Carta 389 Estado/Cidade



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Capítulo VI - São Paulo

Cartas de leitores e cartas de redatores

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Ataliba de Castilho

Marilza de Oliveira

Marcelo Modolo

Verena Kewitz

Universidade de São Paulo/FAPESP/CNPq




Carta 389



Estado/Cidade: SP/São Paulo

Tipo de Texto: Carta de Leitor

Título do Jornal: Farol Paulistano

Data/Edição: São Paulo, 15 de março de 1828 / seção: Correspondencia

Fonte/Cota: Arquivo do Estado de São Paulo

Senhor Redactor. – Depois de cessar por um pouco essa abundante chuva, que | desde o anno passado tem caido todos os | dias sem interrupção, quiz ver o estado da | varzea do Carmo, e se com effeito tinha- | se conseguido o fim d’esgotál-a, dirigi-me | até a chamada ponte do ferrão, que foi | entulhada, e vi que o pêso das aguas, que | não respeita grandes barreiras, quanto | mais ás fracas havia aberto o seu antigo | caminho, interrompendo quasi a communi- | cação por aquelle lado, causando um in- | commodo indisivel, não só aos habitantes | da Cidade, como aos lavradores, que não | podem condusir seus generos; e o mais é | que ja está assim há muito tempo!!! De | volta sentei-me a descançar na ponte franca | e ai estavão talvez ao mesmo fim dois su- | geitos, um dos quaes era um Portuguez | velho, e Brasileiro novo, digo Portuguez | velho, porque nasceu nas marges do Doiro, | e ja é avançado em annos, e Brasileiro no- | vo, porque vivendo entre nós, e adherin- | do á nossa causa tem tantos annos de Bra- | sileiro quanto o Brasil de Nação Indepen- | dente; o outro era um rapaz Paulista, e | segundo me persuado, estudante de Latim. | Logo que cheguei encetavão elles uma con- | versação, e por me parecer interessante | apenas voltei a casa tractei d’escrevêl-a pa- | ra me não esquecer; e suppondo que pos- | sa alguem julgal-a tambem interessante | lh’a envio para que se digne publicar no seu | Farol. || Portuguez – Ora meu amigo, não pen- | sei vêr em meus dias a Coimbra em São | Paulo! Quanto sinto ser já velho; pois | talvez não tenha o gôsto de ver os novos | Doctores, que hão de aqui formar-se! | Vossa mercê que é menino e estudante é que hade | aproveitar-se d’esta tão grande felicidade. | Eu nunca fui estudante; mas muitas vezes, | estive em Coimbra, quando era rapaz. | Como era bello ver a ponte do Mondego | sempre cheia d’aquella rapaziada! que brin- | cadeiras! que mangações! logo esta ponte | hade ser testemunha de iguaes scenas, e pe- | lo que oiço dizer da mocidade Brasileira o | Tamandaty nada tera à invejar ao Mon- | dego. || Estudante – Sim senhor: realizou-se | em fim nossa esperança: abrio-se o Cur- | so Juridico com muito esplendor. A mo- | cidade está toda enthusiasmada: entre os | moços não se ouve fallar n’outra coisa se- | não em estudar com empenho para se ma- | tricular no Curso Juridico. || Portuguez – Tudo está muito bom: mas | eu nóto que os Estudantes não andão | aqui como em Coimbra! todos tinhão | um mesmo uniforme, trazião samarra, e | uns gôrros, que erão bem bonitos. Isso | sim é que era bello; em toda as parte já | se conhecia um Estudante. || Estudante – Pois, Senhor, que necessida- | de ha de que os Estudantes andem de uni- | forme, Padresco? Eu não lhe acho utili- | dade alguma! || Portuguez – Essa é boa! com que Vossa mercê | não lhe acha utilidade alguma!... Boa | mostra que é minino ainda, e não pensa | nas coisas com madureza. As instituições | antigas sempre são muito boas: os nossos | que adoptarão isso lá em Coimbra não foi sem | rasão. E se não diga-me: não será melhor | que os Estudantes andem uniformes para | evitarem o luxo? Vossa mercê mesmo me acaba de | dizer que a mocidade está enthusiasmada, e | que todos querem estudar; nem todos tem | as mesmas posses; uns são ricos, outros | pobres. Os ricos trazem bôa casaca, bom | chapeo, memorias, de brilhantes, alfi- | netes de peito, & e &c; o pobre não póde | trajar assim; hade vexar-se de não poder ap- | parecer com o mesmo acceio. Demais an- | dando todos uniformados fórma-se uma es- | pecie de fraternidade, e trazem mesmo ou- | tras muitas vantagens. Em fim é ves- | timenta muito commoda; eu via em Coim- | bra os Estudantes trazerem dentro do gôr- | ro o livro, o tinteiro, a penna, o lapis, a | postilla, &c e sem elles hão de levar pagens | para lhes carregar tanta coisa? || Estudante – Com effeito Vossa mercê Parece | ter rasão; mas eu não sigo o seu parecer; | e dar-lhe-ei francamente o que penso a es- | se respeito. Talvez que em Coimbra hou- | vesse rasão de fazer-se esse uniforme ta- | lar n’aquelle tempo, mas hoje é bem pro- | vável, que se algum reformador illumina- | do quisesse cortar os immensos abusos que | la existem, seguramente esse uniforme | tambem ia fóra. Diz Vossa mercê que assim se | evita o luxo; eu o não posso crer; pois | tenho ouvido dizer que em Coimbra por | baixo da Samarra trazem os Estudantes | muito bons calções, ricas meias de seda; lustrosos çapatos e casquilhas fivellas; ora o | Estudante pobre, vendo que o rico pode | campar assim; não se vexarà não poden- | do trazer se não uma calça de ganga, umas | meias de lã ou de algodão? De certo; logo | havendo o uniforme fica sempre o mesmo | vicio que se quer evitar. Aqui em São Pau- | lo, eu avanço que esse uniforme é mais um | accressimo de despeza, e um obstaculo pa- | ra o Estudante pobre. Vossa mercê bem sabe, que | as fazendas são carissimas; uma samarra | de lila, ou de pano não importa menos de | 5c& réis ou 6c& réis: as meias de seda im- | portão de 4& réis a 6&réis o par. e este par | de meias não dara um mez. Não seria me- | lhor que querendo poupar-se a bolsa do po- | bre Estudante, a lei redusisse a menos o | importe das matriculas 5:$200 réis Todos | os annos não é uma somma consideravel | para um Estudante pobre, e que faz sacri- | ficios para saber? Ainda mais despesas do | uniforme!... Porventura estes mesmos | Estudantes pobres não tem uma casaca pa- | ra o seu passeio? O uso das calças largas e | dos botins não é tão commodo; e hade for- | çar-se o Estudante a andar indispensavel- | mente de uniforme Padresco? não é tão | ridiculo ver um homem casado, um mili- | tar vestido á Ecclesiastica? Ora supponha- | mos que uma Senhora Brasileira queria | frequentar as Aulas, seria obrigada a tra- | jar á moda dos Padres? Não me diga que | isto não pode accontecer, as Universidades | da Europa virão a uma Staël, a uma Chris- | tina Westephalen, e o convite e assitencia | das Senhoras no dia da abertura do Curso | parece confirmar a minha hipóthese. Te- | nho ouvido dizer, que nas grandes Univer- | sidades da Alemanha, e da França não há | uniforme algum, cada qual vae como quer, | mas com decencia. Ha entre elles o es- | pirito de corporação; pois não é o hábito | que faz o monge; a vida escolastica, com- | mum entre elles, a sociedade, o ajunta- | mento diario, a unidade de fim é que faz | o espirito de corporação, e não a vestimen- | ta exterior. O Estudante deve distinguir- | se, e ser conhecido por sua applicação, | pelo seu saber. Se elle conseguir, como | é de esperar, rectificar sua rasão, e obrar | em conformidade de suas luzes, distin- | guir-se-a completamente do resto dos ho- | mens. Formemos entre nós o Nacionalis- | mo o espirito publico, que é sempre util; | o espirito de corporação quando não é bem | dirigido, tem consequencias funestas – Em | uma palavra adoptemos o que há de bom | se é que o há em Coimbra, e deixemos | essas = carrancices, que não se compade- | sem com as luzes do século. || Aqui o velho levantou-se como ad- | mirado de ver o rapazinho desenvolver-se | d’esta maneira; mas sempre lhe dice: | Já é noite, vamos a recolher-nos, eu pensa- | rei sobre o caso. E como talvez eu não | tenha occasião de ouvil-os, publicando | Vossa mercê este dialogo, pode ser que | algum dos entrelocutores queira tambem publicar o | resultado da meditação do Senhor Portuguez | velho. Eu da minha parte confesso que | achei muita rasão em o nosso rapazinho, | e muito folgarei ouvil-o sustentar a sua opinião. – Adeos Senhor Redactor. Eu sou | um seu apaixonado.


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