Carta 389 Estado/Cidade



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Carta 468



Estado/Cidade: SP/São Paulo

Tipo de Texto: Carta de Leitor

Título do Jornal: Correio Paulistano

Data/Edição: São Paulo, 24 de abril de 1865 / seção: A pedido

Fonte/Cota: Arquivo do Estado de São Paulo

O FEIJÃO E OS ATRAVESSADORES || Senhor Redactor: || Vocemecê é homem da imprensa, vive sempre preoc- | cupado com as poesias e não ha de saber do que se pas- | sa no mundo de chilra prosa em que eu e minhas co- | madres vivemos. Pois, eu quero sempre dar-lhe uma | prosinha do meu mundéo para que vossa mercê faça uma pe- | quena idéa dos transtornos em que vivemos. || O meu Chico, as pequenas familias e eu, estamos ave- | sados ao feijão e não passamos sem elle; essas ostras e | sôpa de tartaruga que vem nas latas dos estrangeiros, | nunca emporcalharam os nossos estomagos. Quem nos | tira de um viradinho bem mechido não nos quer bem. || Mas agora, não sei porque artes, estão os senhores vendei- | ros desavergonhados como nunca se viu; pois eu não | sei como se apellide o descôco com que esses judêos | do inferno pedem tanto dinheiro pelo nosso estimadis- | simo feijão. || Eu lhe digo, pelo que eu quero a esse legumezito era | capaz até de pol-o n’um throno, mas com esta guerra | estão todos muito agarrados e a gente anda escorrida | de bolsa e não póde fazer africas nem proezas. || Dantes quatro vintens de feijão era quasi um balaio, | agora é um fiapinho que nem os olhos enxergam. || Ora isto assim não se póde mesmo aturar. Diz-me | um dos meus filhos, o Quincas - que anda na escola e | já entende de virgulas, que esta careza é por via desses | atravessadores. Não sei que historia é essa lá, mas po- | rém seja como fôr eu não sei com que malevolencia se | ha de agora atravessar o feijão. Que vão atravessar pa- | raguayos, raça de judas. || Em fim de contas eu o que quero é providencias sé- | rias. A minha e a barriga de minha familia, não póde | estar exposta aos botes dos atravessadores; e por isso | - rogo a vossa mercê que atice a policia nesses miliantes e dê | com elles no chelindró. || Eu prometto-lhe um balainho de óvos frescos se vossa mercê | fizer com que os taes vendeiros dêem o feijão por uma | continha que não aleije os pobres. || Sou uma sua creada | Balbina Rosa.




Carta 469



Estado/Cidade: SP/São Paulo

Tipo de Texto: Carta de Leitor

Título do Jornal: Correio Paulistano

Data/Edição: São Paulo, 24 de junho de 1865 / seção: A pedido

Fonte/Cota: Arquivo do Estado de São Paulo

DUAS REGRAS || Senhor redactor. || Ha muito tempo que andava com ganas de dar uma | pennada na imprensa de voçuncê; mas entonces como | não sei retolica, tinha scismas que vonçuncê havia-se | pôr com partes. Mas já hoje vi no seu pharol annun- | ciada uma descomponenda de nha Amalia, cosinheira | que foi do defundo senhor conego meu padrinho, que | Deus haja, e isso me pissui de animo para botar nas | folhas umas regras. || Eu conheço voçuncê de outras eras; voçuncê é que | não se lembra de mim; eu estava alugada na casa do | seu bispo Dom Matheus, no tempo em que voçuncê foi lá | botar a Chrisma em voçuncê mesmo. Eu bem me lem- | bro disso. || Mas saiba voçuncê, que eu sempre fui muito faceira | e gostei de me aceiar, quando veio a lei da gente varrer | a sua testada eu varria a minha á missa das armas, e | quando os homens da carroça passavão no meu bequi- | nho já achavam a lixarada n’uma montoeira. || Vai agora apparece um dia destes um velhote com | uma espada grande e pistola na mão e manda que eu | metta a montoeira para dentro. Isto, senhor redactor, não | se faz a uma viuva honrada. || Quando o meu Manduca deu a alma ao Creador eu | tinha 47 annos, e d’ahi para cá nunca mais homem me | vio dentes. || Mas, sim senhor, como é que a gente hade agora pôr | dentro de casa a cisqueira da rua, voçuncê não me con- | tará? || Eu sempre preguei quatro palavradas nas bochechas | do tal, que elle viu ufa; mas o diabo mostrou-me a es- | pada e eu não quiz mais secca com elle. Olhe que as | carnes tremerão-me todas! || De fórmas que, entonces agora não sei como heide | arrumar a historia. Cá na minha casa, não há nem | quintal, nem area, e assim não tenho onde botar o cisco | da rua. || E isto é uma cousa sem pés nem cabeça pois agora | que sinifica a gente ir juntar o cisco da rua para pôr | em casa. Ora, esta! || Isto são obras dos inglezes, que andão ahi a inven- | tar estas patifarias para comerem o nosso suor. Que | diabos os levem, phariseus de uma figa. Cruzes. || Mas, senhor redactor, eu estou banhada em iras, e sinto | que as raivas me levão as gorduras. Voçuncê tenha | dó da pobresa, que Deus lhe augmentará. || Por oras só imploro da sua misericordia que me tire | o cisco de dentro de casa e me livre tambem da espada | do homem. || Nas suas folhas argumente em meu beneficio, e eu | fico rezando por sua alma ao Senhor São João no meu ro- | sario, que me deixou minha avó. || Se lá apparecer a nha Amalia voçuncê dê-lhe lem- | branças minhas. || Uma sua serva. || Nicota Gertrudes.




Carta 470



Estado/Cidade: SP/São Paulo

Tipo de Texto: Carta de Leitor

Título do Jornal: Correio Paulistano

Data/Edição: São Paulo, 12 de agosto de 1865 / seção: A pedido

Fonte/Cota: Arquivo do Estado de São Paulo

CONSEQUENCIAS DA NOVA NUMERAÇÃO || Senhor redactor. || Sou lavadeira e engommadeira, e tenho sempre exer- | cido as minhas modestas profissões com applauso do | Senhor publico e dos meus freguezes da academia. Morei | d’antes no becco do inferno e ha cousa de 3 mezes mu- | dei-me para esta sua casa, onde vivia tranquillamente | em quanto na cimalha da porta se lia o NUMERO 20, | mas o proprietario querendo embellezar o front-spicio | do seu predio entendeu que devia mandar caial-o, o | que fez, empregando em tal obra um senhor pintor muito | chué que borrou-me o 2 do vinte, e ficou minha casa | com o numero – 0 – ! || Ora, eu sou muito procurada pelos meus freguezes e | por isso quando elles indagão da minha casa preciso | dizer-lhes o nome da rua e numero da porta, para que | eles vão lá direitos. || D’antes eu dizia-lhes rua de tal número 20. Depois do | borramento do 2 eu só dizia - rua de tal numero cifra. || Todos fazião suas caçoadas, eu ficava meia vergo- | nhosa, mas a cifra sempre dizia alguma cousa e os | meus freguezes atinavão com a minha porta por causa | do tal 0 bicudo. || Ora, como conto a vossa senhoria já tudo isto erão tristezas | para a minha alma e por isso tencionava mudar-me do | meu cazebre. || Agora, ha oito dias, apparece-me lá na porta um su- | geito de brocha na mão e borra-me a cifra toda. Quan- | do eu vi o caso estava torcendo umas celouras do senhor | Procopio e tive iras de dar com ellas nas ventas do tal | borrador; mas o meliante dice-me que borrava a cifra | para pôr numeros novos! Tive, á vista da resposta, minhas alegrias, as quaes | já se achão dissipadas, porque até hoje ninguém lá foi | pintar numero nenhum, e agora os meus freguezes não | atinão com a casa. || Vossa senhoria que é muito perspicaz hade notar os meus pre- | juizos e em virtude delles espero que reclamará em | meu favor, afim de que me seja restituída a ci- | fra no seu lugar, ao contrario eu pinto na porta o que | me parecer e não dou cavaco á nação. Eu não vivo | de borrões na porta, entenda-se. || Estou zangada e não quero articular mais. Peço-lhe | que me olhe pela cifra como cousa sua. || Até a primeira. || Sua criada || Apollinaria Gerundia de Mattosinhos




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