Capítulo 6 a singularidade pedagógica de dom bosco



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CAPÍTULO 6
A SINGULARIDADE PEDAGÓGICA DE DOM BOSCO

Com bastante ênfase, não totalmente gratuita, um sacerdote da diocese de Fermo, escrevia em 1886: “São já 50 anos que Dom Bosco sacrifica a vida para a educação e instrução da juventude com um êxito tão feliz e tão extenso, que se tornou o mais famoso educador de nossos tempos, tanto no velho como no novo mundo. Quem o tornou assim famoso foi o seu Sistema Preventivo”1. Não teria muito sentido dar lugar à retórica; mas é bastante pacifico que Dom Bosco pareceu a muitos contemporâneos, e também a pósteros excepcional educador e representante emergente do sistema preventivo na educação da juventude, sem com isso diminuir em nada a rica e original contribuição de outros educadores passados e contemporaneos2 . Da singularidade da sua experiência alguém teve logo uma aguda intuição: C. Danna, professor de Instituições de Belas Letras na Universidade de Turim que já em 1849, sobre o Oratório, “ a escola dominical de Dom Bosco”, escrevia duas páginas apaixonantes, acentuando o caráter ao mesmo tempo religioso e civil, integralmente educativo e alegre de oratório de Dom Bosco.


“Ele recolhe nos dias festivos, lá naquele recinto solitário, de 400 a 500 acima de 8 anos, para afasta-los de perigos e maus divertimentos e instruí-los nas normas da moral cristã. E isto entretendo-os em agradáveis e honestas recreações, depois de terem assistido aos ritos e exercícios de religiosa piedade. Ensina-lhes além disso a História sagrada e a eclesiástico, o catecismo, os princípios de aritmética: ele exercita no sistema métrico decimal e aqueles que não sabem, também no ler e escrever. Tudo isto para a educação moral e civil. Mas não descuida a educação física deixando que no pátio que está ao lado do oratório e bem cercado, nos exercícios de ginástica, ou divertindo-se com as pernas de pau ou com alteres, com as malhas e com as bolas de pau cresçam, reforcem o vigor do corpo. A isca com a qual atrai esta numerosíssima multidão além de prêmios de alguns santinhos, além de rifas, e as vezes algum lanchinho, é o aspecto sempre sereno e sempre vigilante no propagar naquelas jovens almas a luz da verdade e do amor recíproco. Pensando no mal que evita, os vícios que preveni, as virtudes que semeia, o bem que frutifica, parece incrível que a sua obra pudesse ter impedimentos e contrariedades (...). Mas o que dá a Dom Bosco maior direito à gratidão da cidade, é o internato, que lá na mesma casa do oratório, recolhe meninos mais indigentes e necessitados. Quando ele encontra algum mais necessitado e mais carente, não o perde mais de vista, leva-o para sua casa, dá-lhe de comer troca por roupas novas seus trapos, fornece-lhe alimento de manhã e de tarde, afim de que uma vez encontrado um patrão e trabalho, tem certeza de conseguir para ele um sustento honrado para o futuro, e pode cuidar com maior segurança da educação de sua mente e de seu coração3.

Largo espaço ao sistema educativo de Dom Bosco é dado também pelo discurso pronunciado nos funerais de trigésimo dia, em primeiro de março de 1888, pelo arcebispo de Turim, cardeal Caetano Alimonda. A educação, segundo o orador, é o primeiro setor no qual Dom Bosco se mostra divinizador do século XIX, ao lado da “cultura dos operários” e “da obra do trabalho”, ao espírito associativo à civilização dos povos subdesenvolvidos. “João Bosco, que não despreza nada do que é útil para a pedagogia, vai mais em frente: não tem o problema do método, tem a resolução dos princípios. Na afeição natural introduz como guia o elemento religioso, na ciência, a caridade. Por isso diviniza a pedagogia”4 . Intensamente religiosa, a sua pedagogia não é constrangedora: “Faz tudo livre e alegremente”5 Ao mesmo tempo se trabalha, com empenho e genialidade de iniciativas, em uma atmosfera de paz, de dignidade e de confiança6. O estilo geral na direção das varias obras é o sistema preventivo, que para Dom Bosco “é lei absoluta”, bem caracterizado com relação ao “método repressivo” muitas vezes inevitável na vida civil: “a força suprema e predileta, a força miraculosa a qual Dom Bosco se entrega ao governar, é a força moral. Sabe e vê que se não conquista o afeto do aluno, é o mesmo que construir sobre a areia, o mesmo educar os corpos e não os espíritos”7.



l. Síntese biográfica
A biografia de Dom Bosco pode-se dividir em três períodos: a “preparação” ( 1815-1844); a definição dos traços fundamentais de sua ação educativa (1844-1869); a consolidação organizativa e “teórica” das suas instituições (l870-l888).

Indicamos aqui os momentos mais notáveis do seu itinerário de vida e de ação educativa.




  1. (16 de agosto) nasce na localidade dos Becchi, no município de Castelnuovo de Asti.

1817 morre seu pai.

1824 começa a aprender a ler e a escrever com o P. José Acqua.



  1. pela festa da páscoa, é admitido à primeira comunhão.

  2. (fevereiro) é garçon na fazenda dos Moglia(até o outono de 1829).

  3. retoma os estudos de língua italiana e latina com o padre João Calosso.

  4. a partir de dezembro freqüenta a escola municipal de Castelnuovo(Natal de 1830-verãode 1831.

  5. a partir de novembro se torna aluno da escola pública de gramática, humanidade e retórica de Chieri.

  1. entra para o seminário de Chieri, onde estuda filosofia e teologia.

  1. 5 de junho, vigília da festa da Santíssima Trindade, em Turim, é ordenado sacerdote.

  1. em novembro, entra para o Colégio Eclesiástico, em Turim, para o estudo prático da moral e da homilética; reúne e catequiza meninos e adultos.

  1. (outubro) é capelão em uma das obras da marquesa Júlia de Barolo.

  2. (maio)-1846(março): acontecem as peregrinações do oratório, de São Pedro in Vincoli aos Moinhos do Dora, a casa Moretta, aos prados dos irmãos Filippi.

  3. (12 de abril) o Oratório encontra sua sede definitiva na casa Pinardi, na periferia de Valdocco, onde Dom Bosco vai morar em novembro, juntamente com sua mãe; durante o inverno de 1846-1847 começaram as escolas noturnas.

  4. começa o internato e o Oratório de São Luís em Porta Nova. Fundação da Companhia de São Luís.

  5. (21 de outubro) início da publicação do Amigo da Juventude, jornal religioso, moral e político(vai durar 8 meses, fundindo-se com O instrutor do povo).

  6. assume, depois de Dom Cocchi, a direção do oratório do Anjo da Garda, no bairo de Vachiglia; funda a Sociedade dos operários ou de mùtuo socorro, cujo estatuto ele formula em 1850.

  1. ( 31 de março) o Arcebispo, Monsenhor Fransoni, exilado em Lion, nomeia Dom Bosco “ Diretor e chefe espiritual” do oratório de São Francisco de Sales, ao qual se unem “Unidos e dependentes” os oratórios de São Luis e do Anjo da Guarda.

  2. inicia a publicação das Leituras Católicas e abre uma modesta oficina interna para alfaiates.

  3. abre a oficina de encadernação; a dois clérigos ( entre os quais o P. Miguel Rua, que será o seu sucessor) e a dois jovens ( entre os quais o futuro Cardeal João Cagliero) Dom Bosco propõe a experiência de uma forma associativa apostólica, germe da futura sociedade salesiana; primeiros contatos com o ministro Urbano Rattazzi; entra São Domingos Sávio para o oratório de Valdocco ( 1842-1857 ).

  4. é instituída a terceira série ginasial interna ( até então os jovens estudantes freqüentavam escolas particulares).

  5. começa a oficina de carpintaria e é instituída a primeira e a segunda ginasial; é fundada a companhia da Imaculada .

  6. tem inicio a companhia do Santíssimo Sacramento e o pequeno clero; é criada também uma conferencia juvenil de São Vicente de Paulo.

  7. Dom Bosco faz sua primeira viagem a Roma, para submeter a Pio IX seu projeto de sociedade religiosa, consagrada aos jovens, e o primeiro esboço de Constituições.

  8. fica completo i ginásio ( 5 classes); é criada a companhia de São José; a Sociedade salesiana surge como associação religiosa, particular e de fato.

  9. então para a sociedade religiosa, particularmente constituída, os primeiros leigos ( “coadjutores”).

  10. ( 31 de dezembro) é autorizada a abertura da oficina para tipógrafos.

  11. surge a oficina dos ferreiros; primeira profissão dos votos religiosos ( 14 de maio).

  12. inaugurado o primeiro instituto fora de Turim, em Mirabello Monferrato, sob a direção de Dom Rua, a quem, na ocasião, Dom Bosco dirigi uma carta, que constitui o núcleo originário das futuras Lembranças Confidenciais ( o instituto será transferido para Borgo São Martinho em 1870); tem inicio a construção da igreja de Maria Auxiliadora.

  13. inicia a sua atividade o colégio de Lanzo Torinese; Decreto de louvor em favor da sociedade salesiana.

  14. Bosco projeta a Biblioteca dos escritores Latinos, que tem inicio em 1866 com o título Leituras escolidas dos escreitires latinos para o uso das escolas.

  1. consagração da igreja de Maria Auxiliadora.

  2. ( 19 de fevereiro) a Santa Sé aprova a Sociedade salesiana; é inalgurado o colégio de Cherasco; sai o primeiro volume da Biblioteca da juventude italiana ( em 1885 chegará ao 204 e ultimo volume).

  3. é fundado o colégio interno municipal de Alassio.

  4. iniciam-se o colégio interno municipal de Varazze e a escola de artesãos em Narassi ( Genova), transferida no ano seguinte para Sampierdarena ( Ganova).

  5. os salesianos assumem o colégio dos nobres de Valsalice ( Turim); é fundada a Congregação religiosa feminina com o titulo de Instituto das Filias de Maria Auxiliadora.

  6. as constituições da sociedade salesiana são definitivamente aprovadas pela Santa Sé.

    1. a obra salesiana se estende pela Europa ( França, Espanha, Inglaterra) e pelo continente Sul Americano ( Argentina, Brasil, Uruguai etc) com obras para emigrantes instituições escolares e educativas, atividades missionárias.

  1. Pio IX aprova a associação dos cooperadores e cooperadoras salesianos.

  2. primeiro capitulo geral da Sociedade de São Francisco de Sales, seguido, Dom Bosco ainda vivo, por outros três: 1880,1883,1886. em 1877 acontece também a publicação das páginas sobre o sistema preventivo e dos Regulamentos. em agosto tem inicio o Bilbliófilo Católico ou Boletim Salesiano.

  1. Dom Bosco asceita construir a igreja do Sagrado Coração em Roma: será consagrada em 14 de maio 1887.

  2. ( fevereiro) é aberto o colegio de Utrera na Espanha.

  1. viagem triunfal de Dom Bosco a Paris.

  2. penúltima viagem a Roma ( 19 ); em junho consegue os chamados “ privilégios”.

1886 8 de abril- 6 de maio: acolhidas extraordinárias e permanência na Espanha, em Sarriá-Barcelona.

1887 (maio) última viagem a Roma para consagração da igreja do Sagrado Coração.

1888 (terça feira, 31 de janeiro, às 4:45 ) Dom Bosco morre.

2. Fontes para a reconstrução do “sistema preventivo” de Dom Bosco
Para uma correta reconstrução das práticas e da concepção educativas de Dom Bosco, parece ser necessário adotar alguns critérios metodológicos que tenham presentes: primeiro, a complexidade da sua ação e visão dos jovens; segundo, a constante interação de ação e visão dos jovens; terceiro, atenção ao mutante contexto histórico dentro do qual a complexa realidade se coloca, entre rigidez de esquemas e tentativas de adaptação.


    1. Dom Bosco apóstolo cristão da juventude




    1. Dom Bosco apóstolo cristão da juventude

Dom Bosco não é somente educador no sentido estrito e formal; a sua atividade propriamente educativa8 se insere em um conjunto mais amplo de interesses pela juventude e pelas classes populares em todos os níveis. Concretamente, ela deve ser marcada no contexto de uma tríplice preocupação, com ela entrelaçada, mas formalmente distinta:



  1. a atividade assistencial e benéfica voltada para as necessidades elementares do alimento, da roupa, da moradia e do trabalho.

  2. o cuidado pastoral a salvação da alma, do viver e morrer na graça, com as intervenções específicas que este exige;

  3. a animação espiritual das comunidades educativas e religiosas por ele fundadas, para dar suporte às várias obras em favor dos jovens.

O conjunto de tais atividades encontra expressão adequada em duas afirmações complementares que põem em evidência sua dupla dimensão: a ação e a consagração religiosa. “Exerço o ministério sacerdotal, vinte anos faz, nos cárceres, nos hospitais, nas ruas e praças desta cidade, recolhendo meninos abandonados para orientá-los à moralidade, ao trabalho, sem ter nunca recebido nem pedido alguma paga. Antes, apliquei, e o continuarei fazendo ainda, todos os meus haveres na construção da casa e no sustento de meus pobres jovens”9. “A santificação de si mesmo, a salvação das almas com o exercício da caridade, eis o fim de nossa Sociedade. A isto é preciso estar muito atento, para que se dediquem a este ministério, somente aqueles que brilham na virtude ou na ciência e que se esforçam para ensinar aos outros. É melhor a falta de mestres o que a sua inépcia”10.

Relativamente à reconstrução do “sistema preventivo”, surgem daí algumas conseqüências. Primeiro de tudo, a exposição de seu aspecto propriamente pedagógico não exaure toda a sua abrangência: este, de fato, comporta também uma clara dimensão pastoral e espiritual, tanto para educadores quanto para educandos. Em segundo lugar, a adequada utilização dos escritos de Dom Bosco,expressão e dimensão de sua completa experiência vital, deve ser efetuada, quando for oportuno, mediante a interpretação dos conteúdos explicitamente pedagógicos, em seu entrelaçamento com outros elementos pertinentes: teológicos, jurídicos, agiográficos, “espirituais”, ascéticos, organizativos11.




    1. A integração da vida

Ainda, a rica messe de escritos, ainda que originada definitivamente da radical intenção da promoção juvenil e popular, poderia resultar incompreensível e até mesmo falsa do ponto de vista teórico, se não fosse correlacionada com a personalidade de Dom Bosco e com a vida concreta das instituições por ele criadas e governadas. Isto não quer dizer que o “sistema” de Dom Bosco se identifica sem mais com ele. Sem sombra de dúvida, sua eminente personalidade de educador, genial e santo, confere ao sistema uma tonalidade toda especial. Mas, em definitivo, este assume estrutura e validez autônoma, tornando-se até mesmo “doutrina” transmissível, e de fato transmitida, primeiramente aos seus colaboradores imediatos, e depois a círculos mais vastos de agentes no campo da assistência juvenil. Ele e os seus acabavam por contrapô-lo nitidamente, com estrutura e eficácia próprias, a outra “doutrina” e prática educativa, o “sistema repressivo”.

Isto não exclui, antes implica, que o melhor exegeta de Dom Bosco, que teoriza e escreve, é o próprio Dom Bosco, que cria e plasma a sua experiência educativa e a encarna nas suas instituições, junto com seus colaboradores e jovens, que são seus principais agentes e beneficiários. Escreve Bartolomeu Fascie: “Não seguiria um bom caminho quem quisesse aproximar-se do método educativo de Dom Bosco, com intenção de submetê-lo a uma análise exasperante, fragmentá-lo, reduzi-lo a partes, a divisões, a rígidos esquemas, quando, pelo contrário, ele deve ser visto como uma forma viva na sua integridade, e estudado nos princípios dos quais ele adquire a vida, os órgãos de sua vitalidade e as funções que se desenvolvem a partir deles12.


    1. Entre estabilidade e inovação

Para evitar uma reconstrução demasiado sistemática, rígida e uniforme, deveria ajudar, também, a atenção ao caráter histórico, contextual e vital do sistema. Com efeito, a experiência educativa de Dom Bosco e as reflexões teóricas e normativas que a acompanham, se fixaram em momentos cronológicos e no interior de contextos sócio-ambientais e institucionais notavelmente diversos. Os anos que precederam o 1848, os que antecederam a unificação nacional (1860), o período “piemontês” da difusão da obra (até 1870) não são simplesmente identificáveis entre eles nem com os que os seguem. São radicalmente diversos o perfil psicológico, os impulsos culturais, as condições sociais, os contextos políticos e religiosos.

Além do mais, no interior dos mesmos segmentos cronológicos, não são totalmente equiparáveis as experiências realizadas no oratório festivo, no internato para aprendizes e para estudantes seminaristas, no internato para artesãos, no colégio interno para meninos da classe média ou média superior (Alassio, Turim-Valsalice, Este), nos “patronatos” do sul da França, em semelhantes instituições reproduzidas na Argentina e no Uruguai.

É natural que, ao redor de elementos essenciais comuns e inspirações de base, presentes em todos os lugares, se ajuntem de quando em quando traços e tons bastante diversificados. E é óbvio que análogas diferenças se encontrem nos documentos escritos, diversos pela realidade à qual se referem, pelas ocasiões em que surgem e pelo respectivo gênero literário. Já se aventou a hipótese de “um” sistema preventivo, praticado com uma “pluralidade” de “métodos preventivos”, com referência, antes de tudo, à diferenciação de instituições “abertas”, como o oratório, e “totais” como o colégio interno13.


3. Dom Bosco educador e autor pedagógico
Dom Bosco, ainda que tenha publicado muito, não confiou a nenhum escrito seu particular a exposição sistemática da sua reflexão pedagógica ou as linhas fundamentais da sua prática educativa. Não existe, todavia, escrito seu que deixe de ter alguma relação com a educação da juventude popular, seja qual for o assunto: histórico, apologético, didático, catequético, agiográfico, biográfico, normativo14.

Por isso, a reconstrução fiel de suas idéias não deveria deixar de lado nenhum de seus escritos, publicados ou inéditos, ainda que privilegiando os escritos mais claramente “pedagógicos”. A estes se deve acrescentar os abundantes testemunhos de colaboradores contemporâneos: livros, crônicas, memórias, perfis biográficos e história de instituições; atas de conferências gerais e particulares, de conselhos, de capítulos gerais e do capítulo superior. Seu rico epistolário é de suma importância15. Aqui nos limitamos a indicar escritos e testemunhos de clara intenção pedagógica, teórica e prática.

“Um método de vida cristã, que seja ao mesmo tempo alegre e contente”, Dom Bosco pretende ensinar aos jovens com O jovem instruído para a prática dos seus deveres de exercícios de piedade cristã de 184716.

Primeiros breves ensaios de “pedagogia narrada” do Oratório são a Introdução a um Plano de Regulamento, um Esboço histórico do Oratório de São Francisco de Sales de 1852/54 e Indicações históricas sobre o Oratóriode São Francisco de Sales de 186217.

Ligadas às estruturas do colégio-seminário, há algumas conhecidas biografias, que assumem, em medida crescente, o tom de narração ao memo tempo agiográfica e pedagógica, publicadas no decênio 1959- 1868: Vida do jovem Domingos Sávio(1859)18; Pequena biografia do jovem Miguel Magone (1861)19; O pastorzinho dos Alpes ou vida o jovem Francisco Besucco de Argentera(1864)20.Podem ser citados ainda algumas narrações didascálicas de fundo biográfico: A força da boa educação(1855)21; Valentim ou a vocação impedida (1866)22; Severino ou aventuras de um jovem alpino (1868 )23.

Um denso significado pedagógico apresentam as Lembranças confidenciais aos diretores, que, como foi dito, têm sua origem em uma carta que Dom Bosco, em fins de outubro de 1863, enviou a Dom Miguel Rua, recém nomeado diretor do colégio de Mirabello Monferrato24.

Excepcional documento de pedagogia experiencial, relativa aos anos de 1815-1854, e particularmente às primeiras iniciativas turinesas do oratório festivo e do incipiente internato, são as Memórias do Oratório de São Francisco de Sales, redigidas por Dom Bosco entre 1873 e 1879, editadas pela primeira vez em 194625.

Clássico e conhecidíssimo é o escrito O sistema preventivo na educação da juventude (1877)26. Idêntico título, mas conteúdo diverso, tem o pró-memória enviado ao ministro do Interior da Itália, Francisco Crispi, em fevereiro de 187827.

Para suas instituições educativas, Dom Bosco escreveu vários “regulamentos”. Particularmente redigidos e importantes são o Regulamento do Oratório de São Francisco de Sales para os externos (1877) e o Regulamento para as casas da Sociedade de São Francisco de Sales (1877)28; deste último, têm um valor pedagógico especial os artigos gerais introdutórios29.

Conquanto confiadas a escritos tardios (1881-1882), podem ser conideradas confiáveis duas intervenções de Dom Bosco sobre seu sistema educativo, em dois colóquios de 1854 e de 1864: o primeiro com o ministro do reino sardo Urbano Rattazzi30; a outra, com o professor primário Francisco Bodrato31.

Próxima ao pensamento de Dom Bosco é uma singular carta sobre os castigos, com referências interessantes sobre o sistema preventivo, ligadas com a experiência vivida no centro das obras de Dom Bosco, o Oratório de Turim-Valdocco32.

Inspiradas por Dom Bosco e redigidas pelo secretário Padre João Batista Lemoyne, são duas significativas cartas datadas de 10 de maio de 1884, a mais curta enviada à comunidade dos jovens de Valdocco, prepara o material para a segunda, enviada aos salesianos que lá trabalhavam33.

Idealmente ligadas às Lembranças confidenciais aos diretores, parecem algumas cartas enviadas por Dom Bosco, em agosto de 1885, a salesianos da Argentina e do Uruguai34.

De notável interesse para a formação catequética e religiosa dos jovens são: a História Eclesiástica (1845); a História Sagrada (1847); Avisos aos católicos. Fundamentos da Religião Católica (1850 e 1853 ); Modo fácil de aprender a História Sagrada (1855).



Merecem atenção outros escritos de caráter escolástico: O sistema métrico decimal reduzido à simplicidade (1849); A história da Itália contada à juventude (1855); e recreativo: cenas de teatro sobre o sistema métrico decimal (1849); Uma disputa entre um advogado e um pastor protestante (1853); A casa da fortuna. Apresentação dramática (1865); Novela amena de um velho soldado de Napoleão I (1862); Casos engraçados da vida de Pio IX (1871).



1 D.JIORDANI, A juventude e Dom Bosco de Turim. S. Benigino Canavese, tipografia e livraria Salesiana, 1886, p. 63. Quase contemporaneamente do mesmo autor saia o volume: A caridade no educar e o Sistema Preventivo do maior educador atual o venerando Dom João Bosco, com o acréscimo das Idéias de Dom Bosco sobre educação e ensino, de F. CERRUTI. S. Benigino Canavese, tipografia e livraria Salesiana, l886.

2 Uma breve, mas boa colocação do mérito de Dom Bosco quanto ao “sistema preventivo” foi feita por E. VALENTINI, Dom Bosco restaurador do sistema preventivo, em “Revista de Pedagogia e Ciências Religiosas” 7(1969) 285-301. Evidentemente exuberante é, ao contrário, a exaltação unilateral de Alberto Caviglia, por sinal agudo estudioso de Dom Bosco, que em uma aula de agosto de 1934, entre outras coisas, afirmava: “Dom Bosco e a educação cristã formam uma equação que se resolve na unidade. Nisto está a grandeza histórica e conceitual de Dom Bosco na vida da Igreja: pois ele deu a formulação definitiva da pedagogia cristã, da pedagogia querida pela igreja (...). Os Santos educadores e os Educadores santos partiram todos do principio da caridade, e quase todos da caridade do pobre. Mas nenhum deles teve uma potencialidade abrangente e acima de tudo dominante como Dom Bosco: Santos que conseguiram formular em um sistema tudo aquilo que religião caridade e sabedoria prodigalizaram em parte mais e em parte menos na educação: Santos criadores ou divinizadores do sistema educativo cristão só existe um, Dom Bosco” (ALBERTO CAVIGLIA, A pedagogia de Dom Bosco, no volume: o sobrenatural na educação. Roma, tipografia editora Laziale 1934, pp. 105 e 108). O tom se explica em parte com a intenção declarada de “falar de Dom Bosco(...) como o vejo e o sinto não como, estudioso, mas como cristão e como padre, e como Salesiano formado por Ele mesmo” ( p. 102).

3 Na Pequena crônica do “Jornal da Sociedade de instrução e de educação”, ano I, vol. I (1849), pp. 459-460. Estão sublinhadas as expressões que põe em destaque os pontos qualificantes da experiência educativa e pedagógica de Dom Bosco.

4 João Bosco e o seu século. Nos funerais de trigésimo dia na Igreja de Maria Auxiliadora em Turim em primeiro de março de 1888. Discurso do Cardeal Arcebispo Caetano Alimonda, Turim, tipografia Salesiana, l888, p. ll.

5 Cfr. G. ALIMONDA, João Bosco ..., pp. 13-15.

6 Cfr. G. ALIMONDA, João Bosco ..., pp. 21-24.

7 Cfr. G. ALIMONDA, João Bosco ..., pp. 39-40.

8 Educativo no sentido próprio é quanto incide positivamente no desenvolvimento e na formação das faculdades humanas, a ponto de tornar cada um capaz de habituais decisões livres, em generoso empenho de vida, individual e social, moral e religioso.

9 Carta ao ministro do interior Carlos Farini, 12 de junho de 1860, Em I 407.

10 É a primeira de uma série de apostilas, em língua latina, às Constituições apenas aprovadas(1874), MB X 994-996.

11 Critérios válidos de leitura da produção literária de Dom Bosco, oferece R. FARINA, Ler Dom Bosco hoje.Notas e sugestões metodológicas, no volume A formação permanente interpela os Institutos religiosos, aos cuidados de PEDRO BROCARDO. Leumann (Turim), LDC 1976, pp. 349-404.

12 B. FASCIE, Sobre o método educativo de Dom Bosco. Fontes e comentários. Turim, SEI 1927, p.32. Sobre a relação entre escritos e experiência pessoal e institucional como critério de compreensão do sistema educativo de Dom Bosco, cfr. PEDRO BRAIDO, O sistema preventivo de Dom Bosco. Zurique, PAS-Verlag 1964, pp. 59-73: A arte educativa de Dom Bosco; IDEM, Os escritos na experiência pedagógica de Dom Bosco, no volume SÃO JOÃO BOSCO, Obras fundamentais, edição dirigida por João Canals Pujol e Antônio Martinez Azcona, Madrid, BAC 1978, pp. 14-32.

13 Cfr. PEDRO BRAIDO, A experiência pedagógica de Dom Bosco em seu devir em Orientamenti Pedagogici 36(1989) 11-39; L. PASSAGLIA, A escolha dos jovens e a proposta educativa de Dom Bosco, no volume Dom Bosco na história. Atas do primeiro Congresso Internacional de Estudos sobre Dom Bosco (Universidade Pontifícia Salesiana-Roma, 16 a 20 de janeiro de 1989), aos cuidados de M. Midali. Roma, LAS 1990, pp. 259-288; em especial, pp. 273-282.

14 Uma exposição completa da vasta produção literária de Dom Bosco, que inclui também escritos de outro tipo (agiográfico, histórico, jurídico-estatutário...) é oferecida pelo PADRE PEDRO STELLA, Os escritos impressos de São João Bosco, Roma, LAS 1977. Um agrupamento por gênero literário pode ser encontrado em PEDRO STELLA, Dom Bosco na história da religiosidade católica, volume I, pp. 230-237.

15 Deste se tem uma edição em quatro volumes, cuidada por EUGENIO CERIA (Turim, SEI 1955-1959). Está em andamento uma mais rica edição crítica: JOÃO BOSCO, Epistolário. Introdução, textos críticos e notas cuidada por FRANCISCO MOTTO, dois volumes, Roma, LAS 1991/1996: volume I (1835-1863); II (1864-1868).

16 Cfr. PEDRO STELLA, Valores espirituais no “Jovem Instruído”de São João Bosco. Roma, PAS 1960, 131 páginas.

17 Cfr. PEDRO BRAIDO, Dom Bosco para a juventude pobre e abandonada em dois escritos inéditos de 1854 e de 1862, no volume P.BRAIDO, Dom Bosco na Igreja a serviço da humanidade. Roma, LAS 1987, PP. 13-81.

18 Cfr. A vida de Domingos Sávio e “Domingos Sávio e Dom Bosco” Estudo de ALBERTO CAVIGLIA. Turim, SEI 1942-1943, XLIII-92 + 609 páginas.

19 Cfr. ALBERTO CAVIGLIA, O “Miguel Magone”. Uma clássica experiência educativa, no volume O primeiro livro de Dom Bosco.- O Miguel Magone. Turim, SEI 1965, páginas 129-202.

20 Cfr. ALBERTO CAVIGLIA, A “vida de Francisco Besucco” escrita por Dom Bosco e o seu conteúdo espiritual, no volume A vida de Francisco Besucco. Turim, SEI 1965, PP. 107-262.

21 Cfr. J. SCHEPENS, A força da boa educação”. Estudo de um escrito de Dom Bosco, no volume O compromisso de educar, aos cuidados de J. M. Prellezo, Roma, LAS 1991, pp. 417-433.

22 Cfr. JOÃO BOSCO, Valentim ou a vocação impedida. Introdução e texto crítico aos cuidados de M. PULINGATHIL. Roma, LAS 1987, 111 páginas.

23 B. DECANCQ, “Severino”. Estudo do do livrinho com atenção particular para o “primeiro oratório”, RSS 3 (1984) 125-166.

24 Cfr. MOTTO, As “Lembranças confidenciais aos diretores” de Dom Bosco, RSS 3 (1984 ) 125-166.

25 Destas memórias existem agora duas edições, uma com duplo aparato crítico, o das variantes e o histórico, outra só com o aparato histórico, feita pelo PADRE ANTONIO CARLOS FERREIRA DA SILVA(Roma, LAS, 1991). Nesta obra estamos usando a primeira. Sobre o especial valor “pedagógico” das Memórias do Oratório, cfr. PEDRO BRAIDO, “Memórias” do futuro, RSS 11 (1992) 97-127.

26 Cfr. JOÃO BOSCO, O sistema preventivo na educação da juventude. Introdução e textos críticos cuidados por PEDRO BRAIDO, RSS 4 (1985) 171-321.

27 Cfr. JOÃO BOSCO, O sistema preventivo na educação da juventude..., ibidem pp. 300-304.

28 Cfr. OE XXIX 31-94 e 97-196.

29 Cfr. PEDRO BRAIDO, O “ sistema preventivo” em um “decálogo” para educadores, RSS 4 (1985) 131-148.

30 Deste colóquio fala a primeira vez o Boletim Salesiano 6 (1882) números 10 e 11, outubro e novembro, páginas 171-172 e 179-180: cfr. Colóquio com Urbano Rattazzi(1854), aos cuidados de ANTONIO CARLOS FERREIRA DA SILVA, no volume PEDRO BRAIDO, Dom Bosco educador. Escritos e testemunhas. Roma LAS 1997, páginas 75-87.

31 A primeira reconstrução desta conversa se encontra em uma biografia do salesiano Francisco Bodrato, em primeira prova tipográfica, redigida em 1881: cfr. O diálogo entre Dom Bosco e o professor Francisco Bodrato (1864), cuidado por ANTONIO CARLOS FERREIRA DA SILVA, no volume PEDRO BRAIDO, Dom Bosco educador..., páginas 187-198.

32 J. M. PRELLEZO, Sobre os castigos a serem dados nas casas salesianas. Uma carta circular atribuída a Dom Bosco, RSS 5 (1986) 263-308.

33 Cfr. Duas cartas datadas de Roma 10 de maio de 1884, aos cuidados de PEDRO BRAIDO, no volume PEDRO BRAIDO, Dom Bosco educador..., páginas 344-390.

34 Para algumas principais, cfr. MOTTO, Três cartas a salesianos na América, no volume PEDRO BRAIDO, Dom Bosco educador..., páginas 439-452; além disso, ao Padre Fagnano, em 10 de agosto de 1885, E IV 334-335; ao Padre João Batista Allavena, em 24 de setembro de 1885, E IV 339-340; ao Padre Luís Lasagna e ao Padre Lourenço Giordano, em 30 de setembro de 1885, E IV 340-341, 341-342.



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