Carta 389 Estado/Cidade



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Carta 458



Estado/Cidade: SP/São Paulo

Tipo de Texto: Carta de Leitor

Título do Jornal: Correio Paulistano

Data/Edição: São Paulo, 19 de julho de 1863 / seção: A pedido

Fonte/Cota: Arquivo do Estado de São Paulo

Senhor Redactor. || Vou dizer-lhe uma coisa, que fará o favor de man- | dar escrever na sua folha. Hontem á tarde quando sa- | hi do meu serviço de pedreiro das obras do palacio, fui | á fabrica do senhor Miguelista Guelmi comprar, como cos- | tumo, os meus charutos. Mal tinha posto o pé na so- | leira, quando o senhor Guelmi grita: – Que quer você, você | é dos taes, é do Porto, e basta: é dos d[a] panella do Vic- | torino, do Portugal, e do Antonio da rua Direita, tres | famosos cabalistas, inimigos encubertos do amigo Bo- | lo. Porque não hade você votar nelle para presidente: | é irmão instituidor, como eu, desta nobre irmandade,| carregado de serviços cá e lá. Quando Sua Magestade | Fidellissima o muito pio e humano el-rei nosso senhor, | que Deos guarde, o senhor Dom Miguel I fez guerra aos | pedreiros livros do Porto, foi o muito illustre amigo | Bolo um dos voluntarios do batalhão do Minho, era ca- | bo d’esquadra, guerreiro como elle só, ás direitas e arre- | ganho militar. E’ verdade que não matou nenhum só | Miguelista, nem sequer deu um arranhão nesses intrepi- | dos defensores do throno, e do altar: é por isso que | somos amigos e camaradas, e até sou seu testa de ferro. | Se não quizerem votar n’elle, votem em mim. O ca- | racaxá que me mandárão pelo correio, com porte pago, | não paga os meus serviços. || Senhor redactor, fiquei atordoado com semelhante | discurso, ó senhor Guelmi tem veia para orador. || Manoel de Gaia.




Carta 459



Estado/Cidade: SP/São Paulo

Tipo de Texto: Carta de Leitor

Título do Jornal: Correio Paulistano

Data/Edição: São Paulo, 21de janeiro de 1864 / seção: A pedido

Fonte/Cota: Arquivo do Estado de São Paulo

CARTAS FAMILIARES || IV || COMPADRE PANCRACIO. - Não começo por perguntar- | lhe noticia de sua saude, porque pela ultima que me | escreveo fiquei sabendo que está rijo como um cerne, | fresco como uma alface, e alegre como um medico em | tempo de epidemia. Tambem pudera não ser assim. | O compadre passa um vidão, mora no meio da abun- | dancia, sente o aroma das flores, e das arvores, bebe | boa e cristalina agua (Não repare, poetissimo compa- | dre), neste estylo que é muito geral nesta cidade). || Como ia dizendo, come boa carne de porco, ou de gorda vitella, passeia no seu pomar, colhe e engole por | desfastio um suculento pecego, ou uma tenra banana, dorme a sesta na sua rede, a noite toma o saudavel e | puro café, e quando tem mais apetite manduca o seu | prato da nutriente cangica, e dorme o sonno do justo | depois de ter resado o infallivel terço com a familia. | E deixe correr 365 dias por um anno. || Ora realmente felicissimo compadre, uma vidinha | destas é para chegar com certeza á idade do defunto | Mathuzalen, que nem eu, nem o compadre conhece- | mos. || É verdade que o anasphaltissimo compadre por isso | mesmo anda no mundo da lua, a respeito de progresso | progressante não encherga um palmo adiante do nariz; | e para de todo não ficar obtuso é mister que eu o vá, | com estas minhas cartas burnindo, e tirando-o do es- | tado quasi natural em que se acha. || Tenha paciencia, compadre, Deus me defenda de dei- | xal-o (o compadre, não a Deus) fazer figura ridicula; | tenha paciencia, heide dezabuzal-o. || Aqui corre o rio por outra fórma. Levanta-se a gen- | te pela volta das 8 horas, toma o seu café, mas um | café, compadre, todo adubado com milho, e outras coi- | sitas mais, coisa boa; lê o Correio Paulistano, faz o seu | toilette, isto é, lava o rosto, pentea-se, calça as chine- | la, veste a ceroula, a calça, o casaco, etc., fuma o seu | charutinho; e assim chega até as 10 horas, que é a hora | do almoço, já se sabe, coisa fina, carne quasi sempre de | boi pesteado, dizem que está reconhecida que é mais | saborosa, assim como a carne de dois e tres dias, por | que fica mais macia;não sabia desta, compadre, pois [v]á | aprendendo, que muito tem que aprender. || O leite aqui compra-se já adubado com agua e pol- | vilho, que lhe dá um sainete excellente. O pão, isso | então, compadre de uma figa, é coisa grande; temos pão | de todas as nações; pão francez, italiano, hespanhol, | portuguez, allemão, e não sei se até o pão turco; cada | um com seu differente feitio, e alguns bem engraçados; | e quanto ao sabor, isso nem fallemos, é comer e gritar | por mais; uns tem um gostinho de azedo, qne é um | regalo, outros com uns longes de môfo que o torna ver- | dadeiramente apetitoso, estes claros, aquelles de uma | côr mais trigueira, outros ainda mais, que até fazem | uma vista agradavel na mesa. Dizem-me que este ge- | nero está n’uma tal perfeição, que emprega-se na sua | manipulação todas as farinhas conhecidas e desconhe- | cidas, e é isto que o torna cada vez melhor. A respei- | to de pão dir-lhe-hei, impertinentissimo compadre, que | só não temos o - Pão nosso de cada dia. || O jantar tem sempre lugar a hora da sua merenda, | frugalissimo compadre, compõe-se de - todas las cosas e | algumas cositas mais, tudo iguarias papafina. || Quanto ao vinho e ao chá, isso nem é bom fallarmos, | ha tal abundancia, e variedade que eu iria longe, se | quizesse descrever-lhe. Que perfeição ! que gosto! O | compadre póde comprar uma garrafa de vinho de 640 | ou de 800 réis, que com essa só garrafa terá vinho, aguar- | dente, licor, rozasolis, cognac, cerveja, etc. Faz pra- | zer ainda ao paladar mais estragado. || O chá antigamente era uma bebida desenxabida, ho- | je não senhor, principia pela côr que é de um amarello | requeimado, e tem um gostinho de sassuaiá com seus | longes de sabugueiro, que melhor não póde ser. || Compadre, ha hoje uma transformaçãoem tudo isto que | aposto o que quizer em como se o compadre viesse co- | mer um dia ás nossas mesas, não saberia o que estava | comendo, talvez cuidasse que estava saboreando os cele- | bres bicos de rouxinol, e o manjar dos anjos, com que | nos regalão os ouvidos quando somos crianças. || Agora do que o compadre mais se havia de admirar | seria do preço de tudo isto. O’he, com qualquer 8$ | réis por dia o compadre póde almoçar, jantar e ceiar! | Realmente é de graça. || Uma coisa que não temos nesta nossa boa cidade do | Apostolo das gentes, quem o acreditaria! é agua. Mas | declaro-lhe, sequiozissimo compadre, que não faz falta. | Temos tanto liquido de diversas naturesas que realmen- | te a agua deve ser banida de uma vez; não deve servir | nem para a lavagem do corpo. E que bom não será | banharmo-nos em caninha, cerveja, cognac, ou Cliquot? | Que aroma delicioso não exhalará uma cidade que | adopte este hygienico, e agradavel costume?! || Agora, aceiadissimo compadre, á noite quando de- | pois de repletos de tantas delicadas, e variadissimas | iguarias, sahimos a dar o nosso passeio hygienico, que | prazer sentimos, quando ao passarmos por uma esqui- | na, vemos correr della uma agua grossa com forte | cheiro de sal amoniaco, ou quando encontramos um | grande e alto carro conduzindo grande quantidade do | verdadeiro patcholly, que deixa evaporar o mais ex- | quisito aroma conhecido! Que bem estar não sente um | filho de Deos ao passar pela rua do Rosario, em frente | a casa que pertenceu ao seu velho amigo capitão Seve- | rino! Oh compadre de um dardo, é que é o verdadeiro | viver no seio de Abrahão; agora é que se póde dizer | com verdade - esta vida não chega a netos, nem a filhos | com barbas. || Affirmão-me, compadre, que a policia tem ultima- | mente visitado as casas de negocio, e inutilisado muitos | generos deteriorados, falsificados, etc.. mas realmente, | austerissimo compadre, acho que a policia não tem ra- | são, e que de alguma fórma vae contra a plena liber- | dade do commercio. Os nossos commerciantes apenas | o que fazem é melhorar o genero, fazendo diversas mis | turas, e porisso, variando-o, tudo em beneficio do povo. E | o compadre sabe perfeitamente que a variedade deleita, | como dizia o outro. || Era o que faltava que homens que vivem só pensan- | do no modo de nos ser util e agradavel soffressem nos | seus interesses. Nada, não admitto, e para enristar a | lança por elles estará sempre prompto o || seu velho compadre || O Zé da Vestia.


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