Carta da Califórnia



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Encontro28.07.2016
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RADFAHER, Luli. Design, WEB, Design 2. São Paulo, Market Press, 2001
Carta da Califórnia

“Finalmente terminou o Fali Term no Art Center Coliege of Design. Como todo bicho é estúpido e eu sou bicho no Art Center, fiz a asneira de pegar aulas demais e acabei quase afogado em trabalho. Durante umas cinco semanas pelo menos, dormi menos de cinco horas por noite e vi mais aquela moça que aparece quando o Illustrator abre do que a minha mulher. Aqui dizem que todas as histórias têm duas versões: a coberta de açúcar (para os parentes) ou a verdadeira. Vou na versão Muhammad Ali, direto no estômago: o Brasil está pelo menos 15 anos atrasado em graphic design. A diferença que tem entre o que os estudantes fazem aqui e a melhor revista, ou livro, ou qualquer coisa que tenha tinta no papel no Brasil é tão grande quanto a diferença entre o porta-aviões Minas Gerais e o U.S.S. Omaha.

 

Em propaganda ainda dá para tentar competir, mas em mídia impressa e web dá medo. E o pior é que eles têm os mesmos programas, as mesmas versões, os mesmos livros na estante que os designers brasileiros. O que acontece? Foi o que eu me perguntei no início. Uma das aulas que tive era basicamente uma série de excursões aos melhores escritórios de design dos EUA na Costa Oeste. Pensei que ia encontrar o segredo lá, mas que nada. Igualzinho que nem que nóis. Me senti em casa. Só faltou ver alguém lendo sobre o campeonato brasileiro na página de esportes. Até a tão propalada meia quadra de basquete presente nos escritórios mais cool, agora tem em qualquer lugar.



 

Por que então, meu Deus, por quê? Eu me perguntava. Às vezes eu via vários designers com computadores piores do que tinham os redatores das agências em que trabalhei, mas o que saía da impressora era o melhor design que eu já tinha visto. Ignorante, deslumbrado, vendido, americanizado, amigo da garotada, podem me chamar do que quiser, mas não tem comparação.

 

A explicação me veio lendo as 150 páginas de artigos sobre história do design que fui obrigado a ler e resumir. Se ao menos os profissionais brasileiros gastassem tanto dinheiro para aprender design quanto gastam para colocar RAM no computador... quantos designers ou diretores de arte brasileiros com menos de 30 anos conhecem a história da tipografia? Quantos têm o Netscape 5 instalado? 70%? Por que David Carson apareceu? Porque cansou de surfar? Por que ele desapareceu? (Sim, ele desapareceu. ) Quem foi El Lissitzky? Por que nunca ouvi ninguém citar o nome dele? Quem conhece o trabalho de Bradbury Thompson pode levantar a mão?



 

Essa é uma discussão sobre a estética do trabalho e também sobre o conteúdo do designer ou diretor de arte. Há algum tempo, os melhores designers no mundo publicaram um documento chamado “First Things First 2000”. Em poucas palavras, eles diziam que a propaganda, ao mesmo tempo que sustentava os designers e diretores de arte, também escravizava a criatividade a coisas triviais e banalizava o raciocínio, enquanto outros desafios e tentativas realmente novas ficavam na gaveta esperando um tempo livre que nunca chegava, porque o mundo sempre precisava vender dentifrício e cartões de crédito.


Mas o incrível é que os mesmos ianques que inventaram esse consumismo todo protegem a educação em design a todo custo. Estava na hora da gente ser antropófago de novo, comer todas essas influências que eles mandam para a gente via FEDEX e devolver os caroços. Toda vez que leio as notícias da internet brasileira vejo que alguém está lançando um serviço desavergonhadamente copiado de um americano. Ué, nós não somos o povo mais criativo do mundo? Por que a gente nunca xeroca o jeito como os caras sempre olham pro futuro e não para o lado para ver o que o outro está fazendo? E a preocupação com educação? Poderíamos xerocar, pôr o toner no máximo e ampliar 200% que ainda seria pouco. Demora um tempo para ter uma visão crítica, mas do ponto de vista daqui de cima, o Brasil criativamente tá indo pro lado errado, que é atrás dos americanos. Só para dar um exemplo de porque não fazer isso: um dos principais diretores do Art Center, que é considerada uma das melhores escolas do mundo, me disse textualmente que os brasileiros estão sempre entre os mais criativos da escola.

O interessante seria saber o que eles sabem e fazer do nosso jeito. Como está agora, nós fazemos do nosso jeito, mas nem de longe sabemos o que eles sabem. E algumas empresas brasileiras de internet ainda fazem pior, pois só fazem do jeito deles. Precisa aprender design puro, de interfaces, tipografia, história da arte etc. Entender porque eles fizeram e o que aconteceu no começo para ver o que é hoje. Para mim, a faca e o queijo estão na nossa mão. Só que a faca é velha e cega. E o queijo com certeza tem que ser Minas Frescal e não esse horrível e plastificado Cheddar que eles adoram por aqui. Às vezes me sinto um ignorante no meio dos iluminados nessa terra. Um trapalhão no Partenon. Imagino o barulho que alguns dos meus grandes e talentosos amigos fariam se estivessem aqui.



 

Um grande abraço, Luiz Evandro.”

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