Carta 389 Estado/Cidade



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Carta 474



Estado/Cidade: SP/São Paulo

Tipo de Texto: Carta de Leitor

Título do Jornal: Correio Paulistano

Data/Edição: São Paulo, 01 de setembro de 1865 / seção: A pedido

Fonte/Cota: Arquivo do Estado de São Paulo

COMADE TUDINHA || Recebi as suas amadas regras, que passo a res- | ponder. || A minha perna já está quasi boa do romatismo; pois | já ando por todo o quintal, e pertendo na sexta-feira | ir a missa do Senhor dos Passos. || Sinto muito os seus encommodos por causa de estra- | nhar a casa e, além de tudo, não poder durmir com a | gritaria das sentinellas. || Não é só mecê que soffre: console-se comigo, que | tambem ando muito amoffinada por causa do Manduca. | Mecê sabe que elle não tem emprego, e que está p’ra | se abrir o reclutamento tão forte como no Rio de Ja- | neiro, onde dizem que até os padres e deputados não | tem escapado. Elle, que gosta tanto do theatro de São | José, onde vae sempre com 500 rés, nem isso mesmo | póde mais fazer, porque, se sahir á rua, ou ha de ser | reclutado, ou pegado p’ra voluntario, p’ra ir morrer no | theatro da guerra; sim, p’ra ir morrer, porque, sendo | elle um rapazinho fraco, que até tem medo de defunto, | e que nunca fez mal a ninguem - a não ser aquellas | porretadas que deu aquella noite no Mané Bafejador, | não póde servir p’ra soldado. || Manduca, comadre, é muito bãozinho; tem inclina- | ção p’ra quasi tudo, menos p’ra soldado; elle faz gaiol- | la, caça passarinho, faz briga de gallo, toca muito bem | viola... joga o truque, e é tão habilidoso que sempre | ganha; mas (honra lhe seja feita), por não admittir | bandalheiras, as vezes briga, dá e apanha... enfim os | cobres sempre traz. || Veja, pois, comadre, como não andará uma pobre | mãi! || Bem disse nho Frutuoso - que a causa de tudo que | estamos soffrendo é não se ter soldados, e que por isso | qualquer estrangeiro nos faz quanto desaforo quer, e | nós sempre aguentando com cara alegre.... || Agora é que se percura os pobres como Manduca | p’ra ir p’ra as guerras; e esses que comem da nação, | bem como esses que andão só de lunetinha grudada no | olho, vão ficando bem frescos só p’ra fazer verso e en | gabellar os pobres.... || Pois Manduca não ha de ir p’ras guerras em quanto | esses não irem! he de ficar como flêra dentro de casa! || Esses diabos desses estrangeiros querem terra: nós | temos tanta, porque não ha de se dar já um pedaço | p’ra elles socegarem e a gente descançar? || Eu sou mulher, comadre, mas quando fico engerisa- | da não mando os outros dizerem; mecê bem me co- | nhece.... || Desculpe a maçada; até qualquer dia destes. Quanto | á casa, comadre, ainda não há por aqui vaga; assim | que haja lhe mandarei dizer. || Sua comadre e amiga || Chiquinha.




Carta 475



Estado/Cidade: SP/São Paulo

Tipo de Texto: Carta de Leitor

Título do Jornal: Correio Paulistano

Data/Edição: São Paulo, 13 de setembro de 1865 / seção: communicado

Fonte/Cota: Arquivo do Estado de São Paulo

communicado. ESTRADA DE FERRO || Ha já alguns dias que a capital de São Paulo foi tes- | temunha de um facto horrivel succedido na linha fer- | rea. || O facto era de tanto alcance, o successo de tanto | alarma, que eu esperei ver a imprensa com elle se oc- | cupar sériamente. || Tenho sido illudido em minha espectativa, até que hoje | o Diario de São Paulo alguma cousa diz, mas é pouco | ainda, porque não se falla uma linguagem franca e de- | cidida. Ao passo que se aponta o facto, annuncia-se | logo um des[a]s[t]re casual; clama-se por providencias no | futuro, mas deixa-se ver a idéa de lançar um manto so- | bre o p[a]s[s]ado. || Não ! || A indifferença neste caso será um crime, o esqueci- | mento será uma culpa, porque trata-se nada menos do | que de um desastre, que derramou a desolação no se[i]o | da cidade inteira, nada menos que a morte de um in- | dividuo, a fractura em outros, o ferimento e a contu- | são em muitos, o susto e a commoção em todos! . . || Narremos os factos taes como se passarão. || Ao meio dia chegou a locomotiva na Moóca. || Lá a esperavão o presidente da provincia, se se- | cretario e ajudante d’ordens, a camara municipal e | muitas pessoas gradas, que havião recebido convite | para naquelle ponto subirem nos carros e irem até a | estação da Luz, onde a camara municipal offerecia um | sumptuoso cópo d’agoa aos empreiteitos da estrada de | ferro. || Erão ao todo de 40 a 50 pessoas. || A 16 minutos depois do meio dia partio a locomotiva | daquelle ponto. || Lia-se o enthusiasmo e alegria em todos os rostos. || Erão quasi todos paulistas: santo era o jubilo que | exaltava o peito de filhos, que vião sua mãe adiantar | um grande passo na carreira do progresso ! || A musica, que vinha em um dos carros, enchia os | ares de bellas harmonias. || As flores e as bandeiras, que enfeitavão a locomotiva | da frente, onde vinha o presidente da provincia, offe- | recerão um bello aspecto festivo. || Vencia-se o espaço ! || Pouco a pouco a velocidade cresceo, a oscilação dos | carros augmentou: os musicos não podiam ajustar mais | os instrumentos nos labios, a musica parou. || Corria-se, a velocidade crescia progressivamente ! || Em breve o balanço foi tanto que o equilibrio faltava ! || Não era mais um carro em caminho de ferro, era um | navio sobre as ondas de um mar batido por um tempo- | ral desfeito: quasi todos procurarão segurança no fun- | do dos carros ajoelhando-se ou assentando-se, porque | a posição de pé já importava um risco imminente: o | corpo banbaleava violentamente, as bordas do carro to- | cavão talvez a altura dos joelhos, possivel era perder | alguem de todo o equilibrio e ser arrojado fóra. || E corria-se sempre, e a velocidade augmentava cada | vez mais ! ! || Ao passar-se a rua do Braz, já não se distinguia na- | da: casas, bosques, povo, tudo perdia as fórmas dian- | te dos olhos; era uma nuvem unida, que passava e | produzia vertigem. || O ar batia nas faces como um açoite, – suffocava; e | o entendimento como que fugia nessa carreira, que pa- | recia um sonho fantastico em noute de pesadello. || E a velocidade crescia ! e corria-se, voava-se, cor- | tava-se o espaço como um raio fendendo as nuvens! ! || De repente estaca-se nessa carreira delirante: todos | os corpos soffrem uma commoção violenta: era uma | das locomotivas, que, desviando-se do trilho, rompeu | a terra por algum tempo com suas rodas e, ganhando | a beira do barranco, tombou n’um fosso de mais de 15 | pés de profundidade. || Uma nuvem de pó e fumo levantou-se aos ares nar- | rando a mil olhos que de varios pontos da cidade acom- | panhavão os carros uma desgraça quasi certa ! || Alguns passageiros são arrojados pelo impulso dos | mesmos carros, outros precipitão-se querendo evitar o | perigo, e todos cabem, sendo raros os que escapão sem | lesão. || A scena então tornou-se medonha ! || Uns soltavão pungidos ais, torturados pela dor da | fractura de ossos: outros como que tinhão a razão ge- | lada pelo susto: movião-se como automatos, surdos, | cegos, sem tino, sem consciencia de nada; ali carrega- | va-se um corpo inanimado, coberto de lama e sangue, | arrancado de debaixo das rodas de um carro; mais | adiante tonteavão pelo campo os nossos homens mais | respeitaveis com suas cans manchadas pelo sangue | que jorrava da fronte partida: até o riso convulso | nervoso da loucura, pintou se em alguns rostos, que | soltavão gargalhadas, que mais augmentavão o horror | da situação. || Que scena medonha ! ! . . . || Que momentos horriveis ! ! || Que transição ! ! . . || Ha pouco tanto enthusiasmo, tanta alegria; agora | tanto desespero, tanta desolação ! . . || Era o dia do baptismo da primeira locomotiva, que | transpunha as risonhas campinas da Luz: - o baptis- | mo foi feito com sangue ! . . . || Era o dia das gallas de uma população inteira aman- | te do progresso: - as gallas se transformarão em luto!!. || Era o dia dos vivas e dos brindes; vivas e brindes se | mudarão em lagrimas e soluços! ! . . || A consternação e a angustia espalhou-se pela popu- | lação inteira, porque todos, mais ou menos, ali na- | quella desgraça, que ainda não se tinha deslindado, ti- | nhão um pae, um filho, um parente, uma affeição qual- | quer! . . . || E lance-se a pedra do esquecimento sobre tudo isto ! || E apregoe-se sem mais indagar a innocencia de to- | dos! lance-se a cargo da fatalidade e do acaso tantas | dores, tanto desespero, tantas vidas arriscadas, tantas | desgraças ! ! ! . . . || Não ! . . . levantemos um protesto bem alto ! rodeê- | mos a autoridade e peçamos a sindicancia a mais es- | crupulosa e séria do successo. || Se foi a fatalidade e só a fatalidade, curvemos a ca- | beça ante os dictantes do Altissimo: dar-se-ha ao me- | nos uma satisfação ao publico, dizendo - não há culpa | no facto. || Se ha um culpado, soffra elle a pena que merecer. || O espirito publico está em sobresalto, exige uma as- | tisfação, e a taça da paciencia está a esgotar-se ! || Os trabalhos da estrada de ferro começaram marca- | dos pela violencia, que muitos proprietarios soffreram, | sendo privados de suas terras por um preço vil, sem | que recurso achassem no systema da desapropriação; | agora o sangue e as lagrimas vem regar as ultimas ca- | madas de terra lançadas no fim dessa obra. || O que é que se ha feito? . . . A autoridade policial | procede? . . . Já se fizeram os autos de corpos de delic- | to? . . . já começaram as indagações policiaes?|| O publico tem o direito de o perguntar e de o saber. || Parece que no seio de nossa casa nos tratam com me- | nosprezo e pouco caso; - parece que um passageiro é | uma mercadoria, um fardo, por cuja avaria a empreza | da estrada de ferro não se responsabilisa; parece que | por um infantil capricho, por uma criminosa veleidade | deu-se á locomotiva velocidade, que não comporta uma | estrada terminada e perfeita, muito menos uma, que | está ainda em começo; parece que assim a vida de tan- | tos homens respeitaveis, de tantos paes de familia, foi | um brinco em mãos imprudentes e que deviam pezar o | perigo ! . . || E querem ver mesmo a consideração que merecemos | aos nossos hospedes?!... || Em pequeninas cousas essa consideração se revela. || A camara municipal brindava nesse dia os emprei- | ros da estrada com um magnifico copo d’agua na esta- | ção da Luz, para o qual convidou todas as pessoas de | representação. || Era um signal de attenção, era um obsequio que | prestava, era uma doce e significativa amabilidade. || Pois bem ! a empreza da estrada distribuiu cartões | pelos vereadores da camara municipal e mais algumas | pessoas escolhidas, deu-lhes entradas em seus carros e | já na subida para elles revelou-se a mais decidida gros- | seria: não havia uma escada : quem era moço, em- | pregou gymnastica; os velhos foram suspensos por aquel- | les que já em cima se achavam. || Chegados em cima acharam-se em carros sujos de | terra, carroças de serviço, sem a mais pequena commodi- | dade, sem um banco, sem uma cadeira, que não custa- | ria muito a para ali transportarem. || Recolhida a carga, solta-se a força toda do vapor, e | corre-se, corre-se, vôa-se sem indagar a commodidade de ninguem, sem ver que jazem no fundo dos carros | mal limpos esses que tem medo de tombar, esses que | foram recolhidos como convidados, esses que vão ali na | estação da Luz desfazer-se em attenções, render obse- | quios a quem não os sabe comprehender, esses que oc- | cupam as nossas primeiras posições sociaes, esses que, | em troca da fineza que faziam, não esperavam encontrar | o pouco caso, e o assassinato talvez ! ! ! || E’muito ! || 12 de Setembro de 1865. || Paulista Velho.


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