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MEMÓRIA E HISTÓRIA: OS POMERANOS DA SERRA DOS TAPES

CARMO THUM.



Educamemória – IE - Universidade Federal de Rio Grande - FURG

carthum2004@yahoo.com.br



Resumo

A presente comunicação analisa silêncios e reinvenções pomeranas na Serra do Tapes, localizado no sul do sul do Rio Grande do Sul, em relação a História e a Memória da cultura local. Deriva de processo de pesquisa de doutorado concluído. As grandes linhas teóricas que se entrecruzam são: Educação, História e Memória. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, cuja orientação principal, em termos metodológicos, é a etnografia. Nesse sentido, a coleta de dados foi constituída de forma complexa e plural, passando pelas técnicas: levantamento bibliográfico, análise documental, participação pesquisante, entrevistas, conversas informais, rodas de diálogos, produção e análise de fotografias e inventários. Com os objetivos de analisar as relações constitutivas do modo de ser da cultura local, em especial a cultura pomerana da Serra dos Tapes, investiguei a cultura material e imaterial, presente nos entornos das casas e das escolas, na busca de compreender o significado dos seus ritos e modos de ser. A imigração pomerana no sul do Rio Grande do Sul diferencia-se de modo singular, em relação à dos outros grupos imigrantes (alemães), em função das conjunturas históricas, constitutivas dos pomeranos e do processo de isolamento e silenciamentos. O silêncio da cultura pomerana, no bojo da cultura local, se dá sob as abas do poder: religioso, escolar, do comércio, da linguagem. O mundo patriarcal constrói suas demarcações, no âmbito das relações de gênero e de poder. Ao mesmo tempo em que esse processo de silenciamento se dá nos espaços públicos (escolas, igrejas, comércio), a vida cotidiana mantém práticas e reinventa-se, no encontro com as demais culturas locais. A metodologia da Roda de Diálogo caracteriza-se por ser um momento de interpretação da cultura local, pela sua própria voz, a partir dos materiais coletados e catalogados. O processo de interpretação das imagens realizado com a comunidade pesquisada permitiu percorrer a lógica de criação dos sentidos culturais e compreender o enraizamento dos significados dados aos processos vividos. A cultura do silêncio e os silêncios da cultura são, ao mesmo tempo, conseqüências do processo de opressão vivido e modos de resistência silenciosa. O mundo pomerano reinventou-se, na Serra dos Tapes, constituindo-se em um caso específico. Foi reconfigurado pelas trocas assimétricas, pelas apropriações das lógicas das culturas já presentes nesses espaços. Compreendo que, muito mais do que cultura pomerana, há uma cultura local, que apresenta códigos próprios e rituais específicos, capazes de permitir o trânsito das diversas correntes que a condiciona. Os significados, desse conjunto de daos coletados e analisados apresenta-se, ao pesquisador, como um grande mosaico do que é a cultura na Serra dos Tapes: plural, polifônica e em movimento.


INTRODUÇÃO

O presente trabalho é sobre silêncios e reinvenções da cultura local dos pomeranos, diante de processos de opressão das instituições formativas. Foram considerados os seguintes aspectos: a cultura material e imaterial, a perspectiva de ação pedagógica dos professores e os ritos de passagem comunitários, que envolvem a cultura como um todo.

O espaço pesquisado envolve a região da Serra dos Tapes, nas zonas rurais dos municípios de Pelotas, Canguçu, Arroio do Padre e São Lourenço do Sul. No núcleo central da coleta de materiais, estão três escolas e seu entorno: Escola Carlos Soares da Silveira, da localidade Nova Gonçalves, e Escola Santo Ângelo, da localidade Solidez, ambas do município de Canguçu; e a Escola Martinho Lutero, da localidade Santa Augusta, no município de São Lourenço do Sul.

A pesquisa apresenta o conceito de memória, que recorrente, está nas fontes coletadas, tanto nos documentos como nas narrativas. Ela se apresenta como um pressuposto metodológico para a pesquisa e fundamentação teórica para a análise. Parte da premissa apresentada por Pierre Nora (1993), de que a memória é a vida e é sustentada pelo mundo dos vivos, em permanente movimento, entre a lembrança e o esquecimento, reinventada e reinterpretada pelo tempo presente.

A memória não existe sem a narrativa da vida. Dessa maneira, a idéia de narrativa toma acento no processo de pesquisa e análise. O processo de narrar descreve contextos, apresenta lógicas de pensar e agir; encadeia eventos, explicita significados. No processo narrativo, o sujeito percorre os núcleos orientadores de sua ação cotidiana e, com o apoio das fontes documentais, disponibiliza um lastro contextual, capaz de permitir análise em profundidade dos temas em questão.

A pesquisa de campo: a cultura local em três espaços


O espaço da pesquisa situa-se no entorno de três escolas municipais, em alunos, pais/mães, professores, sendo duas do Município de Canguçu e uma do município de São Lourenço do Sul. Geograficamente, os pomeranos, no Sul do Rio Grande do Sul, ocupam a Serra dos Tapes. As atividades produtivas dos mesmos estão ligadas à agricultura. Sujeitos do conhecimento, portadores de sabedoria, guardadores da memória. São estes os sujeitos da pesquisa, que, no decorrer da ação de pesquisa, têm interagido publicamente com os pesquisadores no espaço pesquisado.

A cultura local, nos espaços pesquisados, apresentou-se volumosa, tanto nos aspectos materiais e quanto nos imateriais. Nesse conjunto, há uma diversidade de objetos e fatos/situações que configuram um processo complexo de elementos culturais presentes. A diversidade apresenta-se como uma mistura - cultural, étnica e histórica.

Nos “achados”, evidenciou-se um contexto cultural da Serra dos Tapes, extremamente transpassado por diferentes tendências religiosas, práticas de cultivo variadas, organizações comunitárias e perspectivas de vida diferenciadas.

O encontro e a interação de diferentes grupos conformam um caleidoscópio cultural que complexifica estudos como este, pois a presença dos diferentes grupos culturais implica numa relação de troca e interação. Nessa relação, praticamente todos os grupos utilizam-se de práticas e rituais que não lhes são próprios, se analisados histórica e antropologicamente; contudo, esses procedimentos são por eles apropriados e reinventados, a partir da relação com os outros.

Encontrar práticas próprias dos grupos indígenas, em grupos pomeranos, é comum, assim como práticas pomeranas em grupos descendentes de negros quilombolas. No conjunto da obra, no entanto, a referência ao mundo cultural germânico, como o mundo da cultura “fina e superior”, é presente em todos os contextos percorridos.

Analisar esse mosaico/caleidoscópio é um desafio ao pesquisador em especial quanto à literatura já produzida sobre ele. Em muitos momentos, as buscas por referenciais capazes de iluminar análises foram em vão e, em outros, foi necessário refutar algum dado, pois este não era capaz de dar conta dos contextos pesquisados e/ou, relacionava-se a perspectivas silenciadoras das diferenças presentes.

Ao mergulhar no mundo material e imaterial, envolvi-me com uma diversidade complexa, que me obrigou a processos reflexivos amplos e profundos. Isso me levou a percorrer praticamente toda a produção sobre imigração no Rio Grande do Sul, e trabalhos clássicos, em termos de País, e, até, algumas obras internacionais. Mesmo assim, ao nos debruçarmos sobre os elementos coletados, sobrevinha uma frustração: a literatura pouco trata e muito silencia, quanto às diferentes perspectivas culturais, em especial a dos diferentes grupos imigrantes.

O processo de pesquisa não se faz sem a interpretação. Para tal ato, o processo metodológico utilizado apontou para a técnica de coleta ‘Roda de Diálogo’, a partir de situações selecionadas pelo pesquisador estabeleciam-se os marcos interpretativos do material coletado. A técnica da Roda de Diálogoi não é nova para mim, acompanha meu processo de pesquisa desde há muito tempo e tem seu vertedouro nas práticas de Educação popular.

O processo da Roda de Diálogo caracteriza-se por ser um momento de interpretação da cultura local, pela sua própria voz, a partir dos materiais coletados e catalogados. As imagens são selecionadas pelo pesquisador, a partir da totalidade coletada, que os apresenta em um telão, com perguntas previamente definidas sobre cada uma delas. A participação dos membros da roda é livre, sendo estes questionados pelo pesquisador, a cada nova imagem, e com perguntas que se seguem às respostas dadas, que são na verdade, na maioria dos casos, análises profundas sobre as implicações da vida na constituição dos significados culturais. Esse movimento de interpretação é o movimento Roda, um debate profundo, com participações diversas e críticas, sobre as falas dos sujeitos. Isso se verifica, pois sendo um momento de análise coletiva, o movimento da roda possibilita a intervenção sobre análises incorretas ou com possibilidades duvidosas de respostas e, ainda, exageros de importância a um determinado fato/objeto, exercendo assim um filtro de significados possíveis e aceitáveis como representativo da cultura local. O Movimento de Roda possibilita também a tomada de consciência sobre a cultura local, pois, ao analisar seu próprio mundo, os sujeitos buscam compreender as suas presenças no conjunto da cultura local e global.

Considero que pesquisar é também intervir, auxiliar na organização, impulsionar processos. Não me basta o movimento da coleta. Não desejo ser um coletor de esmeraldas, nas terras pomeranas. Há de ser pesquisante também a comunidade, participante o pesquisador. A forma desse processo se desenvolver é o diálogo em profundidade.

O ato de interpretar as imagens, em conjunto com a comunidade, significa mais do que uma interpretação. Significa colocar a comunidade como a voz do significado desejado. A partir disso é que sofrerá a crítica reflexiva do pesquisador, sobre a voz da comunidade.

METODOLOGIA E FONTES

Entre as fontes documentais, a fotografia é uma das mais presentes, na análise, pois é encontrada em grande volume. Ao analisá-la, é possível compreender que – apesar de apresentar momentos congelados da vida cotidiana – narra situações que contribuem para a explicitação do contexto da época e ampliam o horizonte de possibilidades interpretativas.

A utilização da fotografia na pesquisa na área da educação tem se mostrado muito profícua. A fotografia permite que se faça uma leitura sobre a mudança histórica, mas permite também que a releitura da mesma indique as relações de poder vivenciadas, o que permite, ainda, uma narrativa do passado mediada pela imagem. Portanto, as imagens, quando coletadas ao longo do tempo histórico, indicam vestígios de alteração do mundo material. Essas mesmas imagens servem de elementos constitutivos da rememoração, como dispositivos da memória, bem como representam uma memória selecionada.

É nesse sentido que a imagem foi tratada como um suporte para a interpretação de contextos. Relaciona-se, portanto, no campo da memória, por vezes como um indutor da mesma, por vezes como ilustração do fato relatado. A memória necessita de imagens (mentais ou gráficas), ensina Pierre Nora, pois os “lugares” não tangíveis também participam da construção do contexto. Portanto, do mesmo modo que a escrita e a palavra designam sentidos, assim ocorre com as imagens. Pesquisar e interpretar são modos de dar um lugar aos vestígios do passado na sociedade contemporânea. Tendo essa perspectiva consciente, ao pesquisador de hoje cabe ser um sujeito que transita por vários campos, objetos e racionalizações. No meu entender, trabalhar nas margens. Nas margens, estão os vestígios. Nas descontinuidades, as fissuras.

Na construção da escrita histórica, o processo de conceituar o que foi, implica em construir uma inteligibilidade e de erodir situações, descartar determinadas perspectivas, ou seja, o texto vai produzindo lugares para os conceitos: construção e erosão – a dialética do texto histórico. Ao selecionar fatos, escapam-lhe outros que são erodidos no ato de formalizar uma interpretação, mas que estão presentes numa latência permanentemente afloráveis ao questionar-se a base dos conceitos construídos. Portanto, ao proceder a interpretação, estamos cientes de que a pesquisa é condicionada aos contextos nos quais se movimenta. Entre fontes documentais, memórias, histórias vividas e narrativas, fugidiamente, está a cultura local produzindo suas reinvenções, seus silêncios, seus fazeres e saberes.

Compreendemos como cultura material o espaço e os artefatos moldados/formatados/construídos/remodelados pela ação humana, e isso inclui as paisagens e o mundo construído. São de um modo geral objetos que, do mundo natural ou do mundo cultural, ganham significados dentro do conjunto de códigos da cultura. Cultura material, artefatos e objetos serão tratados como sinônimos. Como cultura imaterial, compreendemos aqueles objetos-situações-fenômenos que são portadores de significados de referência identitária; a ação humana não materializada em objetos, mas presentes enquanto em idéias e ideais norteadores dos significados da ação de um grupo cultural, nos campos dos saberes, das celebrações, formas de expressão e dos lugares. Os bens intangíveis da cultura.

Pesquisar a cultura local da Serra dos Tapes ganha significado porque há relativamente poucos dados sobre a cultura regional, e os que existem, ou são de pequeno fôlego ou seguem a perspectiva hegemônica de incluir essa região dentro dos mesmos parâmetros conceituais dos grupos imigrantes alemães da região central do Rio Grande do Sul, tornando invisível, assim, a especificidade local. Há vasta bibliografia sobre o mundo imigrante, pouquíssima sobre a história da cultura local da Serra dos Tapes. O campo da Educação Popular e dos processos formativos tem, com essa pesquisa, mais uma fonte interpretativa sobre processos singulares da imigração no RS.

Pesquisar o mundo da cultura e suas relações com os agentes formativos é relevante nos tempos atuais, pois o processo de embate entre o local e o global está posto. Buscar uma ação formadora, tendo como base a cultura é reconhecer que a matriz da educação é a própria cultura. Refletir sobre o papel dos agentes formativos, nesses espaços, é uma ação necessária para viabilizar um diálogo em bases sustentáveis, dentro da dinâmica das culturas.

A história da colonização da Serra dos Tapes é revisitada, buscando compreender a luz do presente, os fatos vividos e as narrativas sobre eles disseminadas pela história oficial. Perceber a colonização da Serra dos Tapes, como algo conflitivo, foi um caminho necessário para demonstrar o quanto a história oficial silencia e esconde as ações das comunidades e suas formas de resistências. Ao destituir a história da construção comunitária dos pomeranos, nega-se a capacidade de resistência que esses grupos tiveram e silencia-se sobre suas rebeldias e reinvenções.


Memória, imagem e indícios: narrativas da vida cotidiana

Ao considerar o problema de tese – ou seja, qual a pedagogia da cultura pomerana – tenho, por preferência, buscar os elementos negligenciados, ao longo das análises realizadas, nesse campo e nesse espaço. Retomo, então, os indícios de uma demarcação da diferença cultural, os indícios de referentes de exclusão e dos micro discursos excludentes internamente. Por isso, a perspectiva indiciária torna-se necessária, para examinar os pormenores mais negligenciáveis.

Utilizar indícios requer apresentá-lo com dados da realidade pesquisada. Essa ação será realizada, a partir de imagens, diálogos transcritos, escritos documentais. Trata-se de uma tentativa de dar ordem a uma realidade complexa, em movimento, que não se mostra na sua diferença e exclusão. No arranjo mundial das culturas, a pomerana é uma das mais fugidias.

A fotografia tanto mostra quanto esconde. A ausência é também possível e precisa ser lida e interpretada, num conjunto de imagens. Portanto, a fotografia/imagem é uma fonte que pode ser manipulada, no seu ato criador, tanto quanto uma ata, uma carta ou qualquer outra fonte escrita e/ou oral. O escritor/criador da fonte a produz, a partir de um objetivo. Muitas vezes, a intencionalidade e o sentido dados por eles ao documento/fonte, é diverso daquele do intérprete. Portanto, a fotografia/imagem é uma fonte para interpretação, pois é detentora de significados e expressa um conteúdo. Em suma, por serem as fotografias/imagens portadoras de informações precisam ser consideradas nos contextos históricos de sua criação e de sua visualização; portanto, não são neutras e, muito menos, sem historicidade.

Nesse sentido, que tratarei a imagem como um suporte para a interpretação de contextos. A fotografia como um dispositivo. O dispositivo relaciona-se, portanto, no campo da memória, por vezes, como um indutor da mesma, por vezes como ilustração do fato relatado. A memória necessita de imagens (mentais ou gráficas), segundo Pierre Nora (1993), pois os “lugares” não tangíveis também participam da construção do contexto. Portanto, do mesmo modo que a escrita e a palavra designam sentidos, assim ocorre com as imagens. As imagens/ fotografias são artefatos culturais e reproduzem, de forma passiva (enquanto fonte), a realidade vivida e experimentada, mesmo que em cenários montados.

Na construção da oralidade narrativa, o sujeito percorre os núcleos orientadores de sua ação cotidiana. A imagem que faz de si próprio orienta suas ações e reflexões. Apoiado nos estudos de Tzvetan Todorov (1996, p. 141), sobre a antropologia da vida comum, há de se diferenciar imagens arcaicas de um eu cultural de uma imagem refletida, pois ambas não são a mesma coisa e têm valores diferentes, pois são resultados de conteúdos distintos

Na construção da escrita histórica, o processo de conceituar o que foi implica em construir uma inteligibilidade e de erodir situações, descartar determinadas perspectivas, ou seja, o texto vai produzindo lugares para os conceitos: construção e erosão – a dialética do texto histórico. Ao selecionar fatos, escapam-lhe outros, que são erodidos, no ato de formalizar uma interpretação, mas que estão presentes numa latência permanentemente, afloráveis ao questionar-se a base dos conceitos construídos.

As premissas da pesquisa histórica estão assentadas nas propostas da ‘escrita da história’ de CERTEAU (2000) e do trato das fontes de RAGGAZZINI, (2001), com o suporte do pensamento de LE GOFF (2003). Nas questões que tratam da memória o suporte se dá a partir do pensamento de NORA (1993) e HALBWACHS (2004). A perspectiva indiciária baseia-se no pensamento de GUINZBURG (1989). Todas essas perspectivas compõe junto com o pensamento metodológico de BRANDÃO (1985) o lastro da composição metodológica necessária para uma pesquisa desse tipo.



Aspectos gerais sobre a história de São Lourenço e o entorno da Serra dos Tapes


Os colonos, principalmente os pomerânios, enxergavam em meu falecido pai, além de possuidores de terras, a pessoa investida de autoridade legal, porque na Pomerânia os senhores das terras exerciam uma autoridade patrimonial. (COARACY, 1957, p. 115)

Por terras devolutasii, eram consideradas as áreas sem uso, pelo Estado, ou de doações não legitimadas. A “doação” de Sesmarias seguia a lógica de promover a ocupação de terras sem uso. As terras destinadas à colonização partiram desse princípio. A Serra dos Tapes não era desejada por nenhum fazendeiro. Embora houvesse sido doada como Sesmaria, não fora efetivamente ocupada.

A região sul da Província de São Pedro teve um maior investimento em ocupação, por volta de 1770, com a fundação de pequenas vilas, povoadas por criadores milicianos. Muitas dessas divisas e doações eram/são questionadas até hoje. Muito embora tenham sido legalizadas posteriormente, em espaços de “soldados-estancieiros”, a lei era sempre a favor do Coronel. No caso de São Lourenço um dos primeiros proprietários foi o Brigadeiro Rafael Pinto Bandeira, na área compreendida entre os Arroios Cahará e Arroio Grande, legitimada em 1780. O registro do nome São Lourenço aparece no ato de doação de 18 mil hectares à Manuel Bento da Rochaiii. Tratava-se de uma região praticamente inabitada nessas épocas.

O processo das charqueadas, na zonal sul, ocupava grandes extensões de terras. O cultivo do gado a campo aberto e as práticas de produção, bem como a pouca população com posses, eram fatores que davam margem à posse de áreas sem muitos conflitos. Isso, contudo, passou a se alterar com o aumento de concessões registradas, a partir de 1780, justamente na época em que as charqueadas estavam em plena produção. Recondo (1984) apresenta essa situação, ao pesquisar e analisar o “Registro Geral”, onde a mesma encontrou um grande número de concessões, entre 1780 e 1800, a açorianos, que se tornaram possuidores de grandes estâncias.

Nesse quadro, a Serra dos Tapes ficou à margem do interesse dos estancieiros e charqueadores, mas não do Estado, pois, na década de 1840, a Assembléia da Província debatia, através do Deputado Gonçalves Chaves, a criação de uma colônia de imigrantes nessa área. Nesse sentido, é o discurso proferido, em 1847:

[...] está a Serra dos Tapes no município de Pelotas ao sul da Província apropriada para o estabelecimento de uma colônia [...] por conseqüência, se é esse, para aquele lado da Província o único lugar apropriado para o estabelecimento de uma colônia, se ela tem de produzir inúmeras vantagens, não só a pelotas, mas ao município de Rio Grande, a todo o sul da campanha até a fronteira de Jaguarão, de Bagé e mesmo São Gabriel... (Dep. Gonçalvez Chaves, apud PICOLLO, 1998, p.490)

Essa colônia, que chegou a ser criada como projeto, foi cancelada dois anos após, em 1849, através de ofício de 09 de julho de 1849, pelo Presidente da Província, General Andréa. Chamar-se-ia Colônia São Francisco de Paula. (ANJOS, 2000)

O destaque que Rheingantziv tem, na literaturav, como pioneiro na iniciativa pode ser questionado, pois essa proposta já era corrente na região, de tal maneira que outras colônias foram criadas: uma, denominada D. Pedro II (1950) e gerenciada pela Sociedade Auxiliadora da Colonização de Estrangeiros; e outra, Monte Bonito (1850), particular, organizada pelo Coronel Thomaz José dos Campos. Estas colônias, de iniciativa particular, acolheram imigrantes da Irlanda, que, após alguns anos, a abandonam, dirigindo-se para Buenos Aires e Tapes. (ANJOS, 2000).

O que deve ser atribuído ao administrador da colônia de São Lourenço é sua capacidade de utilizar a lei de terras, aprovada em 1850vi, a seu favor e de encontrar, nos pomeranos, os colonos capazes de darem seu suor na fabricação do sonho empresarial de Rheingantz. No dizer Ullrichvii (1999, p. 37), ele implantou o “[...] campesinato numa região do Rio Grande do Sul dominada por grandes estâncias”. As experiências anteriores possibilitaram, ao mesmo, buscar um perfil humano de aceitação às condições e modos de gestão centralizadora e monopolista do empresário.

O administrador tinha conhecimento das “competências” dos pomeranos. A busca por esse grupo humano foi realizada de modo consciente, pois, além de estarem acostumados às lides agrícolas, viviam uma situação de dependência, de longo prazo, na Pomerânia!viii O perfil desejado era do o colono, trabalhador da terra e que pouco se ocupa com as questões políticas. Concretamente, por volta dos anos de 1880, somente 42 pessoas desta colônia estavam aptas a votarix.

O caráter monopolista foi vigente durante todo o tempo que Rheingantz dirigiu a colônia. Ali funcionava somente um comércio. Pertencia a Jacob Rheingantz. Os colonos pomeranos, com o passar do tempo, deram-se conta da situação, passando a queixar-se sobre os altos preços dos lotes, da forma de distribuição dos mesmos, da diferenças de valores entre lotes, dos poucos lucros nas vendas dos produtos, etc. Essas reclamações ganharam concreticidade, ao fim do ano de 1867.

Cabe destacar que, na literatura, é encontrado, por vezes, um caráter não conflitivo nessa colônia, como se os processos aqui tivessem sido de forma harmoniosa. Ao visitar novas fontes, vamos encontrando pistas que sugerem que a voz oficial calou as vozes contrárias: contudo, em Kleimann (1986, p. 26) e em Nogueira e Hütter (1975), a forma de apresentação das situações é diferente das encontradas em Coaracy (1957). Nessas fontes, vemos que o conflito de terras não se estabelecia somente entre os colonos da colônia, mas, também, com fazendeiros que possuíam terras próximas. Além disso, quando da expansão da colônia (compras de novas áreas, tais como Colônia Cerrito, em 1869, e Arroio Grande), outras iniciativas concorriam com a de Rheingantz. E isso é bem visível, ao observar o mapa das Colônias. Nas áreas à direita do Arroio Grande, município de Pelotas, se encontram inúmeras colônias particularesx, com poucos lotes cada. A maioria delas leva o nome do fazendeiro, dono das terras.

Desordens de vulto só conheceram São Leopoldo e São Lourenço aquela com as questões de terras suficientemente conhecidas e com a revolta dos Muckers; esta com as desordens motivadas pela ganância dos empresários sobre as terras vendidas aos colonos, pagas e não regularizadas. Tal foi o vulto da questão que degenerou em franca revolta. (PELANDA, 1925, p. 34)

No processo de administração da colônia de São Lourenço do Sul, registra-se o fato de que um grupo de colonos se revoltou contra o administrador Jacob Rheingantz, próximo dos dias de Natal, do ano de 1867. Eram colonos descontentes com a administração da Colônia, e mobilizados devido à publicação de um edital, pelo tenente que atuava no Destacamento de Polícia de Pelotas, com assento no 5º. Distrito (região da colonização). Esse edital impedia o uso de armas, o jogo nas vendas, ajuntamento de mais de três pessoas; previa necessidade de atestado médico, para enterro, e de licença, para bailes.

Essa situação desagradou os colonos, mas ela era somente o ápice de um processo, que incomodava muita gente. Eles reclamavam de medições incorretas e juros altos, bem como de valores exacerbados sobre os lotes e intermediação das vendas de produtos, como a batataxi. Até hoje, essa história é contada em várias versões e não se tem um estudo aprofundado das reais motivações, para a revolta dos colonosxii.
Dos silêncios

Os silêncios no mundo pomerano da Serra dos Tapes, se dá em diferentes âmbitos e a partir de diferentes estratégias e diferentes tempos. Os 150 anos de presença pomerana, no Sul do Rio Grande do Sul, foram marcados pelas disputas culturais em que aparecem silenciamentos e reinvenções: no valor lingüístico do falar pomerano (língua grossa), frente ao falar alemãoxiii (língua fina); nas relações de gênero; no conflito religioso entre a questão as comunidades livres e as comunidades dos sínodos (IECLB e IELB); na questão da não participação política dos pomeranos; na dependência dos pomeranos, para com os donos das vendas, na maioria, representantes do germanismo, das festas e seus rituais; no mundo escolarxiv professor/pastor de ideologia germânica, no material didático produzido por agências divulgadoras do germanismoxv e/ou de ideais norte-americanos; nos rituais de crenças pagãs, em contraposição a rituais [re]significados pelo cristianismo.

Os silêncios, na contemporaneidade, apresentam-se, também, nesses âmbitos, alguns com menos ênfases e outros reavivados. Reavivados por novas vertentes, produto do rearranjo mundial das formas de gestão da vida, no processo de transformação e homogeneização cultural, no rearranjo dos modos de exploração e exclusão. No caso do mundo escolar, o papel dos espaços escolares que antes eram instrumentos de disseminação dos ideais do germanismo e do luteranismo sobre as comunidades pomeranas difunde-se agora o ideal urbano.

Ao que parece, a memória pomerana é silenciada pela hegemonia da cultura germânica, no mundo material. Há uma aceitação do imaginário germânico, sem contestação visível do mundo pomerano. Novamente, evidencia-se uma situação de silenciamento tácito.

Analisando a realidade pesquisada, compreendo que a exclusão, na Serra dos Tapes, se aplica indiscriminadamente aos negros e aos pomeranos. O lugar do trabalho para ambos: a terra; o lugar da cidadania: somente os direitos garantidos pelo Estado (votar, ter documentos); a identidade: um conflito permanente (ser brasileiro, ser ‘tuca’, ser pomerano); o território: um espaço de não emancipação política; o corpo: um meio para a negação do eu. Os lugares onde essa exclusão é ativada é o espaço familiar, a escola e a comunidade, o hospital, a prisão. No caso da pesquisa, nas casas onde os homens eram alemães, a língua cultuada era a alemã; a comida pomerana não agradava ao paladar do patriarca; na escola, a língua valorizada era o Alemão. Ensinava-se ou em Alemão ou em Português. A Língua Pomerana era/é motivo de desprezo, nos espaços oficiaisxvi; as benzeduras e os saberes de curas, advindos das gerações, são questionados pelas práticas médicas dos Pastores e médicos/farmacêuticos, formados na Alemanha. A vida comunitária é organizada pelos representantes da perspectiva germânica. As agências religiosas são pensadas, a partir de princípios luteranos-germanistasxvii. Os espaços sociais de mercado são regrados pelos representantes das perspectivas da germanidadexviii.

Nas análises realizadas, o silenciamento da cultura local se dá, também, no âmbito da literatura, pois nela raramente há alusão ao mundo cultural da Serra dos Tapes, ficando subsumida às análises macrossociológicas do mundo imigrante. A cultura do silêncio se dá também na não participação política, pois, de um modo geral, os representantes políticos municipais, estaduais e federais da região refletem interesses diferenciados daqueles que habitam o mundo rural. As organizações comunitárias das comunidades livres sofrem, cotidianamente, a ação de silenciamento, pois são impedidas de dizer sua palavra diante da verdade institucional dos sínodos. As escolas e seus professores atuam, na maioria das vezes, na disseminação de uma cultura urbana e generalizante, tendo limites enormes de atuar, com vistas à construção de um saber local. Participam desse processo os cursos de formação, que, ao ignorar a cultura local, silenciam sobre o mesmo, induzindo e pactuando com as análises generalizantes e ofuscadoras da pluralidade das culturas locais.

O silêncio da cultura pomerana, no bojo da cultura local, se dá sob as abas do poder: poder religioso, poder escolar, poder do comércio, poder da linguagem. O mundo patriarcal constrói suas demarcações, no âmbito das relações de gênero e de poder.

CONCLUSÃO

As os dados analisados indicam um mundo cultural local multicultural, com vertentes que se encontram e se configuram em fontes novas de representação. Os significados, desse conjunto de dados e imagens coletadas e analisadas apresenta-se, ao pesquisador, como um grande mosaico do que é a cultura na Serra dos Tapes: plural, polifônica e em movimento. Ao narrarem situações da história local, as imagens tanto escondem quanto mostram. Essas imagens apresentam as relações sociais de poder (reais e caricaturadas) e permitem proceder uma leitura do mundo vivido e registrado. A ausência também oferece pistas de análise, pois indica o não direito de existência pública, de determinados modos de ser.

O espaço ocupado pelas lideranças, os discursos pronunciados e os discursos praticados no processo da vida cotidiana das comunidades estiveram (na maioria dos casos) embasados pela estrutura de poder própria da cultura pomerana, no entrecruzamento com as formas oligárquicas, presentes no cenário do pampa gaúcho. O modo de ser da cultura pomerana, no sul do Rio Grande do Sul, embora tenha o predomínio pomerano, entrecruzou-se, desde logo, com alguns elementos próprios da cultura das oligarquias tradicionais, já instalada neste espaço. Apesar disso, manteve aspectos que o diferenciam dos processos das outras comunidades locais, bem como do processo de imigração alemã.

Esses elementos acima explanados demonstram silêncios históricos, que invisibilizam a presença pomerana na Serra dos Tapes. Buscar a vida cotidiana, o mundo da casa, dos rituais é uma das formas capazes de dar visibilidade ao próprio silêncio produzido, bem como dar voz a cultura material e imaterial presente nesse espaço.

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i Essa perspectiva é denominada de diversas maneiras e muito utilizada em processos de educação popular e vem sendo gestada em meus processos de pesquisa-formação, ao longo dos últimos 10 anos, exercitada já no Movimento “Abraçando a Vida” em Florianópolis, entre os anos 1998-2001; na pesquisa “Escolinha Municipal de Arte: diálogos em memória”, entre os anos 2002 a 2004; e agora (2007-2008), no processo de extensão-pesquisa: “Educação, Memória e História: diálogos pomeranos”. Tem nascedouro nas idéias de Paulo Freire – Centros de Cultura, mas reconfigura-se em nossos processos, a partir de um contexto diferenciado e de leituras outras que possibilitam avanços metodológicos. Weller (2006) apresenta uma idéia muito próxima desta que realizo; contudo, a idéia de roda foge da caracterização dada por este. Weller (2006) denomina Grupos de Discussão e, em seus artigos, encontrei algumas das minhas premissas expressas graficamente.

ii As sesmarias eram terras devolutas, medindo cerca de 13.000 hectares, correspondendo a três léguas por uma légua (PESAVENTO, 1985)

iii Conforme carta de sesmaria de 1814, emitida por Dom Diogo de Souza “[...] uns campos na Serra dos Tapes, freguesia do Rio Grande, confrontando-se a leste com terras de José Cardoso Gusmão, ao norte com os de João Pedroso Bueno. Em 1815 obtém outro título na mesma região” (CALDAS, 1995, p. 7)

iv “Em 22 de junho de 1843, desembarca na Cidade de Rio Grande, a bordo do navio DELAMARE, como empregado da firma de Guilherme Ziegenbein, que adquirira o vapor Rio Grandense, para fazer a linha Pelotas-Rio Grande.” (KOLLING, 2000, p. 35). Em 1848, casa-se com a enteada do patrão.

v Em especial, em Coaracy (1957), que apresenta uma versão da história da colônia, a partir dos documentos do colonizador, em um momento de comemoração. Alguns pesquisadores sobre o tema o qualificam como “movido pelo idealismo, discurso ufanista, etc”. (KOLLING, 2000). Por vezes, a história se repete! Nas comemorações dos 150 anos da Imigração Alemã-Pomerana, a assessoria sobre a história da colonização tinha como central a figura do neto do administrador João Batista Scholl.

vi Decreto No. 1318 de 1854 regulamentou a Lei Geral No. 601 de 18 de setembro de 1850. (KLIEMANN, 1985, p. 21)

vii “O professor Ullrich, republicano convicto e por laços e filiação à Maçonaria Pelotense, passa sua compreensão de mundo, sua ótica positiva de enxergar as coisas, sua necessidade de adaptação do aluno ao mundo que o cerca, culpando os analfabetos pela derrota, pelas disfunções do tecido social. No exercício de caligrafia e cópia, calava-se na ideologia dominante, passando valores estabelecidos por esta compreensão de mundo e de realidade.” (KOLLING, 2000, p. 96)

viii Röelke (1996, p. 89) revela mais dados sobre essas características dos pomeranos: “De forma plena, o povo pomerano nunca conseguiu fazer sua própria história. Outros a fizeram por ele, manipulando-o como objeto. Essa constatação explicará uma outra característica do pomerano: seu tradicionalismo, que beira ao conservadorismo; a sua dificuldade de assumir propostas novas.”

ix O Deputado Koseritz declarou, em discurso, que há necessidade de desmembramento da área colonial para a criação de um novo município, pois era atrofiada a participação dos colonos nas questões políticas, possível ser percebida pela soma de somente 42 eleitores registrados na colônia. (CALDAS, 1995, p. 07)

x O embate pelo espaço e a disputa pela terra ocorreu de uma forma sutil e desenfreada na força pelo branqueamento da população pelotense. A discussão desse tema era liderada pela maçonaria pelotense e tinha nos reverendos evangélicos (liberais) a sua ponta de lança. (KOLLING, 2000, p. 43)

xi Roche (1969) aponta para o ano de 1851 a venda de batata inglesa a 50 réis. Estranhamente, Rheingantz vendia a batata dos colonos em 1867a 22 réis e como era intermediário o preço pago ao produto era menor que esse. Rheingantz era o único comércio existente no núcleo colonial.

xii “Desde o início dos anos 60 do século XIX ficaram as reclamações contra Reingantz cada vez mais altas. [...] um grupo com mais de 150 colonos formulou através de um documento jurídico queixas contra o administrador e os enviou à representação diplomática do Governo Prussiano cujo teor foi publicado pelo Jornal Geral dos Imigrantes (Allgemeinen Auswanderung-Zeitung) – Edição No. 34, de 24 de agosto de 1865. (CUNHA, 1995, p. 134 apud KOLLING, 2000, p. 45).

xiii “A língua legítima não tem o poder de garantir sua própria perpetuação no tempo nem o de definir sua extensão no espaço. Somente esta espécie de criação continuada que se opera em meio às lutas incessantes entre as diferentes autoridades envolvidas, no seio do campo de produção especializado, na concorrência pelo monopólio da imposição do modo de expressão legítima, pode assegurar a permanência da língua legítima e de seu valor (ou seja, do reconhecimento que lhe é conferido). Uma das propriedades genéricas dos campos é o fato de que a luta em torno do que está exatamente em jogo costuma dissimular ao mesmo tempo o concluio objetivo a respeito dos princípios do jogo. Ou melhor, essa luta tende continuamente a produzir e a reproduzir o jogo e tudo o mais que está em jogo, reproduzindo naqueles que se encontram diretamente envolvidos nele (mas não apenas entre eles) a adesão prática ao valor do jogo e do que está em jogo (móveis de concorrência), que define o reconhecimento da legitimidade.” (BOURDIEU, 1996, p.45)

xiv “O sistema escolar dispõe de autoridade delegada necessária para exercer universalmente a ação de inculcação duradoura em matéria de linguagem, tendendo assim a proporcionar a duração e a intensidade desta ação ao capital herdado. Por isso mesmo, os mecanismos sociais de transmissão cultural tendem a garantir a reprodução da defasagem estrutural entre a distribuição (aliás bastante desigual) do conhecimento da língua legítima e a distribuição(muito mais uniforme) do reconhecimento desta língua, constituindo-se num dos fatores determinantes da dinâmica do campo lingüístico e, por essa via, das próprias mudanças da língua. Na verdade, as lutas lingüísticas que estão na raiz destas mudanças supõem locutores que possuam (quase) o mesmo reconhecimento do uso autorizado e dos conhecimentos desiguais deste uso.” (BOURDIEU, 1996, p.50)

xv “Mahler vê na preservação da germanidade o grande fator de expansão da Detsche Evangelisch-Lutherische Synode von Missouri, Ohio und anderen Staaten (Sínodo Evangélico Luterano Alemão de Missouri, Ohio e outros Estados), e mesmo da sua presença neste país, pois a responsabilidade do Sínodo de Missouri é para com os imigrantes alemães e seus descendentes que continuam “alemães”. Os luso-brasileiros, para Mahler, não entram em questão, pois estão sob a responsabilidade da Igreja Católica Apostólica Romana. (STEYER, 1999, p. 44-45)

xvi “O alemão durante muitos anos foi a língua oficial da Igreja. A fé se expressava em hinos e orações em alemão, decorados no ensino confirmatório ou no culto. A Bíblia usada foi a edição alemã. Alguns chegaram a conclusão de que Deus só entende e fala alemão, e que ‘os brasileiros’ (leia-se) ‘as pessoas de cor’ – tinham outro Deus. Os pastores durante muito tempo promoveram a identificação entre germanidade e luteranismo. Identidade cultural e religião foram misturadas. Os pastores ensinaram não só a língua da Igreja e da germanidade, mas também a língua de um certo nível cultural, de letrados.” (DROOGERS, 1984:30)

xvii “A religiosidade pomerana é resultado de um processo de reprodução de uma tradição religiosa trazia da pomerânia, de produções de inovações religiosas em reação ao desafio de um contexto novo no país de imigração, e de seleção e reinterpretação da religiosidade oficial representada pelos pastores.” (DROOGERS, 1984, p. 72)

xviii GERTZ (1987) considera que o germanismo estava mais enraizado nas camadas superiores da população de imigrantes alemães e descentes. No entendimento de Arendt (2005, p. 98), Gertz constatou que o germanismo é uma ideologia, que atrai, sobretudo, as elites e seus aliados. Deve-se destacar que esse germanismo tem uma função voltada especialmente para as relações de dominação entre os próprios teutos e, de forma alguma, representa uma oposição ao status quo político no Brasil.


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