Carta aberta a Freitas do Amaral



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Carta aberta a Freitas do Amaral

Pedido de abertura da discussão sobre o sistema prisional em Portugal


30 Junho 2003
Com a abertura do debate público sob os auspícios do prof. Freitas do Amaral, conhecido mestre de direito administrativo mas principalmente um político de primeira grandeza, a discussão sobre prisões em Portugal saiu do plano técnico e funcional para o plano político, para logo se fechar sobre si própria.

Faria bem a Freitas do Amaral ouvir o Dr. João Salgueiro e pensar em que medida aquilo de que fala lhe diz respeito. As elites em Portugal, cito de cor, definem como metas assemelhar-se aos outros países europeus daqui a tantos anos que se perdem de vista, em vez de tratarem os assuntos de forma substantiva e ambiciosa. Por isso Salgueiro culpa-as de querem manter aquilo que têm, em vez de desejarem o desenvolvimento do país, com os riscos inerentes a todas as mudanças, mas também com os benefícios que os povos europeus já colhem. O prof. faz parte da elite portuguesa à muitos anos e, infelizmente para aqueles, em que nos incluimos, que tiveram a esperança de que tivesse aceite o cargo de coordenar o trabalho de reforma prisional para aproveitar a oportunidade de modernização da execução de penas em Portugal, teve o cuidado de manifestar a sua indisponibilidade para tal objectivo, no debate da SIC-Notícias de Junho de 2003.

Como é possível pensar em prisões sem pensar nas finalidades das penas? Ainda por cima quando ninguém acredita na capacidade de ressocialização do encarceramento, pela simples e excelente razão de que nenhum sistema prisional do mundo foi bem sucedido nessa tarefa. Ainda por cima num tempo em que tal fracasso tem vindo a ser aproveitado pelos fundamentalistas da civilização ocidental, que V.Exa. tão energicamente denunciou a propósito dos instintos belicistas imperialistas fora da lei, para tornar os sistemas prisionais em fontes de lucro e de discriminação social organizada pelo estado. Será que não o impressiona a declaração, nesse mesmo programa de televisão, por parte do director geral, de que a lei não "pode ser cumprida" nas prisões portuguesas?

Repensar as prisões é repensar as finalidades das penas não só no sentido doutrinário mas principalmente no seu modo de aplicação útil, sob pena de frustrar qualquer hipótese de eficácia da reforma. Como as outras, ficará no papel das leis mais avançadas do mundo, em contraste com as práticas mais ilegais e corruptas do mundo. Para esse peditório já demos. Temos que continuar a dar, prof.?

Seria boa política se a comissão pudesse assumir plenamente o carácter político da sua terefa. Se assim não for, não se compreende como e porque é que terá aceite tal cargo, dado não ser especialista na matéria. Ou por outra, terá que se concluir que aceitou a missão de tentar enterrar por mais quinze anos o incómodo debate sobre os sistemas de execução de penas em Portugal, remetendo para o fundo a discussão tardiamente iniciada pelo relatório de Menéres Pimentel em 1996, na qualidade de Provedor de Justiça, e apenas desbloqueada depois de longos meses de lutas - e mortes escandalosas - nas prisões, para denunciar as barbaridades que lá se passam e continuam a passar.

Na esperança de que esta interpelação possa não cair em saco roto, deixamos aqui um desafio para discussão. Se é a sério que o Prof. e a sua comissão levam o desígnio humanista do encarceramento, doutrinariamente vertido em lei à mais de um século, a ideia mais simples para, outra vez, tentar executar o método progressivo penitenciário, eventualmente com sucesso, será a de tornar o modo regular de cumprimento de pena de prisão os regimes abertos, actualmente testados em Portugal. Isso permitiria ao mesmo tempo acabar com os regimes de isolamento - que têm servido para encobrir inúmeros crimes - substituídos pelo regime normal actual, compensar o estado dos custos com o sistema prisional através da contribuição obrigatória do detido para o sistema, manter o financiamento da vida de dependentes dos detidos pelo seu próprio trabalho, manter o emprego àqueles que estavam a trabalhar na altura da condenação. Também os custos de saúde, assim como os riscos para a saúde pública, seriam significativamente reduzidos por efeitos directos da nova qualidade de vida dos reclusos e por contribuição de outros sistemas de saúde para suportarem os custos actualmente suportados apenas pelos serviços prisionais. Assim, talvez sobrasse alguma atenção e dinheiro para aumentar a capacidade das alas livres de droga, em articulação com os CAT, no apoio aos toxicodependentes que desejem tratamento.

Excelente Prof., será preciso esperar quinze anos para fazer esta discussão?
Direcção da ACED

esse facto, sob pena de diminuirmos as potencialidades democráticas para o desenvolvimento ético e jurídico em Portugal, de que obviamente necessitamos. Mas não é evidente que seja isso que vai acontecer. Quando a discussão se manteve no plano funcional, o segredo e a intimidação eram as palavras de ordem das autoridades e do governo, como ficou evidente desde logo na duríssima polémica entre o ministro Vera Jardim e o Provedor Menéres Pimentel, em 1996. Hoje em dia, após toda a série de escândalos nas prisões portuguesas e das promessas políticas de reforma, quando o estudo do actual Provedor, feito o ano passado, não conheceu ainda publicação, quando a Assembleia da República, ao contrário do que aconteceu em legislaturas anteriores, desenvolve estudos e propostas sobre o que fazer, seria limitativo das possibilidades de encontrar as melhores soluções que se tentasse reduzir a um problema de funcionalidade aquilo que é, e sempre foi, um problema política e jurídico de primeira grandeza. Se assim não fosse, como se compreenderia que uma figura com o currículo de Freitas do Amaral fosse convidado e aceitasse o cargo que actualmente desempenha?

Provavelmente, dada a profundidade política a que a discussão será conduzida, será do interesse do executivo e da comissão de reforma assumir o objectivo de atingir consensos alargados, sem os quais as possibilidades de reforma são menorizadas. A dimensão democrática a mobilizar será menos a da chicana partidária ou ideológica e mais a dimensão consensual e constitucional. Este objectivo não deve escamotear a realidade das profundas divisões de sensibilidade entre os portugueses sobre estas matérias, bem como a transversalidade dessas sensibilidades relativamente à sua distribuição partidária. Mais do que pedir aos partidos opinião - que não tem conseguido ter sobre esta matéria - há que lhes pedir colaboração para proporcionarem liberdade de expressão e consciência aos seus membros individuais e disponibilidade de viabilização da melhor solução política que for encontrada.

Caberá às comissões nomeadas pelo governo e pela Assembleia da República estabelecer um elenco de problemas e temas sobre os quais há que encontrar respostas compatíveis umas com as outras e aplicáveis nas condições práticas actuais. Esses temas são em primeira instância de carácter político, entre os quais colocaríamos os seguintes:



  1. A reforma prisional deve ser concretizada através de uma lei minimalista, uma lei quadro de princípios orientadores da acção das autoridades prisionais centrais e de cada estabelecimento prisional? Ou a reforma prisional deve detalhar todos os mecanismos de controlo e auto-controlo normalizados a que os serviços prisionais centrais se devem ater e de cujo controlo são responsáveis relativamente aos estabelecimentos prisionais?

  2. O quadro de pessoal afecto aos serviços prisionais, dadas as finalidades constitucionalmente consagradas para a execução de penas, devem manter-se em proporções de grande investimento em segurança e pequeno investimento em sistemas sociais? Ou deve ser invertido?

  3. A responsabilidade judicial de defesa dos direitos, liberdades e garantias dos arguidos cessa quando ocorre o trânsito em julgado ou quando é decretada a prisão preventiva? Caso contrário, porque é que o sistema de judicialização do sistema prisional em vigor não cumpriu os objectivos esperados? Como é que os alarmes políticos contra a situação de degradação das condições prisionais aparentemente não funcionaram na altura devida, isto é há dez ou quinze anos atrás?

  4. Quantos ordenados mínimos custa manter um preso por mês ao estado português? Quanto custa construir uma prisão? Quantos detidos com emprego antes de serem presos perdem os seus postos de trabalho legítimos e quantas famílias perdem os meios do seu sustento por via da prisão de um membro empregado?

  5. Quantos detidos usam o tempo de detenção para fins de escolaridade, formação profissional ou trabalho?

Definir como objectivo do estado português atingir daqui a quinze anos o nível médio dos indicadores europeus resulta da descrença da própria comissão de reforma na reforma prisional. É uma tentativa de transformar em discussão técnica, entre técnicos - que aliás escasseiam em Portugal - um debate que deve ser democratizado. A moral pública decorrente da existência de um estado de direito ou é informada das e apoia as regras do jogo penal, o que permite o escrutínio da sua aplicação em cada caso, ou desconfia permanentemente daqueles que em seu nome, mas de forma incompreensível para a maioria, realizam a justiça. Se esta última é a condição portuguesa, há que fazer funcionar a democracia para, pedagogicamente, politicamente, estabelecer a boa consciência pública das contradições, dificuldades e virtualidades do estado de direito.

O que Portugal precisa é de aproveitar as profundas crises de justiça e penitenciária para encontrar os caminhos de outras legitimidades, de outras solidariedades, de outros objectivos, susceptíveis de nos fazerem aspirar como povo a ser exemplo para os seus parceiros europeus.

Portugal foi pioneiro na definição de vários objectivos estratégicos para a civilização europeia e deve poder aspirar a fazê-lo novamente. O campo da justiça e das prisões é um dos campos em que melhor está colocado, dada a necessidade de ultrapassar a crise que se vive e também a natureza da criminalidade em Portugal. Outros países europeus, certamente mais perto das médias europeias, estão a braços com problemas prisionais. Fará sentido investir, durante os próximos quinze anos, na persecussão de objectivos que outros já desdenham? Não será isso que temos feito erradamente em relação a outras áreas da vida nacional? Poderemos ou deveremos passar a ser mais ambiciosos?

Portugal tem uma das leis mais avançadas do mundo. Isso acontece porque o estado de direito em Portugal não tem força para exigir o respeito dessas leis. Nesse caso, mais importante que as leis é conduzir um processo democrático, participado, de transformação das prioridades jurídico-penais. Por exemplo, porque é que as alas livres de droga não são mais frequentes, dadas ascaracterísticas da população reclusa? Porque é que o RAVI e o RAVE não são o regime normal de detenção, acabando com o desumano isolamento?


Prisão é política (ver Freitas) e não plano técnico

a) Lei será minimalista (como convém à diversidade de situações locais e às possibilidades de respeito pela lei) ou maximalista (para normalizar as possibilidades de controlo mas diminuir as oportunidades de respeito da lei)

b) urgência de respeito pelos DH, nomeadamente saúde pública e segurança contra violência

c) definição das finalidades e sua adequação às possibilidades de realização



d) transparência


  1. Separar a discussão dos principios da discussão das realidades. Temos a melhor lei do mundo porque não há estado de direito que a faça cumprir.

  2. Identificar os problemas políticos. Eis alguns:

  1. estado dentro do estado e retoma do comando da tutela sobre cada prisão

  2. negligência inspectiva por vigência de preconceitos sobre o que sejam as prisões e sobre quem sejam os criminosos (não merecem tratamento social de reabilitação)

  3. profundidade moral e democrática das discussões sobre o estado de direito

  4. proibicionismo

  5. problemas de organização (informação e serviços racionalizados)

  6. autismo corporativo benévolo para si próprio, arrogante para o exterior

  1. Propor soluções expeditas e a longo prazo:

Quantos ordenados mínimos custa um prisioneiro? Quanto custa a sua recuperação social por efeito do isolamento? Remédios: diminuir tempo máximo da prisão preventiva para 6 meses; melhorar as oportunidades de flexibilização de penas; minimizar situações de isolamento, nomeadamente inquirir sobre as razões para o “atraso” na carreira progressiva dos detidos; desenvolver sistemas de alas livres de droga até que sejam susceptíveis de fornecer serviços para o exterior; Fazer do Ravi e do Rave os regimes prisionais normais, de forma a minimizar os efeitos perversos do isolamento e a que o rendimento do trabalho do recluso possa pagar ou ajudar a pagar os custos do sistema, que estariam também diminuídos tanto a nível do sistema prisional como a nível do sistema de reinserção.


  1. Se durante os últimos anos pouco ou nada se avançou para inovar o sistema foi porque se tem medo dos ataques políticos e principalmente da sua eficácia. Daí a necessidade de sistematizar, prolongar organizadamente a discussão, nomeadamente de denúncia de medidas securitárias fora da lei que são tomadas sem discussão, mas com a tácita conivência política.


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