Carta aberta aos professores, alunos e funcionários do curso de história a ser encaminhada formalmente ao colegiado de curso, À assembléia dos professores de história



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CARTA ABERTA AOS PROFESSORES, ALUNOS E FUNCIONÁRIOS DO CURSO DE HISTÓRIA A SER ENCAMINHADA FORMALMENTE AO COLEGIADO DE CURSO, À ASSEMBLÉIA DOS PROFESSORES DE HISTÓRIA , À PRÓ-REITORIA DE GRADUAÇÃO

DO UNI-BH E À DIRETORIA DO COLEGIADO DE COORDENADORES
Belo Horizonte, 4 de dezembro de 2007
"Nenhuma conduta que implique a supressão da verdade é conduta correta."

Immanuel Kant


Muito difícil encontrar o tom desta carta e, até mesmo, eleger os destinatários. Optei por fazer relato circunstanciado - portanto a carta será longa - e me dirigir primeiro aos meus colegas e aos meus alunos, futuros colegas, com os quais tenho procurado forjar coletivamente aqui no UNI-BH, ao longo dos últimos seis anos, uma prática pedagógica baseada na construção do pensamento crítico e da consciência histórica, conforme prevê o Projeto Pedagógico do nosso Curso de História. O perfil do profissional aí almejado não é aquele de um “simples técnico reprodutor de conhecimentos e/ou monitor de programas pré-elaborados. Ele deve ser um profissional com capacidade de inovação, de participação nos processos de tomada de decisão e de produção de conhecimento”. E ainda: “ um profissional capaz de aliar pesquisa e ensino”, de exercer a cidadania e de estabelecer abordagem dialética do conhecimento que compreenda a sua desconstrução e reconstrução a partir de relação orgânica graduando/docente.

Esta construção traz em seu bojo tensões e contradições próprias de um processo que, por definição, deve ser interativo, plural e interdisciplinar. Lidamos permanentemente com a mudança e a diversidade - é esta a dificuldade a ser enfrentada que é, ao mesmo tempo, a riqueza e beleza incontornáveis da prática pedagógica e da disciplina que abraçamos - a História.

Sem os funcionários da casa, que - muitas vezes, invisíveis - garantem a logística necessária, não conseguiríamos viabilizar nosso trabalho cotidiano. Por isto também a eles me dirijo.

Por outro lado, este pretende ser ainda documento a ser encaminhado às instâncias formais da instituição: o Colegiado, a assembléia dos professores do Curso de História e a Pró-Reitoria de Graduação, a Diretoria do Colegiado de Coordenadores. Dois princípios nortearam este encaminhamento: o da transparência e o da publicidade. São eles que justificam a quebra deliberada de protocolo, o que, espero, não venha a prejudicar a tramitação nos canais competentes. .

Voltemos ao tom que imprimirei ao documento: certamente será de perplexidade e indignação provocadas pela violação dos princípios kantianos republicanos que apontei acima, ou seja, aqueles da transparência e da publicidade. Estes, juntamente com o princípio da verdade (traduzido de forma tão expressiva na epígrafe desta carta) constituem a essência da ética sem adjetivação, aquela que deve ser o paradigma da nossa conduta profissional e da construção de nossas relações de convivência. Ética lamentável e drasticamente ausente da linha praticada pela coordenação e vice-coordenação na atual direção do Curso de História desta casa.

Vamos, então, aos fatos que sustentam avaliação tão desalentadora:



  1. Na última sexta-feira, dia 30/11/2007, aproximadamente às 20:00, recebi, em minha casa, inesperada visita: o coordenador do Curso de História, professor Hilton César; o colega (???) Loque Arcanjo; e uma funcionária da casa, secretária da coordenação. O primeiro parecia feliz; os outros dois estavam visivelmente constrangidos. Objetivo da visita: entrega da minha carta de demissão! Evidentemente não a recebi, mas a demissão foi consumada de todo jeito: as duas testemunhas estavam ali para isto. Quando indaguei o motivo alegado, o coordenador desconversou, dizendo apenas que teria sido deliberação do Colegiado de curso. Solicitei, então, acesso à ata da reunião e cópia da mesma. Fui informada de que poderia ler a ata; cópia dela, só com autorização do Departamento Jurídico. Quando questionei a violação de privacidade configurada naquela visita, o professor Hilton disse tratar-se de método "fascista" aplicado por ele mesmo! Eu nem precisei radicalizar na crítica: o próprio coordenador o fizera.

  2. Na seqüência, ainda na noite de sexta-feira ( 30/11), tratei de ir ao UNI-BH para tomar conhecimento da ata mencionada. Realmente aconteceu a tal reunião no dia 26/11/2007, segunda-feira, e nela foram confirmadas três demissões, propostas pelo presidente do Colegiado, o coordenador do curso: a minha e as das colegas Júlia Calvo e Ana Paula. Só esta última não se efetivou, uma vez que a professora Ana Paula encontra-se de licença médica. A alegação para a dispensa das duas colegas é a carga horária: a orientação seria demitir quem tem carga horária menor que 14 h/a! No mesmo documento, foi lavrada a seguinte pérola para justificar a minha demissão (cito de cabeça, uma vez que não pude obter a cópia xerox): Quanto à professora Heloisa Greco, ela deve ser dispensada porque sua conduta não se coaduna mais com as novas diretrizes do curso, de ordem mercadológica.(?!?) A minha perplexidade aumentou, diante de argumento tão acintosamente ideológico. Protestei: trata-se, então, de demissão política (ou seria mercadológica?). Mais uma vez, o coordenador Hilton Cezar se encarregou de detonar a si mesmo dizendo: - "Provavelmente fui torturador (sic)". E, em seguida: "Capitalismo é assim mesmo." Voltando ao documento, todos os cinco membros do colegiado (além, obviamente, do coordenador e seu vice) assinaram a ata: as dispensas propostas foram, portanto, aprovadas por unanimidade! O mais curioso é que o primeiro ponto de pauta desta reunião que cortou sumariamente três cabeças trata de denúncia de uma aluna em relação à prática de determinado professor: foi dito que estas queixas estavam se tornando sistemáticas, que isto não é bom etc. Levantou-se, então, - muito corretamente a meu ver - que este colega deveria primeiro ter direito a ampla defesa, para que este conflito pudesse ser administrado da melhor forma possível. Nada mais justo: ampla defesa é princípio básico do chamado Estado de direito, princípio que, no entanto, não foi brandido no caso das três professoras que receberam a penalidade máxima: a demissão pura e simples. Em momento algum - nem antes, nem durante, nem depois - fomos informadas que nossos destinos na instituição seriam selados pelos colegas na reunião do Colegiado do dia 26/11/2007. A coisa já chegou para nós como fato consumado. Aquilo tudo estava, no mínimo, muito esquisito.

  3. Felizmente, na mesma sexta-feira (30/11) tive oportunidade de conversar com um colega membro do Colegiado que me reportou o seguinte: a reunião do dia 26/11 foi extremamente tumultuada e desgastante, com as questões sendo tratadas na base do rolo compressor e os membros do colegiado sendo ferozmente sujigados pelo coordenador e seu vice; a pressão e o assédio haviam começado na semana anterior. No dia seguinte (27/11), no entanto, os cinco membros do colegiado tomaram consciência do equívoco que haviam cometido e iniciaram movimento no sentido de reverter a decisão tomada, em corajoso e digno processo de autocrítica na prática. Propuseram - e realizaram - nova reunião no dia 29/11/2007, quinta-feira, na sala do coordenador, com a presença do mesmo e seu vice. Esta reunião foi ainda mais tumultuada do que a primeira (26/11). Instalou-se verdadeiro clima de terror: os cinco membros do Colegiado argumentando no sentido da revisão das demissões; o coordenador e seu vice, irredutíveis, querendo mantê-las de todo jeito. Nesse quadro de polarização levada às máximas conseqüências, o colega Wellington de Oliveira acabou sendo levado às pressas para o hospital, onde ainda se encontra: sofrera um enfarte! O coordenador e seu vice, não só banalizaram este episódio (ninguém ficou sabendo do ocorrido), como desqualificaram a reunião: para eles, não aconteceu reunião do Colegiado no dia 29/11/2007! Os cinco colegas que a propuseram, então, redigiram e assinaram um documento, datado do dia 30/11/2007, dirigido ao coordenador do Curso de História, onde reiteram sua posição de revisão das demissões (particularmente do meu caso específico), documento que também tem sido sonegado pelo professor Hilton Cezar.

  4. Certas evidências revelam a cultura do simulacro e da dissimulação que caracteriza a prática do coordenador de história e seu vice: enquanto estava sendo articulada nos bastidores a minha demissão, recebo correspondência eletrônica do professor Hilton Cezar me congratulando por ter sido aprovado meu projeto de pesquisa para o ano letivo de 2008, dizendo que isto só engrandece e valoriza o Curso de História do UNI-BH. Eu pergunto: aonde teria ido parar meu perfil antimercadológico deletério? Minha conduta é útil ou perniciosa à instituição? Mais ainda: no dia 29/11/2007, a quinta-feira da fatídica reunião em que nosso colega passou mal, o coordenador me chama em sua sala para conversar sobre perspectivas para o próximo semestre; pautas para as reuniões do fim do ano; cobranças, no bom sentido, de visitá-lo mais vezes em seu gabinete. E, mais uma vez, tapinha nas costas já que eu não havia recebido advertência: meu diário eletrônico está em dia. Nem uma palavra sobre o estado de saúde do professor Wellington (que, há escassa meia hora, saíra dali enfartado), nem sobre a minha situação funcional (a espada de Dâmocles desabaria na minha cabeça no dia seguinte, 30/11, menos de 24 horas depois)!

  5. Ainda na sexta-feira, 30/11, noite da demissão, depois de ter lido a ata e de ter conversado com o colega do colegiado, comecei a tomar minhas providências: procurei nosso representante junto ao sindicato, o professor José Ricardo, e os demais colegas que estavam então presentes no UNI. Recebi a solidariedade de todos e, além disso, a solicitude do colega José Ricardo que se colocou à disposição para os encaminhamentos cabíveis. Conversei também com meus alunos (bolsistas e voluntários) do grupo de pesquisa de iniciação científica e relatei o ocorrido: afinal de contas, a minha demissão aborta o projeto que havíamos articulado para o próximo ano letivo. Eles haviam percebido certo clima de tensão (havia alguma coisa no ar) e estavam apreensivos: primeiro idas e vindas do vice-orientador, celular ativado; depois ele e o orientador se colocaram em posição de sentido no corredor do curso de História, como se estivessem a monitorar as movimentações.

  6. Na segunda-feira, dia 3/12/2007, pela manhã, marquei reunião com a pró-reitora de Graduação, a professora Raquel, da qual participou também o seu assessor, professor Luís Morando. Fiz todo o relato, mais ou menos no tom deste documento. Fui recebida cordialmente, estabelecendo a interlocução que esperava. A própria professora Raquel me sugeriu que eu redigisse um documento circunstanciado, que é exatamente o que estou a fazer. Em seguida, me franqueou somente para leitura o dossiê sobre a minha pessoa elaborado pelo coordenador do Curso de História, com o objetivo de instruir o processo de demissão, o qual contém as seguintes peças: a ata da reunião do Colegiado do dia 26/11/2007, aquela que deliberou as demissões; um parecer do coordenador do curso, levando ao paroxismo a tese de que eu deveria sair porque meu perfil antimercadológico é prejudicial ao desenvolvimento (e segurança?) e crescimento do curso e da instituição; o documento assinado pelos membros do colegiado defendendo a revisão das punições; um documento raivoso assinado pelo coordenador desqualificando o anterior e a iniciativa dos membros do colegiado em defesa das professoras demitidas, com centralidade no meu caso. Solicitei cópia deste dossiê. A pró-reitora, depois de consultar o Departamento Jurídico, respondeu que eu só teria autorização para copiar este dossiê em juízo. O que não deixa de ser questionável: estes são documentos públicos - deveriam estar disponíveis on line, pelo menos aqueles produzidos nas instância formais de deliberação da instituição, o que é o caso do Colegiado de curso. Outra surpresa que fez crescer ainda mais minha perplexidade: aquele expediente que considero absolutamente estapafúrdio - de adentrarem a casa dos outros para demiti-los - é orientação formal, ou seja, prática institucionalizada da casa. Fui informada disso pela própria professora Raquel. A coisa, no entanto, é tão absurda, que não parece ser legal e, certamente, é imoral - sobretudo quanto acontece numa sexta-feira de verão à noite...

  7. Também na manhã de segunda-feira, 3/12, em sua sala na Reitoria do UNI-BH, encontrei com o professor Ribas, nosso colega do curso de História, assessor direto da reitora. Ele prestou toda a solidariedade, se disse "envergonhado com a situação", corroborou e aprofundou as críticas ao coordenador do curso de História e a seu vice. Colocou-se à disposição das professoras demitidas, se oferecendo, inclusive, para testemunhar a nosso favor, caso seja necessário. Relembrou também que os professores Hilton e Luís Antônio são famosos na instituição pelos atos graves - alguns escabrosos- atribuídos a eles. Atribuídos de forma difusa, mas pertinaz - este assunto circula com intensidade sobretudo no campus Diamantina. As perguntas que não se calam são as seguintes: porque tal questão não é verificada? Se tais boatos são falsos, porque não tirá-los a limpo? Se são verdadeiros, como isto é tolerado pela hierarquia da instituição que os mantém em cargos de tão grande responsabilidade e, o que é pior, dentro da sala de aula? Eles se referem a questões que vão desde assédio moral a professores até assédio sexual a alunas, passando por fraudes na organização dos estágios, agressões verbais violentíssimas a alunos e colegas, e, no caso do professor Luís Antônio, também racismo e homofobia. Eles também dizem respeito a monitoramento de professores, alunos e funcionários; compadrio, favoritismo e cooptação; manipulação, rede de intrigas, listas de pessoas confiáveis e não-confiáveis; lógica da suspeição. Não há resposta satisfatória para aquelas perguntas que não calam - motivo também de sincera perplexidade e indignação do professor Ribas, verdadeiro arquivo vivo do UNI-BH e reserva ética do curso de História, para o qual o espaço da sala de aula é sagrado.

Uma vez estabelecidos os fatos, reflitamos um pouco sobre eles. Qual o sentido de tudo isto? Está sendo construída no Curso de História do UNI-BH uma proposta de gestão cujo objetivo é a implementação de um projeto de universidade baseado nos desmandos do mercado total - é o modelo gerencial levado às máximas conseqüências. Nele, o espaço acadêmico é desqualificado como locus da produção do pensamento e do conhecimento críticos para se submeter à servidão voluntária da mais escrachada promiscuidade universidade-empresa. Coisa que a ditadura militar (1964-1985) planejou, mas não conseguiu efetivar, o neoliberalismo está fazendo alegremente. Acontece que as ciências humanas - sobretudo a História - não têm esta vocação, seu caráter humanista é ontológico.

A atual direção do Curso de História, no entanto, insiste em acreditar que a academia deve se transformar em um grande balcão de negócios cuja prioridade seria garantir a permanência dos seus professores - não dos alunos - no mercado de trabalho. Trata-se também de realização do pensamento único, o arcabouço ideológico desta concepção: para o coordenador e seu vice, quem defende projeto diferente do deles - não precisa ser antagônico, basta ser diferente - está contra eles. Eles concebem a gestão do Curso de História segundo a sua própria imagem e semelhança - a escola tem que ser a cara dos donos. Atuam de maneira tosca, draconiana e policialesca - o clima é de caserna. É a política do vigiar e punir. Alunos e professores, sabendo-se monitorados, muitas vezes abstêm-se de qualquer tipo de posicionamento: as reuniões de professores são emblemáticas neste sentido - todos entram mudos e saem calados; esta prática acaba se naturalizando. Os professores parecem ainda mais oprimidos que os alunos: estes já dão sinal de vida, em incipiente processo de construção de um movimento estudantil independente. Em poucas palavras,tem sido implementada uma gestão do curso de História baseada na teoria da conspiração e na discricionariedade sem mediação que é peculiar àqueles que detêm o pequeno poder. É este o perfil desejável para o curso e a instituição?

O corolário imediato disto é a destruição continuada do espaço acadêmico - aquele da reflexão crítica, da pesquisa e do dissenso - e das instâncias de decisão, como o Colegiado de curso e a assembléia dos professores. As decisões são tomadas alhures, não se sabe exatamente onde, cada vez mais centralizadas nas mãos da direção.

Assim foram forjadas as demissões deste fim de semestre: as duas são demissões políticas, embora apenas a minha (que é também mercadológica) tenha sido explicitada desta forma. A colega Júlia Calvo tem sofrido assédio moral intenso - ao qual tem resistido bravamente, diga-se de passagem - por parte do coordenador há pelo menos dois semestres. Este expurgo faz parte de projeto mais amplo, que começou há cerca de dois anos. A política de demissão da atual direção obedece a lógica muito simples: aqueles que são diferentes deles dançam para que o espaço possa ser ocupado por aqueles que são exatamente iguais a eles ou que se submetem, por uma ou outra razão, aos seus desmandos. A cultura do medo é reforçada: quem será o próximo? Quem é a bola da vez?

Para concluir, volto à questão posta para justificar a minha demissão e acabo sendo obrigada a concordar com ela: a minha conduta, com certeza, não se coaduna definitivamente com o projeto implementado pela atual direção do Curso de História baseado na destruição continuada do espaço acadêmico e da possibilidade de construção da democracia interna cujo subproduto negativo mais importante é a imposição policial de uma cultura de lealdade e corporativismo que leva ao aviltamento dramático das relações de convivência.

Por último, reivindico formalmente a discussão deste documento na primeira reunião dos professores de História que deve ser marcada, espero, na semana imediatamente posterior ao dia 12/12/2007e também na reunião do Colegiado de Coordenadores.


Heloisa Greco

Dezembro/2007


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