Caro diario



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CARO DIARIO

Itália, 1993, Realizador: Nanni Moretti, Argumento e Guião: Nanni Moretti, Fotografia: Giuseppe Lanci, Cenografia: Marta Maffucci, Música: Nicola Piovani, Montagem: Mirco Garrone, Operador de som: Franco Borni, Guarda-roupa: Maria Rita Barbera, Produção: Nanni Moretti, Angelo Barbagallo – Sacher Films S. r. l., Distribuição: Lucky Red, Prémios: Festival de Cannes e David di Donatello (ambos em 1994). Actores e personagens: Nanni Moretti (o próprio), Renato Carpentieri (Gerardo, amigo de Nanni Moretti) [consagrado actor de teatro napolitano e famoso pela série de tv “la squadra”], Antonio Neiwiller (sindaco [presidente da câmara] de Stromboli), Moni Ovadia (Lucio di Alicudi) [realizador ebraico residente na Itália], Carlo Mazzacurati (crítico cinematográfico), Mario Schiano (o “Principe dos dermatólogos”), Valerio Magrelli (primeiro dermatólogo), Sergio Lambiase (segundo dermatólogo), Conchita Airoldi (moradora de Panarea), Raffaella Lebbroni e Marco Paolini (primeiro casal de Salina), Claudia della Seta e Lorenzo Alessandri (segundo casal de Salina), Carlo Mazzacurati (crítico cinematográfico), Serena Nono (reflexóloga), grupo Diapason (grupo musical), Jennifer Beals e Alexandre Rockwell, Italo Spinelli. Duração: 1h e 40’



Notas Neste filme Moretti renuncia ao filtro da personagem e inaugura uma espécie de “teatro verdade”. A música no cinema de Moretti representa uma espécie de liberdade evasiva.
Mini guia do filme através das sequências.
Capítulo I – In vespa
Sequência 3 (Moretti comenta para si mesmo a conversa dos actores do filme durante a sessão cinematográfica): SEBASTIANO (actor): A nossa geração, no que nos tornamos? Virámos publicitários, arquitectos, agentes da bolsa, deputados, assessores, jornalistas. Mudámos tanto, e para pior, somos hoje todos cúmplices. MORETTI: Mas porque todos? Esta fixação, todos iguais, todos comprometidos, somos todos cúmplices. GIOVANNA (actriz): Não há nada de concreto na minha vida. (...) Sabes de uma coisa Antonio? Pioraste. Já não és capaz de ter um sentimento autêntico. SEBASTIANO (actor): Envelhecemos, tornámo-nos amargos, somos desonestos no nosso trabalho. Gritávamos coisas horrendas, violentíssimas, nas nossa passeatas, e agora repara como perdemos todos a beleza.

MORETTI (voz off): Vocês gritam coisas horrendas e violentíssimas, e vocês perderam a beleza. Eu gritava coisas justas, e hoje dou um esplêndido “quarentão” [frase que se tornou muito famosa na Itália]. Sim, de todas as coisas o que eu mais gosto de fazer é ver as casas, ver os bairros, e dentre todos os bairros o que eu mais gosto é o da Garbatella. E vou passeando entre os loteamentos populares. Mas não gosto de ver as casa apenas do exterior, de vez em quando gosto de ver também como são feitas as casas por dentro. E então toco um interfone, finjo ser uma autoridade judiciária em visita, e digo que estou a preparar um filme. O dono da casa me pergunta: "É um filme sobre o quê?". E eu não sei o que responder.


Sequência 4: MORETTI: O que é este filme? É a história de um pasteleiro, trotzkista... Um pasteleiro trotzkista na Itália dos anos 50, É um filme musical. Um musical [esta ideia do musical com om pasteleiro trotzkista reaparecerá como um dos temas centrais de Aprile, seu filme seguinte].
Sequência 6: (Moretti para no semáforo ao lado de um tipo num Mercedes): MORETTI: Sabe no que eu estava a pensar? Estava a pensar numa coisa muito triste. Ou seja, que eu, mesmo numa sociedade mais decente do que esta, estarei sempre entre uma minoria de pessoas. Mas não no sentido daqueles filmes onde há um homem e uma mulher que se odeiam, se agridem violentamente numa ilha deserta porque o realizador não acredita nas pessoas... Eu acredito nas pessoas. Mas não acredito na maioria das pessoas. Acho que estarei sempre de acordo e bem à vontade apenas com uma minoria...AUTOMOBILISTA: Muito bem, felicidades. MORETTI: ... e aqui...
Sequencia 7: MORETTI (voz off): Na verdade o meu sonho foi sempre o de saber dançar. Flashdance, era o título do filme que mudou definitivamente a minha vida. Era um filme só sobre a dança. Saber dançar. Eu, no fim das contas, fico sempre a olhar, que também é bonito, no entanto é completamente uma outra coisa.
Sequência 10: Encontro com Jennifer Beals (actriz do filme Flashdance) num diálogo um tanto surrealista.
Sequência 11: MORETTI (voz off): Também quando vou a outras cidades a única coisa que gosto de fazer é olhar as casas. Que belo seria um filme feito apenas de casas, panorâmicas das casas. (...)
Sequências 12 e 13: Moretti vai ao cinema ver Henry – Chuva de Sangue. Sai do cinema extremamente perturbado. Pensa num artigo positivo que leu a propósito do filme. Visita o crítico que, na cama, se contorse e se esconde sob os lenções enquanto Moretti o obriga a ouvir as “barbaridades críticas” escritas acerca deste filme e de outros.
Sequência 15: Sequência final do primeiro capítulo. Moretti, após folhear velhos jornais, vai a procura do túmulo de Pasolini em Ostia. Com a sua vespa atravessa bairros degradados até chegar ao esquecido monumento feito em homenagem ao poeta. [Ao som do Kohln Concert de Keith Jarrett a câmara segue a vespa de Moretti num plano-sequência de quase 7 minutos].
Capítulo II – Isole
Sequência 1: MORETTI (voz off): O barco está a chegar a Lipari [Moretti e Gerardo viajam sempre na companhia marítima CAREMAR, responsável pela travessia entre as ilhas eólias]. Vou encontrar um amigo que vive ali retirado há 11 anos. Desde então estuda apenas o Ulisses de Joyce. Começo a escrever o meu filme, e trouxe comigo todos os meus recortes que me servem para o trabalho, e que conservei nos últimos anos. Tenho a certeza que em Lipari porei em ordem qualquer coisa.
Sequência 2 (depois de ver na televisão um velho musical, conversa com o amigo Gerardo): GERARDO: O que é que estavas a ver? MORETTI: Quando? GERARDO: Lá dentro, na televisão. MORETTI: Não era a televisão. Era um filme estranho. Era a Mangano que primeiro é uma freira, depois dança no meio... Bom, de vez em quando acontece também contigo.... GERARDO: Nunca. MORETTI: Nunca vês televisão. GERARDO: Nunca. Há trinta anos que não vejo. MORETTI: Pois. GERARDO: Sabes o que diz Hans Magnus Enzensberger? MORETTI: Ah? GERARDO: Estou de acordo com ele. [durante esta conversa Gerardo come uma granita d’arancia, uma sobremesa típica do sul da Itália].
Sequência 4: MORETTI (voz off): Demasiado barulho, demasiada confusão em Lipari. Decidimos partir para Salina, uma ilha mais tranquila, mais familiar [nesta ilha foi filmado o conhecido filme O Carteiro de Neruda, último filme de Massimo Troisi]. Ali estão alguns amigos de Gerardo que têm filhos, aliás têm um filho, porque me parece que em Salina todos têm apenas um filho. Ali estaremos sem dúvida tranquilos e conseguiremos poe em ordem qualquer coisa.
Sequências 5 e 6: Em visita às casas dos amigos de Gerardo nota-se uma verdadeira “ditadura” dos filhos únicos. Um dos casais admite mesmo não ter um segundo filho para não contrariar a vontade de Daniele, o primogénito [aqui as crianças pedem sempre, pelo telefone, que os adultos imitem vozes de animais. É interessante notar contudo que, de uma maneira geral, cada país tem a sua forma própria de as representar].
Sequência 11: De novo no barco, Moretti e o amigo avistam a ilha de Panarea [é considerada dentre todas as ilhas eólias a mais snob]. Gerardo utiliza os versos do poeta Tibullo para elogiar a televisão. Dirigem-se para a ilha de Stromboli.
Sequência 13: Longa peregrinação pelas casas de Stromboli onde o presidente da câmara, num pequeno carro de três rodas, procura “descobrir” uma casa onde abrigar os viajantes. Os habitantes, no entanto, parcem não “colaborar”. [Moretti fala ó típico inglês dos italianos com um grupo de turistas norte-americanos]
Sequência 16: Resolvem partir de Stromboli mas passam antes por Panarea. Depois de cinco minutos de conversa com a “animadora cultural” da ilha decidem “fugir” imediatamente da ilha. Conseguem apanhar o mesmo barco com que chegaram.
Sequência 17: MORETTI: Querido diário, estou feliz apenas no mar, no trajecto entre uma ilha que acabei de deixar e uma outra a que devo ainda chegar. Agora vamos directamente para Alicudi, a ilha mais distante, a ilha mais selvagem [localiza-se ao lado de Filicudi].
Sequência 19 (Após terem chegado a Alicudi, uma ilha tão isolada que não possui nem mesmo estradas (Moretti fala-nos de uma “calma terrível”), Gerardo tenta convencer Moretti que a televisão também pode ser boa. Escreve inclusive uma carta ao Papa, defendendo as telenovelas): GERARDO: Estou a escrever uma carta ao Papa visto que excomungou as telenovelas. Diz que são um perigo para a unidade da família. Leio-a para vocês. "Caro Santo Padre, perdoe-me, mas está errado. As nossa famílias são sempre mais fechadas no seu egoísmo, mas graças às telenovelas exprimimos curiosidade e interesse pelas outras famílias distantes com as quais condividimos as desgraças, os dramas, os problemas, as alegrias.
Capítulo III – Medici
Sequência 1: MORETTI (voz off): Querido diário, tenho todas as receitas acumuladas no curso de um ano, e tenho também todos os apontamentos que tirava toda a vez que encontrava os médicos, assim nada neste capítulo é inventado: prescrições de fármacos, encontros com os médicos, conversas com eles.
Sequência 3: MORETTI (voz off): Um dia comecei a ter comições, sobretudo de noite. Eu a chamava orticária, mas não era orticária, não tinha nada a ver. Sempre ouvi falar que em Roma havia um Instituto dermatológico muito famoso. Logo de manhãzinha há muita gente, também vinda de fora de Roma, que chega, marca uma hora e espera.
Sequência 4: O medico do instituto dermatológico pergunta sobre o seu problema, o examina e receita medicamentos.
Sequência 6: Depois de alguns dias retorna ao mesmo instituto. Tem consulta com novo médico que prescreve novos medicamentos.
Sequência 7: MORETTI (voz off): Faço as análises ao sangue, e as análises são normais, mas a comichão continua, ou melhor, continua a aumentar, e então lembro-me que em Roma se fala muito de um famoso dermatólogo, uma espécie de Príncipe dos dermatólogos. Telefono para o escritório do Príncipe.
Sequências 8 – 13: Moretti passa por uma verdadeira “via-crucis” entre médicos, assistentes e medicamentos.
Sequência 16: MORETTI (voz off): Até que um dia decido ler as bulas dos medicamentos. Nunca o faço.
Sequência 18: MORETTI (voz off) (...) Vai-se ao médico porque se está mal, gasta-se dinheiro para depois se ouvir... DERMATOLOGO: Vejo-lhe frustrado. Na minha opinião é um facto psicológico, depende de si. E eu... peço desculpa, vejo-lhe frustrado. Olhe, olhe agora: porque se coça? MORETTI: Ora, por causa da comichão. DERMATOLOGO: Não há uma necessidade assim tão premente. No entanto você coça-se. De qualquer forma: Trimeton fiale, uma injecção todas as noites durante sete dias. Fenistil retard, um comprimido após o jantar, e Legederm pomada, quando sentir coçar. MORETTI: Obrigado. DERMATOLOGO: Receitei-lhe os medicamentos, mas não se esqueça, depende de si. [dentro do carro Moretti diz: “se depende de mim tenho a certeza que não conseguirei...”] (...) MORETTI (voz off): Hoje convenci-me que a causa da minha comichão é apenas de natureza psicológica. Depende de mim, é culpa minha, é apenas culpa minha.
Sequência 23: Visita um centro de medicina chinesa, com sucessivas sessões de acupunctura tradicional e eléctrica.
Sequências 24 e 25: Moretti faz um TAC, aconselhado pelo médico chinês e o radiologista comunica à família que pensa ter-lhe descoberto um cancro no pulmão incurável.
Sequência 27 (Moretti está num bar, cercado de todos os medicamentos que comprou ao longo do ano): MORETTI: Uma coisa contudo aprendi com toda esta situação, não, melhor ainda, duas. A primeira é che os médicos sabem falar mas não sabem escutar, e agora estou rodeado de todos os medicamentos inúteis que comprei ao longo de todo o ano. A segunda coisa que aprendi é que de manhã, antes do pequeno almoço, faz bem beber um copo d’água. Disseram-me que faz bem ao rins, me parece, ou qualquer coisa do género. Em suma, faz bem.
Sinopse: O argumento, baseado nas páginas de diário do próprio Moretti, adopta um seguimento narrativo não linear, aproximando-se da dinâmica da vida real (sobreposição dos acontecimentos no seu movimento contínuo). Três capítulos em que Moretti interpreta si mesmo: no primeiro, Em vespa (In vespa), deambula com a sua vespa pelas ruas de uma Roma quase deserta devido às férias de verão (na Itália, e sobretudo em Roma, as vespas são muito utilizadas pelos jovens mas também por muitos adultos para fugir ao trânsito caótico). Nos cinemas projectam-se apenas filmes italianos de auto-comiseração ou filmes sanguinários norte-americanos. O melhor a fazer então é apreciar o espectáculo oferecido pelas casas e pelos bairros, aproveitando a oportunidade para falar com alguns transeuntes, entre os quais a dançarina Jennifer Beals de Flashdance. Depois de ler os artigos de um jovem crítico que exaltam inexplicavelmente o cinema pulp, o autor conclui o seu vaguear na tumba de Pasolini (poeta e realizador italiano contestatário, foi uma das principais figuras da cultura italiana do século XX). Ilhas (Isole) é ainda a história de um deambular, mas desta vez entre as ilhas Eólias (grupo de ilhas no sul da Itália, próximo da Sicília), onde o protagonista passa um período de férias em busca da inspiração para o seu novo filme. Com o amigo Gerardo, que pouco a pouco apaixona-se pela televisão – que dizia não ver desde há trinta anos – encontrará pais hiper-apreensivos, presidentes de câmara (em italiano denominado “sindaco”) megalomaníacos, estranhas animadoras turísticas e novos eremitas que vivem sem electricidade. Com Médicos (Medici), Moretti conta a sua doença e o seu fatigante vagar entre doutores e especialistas antes que seja feito o diagnóstico correcto do seu tumor.
Biografia de Nanni Moretti: nasceu em Brunico (Bolzano) em 19 de Agosto de 1953, localidade onde os pais, ambos professores, passavam as férias. Cresce em Roma onde, desde a adolescência, cultiva duas grandes paixões: o cinema e o pólo aquático. Por volta dos quinze anos começa a frequentar com assiduidade as salas de cinema, durante a tarde, já que a noite reserva para os treinos na piscina. Em 1970 joga na Nazionale Giovanile de pólo aquático e na série A no Lazio. Nos anos da juventude emprenha-se também politicamente, no âmbito da política de esquerda extra-parlamentar. Ao terminar o liceu vende a sua colecção de selos e compra uma super8 com a qual, em 1973, filma duas curtas-metragens com a ajuda de alguns amigos que improvisam como actores: La sconfitta, a história e a crise de um jovem militante de extrema-esquerda, e Paté de bourgeois, conjunto de várias actuações de alguns amigos desiludidos e de um casal em crise. Em 1776 realiza, sempre em super8, a sua primeira longa-metragem, chamando a atenção para um dos novos talentos do cinema italiano: Io sono un autarchico. É o retrato de Michele Apicella, interpretado por Nanni Moretti (e o seu alter ego em quase todos os seus primeiros filmes), que, juntamente com alguns amigos, funda uma companhia teatral empenhada na montagem de um espectáculo teatral de vanguarda: durante os trabalhos misturam-se as relações interpessoais, os amores e as desilusões de uma geração do pós-68, cujos ideais são confusos e contraditórios. Com Ecce Bombo, 1978, se insere no mundo do cinema profissional, dentro do qual conserva contudo sempre a sua independência e originalidade. A Sogni d'oro (1981, Leão de Ouro em Veneza) seguem-se Bianca (1983), La messa è finita (1985, Urso de Prata em Berlim), Palombella Rossa (1989), Caro Diario (1993), Aprile (1998), La stanza del figlio (2000) (os últimos três com prémio em Cannes) e Il caimano (2006). Participou ainda como actor dos filmes Padre Padrone (1977), dos irmãos Taviani, em Domani accadrà (1988), de Daniele Luchetti, em Il portaborse (1991), também de Luchetti, e em La seconda volta (1995) de Mimmo Calopresti.
Filmografia: Il caimano (2006), Il Grido D'Angoscia Dell'Uccello Predatore - Tagli D'Aprile (2003), The last customer - L'ultimo cliente (2002), La stanza del figlio (2000), Aprile (1998), Giorno della prima di Close-Up (1996), L'unico paese al mondo (1994), Caro diario (1994), La Cosa (1989), Palombella rossa (1989), La Messa è finita (1985), Bianca (1983), Sogni d'oro (1981), Ecce Bombo (1978), Io sono un autarchico (1976), Come parli, frate? (1974), Paté de bourgeois (1973), La sconfitta (1973).

Universidade de Lisboa, seminário de cinema italiano,

14 de Novembro de 2006, ficha realizada por Tiago Faria






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