Carne e osso



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CARNE E OSSO
Mons. Pedro Teixeira Cavalcante*

APRESENTAÇÃO

A bibliografia teresiana é imensa. São milhares de livros escritos em muitíssimas línguas do mundo. Diante desse fato, mais um livro sobre Santa Teresinha pode até parecer inútil.

Nossa intenção, porém, não foi escrever mais um livro sobre Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face. Nosso objetivo foi escrever um livro atual sobre Teresa de Lisieux, a santa querida do mundo inteiro.

Dispondo de um material-fonte abundante para estudos e meditação sobre a pessoa, a obra e a mensagem de Santa Teresinha, resolvemos escrever este livro com a finalidade definida de mostrar uma face diferente,que julgamos verdadeira e autêntica, dessa grande Santa da Igreja.

Não quisemos fazer mais um livro, mas apresentar, numa visão de conjunto, embora não completa, a pessoa, o modo de viver, a caminhada espiritual e a mensagem de Teresinha ou Teresa de Lisieux.

O livro não é um biografia, nem apenas um comentário sobre a doutrina teresiana. Ele quer ser uma exposição diferente do que comumente já se escreveu até hoje sobre quem era a Santa e qual foi a sua mensagem, que Ela por primeiro viveu.

Partindo da análise do físico e do espiritual de Santa Teresinha, que é aprofundada na sua harmonia existencial, distribuímos o livro, em seguida, em duas grandes partes. A primeira é a apresentação da parte humana de Santa Teresinha, enquanto que a segunda investiga a mensagem, que chamamos de Pequeno Caminho e, não, Infância Espiritual. Apresentada, pois, a Santa ao público na sua verdadeira face e, não, como um manequim ou marionete, ela é investigada em todo o seu valor humano, como pintora, escritora, mestra, doutora e,depois, na sua doutrina. Três características marcam a segunda parte, a saber, toda afirmação é confirmada pelas palavras da própria Santa e sempre mostramos em primeiro lugar como a Santa viveu o que disse e ensinou.A terceira é que, com a intenção de fazer um discurso na base de uma comparação, para facilitar a compreensão, usamos a analogia da Montanha do Amor. Não queremos com isso dizer que, Santa Teresinha tenha ensinado sua doutrina na base dessa analogia, mas a usamos,dentro da mais pura tradição carmelitana,com fins didáticos.

Em suma, depois de muitos anos de estudo e meditação, pensando exclusivamente no bem dos irmãos e querendo apenas a maior difusão do Reino de Deus, escrevemos este livro para os discípulos (e também para os simplesmente interessados) de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face,apresentando uma visão nova da grande e genial Santa, que entrou nos corações de milhões de pessoas no mundo inteiro.

Se este livro fizer algum bem, que seja ele debitado a Deus, Nosso Senhor; se, pelo contrário, ele não servir para nada, confesso-me culpado pela incapacidade de expressar e explicar a grandeza, a genialidade e a profundidade da vida, da caminhada espiritual e da mensagem da "maior santa dos tempos modernos".


LEGENDA
C.A. -Caderno Amarelo da Irmã Inês,contendo suas últimas

conversas com Santa Teresinha.

Carta -Cartas, que se encontram no final da edição

completa francesa do "Derniers Entretiens".

C.T. -Carta de Santa Teresinha.

D.E. -Derniers Entretiens. Edição completa francesa.

M.A. -Manuscritos Autobiográficos, de Santa Teresinha.

Caderno A.

M.B. -Manuscritos Autobiográficos, de Santa Teresinha.

Caderno B.

M.C. -Manuscritos Autobiográficos, de Santa Teresinha.

Caderno C.

N.V. -Novissima Verba.

P.A. -Processo Apostólico. Segundo volume do "Procès

de Bétification et Canonization de Sainte Thérèse

de l'Enfant-Jésus et de Sainte Face".

PN -Poesias de Santa Teresinha, segundo a edição do

Centenário.

P.O. -Processo Ordinário Informativo.Primeiro volume da

obra citada acima.


TERESA, MULHER
É natural o desejo, que se possa ter, de conhecer o físico da pessoa, que se admira. Querer saber, pois, como era Teresa de Lisieux, nossa querida Santa Teresinha, parece-me que não é apenas justo, mas até útil e proveitoso. Com efeito, muita coisa que se diz de Teresinha e muita coisa que lemos nos seus escritos, passa a ter um sentido e um valor mais concreto e mais real, quando conhecemos bem quem disse, quando disse, como disse, etc.

Conhecer Teresa, no seu aspecto físico feminino, não é apenas uma curiosidade.É muito mais. É aprofundar o conhecimento sobre essa Santa, para aprofundar também o conhecimento de sua mensagem.

E o bom e curioso é que, ao contrário do que às vezes acontece, o conhecimento mais aprofundado e mais pormenorizado de Teresa, mulher, leva-nos a gostar mais dela, a saborear melhor seus gestos e palavras, a amá-la com um amor mais simples, mais concreto, mais humano.Senão, vejamos.

Domingo, segunda-feira e terça-feira foram três dias de intensa adoração do Santíssimo Sacramento, durante a Semana Santa de 1895, no Carmelo de Lisieux.

Durante aqueles momentos de adoração e contemplação, Teresa, envolvida e elevada pela aura de amor, que a penetrava até o mais íntimo de sua medula, é arrebatada por Deus e canta, no profundo de sua alma, um canto de amor que, belo e caloroso, é, ao mesmo tempo, real e concreto.

Na noite da terça-feira, 26 de fevereiro, ele colocou no papel o belíssimo poema, que compusera. Foi,assim, que apareceu a sua poesia "Viver de Amor!".

Na décima terceira estrofe, nossa Santa, com grande realismo espiritual, escreve: "Viver de amor, que estranha loucura!

Diz-me o mundo "Ah! cessai de cantar

Não percais vossos perfumes, vossa vida

Utilmente procurai utilizar".

Essas palavras indicam, claramente, que Teresa de Lisieux não era nenhuma sonhadora doentia ou complexada. Pelo contrário, ela tinha consciência do que era e do que possuía(vossos perfumes e vossa vida). Ela sabia que possuía encantos, que poderiam fazer sucesso no mundo. Sua experiência nesse campo era pouca, mas o suficiente para provar que, a Teresa, menina bonita e elegante, tornara-se uma jovem atraente, no corpo e na alma. Percorramos, rapidamente, sua vida e leiamos alguns testemunhos referentes a ela e descobriremos como eram essa elegância e essa beleza de Teresa de Lisieux.

As Cartas de sua mãe, mesmo descontando os entusiasmos próprios de uma mãe, dão-nos uma idéia de Teresa, menina.

Maria Francisca Teresa Martin nasceu às 23 horas e 30 minutos, quinta-feira, do dia 2 de janeiro de 1873, e nasceu "muito forte e bem saudável", pesando entre seis a oito libras e parecendo "muito graciosa"(1).

Essa normandinha, gorda e saudável, desde cedo, chamou a atenção de todos. Com quatorze dias de nascida já sorria e todos diziam que ela era bela. E seu sorriso, que será sempre um dos seus fortes, era delicioso e a menina parecia até querer cantar, quando ouvia sua mamãe cantar(2).

Apenas entrada no segundo mês de vida, Teresinha começou sua longa lista de doenças. Sua primeira enfermidade foi enterite, mas, mesmo doente, ela está sempre alegre e "desde que tenha um momentinho de descanso, ela ri a valer"(3).

Na nossa pequenina, pois, já estava uma beleza gentil e uma alma alegre, que encantava a todos. E será sempre assim até sua morte.

A doença a maltratou, mas, quando foi para o campo e lá ficou com uma ama de leite, recuperou-se e se tornou, de novo, saudável e forte(4). Sua mãe, um dia, vendo-a quase restabelecida, não pôde deixar de escrever que ela estava gordinha(14 libras) e que "será muita graciosa e mesmo muito bonita mais tarde"(5).

Com seis meses, ela adora sorrir e "parece muito inteligente e tem uma figura de predestinada"(6).

E, no campo, a loura menina ficou um pouco queimada, bronzeada e se tornou um bebê gorducho(7).

Com pouco mais de um ano de idade, Teresinha é "doce e mimosa como um anjinho, tem um caráter encantador...e um sorriso tão doce!"(8).

Teresa está com um ano e seis meses e,agora, está muito forte, dá mostras de ser muito inteligente, é graciosa e tudo prova que será bela. Sua boquinha chama a atenção de todos(9). Já fala quase tudo e se torna, cada dia, mais atraente(10).

É verdade que, como todas as crianças do mundo, terá, de vez em quando, uma doencinha. Isso,porém, não tira sua beleza de criança encantadora. Ela, cada dia, se torna mais graciosa, "garrulha de manhã até à noite, canta cançõesinhas, é muito inteligente e faz sua oração com um anjinho". Em suma, é uma meninazinha ideal(11).

Com dois anos e dois meses, Tersinha diverte sua família com conversas agradáveis e é, sem dúvida, "uma mina de prosperidade"(12).

Nessa idade, porém, uma tosse cabulosa acompanhada de febre dão o primeiro grande sinal na vida da nossa Santa(13). Sua garganta vai sofrer as conseqüências desse mal. Mais tarde, nos verdes anos da juventude, a mesma doença será o início da sua caminhada para a morte,

Nessa época, também, sua mãe nota, claramente, o temperamento forte e decidido de Teresinha(14). Sua força de vontade dá suas primeiras amostras. No futuro, ela fará uma composição perfeita dessa força pessoal de vontade com a ajuda da graça divina.

Assim, a beleza, do corpo e da alma, vai se formando na pequena Teresa. Saudável, alegre, inteligente, piedosa, decidida, gentil, graciosa, em suma, uma menina admirável para a pouca idade, que possuía.

Teresinha não é, porém, uma menina anormal, ou mesmo, fora do normal. Como todas as outras crianças, sofre com os dentes(15), os quais, porém, na idade adulta, não vão mais inquietá-la. Agora, sua gengiva fica inflamada; mais tarde, nem os muitos anos após sua morte poderão enfraquecê-la(16).

Simples e graciosa, a menina Teresa adora presentes e gosta de usar coisas bonitas, como "um lindo chapéu azul"(17). Mas essas coisas bonitas não perturbam seu espírito de criança, que já pensa e se deleita com coisas mais lindas e mais profundas, como o desejo do céu, que será sempre um dos grandes sonhos e desejos de Teresa de Lisieux(18).

Essa coisa linda, chamada Maria Francisca Teresa, é já, também, um começo de harmonia. O humano e o divino; o simples e o fantástico; o cotidiano e o raro, nela fazem um acordo maravilhoso. Sua mãe resume tudo, dizendo: "ela é sempre mimosa e danandinha"(19).

Em suma, até à morte de sua mãe(28-8-1877), Teresina aparece - e o é de fato - uma criança maravilhosa. Nela brilha uma composição harmônica estupenda. Como toda criança do mundo, gosta de brincar(20); chora quando não se sente feliz(21); tem suas amizadezinhas(22); mas também, como não muitas, é de uma inteligência maravilhosa, é gentil, mimosa, tem um forte no seu gracioso sorriso; viva e de um coração muito sensível(23).A loura Teresinha, de boca pequena, de olhos azuis, é uma criança bonita, que reza com piedade, deseja ir para o céu e já tem muita força de vontade.

A Teresa, mulher, vai se construir sobre esse pedaço de gente, que deseja alto, sonha com um ideal e que não bamboleia entre o tudo e o nada. Com efeito, para ela só o tudo tem valor(24).

É, assim, que vemos Teresa de Lisieux, no seu físico e no seu espírito, com quatro anos e meio de idade. Saltemos, agora, todos os demais anos de sua vida e vejamos logo o que os médicos encontraram na sua segunda exumação, em agosto de 1917.

O Dr. de Cornice escreve, nessa época: "Quando da abertura do caixão, o conteúdo se apresentou sob forma de uma poeira escura, cor casca de carvalho, da qual emerge a extremidade de alguns ossos importantes... Em geral, os dentes estão bem implantados nos alvéolos". E, depois de examinar várias outras partes do esqueleto de Teresa, o médico concluiu: "Em resumo, segundo os dados do esqueleto e, principalmente, pela forma da bacia, podemos deduzir que se trata, na espécie, de um esqueleto de mulher com a idade talvez de vinte e três a vinte e cinco anos e cuja estatura devia ser cerca de um metro e sessenta centímetros"(25).

O Dr. Paulo Loisnel, outro perito que examinou os ossos de Santa Teresinha, na segunda exumação de agosto de 1917, escreveu, por seu turno: "É impossível encontrar vestígio das partes moles do cadáver(pele, tecido celular gordurento, aponeuroses, músculos, nervos, , tendões, vísceras e órgãos intra-torácicos e intra-abdominais). Os cabelos ajustados pelo tecido negro do véu estão aglutinados ao redor do crânio. De cor castanho claro, quase louros, medem de 8 a 10 centímetros de comprimento". E, na conclusão, ela atesta: "O esqueleto examinado é o de um ser humano, do sexo feminino. A idade exata do sujeito não pode ser muito exatamente determinada: os caratéres anatômicos das peças observadas são os de um ser, cuja idade é compreendida entre 20 e 25 anos. A estatura aproximada é de 1m 59 cm. a 1m 60cm.(26).

Eis aí o pouco que se pode dizer de Teresa, mulher, após alguns anos de sua morte. Da menina graciosa, inteligente, amável, piedosa, carinhosa, de cabeça dura, loura, de boca pequena, que gostava de rir e de contar histórias engraçadas, louca pela família, adorada pelos pais, que sonhava com o céu, restaram apenas alguns ossos, alguns dentes, um pouco de cabelo e desse pouco se pode dizer apenas que tinha cabelos quase louros, que media um metro e sessenta ou sessenta e dois centímetros e que era mulher.

Mas, agora, pergunta-se: como era mesmo Teresa de Lisieux? Era grande? Era bonita? Era charmosa? Em suma, como eram o corpo e alma da Irmã Teresa do Menino Jesus da Sagrada Face? Como era, em suma, Teresa, mulher?

Vejamos, logo, seu físico e, depois, a beleza completa de seu espírito pelo lado, digamos, humano.

Teresa tinha treze anos. Adoecera mais uma vez, provavelmente por questões psicológicas. Fora obrigada, então, a deixar o colégio. Para não perder tempo, seu bondoso pai contratou uma professora particular, chamada Senhora Papinau.

Na sua Autobiografia, Teresa, referindo-se a essas aulas, assim as descreve: "Essas aulas tinham ainda a vantagem (além da instrução que recebia) de me fazer conhecer o mundo... Quem poderia acreditar?!... Naquela sala, mobiliada à antiga, cheia de livros e de cadernos, eu via visitas de todas as espécies: padres, senhoras, moças, etc... A Senhora Cochain, tanto quanto possível, mantinha a conversa, a fim de deixar sua filha me dar a aula, mas naqueles dias não aprendia muita coisa, o nariz em um livro, eu ouvia tudo o que se dizia e mesmo o que teria sido melhor para mim não ouvir. A vaidade entra tão facilmente no coração!... Uma senhora dizia que eu tinha belos cabelos... outra, ao sair, crendo que não era ouvida, perguntava quem era aquela mocinha tão bela e essas palavras, mais lisonjeiras porque não eram ditas na minha presença, deixavam no meu coração uma impressão de prazer, que me mostrava claramente que estava cheia de amor próprio!"(27).

Portanto, com 13 anos de idade, Teresinha era uma jovem atraente e bonita, que chamava a atenção das outras pessoas. Seus belos cabelos eram a marca registrada, como, mais tarde, o será seu belo sorriso angelical. Sorriso, que fora na infância uma atração toda especial.

Entre os biógrafos teresianos, Mons. Ascânio Brandão se interessou por esse assunto do aspecto físico de Teresa de Lisieux. De posse da famosa foto oval, retocada, que o Carmelo conseguiu modelar,subescritada por um autógrafo da Madre Inês de Jesus, no qual ela afirma que aquela fotografia era a mais semelhante com Teresa, Mons. Ascânio escreve: "...bela, de uma beleza rara, a nossa santinha foi das mais belas mulheres de França, dotada de todos os encantos de seu sexo e da sua raça. Dizem as Irmãs de Santa Teresinha que não há retrato, não há pintura que possa traduzir a expressão de sobrenatural beleza da nossa santinha, principalmente daquele seu olhar cheio de doçura e de angelical pureza. Teresinha era linda, linda, de uma beleza toda celestial. Quando menina, arrebatava os olhares de quantos a contemplavam, na rua e no colégio... O olhar de Teresinha, dizem as suas Irmãs e contemporâneas, é intraduzível nos retratos e na tela; só quem a viu poderá avaliar o abismo de doçura, bondade e encanto que ele possuía... Teresinha era alta, de olhos azuis, cabelos de ouro, como os filhos da Normandia, tinha o rosto oval, tez de lírio, e os traços mais suaves e delicados de uma mulher bela. Tudo nela resplandecia em proporção, integridade e doce brilho da luz, três requisitos da beleza física. E que beleza casta, meu Deus! É a beleza que lembra o céu e arrebata o coração para o alto!"(28).

Mesmo partindo de alguns dados verdadeiros, é preciso, porém, convir que Mons. Ancânio Brandão exagera um pouco.

Já sabemos que Teresa tinha cerca de um metro e sessenta ou sessenta e dois centímetros; que tinha olhos azuis; que tinha cabelos dourados, e sabemos, também, que teve sempre um rosto cheio, gordinho, mesmo quando esteve doente, uma boca pequena com o lábio inferior um pouco para dentro. Para completar nosso quadro físico de Teresa, examinemos outras declarações.

O Cônego Jomard, apoia-se em um bilhete inédito com o juízo de duas antigas Mestras de Teresa, na Abadia, Madre São Leão e Madre Estanislau, a respeito de sua antiga aluna: "Ela não era precisamente linda, tinha o queixo bastante acentuado; mas uma maravilhosa cabeleira dourada e um ar tocante de inocência"(29).

O senhor V.Lahaye, farmacêutico em Lisieux, esteve presente à cerimônia de profissão religiosa de Irmã Teresa do Menino Jesus e eis como ele a descreve: "Na sua profissão, eu estava no santuário, bem perto da grade atrás da qual ela se encontrava. O véu negro que ela ia receber estava carregado com uma coroa de rosas e exposto sobre o altar. O véu branco, que ela trazia ainda, estava levantado sobre a cabeça e deixava perceber uma feliz harmonia no conjunto dos seus traços. Contudo, o fronte era ligeiramente curvada, o nariz curto, a boca quase grande, o queixo bastante largo e arredondado, enquanto que as bochechas, sem ser cavadas, compreendiam as maçãs do rosto um pouco salientes. Seus olhos possuíam um brilho temperado pela candura e pela pureza, mas, em certa circunstância, comovente e decisivo, sua doçura natural cedia lugar à gravidade. Sua tez era de marfim novo com transparência superficial,ligeiramente alambrada, com uma nuance de rosa. Ela parecia esbelta, apesar das pesadas vestes de religiosa. Sua pessoa e sua atitude estavam impregnadas de uma beleza mística e majestosa, que inspirava o respeito mais ainda do que a admiração"(30).

Em outro documento, a mesma testemunha diz que viu Teresa "pequena, esbelta sob suas pesadas vestes de religiosa, mãos finas...olhos azuis e brilhantes, o olhar límpido e profundo"(31).

Eis outra descrição que, em parte, verdadeira, parece que, segundo Frei Francisco de Santa Maria, está um pouca enfeitada: "Ela era alta de estatura. Tinha os cabelos louros, os olhos esverdeados e profundos, as sobrancelhas altas e finas, a boca pequena, os traços delicados e regulares. Seu rosto, da cor de lis, era de um corte harmonioso, bem proporcionado, sempre impregnado de uma amável serenidade e de uma paz celeste. Enfim, seu caminhar era cheio de dignidade e, ao mesmo tempo, de simplicidade e de graça"(32).

Fernando Laudet, segundo ainda Frei Francisco de Santa Maria, talvez tenha sido mais acertado na sua descrição: "Uns asseguram que era muito bonita, outros que sua fisionomia era sedutora; creio que o melhor é dizer que, seu rosto, um pouco irregular, brilhava de charme. Tinha, sob as sobrancelhas muito retas, dois grandes olhos profundos, uma tez de lis que enquadrava uma cabeleira dourada e vaporosa. O povo dizia: "Ela é celestial!""(33).

Afinal, como era Teresa, fisicamente?

O que é certo já sabemos. Não era baixa(tinha 1 metro e sessenta ou sessenta e dois centímetros), tinha uma bonita cabeleira dourada, olhos azuis, nariz pequeno,boca pequena, rosto um pouco cheio, olhar límpido, sereno, profundo, mãos finas, dedos compridos e um sorriso encantador.

Era bonita? Se não foi linda, ou bonitona, era simpática, atraente, dona de charme sedutor!

Mas, o que mais atraía em Teresa, sobretudo quando já religiosa, não foi certamente o seu físico, foi,sim, sua alma,foi seu espírito maravilhoso e rico, que se deixava transparecer fisicamente. Foi,sim, a conjugação, perfeita e harmônica, do seu corpo e de sua alma. Nesse ponto, os testemunhos são unânimes e concordes. Por isso, todos diziam que ela era celestial!

Em 1893, no verso de uma fotografia enviada ao Carmelo de Tours, Madre Maria Gonzaga escreveu,a respeito de Irmã Teresa do Menino Jesus, então com vinte anos de idade, o seguinte: "É a jóia do Carmelo, seu querido benjamim. Ofício de pintura, no qual ela brilha sem jamais ter tido outras lições a não ser ver trabalhar nossa Reverenda Madre, sua irmã querida. Grande e forte com um ar de criança, com um som de voz, uma expressão igual escondendo nela uma sabedoria, uma perfeição, uma perspicácia de cinqüenta anos. Alma sempre calma e se possuindo perfeitamente em tudo e com todas. Pequena "santa não toque nela", a quem dar-se-ia o bom Deus sem confissão, mas o boné é cheio de malícias para fazer a quem quiser. Mística, cômica, tudo lhe serve. Ela poderia fazer-vos chorar de devoção e igualmente fazer-vos desmaiar de rir no recreio"(34).

Essa é realmente uma descrição bonita, embora incompleta, da nossa Teresinha. Nela reflete um conjunto de dados maravilhosos, que brilha e seduz.

A sedução de Teresa de Lisieux! Eis aí um ponto forte e interessante dessa mulher encantadora. E qual será a fonte e raiz dessa atração sedutora?

Foi a sua santidade. Sua perfeição. Sua harmonia interior. O santo, quer queira, quer não, ele exala uma aura que denota claramente que aquela pessoa tem algo de especial. É que o santo vive no caminho da perfeição, na aproximação da luz de Deus, e isso não pode deixar de exalar um não sei quê de extraordinário. Ademais, cada santo tem certos predicados próprios do seu caráter, do seu temperamento, da sua personalidade.

No caso de Santa Teresinha, algo angelical foi, sem dúvida, uma nota característica da sua transparência perante as pessoas.

Irmã Marta de Jesus, no Processo Apostólico, declarou: "Quando vi a Irmã Teresa do Menino Jesus, pela primeira vez, ela me deu a impressão de um anjo.. Seu rosto tinha verdadeiramente um reflexo todo celestial e essa impressão ficou sempre a mesma, não somente durante seu postulantado, mas ainda durante todo o tempo de sua vida religiosa"(35).

E a mesma Irmã Marta de Jesus conta, nesse Processo, que, certa vez, foi ao parlatório, acompanhada de Teresa, para atender a uma religiosa, que viera visitá-la. Quando Teresa saiu do parlatório, a irmã visitante disse à Madre que, na ocasião, estava presente: "Como é arrebatadora essa menina. Ela é mais do céu do que da terra. Tem qualquer coisa de tão puro, de tão cândido que, quando se a vê, a alma repousa. Como lhe agradeço, minha Madre, por tê-la trazido!"(36).

Irmã Teresa de Santo Agostinho, no Processo Ordinário, conta que, certa feita, uma das irmãs do Mosteiro, durante uma recreação, fez esta bonita ponderação: "Olhai Irmã Teresa do Menino Jesus, não se diria que ela vem do céu? Ela tem um ar de um anjo!"(37).

São interessantes e maravilhosos os testemunhos da Madre Maria dos Anjos a esse respeito. Sobre Teresa adolescente, ela confessa: "Foi-me fácil constatar que, essa sedutora jovem era uma menina de bênção. Quando me encontrava perto dela, o efeito que ela me produzia era aquele que a alma sente perto do tabernáculo. Exalava desse anjo uma atmosfera de calma, de silêncio, de doçura e de pureza que me fazia contemplá-la com um verdadeiro respeito"(38).

A mesma religiosa nos transmite, outrossim, uma informação que recebera de fora do Carmelo. É que o sobrinho da Irmã Santo Estanislau, vendo Teresa passar com o senhor Martin, dissera a sua irmã: "Olha a senhorita Martin!...Eis aí um anjo! Queres que te diga uma coisa? Pois bem, tu verás que um dia ela será canonizada"(39).

Iríamos longe demais, se quiséssemos copiar e transcrever todas as declarações encontradiças nos Processos de Canonização, a respeito do aspecto angelical de Teresinha. Mas não podemos deixar de observar que, em companhia desse ar angelical, Teresa apresentava toda uma estrutura psicológica admirável, que se manifestava fisicamente.

A já citada Madre Maria dos Anjos fala da calma, do silêncio. da doçura, da pureza e relembra a impressão de Luiza Delarue sobre a candura e a inocência de Teresinha.

Ainda, mais. Havia algo em Teresa que sempre chamou a atenção de todos. Foi o seu sorriso. Na verdade, Teresa de Lisieux sempre sorriu, do berço até à morte.

Sua mamãe, como já vimos, encantava-se com os seus primeiros sorrisos, quando ela era apenas uma criancinha de poucos dias. Mais tarde, já moça e no Carmelo. Teresa vai mostrar a todos sempre seu sorriso encantador. Com o seu sorriso, ela capaz de conquistar uma pessoa difícil e mal humorada. Na sua Autobiografia, ela nos conta que, conseguiu as boas graças da Irmã São Pedro, doente e anciã, porque lhe fazia uma servicinho extra, além de trazê-la da capela ao refeitório, que ela não lhe pedira, mas "sobretudo (e ou soube mais tarde) porque, depois de ter cortado seu pão, eu lhe fazia , antes de partir, meu mais belo sorriso"(40).

Sua irmã, Madre Inês de Jesus, disse no Processo Ordinário para a Canonização de Teresa: "Ela estava sempre em paz, apesar de sua aridez e seus sofrimentos; ela era toda doçura, a graça tinha se espalhado sobre seus lábios com um sorriso perpétuo"(41).

Quase o mesmo testemunho nos dá a sua madrinha de batismo, Irmã Maria do Sagrado Coração: "De fato, não é ordinário ver sempre a mesma igualdade de alma, o mesmo sorriso nos lábios, no meio das adversidades, dos abusos e das provas da vida cotidiana"(42).

Sorriso nos momentos alegres e nas horas difíceis e cheias de dor! Onde estava a razão de tudo isso? Foi apenas um dom natural? Foi efeito também da graça divina?

Madre Inês de Jesus nos responde: "A maior parte das vezes esse sorriso não era a expressão de uma alegria natural, mas o resultado do seu amor pelo bom Deus, que lhe faz ver o sofrimento como uma causa de alegria(43).

A própria Teresa, relatando a história do seu relacionamento com a Irmã Teresa de Santo Agostinho,"que tinha o talento de lhe desagradar em tudo", diz que, quando a encontrava, não só a tratava amavelmente, prestando-lhe "todos os serviços possíveis", mas lhe fazia seu "mais amável sorriso". Essa Irmã Teresa de Santo Agostinho ficou, então, muito intrigada com aquele comportamento excepcional de Teresinha e lhe perguntou, certa feita: "A senhora queria me dizer o que a atrai tanto para mim, a cada vez que me olha, eu a vejo sorrir?" Teresinha , respondendo, escreve:"Ah! o que me atraía, era Jesus escondido no fundo de sua alma... Jesus que torna doce o que há de mais amargo... Eu lhe respondi que sorria, porque estava contente por vê-la(bem entendido, não acrescentei que era no ponto de vista espiritual)"(44)

Aí está a razão profunda de todo seu sedutor sorriso: era a composição harmônica de toda a pessoa de Teresa de Lisieux. Nela, a graça e o humano dançavam o baile da perfeição, da harmonia, da concórdia, do equilíbrio. Teresa de Lisieux sorria, porque gostava de sorrir. Teresa de Lisieux sorria também, porque amava seu Deus e seus irmãos, por causa dEle.



Bonita no físico, que Deus lhe deu, Teresa de Lisieux foi realmente linda na sua alma. E na composição de sua beleza e de sua lindeza, Irmã Teresa do Menino Jesus da Santa Face foi, realmente, um encanto sedutor de mulher.



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