Carta 389 Estado/Cidade



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Carta 390



Estado/Cidade: SP/São Paulo

Tipo de Texto: Carta de Leitor

Título do Jornal: Farol Paulistano

Data/Edição: São Paulo, 22 de março de 1828 / seção: Correspondencia

Fonte/Cota: Arquivo do Estado de São Paulo

Senhor Redactor – Como em o seu número 97 | de hoje me offerece occasião de desabafo | contra a Camara d’esta Cidade a quem | incumbe a sua policia quero desabafar meu | censibilisado coração, contando-lhe um | caso horroroso, accontecido á tres dias em | uma rua publica d’esta Cidade. Um po- | bre môço carreiro de 10 a 12 annos que | servia de arrimo a sua desgraçada familia, | tendo marchado 3 ou 4 leguas por entre | máos caminhos, chegou sem perigo | até as portas da Cidade; na continuação po- | rém da rua da Esperança quasi defronte | á casa do Conego Leão (sendo a rua prin- | cipal e unica para a entrada de todos os | carreiros & que vem de Sancto Amaro) em | um lamaçal tremendo que alli existe ato- | la-se o carro, perde o equilibrio, e queren- | do o infeliz encostar a lenha ficou espedaçado | debaixo do peso enorme; e no mais lamentavel | estado hontem deu-se á sepultura, deixan- |do sua familia desolada, e sem este arrimo. | Bem poucas vezes se tem visto scena tão | tocante!!! E sera crivel que as ruas da | Cidade sejão peiores que esses abandona- | dos caminhos ? ... E será crivel que o po- | vo sobrecarregado de tributos soffra tantas | penalidades pelas estradas, e venha encon- | trar a morte nas ruas de São Paulo pelo | desleixo e pouco caso de sua Camara mu-| nicipal?... Vossa mercê Senhor Redactor nos dá pou- | ca esperança de que as coisas melhorem, | mas esses homens não soffrem, como nós, | a carestia; não ouvem o clamor geral; não | se doeráõ por esta triste morte, de que em | parte foráo causa. Ficaráõ no terrivel le-| thargo, na molle indolencia, na deshu- | mana crueldade de nos conservarem i- | lhados, (supportando a privação athé do ne- | cessario) de vermos nossas ruas intransi- | taveis?... Não, Senhor Redactor, eu tal não | creio: antes espero que Brasileiros como | são, amantes de seu païz terão ja dado | energicas providencias para que cessem es- | tes escandalosos motivos, que nos vão pon- | do em desesperação. || Outro desabafo, Senhor Redactor. Se Vossa mercê | se queixa dos magotes d’egoas, que seus | donos tem posto nas Praças d’esta Cidade | á pesca de bons pastores, não é tambem | digno de censura que se queira formar fa- | zendas de gado vaccum dentro da Cidade; | é se veja porção enorme, mendigando pas- | to, é procurando entrar por qualquer quin- | tal a devorar tudo que encontrão! Sei de | pessoas, que caindo-lhe de noite as taipas | de suas hortas pela muita chuva, ao ama- | nhecer as acharão redusidas a campos... | E permitte a policia semelhante abuso? Se | querem ter vaccas de leite, tenhão embo- | ra, mas na estribaria, como practicão as | Cidades civilisadas. || E que direi Senhor Redactor, da immen- | sidade de caens de fila, e d’outros inu- | teis galgos, de que abunda a nossa Cidade? | Se deixamos a liberdade natural, se vive- | mos em sociedade para melhor commodi- | dade e segurança individual, que seguran- | ça no meio da tantas feras, que só por | uma Providencia particular devorão tu- | do. Ser-nos-ha preciso andar armados para | defender-nos d’estes animaes soltos pelas | ruas? que desgraça!... || Finalmente, Senhor Redactor, mais um | desabafo. Não podem ser mais fortes e mais | positivas as ordens sobre as formigas: este | insecto o mais prejudicial aos nossos arvo-| redos, a peste a mais temivel na lavoira | conserva-se no centro da Cidade como em | deposito, para destruirem as nossas plan- | tações e até demolirem nossas casas: e | o que é mais alêm de muitos formiguei- | ros que ha no interior da Cidade ha um | defronte á casa da Camara, e outro de- | fronte á do Escrivão!... E não deve- | rá merecer a attenção particular d’aquelles | a quem está este negocio incumbido!... Oh! Senhor Redactor, clame contra tanto des- | leixo, tendo em vista o = guta cavat lapi [corroído].... | e póde ser que se acordem e se levantem | dos fôfos colchões de macia penna nossos | patricios, que tomarão sobre seus hombros | esses arduos deveres, que se tornão gostosos | quando se trabalha pelo bem e pelo aug- | mento de seu païz. Não cessará pelo seu | lado de fazer outro tanto este que está meio. || Desabafado


Carta 391



Estado/Cidade: SP/São Paulo

Tipo de Texto: Carta de Leitor

Título do Jornal: Farol Paulistano

Data/Edição: São Paulo, 30 de abril de 1828 / seção: Correspondencia

Fonte/Cota: Arquivo do Estado de São Paulo

Senhor Redactor. – Pelo annuncio de des- | pedida do Excelentíssimo Senhor Presidente d’esta Pro- | vincia Thomaz Xavier Garcia d’Almeida, | que appareceu no Farol número 105 soube que | Sua Excelência se retirara d’esta Provincia para | tomar assento na Augusta Camara dos Senhores | Deputados. Deos leve a Sua Excelência em paz | e felicidade. – Mas, Senhor Redactor, que no- | vo estilo de despedidas é este de Sua Excelencia? | Quiz elle por ventura despedir-se do pô- | vo inteiro da Provincia, ou só d’uma par- | te? Se era de todos, para que nomeou | Sua Excelência somente as pessoas que tem direito | a semelhante obsequio?, e se era só de alguns | poucos eleitos, que importava ao público | o saber se Sua Excelência tinha ou não tido tem- | po para se despidir dos seus amigos, ou dos | poucos eleitos que o cortejavão? Não é que | eu censure a Vossa mercê Senhor Redactor por inse- | rir um semelhante annuncio; bem que o | seu fim e até a sua promessa explicita foi | de illustrar ao publico e concorrer para a | sua felicidade com doutrinas saãs e de u- | ma immediata utilidade, todavia lá n’um | canto de sua folha bem póde fazer annun- | cios. O meu azedume é contra o estilo con- | ciso com que Sua Excelência fez as suas des- | pedidas. E como póde qualquer saber se | na alta mente de Sua Excelência foi ou não in- | cluïdo entre as pessoas que tem direito a semelhante | obsequio? como hão-de saber se este | direito se comprava com uma só visita a | Sua Excelência? ou com a frequencia em sua ca- | sa? ou finalmente com testemunhas do mais | abjecto servilismo? Se ao menos Sua Excelência? | tivesse especificado = todas as pessoas que | tiverem a graduação de tal posto para cima, | e todos aquelles não militares (vulgo pai- | zanos) que rodarem com estas altas paten- | tes, ja cada-um poderia fazer juizo, e di- | zer = Eu fui incluïdo = Fuão não foi = Bel- | trão seria ou não = e nas conversações te- | ria alguns dados para agitar esta questão. | Mas assim tão genericamente, Senhor Redactor, | é o mesmo que não querer obrigar (obliger) | a ninguem. || Quanto a mim, cuido que Sua Excelência por | fazer pouco nos Paulistas, gente rustica, | insipida; que não deu bailes a Sua Excelência | que não tem finura, nem as de côrte, nem | um modo de tractar, sans façou (sans fa- | cou Monsieur) é que recorreu ao expediente das | despedidas por annuncio: elle de certo dis- | se lá consigo:, , Por este meio novo e desu-| sado dou uma alta idea de minha jerar- | chia, e esta gente fica pensando, que as | despedidas d’um Presidente são materia | de interesse publico, e que a ninguem mais | compete esta prerogativa. Mas o peior foi | que os Paulistas com toda a sua rusticidade | já forão honrados com uma Proclamação de | despedida geral da Propria Pessôa de Sua Majestade | o IMPERADOR, e por isso talvez os poucos | eleitos não fizessem todo o aprêço, | que Sua Excelência esperava, das suas despedidas por | annuncio. || O mais provavel por tanto, Senhor Redac- | tor, é que Sua Excelência désse este passo para | mostrar o seu desgosto e azedume contra | os Paulistas, pois ahi corre (talvez seja falso) | que Sua Excelência não deseja muito voltar a esta | terra onde a balda e manîa dos habitantes | é fallar em negocios publicos, em Consti- | tuição; onde se censurão os actos dos em-| pregados publicos por mais altos que sejão. || Mas paciencia, Senhor Redactor, se Deos | for servido, que as despedidas de Sua Excelência | sejão por uma vez, nós submissos, como | nôs cumpre ser ás vontades do Altissimo, | diremos em nossos corações = faça-se a vos- | sa sancta vontade = Amen. |


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