Capítulo XVII a destruiçÃo e partilha do paraguai. Júlio José Chiavenatto



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CAPÍTULO XVII

A DESTRUIÇÃO E PARTILHA DO PARAGUAI.

Júlio José Chiavenatto
62 – A DESTRUIÇÃO FINAL DE UM PAÍS LIVRE

Enfim, a guerra está terminada. O Paraguai está destruído. O Paraguai perdeu cento e quarenta mil quilômetros quadrados do seu território. O Império do Brasil, finalmente, tem os pedaços de terra que sempre cobiçou. A Argentina ficou com o Chaco Austral e quase empolga todo o Chaco Boreal. As terras perdidas pelo Paraguai somam em quilômetros quadrados mais que os Estados brasileiros de Pernambuco e Alagoas juntos; mais que Santa Catarina e o Rio de Janeiro juntos. Enfim, é roubado do Paraguai um território maior que Portugal e a Dinamarca juntos; maior que a Bélgica e Cuba juntos; maior que a Alemanha Oriental e Albânia juntos; maior que a Áustria e Costa Rica juntos...

Mas isso não é ainda o mais importante. O importante é que o imperialismo inglês, destruindo o Paraguai, mantém o status quo na América Meridional, impedindo a ascensão do seu único Estado economicamente livre, com uma estrutura industrial desenvolvendo-se rapidamente. E, ao fazer isso, agrega ao seu poder, como credor implacável, o Império do Brasil – que vai cair por causa dessa guerra –, a República Argentina e o Uruguai. Estes três aliados da Tríplice Aliança, ganhando os territórios e dividindo o butim de guerra, na verdade perdem. O Brasil fica com uma dívida externa espantosa e só consegue saldar seus compromissos mais urgentes aumentando os empréstimos com os bancos ingleses, o que vale dizer, atrelando-se cada vez mais aos juros de Rothschild. De 1871 a 1889, o Império do Brasil – até cair de podre – é obrigado a fazer a seguinte evolução da sua dívida junto ao banco Rothschild:


  1. 3.000.000 de libras

  1. 5.301.200 libras

  1. 4.599.600 libras

  1. 6.431.000 libras

  1. 6.297.300 libras

  2. 19.875.000 libras

Total 45.504.100 libras
A Argentina envereda por não melhor caminho. De 1865 até 1876, sua dívida oriunda de empréstimos no exterior soma a apreciável cifra de 18.747.884 libras. O Império do Brasil e a República da Argentina – sempre com o Uruguai de contrapeso – destruíram o Paraguai para o imperialismo inglês e pagaram por isso: em vidas humanas e num endividamento crescente, que determinou inclusive a impossibilidade de um desenvolvimento autônomo de suas economias, sempre ligadas, até hoje, ao capital estrangeiro.

O Paraguai, que tinha uma estrutura social baseada no acesso de todos à terra, com as “estâncias da pátria” criadas por Francia, estimuladas por Carlos Antonio e em pleno desenvolvimento no período de Francisco Solano López, terá toda essa organização destruída criminosamente nos cinco anos de ocupação dos aliados. Suas terras, após a derrota, são vendidas para estrangeiros – passam a ser seus proprietários capitalistas de Amsterdam, Londres ou Nova York, que jamais visitaram o país mas que cobravam enormes taxas para que o camponês paraguaio utilizasse os campos que lhes foram roubados. O governo de ocupação ainda entrega tudo de valor, de propriedade do Estado, que restou de pé no Paraguai. Uma dessas propriedades, orgulho do Paraguai livre foi a sua estrada de ferro, “vendida” aos ingleses. Resta um país mutilado, castrado, que nunca mais pôde reerguer-se: mataram o Paraguai literalmente – exterminaram 96,50% da sua população masculina!

Na destruição do Paraguai, matou-se no nascedouro a grande esperança de liberação econômica da América do Sul. Consolidou-se o domínio estrangeiro do capital espoliador – jogou-se por terra a audácia e a vontade indomável de resistir e perpetuarem-se até apodrecerem no poder político, homens como Mitre, Sarmiento, os gabinetes fantoches de Pedro II e os herdeiros do caudilhismo de Venâncio Flores.

O desastre econômico que se abate sobre os ex-aliados da Tríplice Aliança, o agravamento da dívida destes países e a impossibilidade de libertarem-se do capital estrangeiro até hoje evidenciam a presença brutal do imperialismo inglês puxando os cordéis da dominação.

Enfim, o modelo de libertação que nos propunha com grande eficiência o Paraguai da metade do século XIX, os sabujos do imperialismo inglês destruíram – acabando também com a possibilidade de rompimento das relações abjetas entre o oprimido e o opressor na América do Sul, eliminando este último, representado naquele período histórico pelo capital inglês.

Destruiu-se o Paraguai assassinando um povo. Exterminando brutalmente uma nação. Não fosse a verdade escondida por gerações e gerações de historiadores oficiais, restaria hoje às massas americanas pelo menos o exemplo de um povo livre, condenado ao extermínio pelo crime de sua liberdade.



Uma lição que seria tão mais útil – se fosse ensinada ao povo – porque hoje nenhuma potência mais pode ter o desprezo da Inglaterra ao saber do extermínio da nação paraguaia, expressado nas cretinas palavras de Lord Palmerston:

“A Inglaterra tem tanta força, que pode cagar em todas as conseqüências”.


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