Carlos Alberto uff naçÃo e nacionalismo em cuba: o legado de josé martí



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Barão, Carlos Alberto - UFF
NAÇÃO E NACIONALISMO em CUBA: O LEGADO DE JOSÉ MARTÍ
José Martí, líder da 2a guerra de independência cubana (1895-1898), e pensador latino-americano de grande destaque, é tema obrigatório para todos aqueles interessados em estudar e pesquisar a Revolução Cubana. O nacionalismo cubano pós-1959, de natureza peculiar e indissociável de uma postura anti-imperialista e socialista, tem em Martí sua principal referência, fato sempre reconhecido e reafirmado pelos pesquisadores e líderes revolucionários daquele país. Quando, após a fracassada tentativa de assalto ao Quartel Moncada, Fidel Castro foi preso e interrogado sobre quem havia sido o autor intelectual dessa ação, ele respondeu simplesmente: “Ninguém deve preocupar-se de que o acusem de agente intelectual da revolução, porque seu único responsável intelectual é José Martí.”1 Vitoriosa a Revolução em 1959, a referência ao ideário de Martí encontra-se nos principais documentos do país: Primera Declaração de Havana (1960), Segunda Declaração de Havana (1962) e na Constituição da República de Cuba (1976). Cuba é um raro caso de uma revolução que se considera marxista-leninista e que reconhece que um de seus principais fundamentos é um autor do século XIXI, José Martí, que não foi marxista. O Partido Comunista de Cuba (PCC) se declara marxista-leninista e martiano. Desde há muito os estudantes cubanos estudam sua obra e o recitam de memória.

A relação do legado martiano com as forças que lutam pela soberania nacional de Cuba é clara. Derrotado na guerra de 1895-1898 (morreu no início da guerra), a lembrança de Martí foi combatida durante a administração militar norte-americana, que se seguiu à saídas das tropas espanholas, bem como no início da “república mediatizada”, como chamam os cubanos a república anterior à Revolução de 1959. Julio Antonio Mella, já na década de 20, pensou em escrever um livro sobre ele. Mella, líder estudantil e revolucionário, fundador do Partido Comunista em Cuba, buscou no legado martiano instrumentos para sua luta. É com Mella que as idéias nacionais ressurgem em Cuba. Somente após 1930, com o fortalecimento das tendências nacionalistas e comunistas na ilha, é que a produção de textos sobre o “apóstolo” aumenta significativamente2. A biografia mais conhecida na época, escrita por Jorge Mañach, reconhece a importância política de Martí mas não o entende como um ideólogo revolucionário. A visão anti-imperialista de Martí somente é valorizada pela esquerda, sendo que as demais correntes o tratam como um “progressista”. Como diz Rodrigues (1972): “... escrever sobre Martí era algo mais que reconhecer-se como intelectual: era assumir uma posição ante a problemática nacional”3. Para as esquerdas Martí é entendido como um homem de preocupações sociais e políticas, e definido como um democrata-revolucionário; as direitas reforçam o Martí poeta, escritor, embora valorizem também o Martí independentista4.

O resgate revolucionário de Martí ocorre de forma mais sistematizada nos anos 50, com a obra do historiador Emilio Roig de Leuchsenring. Essa recuperação é uma das raízes do pensamento da “geração do centenário”, como se autodenominaram na época Fidel Castro e seus companheiros que assaltaram o quartel Moncada em 1953, ano do centenário de nascimento de José Martí. Em seu julgamento, Fidel Castro invocou José Martí como autor intelectual do assalto ao quartel Moncada. Seu discurso de defesa perante o tribunal ficou conhecido como A História me absolverá. Os ensinamentos revolucionários de Martí se fundiram com o legado marxista para formar a base ideológica da Revolução Cubana de 1959. Haydée Santamaría, membro destacado da geração do centenário, e participante do assalto ao quartel Moncada, afirma que participou daquela ação como martiana, tornando-se marxista (sem deixar de ser martiana) depois da revolução.5

O nacionalismo martiano é de um novo tipo. Singular nacionalismo, que na maturidade se combina com a aversão aos valores que então se impunham na América Anglo-Saxã, onde o capitalismo entrava em uma nova etapa histórica. Seu ideário compreendia a defesa de Nossa América, não por uma questão de etnia ou algo parecido, mas porque a obra da história dos povos ao sul do rio Grande, sobretudo os hispano-americanos, ainda apresentaria esperanças de construção de um mundo radicalmente diferente daquele das monarquias européias, cujos povos eram tão divididos em classes que lutavam entre si. O anti-racismo integra esse pensamento, assim como a defesa de um papel mais relevante para as mulheres. A revolução social, que deveria se seguir à revolução política, aparece no “apóstolo” da forma como ocorre geralmente com idéias que ainda não dispõem de um solo suficientemente sólido para suportá-las, sem deixarem no entanto de serem vislumbradas. Para entender o nacionalismo martiano é necessário entender um pouco do homem e de sua luta, da amplitude de suas obras e da profundidade de seu pensamento, ainda hoje pouquíssimo conhecido em nosso país. Esse nacionalismo é baseado no que podemos denominar um humanismo martiano, específico, um humanismo concreto. Diz Martí: “os povos não estão feitos de homens como eles deveriam ser, mas dos homens como eles são. E as revoluções não triunfam, e os povos não melhoram se aguardam a que a natureza humana mude”6. Guadarrama (1990) afirma que nesse aspecto Martí diferenciou-se notavelmente de outros pensadores latino-americanos de sua época, onde dominava o positivismo, e de épocas posteriores, os quais priorizaram a transformação ética do homem por meio da educação e da cultura, antes de empreender transformações sócio-econômicas e políticas em suas sociedades. Martí compreendeu que deveria tentar moldar o novo homem com a levedura da ação revolucionária do povo. E sobre essa relação do homem com seu povo declarou:

Nada é um homem em si mesmo, e o que ele é, é posto nele por seu povo. Em vão concede a Natureza a alguns de seus filhos qualidades especiais; porque serão pó e açoite se não se fizerem carne de seu povo, enquanto que se seguem com ele, e o servem com seu braço e sua voz, por ele serão elevados, como as flores que leva em pico uma montanha.7


VIDA E OBRA DO “APÓSTOLO”

José Martí, o “apóstolo” da independência como o denominam os cubanos, nasceu em Havana, no dia 28 de janeiro de 1853, filho de espanhóis humildes. Quando Martí contava 15 anos, começou em Cuba, em 10 de outubro de 1868, a 1a guerra de independência, a qual se prolongou por 10 anos, sem conseguir a independência. Apesar de ainda jovem, Martí adere ao movimento, e publica clandestinamente o soneto “10 de Outubro”, nos primeiros meses de 1869. Ainda em janeiro de 1869, Martí publicou diversos artigos políticos em El Diablo Cojuelo, jornal de breve existência editado por seu amigo Fermín Valdés Dominguez, e o verso Abdala, no único número do jornal Pátria Libre. Uma carta assinada por Martí e seu amigo Fermín, descoberta na casa desse último, leva o jovem jornalista à prisão. Julgado por um conselho de guerra espanhol, Martí assume a plena responsabilidade por seus atos contra o domínio colonial e é condenado a seis8 anos de prisão. Tinha então 16 anos de idade. Foi preso em 1869, realizou trabalhos forçados na pedreira de San Lázaro tendo sido sua sentença comutada e ele deportado para a Espanha, em 1871.

Ao chegar a Madri, Martí publicou El presidio político en Cuba, sua primeira obra de envergadura, escrita quando tinha 18 anos. Nesse texto ele descreve os terríveis sofrimentos a que eram submetidos os cubanos, durante o regime colonial espanhol. Seu estudo é fundamental para se entender como Martí pode ser um defensor da independência cubana sem cair em um sentimento nacionalista abstrato. Esse é o momento em que, na Espanha, dominam um governo constituído pelos liberais, progressistas e democratas, vitoriosos na “revolução gloriosa” de 1868. Foram eleitas as Cortes, por sufrágio universal, e aprovada uma nova constituição (1869). Martí encontra-se face a face com o nacionalismo espanhol. Frente a ele, o “apóstolo” não opõe um nacionalismo cubano simétrico, mas uma concepção humanista, com fortes tons espiritualistas, que lança as bases de um nacionalismo de novo tipo. Coerente com sua defesa do fim da repressão em Cuba, e com um pensamento que valoriza desde cedo as questões éticas, ele afirma que a Espanha não pode ser realmente livre enquanto tiver tanto sangue em seu semblante. Os democratas espanhóis diziam que não seria possível conceder a independência a Cuba, devido à necessidade de defender a “Integridade Nacional”. Era a época do chamado “integrismo”. Nessa obra afirma seu conceito de Deus e do bem, que paira um pouco por cima das fronteiras das religiões mas dá a seus atos um tom missionário. Esse espiritualismo iria acompanhá-lo até seus derradeiros momentos, junto a um pensamento político que se sofisticou muito ao longo dos anos.

Dor infinita, deveria ser o único nome dessas páginas. Dor infinita, porque a dor do presídio é a mais rude, a mais devastadora das dores, a que mata a inteligência, e seca a alma, e deixa nela marcas que não se apagarão jamais(...). Se existisse o Deus da providência, e tivesse visto aquilo, com uma mão teria coberto seu rosto, e com a outra teria feito rolar pelo abismo aquela negação de Deus. Deus existe, no entanto, na idéia do bem, que vela o nascimento de cada ser, e deixa na alma que se encarna nele uma lágrima pura. O bem é Deus. A lágrima é a fonte de sentimento eterno. Deus existe, e eu venho em seu nome a quebrar nas almas espanholas o copo frio que contém nelas a lágrima. Deus existe, e se me fazeis sair daqui sem tirar de vocês a covarde, a desventurada indiferença, deixem que eu os despreze, já que eu não posso odiar a ninguém; deixem que me compadeça de vocês em nome de meu Deus. Nem os odiarei, nem os maldirei. Se eu odiasse a alguém, odiaria a mim mesmo por isso. Se meu Deus maldissesse, eu negaria por isso a meu Deus.9
O relato impressiona o leitor pelo contraste entre sua prosa poética e a descrição cruamente realista do estado em que ficavam os corpos dos prisioneiros, objeto de doenças, surras cotidianas e 12 a 14 horas de trabalho forçado na pedreira. Martí permeia o texto com alusões ácidas aos “democratas” que chegaram ao poder na Espanha, e não fazem mais que aplaudir a letra da nova constituição.

Sua estadia na Espanha (1871-1874) foi dura mas importante. Aí terminou sua formação nas universidades de Madri e Saragoça, polemizou sobre a questão cubana e, em 1873, publicou sua obra La Revolución Española ante la Revolución Cubana. Nessa obra incita a breve república espanhola a aplicar seus princípios no tratamento da questão cubana. Se em algumas partes do texto o leitor de nossos tempos substituir “fraternidade e amor”, por “convencimento”, ou “hegemonia”, perceberá imediatamente a grande atualidade dos argumentos ali expostos. Martí também fornece nesse texto um conceito de pátria, aplicando-o a Cuba e depois à Espanha, e explicando porque elas não podem mais permanecer unidas, mesmo que o governo republicano espanhol passasse a administrar a ilha de forma “republicana”. Aliás a idéia de que Cuba poderia ser governada de forma republicana a partir da Espanha é combatida duramente, pois Martí considera que isso levaria a que a República espanhola tivesse de aplicar em Cuba os princípios que combateu em seu próprio país. Diante da posição firme dos cubanos em favor de sua independência somente restaria à metrópole apenas a repressão sangrenta, identificada pelo “apóstolo” com os princípios monárquicos. As expressões “república” e “republicano” têm um significado no texto que hoje já não têm mais, e que se assemelha com o que chamaríamos de “democrático”, compreendendo o sufrágio universal, a renúncia ao direito de conquista, recusa à opressão, etc. Martí compreende aí também o fim da escravidão, no que é fiel à tradição revolucionária cubana inaugurada na primeira guerra de independência, em 1868. Martí inicia sua exposição saudando a República, pois aprecia sinceramente seus princípios, os quais dirá que foram escolhidos por Cuba, nos campos de batalha, antes que a Espanha o fizesse. Refere-se ao governo conhecido como “a república em armas”, responsável pela direção da guerra de 1868-1878. Interessante é que subordina a honra da pátria, mesmo que no caso se refira à pátria espanhola, à honra universal :

Homem de boa vontade, saúdo a República que triunfa, a saúdo como a maldirei amanhã quando uma República afogue a outra República, quando um povo livre ao final restrinja as liberdades de outro povo, quando uma nação que se explica o que ela é, subjugue e submeta outra nação, que lhe a há de provar que quer sê-lo. – Se a liberdade da tirania é tremenda, a tirania da liberdade repugna, estremece, espanta.10
E Martí afirma que a decisão cubana de independência é irrevogável, sendo seu principal argumento o sangue cubano derramado pelos espanhóis desde o início do movimento. Ele define o que entende por pátria, refletindo sobre a situação cubana

E não constitui a terra isso que chamam integridade da pátria. Pátria é algo mais que a opressão, algo mais que pedaços de terreno sem liberdade e sem vida, algo mais que direito de posse à força. Pátria é comunidade de interesses, unidade de tradições, unidade de fins, fusão dulcíssima e consoladora de amores e de esperanças (...). E não vivem os cubanos como os peninsulares vivem; não é a história dos cubanos a história dos peninsulares (...). De diferente comércio se alimentam, com diferentes países se relacionam, com costumes opostos se alegram. Não há entre eles aspirações comuns nem fins idênticos, nem recordações amadas que os unam (...). E se faltam, pois, todas as comunidades, todas as identidades que tornam a pátria íntegra, se invoca um fantasma, que não há de responder, se invoca uma mentira enganadora quando se invoca a integridade da pátria. Os povos se unem com laços de fraternidade e de amor. (...)

Cuba reivindica a independência a que tem direito pela vida própria que sabe que possui, pela enérgica constância e seus filhos, pela riqueza de seu território, pela natural independência deste, e, mais que tudo, e esta razão está acima de todas as razões, porque essa é a vontade firme e unânime do povo cubano.11
E refletindo também sobra a situação espanhola.

Dizem que a separação de Cuba seria o fracionamento da pátria. Assim o seria se a pátria fôsse essa idéias egoísta e sórdida de dominação de avareza. Mas ainda que assim o fôsse, a conservação de Cuba para a Espanha contra sua mais explícita e poderosa vontade, (...) seria o fracionamento da honra da pátria que invocam impor-se. Impor-se é coisa de tiranos. Oprimir é de infames. No quererá nunca a República espanhola ser tirânica e covarde. Não há de sacrificar assim o bem pátrio ao qual após tantas dificuldades chega nobremente. Não há de manchar assim a honra que tanto custa.12


No final de 1874, Martí chega ao México, país onde atuou como jornalista e crítico, escrevendo sobre as lutas operárias13. Entre 1875 e 1881, vive na Guatemala, Venezuela e Espanha, para onde vai desterrado pela segunda vez, Nova York e Cuba. Ele retorna a Cuba por dois breves períodos: em uma visita usando nome falso, em 1877, e aproveitando-se da trégua que se seguiu à guerra dos dez anos14, em 1878. Nessa época, Martí se envolveu em atividades conspirativas contra o domínio colonial, sendo deportado novamente para a Espanha em 1879. Este em Nova York (1880), Caracas (1881), novamente Nova York (1881), permanecendo nos Estados Unidos até 1895. Visitou, após 1892, o Haiti, São Domingos, Jamaica, Panamá, Costa Rica, e México. As experiências de Martí com suas viagens se acumulam. Percebe angustiado a ameaça que pendia sobre esse lado dos EUA, com a agressividade que emergia do imperialismo norte-americano, baseado nos novos grandes monopólios como a Standard Oil Company e bancos como o JP Morgan. Essa agressividade estaria a ponto de se lançar sobre a América Latina, começando por Cuba15.

Em 1884 Martí tenta atrair os dois principais remanescentes da guerra de 1868, os generais Antonio Maceo e Máximo Gómez, ambos de origem popular e pequenos proprietários agrícolas. Malsucedido, Martí permanecerá amargurado e marginalizado das tarefas revolucionárias até 1887, que no entanto não se concretizam sem ele. Enquanto isso crescia em Cuba a campanha autonomista, fruto da derrota na guerra de 1868. Durante esse período de relativa marginalização política, Martí escreveu muito sobre arte e literatura, além de trabalhos jornalísticos, sendo publicado em cerca de vinte jornais do continente. Em 1887, Martí volta a organizar a luta revolucionária no exílio e consegue a adesão de Gómez.

É grande seu prestígio literário e político em todo o continente. Em 1887 é nomeado cônsul do Uruguai em N.York. Em 1888 é nomeado representante da Associação de Imprensa de Buenos Aires, nos EUA e Canadá. Em 1889 escreve uma revista para crianças, La Edad de Oro, da qual saíram apenas 4 números. Em fins da década de 80 a ameaça norte-americana de anexação de Cuba começa a ficar plenamente visível. Martí escreve em 1889 o artigo Vindicación de Cuba, respondendo a provocações do jornal The Manufacturer. Em 1888 o governo dos Estados Unidos convoca a Primeira Conferência das Nações Americanas, que se celebraria em Washington entre outubro de 1889 e abril de 1890. Apenas São Domingos não comparece. Ë uma clara tentativa de lançar as bases para o domínio dos EUA na região. Martí pode escrever com elevado grau de liberdade sobre o evento, pois seus textos são publicados no diário La Nación, o mais importante de Buenos Aires nessa época. Os argentinos permanecem na área de influência britânica e até se interessam em criticar as tentativas de expansão da influência dos EUA. No entanto ele sempre esconde uma parte de sua estratégia, devido aos cargos diplomáticos que ocupa. Martí expõe seus critérios sobre o congresso:

Jamais houve na América, da independência para cá, assunto que requeira mais sensatez, nem que obrigue a maior vigilância, nem que peça exame mais claro e minucioso que o convite que os Estados Unidos, potentes, repletos de produtos invendáveis, e determinados a estender seus domínios pela América, fazem às nações americanas de menor poder, ligadas pelo comércio livre e útil com os povos europeus, para coordenar uma liga contra a Europa e encerrar tratados com o resto do mundo. Da tirania da Espanha soube salvar-se a América espanhola; e agora, depois de ver com olhos criteriosos os antecedentes, causas e fatores do convite, urge dizer, porque é a verdade, que para a América espanhola chegou a hora de declarar sua segunda independência.16


Em fins de 1890, Martí é cônsul em N.York do Uruguai, da Argentina e do Paraguai, além de presidente da Sociedade Literária Hispano-Americana e presidente honorário da Liga, associação de negros que ajudou a fundar e na qual serve como professor. Nesse mesmo ano é nomeado pelo Uruguai como seu representante na Conferência Monetária Internacional Americana, que se realizaria em Washington, entre 7 de janeiro e 8 de abril de 1891. Essa conferência consistia no prolongamento da Conferência Internacional Americana de 1889-90. Sendo o Uruguai um país sob influência inglesa, Martí pode lidar adequadamente com as pressões dos EUA e organizar interesses que pudessem se contrapor às ambições desse país em relação a Nossa América. Nessa conferência monetária, o objetivo dos EUA era implantar uma moeda comum ao continente, vinculando os países ao sul do rio Grande ao poder do vizinho do norte. Desavenças internas nos EUA prejudicaram essa tentativa17. Em maio de 1891 o jornal La Nación publicou o último artigo de Martí. O “apóstolo” a partir daquela data se concentrou completamente nos preparativos da “guerra necessária” contra a Espanha, a qual teria de ser rápida para que os EUA dela não tirassem vantagem. Em outubro do mesmo ano ele renunciou aos consulados da Argentina, do Uruguai e do Paraguai e renunciou à presidência da Associação Literária Hispano-Americana, passando a viver apenas de suas aulas de espanhol. Em 5 de janeiro de 1892, ocorre a unificação dos diversos círculos de exilados revolucionários cubanos, formando o Partido Revolucionário Cubano (PRC). Esse partido se destina a conquistar a independência absoluta da ilha de Cuba e auxiliar a de Porto Rico. Martí tornava realidade o partido revolucionário que ele havia proposto dez anos antes em uma carta a Gómez18. O PRC é considerado como antecedente direto do PC de Cuba, pelos mais importantes líderes da Revolução Cubana de 1959. Martí dirigiu também o “órgão oficial” do partido, o Pátria. Em 24 de fevereiro de 1895 estoura a guerra. Em 25 de março, Gómez e Martí lançam o Manifesto de Montecristi, uma mensagem do PRC ao país, apresentando a revolução que se está iniciando, a qual seria uma continuação da guerra de 1868-78. Os problemas ocorridos em outros países hispano-americanos são atribuídos à importação de formas de governo estrangeiras, sobretudo européias; à falta de liberdades, à reprodução de hábitos senhoriais próprios da colônia, à discriminação contra os indígenas. Esses problemas Martí acredita que não incidirão sobre futura república em Cuba. No Manifesto de Montecristi existe a preocupação de afastar completamente o chamado “perigo negro”, e a necessidade de lutar pela construção de uma “república moral” em Cuba, fundamental para Nossa América. Em 11 de abril, Martí e Gómez abandonam as costas haitianas rumo a Cuba. Em 15 de abril, Martí é nomeado major-general. Maceo reúne-se a Gómez e Martí, no dia 5 de maio. Em 19 de maio de 1895, Martí avança à frente de suas tropas e cai de seu cavalo atingido por um disparo mortal, em um local chamado Dos Ríos. Na véspera de sua morte, Martí escreveu sua última e mais famosa carta, endereçada ao amigo mexicano Manuel Mercado.

... já estou todos os dias em perigo de dar minha vida por meu país e por meu dever – uma vez que o assim entendo e tenho ânimo de realizá-lo – de impedir a tempo, com a independência de Cuba, que os Estados Unidos se alastrem pelas Antilhas e caiam, com essa força a mais, sobre nossas terras de América. Tudo quanto fiz até hoje, fiz e farei, é para isso. Teve que ser em silêncio e indiretamente, porque há coisas que, para consegui-las, precisam estar ocultas, porque se proclamadas como são, levantariam dificuldades demasiado graves para atingir seus fins.

As próprias obrigações menores e públicas dos povos – como o do senhor e o meu – mais vitalmente interessados em impedir que em Cuba se abra, pela anexação dos Imperialistas de lá e pelos Espanhóis, o caminho que se deve obstruir, e que com nosso sangue estamos barrando, da anexação dos povos de nossa América ao Norte agitado e brutal que os despreza, - lhes teriam impedido a adesão ostensiva e a ajuda patente para este sacrifício que se faz pelo bem imediato e deles.

Vivi no monstro e conheço suas entranhas: - e minha funda é a de Davi. Agora mesmo (...) o correspondente do Herald (...) me fala da atividade anexionista, menos temível pelo pouco realismo de seus aspirantes, do tipo curial, sem cintura nem criatividade, que por disfarce cômodo de sua complacência ou submissão à Espanha, lhe pede sem fé a autonomia de Cuba, contente de que haja um só amo, ianque ou espanhol, que lhes mantenha, ou lhes crie, como prêmio por seus ofícios de alcoviteiros, a posição de pró-homens, desdenhosos da massa pujante, - a massa mestiça, hábil e comovedora do país, - a massa inteligente e criadora de brancos e negros.19


A propósito do papel da questão nacional na construção do socialismo em Cuba, declara Florestan Fernandes (1979):

A opção pelo socialismo fixou-se, em Cuba, como parte da síndrome anticolonialista e antiimperialista. Mesmo a tentativa de fortalecer o topo governamental no âmbito da atual fase de organização do poder popular prende-se a essa síndrome. O povo cubano converteu a revolução numa forma suprema de afirmação nacional, o que contribuiu para tornar o socialismo uma realidade histórica irreversível. Em conseqüência, o orgulho nacional entra em jogo tanto na defesa do socialismo quanto na ambição reativa de fazer da revolução cubana uma manifestação exemplar do socialismo. É desse ângulo que se devem entender a serenidade com que são aceitos os prolongados sacrifícios que a implantação do socialismo vem exigindo e a esperança de que se possa acelerar o salto final, em direção ao comunismo.20


É interessante refletir sobre essa exemplaridade da revolução cubana mencionada por Florestan Fernandes. Esse traço, criado e/ou descoberto no povo cubano, no entanto, já está presente em Martí, muito antes que o socialismo fosse minimamente vislumbrado na ilha. O papel central de Cuba no destino de Nossa América, concebido por Martí, está presente hoje, sob outras roupagens, no protagonismo moral que Cuba desempenha no mundo em defesa de uma humanidade socialista !

Bibliografia


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1 Castro (1982), pg. 18.

2 Rodriguez (1972), p.169.

3 Rodriguez (1972), p.172.

4 o independentismo não pode na verdade caracterizar Martí. Esse termo é dado na historiografia cubana àqueles que pura e simplesmente lutavam pela independência de Cuba. Martí seria revolucionário porque além de defender a independência, defendia um tipo de sociedade diferente da colonial. Os independentistas combatiam os anexionistas, favoráveis à anexação de Cuba pelos Estados Unidos, e os autonomistas, favoráveis à autonomia administrativa da ilha com a manutenção dos laços coloniais com a Espanha.

5 Santamaría (1978), pp.40-41.

6 Martí (1975) O.C. II p. 62.

7 Martí (1975) O.C. XIII p. 34.

8 Martí (1975) O.C. I p. 39.

9 Martí (1975) O.C. I p. 45.

10 Martí (1975) O.C. I p. 89-90.

11 Martí (1975) O.C. I p. 93, 94 e 95.

12 Martí (1975) O.C. I p. 94 e 95.

13 Retamar (1991), p.16.

14 ou primeira guerra de independência, 1868-1878.

15 Foner (1980), pp. 220 e 236.

16 Martí (1991), p.170.

17 Veja o leitor a atualidade desse debate, em tempos de tentativa de implantação da ALCA e quando a dolarização de algumas economias latino-americanas já é uma realidade. Naturalmente hoje a tentativa imperial é muito mais ambiciosa que a de então.

18 Retamar (1991), p.25.

19 Martí (1991) , p.252-254.

20 Fernandes (1979), pg. 225.

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002



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