Carl Rogers, o patético. Empatético, peripatético



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Carl Rogers, o patético.
Empatético, peripatético.


Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.

ahl.fonseca@gmail.com
Creio que é muito necessário, e até urgente, e fundamental, compreender e definir o sentido do logos metódico do modelo de Carl Rogers como eminentemente patético. Creio que ele, Carl Rogers, muito apreciaria ser desta forma entendido. Na verdade, creio que, pela compreensão de uma patética podemos compreender o sentido essencial do logos metódico do modelo epistemológica e ontologicamente compreensivo de Carl Rogers, esclarecê-lo e desdobrá-lo. De resto, o que não é pouco, estaremos compreendendo iguais qualidades da psicologia e da psicoterapia fenomenológico existencial.

Eu, por certo, não utilizaria termos possivelmente chocantes para o senso comum, se não estivesse convencido do profundo interesse, neste sentido, de sua utilização.

Naturalmente que alguma operação de limpeza e de esclarecimento precisa ser feita, acerca destes termos, antes de prosseguirmos no argumento. Limpeza, certamente. Porque nenhuma palavra, talvez, tenha sido tão pesadamente torcida e distorcida, difamada e degradada quanto à palavra pathos. Na cultura contemporânea, o termo pathos lembra a condição de um rei destronado, em desgraça. Pathos, na verdade, expressa o modo de sermos, no qual vigoram, em seus plenos e efetivos poderes, eminentemente ativos, o afetivo, a emoção, o corpo, o sentido, os sentidos; o vivido, no sentido da vida vivida em sua imediaticidade. Pré-conceitual, pré-reflexiva, não teórica, não prática, não técnica, não comportamental, poiética. Caracteriza o que Buber chamou de modo de ser eu-tu; a vivência que Heidegger chamou de ser-no-mundo; a dimensão de ser que Dilthey caracterizou como vivido, vivência.

Ou seja, esse modo de sermos da ‘vida vivida em sua imediaticidade aparescente’, existencialmente fenomenal, ativa e criativa, potente de possível. Modo diverso do modo de sermos no qual vigoram a mediação do conceitual, da teoria, da moral, do científico, do técnico, do prático, do comportamento, da memória, da história.

Esse modo pático de sermos. Que, nas suas tonalidades de embriagues, mais se configura como um drible de corpo na consciência. Do que plena e lúcida consciência. Dionisiacamente, sempre, mais uma tomada de inconsciência, do que uma tomada de consciência.

Este modo de sermos, fundamental, imprescindível, ontológico e ontogênico. No qual subpercebemos propriamente, vivemos em sua qualidade própria, o possível, a possibilidade. E acolhemos e acalentamos a sua potencialização, o seu desdobramento, e ato ação. Este modo de sermos que é prerrogativa ontológica nossa de mergulho no Ser, na potência, no eterno retorno da força. Existencialmente, momento de uma ins-pir-ação. Meramente porque nele, e só nele, o possível, a possibilidade da superação, que qualificam o humano, são possíveis e se desdobram.

Estas são qualidades do pathos, enquanto modo humano de ser. E o sentido de uma ética, um modo de proceder, que o privilegia. O sentido de uma pathética. Path Ética. Ou seja, de uma ética que privilegia as qualidades de um modo páthico de ser.

Pois bem. Na medida em que o corpo foi desqualificado, no decorrer do desenvolvimento socrático-platônico da civilização ocidental; na medida em que o possível e a força, a potência, foram abominados, o pathos, que é corpo ativo, e morada e agência do possível, a dimensão do possível que constitui o nosso ser, e de sua atualização, o pathos foi, igual e concomitantemente abominado. A palavra (pathos), o conceito, este modo de sermos, foram virulentamente assacados, massacrados, torcidos e distorcidos, difamados, degenerados... Até representarem, e intensa e predominantemente conotarem, o sentido de doença, na concepção de patologia. Ou de “doença” mental, em sua mais soturna apropriação pelo ressentimento, na expressão psicopatologia*...

Foi necessário o Humanismo da filosofia européia do Século XIX, na sua volta ao Renascimento e à antiguidade grega; foi necessário Nietzsche, e a Fenomenologia, para resgatar o sentido e o valor do corpo, do vivido e dos sentidos. Para resgatar o valor do pathos, e de uma path-ética. Para que se pudesse afirmar e resgatar o pathos, o modo de ser da vivência pática, como um valor.

Até que se pudesse entender que este modo pático de ser faz parte de nosso ser, faz parte de nossa saúde, e é, não só, a fonte desta saúde, como a fonte de nosso ser. Fonte seminal de geração e regeneração de nós mesmos, e do mundo que nos diz respeito. Aos quais podemos criar e recriar, gerar e regenerar, na medida em que aceitamos e integramos, em que afirmamos, em que vivenciamos na sua propriedade o nosso modo páthico de ser. Que, de resto, só pode ser extinto muito depois que estivermos, nós mesmos, extintos. Isto por um motivo muito simples, e comum a todos nós: somos seres do possível, e é especificamente nesse modo páthico de ser que o possível é possível, e se desdobra.

Na verdade, é a restrição, em nossa vida, desse modo páthico, o seu sufocamento, na reiteração excludente dos ditames e limites da hegemonia da consciência lúcida, calculativa, asséptica, repetitiva, medíocre, obsessiva; a restrição e sufocamento do páthico na hegemonia do limite, do individual e da individualidade, que é a base para o que metaforicamente podemos chamar de “doença”, num sentido existencial, e para todos os distúrbios somáticos que podem daí decorrer.

Patéticos sempre houve. Aqueles que entendiam a loucura da interdição de nosso modo páthico de ser, imolado no altar da vontade de abstração, da racionalidade conceitual, da abstração do corpo e dos sentidos da vida vivida em sua imediaticidade. Vontade que mal se escondia e se esconde como má vontade para com tudo que é vivo, e que de vida palpita. Patéticos que assumiram uma ética do pathos. Ou seja, um modo de proceder que não exclui a afirmação do pathos, do páthico. Que na verdade o privilegia como modo ontológico de sermos.

Os pré socráticos, que privilegiavam o corpo, o vivido e os sentidos, assumiam uma perspectiva de privilegiamento do pathos. A escola filosófica de Aristóteles ficou conhecida como escola dos peripatéticos.

Normalmente, quando se indaga o que significa termo peripatético, responde-se, apressada e sumariamente, que ele designa o fato de que os filósofos desta escola filosofavam andando. Daí, diz-se, este termo como designação (!?).

Esta “explicação” sumária deixa de fora o sentido maior. De que, à medida que se caminha, a abstração mental, a mente reflexiva, conceitual e calculativa, cede progressivamente lugar ao modo de ser de uma vivência pática. A mente reflexiva cede lugar a uma acentuação do pathos. De modo que o que os filósofos peri-path-éticos buscavam era esta acentuação do pathos, e a filosofação a partir desta vivência acentuada do pathos.

Patéticos, então, na medida em que assumiam uma ética, um modo de proceder, que privilegiava o pathos, a vivência páhtica, enquanto método de filosofação.

Mais que isso, peri path éticos, na medida em que não apenas privilegiavam a vivência páthica como método, mas assumiam uma atitude ativa de afirmação, e ativo mergulho, no modo pático de ser como estilo de filosofação. Uma querência pelo risco e pela tentativa poiética de atualização de seus possíveis. Daí também o sentido de ex-peri-mentação, num sentido fenomenológico existencial.

Aristóteles, seus colegas e discípulos, eram, assim, peripatéticos. E propriamente pode-se, assim, dizer que fizeram escola. Não só patéticos, como peripatéticos, o foram também, dentre outros, Brentano, Nietzsche, o Expressionismo e os expressionistas, Heidegger...

De modo que quando descobriram como método não só a path ética, mas, em específico, a peri path ética, como modo privilegiado de ser, para o terapeuta e para o cliente, os psicoterapeutas fenomenológico existenciais, como Carl Rogers e F. Perls, não só não estavam sendo exatamente originais, como estavam em muito boa companhia...

Começou lentamente, com a qualitativa contribuição de C. G. Jung e de Otto Rank, e Sandor Ferenczi, que entenderam que a psicoterapia não tinha a ver com o tecnicismo inerente a um modelo objetivista, o modelo médico, em particular, que preconizava a intervenção de um sujeito, o psicoterapeuta, sobre um objeto, paciente. Evoluiu com as mudanças paradigmáticas dos psicoterapeutas fenomenológico existenciais europeus, como M. Boss e L. Binswanger, e os psicoterapeutas relacionais, que enfatizavam a imediaticidade da relação inter humana como elemento fundamental do processo terapêutico. Até desaguar nos modelos peripatéticos das abordagens de Carl Rogers e de Fritz Perls. Ambos preconizando, e buscando criar condições para o, patético mergulho ex-peri-mental do cliente, mergulho efetivamente peripatético, como recurso fundamental do logos metódico de seus modelos.

Concomitantemente, vale observar que, a preconização de uma vivência peripatética para o cliente, a partir dos vetores de sua atualidade e atualização existenciais (e não de uma experiência moralista, científica, técnica ou teorizante), como recurso fundamental de método psicoterapêutico e psicológico, é acompanhada por igual prescrição de disposição metodológica para o terapeuta. Uma disposição fenomenológico existencial experimental, peripathética, como disposição metodológica hábil a facilitar e a potencializar a vivência e desdobramento da vivência do cliente.

Não podemos dizer que Carl Rogers tivesse, ao tempo de sua morte, uma articulação teórica, ou consciência plenas, do alcance de suas intuições peripatéticas. Mas podemos certamente dizer que é ele que vai mais longe na preconização e na prática da vivência peripatética como logos metódico de uma abordagem de psicologia e de psicoterapia.

Muito particularmente, em especial, porque ninguém certamente, como Rogers, percebeu, e amplamente exercitou, de um modo preponderantemente empírico, o poder pático, o poder de propiciamento peripático do grupo, como ambiência terapêutica, de trabalho psicológico e de crescimento humano. A vivência do processo grupal, e de seus desdobramentos vivenciais, como ambiência propícia para a vivência peripatética, e suas implicações, como modo de ser no âmbito dialógico no qual o possível é possível e se desdobra.

Se podemos dizer que Rogers não tinha uma consciência plena, e, em particular, uma articulação teórica cabal, do alcance de suas intuições, não podemos deixar de ressaltar que, desde o início, suas intuições eram neste sentido distintas. O que se configura muito claramente a partir do momento em que ele passa a falar de empatiaem-pathia. E que Empatia, especificamente, significa “dentro do pathos”.

Como formulador de uma abordagem de psicologia e de psicoterapia, Rogers opera um verdadeiro striptease de concepção e método, em direção a uma preconização da vivência pática como ambiência e recurso psicoterapêutico. Preconização amplamente protagonizada experimental e empiricamente por ele próprio, seja ao nível da vivência da prática da psicoterapia individual, seja ao nível da vivência grupal.

Rogers vai abrindo mão, enquanto psicólogo, enquanto psicoterapeuta, e enquanto facilitador de grupo -- e libertando o cliente --, de uma concepção e de uma prática técnicas, de uma concepção e de uma prática científicas, de uma concepção e de uma prática moralistas, de uma concepção e de uma prática realistas. Como característica de prática e de concepção de si próprio enquanto psicólogo, psicoterapeuta, e enquanto facilitador de grupo.

Rogers vai abrindo mão de um desempenho moralista, de um desempenho técnico, de um desempenho reflexivo, de um desempenho científico, ou cientificamente assentado, e mesmo desempenho prático, em direção ao privilegiamento de uma vivência páthica, de uma path-ética, em-pathética, na verdade peripathética. Nem teoria nem prática, na verdade uma poiética.

Não é outro o reconhecimento que ele faz do valor de saúde no exercício da liberdade experiencial, da avaliação organísmica da experiência. De resto já preconizadas por F. Nietzsche.

Rogers evoluiu decidida e alegremente no sentido de um modelo que se esmerava em criar condições para que o cliente pudesse dar-se aos influxos de sua experiência organísmica, aos influxos dos poderes de sua atualização e avaliação organísmicas, no âmbito de uma vivência páthica. Isto é o que podemos entender como uma patética. Peripathética.

O Rogers que encontramos na segunda metade da década de setenta, até o final de sua vida, é um Rogers imerso no privilegiamento da vivência peripatética no contexto da vivência grupal.

Evidentemente que existe em Rogers uma consideração substancial sobre o método do terapeuta, sobre o seu modo de ser e de proceder na criação das condições para que a vivência páthica do cliente possa ser privilegiada. E, na verdade, o que Rogers propõe, no essencial, como modo de ser do terapeuta e do facilitador de grupos, é o modo de ser da vivência páthica, empáhtica. Rogers propõe, em essência, um terapeuta, um facilitador de grupos, em-páticos. Que privilegiem se situar, nos melhores momentos de vivência de seu logos metódico, dentro de sua vivência páthica, como modo de ser do terapeuta e do facilitador de grupo. Modo de ser este que pode potencializar a vivência páthica do cliente e dos membros do grupo, o modo próprio à atualização de seus possíveis.



Patético, Empatético, Peripatético, é o modo de ser privilegiado pelo terapeuta e pelo facilitador de grupo que adota o modelo rogeriano, seguindo o caráter e o estilo patético, Empatético e peripatético de seu preconizador.

Foi ousado, muito ousado, Carl Rogers, abrindo mão dos sisudos referenciais da ciência de antanho, dos poderes e pseudo poderes que esta faculta, dos poderes que permitem a postura técnica, a postura teorizante, a postura moralista, e mesmo e em especial, os valores da prática --, mesmo sem ver claramente o outro lado da travessia.

Hoje, podemos claramente entender que a ciência, o científico, o técnico, o teórico, o prático, o moralista, não dão conta da laboração ao nível do existencial, não dão conta da existência, na projetatividade do possível e da possibilitação a ela imanentes.

Numa imagem ainda insuficiente, podemos dizer que a relação da ciência com a existência é análoga ao pegar em pétalas com luvas de siderúrgica. O técnico constitui-se como uma acentuação, ainda, da discrepância. Na medida em que se configura como aplicação do conhecimento científico.

Rogers entendeu isto claramente. E, ainda que não o tivesse articulado teoricamente, fez os movimentos decisivos para definir e constituir a prática da psicologia, da psicoterapia, da facilitação de grupos, no âmbito própria e especificamente da hermenêutica fenomenológico existencial. Diante das insuficiências e inespecificidades da ciência, da técnica e do moralismo, em relação à existência e ao processo de sua atualização.

Limitações e insuficiências na articulação teórica, ainda que carentes de superação, não impediram Rogers, não obstante, de experimentar amplamente, ao nível da prática empírica, o modo de privilegiamento do pathos, a patética, peripatética, a ética, como modo de procedimento, de uma hermenêutica fenomenológico existencial, no âmbito da psicologia, da psicoterapia e da facilitação de grupos.

Em particular porque este modo de procedimento é o modo próprio e hábil para que experimentalmente se possa engendrar respostas para questões sobre “o que é que esta pessoa pode?” “O que é que pode este grupo?” “O que podem os seus participantes?” “O que posso eu...”

Na medida em que descobrimos e redescobrimos que é ao modo de ser de uma


ex peri path ética que o possível -- que nossa atualidade existencial reivindica, solicita, ou desesperadamente demanda – que o possível é efetivamente possível, e se desdobra. Possibilita-se.

Temos a descortinar-se diante de nós os primórdios e toda uma história possível, teórica e prática, teórica e empírica, poiético empírica, da psicologia, da psicoterapia, e da facilitação de grupos, pertinente a um paradigma peripatético, um paradigma fenomenológico existencial hermenêutico.



E temos a saudar, efetivamente, um grande e sincero pioneiro, com suas ousadas experimentações. O Dr. Carl R. Rogers, um membro distinto da “confraria” dos patéticos, empatéticos, peripatéticos...


* Na verdade, aí, um predomínio do sentido latino do termo, de sofrente, paciente, que amálgama ao sentido grego original.

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