Carta 389 Estado/Cidade



Baixar 0.5 Mb.
Página15/35
Encontro18.07.2016
Tamanho0.5 Mb.
1   ...   11   12   13   14   15   16   17   18   ...   35

Carta 452



Estado/Cidade: SP/São Paulo

Tipo de Texto: Carta de Leitor

Título do Jornal: Correio Paulistano

Data/Edição: São Paulo, 26 de março de 1859 / seção: Correspondencia

Fonte/Cota: Arquivo do Estado de São Paulo

Senhor Redactor. – Tenho visto varias correspondencias | desta villa, e tenho lido ellas afim de ver se deparo em al- | gumas dellas a noticia de um grande pagode que houve ha | dias na fazenda do senhor Victoriano José Lemes, e como nin- | guem tem lembrado-se de fallar nesse pagode, e para que | se veja e saiba como esta villa vai em progresso tomo a ta-| refa de publicar o motivo desse pagode. || Disse progresso porque nesta villa quando se vai a qual- | quer divertimento já se diz, ora esta villa está em pro- | gresso. || Desçamos ao pagode e ao que deu motivo a isso. || Varios moradores do bairro de Buquira vendo-se priva- | dos de virem a esta villa cada vez que os rios enchem fi- | zeram uma representação á camara municipal mostrando | a necessidade que havia de se mudar o caminho donde | existe por um outro logar melhor, visto que por onde exis- | te quando enchem os rios estes moradores ficam privados | de virem a esta villa, perecendo assim os enfermos de suas | casas, não só por não se poder sahir para procurar reme- | dios, como nem o reverendissimo vigario não póde chegar | àquelle logar confessar os enfermos, com quanto para bem | de Deos e da humanidade tenhamos um vigario destemido | no cumprimento de seus deveres, comtudo não é possivel | que elle podesse chegar á habitação daquelles que fizeram | a representação à camara todas as vezes que os rios en- | chem. || Presente esta representação á camara municipal, deli- | berou ella que o fiscal fosse ao logar e que examinando | desse informação, o que immediatamente o fiscal, as- | siduo como é, no cumprimento dos seus deveres, dirigio-se | a esse logar e examinando minuciosamente o caminho | existente, e o terreno por onde devia passar o outro cami- | nho, deu sua informação á camara municipal, scientifi- | cando a ella que o caminho que existe é com effeito pessi- | mo, o que por onde se queria abrir será melhor, e que não | podia deixar de passar o caminho pela fazenda de Victo- | riano José Lemes. || Esta informação era bastante para a camara deliberar a | respeito, porque ella merece todo o conceito, pois não ha | quem não conheça nesta villa a capacidade do muito di- | gno fiscal, pois estou certo que mesmo pela camara é reco- | nhecida essa capacidade; mas assim não aconteceu. || A camara mandou que Victoriano José Lemes respon- | desse a respeito, este pedio que fosse uma commissão no- | meada pela camara d’entre os seus membros, o que a ca- | mara deliberou que sim, e passando a nomear os membros | que haviam de ir em commissão examinar os caminhos, | em quem havia de reacahir a nomeação ? em um senhor, | té... té... té... em um vereador que é cégo de um dos | olhos, e em um vereador intimo amigo do senhor Victoriano | José Lemes, que mora para o lado de Jacarehy, e que pou- | co se importa com os caminhos do Buquira. || Deliberou então a camara que esta commissão fosse ao | logar e que désse seu parecer. || Victoriano apromptou-se para tratar essas pessoas, mas | vendo elle que tanto era a despeza que fazia com tres co- | mo com seis passou a convidar mais pessoas, té que deli- | berou-se a mandar dizer uma missa em sua fazenda, e le- | vou os musicos. || Ora como é que esta commissão não havia de dar seu | parecer a favor de Victoriano, vendo elles o grande appa- | rato com que foram tratados, ouvindo missa na fazenda | do mesmo talvez para ficarem condoidos de tudo quanto | dizia Victoriano, e acreditarem em tudo quanto elle dizia | pagodeando elles lá da maneira que pagodearam, chegan- | do a ponto de virem tão satisfeitos que um desta commis- | são não sei se por enxergar só seis mezes no anno chegou a | cahir do animal abaixo, e sempre vinha abraçando o pes- | coço do animal dizendo em altas vozes – está seguro? está | seguro! está seguro! || Outro membro da commissão o que poderia dizer que | servisse, talvez estivesse com a idéa preocupada em estu- | dar algum sermão, visto que está proxima a Semana San- | ta, e ser elle um bom pregador como é, e tão sem cerimo- | nia que até pelas lojas préga sermão, assim como fez em | Jacarehy. || Estou certo que esta commissão não examinou o cami- | nho como devia examinar, apenas chegou á fazenda do di- | to Victoriano, e do terreiro olharam para o logar por on- | de devia passar o caminho, e deram por examinado. || Tiveram razão de assim fazer, pois não era justo que | deixassem o divertimento para irem examinar o caminho. || O caso é que apresentaram á camara o seu parecer, e a | camara decidio que fosse feito o caminho por onde Victo- | riano queria. || Desta vez triumphou senhor Victoriano, mas quando sua senhoria ti- | ver outro negocio igual a este, e que a nomeação da co- | missão recahir em qualquer outro vereador desta camara, | certamente que não hade triumphar, porque esses outros | vereadores são homens conscienciosos e justiceiros, e que | sabem dar justiça a quem merece. || Sua senhoria quiz ver se a camara demittia o muito digno fiscal | fazendo um abaixo assignado para apresentar á camara, | que foram esses que assignaram? foram uns pescadores, | e outros que por o fiscal ter multado já, queriam que elle | fosse demittido de fiscal. || Ora sua senhoria com isto atreveu-se a muito sua senhoria não conhece a | capacidade do senhor Antonio Joaquim Pereira, fiscal desta | villa? || Quando é que desde esta villa já teve um fisca | que cumprisse com os seus deveres como cumpre? || Quererá sua senhoria que a camara demitta este que cumpre com to- | da a exactidão com os seus deveres, para entrar um outro dos | que já temos tido? || Ora pense bem sua senhoria nisto, e confesse que se queria que fos- | se demittido de fiscal o senhor Antonio Joaquim Pereira não será | mais que um mero capricho seu, e que sua senhoria mesmo em sua | consciencia hade concordar comigo neste ponto. || Sua senhoria hade saber porque o seu enviado não apresentou esse | assignado pedindo a demissão do fiscal na camara? || Senão sabe eu lhe conto, – foi porque o seu enviado cansado | da viagem, do tombo que levou, e de tanto gritar que estava | segura certamente a demissão do fiscal) foi pedir a coadjuva- | ção de outros vereadores para esse fim, o que teve o desgosto de | lhe dizerem que não concordavam com essa opinião delle, | porque o fiscal éra o melhor possivel, e que não tinha dado | o mais pequeno motivo para ser demittido e que elle não ap- | presentasse esse assignado na camara porque não prevalecia | sua opinião. || Desta vez enganou-se o seu enviado em vir gritando pelo | caminho que estava seguro! pois se estava seguro a abertu- | ra do caminho por onde queria sua senhoria, não esteve segura a de- | missão do fiscal como sua senhoria e seu enviado queria, porque como | isso não dependia de vistoria nem informações, os vereadores | já fizeram vêr que essa opinião não prevalecia.|| Lembro a sua senhoria que não julgue a camara como tem julgado, | pois sua senhoria fazendo assignados para pedir a demissão de qual- | quer dos seus empregados, é o mesmo que dizer que ella não | cumpre com os seus deveres; pois á ella é que compete sa- | ber se devem ou não serem demittidos os seus empregados. || Satisfaça-se sua senhoria com o que a camara já fez em desprezar, a | informação do fiscal, que era a unica, justa e verdadeira, e a | provar o parecer dessa commissão que lá foi ao bel prazer de | sua senhoria e que não se importou de ir examinar o terreno minucio- | samente como cumpria fazer, mas fique sua senhoria na certesa de que | este negocio ainda não para aqui, ainda temos recurso, e de- | pois de esgotados todos elles é que saberemos por onde hade | passar o caminho. || Desculpe sua senhoria esta minha linguagem groceira, pois sou ho- | mem da roça, e não tenho aquellas expressoes agradaveis pa- | ra exprimir os meus sentimentos, tenho unicamente o costu- | me de fallar a linguagem da verdade, e entendo que para se | fallar a verdade não e preciso procurar aquelles termos flori- | dos com que é de costume se fallar principalmente quando se | falla para o publico; mas eu como homem da roça que sou, | tenho por costume de exprimir os meus sentimentos com a- | quelle frazeado do meu costume. || Aqui termino e prompto estou se sua senhoria quizer provar tudo | quanto fica dito, e fico aparando a pena para se fôr necessario | responder a sua senhoria satisfactoriamente. || São José, 3 de março de 1859. |


1   ...   11   12   13   14   15   16   17   18   ...   35


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal