradicional, não é para depois da morte. A eternidade está no tempo, emerge da história humana. O que somos agora, seremos eternamente, seja injustiça, egoísmo, ódio ou então, justiça, amor e paz. (26).

No Antigo Testamento, a morte era uma consequência do pecado, da Queda e do castigo e maldição de Deus sobre seus filhos, criados imortais e em pecado, tornados mostais. O Novo Testamento, a morte de Cristo e sua ressurreição conduziram a morte como uma passagem e uma libertação. A vinda de Cristo, sua mensagem e morte apontaram uma nova perspectiva: Jesus foi o exemplo, o caminho e libertação eterna. A devoção ao Cristo morto transforma-se em símbolo da força histórica que a luta e a resistência podia trazer aos homens. Era um protesto contra a alienação, a injustiça e a violência do mundo, contra a morte precoce e miserável a violência da pobreza e da injustiça, obra dos homens e não de Deus.

A ressurreição tem seu caráter simbólico exaltado. Crer na ressurreição individual ou coletiva é encontrar o exemplo de Cristo: a vitória sobre a morte na imagem de Jesus que ressucita está repleta de sinais da vitória sobre o mundo e a opressão, sobre a violência e a injustiça que oprime o povo:



"A morte é um dado diário. Milhares já morreram nestes últimos anos em El Salvador, vítimas da violência. Pois bem, um desses tantos milhares foi um bispo. Morreu exatamente no momento em que celebrava a Eucaristia, sacramento que celebra a vida e a ressurreição de Jesus e de todos nós. No domingo anterior ao de sua morte, concluira o sermão com a frase: "Cremos na Ressurreição". Quem o fazia era alguém que estava condenado à morte por seus inimigos, as forças paramilitares. De fato, poucos dias depois, caía metralhado por elas. A certeza da morte lhe dava coragem, como a Jesus, para proclamar sua confiança no Pai. ´Em suas mãos entrego meu espírito´". (27).
A MORTE COMO TRANSCENDÊNCIA

Para que tem fé, a busca do que acontece do "outro lado" não faz a menor diferença. Porém, especular sobre o destino espiritual pode fortalecer a fé, fazê-la crescer e consolar.

Morrendo, o homem rompe o tempo e o espaço. Na ausência do tempo, não existe passado ou futuro. Tudo é o presente e eternidade, desde a criação do universo ao Juízo Final. Morrendo, perdemos o homem exterior, a imagem que tínhamos em vida, em função das necessidades e aparências, que chorava, sorria, mentia. Este é o homem que morre, suas células, suas moléculas que retornam à natureza. Sobreviverá o corpo real, espiritual e mortal:

"Restará o corpo real, nosso verdadeiro corpo, que não terá estruturas atômicas e energéticas, pois sua substância característica que não podemos descrever ou definir, pois estão além de nossas capacidades intelectuais. Características compatíveis com a essência de Deus, com o infinito e a eternidade, que serãoa nossa nova realidade. E este corpo real não se separará do espírito e da mente, que dele fazem parte integral e indivisível". (28).

Este homem interior despertará na sua consciência, fará o julgamento em função da vida, do que pensou e das decisões tomadas, diante do Pai Amoroso. Em função do seu modo de viver terá a eternidade. Se, diante daquilo que foi sua vida, optar por estar longe de Deus, viverá no Inferno. Mas se julgar-se em condições de permanecer ao lado de Deus Pai e Criador, estará no Céu e na Paz Eterna. Céu e Inferno, são, portanto, situações definitivas e eternas por nossa vontade e ação do nosso livre-arbítrio, uma consequência de suas vidas. (29).

Na moderna teologia da morte, o Purgatório é também uma situação na qual um homem impuro que deseje ficar perto de Deus passa por uma "purificação", além de nossa compreensão. Só existe uma vida, uma chance e possibilidade de salvação. Da morte não há retorno, pois o homem deixa a dimensão tempo e espaço. A reencarnação não existe. (30).

Cabe ao homem viver a vida que lhe é dada, sem indagar seu destino, buscando a fé e o modelo de Cristo, a redenção através da mensagem de Jesus, seu exemplo de força, amor e fé, sem abandonar a perspectiva escatológica, apesar da modernidade:



"Mas sendo Deus o criador de todas as coisas, o Senhor absoluto de tudo, pode-se admitir, dentro de um processo de Esperança, que no finasl da temporalidade terrestre, na parusia, que o Amor Absoluto venha realmente impregnar todas as coisas e, quem sabe, até mesmo aqueles que se recusaram a ser amados possam ser restaurados, da eternidade de volta para o tempo e, em seguida, readmitidos na eternidade do Infinito Amor de Deus!" (31).

Tarefa demedida e ilimitada. Deus é o poder de tranformar o mundo, a vida e a morte. Nunca se poderia dizer que tudo está acabado: a Revelação de Cristo, a fé na Ressurreição, são forças que movem todos os homens em busca da libertação, nas revoluções da história.



NOTAS

1. Dickens, A.G., A Reforma na Europa do século XVI, Lisboa, Verbo, 1971, pp. 36, 44, 131 e 142.

2. Berger, P., La Religion dans la Conscience Moderne, In: Bauberot, J., História do Protestantismo, Mira-Cintra, Publicações Europa-América, 1987, pp. 18-20.

3. Delumeau, J., Naissance et Affirmation de la Reforme, Paris, PUF, 1979, pp. 23-4.

4. Depoimento de Elie Brackenhoffer em 1643, citado por Lebrun, F., As reformas: Devoções Comunitárias e Piedade Pessoal, In: História da Vida Privada, SP, Cia das Letras, 1990, volume 3, p. 109.

5. Publicação da Sociedade Torre da Vigia de Bíblias e Tratados, SP, Cesário Lange, 1972.

6. Idem, Ibidem, pp. 67-70.

7. Idem, Ibidem, pp. 85-6.

8. Dickens, A.G., A Contra-Reforma, Lisboa, Verbo, 1971, pp. 9-19.

9. Idem, Ibidem, pp. 72-8.

10. Idem, Ibidem, pp. 79-95.

11. Delumeau, J., A Confissão e o Perdão: as dificuldades da confissão nos séculos XIII a XVIII, SP, Cia das Letras, 1991, p. 13.

12. Neste trabalho utilizei a reedição de 1853, SP, Typ. 2 de Dezembro, Antonio Louzada Antunes.

13. Cf. Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia.

14. Taillepied, N., Traicte de l'apparition des esprits, à scavoir des âmes separes, fantômes, prodiges et accidents merveilleux, Rouen, 1600, In: Delumeau, citado, p. 87.

15. Livro de Atas da Fundação da Irmandade de S. Miguel e Almas de Goiás, Arquivo particular do padre Jamil Nassif, Rio Claro.

16. Vovelle, M. La Mort et lÓccident de 1300 à nous jours, Paris, Gallimard, 1983, p. 469.

17. Tavenaux, op.cit. pp. 65-7.

18. Tavenaux, op.cit. pp. 68-9.

19. Ewbank, T. Viagem pelo Brasil, SP, Edusp/INL, 1976, p. 58

20. Tavenaux, op.cit. p. 76.

21. "A Liberdade de Cultos: representação à Assembléia Geral Legislatiiva pelo Bispo do Pará". RJ, Typ. de G. Leuzinger, 1888).

22. Cuiabá, Oficina Siqueira, 1901.

23. RJ, Typ. Martins Araújo, 1915.

24. Boff, L. Vida para Além da Morte, Petrópolis, Vozes, 1984, p. 19.

25. Boff, L. Vida para Além da Morte, Petrópolis, Vozes, 1984, pp. 35-7.

26. Libânio, J.B. "Conceito Cristão da Morte" in Morte e Suicídio: uma abordagem interdisciplinar. Petrópolis, Vozes, 1984, p. 80.

27. Libânio, J.B. op.cit. p. 88.

28. D´Assumpção, E.A. "Vida após a morte: Uma visão dentro da perspectiva católica", in Morte e Suicídio, p. 100.

29. D´Assumpção, op. cit. p. 101.

30. D´Assumpção, op. cit. p. 102.

31. D´Assumpção, op. cit. p. 104.





CAPÍTULO4


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